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Franceses no Top Ten

21 de Novembro de 2017

A lista de vinhos mais esperada no final de ano são os premiados da revista Wine Spectator, a despeito de toda a polêmica que envolve seus critérios. Seja o Top 100 ou Top 10, assunto é que não falta.

Neste ano, como de costume, um pelotão de americanos nos dez mais. Sem entrar no mérito do ranking e suas pontuações, são vinhos muito bem feitos, de ótima concentração, e dentro do estilo Novo Mundo, o que há de melhor.

a bela safra 2014 em Bordeaux

Falando agora dos franceses, tema do nosso artigo, vale destacar a ótima safra 2014 em Bordeaux. Se por um lado a safra 2015 mostra-se superior e com preços nas alturas, 2014 pode ser uma boa alternativa, sobretudo na margem direita. É o caso do Chateau Canon La Gaffelière no sétimo lugar com 95 pontos. Um St-Emilion de corte clássico com 55% Merlot, 37% Cabernet Franc, e 8% Cabernet Sauvignon. A boa participação da Cabernet Franc confere finesse e uma certa delicadeza ao vinho.

Outro destaque da safra 2014 foram os vinhos doces na região Sauternes-Barsac. O número três da lista é o tradicional Chateau Coutet,  o mais delicado nos já delicados vinhos de Barsac. Com 75% Sémillon, 23% Sauvignon Blanc e 2% Muscadelle, esse vinho alcançou 96 pontos. É um corte clássico na região com predomínio amplo da Sémillon, uva suscetível ao ataque da Botrytis e ao mesmo tempo, fornecendo estrutura ao conjunto. Os vinhos de Barsac costumam ser mais delicados e elegantes se comparados aos ilustres vizinhos de Sauternes. A maior porporção de calcário no solo explica em parte as características. Chateau Coutet personifica bem este estilo. Ótima referência, independente de safra.

wine spectator domaine huet

Domaine Huet: referência absoluta em Vouvray

Mais um branco francês e mais uma figurinha carimbada na Wine Spectator, o estupendo Domaine Huet. Qualquer vinho deste domaine é sempre muito bem feito, sendo referência absoluta na apelação Vouvray, uma das mais nobres do Loire com a casta Chenin Blanc. Vouvray tem a capacidade de moldar brancos de vários teores de açúcar residual, além de grandes espumantes. É o que há de mais alemão dentro da França. Este Vouvray Demi-Sec 2016, sexto lugar com 95 pontos, tem 20 gramas de açúcar residual por litro, se aproximamdo de um Spätlese alemão. Apesar de sua aparente fragilidade, são vinhos delicados, elegantes, minerais, e com uma capacidade de evoluir por décadas em adega. Sempre uma grande pedida.

wine spectator gigondas

Gigondas: apelação negligenciada por muitos

Agora mais um tinto francês da excelente safra 2015 em toda a França, inclusive no vale do Rhône. Gigondas é uma bela opção de compra aos badalados, caros, e inconstantes Chateauneuf-du-Pape. Este Chateau de Saint Cosme é um blend de 70% Grenache, 14% Syrah, 15% Mourvèdre, e 1% Cinsault. O famoso corte GSM maturado num bom balanço de barricas novas, usadas, e tanques de concreto. Vinho que privilegia a fruta, a maciez, e a concentração de sabores, ricos em ervas e especiarias. Chateau de muita consistência. Alcançou o quinto lugar com 95 pontos para um tinto de pouco mais de quarenta dólares no mercado internacional.

Esses quatro franceses descritos acima estão entre os Top Ten de 2017. Temos ainda um Brunello e cinco americanos fechando o ranking. Pensando agora num Top Ten pessoal, só de franceses, seguem abaixo os seis restantes, incluídos na lista dos Top 100 de 2017.

Completando a lista da bela safra 2014 em Bordeaux, temos mais dois tintos de peso. Um margem direita Saint-Émilion, e outro margem esquerda Saint-Julien.

