Havia umas pedras no meio do caminho …

11 de Outubro de 2017

Espanha, terceira maior produtora mundial de vinhos, vai muito além de Rioja e Ribera del Duero, regiões de referência nos vinhedos espanhóis. Vamos falar hoje de solos pedregosos, de xisto, em lugares montanhosos, moldando tintos de muita personalidade e caráter, Bierzo e Priorato, conforme mapa abaixo.    

espanha relevo

Bierzo: canto superior esquerdo

Priorato: canto superior direito

Embora as duas regiões sejam de caráter montanhoso e solos parecidos de xisto, a diversidade de clima entre ambas, resultam em escolhas de uvas diferentes para que possam expressar  com sucesso seus respectivos terroirs.

Bierzo    

Administrativamente, Bierzo pertence à ampla região de Castilla y Léon, bem nas limitações da divisa. Contudo seu solo, subsolo, e clima, têm muito mais a ver com a região da Galicia. De fato, a umidade relativa, a pluviosidade, e as temperaturas relativamente baixas, são influenciadas pelo mar Cantábrico e o Atlântico. Assim temos, temperatura média anual em torno de 12º centígrados e precipitações por volta de 700 mm. O solo tem textura franco-limosa em ladeiras entre altitudes de 450 a 800 metros. A pedregosidade também é importante com uma espécie de xisto chamado de pizarras. Com quase três mil hectares de vinhas, a Mencia domina amplamente os vinhedos de uvas tintas.

Priorato

Priorato ou Priorat, como os espanhóis gostam de chamar, é também uma região montanhosa com solo pedregoso na paisagem catalã, mas com uvas e climas distintos da região de Bierzo. Outro ponto semelhante entre as duas regiões são suas histórias antigas e muito ricas atreladas a um passado religioso. Em tempos recentes, final da década de 80 para Priorato e um pouco mais tarde para Bierzo, essas vinhas antigas foram revitalizadas, renascendo assim um patrimônio viticultural inestimável.

As principais castas cultivadas em quase dois mil hectares de vinhas em terrenos de grande declive são Garnacha e Cariñena, esta última conhecida como Mazuelo. As altitudes variam muito entre 100 e 750 metros. Com verões bastante quentes, podendo chegar a 40º centrigrados em determinados períodos, temos também pluviosidade mais baixa que Bierzo, entre 400 e 600 mm anuais extremamente concentrada no inverno. Nessas condições de secura, as uvas acima mencionadas de maturação tardia não apresentam dificuldades de amadurecimento, gerando vinhos robustos e de grande riqueza aromática. Para contrabalançar este cenário, as noites costumam ser muito frias, provocando a tão benvinda amplitude térmica e assim conservando um bom nível de acidez nas uvas. Compondo este terroir, a influência do mar Mediterrâneo, mais quente e bastante diverso dos mares do noroeste, próximos a Bierzo, apenas amenizam o calor nestas terras da Catalunha.

Os solos de pizarras aqui também presentes são chamados de llicorella com quatro tipos geologicamente distintos: pizarra (praticamente em todo o território), pizarra gresosa de origem mais arenosa, pizarra del devoniano (rocha mais antiga do Priorato), e pizarra moteada (rocha extremamente dura como granito encontrada quase exclusivamente em Porrera, microterroir da região). Vale mencionar que Priorato é uma das duas regiões com denominação de origem qualificada, ou seja, DOCa (Denominacion de Origen Calificada). O outra DOCa é a tradicional Rioja.

llicorella x pizarra

Na foto acima, os solos do Priorato e Bierzo, da esquerda para direita. Semelhantes em sua constituição, transmite a típica mineralidade aos vinhos. As diferenças climáticas são imperativas nas respectivas diferenças de terroir.

Bierzo x Priorato

Esta com certeza é a segunda maior rivalidade na Espanha em termos de regiões, após Rioja x Ribera del Duero, mais clássicas e tradicionais. Neste embate, só o consumidor se beneficia com vinhos de grande personalidade e uvas bastante típicas, marcando com propriedade os respectivos terroirs.

Podemos dizer que os tintos de Bierzo são relativamente menos encorpados que os do Priorato. Parece também que eles conservam uma melhor acidez. Aromaticamente, os dois são muito interessantes com toques minerais notáveis. Talvez numa sintonia fina, poderiamos dizer que os de Bierzo são mais elegantes, enquanto que os do Priorato, mais potentes.

Aqui no Brasil, felizmente temos bons exemplares de ambos. Evidentemente, Priorato por já ser um vinho mais consagrado, seus preços não são tão atraentes. Já os de Bierzo, não alcançaram semelhante status e assim, podemos encontrar boas ofertas.   

Dominio de Tares Cepas Viejas e Bodegas Peique Viñedos Viejos são belos exemplos deste distinto terroir de Bierzo com cepas muito antigas. É imperativo que se decante esses vinhos por duas horas. Podem ser encontrados nas importadoras Tahaa e Decanter, respectivamente.

Do lado do Priorato, Alvaro Palacios Les Terrasses e Mas Igneus FA112 baseados nas uvas Garnacha e Cariñena com passagem por barricas francesas, podem ser encontrados nas importadoras Mistral e Vinissimo, respectivamente. Também devem ser decantados previamente. Por ser uma região com mais notabilidade que Bierzo, seus preços são geralmente mais caros.

l´ermita priorato 2013

O Petrus do Priorato

L´Ermita de Alvaro Palacios simboliza o que há de mais exclusivo no Priorato. Um vinhedo de pouco mais de um hectare de vinhas centenárias de Garnacha e rendimentos muito baixos, perfazendo em torno de mil garrafas por safra. Um vinho que atinge mil euros cada garrafa com tranquilidade. Disputado nas melhores adegas. O da foto acima tem 100 pontos.

Enfim, um belo tema para degustações didáticas onde a influência climática é determinante para um mesmo tipo de solo, gerando vinhos distintos e igualmente notáveis.

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Margaux: Ideia de Felicidade

7 de Outubro de 2017

Friedrich Engels, filósofo alemão e um dos pilares do Marxismo, disse quando questionado o que seria um momento de felicidade, Chateau Margaux 1848. Esses momentos se prolongaram num excelente almoço no restaurante Parigi, provando dois dos mais exemplares Chateaux da clássica comuna de Margaux no Médoc. O grande Margaux que dá nome à comuna, e no seu encalço, Chateau Palmer, injustamente classificado como Troisième Grand Cru Classe.

a entrada e a saída

Tartar de atum, um pouco de proteína para enfrentar a batalha. Mil-folhas clássico, uma das especialidades da casa. Belo serviço de vinhos executado pelo sommelier Alexandre.

Os tintos de Margaux são conhecidos por sua elegância dentre os grandes da Margem Esquerda. Se comparado com a Borgonha, seria uma espécie de Chambolle-Musigny. Neste sentido, Chateau Palmer enquadra-se bem com significativa participação da Merlot em seu corte, tendo leve predominância da Cabernet Sauvignon. Já o grande Margaux, comporta-se como Le Musigny, um tinto mais estruturado com alta porcentagem de Cabernet Sauvignon, por volta de 75% no corte. Como dizia o mestre Paul Pontallier, falecido recentemente: “sua força se esconde atrás de uma rara elegância”. Vale salientar que Chateau Margaux envelhece muito bem, sobretudo nas grandes safras. Um dos mais espetaculares vinhos que já provei, senão o melhor, foi uma garrafa perfeita de Margaux 1900 com muito de vocês presentes já há alguns anos, meus caros confrades.

