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La Tâche, Tarefa Cumprida

12 de Agosto de 2017

Dando prosseguimento ao artigo anterior, nada melhor do que esquecer o passado e viver o presente com oito joias enfileiradas para a degustação. Dentre elas, algumas preciosidades como as safras 99, 90 e a tenra safra de 2005. A degustação seguiu com quatro flights formados por duplas. Antes porém da tarefa (tâche em francês), alguns mimos para acariciar as papilas e o devido aquecimento.

picchi gaja e meursault

Angelo Gaja e seu Gaia & Rey 2014, Arnaud Ente Meursault 1° Cru La Gotte d´Or 2007, e Comte de Champagne Taittinger 1961, abriram os trabalhos.

Gaia & Rey está entre os melhores Chardonnays italianos, se não for o melhor. Branco elegante, fresco, lembrando algo de Puligny-Montrachet. Bom para alegrar as papilas. Já este Meursault de produção limitadíssima (1200 garrafas por safra) é um espetáculo. São apenas 0,22 hectare de vinhas. Textura gordurosa dos grandes Meursaults, mas com um toque limonado sensacional refrescando o palato. Um vinho muito jovem para seus dez anos de idade. A noite promete!

evolução de um grande champagne

Já à mesa, primeira grande harmonização. Creme de cenoura com caviar escoltado por este senhor Champagne quase sexagenário. Aqui o que vale é a qualidade do vinho-base, embora ainda com delicada e discreta mousse. Um Blanc de Blancs envelhece muito bem e este como observou um dos convivas, tem um perfil interessante de um belo Jerez Amontillado. A força e mineralidade desse champagne mais seus toques oxidativos combateram bem a personalidade do caviar. Vamos em frente …

picchi coche dury

Agora um triunvirato básico de Coche-Dury. Para quem não conhece muito bem esse nome, segue abaixo um pequeno relato envolvendo as safras 96, 99 e 2007.

Coche-Dury Corton-Charlemagne Grand Cru

São apenas 0,33 hectare, um terço de hectare, ou se preferirem, 3300 metros quadrados de vinhas na Montagne de Corton. Para cuidar deste jardim, uma das referências da Borgonha, Coche-Dury. Embora seu foco maior seja a comuna de Meursault, seus métodos tradicionais e o cuidado extremo com as vinhas, o credenciam para brilhar no extremo norte da Côte de Beaune. Seus vinhos são fermentados em barricas de carvalho com baixa porcentagem de madeira nova. O amadurecimento dos mesmos dá-se também em barrica por longos meses num eficiente trabalho de bâtonnage (revolvimento das borras no fundo do barril, fornecendo complexidade ao vinho e ao mesmo tempo, protegendo-o do oxigênio).

picchi salsão tartar caviar anchova

salsão desidratado, tartar e caviar de anchova

harmonização instigante com os Meursaults

Todo esse savoir-faire para explicar como a safra 1996 pode ser magnífica atualmente, conforme constatação unânime dos convivas. Um branco com mais de vinte anos de idade num esplendor que só os grandes vinhos possuem. Mineralidade, balanço incrível entre seus componentes e uma textura inigualável. A safra 99 também é espetacular, mas vem a maldita comparação. Degustado solo, é outro branco incrível, talvez um pouco menos opulento. Já o 2007, temos uma safra um pouco inferior às demais, além de estar muito novo para um embate deste naipe. Está atualmente delicioso, fresco, com todos os toques da juventude, mas evoluirá com dignidade nos próximos dez anos. Em suma, Coche-Dury está no posto mais alto da Borgonha quando o assunto são Brancos.

Ufa! como é duro chegar aos La Tâche!. Não vou me aprofundar no assunto, visto que o artigo anterior dissecou bem o tema. Vamos sem delongas ao embate de duplas.

picchi la tache 05 e 09

Fundamentalmente, um flight da juventude. Sobretudo o 2009, foi um verdadeiro infanticídio. O vinho estava nervoso, parecendo não querer acordar aquela hora e dizendo: quem me tirou da garrafa agora???. Ainda formando seus aromas, tentando encontrar um ponto de equilíbrio, mas sem dúvida uma grande promessa, tal a montanha de taninos que envolve sua estrutura.

Quando passamos ao 2005, percebemos como quatro anos a mais de garrafa faz bem. Uma safra esplendorosa num momento radiante de juventude. Aquela intensidade de fruta, taninos ultra polidos, e uma persistência aromática notável. É aquela criança com um futuro promissor sem chances de dar errado. Será um dos grandes La Tâche do século em curso, na cola do 99.

picchi 03 e 99

Neste flight, La Tâche mostra porque é um dos maiores vinhedos sobre a Terra. Vamos começar pelo 2003 numa safra quente e polêmica. O vinho tem um extrato fabuloso, taninos em abundância, mas numa sintonia fina, um pouco quente para um La Tâche. Falta-lhe um pouco de frescor. De todo modo, um belo vinho.

picchi ravioli de coelho

agnolotti de coelho com os La Tâche

Agora, toda a reverência para este La Tâche 99. Não tem como tirar ponto deste vinho. É lindo demais. Conjuga com rara felicidade potência e elegância. Taninos ultra finos, corpulento, denso, multifacetado, e um final de boca interminável. Robert Parker dá 100 pontos e Allen Meadows 99 pontos. Alguém na mesa disse não ser uma boa garrafa. Pode mandar uma caixa lá pra casa …

picchi la tache 95 e 96

Neste terceiro flight, safras próximas, mas diferentes em estilo e concentração. Enquanto 95 é um estilo mais sisudo, pedindo tempo para uma melhor avaliação, 96 é puro prazer e elegância. Vai um pouco na linha do 99, sem tanta potência, porém muito elegante. Talvez tenha sido a preferida da maioria e pensando bem, um clássico La Tâche bem de acordo com a elegância e sutileza dos vinhos de Vosne-Romanée.

picchi la tache 93 e 90

Finalmente, o flight mais díspar, safras 90 e 93. Este La Tâche 1993 mostrou-se austero, duro, com taninos não condizentes para um vinho desta envergadura. É evidente que precisa de tempo para desenvolver aromas e polimerizar esses taninos, mas é uma aposta cheia de dúvidas.

picchi porcini e mousse de parmesão

porcini fresco e mousse de parmesão

bela textura para os La Tâche

Já o 1990, tudo que se espera de um La Tâche e seus aromas terciários. Pleno, com todos seus componentes integrados, exibe notas de couro, terra, chocolate amargo (cacau), num final de boca extremamente bem acabado. Por toda a expectativa que o cerca por ser da grande safra de 90, sempre esperamos um pouco mais. De todo modo, um grande final de prova.

picchi oremus eszencia 2002

Já no apagar das luzes, a estrela maior da enologia húngara, o néctar Oremus Eszencia 2002. Elaborado somente com as uvas Aszú (totalmente botrytisadas), elas são empilhadas em recipientes, onde o gotejamento natural pelo próprio peso das mesmas, dá origem ao caldo a ser fermentado lentamente por anos a fio. A concentração de açúcares perto de 600 gramas por litro dificulta sobremaneira a ação das leveduras. Portanto, apenas alguns graus de álcool são conseguidos. Neste caso, foram 3,5º graus. O segredo para este equilíbrio fantástico em boca é sua incrível acidez, na ordem de mais de 15 gramas por litro. Para se ter uma ideia deste número, é superior à acidez de um vinho-base de Champagne. Concentração absurda de sabores. Como diz um dos convivas, esse é para tomar de colher.