Clos Fourtet St Emilion 2014 

Este é um Premier Grand Cru Classe de St-Emilion com predominância de Merlot no corte, cerca de 89%. Tinto de muita fruta escura, maciez e profundidade. Bem balanceado com a madeira (40% de barricas novas). 62º lugar com 95 pontos.

Chateau Léoville Las Cases 2014 

Este autêntico margem esquerda tem predomínio amplo da Cabernet Sauvignon com 75% no corte. Referência na comuna de St-Julien, o melhor dos Léoville é vizinho do grande Latour. Tinto de muita consistência, rica estrutura tânica, e enorme longevidade. 91º lugar com 95 pontos.   

Domaine des Baumard Savennières 2015 

Voltando ao Loire, outro Domaine de peso, Baumard. Especializado em Savennières, a melhor apelação para Chenin Blanc seco, a bela safra 2015 brilhou com o sol necessário para a tardia Chenin Blanc. Frutas exóticas como marmelo, toques minerais e de cera, além de uma acidez que garante muitos anos em adega. 15º lugar com 94 pontos.

Agora vamos à Borgonha que não podia ficar de fora. Contudo, fugindo um pouco das regiões badaladas. Portanto, mais ao sul da região, chegando até Beaujolais.

J.A. Ferret Pouilly-Fuissé 2015 

Referência da apelação Pouilly-Fuissé, Domaine Ferret molda vinhos de grande personalidade. Seus Crus especiais apresentam uma complexidade sem igual. Este em questão é a cuvée básica. Sua vinificação é parcialmente feita em barricas, nunca novas. O resultado é vinho cheio de frutas, toques florais, e incrível mineralidade. Sempre, uma compra certeira. 43º lugar com 92 pontos.

Dominique Piron Morgon La Chanaise 2015 

Para quem gosta de Beaujolais, Morgon é meu Cru predileto. Com certo envelhecimento, ele adquire alguns toques minerais de um autêntico Borgonha. Dominique Piron é um especialista desta comuna com vinhos sempre muito equilibrados. 56º lugar com 91 pontos. É o máximo que um Beaujolais pode atingir. Envelhece bem por pelo menos cinco anos.

wine spectator faiveley

Domaine Faiveley Mercurey  1º Cru Monopole Clos des Myglands 2015    

Embora não seja meu estilo preferido de Borgonha, devo admitir de Faiveley é um produtor cheio de tradição e de fãs inveterados. Sempre procura fazer uma vinificação junto com o engaço, o que gera vinhos robustos e de muita força. Este monopólio de pouco mais de seis hectares trabalha com vinhas antigas, entre 63 e 82 (idade de plantação). De todo modo, Faiveley é referência absoluta na pouco badalada apelação Mercurey (Côte Chalonnaise). 83º lugar com 93 pontos.

Da lista acima, alguns produtores que podem ser encontrados no Brasil através das seguintes importadoras abaixo. Os Bordeaux mencionados podem ser encontrados em algumas importadoras, já que não há exclusividade na comercialização.

http://www.mistral.com.br (Faiveley, Ferret, Coutet, Baumard, Ferret)

http://www.decanter.com.br (Dominique Piron)

http://www.premiumwines.com.br (Domaine Huet)

http://www.winebrands.com.br (Chateau de Saint Cosme)

 

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Brancos Franceses Geniais

16 de Novembro de 2017

No artigo anterior sobre tintos bordaleses, tivemos uma série de brancos notáveis que iniciaram o almoço, merecendo um artigo à parte não só pela diversidade, como também pela raridade dos mesmos. São produções diminutas, apelações muito específicas, fugindo do lugar comum.