Vale ressaltar que além dos belos tintos do Chateau, Margaux também elabora tradicionalmente um branco impecável exclusivamente com Sauvignon Blanc há quase cem anos, Pavillon Blanc du Chateau Margaux. Suas características únicas de terroir permitem esta ousadia num território fundamentalmente de tintos. O cascalho muito fino e profundo, além da presença notável de calcário são algumas de suas particularidades, marcando com muita elegância seus vinhos.   

parigi margaux 83

duas joias de 1983

Feita as devidas preliminares, vamos aos vinhos em quatro flights de muito prazer e aprendizado. Já de cara no primeiro, talvez o melhor deles, dois dos grandes tintos de Bordeaux da safra 83 lado a lado, Margaux e Palmer. Quase duzentos pontos em jogo. O Margaux 83 só confirmou mais uma vez ser um dos grandes Bordeaux já produzidos. Espetacular em todos os sentidos. Este seu momento com mais de trinta anos, tem um esplendor maravilhoso. Todos aqueles aromas que se exige de um grande tinto bordalês estão presentes. Fruta madura e elegante, os toques de tabaco, especiarias, café, florais e balsâmicos, permeiam a taça em grande harmonia. Não sei se ainda vai evoluir, mas como está, já é uma maravilha.

O Palmer 83 com dois pontos acima do Margaux descrito é um monstro engarrafado. Sua cor é menos evoluída e mais profunda. Seus aromas chegaram na taça ainda tímidos, soltando-se pouco a pouco. Uma montanha de taninos ainda a resolver. Muita concentração de fruta e os florais desabrochando a cada instante. Sua boca é densa, longa, e muito bem equilibrada. Atualmente, não dá o prazer de seu ilustre oponente, mas certamente romperá décadas para aqueles mais pacientes. Sua estrutura é tal que podemos compara-la à mítica safra de 1961. Um vinho impressionante ainda longe de seu apogeu.

parigi margaux 89

aqui Palmer deu a aula

Bom, gastei o verbo neste primeiro flight porque realmente foi impecável. Se neste segundo, conseguíssemos subir mais ainda, estaríamos no céu. De todo modo, estamos falando de dois dos maiores de toda a comuna de Margaux de maneira incontestável. Neste segundo flight da safra 89 o nível desceu um pouquinho mas principalmente, houve maior disparidade entre os vinhos. Começando pelo Palmer, o nariz lembrava muito o Margaux 83 no sentido de evolução aromática. É um vinho muito complexo, fino, bem trabalhado, mas no fotochart perde por uma cabeça para o Margaux 83. De qualquer modo, aqui uma primeira amostra de como o Palmer em algumas safras pode encarar de frente o grande Premier Cru Margaux.

Agora falando do Margaux 89, um vinho difícil de ser avaliado, pois parece ainda não estar pronto. Fechado nos aromas de início, foi se mostrando muito timidamente ao longo da degustação. Sua estrutura tânica impressiona, mas parece um tanto super extraído,  faltando meio de boca. Tenho sérias dúvidas quanto à evolução para melhor deste tinto. Não senti a mesma firmeza que o grande Palmer 83 me passou.

parigi margaux 90

difícil escolha

Seguindo em frente, vamos ao terceiro flight. Sem dúvida, o mais surpreendente de todo o painel. Teoricamente parecia ser fácil, pois tratava-se da safra de 90 onde Chateau Margaux e seu segundo vinho, Pavillon Rouge, estavam lado a lado. Para ratificar mais ainda este favoritismo, o Margaux 90 tem 100 pontos. Começando pelo Pavillon Rouge, esta garrafa veio diretamente do Chateau. Portanto, seu histórico é ilibado. De fato, estava maravilhoso, pronto, sem arestas, e extremamente prazeroso. Um nível de segundo vinho invejável. 

O Margaux 90 evidentemente ainda não estava pronto, mas não o achei em grande forma. Talvez seja um problema de garrafa. É logico que minha lembrança desta safra é das melhores, pois provei uma Imperial há poucos anos atrás. De todo modo, é um vinho muito complexo e no momento ainda cheio de mistérios, mas que o Pavillon fez bonito, isso fez …

parigi margaux 86

o presente e o futuro juntos

Por fim, neste quarto flight, uma verdadeira lição de quando um vinho está pronto e o outro ainda no início da jornada.Vamos falar agora de Pavillon Rouge 1982. Um segundo vinho com 35 anos de idade. Outra garrafa impecável diretamente do Chateau. Um vinho totalmente resolvido, no seu auge, com todos os aromas terciários em harmonia. Falta evidentemente, aquela expansão de boca que só um Premier Cru é capaz de alcançar. De todo modo, um vinho delicioso.    

Falando agora do Margaux 86, terminamos este último flight. Trata-se de uma safra de vinhos de grande estrutura, muito tânicos, muito austeros na juventude, e este não fugiu à regra. Em  termos de longevidade é uma boa questão se este 86 irá evoluir no mesmo nível do Palmer 83 comentado no primeiro flight. São vinhos musculosos, aptos a vencer grandes jornadas, atravessar décadas. O tempo dirá …

parigi pavillon rouge

 exemplos de dois super segundos

A foto acima resume o alto nível desses vinhos a despeito das gloriosas safras 82 e 90. Sabemos que o segundo vinho do Chateau são os vinhos rejeitados para o assemblage do Grand Vin. No caso do Chateau Margaux, Pavillon Rouge coloca-se em altissimo nível. Talvez seja depois do Les Forts de Latour, o melhor segundo vinho do Médoc. Para rever conceitos com a vantagem de ficarem prontos mais cedo.

Enfim, mais uma lição de como as principais comunas do Médoc possuem Chateaux de grande calibre, capazes de fazer frente aos vinhos mais badalados e sabidamente grandes no melhor sentido da palavra. Uma certeza fica, Palmer sempre será um porto seguro na elegante comuna de Margaux.   

Agradecimentos aos confrades presentes e vários puxões de orelha em outros tantos ausentes. Afinal de contas, sexta-feira é sagrada. Abraços e brindes a todos!

Muito além das sete notas musicais …

30 de Setembro de 2017

Esta sinfonia é regida por treze cepas no sul da França, Chateauneuf-du-Pape. Entre tintas e brancas, o corte é comandado pela Grenache. O problema é que esta apelação tem um mar de vinhos muito aquém de seu glamour. Separando o joio do trigo, chegamos a poucos produtores devidamente sintonizados com este complexo terroir. Neste contexto, num agradável almoço no restaurante Varanda Grill, quatro Domaines irretocáveis desfilaram seus vinhos em três flights.

Relembrando as treze cepas, entre oito tintas e cinco brancas.

Tintas: Grenache, Syrah, Mourvèdre, Cinsault. Essas quatro costumam entrar em maior volume, sobretudo a Grenache. Counoise, Vaccarèse, Muscardin e Terre Noir, são as outras quatro em pequenas proporções, e funcionam como uma espécie de tempero para o corte principal.

