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Bordeaux: Briga de Vizinhos

16 de Abril de 2019

Separados por uma rua, os Chateaux Haut Brion e La Mission Haut Brion convivem em  harmonia em Pessac-Léognan. Na verdade, existe uma briga saudável pela excelência de seus vinhos, sendo praticamente impossível dizer quem é o melhor, a não ser pelo gosto pessoal, algo bastante subjetivo. 

 esse branco te leva para o céu!

Para abrir os trabalhos, começamos com um par de borgonhas de tirar o fôlego. Primeiramente, o branco acima já degustado várias vezes, confirma sua excelência, Domaine d´Auvenay. Neste Puligny Premier Cru, produção de apenas 900 garrafas,  uma vinificação impecável de Madame Leroy. Um branco cheio de aromas elegantes, muito bem balanceado e uma persistência sem fim. Bate muito Montrachet com folga.

img_5905vinhedo com nível de Grand Cru

O segundo vinho, trata-se de um dos vinhedos mais respeitados com Premier Cru. Juntamente com Les Amoureuses e Cros  Parantoux, talvez sejam os vinhedos mais expressivos na categoria Premier Cru com nível de Grand Cru. Esse que provamos do Domaine Fourrier, é o número 5 do mapa abaixo com menos de um hectare, apenas 0,89 hectare. O maior de Armand Rousseau é o número 1 com 2,21 hectares. Sylvie Smonin 2, Louis Jadot 3, e Bruno Clair 4, completam a lista com 1,6 ha, 1 hectare, e 1 hectare, respectivamente.

Um belo exemplar não denotando a maioridade com 18 anos de vida. Um tinto ainda com muita fruta, toques de incenso e especiarias. É um belo produtor, mas num pontinho abaixo de Rousseau. Um Chambertin de respeito.

clos st jacques vignoble

cinco produtores com a maior parcela para Rousseau

img_5907grandes garrafas

Finalmente, chegamos ao embate de gigantes com os quatro vinhos servidos às cegas nas belas safras de 89 e 90. São praticamente 400 pontos na mesa destes chateaux fora de série. Uma das degustações mais difíceis, tal o nível elevadíssimo de seus vinhos.

No flight acima, um páreo impressionante. O La Mission 89 (100 pontos) tinha características de maciez semelhante ao 90, porém com mais corpo e extrato. Dava a entender que podia ser o grande Haut Brion 89. Agora o Haut Brion 90 (98 pontos) estava magnifico. Era o vinho menos pronto do painel com certa austeridade, mas taninos finíssimos. Um vinho de longa guarda que necessita de decantação para ser apreciado no momento. Enfim, um flight às cegas muito difícil.

img_590689 sem o brilho habitual

Neste embate, estamos comparando um vinho de 100 pontos (Haut Brion 89) com um vinho de 96 pontos (La Mission 90). Primeiramente, o La Mission estava delicioso, macio, envolvente, e muito mais acessível que seu oponente de flight. Embora o Haut Brion 89 seja um vinho irretocável com 100 pontos inconteste e um dos melhores Bordeaux das últimas décadas, esta garrafa não estava tão esplendorosa como deveria ser. Portanto, não estava tão clara sua supremacia.

Analisando os dois flights extremamente equilibrados, podemos perceber que os dois Haut Brions tem uma certa austeridade frente aos La Missons, devido à presença maior das Cabernets no corte. Os vinhos parecem mais tânicos. Já os La Missions tem maior porcentagem de Merlot no corte, proporcionando vinhos mais macios.

pratos bem executados

Alguns pratos do extenso menu do restaurante Dom se destacaram. Um peixe amazônico muito bem cozido com molho delicado e farofa, além de um prato com mix de cogumelos bastante distinto. O serviço de sommellerie impecável da sempre simpática Gabriela Monteleone.

Voltando aos vinhos, fica mais uma vez provada a enorme injustiça de colocarem apenas o Haut Brion como única exceção do Médoc na classificação de 1855. Já que é para fazer exceções, que corrigissem a  injustiça de não incluir o La Mission Haut Brion na lista, um dos chateaux mais bem pontuados em toda história por Robert Parker.

Por fim, é bom frisar que estas conclusões estão longe de serem definitivas. A cada degustação, a cada desafio às cegas, as impressões podem mudar radicalmente, principalmente levando em conta o estado das garrafas em si e como elas evoluem  de adega para adega com seu histórico muitas vezes incerto.

Assim é mundo do vinhos, cheio de incertezas, e poucas verdades definitivas. Como dizia o saudoso e provocador Antonio Abujamra, vamos idolatrar a dúvida!

Uma Seleção de Bordeaux

13 de Abril de 2019

A proposta foi a seguinte: trazer sua melhor garrafa de Bordeaux dos anos 80 e 90 para uma degustação às cegas. Foram onze garrafas abertas, formando uma verdadeira seleção onde o menos cotado pelos confrades, ainda assim, era craque frente aos inúmeros chateaux que desfilaram nestas duas décadas. Vamos então à escalação: Goleiro (Mouton 99), zaga (Leoville Las Cases 86, Mouton 83, Mouton 89), volantes (Vieux-Chateau-Certan 90, Beychevelle 82), meio de campo (Cheval Blanc 86, Chateau Certan de May 82), atacantes (Haut Brion 86, La Mission Haut Brion 89, Angelus 95). Um esquema com três zagueiros, dois volantes, sendo um de contenção e outro de ligação, um meio de campo criativo, e um ataque com centroavante goleador e pontas que voltam para marcar.

img_5972Mouton acessível, embora possa ser guardado

Como todo bom goleiro, foi degustado isoladamente. Um Mouton acessível, bem de acordo com a característica da safra. Taninos bem moldados, os toques de café e chocolate que caracterizam o chateau, além de um belo equilíbrio em boca. Um goleiro ainda em formação, mas com belo potencial pela frente. Nota 92 (RP).

img_5968uma zaga segura

Leoville Las Cases, zagueiro consagrado, mas vindo de contusão (bouchonée), ainda assim mostrou sua classe. De fato, era para ser o vinho da almoço com uma estrutura e cor extraordinárias, 100 pontos Parker. Infelizmente, uma garrafa comprometida. Em compensação, a dupla de Moutons supriu a deficiência do ilustre zagueiro. O Mouton 83 no nariz tinha lindos toques de cogumelos, mais precisamente funghi porcini seco. Já o Mouton 89 tinha uma boca deliciosa, de acordo com a sensual safra 89. Taninos sedosos e textura glicerinada. Notas 90 e 93 de Parker para os Moutons 83 e 89, respectivamente.

img_5965grandes safras em Bordeaux

Nesta dupla de volantes, Vieux-Chateau-Certan estava mais contido, cobrindo a zaga. Este vinho costuma ser surpreendente nesta safra de 90, mas não era das melhores garrafas. É um margem direita diferente, lembrando a estrutura tânica dos vinhos do Médoc pela presença de certo destaque das uvas Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. Já o Beychevelle 82 é aquele volante que sai para o jogo. A safra 82 é o grande ano deste chateau de Saint-Julien. Especialmente esta garrafa estava muito bem adegada. O vinho tinha uma força extraordinária com frutas escuras presentes, notadamente o cassis. Um vinho de muito vigor e com vida pela frente.