Enfim, tudo bem cuidado e coordenado no restaurante Picchi com atenção especial do Chef Paolo Picchi e o competente sommelier Ernesto e sua paciência nipônica.

O que me resta, senão agradecer a todos pela companhia, pela boa mesa, pelos belos vinhos, tudo em harmonia e boa prosa. Vida longa a todos e que Bacco nos proteja!

Bourgogne e Bordeaux em Harmonia

20 de Julho de 2017

Bordeaux e Bourgogne  são incomparáveis, mas podem conviver juntos, cada qual com seu brilho próprio. Foi o que aconteceu num agradável almoço entre amigos, onde a França falou alto, mostrando a excelência de seus vinhos.

Dando as boas vindas, um  Pessac-Léognan Blanc, terroir inconteste para brancos bordaleses fermentados em barrica. No caso, Chateau Pape Clément da bela safra 2009. O corte bordalês para este chateau privilegia um pouco mais a Sauvignon Blanc (50%), seguida de perto pela Sémillon (40%). Embora possa haver uma pitada de Muscadelle, o chateau dá preferência para outra branca pouco comum, chamada Sauvignon Gris. O vinho é fermentado em barricas de carvalho com bâtonnage, além de mais 16 meses de amadurecimento nas mesmas. A integração com a madeira é excelente, além de maciez notável sem perder o frescor. Foi muito bem com alcachofras marinadas, de entrada.

São 100  pontos Parker num vinho de incrível densidade e frescor ao mesmo tempo. Os toques de frutas exóticas como carambola, mel e ervas finas, permeiam o complexo aroma.

nino cucina pape clement 2009

corte bordalês em perfeita harmonia

Para mante o nível, tivemos que chamar Batman e Robin com um estupendo trio DRC pela ordem: Romanée-Saint-Vivant 2004, Romanée-Saint-Vivant 1985, e o majestoso La Tâche 1989. Nada mau!

nino cucina rsv 2004

Hoje é dia de maldade!. Matamos uma criança nascida em 2004. Este primeiro Romanée-Saint-Vivant com seus 13 anos de idade só foi começar a se mostrar depois de mais de uma hora de decantação com notas florais muito puras. A boca poderosa, quase agressiva, dando indicio de longos anos para domar seus finos taninos. Bela acidez e um equilíbrio fantástico.

nino cucina trio DRC

não tá fácil pra ninguém!

Aí chega sua versão: eu sou você amanhã. DRC Romanée-Saint-Vivant 1985. Silêncio para se observar os finos aromas terciários de um Borgonha deste naipe. Sous-bois, toques minerais divinos, fruta completamente integrada ao conjunto, especiarias delicadas, e um floral de fundo. Taninos absolutamente polimerizados, fornecendo uma textura sedosa e um final arrebatador. Já valeu o almoço!

nino cucina la tache 89

alguém já disse: um dos maiores vinhedos sobre a terra!

Só que um DRC sempre pode se superar, e aí chega sua majestade, La Tâche 1989. Bom, é hora de ligar o turbo e colocar a sexta marcha. Por incrível que pareça, ainda não está totalmente pronto, fruto de uma garrafa extremamente bem conservada. Taninos ainda presentes, mas de rara textura. Boca ampla, multifacetada, vai do Alfa ao Ômega, final expansivo, muito longo. Obrigado super Mário!

Você deve estar se perguntando, como é possível um Pinot Noir ainda não estar pronto com quase trinta anos?. Embora seja uma uva delicada, na Borgonha o ciclo de maturação da Pinot Noir é alongado ao extremo, permitindo um aporte de taninos acima do esperado. Some-se a isso, o fato dos DRCs serem vinificados com engaço, aumentando sobremaneira a estrutura de seus vinhos. Para isso ter sucesso, as uvas devem estar perfeitamente maduras, inclusive fenolicamente (taninos) falando.

iguarias para os DRCs

Não é fácil escolher comida para esses DRCs, sobretudo os dois mais antigos e complexos. Graças a Deus tinham algumas trufas para salvar a situação. Na fota acima, o restaurante Nino Cucina elaborou dois pratos com muita competência. O da esquerda, servido lindamente na frigideira, tratava-se de um Gnocchi maravilhoso com molho Taleggio, um dos melhores queijos do norte da Itália. Lascas de trufas negras por cima, completaram o quadro. Com o St Vivant 85, ficou uma maravilha. A textura de ambos se completavam, além das trufas darem campo para os divinos aromas terciários do vinho.

Já no prato à direita, um clássico do restaurante, talvez a melhor Língua de São Paulo. No caso, Língua ao molho de Mostarda em grãos (senape) com cebolas e batatas ao forno. O sabor e a textura desta língua são uma delicadeza sem fim. Precisão cirúrgica para envolver aqueles taninos ainda presentes no La Tâche 89 e deixa-lo desfilar à vontade, protagonizando a harmonização. Um gran finale!

alguns mimos para o Yquem 1998

Adoçando um pouco a vida, algumas especialidades da casa para escoltar o rei sol de Sauternes, Chateau d´Yquem. Com quase 20 aninhos, é uma boa fase desses vinhos capazes de atravessar décadas. A fruta ainda intensa, o mel perfumado, e os toques de Botrytis, se fundem bem na transição de aromas mais terciários. O belo Cannoli com raspas de laranja incita o lado cítrico e de juventude do vinho. Por outro lado, o Cucciolone, um biscoito de difícil elaboração com vários ingredientes na receita, envolvendo baunilha, cacau, malte, entre outros, complementado por uma calda de caramelo, instiga o lado mais doce e complexo do vinho. Enfim, este Yquem foi acariciado por todos os lados.

No final do almoço, um pessoal da Ficofi, da mesa ao lado, veio conferir e se surpreender com as maravilhas degustadas. Esta entidade de luxo reúne os melhores Chateaux e Domaines do mundo com ênfase evidentemente na França.