Brancas: Roussanne, Bourboulenc, Clairette, Picpoul e Picardin, completam o corte, fornecendo sutis aromas florais e certa vivacidade em termos de acidez.

varanda chevalier montrachet

referência na apelação

Antes porém, uma Magnum de Chevalier-Montrachet Domaine Leflaive 2008. Uma aula desta apelação que tem na elegância seu ponto forte. Jamais pesado, tem uma vivacidade impressionante, harmonizando com rara felicidade fruta e madeira, num final altamente complexo. Combinou muito bem com pequenos filetes de costela de tambaqui fritos. A gordura do prato deu o contraponto exato com a acidez do vinho, além das texturas de ambos casarem perfeitamente.

tambaqui e assado de tira

Devidamente embalados pelas taças deste belo Grand Cru, partimos para o sacrifício, iniciando o primeiro flight já de cara arrebatador, conforme descrição abaixo.

varanda beaucastel e pegau

200 pontos na mesa

O que falar de dois vinhos notas 100?. Apenas reverenciar seus méritos. Os dois com todos os acordes, treze cepas. Chateau de Beaucastel Hommage a Jacques Perrin 2007, um tinto sedutor, macio, com taninos ultrafinos, e longa persistência aromática. Seu característico brett, quase uma impressão digital de seu terroir, estava presente com notas animais e de couro perfeitamente integradas ao conjunto. Por outro lado, Domaine Pegau Cuvée da Capo 2010, deslumbrante. Ainda em sua fase primária, esbanjava fruta e concentração impressionantes. Tudo muito bem equilibrado e um final longo. Pode descansar sossegado pelo menos mais dez anos em adega. Nota 100 com louvor!. Estendendo este conceito de longevidade, nosso Capo terá vida longa …

varanda chateau rayas

elegância ao extremo

Neste segundo flight, duas ótimas safras de Chateau Rayas. Aqui a música é “samba de uma nota só”. Apenas a Grenache em jogo numa interpretação magnífica. A safra 1990 é perfeita e encontra-se em seu auge. Delicadeza extrema, todos os aromas terciários em perfeita harmonia. Taninos totalmente polimerizados e um final longo e expansivo. Como tirar ponto de um vinho desses!. Já o da safra 2000 antes de mais nada, uma bela garrafa. O nariz é tão encantador quanto seu par, mas a boca naquela comparação cruel, desempata a questão. Sozinho seria um sonho num vinho muito bem construído, embora a safra não tenha a mesma dimensão  que a magnífica 1990. Aromaticamente Rayas lembra alguma coisa de Haut-Brion e dos famosos La, La, Las do Guigal.

varanda henri bonneau

vinhos celestiais

Por fim, outro mestre da Grenache, Henri Bonneau, falecido em 2016. Flight duríssimo, extremamente pareado. Dois Réserve des Célestins, anos 1990 e 1986. O primeiro, 1990, outro nota 100. Comparando com o Rayas de mesma safra, podemos dizer numa sintonia fina que Henri Bonneau é mais viril, mais incisivo, enquanto Rayas, mais delicado, feminino. Contudo, são tão espetaculares, que vou ficar em cima do muro. Empate técnico!       

Agora esse 1986, deu trabalho!. Uma garrafa perfeita. Sem a influência de notas, podemos dizer que 86 superou 90, tal a concentração de sabores. Aqui as notas de chocolate amargo e alcaçuz falam alto. Muito bem conservado e íntegro. Grande final de prova!

varanda yquem 1979

 a elegância de sempre

Encerrando sempre com doçura, mais um Yquem no currículo. Desta feita, um 1979, quase a idade do aniversariante. Trata-se de um Sauternes que prima muito mais pela elegância do que pela potência. Está numa fase intermediária entre a juventude e a maturidade. Cor lindamente dourada, bem equilibrado entre açúcar e acidez. Falta um pouco de meio de boca num final agradável, mas relativamente curto. Enfim, uma doce lembrança neste almoço com as maravilhas do Rhône.

Mais uma vez, abraços aos amigos, votos de sucesso e felicidades ao aniversariante, na certeza de grandes encontros, cultuando sempre a boa mesa e os bons vinhos. Saúde a todos!

Importadoras Pioneiras

26 de Setembro de 2017

Os vinhos importados no Brasil têm história recente, pelo menos em maiores volumes e consistência de remessas contínuas. Dentro deste contexto, vale a pena recordar algumas importadoras pioneiras, sobretudo aquelas que priorizaram e se especializaram em determinados países até então inusitados em nosso mercado. Antes delas, uma menção especial para algumas que já se foram e deixaram saudades como Maison du Vin, Saveurs de France, Silmar do saudoso Silvio Rocha, Gomez Carrera, Callaz & Silvestrini e tantas outras.

monte do pintor 2005

um dos primeiros alentejanos no Brasil

Adega Alentejana

Em 1998, Manuel Chical, atual proprietário desde sempre, trouxe para o Brasil os vinhos alentejanos nunca vistos em nosso meio. Foi sucesso imediato, tal a agradabilidade destes vinhos na época. Por serem macios, frutados e acessíveis, mesmo em tenra idade, os paulistas sobretudo, receberam muito bem a novidade com mercado cativo até hoje. Destaque para o sóbrio e único Mouchão, um dos pilares da enologia alentejana. http://www.alentejana.com.br

KMM Armagh_2008

Um dos maiores Shiraz australianos

Importadora KMM

Embora a importado Mistral tenha trazido os espetaculares australianos da Penfolds, a importadora KMM com Marli Predebon sempre no comando desde 1992, construiu um portfolio invejável de grandes marcas deste país exótico. Sempre com vinhos bem pontuados, fieis ao terroir australiano, e de preços bem ecléticos, atingindo diversos padrões de consumidores. http://www.kmmvinhos.com.br

Premium Rippon Pinot Noir

Pinot Noir neozelandês de destaque 

Importadora Premium

Esta importadora mineira, sempre liderada pelos competentes Orlando Rodrigues e Rodrigo Fonseca, trouxeram em 1999 as primeiras levas de vinhos neozelandeses da melhor qualidade. Com portfolio variado e de preços para todos os bolsos, os brancos da Nova Zelândia caíram nos gosto brasileiro. O cuidado na escolha de produtores sempre foi preocupação fundamental desses sócios até hoje firmes no mercado. http://www.premiumwines.com.br

grand cru pulenta estate

vinhos sempre consistentes

Importadora Grand Cru

Embora atualmente esta importadora não tenha sua imagem focada somente nos argentinos, sua origem em 2002 marcou a entrada de grandes produtores deste país no auge de sua expansão vitivinícola. Evidentemente, eles continuam em destaque, mas o portfolio da importadora diversificou-se demais, tornando-se na atualidade uma das maiores do país com várias lojas em São Paulo e demais capitais. http://www.grandcru .com.br

tastevin muscat beaumes de venise

ótima qualidade e preço bem camarada

Importadora Club du Taste-Vin

Com 36 anos no mercado, esta importadora exclusiva para vinhos franceses é liderada desde sempre por François Dupuis, residente no Rio de Janeiro. Com presença bem mais enfática no público carioca, os paulistas também se abastecem com seus vinhos. A ideia é garimpar rótulos franceses não muito badalados a bom preço das principais regiões produtoras. Sempre fiel ao projeto original, só trabalha com vinhos franceses. http://www.tastevin.com.br

cellar alphonse mellot

Sancerre de personalidade

Importadora Cellar

Criada em 1995 e dirigida até hoje com mão de ferro pelo expert Amauri de Faria, esta importadora não introduziu os vinhos franceses e italianos propriamente no Brasil, mas sem dúvida nenhuma, deu e dá uma aula de como selecionar vinhos deste países de uma complexidade e diversidade ímpares. Seus rótulos primam por uma seleção de grande distinção e preços proporcionalmente bastante honestos. http://www.cellar-af.com.br

peninsula abadia retuerta

bodega de referência 

Importadora Peninsula

Há quase 20 anos no mercado, esta importadora se especializou em grandes vinhos espanhóis. Seu fundador e atual proprietário, Javier Dias Rabarain, prima por rótulos de grande destaque no cenário espanhol, tanto na escola mais tradicional, como no lado mais modernista. Menção especial a Juan Suárez Rodriguez, hoje não mais presente na empresa, pela enorme contribuição na divulgação do vinho espanhol. http://www.peninsulavinhos.com.br

expand renato ratti

Lançado na Expand, agora na Ravin

Importadora Expand

A grande importadora de vinhos nos anos 90 com um portfolio invejável, perfilando grandes vinhos do mundo, inclusive o mítico Romanée-Conti. Quem a sucedeu no mesmo porte e no desfile de grandes rótulos foi a importadora Mistral, até hoje com grande destaque no cenário nacional. Como não falamos dos vinhos sul-africanos, vale destacar a seleção impecável que a Expand dispunha na época com pelo menos meia dúzia de rótulos do mais alto nível.