img_5966outras grandes safras em Bordeaux

Neste meio de campo, Chateau Certan dá seus passes corretos, mas o Cheval Blanc bate um bolão. É o camisa 10 do time com imensa criatividade. Mesmo numa safra dura como 86, o vinho é de uma elegância ímpar. Em boca, esbanja equilíbrio e suavidade. Persistência aromática longa e expansiva. Voltando ao Chateau Certan, é um vinho que tem o charme de Pomerol numa bela safra. Tem uma boa estrutura tânica, embora seus taninos sejam um tanto rústicos para esta categoria de vinho. Notas: Cheval Blanc 86 (RP 93) e Chateau Certan 82 (RP 93).

img_5970ataque incisivo

Neste ataque de peso, os atacantes Haut-Brion e La Mission não estavam num grande dia. Opinião de muitos confrades com a qual não concordo. Haut Brion 86 tinha notas marcantes de chocolate amargo, cacau, e um toque terroso. Já o La Mission, 100 pontos Parker, é um vinho suntuoso, de grande poder aromático, boca ampla, e longa persistência aromática. De certo que as garrafas poderiam não ser as melhores, mas estavam longe de serem defeituosas. Enfim, são duas grandes safras de chateaux fora de série. Em compensação, em dias de atacantes pouco inspirados, eis que surge o goleador de quem menos se esperava, Angelus 95. Um vinho ainda novo, mas com uma bela estrutura. Taninos potentes e finos, bom corpo, e muito bem equilibrado. Tem muito poder de fruta, toques tostados e minerais de grande classe. Goleou de lavada seus dois companheiros de flight, supostamente superiores. Notas: Haut Brion (RP 93) e (RP 94). 

Para acompanhar esta seleção, o conceituado restaurante Picchi preparou um menu com pratos criativos e bem apropriados aos vinhos envelhecidos de Bordeaux.

sabores surpreendentes

Os pratos acima, lâminas de funghi porcini fresco grelhadas com pinoli, parecendo lâminas de berinjelas, estavam ótimas. Já a polenta cremosa com escargots no molho rôti, tinha muitas ligações de sabores com os tintos envelhecidos. Belos pratos!

Na foto abaixo, a massa Picchi, tradicional da Casa com molho de linguiça, e um dos melhores tiramisus na qual a foto, dispensa comentários.

tradicionais da Casa

final surpreendente

Finalizando o evento, uma bela Grappa di Sassicaia envelhecida em toneis de carvalho francês, acompanhando alguns mimos do restaurante no serviço de café. Uma Grappa sedosa, grande classe, e longa persistência.

Agradecimentos finais a todos os confrades pela companhia, boa conversa, e imensa generosidade de todos. Que Bacco nos proteja e nos guie sempre nos melhores caminhos dos grandes vinhos! Abraços a todos!

 

 

Petrus e a argila azul

7 de Abril de 2019

Fazer um time de Petrus do goleiro ao ponta esquerda não é tarefa corriqueira. O dream team foi composto pelas safras 70, 75, 76, 81, 83, 89, 90, 97, 98, 99, e um 2009, praticamente um feto. Além destes, um Saute-Loup 2010 em Magnum, vinho da família do rei Petrus, pouco conhecido na mídia.

52d7d9d7-f42e-4e4e-9578-c9bd80677b29o time todo no restaurante Parigi

Evidentemente, precisamos aguçar as papilas, antes de enfrentar esta seleção. Nada melhor que dois champagnes Dom Perignon safras 96 e 98 de longo tempo sur lies. A primeira 98 trata-se de um Oenothèque, antiga nomenclatura, e um maravilhoso 96 P2, nova nomenclatura para as chamadas “plenitudes”.

12 anos sur lies

Dois champagnes maravilhosos, mas de estilos diferentes. O 96 é extremamente mineral, agudo, de muita leveza, e longa persistência aromática. Já o 98, mais vinoso, mais gastronômico, e cheio de brioches. A preferência é pessoal, mas o 96 impressiona pela vivacidade com 97 pontos.

16 anos sur lies

img_5937velhinhos de respeito

Abrindo a degustação, este primeiro flight mostrou didaticamente a evolução de um vinho de guarda. Todos os principais aromas terciários estavam lá, adega úmida, cogumelos, trufas, notas de chá, especiarias, ou seja, os deliciosos aromas etéreos. O 83 é discretamente mais concentrado que o 81, mas ambos deliciosos.

img_5938trio de respeito, mostrando a força deste vinho

Neste segundo flight, subimos de patamar. O 97 e 99, num estilo mais abordável, de certa maciez, mostrou bela concentração de aromas e taninos finos. O 99 com um pouco mais de riqueza e estrutura, embora o 97 seja mais prazeroso no momento. Falando agora do 98, um verdadeiro mamute com 98+ pontos e um largo caminho a percorrer, buscando um apogeu esplendoroso. A estrutura tânica deste vinho impressiona e garante esta enorme longevidade. Para toma-lo agora com algum prazer, é necessário uma decantação de pelo menos três horas. Paciência com este monstro!

img_5941200 pontos na mesa

Neste terceiro flight, vinhos perfeitos, a despeito de estarem longe de seu apogeu. O 90 tem um lado mais delicado, bela acidez, e um equilíbrio perfeito. Já o 89, um tinto de mais opulência, uma riqueza de fruta extraordinária, e longa persistência final. A garrafa estava um pouco prejudicada com certa turbidez. De todo modo, um embate espetacular sem vencedores.

img_5942um trio para selar uma grande degustação

Neste ultimo flight, ficamos com os vinhos mais longevos e de grande pontuação, verdadeiros mitos deste grande terroir. O 76 menos badalado, mostrou bela evolução, com todos os componentes bem balanceados, maciez notável, e grande classe. Ótimo para ser apreciado no momento. O 75 de estilo parecido com o 98 acima descrito, tem um força extraordinária com taninos impressionantes. Já entrando em seu apogeu, é vinho quase imortal, sem nenhum sinal de decadência. Tinto impressionante. Deixamos para o fim, o melhor do almoço, o magnifico e feminino Petrus 70. Uma verdadeira poesia liquida com lindos toques de alcaçuz. Macio, sedutor, envolvente, uma das safras perfeitas de Petrus com 99 pontos. Não me perguntem onde o Parker tirou um ponto desta maravilha. O homem realmente é chato e exigente com os grandes Bordeaux.

Um pouco mais de Petrus …

petrus pomerol

Petrus: a Chave para o Céu

Petrus está para Pomerol, assim como Yquem está para Sauternes. São Chateaux hors-concours que dispensam apresentações por seus respectivos terroirs únicos. No caso de Petrus, seu solo é composto de uma argila azulada rica em ferro no platô de um outeiro numa altitude de 40 metros em relação ao nível do mar. Isso confere ao vinho uma riqueza de cor extraordinária e muda as características principais da Merlot, uva altamente majoritária na composição do vinho. No caso, é um Merlot rico em taninos, lembrando pela estrutura um Cabernet Sauvignon. Outra curiosidade é que depois de 60 a 80 centimetros abaixo do solo, esta argila se torna dura, não permitindo um aprofundamento das raízes. Portanto, elas crescem lateralmente, fazendo com que o espaçamento entre as vinhas seja maior que o habitual.