Um pouco mais de conversa e vários cafés encerraram este belo almoço, unindo de forma brilhante, Bordeaux e Bourgogne, além de França e Itália à mesa. Vida longa aos amigos de mesa e copo! Que Bacco nos abençoe sempre!

Le Montrachet

8 de Abril de 2017

Num dos livros de Hugh Johnson, ele diz: “No dia em que cair a última gota de chuva e for removido o último estrato geológico, ainda não se saberá por que a França é a indiscutível mestra dos vinhos”.

Esta frase resume bem os mistérios que fazem do Le Montrachet um dos brancos mais fascinantes do mundo, mesmo entre seus concorrentes diretos e vizinhos. Os fatores de terroir são muito sutis, em tentativas quase que românticas em explicar a nobreza de um dos mais espetaculares vinhedos sobre a terra.

Aproveitando o argumento, vamos a mais algumas tentativas …

le montrachet

No esquema acima percebemos gradientes diferentes na subida da encosta. Montrachet tem um aclive um pouco mais acentuado que Bâtard-Montrachet e bem menos que o vinhedo imediatamente acima, Chevalier-Montrachet. A proporção de argila no calcário também é intermediária, tornando o vinho mais encorpado, o suficiente para não ser tão pesado como Bâtard, e nem tão leve como Chevalier (solo pedregoso). Esses detalhes tentam explicar a maturação de uvas perfeitas num terreno de oito hectares de insolação suficiente e prolongada no verão, bem como drenagem correta do terreno com reservas de água no subsolo para enfrentar anos mais secos.

Teorias à parte, vamos ao desfile de Montrachets, separados criteriosamente por várias duplas sucessivamente.

amadeus leroy montrachet

os velhinhos do almoço

Como todo velhinho, já foram bons um dia. Aqui é uma viagem num tempo onde ainda não havia esse glamour e essa valorização excessiva dos vinhos, onde os mesmos tornaram-se verdadeiras commodities no mercado financeiro. Notem que o vinho da direita nem se dá ao trabalho de mencionar o termo Grand Cru no rótulo. Esses vinhos eram de Négociants, método muito utilizado na época e relativamente confiável, já que Maison Leroy (o velho Henry) tinha critérios bem definidos com seus parceiros, seja de uvas ou do vinho recém elaborado.

De todo modo, a safra 1978 confirmou seu potencial, como uma das mais espetaculares do século passado. Muito elegante, aromas delicados e etéreos, num final de boca muito agradável. Já seu companheiro, dez anos mais velho, apresentava sinais de cansaço absolutamente compreensíveis. Contudo, dava para notar sua concentração e com certeza, em algum momento de sua evolução foi um belíssimo branco com muita energia.

A escolha dos mesmos no início da degustação mostra o alto grau de conhecimento deste grupo, aproveitando ao máximo as sutilezas guardadas pelo tempo nestas duas garrafas, ainda com a boca virgem, sem interferência dos demais Montrachets, certamente mais intensos.

amadeus montrachet lafon colin

talvez, o flight do almoço

Vinhos de alto nível com perfis completamente opostos. Você até pode não gostar do Lafon, mas seu estilo é fiel e inconfundível. Vinho sem rodeios, intenso, macio, bem trabalhado na barrica, e extremamente sedutor. Além disso, 2007 é uma safra precoce, favorecendo o estilo deste produtor. Já o branco da esquerda, uma preciosidade, bem ao estilo da safra 2004 de destacada acidez. Yves Colin produz um décimo do que produz Lafon, que já não é muito. Estamos falando aqui de frações de hectares. Voltando ao vinho, sua acidez é impressionante, garantindo boa longevidade para este exemplar. Muito elegante, quase não se percebendo a barrica. Um verdadeiro Montrachet de guarda.

amadeus montrachet ramonet leflaive

disputa de gigantes

Não fosse a sutil tendência oxidativa de Madame Leflaive, seria um embate disputadíssimo. Infelizmente, depois da safra 2004, os brancos Domaine Leflaive não são tão confiáveis, variando muito de garrafa para garrafa. Este 2010 de safra irretocável é bem elucidativo. Percebe-se um belo extrato, longo em boca, mas com aquela pontinha oxidativa desagradável. Em compensação, seu oponente Ramonet estava impecável. Um balanço incrível entre acidez, álcool e madeira, deixando o vinho delicado mas ao mesmo tempo, com profundidade e presença. Delicioso agora, podendo evoluir bem nesta safra histórica de 2010. Nem parece que tinha 14% de álcool, perfeitamente integrado ao conjunto. Sério candidato a vinho do almoço.

amadeus montrachet drc e colin

potência e delicadeza lado a lado

Outra produção minúscula da família Colin numa safra lindíssima, 2005. Muito delicado, cítrico, floral, com final muito bem acabado. Já prazeroso, mas com ótimo potencial de guarda, tal o balanço de seus componentes, sobretudo acidez e álcool. Já o DRC 2011, uma criança a ser alfabetizada, na mais tenra idade. Assim como Lafon, DRC tem seu perfil inconfundível, potente, complexo, e impactante. Pede pratos substanciosos, sobretudo aves com molhos cremosos de cogumelos.

Comidinhas do almoço

amadeus vieiraamadeus camarao

para os Montrachets mais delicados

Os pratos da foto acima primaram pela perfeita textura de seus componentes, vieira e camarão, onde a simplicidade e correta técnica de execução fazem a diferença. Nos pratos da foto abaixo, sabores mais substanciosos. Guarnição de arroz negro para evidenciar a tenra cavaquinha e uma receita exclusiva da família Masano, restaurante Amadeus, de um Capeletti in Brodo surpreendente.

amadeus capeletteamadeus cavaquinha

para os Montrachets mais intensos

O lindo cuscuz de sardinhas apresentado abaixo, especialmente preparado para o grupo, foi outro destaque do almoço. Muito saboroso e extremamente úmido, transmitindo muito frescor dos ingredientes; palmito, azeitonas e ervilhas.

amadeus cuscus sardinha

outro destaque do almoço

Como o pessoal não sai da mesa sem tintos, a eterna disputa entre Borgonha e Bordeaux, para agradar a gregos e troianos. E depois desta avalanche “montrachista”, nada mau alguns goles de Latour 1995 e Richebourg DRC 2007, sem disputas, em convivência amigável.

amadeus richebourg latour

convivência harmoniosa

Falar de Latour é falar de consistência, estilo bem definido, potência com elegância. É o mais autêntico representante do Médoc com seus aromas de cassis, couro bem tratado, tabaco, terra, e vai por aí afora. Safra extremamente prazerosa, sobretudo pela qualidade e agradabilidade de seus taninos. Mais dez anos com folga.