Atualmente, importadoras como Mistral, Vinci, Decanter, Grand Cru, World Wine, Casa Flora, Zahil, e mais algumas lideram grande parte do mercado nacional. Mas isso é uma outra história para um artigo específico.

Enfim, um apanhado geral de como começou os vinhos importados no Brasil e ao mesmo tempo uma homenagem a essas importadoras pioneiras com fotos emblemáticas de cada uma delas. Todas elas continuam suas atividades, naturalmente com a ampliação de seu portfolio, mas sem perder a origem de suas convicções. Se solidificaram, conquistaram mercado e  fidelizaram clientes, fazendo do Brasil, especialmente na região sudeste, um dos países com maior diversidade em rótulos internacionais. Portanto, o amante de vinho brasileiro pode ficar tranquilo em ter a seu alcance uma grande diversidade de estilos, países, e as principais regiões no mundo do vinho. O grande empecilho é o preço com os escorchantes impostos praticados em nosso país. Mesmo os nossos vinhos, o vinho brasileiro, não foge das garras predatórias de nossa legislação.

Americanos em Ação

20 de Setembro de 2017

Calma! Não é um filme de efeitos especiais. São apenas três vinhos californianos com todo o glamour que Hollywood pode oferecer. Quando falamos que os Estados Unidos são o quarto produtor mundial de vinhos, não é apenas em quantidade, mas sobretudo em qualidade. O problema são os preços. Eles praticamente bebem tudo que produzem e ainda faz um estrago na importação de vinhos, sendo um dos principais destinos de grandes vinhos europeus exportados mundo afora.

Aquela degustação de 1976, o famoso julgamento de Paris, já dava indícios que os americanos não ganharam por um mero golpe de sorte. Esses vinhos envelhecem de maneira soberba, e são muito bem trabalhados no campo e na vinificação. Podem ter lá seu estilo próprio por serem musculosos e potentes, o que também é louvável,  mostrando personalidade e tipicidade, mas a qualidade e concentração dos mesmos são inegáveis. Para provar a tese, seguem três joias degustadas.

sertao harlan 94 magnum

Harlan Estate 1994 em Magnum

Tinto com mais de 20 anos. Um dos mais consistentes californianos, sempre com notas altíssimas em inúmeras safras. Nesta por sinal, 100 pontos. De certo modo, foi o maior infanticídio do almoço. O vinho tem uma riqueza de frutas fabulosa. É vibrante, vigoroso, uma montanha de taninos ultra finos, e longa persistência aromática. Combinou muito bem com uma série de cortes nobres grelhados, onde a suculência das carnes deram as mãos aos polidos taninos. Vai dormir sossegado por pelo menos mais dez anos em adega. Para mim, está tranquilamente num dos dedos da mão entre os melhores de Napa Valley.

sertao dominus 94

Bordeaux na California 

Um vinho que tem a assinatura de Christian Moueix (proprietário do Petrus) e o design de rótulo do Lafleur, já conquista o cliente pelo visual. Mas de fato, é um baita californiano. Sou suspeito sempre que comento este vinho. Pessoalmente, é o mais bordalês desses grandes Napas. Essa safra por exemplo, tem 99 pontos. Eu exijo uma explicação! Onde tiraram um ponto deste vinho?. Outro exemplar com mais de vinte anos. Uma maravilha, aquele autêntico margem esquerda, com virilidade e classe ao mesmo tempo. Seus 14º de álcool e madeira nova em seu amadurecimento, perfeitamente integrados ao conjunto. Está extremamente prazeroso agora, embora com um platô de estabilização imenso.

sertao heitz martha vineyard 74

Um dos míticos americanos

Lembra daquela famosa caixa do século XX da Wine Spectator com doze garrafas de sonhos?. Pois bem, eis aqui uma delas. Um tremendo Cabernet Sauvignon com mais de quarenta anos de vida. E que vida!. Exuberante em fruta, nenhum sinal de decadência, integração perfeita de todos os seus componentes. É isso que realmente define os grandes vinhos e as grandes safras. A passagem do tempo tornam esses vinhos imortais. Sem dúvida, o mais prazeroso do almoço com um meio de boca fantástico. Martha´s Vineyard é um vinhedo histórico na sub-região de Oakville, Napa Valley, reduto de um dos melhores Cabernets californianos. Apenas uma observação, seus toques resinosos (eucalipto, menta), sutis e deliciosos, deixavam transparecer sua identidade americana. Esse então, foi o motivo de abrirmos o bordalês abaixo da região de Graves, para uma comparação. Notem no rótulo, que a menção Pessac-Léognan ainda não existia. Somente a partir de 1987.

sertao la mission 76

vinho com pedigree

Longe de ser uma grande safra, La Mission ainda assim mostra seu berço, seu terroir. Clássico aroma terroso, mineral,  com notas de cacau e cogumelos. Percebemos estas safras menores no chamado meio de boca, um tanto oco, e sem grande persistência. Contudo, um vinho elegante, fino, e delicado nesta sua fase final. Deixaria ele certamente para uma massa leve com creme de leite e funghi porcini, acompanhando seus sabores etéreos e sua delicadeza em boca.

passando a régua

Os grandes Vintages Taylor´s são sempre prazerosos para selar uma grande refeição. Este 85, já saindo de sua terceira década, começa a alçar voos para uma velocidade de cruzeiro. Está saindo daquele estágio intenso e dominante de frutas para a formação de aromas terciários. Sempre muito equilibrado, pleno de sabor, é uma das vindimas clássicas do Porto. Decantação obrigatória, pois seus sedimentos são marcantes.

Fim de tarde, sol ameno, nada melhor que a dupla acima. Um Cohiba Siglo V para acompanhar nosso Porto. Bitola Lonsdale, pouco usual na atualidade, bastante apropriada para a ocasião. Fortaleza média, vinho e charuto se respeitaram, um procurando valorizar o outro. No segundo terço, as forças se equilibraram bem.

Agradecendo aos amigos neste belo final de domingo com as lembranças dos grandes tintos de Napa Valley. Saúde a todos!

 

La Conseillante e as Violetas

16 de Setembro de 2017

Pomerol, um dos mais exclusivos terroirs de Bordeaux com apenas 800 hectares de vinhas, tamanho aproximado de Saint-Julien, uma das famosas comunas do Médoc. Só que neste caso, estamos falando de Margem Direita. E aqui, alguns nomes de peso: Petrus, Lafleur, Le Pin, e porque não, Chateau La Conseillante. Um dos mais delicados vinhos da apelação, mencionado como “Le Bourgogne de Bordeaux”.  Para começar, sua roupagem de fundo violeta, remetendo a um dos seus característicos aromas.

Um terroir diferenciado com 18 parcelas e uma vizinhança pra la´de famosa: Vieux-Chateau-Certan, L´Evangile, Petrus muito perto, e coladinho,  nada mais, nada menos, que Cheval Blanc. A propósito, uma parte do vinhedo divide o mesmo solo pedregoso com o ícone de Saint-Emilion. No caso, parcelas de Cabernet Franc, cepa que contribui em média com 20% do blend final. O restante, são vinhedos de Merlot em solos argilosos, típicos dos melhores terrenos do planalto de Pomerol. No total, temos 12 hectares com vinhas de 35 anos em média.

la conseillante vignoble

divisão parcelar

O Chateau conta com a consultoria de Michel Rolland, profundo conhecedor da Merlot e nascido em Pomerol. O vinho passa cerca de 18 meses em barricas de 50 a 80% novas, conforme a safra. A produção anual gira entre 40 e 50 mil garrafas.