É um vinho de maturação lenta, sobretudo nas grandes safras, capaz de envelhecer por décadas. Somente o Chateau Lafleur possui estrutura semelhante.

O sucesso do vinho em termos de história é relativamente recente, já que Pomerol não possui nenhuma classificação oficial em Bordeaux. Somente depois da segunda guerra mundial, Petrus ganhou fama e prestígio no mundo quando foi apresentado na Casa Branca, onde as recepções eram regadas pelo tinto de Pomerol. Em especial, a família Kennedy era fã do vinho.

http://www.rendezvous.com.br/o-mito-petrus-com-olivier-berrouet/
O Link acima traz uma reportagem técnica muito detalhada com o atual enólogo do Petrus, Olivier Berrouet, filho do grande enólogo do Petrus, Jean-Claude Berrouet que produziu 45 safras do mítico vinho.

Por fim, os agradecimentos pela imensa generosidade dos confrades em proporcionar este encontro inesquecível. Independente do alto nível dos vinhos, a conversa e integração do grupo é o mais importante nesses encontros. Saúde a todos! 

Comida Brasileira com Requinte

5 de Abril de 2019

Por uma questão cultural, muitos pratos brasileiros ficam à margem do vinho, preferindo outras bebidas como cerveja ou cachaça. Entretanto, Chefs como Rodrigo Oliveira do Mocotó e Mara Salles do Tordesilhas, elevam o patamar de certos pratos tradicionais com muita técnica e conhecimento profundo da gastronomia regional brasileira. Foi o caso de um belo jantar privado, onde Mara Salles desfilou alguns de seus pratos como a tradicional moqueca e o típico barreado de Morretes, estado do Paraná.

delicadas borbulhas e exóticos decanters

Iniciando os trabalhos com alguns pasteizinhos, dadinhos de tapioca e casquinha de siri, o Dom Pérignon 2000 em sua maioridade fez bela parceria, mantendo aguçado o paladar dos convivas. Muito fresco, bela acidez, e a elegância de sempre, sem jamais parecer pesado. 

sutilezas nos sabores de ambos

Na combinação acima, é preciso aliar texturas para o alto grau de refinamento tanto do prato, como do vinho. O vinho embora já com seus 20 anos, apresenta um frescor incrível, mesclando algumas notas terciárias de frutas secas. A delicadeza do vinho permite ressaltar as notas aromáticas do prato como especiarias (pimenta) e ervas (coentro). No rótulo acima, a menção Corton-Vergennes refere-se  a um Grand Cru branco de Corton do lieu-dit chamado Les Vergennes, pertencente à comuna de Ladoix-Serrigny. Em linhas gerais, trata-se de um Corton com um pouco mais de corpo que o clássico Corton-Charlemagne, devido a uma proporção um pouco maior de argila sobre o calcário. Para entender melhor estes detalhes de terroir e legislação, o mapa abaixo tenta elucidar o fato.

Corton Grand Cru vignobleso intrincado mosaico bourguignon

A apelação Corton é um tanto complicada. Primeiramente, existe a apelação Corton-Charlemagne somente para brancos. Já a apelação Corton, predominantemente para tintos está dividida entre três comunas: Aloxe-Corton, Ladoix-Serrigny, e Pernand-Vergelesses. Uma pequena porcentagem de brancos pode ser feita sob a apelação Corton. No caso da garrafa acima, Les Vergennes é um lieu-dit da comuna de Ladoix-Serrigny, bem à direita em vermelho no mapa acima.

o tradicional Barreado de Morretes 

Para o prato principal, o clássico Barreado de Morretes, Paraná, onde carnes de boi mais duras são submetidas a longo cozimento em panelas com vedação de barro  por várias horas até o ponto em que as carnes começam a desmanchar. O prato é rico em temperos, acompanhado de banana-da-terra e arroz.

Para acompanhar um prato tão substancioso e ao mesmo tempo, agregando o talento e técnica de Mara Salles, foi escolhido um Vega-Sicilia Reserva Especial, normalmente um blend de três safras antigas do maior tinto espanhol. Neste caso, trata-se de uma partida de pouco mais de treze mil garrafas das safras 1965, 1967 e 1972, formando 45 barricas. Esses Vegas Reserva Especial são realmente espetaculares, pois todos aqueles aromas terciários do vinho estão presentes com lindos toques balsâmicos e de especiarias. Um tinto com força e elegância para acompanhar o prato.

um dos grandes Yquems da história

Encerrando o jantar, um Yquem histórico da grande safra 2001. Untuoso, cheio de Botrytis, e um equilíbrio perfeito. Ainda em tenra idade, mostra toda sua suntuosidade numa evolução lenta e progressiva. Seu apogeu está previsto para 2100. Acompanhou muito bem um sorvete de tapioca com cocada e calda de tamarindo. A untuosidade do vinho caiu como uma calda com o sorvete. Além disso, a doçura da cocada e a acidez do tamarindo foram bem confrontados pelo açúcar e frescor deste Yquem. Um fecho de ouro.

Porto Vintage e toda a turma reunida

Foram quatro garrafas de Vega regando o jantar com o prato principal. No finalzinho do encontro, eis que surge um Vintage Port da tradicional Casa Grahams numa das mais belas safras de Porto, 1977. Um Vintage com quase 50 anos entra naquela fase balsâmica, onde a textura e o tipo de fruta tornam-se um licor. Equilíbrio perfeito e um persistência final dos grandes vinhos. Não há forma melhor de encerrar um grande encontro.

Triunvirato em Vosne-Romanée

30 de Março de 2019

Quando falamos dos grandes vinhos da Borgonha, nomes como Montrachet, Chambertin, Musigny ou Vosne-Romanée soam como a sinfonia perfeita. Indo um pouco mais a fundo, dentro da comuna de Vosne-Romanée existem muitos astros, mas nada se compara à Santíssima Trindade formada por DRC, Leroy e Henri Jayer. Foram exatamente esses vinhos que nos fizeram sonhar num belo jantar no restaurante Gero.

 

Oenothèque: agora P2 ou P3

Alguma coisa fora do Triunvirato acima, só mesmo um Dom Perignon Oenothèque da maravilhosa safra 1996 para abrir os trabalhos. O degorgement foi feito em 2008, portanto, 12 anos sur lies. Champagne de grande frescor, mineralidade, leveza, parecendo um Blanc de Blancs, embora em sua composição entre pelo menos 40% de Pinot Noir. Acompanhou muito bem um delicado carpaccio de atum.

img_5885garrafa muito bem conservada

Passando aos brancos, começamos com um “intruso” muito bem-vindo, Domaine Etienne Sauzet Chevalier-Montrachet 1992. Safra de destaque para esta apelação, o vinho mostrou-se integro, sem sinais de decadência. Pelo contrário, aromas já evoluído, mas com frescor e muita elegância. Um toque de caramelo e de botrytis permeavam seus aromas.

img_5876embate de gigantes

Encarar um Montrachet DRC é tarefa para poucos, mesmo se tratando de outros Montrachets. Entretanto, estamos falando de Domaine d´Auvenay, uma reserva particular de Madame Leroy do que ela tem de melhor. A produção desses vinhos quando muito, chega a poucas centenas de garrafas. No caso deste Chevalier-Montrachet 2009, é um vinho com grande concentração de aromas e enorme presença em boca. Deixou o DRC até um pouco tímido, tratando-se de um vinho também de certa potência. Sua persistência aromática é bastante longa e expansiva. Para completar o mérito deste Chevalier, a garrafa do Montrachet DRC estava muito boa com uns aromas de umami, lembrando shitake fresco, toques minerais delicados e um fundo de mel. Bela comparação, mostrando a grandeza e a força do terroir nestas apelações tão exclusivas.