Do lado borgonhês, outra safra prazerosa de 2007. Um Vosne-Romanée de taninos estruturados, viril, próprios dos grandes Richebourgs. Cerejas, especiarias doces e os toques florais de rosa negra, são avassaladores. Decantado por uma hora, já transmite muito prazer.

amadeus tokaji 5 puttonyosamadeus taça tokaji 80 anos

quando um branco vira tinto

Quando se começa em alto nível, não há espaço para deslizes. Encerrando este lauto almoço, a Hungria se faz presente. E que presente! um Tokaji 5 Puttonyos de mais ou menos 80 anos, pois o rótulo se perdeu no tempo. A uva Furmint, protagonista deste vinho, mostra toda sua estrutura e incrível acidez para suportar dignamente décadas a fio. Todos os empireumáticos e defumados presentes no aroma, textura delicada, e um frescor que só os grandes vinhos são capazes de manter.

amadeus charutos

Puros para três sobreviventes

Ivan, o terrível, nos proporcionou estas maravilhas. H. Upmann torpedo, pai do famoso Montecristo nº2, só que de uma reserva especial, conforme anilha dupla. Fluxo perfeito e potência na medida certa.  Entre Portos, cafés e rums, mais um pouco de conversa. Faltou uma pessoa neste crepúsculo, igualmente amante de Vuelta Abajo, que tem saído pela tangente ultimamente. Fica minha cobrança enfumaçada. Abraços a todos! até breve.

Fazenda Sertão: Enogastronomia

26 de Dezembro de 2016

Num evento empresarial, interior de São Paulo, pratos e vinhos desfilaram em harmonia, comemorando o final do ano. A recepção não poderia ser melhor, Dom Pérignon 2000 em Magnum. Com seus dezesseis aninhos, parece que o tempo não passou. Vibrante, fresco, muito equilíbrio, e a elegância de sempre com seus toques de brioche.

fazenda-sertao-dom-perignon

dando o tom do evento

Enquanto o pessoal chegava, o champagne ia refazendo paladares em meio a amuse-bouches diversos. Um pequeno grupo dentre os participantes, desceram à adega para degustar alguns vinhos. Um deles, o grande nome da apelação Hermitage, Paul Jaboulet La Chapelle da estupenda safra 1990, com 100 pontos Parker. Pode até não ter cem pontos, mas é uma maravilha. Depois de duas horas de decantação, começou a se abrir com toques de chocolate, cacau, defumados, geleia de frutas escuras, entre outros aromas. A boca é grandiosa com taninos em abundância, mas extremamente finos. Muito equilibrado e uma persistência monumental. Pelo seu atual vigor, podemos dizer que trata-se de um vinho imortal.

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grande safra em garrafa magnum

Para os primeiros pratos do jantar, uma Double Magnum (três litros) de Corton Charlemagne Grand Cru Bouchard Père & Fils safra 2004. Esplendoroso, lembra um pouco outro Grand Cru magnifico Chevalier-Montrachet, por sua elegância e delicadeza. Fruta expressiva, frescor estimulante, balanço incrível com os toques de barrica, e muito equilibrado. Com seus 12 anos, continua integro e com muita vida pela frente.

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Corton, a montanha dos Grands Crus

Abaixo, um dos pratos iniciais, acompanhado pelo branco acima. Ravioli de queijos com Brie ao molho de manteiga, trufa e pinolis sobre leito de couve. A gordura do queijo e da manteiga foi compensada pela acidez do vinho, enquanto os sabores delicados das trufas e pinolis casaram com a complexidade do mesmo.

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delicadeza e simplicidade

Já nos pratos mais robustos, sobretudo carnes, entra em cena uma Jeroboam (quatro litros e meio) de Chateau Haut Brion 1975. A safra é polêmica, mas o vinho beira a perfeição. Seus mais de 40 anos deram a maturidade que se espera de um grande Bordeaux. Os aromas terciários reinam em harmonia com toques de couro, tabaco, especiarias e um lado terroso de grande mineralidade. A boca é perfeita, equilibrada, taninos ultrafinos e agradavelmente persistente. Uma maravilha!

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a apelação nesta época ainda é Graves

Um dos pratos mais emblemáticos com esse vinho foram as costeletas de cordeiro (foto abaixo) com risoto de açafrão, molho do assado e trufas. A textura delicada do prato casou muito bem com a maciez do vinho e seus taninos totalmente polimerizados. Os aromas e sabores finos do prato arrematou toda a complexidade aromática do tinto. Enfim, prato e vinho se valorizando.

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costeletas tenras e saborosas

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cavaletes posicionados

No serviço de garrafas grandes, de tamanhos especiais, o uso do cavalete é muito útil, além de charmoso. Com esse mecanismo, sobretudo para os tintos, vamos abastecendo os decanters, de acordo com o consumo do vinho. Os sedimentos vão se assentando pouco a pouco no eixo da garrafa. No decanter final, tomamos o cuidado para desprezar (deixar na garrafa) uma pequena quantidade de vinho  com a borra.

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um Borgonha de sonhos

Nos últimos pratos do jantar, foi servido um dos maiores tintos da Borgonha de todos os tempos, DRC Romanée-St-Vivant 1978. A safra na verdade é estupenda, mas este vinho é tudo que se espera de um Borgonha envelhecido. Este Grand Cru de vizinhança nobre, faz valer a frase: “Em Vosne-Romanée não existem vinhos comuns”.  Os aromas de trufas, terra, rosas, licor de cerejas negras, especiarias, incenso, e vai por aí afora, são encantadores. Os taninos, se é que existem, são de outro mundo. Equilibrado, harmônico, e de final encantador. Um devaneio!

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filé Rossini: releitura

O prato acima coincidiu com a chegada do Romanée-St-Vivant 78. A textura da massa, e do próprio filé mignon se adequaram ao vinho. Os sabores do molho, das trufas, do foie gras, se entrelaçaram com todos os componentes terciários do vinho, numa rara harmonia. Um final de jantar glorioso.

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mil-folhas e crème pâtissière

Nas sobremesas que eram várias, a da foto acima acompanhou com competência o Chateau d´ Yquem 1999. Os sabores do prato casam bem com os toques de fruta e caramelo do vinho, além da textura cremosa de ambos. Num bom momento para consumo, mas Yquem evolui com tranquilidade por muitos anos em adega.

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o rei dos Sauternes

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pudim e bolo de chocolate caseiros

A sobremesa acima sintetiza a harmonização com os dois vinhos doces servidos. O pudim de leite com Yquem, fazendo a vez do crème brûlée, e o bolo de chocolate com Vinho do Porto. Neste caso, um Taylor´s Vintage 1985. Uma bela safra completando pouco mais de trinta anos. Em pleno vigor, seus aromas terciários começam a prevalecer, vislumbrando um futuro brilhante. Cor ainda escura, taninos presentes, mas bem moldados, e muita riqueza em boca. Os aromas primários de frutas escuras em geleia se fundem aos toques de especiarias, tabaco, chocolate e um fundo mineral, compondo o lado mais evolutivo do vinho.