Em vertical realizada no restaurante Tanit, pudemos provar e comparar as melhores safras das últimas décadas. Antes porém, aquele champagne de entrada! Jacques Selosse.

exclusividade e estilo único

Esta versão Sec na contramão da moda, onde os chamados Brut Nature ou Pas Dosé estão na crista da onda, mostra todo o talento de Jacques Selosse em trabalhar nos vários estilos. Elaborado com Chardonnays bem maduros, portanto um Blanc de Blancs, seu açúcar residual fica entre 22 e 26 g/l. Como os franceses chamam, é um champagne de Gourmandise. Sua estrutura e corpo lembram até um Pinot Noir. Com as entradinhas ficou muito bem, especialmente um bolinho de pato desfiado com textura e intensidade de sabor sintonizados com as borbulhas. Belo início!

croquetes e lulinhas na chapa

Essas entradinhas do Tanit são o ponto alto deste restaurante de sotaque espanhol (www.restaurantetanit.com.br). Só para fechar o assunto champagne, são apenas mil garrafas produzidas desta cuvée. Seu frescor é garantido com a data de dégorgement no contrarrótulo, vide foto acima.

Agora sim, vamos de La Conseillante com uma verdadeira aula de pontuação de Mr. Parker. Foram três flights às cegas e uma Magnum 2005 degustada em aberto, mostrando todo o potencial deste belo Bordeaux.

tanit conseillante 2010 e 2012

safras próximas, mas estilos diferentes

O Chateau reflete bem o estilo de cada safra. 2010, um ano clássico, de estrutura e longevidade. Percebe-se sobretudo na estrutura de taninos mais presentes e evidentes. Já 2012, mostra-se uma safra graciosa, afável no palato. Parker descreve como “velvety” a textura de seus taninos. Em ambos os vinhos, os toques de violeta tão propalados. A tarde promete!

tanit conseillante 2005 e 2003

a diferença de tamanhos reflete bem o flight

Aqui, o flight mais díspar. Sem entrar em números ( 2005 RP 97 e 2003 RP 88), esta comparação foi uma covardia. E não é só o fato de 2005 estar em magnum. Realmente, 2005 é uma das safras históricas deste Chateau, comparada à mítica safra de 1949, também com 97 pontos. Embora, ainda muito novo, sua estrutura tânica é monumental. Parker sugere uma comparação com Petrus e Lafleur, dois dos mais poderosos de todo o Pomerol. Deve evoluir seguramente por mais vinte anos. Já o 2003, um ano de calor avassalador na Europa, apresenta uma estrutura tânica relativamente pobre com o vinho já muito evoluído, numa curva descendente.

tanit conseillante 2000 e 2008

flight de muito equilíbrio

Surpreendendo a muitos, 2008 é uma safra de destaque para este Chateau. Pessoalmente, havia um leve problema de bouchonée sutil com esta garrafa, mas dava para perceber o potencial do vinho. Mesmo a safra 2000 com seus 17 aninhos, ainda não está totalmente pronta. Seus taninos são densos e polidos. Os aromas de cogumelos e trufas começam sutilmente a desabrochar. Um painel de grande equilíbrio. Safra 2000 (RP 96) e safra 2008 (RP 95).

tanit conseillante 82, 85 e 90

a longevidade dos grandes bordeaux

Por fim, um trio incontestável, todos com nota RP 94. De fato, um equilíbrio de qualidade muito grande. Começando pelo 90, é aquele Bordeaux que está entrando definitivamente em seus aromas terciários, mas ainda no começo desta fase evolutiva. Muito prazeroso de já ser tomado e uma garrafa muito bem conservada. Contudo, pode tranquilamente evoluir nesses aromas por mais dez anos.

Agora 82 e 85, são safras de muito prazer. Claro que não podemos tirar conclusões definitivas apenas com essas duas garrafas, mas o 82 de fato está um pouco mais evoluído que 85. Muitas vezes acontece o contrario, sobretudo na margem esquerda onde os 82 costumam ter mais estrutura e longevidade. De todo modo, são vinhos deliciosos com os típicos toques terciários de trufas, cogumelos, e sous-bois. Seus taninos são de seda e o acabamento em boca, de sonhos. A magia dos grandes Bordeaux …

Como um dos confrades sugeriu, algumas taças de La Conseillante aproveitando o neologismo, poderiam inspirar  aos que governam, aos que decidem, e aos que investem neste país, em dias melhores para todos nós.

tanit vintage 70 e yquem 55

outros tempos sem internet

Como ninguém é de ferro, precisamos adoçar um pouco a boca. Nada melhor então que Porto e Sauternes. Os belos Vintages de 70  estão entre os grandes em classicismo e delicadeza, sobretudo em Casas como Fonseca, uma das melhores nesta categoria. Lembram perfeitamente aqueles licores de jabuticaba, cerejas. É como se o álcool conseguisse fundir-se perfeitamente com a fruta. Com quase um século de vida, nos dão muito prazer com um equilíbrio fantástico. E certamente, atravessarão o século. Este confrade conhece bem as boas coisas velhas da vida …

Comentar Yquems antigos como este 1955 chega até ser  presunçoso de minha parte. A nota aqui não importa. É verdadeiramente história refletida em aromas e sabores. Nesta hora nos reconfortamos e percebemos a amizade e elos fortes de união entre todos nós confrades. Que Deus nos permita continuar sonhando!   

Alentejo para os portugueses

14 de Setembro de 2017

Não é de hoje que os portugueses dão ampla preferência aos vinhos alentejanos em suas mesas. A agradabilidade, o bom preço pela qualidade oferecida, e boa disponibilidade no mercado, são fatores mais do que suficientes para justificar o fato. É bem verdade que os chamados vinhos ex-mesa, vinhos sem denominações específicas, ou os antigos vinhos de mesa, ainda tem muita penetração, sobretudo pelo preço praticamente sem concorrência.

portugal consumo interno vinhos 2016

Só para falarmos em números, o consumo português em 2016 dos alentejanos foi de mais de 44 milhões de litros, cerca de 18% do mercado interno. Regiões mais famosas e tradicionais como Douro e Dão, foram de 11 e 4 milhões de litros, respectivamente. É bom frisar que quando falamos em Douro, estamos excluindo o Vinho do Porto. Neste contexto mais formal, o Alentejo responde por 45% do mercado português, sem as estatísticas dos vinhos ex-mesa.

O preço médio por litro do vinho alentejano em Portugal é cerca de quatro euros, não muito abaixo do Douro e do Dão. Curiosamente, os vinhos do Algarve por ser uma região turística, fica em torno de catorze euros o litro. Convenhamos que para vinhos desta qualidade duvidosa, é coisa de turista mesmo.

A produção do vinho alentejano é bastante expressiva, perdendo apenas para o Douro que neste caso, inclui o Vinho do Porto. Dos seis milhões de hectolitros produzidos em 2016 em Portugal, 22% ficou com o Douro e 17% com o Alentejo.

Quanto às exportações, os vinhos alentejanos respondem por cerca de 20% mercado externo, sendo dois terços dentro da Europa e um terço para o restante. Dentre este restante, curiosamente Angola é o primeiro mercado, seguido pelo Brasil e Estados Unidos, respectivamente.

rocim mariana tinto 2014

tinto agradável de bom preço

O vinho acima da importadora World Wine (www.worldwine.com.br) mostra-se bastante agradável, macio, e de boa persistência aromática. É o tinto de entrada da Herdade do Rocim por menos de oitenta reais aqui no Brasil. Um vinho que sobretudo, privilegia a fruta em relação aos toques de barrica.