 

pratos do menu exclusivo

O carpaccio de atum com Dom Perignon e a sopa de lentilhas e bacalhau com o Montrachet foram harmonizações bem agradáveis. O champagne com seu frescor e mineralidade formou um belo par com os sabores de maresia e o toque cítrico do molho do carpaccio. Já a sopa de lentilhas com o bacalhau tinha intensidade e textura para acompanhar os Montrachets, sobretudo o DRC, calibrando bem a harmonia de sabores.

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A fidalguia do maître Ismael sempre nos confortando, e o serviço de vinhos eficiente do sommelier Felipe Ferragone, preservando todas as rolhas, faz do restaurante Gero um porto seguro.

 

acredite, é um Richebourg DRC

Os tintos começaram em alto nível com um Richebourg DRC 1961. O estado do rótulo, foto acima, é inversamente proporcional ao nível do vinho. Uma garrafa muito bem conservada e íntegra. O vinho tanto na cor, como na força de seus taninos não revelava a idade de quase 60 anos. Seus aromas terciários e de grande mineralidade revelavam sous-bois, toques terrosos, e frutas escuras. Equilíbrio perfeito em boca com longa persistência final. Acompanhou bem o risoto de ervas com guisado de cordeiro.

img_5881um dos vinhos mais raros e disputados

Com 94 pontos, este Richebourg do mestre Henri Jayer esbanjou elegância num estilo oposto ao DRC acima. Muito delicado, com aromas florais, especiarias, e um fundo mineral, o estilo Jayer prima pelas nuances e sutilezas. Um vinho para meditar num equilíbrio perfeito em boca. Já totalmente pronto, num belo platô de evolução. O mítico Richebourg 1978 é um dos tintos mais disputados em leiloes mundo afora. O próprio Henri Jayer declarou certa vez que o Richebourg 78 foi seu grande vinho de todas suas vinificações.

img_5880quase 200 pontos na mesa

Ponto alto do jantar, dois Cros-Parantoux de grandes safras. Para um Premier Cru, o vinho é de uma elegância que poucos Grands Crus possuem. O 93 é a safra mais bem pontuada, ainda com uma força extraordinária. O vinho não está totalmente pronto com taninos muito finos, mas ainda a resolver. Os toques terrosos e as especiarias são muito bem mesclados à fruta. Já o 85, é puro devaneio. Um tinto gracioso, cheio de feminilidade, boca sedosa, e um final harmonioso. Uma grande safra nas maões de um grande Mestre. Salve Henri Jayer!

img_5886o infanticídio da noite

No final do jantar, avaliamos duas promessas da safra 2004 para os DRCs. Um Romanée-St-Vivant delicado, floral, taninos suaves, já bem agradável pela idade. Por outro lado, um La Tache austero, com taninos ainda ferozes, precisando ser domado pelo tempo. Um estilo bem masculino que deve evoluir bem pelos próximos dez anos.

Enfim, uma noite memorável com belos vinhos e a boa conversa pra lá de animada. Agradecimento a todos os confrades pela generosidade e companhia. Um adendo especial ao nosso Presidente pela alta competência na análise dos vinhos, acertando às cegas de maneira categórica todos as ampolas do jantar. Sem nenhuma arrogância, ele nunca acha, sempre tem certeza, provando mais uma vez, que degustação técnica é treino e atenção aos detalhes. Contra fatos, não há argumentos. Parabéns Presidente!

Saúde a todos e que Bacco sempre nos proteja!

DIAM: Revolução nas Rolhas

22 de Março de 2019

Se você encontrar um rolha que parece ser de aglomerado, preste atenção, pode ser uma rolha com a marca DIAM de alta tecnologia francesa. Esta empresa vende 1,8 bilhões de rolhas por ano, sendo 79% para vinhos tranquilos, 17% para espumantes e champagnes, e 4% para destilados. Movimenta 145 milhões de euros por ano.

Reparem os vinhos abaixo, Montrachet de produtores famosos, utilizando as rolhas DIAM. O principal motivo é a garantia da isenção do chamado Bouchonné, advindo do TCA, presente em pequena porcentagem nas rolhas de cortiça maciças. Isso posto, vamos entender todo o processo de fabricação.

reparem a marca DIAM na segunda foto

vinhos de elite confiando na marca

Tudo começa com a coleta da cortiça em regiões do sul da Espanha, Portugal, e também na França nas regiões da Provence, Languedoc-Roussillon e Córsega. A maior parte vem da Espanha, pois a área de sobreiros na França é sensivelmente menor.

Chegada a cortiça nas fábricas, tanto na Espanha, como na França, elas são tratadas e secadas antes da moagem das placas. Aí está o pulo do gato, destrói-se a cortiça, para reconstruí-la pelo processo Diamant, descrito no vídeo abaixo.

Na reconstrução da rolha, a cortiça moída é agregada com microesferas de origem vegetal e ligadas com cera de abelhas. Como podemos notar, são todos produtos naturais com respeito à natureza, de produção renovável  e sustentabilidade. Essas esferas de origem vegetal juntamente com a cortiça, vão permitir a perfeita elasticidade e permeabilidade das rolhas. O elemento de ligação é justamente a cera do mel das abelhas.

Relembrando o pulo do gato, a cortiça moída é colocada em grandes tubos altos e recebe de baixo para cima CO2 sob condições precisas de temperatura e pressão. A passagem deste gás através da cortiça moída permite retirar por vapor aromas indesejáveis, inclusive o inconveniente TCA e suas famílias. Esse é o ponto fundamental de todo o processo.

Voltando às fotos acima, reparem que ao lado da marca DIAM temos o número 30 em uma, e em outra as iniciais GG (Grand Cru). Tanto uma como a outra, refere-se às melhores rolhas por este processo, podendo garantir perfeita vedação por 30 anos. Elas são elaboradas com precisas dosagens das microesferas para garantir permeabilidade e elasticidade por longos anos em adega.

DIAM bouchonsdestilados, vinhos, e espumantes

Para vinhos mais simples temos as rolhas DIAM 1, DIAM 3, DIAM 5, DIAM 10 e DIAM 30. Resumindo, de acordo com a longevidade dos vinhos temos níveis de elasticidade e permeabilidade compatíveis com a necessidade e de acordo com preços mais justos com cada tipo de rolha. Os números correspondem a um, três, cinco, dez, e trinta anos, de armazenagem em garrafa, respectivamente.