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Taylor Fladgate: especializada em Vintages

O Porto ainda acompanhou os Puros na varanda com Cohibas de várias bitolas, incluindo os Behikes. Que o ano novo comece tão bem quanto o término deste. Feliz 2017!

Borgonhas à Mesa

29 de Junho de 2016

Quando Borgonhas são bem escolhidos é preciso comemorar, divulgar, enfim, marcar o evento, pois este desafio costuma ser frustrante. Neste encontro com dois grandes amigos no restaurante Emiliano, tudo correu “comme il faut”. Da entrada ao cafezinho, só boas surpresas. Aliás, comida de primeira num ambiente tranquilo e sem filas.

de sousa zoemie cuvee precieuse

Preciosismo em Blanc de Blancs

O champagne que abriu os trabalhos cumpriu sua função com maestria, fazendo o papel de um verdadeira Blanc de Blancs: leveza, frescor e papilas estimuladas. Embora no rótulo não tenha a menção Blanc de Blancs, apenas cuvée Precieuse, trata-se de uvas 100% Chardonnay de vinhedos Grand Cru nas comunas de Avize, Cramant e Oger, todas na sub-região da Côte des Blancs. Champagne muito delicado, perlage e mousse adoráveis, com um final limpo e estimulante. Perfeito!. Importado pela Decanter.

puligny-montrachet les perrieres

Puligny de Terroir

Com o prato de entrada, um Puligny-Montrachet do produtor Louis Carrillon & Fils extremamente bem elaborado. O Premier Cru Les Perrières, vinhedo de pouco menos de um hectare, faz a transição para a comuna de Meursault. Isso fica bem nítido no vinho, onde percebemos um nariz de Puligny, mas a textura em boca é mais para Meursault. Num estilo elegante, o trabalho de bâtonnage é muito bem feito em barricas, sendo uma pequena porcentagem delas, novas. Fruta delicada, leve toque amanteigado da malolática enriquecido com notas  de especiarias, fez um par perfeito com prato de ravioli de vitela em molho de manteiga e sálvia (foto abaixo). Além dos aromas e sabores se complementarem, a sintonia de texturas foi perfeita.

Encerrando a primeira parte, a bela acidez deste branco garante uma boa longevidade. Foi decisiva no equilíbrio gustativo, contrapondo com maestria sua agradável maciez. Final de boca rico e complexo. Importado pela Mistral.

ravioli de vitela restaurante emiliano

leveza e sutileza de sabores

Mantendo o nível do branco, este Premier Cru de Vosne-Romanée (foto abaixo) fez bonito. Michel Gros elabora este belo tinto no vinhedo Aux Brûlées de vizinhanças nobres como Cros Parantoux, Richebourg e Les Souchots. São apenas 63 ares, pouco mais de meio hectare, em solo pedregoso e sub-solo calcário. O vinho amadurece em média 18 meses em carvalho, sendo de 50 a 80%  barris novos para os tintos Premier Cru com este, dependendo da safra. Em particular, 2005 foi excelente na região. Reflete-se em todo o vinho, a começar pela cor de intensidade marcante. Seus aromas de cerejas escuras e um toque agradavelmente defumado são dominantes. Em boca, um equilíbrio fantástico, onde a estrutura de taninos é marcante e presente. Contudo, são taninos de alta qualidade e de textura inigualável. Certamente, esses componentes vão permitir uma longa guarda, pelo menos mais dez anos.

aux brulees premier cru 2005

a sagrada comunhão de produtor, terreno e safra

O prato abaixo, um leitão assado em seu próprio molho guarnecido de mil-folhas de batatas, garantiu o bom casamento. Os sabores do assado e da própria carne ligaram-se perfeitamente ao vinho. Além disso, o corpo, textura e intensidade de sabores estavam sintonizados. A agradável gordura entremeada à carne foi devidamente combatida pela precisa acidez do vinho. Realmente, uma harmonização de detalhes.

leitao assado restaurante emiliano

precisão no ponto do assado

Em resumo, a enogastronomia foi praticada em alto nível com pratos e vinhos de grande precisão e singularidade. Poucas vezes este feito é atingido, embora na maioria dos casos, pratos e vinhos estejam bem representados individualmente. Mas é isso, geralmente quando as expectativas são mais comedidas, as surpresas costumam aparecer. Nesta noite, rondamos a perfeição. Obrigado aos amigos!, verdadeiros especialistas da Terra Santa.

Tintos da Borgonha: Top Ten

23 de Junho de 2016

Tempos atrás fiz um ranking pessoal dos melhores tintos de Bordeaux provados ao longo de mais de 20 anos. Agora, chegou a vez dos tintos da Borgonha. É sempre uma escolha difícil, até porque a memória nos trai. Em todo caso, segue abaixo alguns vinhos com a ressalva ao longo do tempo de serem modificados. De qualquer modo, são vinhos especiais, e que dificilmente irão decepcionar aqueles que experimentarem. É bom frisar também, que não sou um especialista na matéria, mas alguém já disse: o gosto é soberano!

la tache 1990

Hug Johnson: Um dos melhores vinhedos sobre a Terra

A ordem da lista não significa prioridades ou escala de pontuação. Evidentemente, são vinhos sob meu critério, acima de 95 pontos, ou seja, obras de arte.

  • DRC Romanée-Conti 1985

vinho difícil que precisa de tempo. acho que com seus mais de trinta aninhos mostra suas verdadeiras virtudes.

  • DRC La Tâche 1990

normalmente, agrada mais que o mito acima na maioria das vezes.

  • DRC Romanée-St-Vivant 1978

um vinho de sonhos. É o meu preferido do Domaine e nesta safra, extrapola as expectativas.

  • Henri Jayer Cros Parantoux 1988

aqui é um homenagem ao monstro sagrado da Borgonha, Henri Jayer. Poderia ser outra safra ou qualquer um de seus tintos. A delicadeza e longevidade desses vinhos não tem descrição a meu ver.

  • Clos de Tart

Novamente, independe da safra. particularmente, as safras 88 e 96 são magnificas. Um dos poucos da Borgonha capazes de encarar o mito (Romanée-Conti).

  • Domaine Jacques-Frédéric Mugnier Chambolle-Musigny Premier Cru Les Amoureuses

Independente da safra, mas com este produtor. você não completará a Borgonha sem ter provado esta obra-prima. A linha tênue que separa o encantamento da mediocridade, só Mugnier chegou mais perto.