O quadro abaixo, mostra que praticamente todo vinho alentejano é certificado, ou seja, DOC ou IG, vinhos com garantia de origem e controle. Podemos perceber também que a maciça maioria dos vinhos são tranquilos com tintos e brancos.

alentejo dop igp 2014praticamente todo vinho alentejano é certificado

Oitenta por cento do vinho alentejano são de vinhos tintos, geralmente muito frutados, macios e de boa alcoolicidade. Embora os mais estruturados possam ser guardados, mesmo em tenra idade, é um vinho bastante prazeroso. Seu corte clássico e que dá a tão esperada tipicidade é baseado nas uvas Aragonês e Trincadeira, sendo Tinta Roriz e Tinta Amarela na região do Douro, respectivamente. Outras castas típicas são Alfrocheiro e Alicante Bouschet, normalmente em proporções menores. Castas que conferem um ar de modernidade são Cabernet Sauvignon, Syrah, e Touriga Nacional. Esta última, muito em moda em Portugal.

Em termos de terroir, sete sub-regiões estão muito próximas umas das outras, ficando apenas Portalegre mais isolada ao norte. Granja-Amareleja, Vidigueira e Moura, mais ao sul, desfrutam de um clima mais quente, normalmente faltando um pouco de frescor a seus vinhos. Borba, Évora, Redondo e Reguengos, no centro da região, possuem um clima menos dramático, resultando a princípio, num melhor equilíbrio. Já Portalegre, num clima mais ameno a norte, desfruta também de um solo diferenciado, mais xistoso. Seus vinhos costumam ter mais frescor. O ícone maior desta região diferenciada é a tradicional Herdade do Mouchão com vinhos complexos e longevos. Importados no Brasil pela Adega Alentejana. http://www.alentejana.com.br

Como sugestão de vinhos da região, dois exemplares degustados recentemente e de estilos bem opostos, mostrando o potencial da região.

alentejo monte da ravasqueira

discrição e elegância

O vinho acima mostra um corte de Syrah e Touriga Franca que passa cerca de 20 meses em carvalho francês novo. O primeiro ponto positivo é a perfeita integração com a madeira, mostrando uma fruta delicada sem ser excessivamente presente. A acidez é o ponto alto de equilíbrio do vinho com um frescor inesperado para a região. De fato, por questões de terroir, esta vinha mostra boa amplitude térmica, justificando todo este frescor. É um tinto muito gastronômico, sobretudo por não ser dominante na harmonização. Importadora Tahaa Vinhos (www.tahaavinhos.com.br).     

alentejo terra de zambujeiro

Zambujeiro: referência na região

Quando pensamos nos grandes vinhos alentejanos, lembramos logo do Pera Manca, Cartucha Reserva, além do Mouchão já citado. Porém, não devemos nos esquecer da Quinta do Zambujeiro. Vinhos de grande estrutura e longevidade. O principal ponto para este sucesso é trabalhar com baixos rendimentos por vinha, concentrando sobremaneira os sabores. Na média, o rendimento de suas vinhas é da ordem de 23 hl/ha, ou seja, extremamente baixo.

O vinho acima degustado, reflete bem este perfil. Embora seja o segundo na hierarquia da vinícola, mostra uma concentração e estrutura impressionantes. Muita fruta, nenhum excesso de barrica, apesar de passar 24 meses em madeira. Seus taninos são possantes e finos. Meio de boca bem preenchido e longa persistência. Fica uma pontinha de álcool no final, mas agradavelmente quente. Afinal, são 15º de álcool bem domados para um tinto deste porte. Importado por Casa Flora (www.casaflora.com.br). 

Massandra: Shangri-La do Vinho

10 de Setembro de 2017

Massandra, Масандра em ucraniano, ou Массандра em russo, é uma comunidade na cidade de Yalta, República da Criméia, território autônomo incorporado à Rússia, uma espécie de Vaticano na Itália.

Situada no Mar Negro, é uma importante estação balneária, gozando de clima, solo e latitude, propícios ao cultivo das vinhas. Afinal, esta região outrora ocupada pelos gregos faz parte da própria origem da vinha, na região do Cáucaso. O mapa abaixo, elucida o fato.

massandra mapa

Yalta: encontro histórico de generais no pós-guerra

O encontro histórico entre Churchill, Stalin e Roosevelt em 1945 na cidade de Yalta, selaram os rumos do mundo após a segunda guerra mundial. Voltando ao assunto, a história dos vinhos de Massandra começa com o príncipe Leo Golitzin que mandou construir uma grande adega subterrânea com sete tuneis de 150 metros de extensão cada um, onde repousam cerca de um milhão de garrafas. A intenção era construir uma coleção de garrafas com todos os tipos de vinhos, incluindo vinhos de mesa, brancos e tintos, além de vinhos de sobremesa e fortificados. Essas duas últimas categorias é que ficaram consagradas na história, sobretudo garrafas antigas do século dezenove.        

massandra wineryentrada da vinícola 

A adega do ponto de vista técnico é perfeita, principalmente em termos de umidade e temperatura. Prova disso, são essas antiguidades preservadas e absolutamente íntegras em sua grande maioria ao longo de várias décadas. Seus Muscats, Sherries, e Portos, são famosos, longevos, e complexos. Além disso, a coleção é vasta com mais de 800 referências. A cada vinte anos, as garrafas antigas são rearrolhadas.

massandra cellars

 os grandes Muscats de Massandra

Em 1922 com Stalin no comando russo, ordenou que todos os vinhos encontrados nos palácios dos csares retornassem à Massandra. Em 1944, com a iminente invasão alemã, foi montada uma grande operação de transporte hercúlea para a retirada de todos os vinhos de Massandra. Logos após o fim da guerra em 1945, todos os vinhos já estavam de volta, devidamente acondicionados.       

massandra sete tuneis

os sete túneis de Massandra Winery

O mundo não conhece Massandra, mas Esta conhece o mundo. A vinícola cultiva cerca de cinco mil variedades de uvas, podendo reproduzir todos os vinhos do mundo. É um acervo fascinante sobre todos os pontos de vista vitivinícolas. Talvez o maior colecionador de vinhos antigos do mundo com uma adega de mais de 40 mil garrafas na França, Michel Chasseuil, nos conta o verdadeiro laboratório que é Massandra. Eles têm 100 pés da cada videira do mundo, podendo reproduzir todos os vinhos. São oito fazendas com cinco mil hectares de vinhas cada uma.

Voltando aos vinhos doces, especialmente os Muscats, e também vinhos fortificados, seguem alguns exemplos de sua vasta coleção. Massandra Sherry, Madère, Port, Malaga, Lacrima Christi, Tokay, Cahors.

massandra cahors 1933

Cahors à moda antiga

Neste Massandra, a uva é Saperavi com vinhas de setenta anos, uma uva tinta nativa de grande prestígio. Trata-se de um vinho fortificado com 180 gramas de açúcar residual e destacada tanicidade lembrando Cahors, tinto do sudoeste francês. Na Idade Média, parte do vinho de Cahors era vinificado para missa, aquecendo o mosto a 60° de temperatura. Esta versão de Massandra reproduz com brilhantismo este cenário histórico.

massandra lacrima christi

versão fiel à sua origem

As vinhas deste Lacrima Christi já não existem mais. O vinho tem 9,5° de álcool e 280 gramas de açúcar residual perfeitamente balanceados por sua incrível acidez. É comparado em termos de persistência aromática aos melhores Sauternes.  Itália e Espanha (Málaga) disputam sua paternidade. A versão original italiana na região do Vesúvio, fala de um vinho tinto e doce, bem diferente das versões atuais, branco e seco. Mais uma vez, Massandra preserva a história.