Clientes de peso como Chateau Carbonnieux (Bordeaux), Chateau Angelus (Bordeaux), Billecart-Salmon (champagne), Louis Jadot (bourgogne), Comtes Lafon (bourgogne), Paolo Bisol (prosecco), Bodegas Rural (argentina), Grupo Peñaflor (argentina), aderiram ao sistema Diamant com depoimentos consistentes e de grande aprovação. Maiores informações: http://www.diam-bouchon-liege.com

Por outro lado, a Empresa Amorim portuguesa, a maior produtora de rolhas do mundo, em defesa de rolha de cortiça maciça, na busca incessante pela eliminação do TCA, o terrível bouchonné, vem desenvolvendo métodos cada vez mais eficientes. A última novidade trata-se da tecnologia chamada NDtech. Essa tecnologia é uma parceria entre a Amorim e uma empresa inglesa especializada em análise de cromatografia rápida. A rolha pode ser analisada em poucos segundos, sendo descartada automaticamente se apresentar níveis de TCA acima de 0,5 ng/l (ng é um nanograma, ou seja, um bilionésimo de grama). Para se ter uma ideia desta medida, é como se jogássemos uma gota de TCA em 800 piscinas olímpicas. Portanto, esse sistema da Amorim para suas melhores rolhas destinadas a vinhos especiais, garantem total proteção ao TCA. No caso do sistema Diamant, o rigor é ainda maior, com medidas inferiores a 0,3 ng/l. Maiores informações, http://www.amorim.com 

Em resumo, as maiores empresas que lidam com cortiça, e consequentemente rolhas, se mexem exaustivamente na eliminação total do TCA em seus produtos. As soluções vão surgindo e o consumidor e produtores de vinhos só tendem a ganhar, preservando os autênticos sabores do vinho, sem inesperadas frustações. 

 

Latour e algumas preciosidades

17 de Março de 2019

Quando um Latour está sobre a mesa, os demais vinhos o reverenciam, independente de seus pedigrees. Entre champagnes, Domaine Leflaive, e outros margens esquerdas de prestígio, ele reinou absoluto. Antes de falarmos dele, algumas borbulhas, e brancos da Borgonha, deram início a um belo almoço no Ristorantino, Jardins.

estilos de champagne

Neste primeiro embate, grandes surpresas. Sempre tive em mente um estilo delicado e elegante para a cuvée de luxo Dom Pérignon, mas não pensei que fosse tanto. No confronto acima, Dom Pérignon conseguiu ser mais delicado que o Blanc de Blancs Robert Moncuit, um Grand Cru de Le Mesnil sur Oger, terroir de prestígio da Côte de Blancs, mesmas terras do Champagne Salon. Embora fosse 100% Chardonnay, o champagne Robert Moncuit tinha uma estrutura invejável com uma bela acidez. Seu estilo mais gastronômico pede pratos como ostras gratinadas, por exemplo. Encarou com galhardia o todo poderoso champagne da Maison Moët & Chandon.

frutos do mar num caldo com fregolas 

Dando sequência, uma dupla de brancos da Côte de Beaune, dois Premiers Crus. Um de Meursault, do vinhedo Genevrières do Hospices de Beaune 2001, e o grande Puligny-Montrachet Les Pucelles 2002 de Madame Leflaive, seu melhor Premier Cru. Aqui a disputa foi meio desigual. Primeiro pela questão de safras, agravado pela garrafa de Meursault fora de sua melhor forma, ou seja, um vinho um pouco cansado. O Les Pucelles em ótima forma, deu um banho de equilíbrio e elegância numa safra de grande destaque. Embora um Meursault com problemas, ficou notória a diferença de texturas entre os vinhos com o Puligny-Montrachet mais leve e elegante. O prato acima de frutos do mar deu eco aos sabores dos vinhos.

img_5823embate de gigantes

Nesta altura, o ponto marcante do almoço, dois belos Premiers Grands Crus Classés da mítica safra 1959. Latour neste ano foi um dos destaques com 96 pontos, um vinho quase perfeito. É impressionante seu vigor, sem nenhum sinal de decadência. Pelo contrário, esbanja juventude com taninos finíssimos. Bela expansão de boca com aromas multifacetados. Uma garrafa perfeita, assim como o Chateau Margaux a seu lado. Este, talvez tenha sido a melhor garrafa de Margaux 59 que já provei. O vinho estava divino com aromas plenamente desenvolvido, além de perfeitamente macio e envolvente no palato. Mesmo assim, não foi páreo para o Senhor do Médoc, sua majestade Latour.

alguns dos pratos do Ristorantino

Na foto acima, massa com ragu de pato e costela assada com lentilhas, acompanharam bem a força e elegância dos vinhos. Taninos mais polimerizados e aromas terciários pedem pratos com este tipo de perfil. Agradecimentos especiais a toda brigada do Ristorantino pelo serviço dos vinhos e atenção aos detalhes e taças.

img_58221982 na berlinda

Começando pelo Beychevelle 82, talvez a maior safra de toda a história do Chateau, é um vinho encantador, com a complexidade esperada de um Bordeaux envelhecido, sobretudo se tomado sozinho. Entretanto, deu um azar danado de estar ao lado deste gigante, inclusive na garrafa, uma double magnum magnífica, perfeitamente conservada do grande Latour. Pode ser considerado o vinho mais perfeito entre os grandes de 82. Uma cor inacreditavelmente jovem, taninos polidos, o fino aroma de pelica dos grandes Latour, e uma boca perfeita em equilíbrio e expansão. Embora ainda com muita vida pela frente, me pareceu mais acessível que o grande 59 comentado a pouco.

l´Enclos: a essência de Latour

A genialidade do terroir

Os vinhas em torno do Chateau, a construção principal propriamente dita, somam algo com 47 hectares denominado l´Enclos, foto acima. Um terroir único com quinze metros de profundidade de pedras, argila e areia, proporcionando uma drenagem excelente no terreno, e ao mesmo tempo, retendo um mínimo de reserva hídrica para os anos mais secos. Neste sentido, é o melhor solo do mundo para o cultivo da Cabernet Sauvignon que no caso do vinhedo l´Enclos, perfaz cerca de 80% da área. A alta porcentagem de pedras (50 a 80%) está entremeada entre areia e argila, formando as chamadas “croupes graveleuses”, leves ondulações no terreno, semelhante a campos de golfe. Esta maravilha esculpida ao longo de dois milhões de anos, tem pedras originárias dos Pirineus (divisa com a Espanha) e do maciço central ( terras francesas onde se cultiva o melhor carvalho do mundo), devido a cataclismos de outras eras geológicas.

Para alguns especialistas em solos de viticultura, l´Enclos é o melhor terroir de todo o Médoc, considerando  que o fator drenagem do terreno é o mais relevante na escolha dos melhores terrenos de margem esquerda. Lembrando o velho ditado médocain: “o solo do Médoc muda a cada passo”.

 e aquele Yquem para finalizar …

Embora 1946 não tenha sido uma grande safra em Sauternes, Yquem é sempre soberano. Sem aquela untuosidade dada pelos anos onde a Botrytis é mais intensa, é um Yquem elegante com perfeito equilíbrio entre acidez e açúcar. Uma garrafa muito bem conservada acompanhando uma seleção de queijos e sobremesas diversas. Doçuras e contrastes  em perfeita harmonia.