  • Domaine Ponsot

Independente de safra, seus Grands Crus Clos St Denis e Clos de La Roche, todos vinhas velhas, são de uma profundidade impar. O silencio depois da prova é inevitável.

  • Domaine Rousseau

Seus Chambertins são espetaculares. Difícil escolher um. Até seu Premier Clos St-Jacques é inesquecível.

  • Domaine Méo-Camuzet

Seus Grands Crus Richebourg e Clos de Vougeot são raros, caros e divinos. A essência de Vosne-Romanée.

  • Domaines Michel Lafarge e/ou Marquis D´Angerville

Uma homenagem aos tintos da Côte de Beaune com dois domaines espetaculares. Não são Grands Crus, mas seus Volnay topo de gama são de uma delicadeza impar. Lafarge, mais feminino. D´Angerville, mais viril. Premiers Crus como Clos des Chênes, Chateau des Ducs e Clos des Ducs, são sensacionais e podem envelhecer dignamente.

clos te tart 2007

Terroir de séculos

Reparem que com exceção do último vinho, todos os demais são da Côte de Nuits, berço espiritual da Côte d´Or e por conseguinte, de toda a Borgonha. Todos são Grands Crus distribuídos pelas famosas comunas de Vosne-Romanée, Chambolle-Musigny, Morey-St-Denis e Chambertin.

richebourg meo camuzet

exclusividade: menos de meio hectare

Além dos Premiers Crus da Côte de Beaune como última indicação, Les Amoureuses também inclui-se nesta classificação. Contudo, este tinto por si só, já é uma exceção.

henri jayer cros parantoux

o mito engarrafado

Há uma lacuna nesta classificação que precisa ser explicada. Os vinhos do Domaine Leroy. Infelizmente, os vinhos tintos do Domaine e não da Maison Leroy ainda não os provei. O branco Corton-Charlemagne é divino. Penso que os tintos devem seguir o mesmo caminho. Como disse, uma lista como essa jamais pode ser definitiva. A fila anda …

mugnier les amoureuses

a epítome da delicadeza

Todos esses vinhos são tintos de guarda que precisam pelo menos dez anos para se expressarem plenamente, alguns bem mais, especialmente Romanée-Conti, Clos de Tart e Domaine Ponsot.

Vinhos da Arca de Noé: Parte II

9 de Março de 2016

Saindo da arca de nosso Noé, segue agora o desfile de tintos, e que tintos!. Evidentemente, começamos pelos borgonhas. Na mais, nada menos, que DRC (Domaine de La Romanée Conti) e Madame Leroy. Em seguida, um ilustre intruso do Rhône (Jean Louis Chave). Na parte bordalesa, dois pares de margem direita (Clinet, Le Pin e Petrus), e finalmente, dois pares da margem esquerda (Latour e Haut-Brion). Então, vamos a eles!

leroy clos de la rocheElegância: marca inconteste de madame Leroy

Clos de La Roche é um dos Grands Crus de Morey-St-Denis. Tinto de raça e certa austeridade, mas nas mãos de Madame Leroy tem uma graciosidade ímpar. O 2001 mais típico, taninos macios, aromas minerais e de rosas muito bem delineados. 2003 mais robusto, concentrado, típico da safra. Taninos mais presentes e muito persistente no final de boca. Bela interpretação das duas safras.

la tache e richebourg

Safra e vinhos esplendorosos

Quando estamos diante de um DRC da safra de 90, precisamos de um minuto de silêncio para cair a ficha. Alguém ja disse que La Tâche é um dos maiores vinhedos sobre a terra. E não há dúvida, o vinho é de uma complexidade e equilíbrio em boca quase indescritíveis. Contudo, ainda não está totalmente pronto. Há alguns mistérios a serem desvendados. Por isso, neste momento, o Richebourg torna-se mais prazeroso. Nariz com toda a complexidade da Pinot Noir e boca absolutamente macia, deliciosa. Momento importante da degustação.

chaves hermitage

O melhor Hermitage: com ou sem H

Dizem que o grande Hermitage vem de produtores que mesclam um maior número de vinhedos da apelação. Pois bem, Jean Louis Chave possui o maior número de “Climats” para fazer esta mescla. Embora o Cuvée Cathelin à esquerda da foto seja um cuvée de partidas mais concentradas escolhidas a dedo,  seu Hermitage clássico à direita me agrada mais. Talvez por estar mais pronto. Contudo, estamos diante de um par sensacional da irrepreensível safra de 90. Os aromas de frutas escuras, minerais e de especiarias invadem nosso palato.

le pin e clinet

Pomerol em alto nível

A safra de 89 moldou grandes tintos em Bordeaux. E no caso de Pomerol, não podia ser diferente. Talvez tenha sido o flight menos acirrado do painel de tintos. Embora Clinet seja um belo Château, sobretudo nesta safra, a comparação é um pouco cruel. Le Pin esbanja elegância sem precisar usar força. É bem verdade que está mais pronto que seu concorrente, mas é extremamente prazeroso. Clinet ainda pode surpreender com mais alguns anos. É esperar para ver.

petrus 64 e 67

Raridade: Petrus em sua maturidade

Petrus é diferente de tudo em Pomerol. Talvez por isso reine isolado e chega a ser atípico para a apelação. Eu o chamo de Latour da margem direita. Embora com seus 50 anos, este par ainda tem pernas para andar muito. Vinho denso, muito estruturado e de longa persistência. Briga muito acirrada, mas pessoalmente, acho o 64 uma cabeça à frente.

latour 45 e 64

Latour: quase imortal

Falando em Latour, olha ele aí!. Os dois seguem o perfil do flight anterior. Densos, profundos, quase indestrutíveis. Toda a essência de Pauillac está nestas garrafas. O cassis, o mineral, a caixa de charuto, entre outros aromas. Pessoalmente, achei o 64 mais estruturado. Entretanto, pode ser a diferença de idade, já que 45 é um ano lendário. Na dúvida, fique com os dois.

bochecha de boi

último prato: bochecha de boi e purê de grão de bico

haut-brion 59 e 61

Haut-Brion: elegância ao extremo

Este último par pode não ter a estrutura, a pujança, o poder, de um Petrus ou um Latour, mas certamente sobra elegância. 1959, minha safra, era puro deleite. Tudo no lugar, tudo resolvido, e o melhor, num platô amplo de estabilidade. Nenhum sinal de declínio. O 1961, também com muito prazer, mas trazia a marca da safra. Ainda uma certa austeridade, com taninos presentes. Flight sensacional.

Calma, ainda não acabou. Temos a sobremesa, os charutos, e claro, mais vinhos. Mais um tempinho, no próximo artigo. Até lá!