Peço licença a meus confrades de mesa e copo para discorrer sobre o tema, pois são brancos muito especiais, a despeito do foco do almoço serem Bordeaux envelhecidos. Foi um preâmbulo magnifico! 

mani corton charlemagne leroy

alta costura em vinhos

Logo de cara, Domaine Leroy Corton-Charlemagne 2009, um vinho que temos acompanhado sua evolução em várias oportunidades. Sempre com muita fruta, muito frescor, encorpado, envolvente e de notável persistência aromática. Nesta garrafa especificamente, notei toques de evolução um tanto acentuados em relação a outras provas. Mantem sua riqueza aromática e equilíbrio, mas temo por um envelhecimento mais prolongado. Pode ser um problema de garrafa, embora as características da safra 2009 não sejam de longa guarda para os brancos. É uma safra precoce e exuberante em aromas. Só para se ter uma ideia da exclusividade, a produção nesta safra perfaz cerca de 1800 garrafas.    

mani ermitage ex voto 2010

um dos tesouros de Guigal  

Junto com este Corton-Charlemagne foi servido um dos brancos de elite de Etienne Guigal, o Ermitage Ex-Voto 2010 com 100 pontos Parker. Este da mesma forma, já foi provado em outras oportunidades e continua exuberante. É um vinho de sabores e aromas exóticos que vai se abrindo pouco a pouco na taça. Os Hermitages costumam envelhecer bem, ganhando complexidade aromática com anos em garrafa. Belo corpo, muito bem equilibrado, e um final de muita harmonia. Mostra-se um belo vinho de guarda.

Vale a pena citarmos alguns dados deste grande vinho, pois muitas vezes ele pode passar desapercebido nas mesas por ser tão exótico e sutil. Senão vejamos, temos 1,8 hectares de vinhas, ou seja, o tamanho do vinhedo Romanée-Conti. Os vinhedos são penhascos escarpados e pedregosos com as uvas Marsanne e Roussanne com idades entre 50 e 90 anos. Consequentemente, rendimentos baixíssimos. O vinho além de ser fermentados em barricas novas, é posteriormente amadurecido nas mesmas por 30 meses. Essa é uma das magias nos vinhos de Guigal. Cadê a barrica no aroma e no sabor? Sensacional!    

mani montrachet bouchard 2009

produção de destaque na apelação

Em seguida, foi servida às cegas uma garrafa Magnum de Montrachet 2009 da família Bouchard Père & Fils. Proporcionalmente, não se trata de uma produção pequena, cerca de 0,89 hectares de vinhas. Embora seja uma apelação de elite, não está entre os mais reputados em termos de prestígio. Nomes como DRC, Ramonet, Lafon e Leflaive, estão no time de cima. Primeiramente, foi questionado se ele seria francês. Em seguida, sabendo que se tratava de um Borgonha, foi cogitada a apelação Chablis. Enfim, para um típico Montrachet faltou um pouco de personalidade. Além disso, seu corpo e persistência aromática estavam abaixo das expectativas para tanto. De todo modo, era um vinho muito equilibrado, delicado, e com um acentuado toque cítrico. O ponto positivo é que a garrafa estava muito bem conservada, mostrando cor pouco evoluída e muito frescor nos sabores. Os indícios permitem apostar em mais alguns anos de guarda.

o paradoxo em champagne    

Ainda teve espaço para um champagne. Nada mais, nada menos, que Jacques Selosse Substance, o mais polêmico de seus champagnes. Baseado no método Solera de Jerez, o vinho-base para sua elaboração parte de uma mistura de safras onde o que é sacado para uma determinada partida, é reposto nas barricas com vinho novo. No fundo, não tem tanta novidade assim, já que as melhores cuvées das casas de champagne têm grande proporção de vinhos de reserva, que nada mais são do que safras antigas de grandes anos.

mani crocante de palmito e pequi

crocante de lâminas de palmito assado com creme de pequi

As particularidades em sua concepção consiste em misturar cerca de 22% do vinho da safra ao vinho da Solera (mistura de safras). Como a Solera sofre uma micro-oxigenação nas barricas, o vinho adquire um certo sabor oxidado, semelhante ao Jerez Amontillado. Para ser mais preciso, puxa mais para o gosto de uma Manzanilla Pasada, o mais delicado dos Jerezes Finos com sutis toques oxidativos. A elegância deste champagne provem de dois terroirs em Avize, uma das comunas da Côte des Blancs. Portanto, estamos falando de um autêntico Blanc de Blancs, exclusivamente Chardonnay. Após a espumatização, o vinho permanece por volta de seis anos sur lies. É feito então o dégorgement e engarrafado com baixa dosagem de açúcar.