Enfim, mais um encontro memorável com amigos generosos, partilhando experiências e laços de amizade em torno do vinho e da boa mesa. Abraços a todos e que Bacco continue com suas bênçãos!

Liger-Belair: Renasce uma Estrela

9 de Março de 2019

Neste novo milênio, iniciando o século XXI, renasce uma estrela na mais mítica das comunas da Côte de Nuits, Vosne-Romanée, com os vinhos do Domaine Liger-Belair. A começar pelo La Romanée, vinhedo com menos da metade da área do astro maior Romanée-Conti, convivendo lado a lado no centro gravitacional de Vosne-Romanée.

liger belair vinhedosvinhedos Liger-Belair em torno de La Romanée

Além do La Romanée, o Domaine possui vários outros vinhedos muito bem localizados na nobre vizinhança com vinhas  de idade avançadas, superando 60 anos de idade. A destacar, Clos du Chateau, um monopole, e Aux Reignots com produções ínfimas de 2100 garrafas por safra. Os outros vinhedos, muitos deles, com menos de mil garrafas por safra.

Voltando ao La Romanée, sua primeira safra data de 1827 quando o Domaine tinha muitas propriedades na região e gozava de grande prestígio. Nesta época, o vinhedo La Tache original, de área bem menor que o atual, era tido como o grande vinho de Vosne-Romanée. Com a chegada do século XX e a primeira guerra mundial, a família Liger-Belair estava em dificuldades financeiras, desfazendo-se de vários vinhedos, inclusive o mítico La Tache, o qual em 1933 passa às mãos do Domaine de La Romanée-Conti, ampliando sua área com os vinhedos Les Gaudichots vizinhos, e oficializando a apelação de origem La Tache, de acordo com as novas leis francesas.

Daí em diante, os vinhos da família Liger-Belair eram vinificados e entregues a negociantes da região, fato comum à época, inclusive a Maison Leroy. Evidentemente, a qualidade e a regularidade  foram abaladas, de acordo com critérios adotados pelo negociantes na educação e engarrafamento dos vinhos. Em 1976, numa união matrimonial, as famílias Liger-Belair e Bouchard Père & Fils seguem juntas na elaboração do vinho La Romanée, imprimindo no rótulo o nome do negociante famoso Bouchard Père & Fils até o ano 2001, sua última safra exclusiva.

É nesta data que surge a nova estrela do Domaine com a presença marcante de Louis-Michel Liger-Belair, sétima geração da família. Com novos métodos de cultivo e vinificação, Louis-Michel imprime uma filosofia menos intervencionista e uma extração mais delicada na vinificação. Seus vinhos ganham finesse e elegância, marcando um novo estilo no Domaine. 

Esta transição com Bouchard Père & Fils acontece entre 2002 e 2005, onde os dois rótulos e vinificações diferentes ocorrem lado a lado. É notório a diferença de estilos entre os dois 2005, último ano de ambos, onde percebemos claramente o fator humano na concepção do terroir. O Bouchard 2005 é um La Romanée mais extraído, mais potente, de acordo com a velha escola. Já o Liger-Belair 2005 é um La Romanée bem mais delicado, elegante e cheio de sutilezas.

A partir de 2006, segue a linha do novo Liger-Belair com vinhos sempre elegantes, delicados, galgando posições importantes na crítica especializada com notas altíssimas. As safras La Romanée 2009 e 2010 alcançam cifras impressionantes com valores em torno de seis mil dólares por garrafa.

Foi neste contexto que provamos algumas garrafas de La Romanée no restaurante Nino Cucina, iniciando com um branco à altura do evento, o majestoso Montrachet 2014 do Domaine des Comtes Lafon, um dos melhores exemplares desta safra com 98 pontos. O vinho é uma maravilha com textura rica, acidez refrescante, equilíbrio cirúrgico entre os componentes, e longa persistência aromática. Nada melhor para aguçar as papilas.

acompanhando carpaccio de atum

O carpaccio de atum com azeite de trufas estava divino, combinando perfeitamente com a textura e elegância do vinho. Um combinação de pureza de sabores e mineralidade de rara felicidade.

2001: safra que marca o final de uma era

Começando os La Romanée com uma safra histórica, 2001. Safra esta que marca o final da rotulagem exclusiva Bouchard Père & Fils, mostrando uma extração vigorosa, com engaço, bem ao estilo old school. A cor e concentração do vinho impressionam com seus dezoito anos de vida. Bem mais intensa que os três exemplares Liger-Belair que vamos comentar a seguir de safras mais recentes. O vinho tem aromas terrosos, sous-bois, cogumelos e notas de frutas em licor. A combinação com o ravioli de vitela com molho de funghi e parmesão (foto acima) ficou divina, equiparando bem a intensidade e similaridade de sabores,  bem como a  força de ambos.

img_5771vinhos que refletem as safras

Finalmente, as estrelas do almoço, três safras sucessivas de La Romanée Liger-Belair. Estamos falando de um monopole de 0,8452 ha de vinhas, cujas as idades variam entre 22 e 102 anos, sendo boa parte com média de 60 anos. São produzidas apenas 3600 garrafas por safra, aproximadamente metade do seu rival Romanée-Conti. O vinhedo fica imediatamente acima, fazendo divisa com o Romanée-Conti.

Das safras acima, 2011 mostra-se um pouco menos concentrada, lembrando que a comparação é sempre cruel. Tomado individualmente, La Romanée 2011 é um tinto elegante, com uma pureza de frutas extraordinária, toques de especiarias e alcaçuz. Um vinho delicado, muito equilibrado e de final com muitas sutilezas.

Já a briga entre os La Romanée 2009 e 2010 foi de titãs. Os dois com uma força, um extrato, e uma riqueza impressionantes, sem jamais serem pesados. O que marca realmente a diferença são os estilos de safras. No ano 2009, temos um vinho um pouco mais cheio, maior maciez, e muita sedução nos aromas e texturas. Embora com longa vida pela frente, é mais prazeroso no momento que seu rival 2010.

O ano 2010 marca uma acidez mais presente, a qual provavelmente dará grande longevidade aos vinhos. Eles possuem um frescor próprio, na medida certa. Além disso, frutas muito bem delineadas, toques florais,  e taninos muito bem polidos. Numa degustação mais à frente, digamos daqui a dez anos, o 2010 pode estar mais interessante com uma estrutura mais desenvolvida. De todo modo, um belo fecho de prova, marcando definitivamente a volta da família Liger-Belair como uma das estrelas da Borgonha.

Outros pratos marcantes

Agradecimentos aos companheiros de mesa e copo, sempre muito gentis, divertidos e generosos em mais esta jornada. Mais alguns pratos (foto acima) muito bem executados como o carpaccio de robalo, extremamente delicado, e as costeletas de cordeiro empanadas com batatas gratinadas, um prato reconfortante, finalizando muito bem este grande almoço. Menção especial ao maître Ivan do Nino Cucina, sempre atencioso nos detalhes.

Acabadas as desculpas de Carnaval, o ano começa pra valer e as degustações prometem grandes momentos em 2019. Que Bacco sempre nos proteja e no guarde!