Amigos Especiais

6 de Outubro de 2015

Os encontros enogastronômicos entre amigos deixam sempre boas lembranças, um astral renovado e a expectativa que o próximo não tarde a chegar. Vários vinhos desfilaram, mas o embate Bourgogne x Bordeaux era o mais esperado, conforme relato abaixo.

Ferrari Perle 2006

Ferrari: quase um champagne

Sempre que possível, gosto de testar um Ferrari com amigos e sentir suas reações. Quase sempre muito positivas, e concordando que perante champagnes mais comerciais e de alta produção, Ferrari está  um passo a frente. Além disso, trata-se de um Blanc de Blancs, elaborado somente com Chardonnay. Leve, delicado, elegante, perfeito para iniciar os trabalhos. Este da safra 2006 passou cinco anos sur lies antes do dégorgement.

Ott Romassan 2013

Domaines Ott: referência em rosés na Provence

Os rosés da Provence são encantadores, sobretudo os três do Domaines Ott. Este em especial, Chateau Romassan, provem de vinhedos na região de Bandol, onde a cepa Mourvèdre é protagonista. Apesar de bem estruturado, os toques delicados de frutas, flores, especiarias, garantem a elegância e equilíbrio habituais. A cor salmonada de grande delicadeza tem a ver com o processo de prensagem das uvas que neste caso chama-se pressurage (obtenção de cor com pressão delicada das uvas e um breve tempo de contato). Acompanhou muito bem o típico prato abaixo provençal recheado de legumes chamado Tian.

tian de legumes

Rosé combina com legumes, alho e ervas

dufort-vivens 2000

A safra 2000 confirma sua longevidade

Não é fácil comparar um Bordeaux a um Bourgogne. Chega a ser até uma certa heresia. Contudo, com um pouco de bom senso é possível haver uma aproximação. Por ser da comuna de Margaux e ser um Chateau delicado, achei que um Dufort-Vivens de quinze anos de safra estaria de bom tamanho. Só não contava com a potência da safra 2000, safra realmente de grande longevidade. A cor sem nenhum sinal de evolução, os aromas predominantemente primários e taninos ainda bem presentes. O lado de frutas escuras (cassis) e toques minerais sobressaíram. Boca muito bem equilibrada, taninos finos, mas ainda a resolver. Talvez mais dez anos em adega possa atingir o auge.

sylvain cathiard 2003

Cathiard: uma pérola no santuário de Vosne

Meu amigo Roberto Rockmann, especialista em vinhos borgonheses, é que pinça essas preciosidades. Sylvain Cathiard é um pequeno vigneron com pouco hectares dentro de Vosne-Romanée, entre os quais, o Premier Cru acima, Aux Malconsorts da temida safra de 2003. Um tinto com a elegância e os mistérios da comuna. Os aromas delicados e profundos dos tintos da Côte de Nuits. Toques florais, terrosos, de carne, especiarias e incenso, alternam-se na taça, intrigando-nos do começo ao fim. Taninos de rara textura e um final de boca expansivo. A grande estrela do almoço.

Sylvain Cathiard exporta praticamente tudo que produz de minúscula produção. Estados Unidos e Reino Unido lideram a fila. São parreiras de mais de quarenta anos com rendimentos ínfimos. Este vinho degustado provem de parreiras bem próximas ao majestoso La Tâche DRC (Domaine de La Romanée-Conti), vizinhança ilustre. Seus vinhos passam por pelo menos 70% de madeira nova no amadurecimento. e onde está a madeira? o gato comeu. É a força do terroir!

yquem 1999

O soberano Yquem em qualquer safra

Finalizando os serviços à mesa, um Yquem 1999 aparece. Evidentemente, para a longevidade deste mito encontra-se em tenra idade. Seus aspectos visuais são dourados e bem vivos. Aromas inebriantes e intensos. Boca extremamente macia, sedosa, bem dosada em açúcar e principalmente, com aquela acidez que dignifica os grandes vinhos doces. Não é das grandes safras, mas quem é rei nunca perde a majestade. Grande fecho de refeição.

montecristo 2008

Puros safrados e de edição limitada

Agora, partindo para os cafés, chás e boa música, Puros  e Porto Tawny Quinta da Romaneira embalam noite adentro. Nessa hora, os comentários do encontro, a boa conversa e sobretudo, projetos para os novos encontros. De preferência, bem rápidos. Abraço a todos!

Clos des Réas: Uma visão triangular

30 de Junho de 2015

Em Vosne-Romanée a hierarquia que separa os Grands Crus e Premier Crus nem sempre é tão marcante. Certos Premiers caminham numa linha tênue entre essas classificações. É o caso do Cros Parantoux, comentado em artigos anteriores neste mesmo blog, quando ainda era gerenciado pelo mítico Henri Jayer. Outro de grande destaque é Malconsorts, ao lado do imponente La Tâche. O elegido para o presente artigo é o monopólio Clos des Réas da família Gros, mais especificamente de Michel Gros, conforme foto abaixo. Em termos de altitude, o vinhedo fica um pouco abaixo da linha inferior dos Grands Crus (250 metros ao nível do mar). Em anos mais secos, pode ser uma vantagem devido a melhores reservas hídricas. Não confundir este vinhedo com Aux Reás, um dos Villages de Vosne-Romanée a oeste, de área bem maior, caminhando para a comuna de Nuits-Saint-Georges, de vinhos mais firmes e um tanto rústicos para os padrões de Vosne.

Clos: vinhedo murado

Vinhedo de 2,12 hectares em formato triangular (vide mapa abaixo) com solo típico dos grandes terroirs de Vosne. Solo argilo-calcário com destaque para o segundo componente, em meio a fósseis  de outras eras geológicas calcinados em pedra calcária de cor salmonada. Este perfil confere vinhos elegantes, além da ótima drenagem do terreno. A vinificação é feita com total desengaço das uvas. A fase fermentativa passa por remontagens e pigeages constantes para uma melhor extração e homogeneização do mosto. O vinho amadurece em barricas de carvalho majoritariamente novas (50 a 80%, dependendo da safra) por 18 meses.

Parte Central: Constelação de Grands Crus

Michel Gros assumiu o comando do vinhedo em 1995, após uma repartição de propriedades em família. Sua primeira safra dá-se em 1996. Entre outros vinhedos, como Aux Brullés já comentado neste blog, possui seu único Grand Cru, uma parcela ínfima em Clos de Vougeot, apenas 0,2 hectares, ou seja, dois mil metros de área total. Sua localização no alto da colina é privilegiada, fazendo vizinhança com o Grand Cru Grands-Échézeaux.