Para um champagne tão exótico, somente uma harmonização ousada como da foto acima do excelente restaurante Mani. Pequi não é algo fácil de se harmonizar, tem um gosto meio acre. Este gostinho com o sabor do champagne, casou perfeitamente. Além disso, a textura crocante do prato se juntou de forma muito agradável à delicadeza e borbulhas da taça. Uma harmonização de sutileza e sabores marcantes. Neste Substance percebemos ainda um champagne cheio vida, frescor, embora seus toques refinadamente oxidativos lhe confiram extrema personalidade. Sua secura final ressalta ainda mais sua altivez. Inesquecível harmonização!

mani ardbeg port charlotte

Islay em alto nível

A foto acima, já fora da mesa, é um momento de relaxamento com Puros e Malts de Islay. Um de nossos confrades, profundo conhecedor desse Malt cheio de personalidade, proporcionou um embate muito interessante e prazeroso envolvendo o clássico Ardbeg Ten Years Old e o delicioso Port Charlotte Heavily Peated. A escolha é difícil e muito pessoal. De todo modo, digamos que Port Charlotte tem um lado mais feminino, mais gracioso, onde os aromas de caramelo, baunilha e chocolate, se misturam magnificamente à turfa, proporcionando uma maciez notável. Este Malt é envelhecido por oito anos em barricas velhas de Cognac, o mais refinado destilado francês.

Ardbeg é mais vertical, mais austero, mantendo a força e personalidade de Islay com notas defumadas, toques cítricos e de frutas secas. Os barris ex-bourbon mantêm esse tom de rusticidade elegante.

mani ardbeg corryvreckan

puro prazer

Esta caixa de Cohiba Robusto é da loja Gérard Père et Fils na Suíça com uma seleção e conservação impecáveis. O Malt ao lado, é um dos mais diferenciados da magnifica destilaria Ardbeg, conseguindo ainda ser mais complexo, elegante, sem perder a firmeza de caráter de um dos melhores Malts de toda a Escócia.  O envelhecimento em barricas francesas é um dos segredos deste belo Malt, dando-lhe um toque de sofisticação.  

Agora sim, o encontro está totalmente documentado. Agradecendo uma vez mais a companhia e generosidade de todos os confrades. Saúde a todos!

O vinho e o tempo

12 de Novembro de 2017

Quanto mais velho, melhor. Esta é uma das inúmeras frases sobre vinhos e uma das mais equivocadas também. A grande maioria dos vinhos deve ser tomada com poucos anos de garrafa, onde seu apogeu é relativamente curto. Mesmo numa região como Bordeaux, somente menos de cinco por cento de toda a produção anual, faria jus à frase citada.   

As condições de terroir para vinhos de grande longevidade são extremamente precisas e singulares. Voltando a Bordeaux, percebemos que os melhores terrenos nos chamados vinhos de margem esquerda apresentam camadas de cascalho profundas e espessas, garantindo assim uma drenagem eficiente e o perfeito amadurecimento da Cabernet Sauvignon, uva principal do chamado corte bordalês nestas paragens. Seu ciclo de amadurecimento nestas condições de solo e de clima ameno fica alongado, proporcionando uma estrutura de taninos única, não encontrada em outras partes do mundo. Esses taninos sobretudo, é que garantirão um grande Chateau  envelhecer seus vinhos durante 20, 30, 40 anos, ou mais, dependendo de condições específicas de safra.