massandra red port

Porto com Cabernet Sauvignon

Massandra faz Portos de todos os estilos, inclusive complexos Portos brancos. As uvas Cabernet Sauvignon e Mourvèdre são as mais utilizadas. Curiosamente, as versões brancas são elaboradas com Cabernet Sauvignon sem o contato das casas. Ambas as versões podem envelhecer magnificamente por décadas. O da foto acima, trata-se de um exemplar com a uva Mourvèdre com vinhas de 80 anos. Livadia indica um terroir diferenciado em Massandra, antiga residência de verão dos Czares. Degustado por um especialista da Sotheby´s, mostrou-se totalmente integro, podendo ser adegado por longo tempo ainda. Portanto, imortal.

massandra madeira 1837

existem apenas cinco garrafas

Uma das mais antigas garrafas de Massandra, pertencente à adega de Michel Chasseuil, um dos maiores colecionadores da atualidade. Este velho Madeira com vinhas de 80 anos, reproduz fielmente o exemplar de origem, tanto em complexidade, como longevidade. Seguramente, a melhor réplica do original. Alguns ousam dizer que o discípulo superou o mestre.

massandra muscat 1945o ano da Vitória

Por fim, vamos à especialidade de Massandra, seus ricos, ecléticos e longevos Muscats. Três grandes categorias balizam esses vinhos: White Muscat, Rose Muscat, e Black Muscat. Este último de variedade tinta, é o mais intenso e untuoso com notas de chocolate e ameixas. De fato, a insolação e o clima da região favorece sobremaneira a grande maturação de vários tipos de Moscatéis. Normalmente, eles são fortificados e permanecem por um bom tempo em contato com as cascas em sua elaboração. De toda a forma, existem os mais intensos e os mais delicados e aromáticos. O importante é sempre ter um bom suporte de acidez. O envelhecimento confere ao vinho toques resinosos e de damascos. Os Muscats de Frontignan e de Lunel são bastante famosos em Massandra, ambos originários do sul da França.

Os vinhos atuais de Massandra podem ser comercializados na Europa e na própria vinícola. Já os da coleção de raros vinhos antigos, de quando em quando são disponibilizados pequenos lotes para os melhores leilões internacionais.

massandra trifel aux quetsches

Trifel aux Quetsches

A clássica sobremesa inglesa acima, é uma das sugestões de harmonização para um Muscat de Massandra, segundo Philippe Faure-Brac, melhor sommelier do mundo em 1992 no Brasil. Quetsches são ameixas escuras com tonalidade violácea, não muito doces e de ótima acidez. A sobreposição de camadas envolvendo geleia de quetsches, uma mistura de merengue com chantilly, e pedacinhos de biscoitos (pode ser macarrons), criam uma textura macia e ao mesmo tempo crocante compatíveis com o vinho. A doçura e acidez do prato são bem balanceadas com o Muscat, além da convergência de sabores, misturando a baunilha da sobremesa no preparo do creme com os toques de torrefação, caramelo e de frutas cítricas cristalizadas do vinho. Do livro Vins et Mets du Monde.   

Enfim, vinhos raros, exóticos, longe do convencional. Na fronteira da Europa e Ásia, Massandra guarda um pedaço da história com réplicas memoráveis de alguns dos maiores vinhos do mundo do outros tempos. Para nossa sorte, continua fazendo história com viticultura e vinificação impecáveis. Afinal, pertinho dali, tudo começou um dia …

Os Espíritos estão no ar

6 de Setembro de 2017

No penúltimo artigo deste blog, vide Quando o céu é o limite!, prometi escrever algo sobre o prolongamento do almoço, após aquela sucessão de embates maravilhosos dos melhores Montrachets, Hermitages, Bourgognes, Bordeaux, e mais algumas preciosidades.

Já fora da mesa, a festa continuou com cafés, chás, e sobretudo, os Puros e os Espíritos. Aqueles destilados deslumbrantes que aquecem a alma, selando comme il faut, um almoço memorável.

cenário irresistível

Quando eu falo em Espíritos, observem acima um guardião atrás das bebidas. À esquerda, uma seleção de Puros em caixas de laca impecáveis das melhores procedências, algo como Gérard Père et Fils da Suíça. Ao lado, a mesa de bebidas com o que há de mais exclusivo em destilados, principalmente Grappas, uma das paixões do anfitrião.

marcos dona beja

Dona Beja sabia das coisas …

Parece estranho falarmos de cachaça numa hora dessas, mas esta da foto acima, é de impressionar não só qualquer gringo, como o mais exigente dos cachaceiros profissionais. Não tanto pelo sabor, mas sobretudo pela suavidade. É impressionante como mesmo provada em temperatura ambiente, não se sente o álcool. Um perigo aos desavisados!    

Para quem não conhece, Dona Beja é uma cachaça do tempo do Império. Com toda esta história, o atual proprietário Mario Moraes Marques, rebatizou a cachaça como Dona Beja a partir de 1992, até então chamada cachaça Rainha. Esta provada da safra de 1972 é a joia da coroa. Foram produzidos apenas cinco mil litros desta pérola que passaram dezoito anos em toneis de carvalho, perdendo álcool naturalmente, sem diluição com água. Se você tem algum preconceito com a bebida, dê um traguinho nesta!

marcos timeless

embate de gigantes

Agora falando em Cognac, temos duas preciosidades acima. Louis XIII, cognac topo de gama da Maison Remy-Martin, um blend com partidas centenárias, acompanhado por várias gerações em adega até estar pronto para comercialização. Normalmente, seu grande rival é o Richard, topo de gama da grupo LVMH, outro cognac com enormes predicados e à altura de uma disputa de gigantes. Maiores detalhes, vide artigo Cognac: Richard ou Louis XIII?

Mas não vamos falar de Richard, e sim de Timeless. Criado em 1999 também pela Hennessy (grupo LVMH), Timeless consegue ainda ser mais exclusivo. São apenas duas mil garrafas numeradas contendo um blend envelhecido das onze melhores safras de Cognac do século XX. São elas: 1900, 1918, 1929, 1939, 1947, 1953, 1959, 1961, 1970, 1983 e 1990.

Neste duelo não houve vencedores e sim, preferências. Afinal de contas, são dois excepcionais Cognacs com inúmeros predicados e virtudes. Pessoalmente, preferi o Louis XIII. Numa sintonia fina, me pareceu mais marcante e refinado. Já o Timeless, parece ser um produto muito mais de exclusividade, de poder experimenta-lo, embora seja divino. Essa tese fica reforçada na comparação de preço, onde a diferença pode chegar a seis vezes.

marcos louis XIII 1900

Cognac Louis XIII de 1900

Para os colecionadores, a garrafa acima trata-se de um exemplar autêntico da virada do século XX. Um dos pontos a serem verificados são os 25 dentes em volta da garrafa de crista de Baccarat, ou seja, 12 saliências de um lado e 13 saliências do outro. Notem também, que naquela época a tampa da garrafa era dentada e de formato oco. Diferente da atual, lisa e no formato flor-de-lis.   

marcos poli sassicaia

vinhos de pedigree

Agora vamos para uma excepcional seleção de Grappas ou Grappe (italiano). Sabemos que toda a grappa nasce do bagaço das uvas no processo de vinificação. Entretanto, há bagaços especiais como das uvas destinadas ao mais nobre tinto de Bolgheri, o grande Sassicaia, foto da esquerda. Já a grappa da direita, é fruto do outro extraordinário vinho italiano, Torcolato, um néctar doce do Veneto, obtido com a uva branca Vespaiolo.