Entre Chambertins e Musignys

3 de Março de 2019

Num agradável almoço pré-carnaval, algumas taças da fina flor da Borgonha desfilaram entre pratos do restaurante Bela Sintra. Produtores e vinhedos consagrados mostraram o lado mágico que os tintos da Borgonha são capazes de proporcionar.

polvo, lulas, e pasteizinhos para acompanhar …

Para iniciar os trabalhos, um Premier Cru de Meursault do ótimo produtor Comtes Lafon, foto acima. Meursault-Charmes 2010 com 95 pontos, mostra o lado mais delicado de Lafon, comparado ao vigoroso Perrières-Meursault. Finamente trabalhado na barrica, seus aromas de patisserie já encantam nas primeiras impressões olfativas. Muito equilibrado em boca, mostra um leveza singular, embora não fuja do terroir de Meursault, sempre com uma textura mais vigorosa. Alguns da mesa o acharam levemente oxidado. Particularmente o achei delicioso, a despeito de não guarda-lo por muito tempo em adega. De todo modo, um belo abre-alas do almoço.

img_5760joias da Madame Leroy

Na comissão de frente, este primeiro trio acima, mostrou indubitavelmente o alto nível dos vinhos Leroy. Nenhum deles são de Domaine. O do centro, é o único Grand Cru, Mazis-Chambertin, elaborado pelo Hospices de Beaune e devidamente educado nas adegas Leroy. Os dois que o ladeiam são lieux-dits com nível de Premier Cru, vizinhos de parede com o reputado Clos St-Jacques, conforme mapa abaixo. O vinhedo Grand Cru Mazis-Chambertin está localizado na parte baixa à esquerda do mapa, delimitado por linhas vermelhas e pretas. A distância de Mazis-Chambertin a Clos St-Jacques não chega a mil metros.

clos st jacques lavaut estournellesmosaico bourguignon

Lavaut-St-Jacques, um vinhedo de 9,53 hectares, com destacada proporção de calcário no solo, prima pela delicadeza e elegância. Mostrou isso na taça, com lindos terciários de sous-bois, taninos polimerizados, e o mais pronto deste trio.

Mazis-Chambertin, o preferido da maioria, tem uma acidez pronunciada, fator que lhe confere longevidade. A despeito do belo equilíbrio e finesse, já tomei garrafas melhores deste mesmo vinho. A safra 85, ponto comum deste flight, é histórica na Borgonha.

Finalmente, Estournelles St-Jacques, um vinhedo de apenas 2.04 hectares, tem um solo com presença de Ostrea Acuminata, fosseis marinhos também presentes no vinhedo Clos St-Jacques. Foi o vinho que mais impressionou pela cor e densidade. Com taninos presentes, mostrou-se o menos evoluído do painel com um caráter mais masculino.

Taças Zalto e Arroz de pato

Na foto acima com taças Zalto, percebemos pela cor que a amostra número três, à direita da foto, é a de maior concentração de cor. O arroz de pato, um dos pratos emblemáticos da Casa, acompanhou bem o Estournelles St-Jacques, pelo vigor do vinho.

img_5762todos com nível de Grand Cru

Neste flight temos dois Premier Cru classicamente com nível de Grand Cru. Historicamente são vinhedos de grande reputação, os quais talvez numa nova classificação, fossem nomeados como Grand Cru. O Les Amoureses, sobretudo de Mugnier, é o mais delicado dos Borgonhas, caminhando numa linha tênue entre a elegância e a mediocridade. Explicando melhor, é um vinho muito delicado, onde só mesmo a força de seu terroir permite um diferencial de distinção e elegância. Qualquer outra tentativa na Borgonha, pareceria um vinho diluído e sem atrativos. Um vinho extremamente preciso em sua elaboração. A discussão acadêmica em torno de seu envelhecimento, sempre provoca a eterna dúvida: toma-lo jovem, aproveitando sua graciosidade de frutas e flores, ou envelhece-lo com os inevitáveis toques terciários?

Partindo agora para o grande Musigny, este um autêntico Grand Cru, é um vinhedo  colado ao Les Amoureses, num setor mais alto e de solo menos pedregoso. Este exemplar 2012 tem notas variando entre 95 e 98 pontos. Completamente diferente do Les Amoureses, o vinho tem densidade sedosa, sem perder a elegância. Numa comparação com o Médoc, seria o Chateau Margaux da Borgonha. Um vinho de extrema elegância e profundidade, onde os aromas de violeta, frutas escuras, e um toque carnoso, se completam perfeitamente. Gostaria de prova-lo lado a lado com um La Tache de mesma safra, outro vinho de predicados semelhantes.

clos st jacques

Rosseau: a maior parcela

No último vinho do flight, o vinhedo Clos St-Jacques, foto acima, é dividido em cinco parcelas, cuja a maior porção pertence a Armand Rousseau com 2,2 hectares. No exemplar acima da safra 2015, é um vinho de grande concentração com um poder de fruta extraordinário. Ainda muito jovem, tem aromas basicamente primários com taninos de fina textura. Uma grande promessa para as próximas décadas. Seu apogeu está prevista para 2050. Por hora, perder para o Musigny, num embate de gigantes.

Enfim, uma prova exemplar de grandes produtores das comunas de Chambolle-Musigny e Gevrey-Chambertin em seus mais afamados terroirs. Além disso, a constatação que o nome Leroy,  seja como Négociant, seja como Domaine, transita com competência e regularidade por todos os atalhos do intrincado mosaico bourguignon. 

Agradecimentos eternos a nosso Presidente pela imensa generosidade e competência nas escolhas das mais sofisticadas ampolas. Saúde a todos, e que Bacco nos proteja!

Soldera, só em taça de Borgonha

23 de Fevereiro de 2019

Brunello di Montalcino, nos dizeres de Hugh Johnson, um vinho para heróis, para momentos épicos. Desde sua criação com Biondi-Santi, seus inúmeros seguidores propunham um vinho austero, imponente, para longo envelhecimento. Em seguida, num tempo bem mais recente, os chamados modernistas propuseram um Brunello mais macio, mais frutado, mais acessível na juventude. A casta é chamada de Sangiovese Grosso, um clone somente utilizado na região de Montalcino, pois sua maturação não ocorre perfeitamente na região do Chianti Classico, onde ali é cultivada a Sangiovese Piccolo.

gianfranco-soldera-brunello

momento de descontração

Pois bem, Gianfranco Soldera, propos um Brunello diferente, delicado, sutil, um verdadeiro Borgonha dentro da Toscana, sem perder a autenticidade do terroir. Seus vinhos super valorizados, são disputados em leilões, sobretudo em safras mais antigas. Com seu recente falecimento, esses vinhos se tornarão históricos, e seus preços …

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a taça sempre Borgonha e os tonéis eslavônios 

Sempre a taça borgonhesa e os tonéis de carvalho eslavônio ao fundo num dia frio em Montalcino. Seus taninos delicados e seus sutis aromas se adequam perfeitamente à taça, sobretudo com o envelhecimento.

História

Case Basse é uma vinícola de 23 hectares, localizada na parte central da denominação de origem Brunello di Montalcino, a 320 metros de altitude num solo de origem vulcânica. 