Nada como constatar na prática o exposto acima num excelente almoço entre amigos. Ficou extremamente didático como os grandes Bordeaux se comportam ao longo do tempo com aromas e sabores fascinantes, cada qual com suas peculiaridades e fidelidade a seus respectivos terroirs.

mani latour 90

a vida começa aos 27 anos …

O que são 27 anos para um Latour? Sabe aquele jovem bem preparado que está começando a vida, cheio de vitalidade e sonhos?. É exatamente a sensação de provar um vinho deste naipe. Devidamente decantada, esta garrafa double magnum estava deliciosa. Toda a força e imponência do Latour numa grande safra. Reparem no rótulo, apenas 12,5 graus de álcool, para que mais?. Corpo perfeito, taninos ultra polidos, absurdamente equilibrado, e extremamente bem conservado. Sua marca registrada estava ali, um toque elegante de couro de pelica, além do intenso cassis, grafite, e notas de chocolate. Vai romper décadas para ser um daqueles grandes Latours que faz a fama do tinto mais respeitado de todo o Médoc.

mani pichon 82

o apogeu de um Bordeaux

Vamos descer um pouco mais no tempo e chegar aos gloriosos 82. São vários os que marcaram história: Latour, Mouton, Lafite, e tantos outros. Contudo, Pichon Lalande se superou como Deuxième. Um vinho às cegas que é capaz de fazer grande barulho na turma de primeiro escalão. Apesar de estar em seu esplendor, seu platô é amplo com uma capacidade de envelhecimento imensa. Mescla com maestria a exuberância da fruta com divinos toques terciários. Sem medo de errar, é o melhor Pichon de toda história deste grande Chateau.

mani margaux 59

outra safra gloriosa

Aqui temos a exata ideia de um grande Bordeaux envelhecido. É um dos grandes Margaux da história, mostrando toda a elegância deste senhor da comuna homônima. Um licor de cassis misturado com floral e um tabaco de Havana sensacional. Taninos totalmente polimerizados, equilíbrio perfeito, e um final muito bem delineado. Vai um pouco de gosto pessoal, mas a suavidade e elegância destes tintos envelhecidos são experiências únicas. 

mani lafite 69

as marcas do tempo no rótulo   

O Brasil ainda se preparava para ser tricampeão mundial de futebol com Pelé em plena maturidade futebolística. Por falar em maturidade, eis um Bordeaux com quase 50 anos. Não é tecnicamente uma grande safra, mas é um Lafite. Só pelos aromas, já vale a pena prova-lo. Etéreo ao extremo com seus toques de cedro, madeira fina, balsâmicos, e notas de chá. A boca já um pouco cansada, mantem o equilíbrio e altivez de um autentico Premier Grand Cru Classé. Lafite é a Borgonha de Pauillac, vinho de extrema elegância e sutilezas. 

Aqui podemos ter a clara noção de delicadeza com profundidade. Numa brincadeira com um dos convivas, aliás nascido nesta safra e grande conhecedor de Bordeaux de elite, foi lhe dado uma taça para provar sem nenhuma pista, e imediatamente sentenciou: isso aqui é uma mistura de Lafite com Latour. De fato, era o que estava na taça. Analisando o fato, veja como um Lafite aparentemente frágil peitou de frente o todo poderoso Latour numa safra vigorosa, pois os aromas do Lafite predominaram na taça. Mistério dos vinhos …

carnes do restaurante Mani

Carnes de diferentes texturas como bochecha de boi e bife de chorizo acompanharam com competência o time de bordaleses descritos acima. Outros pratos do menu harmonizaram melhor com uma série de brancos maravilhosos que descreverei no próximo artigo, exceto o Yquem 1990 abaixo, por sua origem bordalesa.

mani yquem 90mani mochi de bacuri

safra histórica deste grande ícone

Começamos e encerramos muito bem o almoço com dois maravilhosos Bordeaux de 1990, Latour e Yquem. Parece que essa garrafa adivinhou que iria encerrar um almoço de bordaleses envelhecidos. Ao contrário de outras garrafas de mesma safra, a própria cor estava mais evoluída, acompanhando os aromas de mel, caramelo escuro, e notas adamascadas. Amplo em boca, deixa um final harmonioso e bastante expansivo. Ainda na foto acima, sobremesa de frutas exóticas e a cor evoluída do maior dos Sauternes.