Pela própria natureza dos vinhos, a Grappa Sassicaia é mais encorpada, mais viril, e tem uma passagem maior por madeira. Já a Grappa Torcolato é toda feminina, delicada, com aromas florais. Em resumo, grappas excepcionais, cada qual em seu estilo. Digamos que Sassicaia está mais para um Bolivar, enquanto Torcolato está mais para um Hoyo de Monterrey.

marcos poli rum e porto

requintados barris

Nesta seleção de grappas, vemos a força e caráter decisivos dos barris. O da esquerda, de rum extra-vecchio da Martinica da casa Clement, uma das mais reputadas marcas do Caribe. Um rum delicado, onde esses barris acabam aromatizando de forma sublime o destilado recém-elaborado. Já o da direta, uma barrica de Porto Colheita safra 1991. Um Porto Niepoort, uma das casas mais reputadas pelos seus esplendorosos Colheitas. Transmite notas muito elegantes ao destilado. Realmente, mais exclusivo, impossível. Novamente, a preferência é muito pessoal.

 marcos grappa costa russi

Gaja: isso sim é requinte!

Quem diria! uma grappa de Angelo Gaja, mas não de qualquer Barbaresco. No rótulo, um dos Crus que perfazem a santíssima Trindade (Costa Russi, Sori Tildin, e Sori San Lorenzo). A vinaccia ou bagaço das uvas na elaboração do Costa Russi dá origem à destilação que posteriormente terá um envelhecimento em madeira. Grappa de muita personalidade com toques de cogumelos e chocolate amargo (cacau).

 marcos h. upmann RR

H. Upmann Piramide Reserva

Provavelmente da Cosecha 2010, este Puro amadurece três anos antes de sair ao mercado. Casa de grande reputação, H. Upmann tem um estilo elegante, mas de muita personalidade. Este Piramide apresentou ótimo fluxo, notas de especiarias e amadeiradas. Acompanhou muito bem a seleção de grappas, além dos majestosos Cognacs.  

Agora sim, cumprida a promessa neste verdadeiro deleite entre Puros e Espíritos, mesmo para o mais cético ateu. Que assim seja!  

À Droite, s´il vous plaît!

2 de Setembro de 2017

Quando Miles no filme Sideways (entre umas e outras) tentou execrar a casta Merlot, esqueceram de informa-lo que um certo vinho de nome Petrus, utiliza quase integralmente esta uva. Imbecilidades à parte, o filme vale pela divertida história, enaltecendo a delicada Pinot Noir. Entretanto, mais do que Merlot, Petrus é acima de tudo um Pomerol. E esta palavrinha para os amantes de terroir diz tudo. Portanto, vamos à chamada Margem Direita de Bordeaux, procurar alguns amigos do Astro-Rei, e também alguns “intrusos” muito bem-vindos.

Tudo transcorreu num belo almoço entre amigos no restaurante Chef Vivi com quatro exemplares de primeiríssima linha das terras de Pomerol e Saint-Emilion. No meio da brincadeira, dois italianos de grande prestígio encararam os bordaleses de frente, sem se intimidarem. Na sequencia, vocês entenderão.

julio cristal 2004

Tudo na vida deveria começar com champagne e suas borbulhas mágicas. E como começou bem! Logo de cara, um Cristal 2004 da respeitabilíssima Casa Louis Roederer. Com leve predomínio de Pinot noir sobre a Chardonnay, esta Cuvée de Luxo passa cerca de cinco anos sur lies, tempo suficiente para conferir textura e complexidade ao conjunto. Seus aromas de pralina são marcantes e típicos. Merece com louvor 97 pontos. Nada mau!

alguns pratos do Chef Vivi

A posta de tainha devidamente grelhada com tubérculos levemente agridoces foi providencialmente escoltada pelo suntuoso Cristal 2004. Já a sopa de beterrabas ao lado, promoveu uma instigante combinação com os Merlots. Tanto a acidez dos vinhos, como o lado de fruta intensa desses tintos, foram bem reverberados com a sopa. Surpreendente!

julio apparita trotanoy e gomerie

grande expressão da Merlot em três versões

No primeiro embate de Merlots, um Saint-Emilion de garagem, um Pomerol do time de cima, e talvez o mais elegante Merlot italiano, L´Apparita 2004 da Azienda Castello di Ama, que dispensa apresentações. Apesar de seus mais de dez anos de vida, um frescor imenso, muita fruta vibrante ainda, aromas de cacau encantadores, e um estilo delicado de Merlot, sem perder a profundidade. Encarou com uma altivez impressionante o belíssimo Trotanoy 2005 de nota 98+, ainda muito tímido e fechado. Mesmo com mais de três horas de aeração, estava certamente numa fase de latência, onde o vinho se fecha por um certo período, para mais tarde desabrochar e justificar seu enorme carisma. Trotanoy pertence ao grupo de vinhos de Christian Moueix, dono do Petrus, e está certamente no Top Five dos grandes Pomerols.

O terceiro do flight era o Chateau La Gomerie 2005, grande safra em Bordeaux, um “vin de garage” 100% Merlot. Tinto de micro produção com 800 caixas por ano. Foi sem dúvida, o mais prazeroso para ser provado no momento. Bela concentração de sabor, super equilibrado, inclusive em termos de madeira, já que passa 100% por barricas novas. É o tal negócio, quando o vinho tem estrutura, a barrica lhe faz muito bem. 95 pontos bem referendados.

julio masseto e clinet

concentração e força neste duelo franco-italiano

Finalmente, um embate de gigantes, sobretudo em termos de estilo e potência. Do lado italiano, Masseto 2007, um Merlot de Bolgheri, de terroir com influência marítima, próximo ao mar Tirreno. Costuma ser um tinto mais muscular, sem contudo perder a elegância e equilíbrio. Muita concentração, muita vida pela frente, mas já encantador. Fez bonito diante de seu rival francês, Chateau Clinet 2009, 100 ponto Parker. Não é muito meu estilo de Pomerol, mas o vinho apresenta uma estrutura impressionante com taninos mastigáveis. Certamente, um infanticídio. Seu auge está previsto para 2040.

julio chef vivi ancho e legumes

bife ancho com legumes

O prato acima foi providencial para este ultimo flight onde intensidade de sabores, textura mais corpulenta, e taninos mais presentes, deram as mãos para este bife ancho suculento com legumes e redução de balsâmico. Belo fecho de refeição com sabores e texturas plenas.

julio VCC 1990

aos 27 anos o patinho feio vira cisne

Deixamos para o final, delicadeza, elegância, sutileza. Encerrando em grande estilo, um Pomerol da safra 1990, Vieux-Chateau-Certan. Pertencente à família Thienpont, proprietária também do exclusivíssimo Le Pin, este Pomerol de vinhas antigas (mais de 50 anos), apresenta um corte inusitado, lembrando de certa forma, um Margem Esquerda. 60% Merlot, 30% Cabernet Franc, e 10% Cabernet Sauvignon. A alta pedregosidade do solo explica esta proporção acentuada de Cabernets. O vinho encontra-se no auge com seus aromas terciários já desenvolvidos, sugerindo tabaco, couro, toques balsâmicos e terrosos. Enfim, a magia dos grandes Bordeaux envelhecidos. Joanna Simon, grande escritora inglesa, sugere um autêntico Camembert não muito evoluído e na temperatura ambiente para apreciação desses vinhos num final de refeição.

julio fargues 2004

rótulo belíssimo!

Como ninguém é de ferro, que tal um Chateau de Fargues 2004 para encerrar o sacrifício! Tirando o todo poderoso Yquem, Fargues para muitos é a segunda opção, e das mais seguras. Pertencente à mesma família Lur Saluces, Fargues também é nome da comuna contigua à Sauternes, formando este terroir abençoado pela Botrytis Cinerea. Este provado, estava super delicado, um balanço incrível entre acidez e açúcar, além de toda a complexidade aromática e textura inigualável desses brancos sedutores. Nem precisou de sobremesa, tal sua persistência aromática e expansão em boca.

Resta-me somente agradecer aos amigos, especialmente ao Julio por sua imensa generosidade, proporcionando momentos tão agradáveis e ao mesmo tempo, didáticos no aprendizado de Bacco. Vida longa aos confrades!


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