Podemos dizer que é uma vinícola de história recente, já que as primeiras safras foram de 1972 e 1973. O cultivo e a vinificação é totalmente natural, e o amadurecimento dos vinhos se dá em grandes tonéis da Eslavônia, madeira tradicional utilizada na região, por pelo menos quatro anos.

A produção anual é em média 15 mil garrafas  que podem chegar ao preço unitário de 500 euros. Das trinta safras já produzidas, todas de altissimo nível, Gianfranco cita a safra 1979 como safra de emoção.

soldera 79 e 90

Grandes safras: 79 e 90

O Símbolo no rótulo em forma de S vem da mitologia grega. Há um chafariz na propriedade com esta escultura. Para se ter uma ideia da pureza e naturalidade deste vinho, a Universidade de Enologia de Firenze participa da análise dos vinhos, relatando toda a microbiologia do processo. No início da fermentação participam vários tipos de leveduras naturais sem a presença ainda da Saccharomyces Cerevisiae, a qual só atua efetivamente no mosto a partir do terceiro dia de fermentação. O processo é lento e totalmente espontâneo, durando cerca de 60 dias. Toda a fermentação e amadurecimento é feito em madeira. A levedura natural dominante que atua após o processo fermentativo nos tonéis é a Oenoccocus Oeni. O amadurecimento em grandes Botti eslavônios pode chegar a cinco anos. O vinho é engarrafado sem filtração. 

Além do grande Soldera, sobretudo o Riserva, Case Basse elabora outros vinhos no portfolio, tais como: Soldera Pegasos, Soldera Intistieti e Rosso di Montalcino, este último um vinho mais simples, para consumo imediato. Quanto aos dois primeiros, são vinhos que passaram menos tempo em madeira, devido a características de safras específicas.

A novidade a partir de 2006, é que o grande Soldera abriu mão da denominação Brunello di Montalcino para uma denominação mais genérica chamada Toscana IGT com a menção 100% Sangiovese. O design do rótulo é idêntico ao Brunello tradicional da Casa. Só mesmo o prestígio do nome Soldera para dispensar uma denominação como Brunello, uma das mais prestigiadas da Itália. É quando a marca adquire terroir e diferenciais únicos. Angelo Gaja também fez isso com seus Barbarescos. Privilégio de poucos …

b6a89309-0eac-42e3-8fcb-5320fe8ef4b0vertical de Soldera

Com a devida introdução, vamos a uma bela vertical de Soldera realizada no restaurante Gero, Jardins. Foram sete safras, sendo a mais antiga 94, e a mais recente 2006. Todos os vinhos com mais dez anos, tempo suficiente para uma boa evolução em garrafa.

img_5699Leflaive brindando Soldera!

Para aguçar as papilas, uma dupla de brancos de respeito com a assinatura Domaine Leflaive. Começando com o raro Bienvenues Batard-Montrachet safra 2002. Um vinhedo que parece mais um jardim com 1,15 hectare de vinhas datadas de 1958 e 1959. Toda a elegância de Madame Leflaive num branco harmônico, em sua plenitude, com frescor e complexidade. O vinho é profundo sem ser pesado. Notas de flores, mel, pêssegos, e um fino tostado, permeiam a taça. Já seu oponente, o maravilhoso Chevalier-Montrachet, especialidade da Casa, estava um pouco cansado. Mesmo assim, era notável sua estrutura e sua riqueza aromática. Em sua melhor forma atinge 97 pontos como uma das melhores safras já elaboradas. 

img_5700um trio de respeito

Quase o mais antigo com o mais novo, as safras 1994 e 2003 se confrontaram. Mas quem se saiu muito bem foi o vinho da esquerda, o envolvente Soldera Riserva 2000. Um Brunello na sua plenitude, ótimo momento evolutivo, e com a marca Soldera de pura elegância. Tem 93 pontos Parker e bem o merece. Tinto macio, taninos finos, belo meio de boca, aromas de cerejas escuras, alcaçuz, e finas especiarias. Pessoalmente, o mais prazeroso da degustação.

Já o Soldera Riserva 1994 impressionou por sua estrutura e longevidade com taninos firmes e presentes. Um lado mais viril dentro da delicadeza Soldera. É bom lembrar que neste ano tivemos as duas versões, Riserva e não Riserva. O que difere esses vinhos é um ano a mais nos tonéis para o Riserva, antes da comercialização. Neste exemplar, podemos notar frutas em licor, especiarias como cardamomo, e algumas notas de chá, ou seja, aromas terciários em profusão. Por fim, o Riserva 2003 não emocionou tanto como os demais, embora ainda muito jovem. De qualquer modo, parece não ter o mesmo extrato que seus parceiros.

0016b4bd-417a-45a6-beeb-afc384aad9c2grandes safras em momentos distintos

Neste flight, temos vinhos semelhantes em estrutura, mas momentos distintos de evolução. As safras 2005 e 97 têm 92 e 93 pontos, respectivamente. Neste exemplar 2005, ainda muito vigor, vinho em evolução, mas com muita fruta, especiarias, notas defumadas, e um belo equilíbrio. Já o 97, um vinho maduro, com notas terciárias de tabaco, algo cítrico que lembra laranjas sanguíneas, de polpa vermelha, e um mineral terroso. Neste ponto do almoço, alguns pratos que acompanharam bem os vinhos, conforme foto abaixo.

pratos do Piemonte

Embora os Brunellos remetam a pratos de carne mais estruturados como a Bistecca alla  Fiorentina, por exemplo, os vinhos de Gianfranco Soldera são mais delicados e femininos, buscando uma cozinha mais requintada como a do norte da Itália. O risoto de funghi porcini fresco com os vinhos mais evoluídos ficou perfeito, enquanto o rico Bollito Misto teve mais presença com os vinhos jovens, mais vigorosos. Tudo bem executado pelo restaurante Gero, sob o comando impecável do maître Ismael.

img_5705embate de gigantes

Enfim, o gran finale, dois Solderas Riservas altamente pontuados das belas safras 2004 e 2006 com 97+ e 95+ pontos, respectivamente. Foi muito difícil julga-los, tal a semelhança de estrutura de ambos. Devem ser decantados com pelo menos duas horas de antecedência, pois ainda estão em evolução para pelo menos mais uma década. Todo o vigor das grandes safras, mas sempre com a elegância de um autêntico Soldera. Bom corpo de ambos, muita fruta madura e fresca, rico em especiarias, alcaçuz, e um fundo defumado. Taninos muito presentes e extremamente finos. No fotochart, o 2004 justifica seus dois pontos a mais com uma expansão de boca um pouco mais ampla. Contudo, dois belos Solderas fechando o almoço com promessas certeiras para as próximas décadas. 

clássicos italianos

As sobremesas com os clássicos do norte e sul da Itália, Tiramisu e Cannoli de Pistache, respectivamente, muito bem executadas, gentilezas de Rogerio Fasano.

De todo modo, uma bela homenagem a um dos grandes mestres da enologia italiana, Gianfranco Soldera, colocando seu talento acima do terroir de Brunello di Montalcino. Nos dizeres do próprio mestre, suas safras eram como filhos, sem distinção: “Non ce n´è annata meglio o peggio, sono diverse”. Descanse em paz Mestre, o céu tem muito a comemorar!


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