Encerrando as considerações sobre o tempo, os grandes vinhos nos ensinam que paciência e sabedoria são virtudes trabalhadas ano após ano com muita serenidade. Num dado momento, percebemos que a espera valeu a pena.    

Abraços a todos os confrades, companheiros de mesa e copo!

Trufas, Barbarescos e Bourgognes

7 de Novembro de 2017

Dando prosseguimento ao sacrifício do artigo anterior, vamos continuar falando das trufas de Alba e vinhos envelhecidos. Agora, a sutileza, a delicadeza, a elegância, são imperativas. Continuando na Itália, vamos a dois Barbarescos de sonho do mestre Angelo Gaja e seus três vinhedos irrepreensíveis. Desta feita, Sori Tildin 1981 e Costa Russi 1990.

carlos gaja sori tildin costa russi

a suprema elegância da Nebbiolo

Nem precisa falar que Costa Russi 1990 tem notas altíssimas (98 pontos Parker) e trata-se de um vinho praticamente perfeito. De fato, a denominação Barbaresco é o lado mais feminino do todo poderoso Barolo. Essas denominações são separadas por pouco quilômetros e por diferenças de altitude. Os Barbarescos costuma ser mais delicados e atinge seu apogeu mais cedo, embora sem pressa. Mesmo esse da safra de 1990 ainda pode ser guardado por mais algum tempo. Pleno de aromas e sabores, seus taninos são finíssimos, além de longa persistência em boca. Um francês diria: esse vinho é tão bom que nem parece italiano. Já o Sori Tildin 1981, totalmente pronto e extremamente prazeroso. Não tem o extrato da mítica safra de 90, mas esbanja delicadeza e elegância. Seus sutis aromas se entrelaçam ao perfume da trufa. Grande harmonização!

carlos granbussia 90

A Borgonha pulsa no Piemonte

Ué! voltamos aos Barolos!. Que nada, se existe um caminho no Piemonte, mais especificamente na terra do Barolo, que leve à Borgonha, Aldo Conterno conhece esta estrada. A sutileza, a profundidade, a finesse, que este produtor consegue transmitir a seus vinhos é algo impressionante, sobretudo em seu astro maior, o Granbussia, especialmente na safra de 1990, só superada por 89. Esta é a razão deste único Barolo estar no artigo sobre os Bourgognes e os melhores Barbarescos de Gaja.

carlos ovos e trufas

ovos e trufas: clássico dos clássicos

Gnocchi recheado de vitela

Voltando ao assunto harmonização, a maioria dos pratos envolvendo ovos e massas com trufas brancas, apresentam texturas delicadas, sem necessidade de vinhos muito encorpados. Ao Contrário, a elegância e aromas terciários são fundamentais neste casamento. Os brancos envelhecidos, sobretudo os borgonhas, vão muito bem neste caso, embora nosso assunto  hoje seja tintos. De todo modo, parece que os Barbarescos envelhecidos são imbatíveis em termos de textura e além disso, apresentam aquela rusticidade elegante, própria da Itália. Os borgonhas tintos são fabulosos, mas pessoalmente para ovos, sua extrema elegância fica um pouco deslocada. Nos pratos de massas, eles se saem melhor. E sem perder o fio da meada, olha a turminha abaixo.

carlos romanee st vivant e bonnes mares

passaporte para o céu

Este foi o ponto alto do almoço, a sublimação de aromas, sabores e texturas. A Borgonha no mais alto nível. Esses vinhos são poesia pura. Começando pelo Bonnes Mares, é um dos Grands Crus mais reputados da Côte de Nuits fora do território sagrado de Vosne-Romanée. Mesmo numa safra pouco badalada como 1952,  este vinho só pelo fato de estar totalmente integro nesta idade, já é uma vitória. Contudo, ele é muito mais que íntegro, ele é divino. Taninos totalmente integrados ao conjunto com uma acidez perfeita, revigorante. Seus aromas terrosos, de sous-bois, de adega úmida, são maravilhosos. De uma delicadeza ímpar.