Não encontrado no Brasil

O exemplar acima degustado mostrava-se ainda com uma cor jovem e um centro de copo bem preenchido. Os aromas foram se desenvolvendo pouco a pouco com a típica elegância dos vinhos de Vosne. As frutas escuras lembrando cerejas, os toques de especiarias, alcaçuz e notas balsâmicas. Gustativamente, um bom ataque de acidez (frescor) e uma estrutura tânica sólida, completando um bom meio de boca. Equilibrado, taninos sedosos, presentes, e um final bem acabado, com todos os componentes em harmonia. Deve evoluir com segurança por mais dez anos.

Mudança de Adega: Entre um gole e outro

3 de Maio de 2015

Um dos trabalhos do sommelier é também montar adegas novas ou transferi-las para um novo local. Este foi o caso de um grande amigo que mudou recentemente de endereço. Possuidor de um arsenal de mais de três mil garrafas cuidadosamente selecionadas ao longo dos anos. E que arsenal! Pode não ser das maiores do Brasil em quantidade, mas a qualidade e o garimpo de seus vinhos são irrepreensíveis. Apaixonado pelos bordaleses, os melhores chateaux e as melhores safras de ambas as margens estão lá. Outro fascínio, são os DRCs de Vosne-Romanée. Uma coleção completa destes borgonheses fantásticos com algumas safras memoráveis. A prateleira de recepção da adega é repleta de Imperiais (seis litros) destes mitos citados acima. Sem contar com a bela coleção de Vegas (espanhóis), Yquem, e Domaine Leflaive.

Painel Romanée-Conti

O painel acima está no centro, em destaque, da prateleira de DRCs. Mas antes desta montagem, muito trabalho. Com a chegada dos vinhos na nova residência foi preciso um trabalho árduo, de muita paciência, para separar e classificar os vários Chateaux, Domaines, separando por safra, vinhedos ou cuvées especiais, se for o caso, para poder planilha-los de forma cartesiana e lança-los no computador, ou seja, a adega virtual. A foto abaixo, nos dá uma ideia do tamanho do problema.

A bagunça sendo organizada

Evidentemente, nem tudo é trabalho. Em determinados momentos a generosidade do proprietário brindava-nos com alguns mimos, conforme a sequência abaixo:

Referência na apelação Volnay

Quando pensamos em alto nível na comuna de Volnay (Borgonha), imediatamente nos vêm Domaine Lafarge e Domaine Maquis d´Angerville. O primeiro já foi descrito em artigo neste mesmo blog. Este acima da safra 97 ainda é uma criança. Podemos dizer que foge até um pouco da tipicidade da apelação, pois Volnay elabora tintos elegantes, sedosos, acessíveis, mesmo na juventude. Este porém, tem caráter masculino, estrutura tânica portentosa. A cor mostra-se jovem, aromas um tanto fechados, sugerindo cerejas negras, alcaçuz, especiarias e uma nota tostada. A boca impressiona por sua estrutura. Taninos bem delineados, mas em quantidade suficientes para mais uma década, pelo menos. E olha que estamos falando de uma safra acessiivel (97). Realmente, é vinho de longa guarda.

Um Pomerol de livro

Já tive o privilégio de participar de uma extensa vertical de Le Pin, e este 85 é encantador. Com seus trintas anos, continua sedutor, macio, equilibrado e sem sinais de decadência. As ameixas em calda, as flores, o toque terroso e de especiarias, confirmam os descritores clássicos desta pequena apelação. Aliás, a safra 85 é encantadora para a maioria dos grandes bordaleses.

Um Lafleur parrudo

Este exemplar da safra de 1990 mostra um Lafleur quase indestrutível. Cor muito pouco evoluída, aromas não completamente desabrochados e uma estrutura tânica impressionante para um margem direita. Talvez a alta proporção de Cabernet Franc e a potência da safra expliquem esta estrutura. Os aromas de frutas escuras, tabaco, minerais e especiarias, foram se mostrando lentamente com algum tempo nas taças. Deve ser obrigatoriamente decantado por pelo menos duas horas. É páreo para um bom Confit de Pato.

Yquem 75 : para ficar na memória

Já tomei alguns Yquems de peso como as safras de 83, 86 e 2001, mas este 75 em formato Magnum, mesmo com o problema acima, foi memorável. Algo absolutamente  inédito nesta garrafa com a rolha soltando-se dentro do liquido e apenas a capsula, segurando todo o conteúdo, sem nenhum vazamento. O vinho com uma cor âmbar brilhante estava adequada para a idade (40 anos). Os aromas de caramelo escuro, notas de coco, marron-glacê, doces mineiros cristalizados, curry, entre outros, eram deslumbrantes. E a boca? Esplendorosa! Uma harmonia entre os componentes de álcool, acidez e açúcar, em perfeito equilíbrio. Tudo isso era transportado por uma viscosidade única, devido a altas taxas de glicerol que neste caso, é perfeitamente perceptível. Uma persistência interminável, expansiva, como se houvesse compassadamente lufadas deste liquido indescritível. O melhor Yquem tomado até hoje. Nunca se sabe o dia de amanhã…

Continuando a bagunça

Mais alguns dias de trabalho e algumas paradas sedentas. Numa delas dois exemplares dos injustiçados Bordeaux brancos. Dois Châteaux de peso na comuna de Pessac-Léognan, zona norte de Graves, bem próximo à cidade de Bordeaux. Vamos a eles!

Bela estrutura

Os tintos do chateau acima são encantadores. Este branco da safra 2009 é altamente pontuado pela crítica especializada. Uma bela cor, aromas ainda tímidos lembrando minerais e cogumelos. Em boca, um belo corpo, muito macio e com uma certa untuosidade. Consequência da boa proporção de Sémillon no corte e um longo período sur lies (contato com as leveduras) e bâtonnages frequentes. Deve evoluir com o tempo, tornando-se um branco bastante gastronômico.

Haut-Brion: O Ícone da região

Num estilo totalmente diferente do branco anterior, este exemplar prima por seu frescor, vivacidade e elegância. Sem dúvida, disputa a primazia dos brancos bordaleses com seu grande rival, Château Laville Haut-Brion, o grande branco do Château La Mission Haut-Brion. Curiosamente, a partir da safra 2009 passou a ser chamado Château La Mission Haut-Brion Blanc. Voltando ao Haut-Brion,  seus aromas cítricos, alimonados e até lembrando a carambola destacam-se com as notas de madeira elegante. Alta proporção de Sémillon também, mas a fermentação dá-se em barricas de carvalho parcialmente novas. Embora haja bâtonnages, a maciez é mais discreta, prevalecendo a vivacidade. Um clássico a ser provado entre os amantes de Bordeaux.

Felicidades ao amigo, e que seu novo lar proporcione momentos de paz, felicidade, alegria e muitos brindes, aliados a seu bom gosto e enorme generosidade. Santé pour tous!


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