E quando você pensa que a perfeição foi atingida, ao lado dele, eis um Romanée-Saint-Vivant de devaneio, o mítico DRC 1978, safra gloriosa. Graças a Deus que já pude prova-lo mais de uma vez, e vou continuar rezando para prova-lo quantas vezes mais for possível. Esse vinho não é desse planeta. Se eu tiver que colocar nos dedos de uma mão os melhores borgonhas tintos de minha vida, certamente esse é um deles, se não for o primeiro. Não vou descreve-lo porque isso chega a ser uma heresia, mas o bouquet de rosas que sai dessa garrafa não tem em nenhum jardim do mundo. Fenomenal!   

carlos aldo conterno 71

Musigny, outro Grand Cru excepcional!

Essa foto vocês já viram no artigo anterior, mas lave a pena ver de novo. Os franceses que entendem realmente de Borgonha dizem que um grande Musigny tem o efeito de uma cauda de pavão na boca, abrindo um leque de sabores. Realmente, eles tem toda razão. Novamente, uma safra pouco badalada de 1969. Lá se vão quase 50 anos, e o vinho está maravilhoso, sem nenhum sinal de decadência. Não é um vinho para veganos, pois os aromas de carne fresca que explodem na taça são impressionantes. Além disso, frutas silvestres delicadas, florais e muitas especiarias. Como esse pessoal da Velha Guarda da Borgonha sabia fazer vinho. É arrasador e absolutamente divino.  

carlos malvazia 1875

a imortalidade é palatável

Já que estamos no céu, vamos encerrar o assunto com um Madeira do século XIX. Um Malvazia 1875, grafia antiga com z, escrito em tinta branca. Este é o famoso Madeira Frasqueira, o mais reputado e longevo de toda a ilha. Deve passar pelo menos 20 anos em cascos pelo método de Canteiro, onde as variações de temperatura e estações do ano são naturais. Sem pressa, é engarrafado para viver na eternidade. Um vinho imortal, um verdadeiro néctar, terrivelmente persistente em boca. Nada mais a dizer …

Trufas e Barolos

2 de Novembro de 2017

Um almoço elaborado pelo Chef Salvatore Loi com um menu de pratos trufados. Trufas brancas de Alba, bem entendido. Foram muitos vinhos testados com vários pratos envolvendo ovos, carne e massas. Neste artigo, trataremos inicialmente dos Barolos servidos, vinhos de maior tanicidade e pujança. No artigo seguinte, trataremos de alguns Barbarescos e Bourgognes envelhecidos que imprimem uma outra conotação ao tema.

carlos massa e trufa

massa e trufas, um clássico

Antes de mais nada, preciso fazer um parêntese imenso sobre um champagne muito especial servido em Magnum, estimulando o paladar dos convivas. Trata-se de um Dom Pérignon Rosé 1988 P3. Uma obra-prima da enologia das melhores borbulhas do mundo. P3 significa terceira plenitude onde outrora era chamada de Dom Pérignon Oenothèque. A ideia aqui é trabalhar com longo envelhecimento sur lies antes do dégorgement, ou seja, para um P3, categoria máxima neste conceito, o champagne deve permanecer em contato com as leveduras por mais de vinte anos. Neste caso, o Rosé 1988 ficou 25 anos sur lies. Com um vinho-base de altíssima qualidade, temos um assemblage com larga proporção de Pinot Noir, inclusive uma parte como vinho tinto da região para fornecer a devida cor ao conjunto. Este contato prolongado com as leveduras promove uma perfeita integração do gás à massa vínica, além de textura e sabores únicos. Seus toques amendoados e de torrefação são sublimes.

carlos dom perignon rose P3

O continente reflete o conteúdo, excepcional!

Outro parêntese imenso para um trio de Monfortinos. Para uma legião de fãs, o melhor Barolo de todos os tempos. Devo admitir numa linha mais ortodoxa no classicismo dos Barolos, Monfortino é o que há de mais profundo e típico. Um Barolo de raça, que não faz concessões.

carlos monfortino 82 88 97

Um trio de respeito

Monfortino está para o Barolo, assim como Biondi-Santi está para o Brunello. Vinhos de grande tradição, história, e de enologia mais tradicional possível. Vinhos de outros tempos, onde o fio do bigode valia uma sentença. Dito isso, a coerência deste vinho com seu terroir é absoluta. Para quem faz Barolos à moda antiga, com longa maceração e longo envelhecimento em botti, Serralunga d´Alba é o local perfeito com seu solo helvético, rico em ferro, produzindo vinhos poderosos, tânicos, e de elevada acidez. As melhores uvas de onze hectares da propriedade são destinadas ao Monfortino. O mosto é fermentado por quatro a cinco semanas, incluindo maceração pós-fermentativa. As temperaturas são relativamente altas, em torno de 32º centigrados, favorecendo acentuada extração de taninos. O vinho então faz malolática e um longo envelhecimento em botti (toneís eslavônios de grande dimensão, aproximadamente seis mil litros cada um) por cerca de 84 meses. A micro-oxigenação  intensa tenta rechaçar o impacto tânico do vinho. São de sete a dez mil garrafas por safra. 

Dos três Monfortinos degustados, uma coerência impressionante neste estilo mais austero. O Monfortino 82, safra de grande potencial, foi o mais prazeroso, provando que este vinho merece longo envelhecimento em adega. Seus aromas de alcatrão, chocolate amargo, especiarias e alcaçuz são marcantes. Sua acidez e riqueza tânica também impressionam. O Monfortino 97, safra de potencial similar a 82, parece seguir o mesmo caminho, mas ainda está no começo da jornada. Potente, austero, precisa ainda ser domado pelo tempo. Por fim, Monfortino 88 ficou no meio do caminho. Já agradável de ser tomado, não tem a potência das safras mencionadas, mas segue a mesma espinha dorsal, ratificando a tipicidade deste vinho.

carlos gaja sperss 89

quando a elegância impera …

Tudo que falamos até agora de Barolo (Monfortino) não vale para o vinho acima, a despeito de ser produzido no mesmo terroir, Serralunga d´Alba. Alguém já disse: o homem faz o terroir, ou o desfaz. Fica muito claro no exemplar acima que Angelo Gaja imprime seu savoir-faire elegante nos vinhos que elabora. Partindo da mesma uva, solo, e clima, seus conceitos de vinificação são claramente modernos, sem perder a tipicidade da região. Os vinhos são menos extraídos, preservando a fruta, e adequando um amadurecimento coerente em botti e barricas francesas. Uma fruta mais vibrante é notável em seus aromas, lembrando cerejas negras, um alcaçuz fino, um defumado elegante, e taninos absolutamente maleáveis. Atrás dessa aparente delicadeza, temos um vinho profundo, vigoroso, e apesar de seus quase 30 anos, absolutamente inteiro, suportando com tranquilidade mais algum tempo em adega. Decantado previamente por duas horas, é extremamente prazeroso. Fazer isso em Serralunga d´Alba é só para quem tem muito talento e carisma.

carlos aldo conterno 71

Aldo Conterno da Velha Guarda

O Musigny acima falaremos no artigo seguinte. Vamos nos ater somente aos Barolos, incluindo este Aldo Conterno 1971. Além de não ser uma grande safra, este é o Barolo mais simples de Aldo Conterno, vinificado com conceitos atrelados à época. Percebe-se uma vinificação mais extraída, com toques mais oxidativos, sem a elegância peculiar desta grande Cantina. Não tem a força dos Monfortinos e nem a elegância de Angelo Gaja. Um Barolo ainda íntegro, a despeito de sua idade extremamente avançada. Um belo exemplo da longevidade deste vinho chamado Barolo, o Rei dos Vinhos, como dizem os italianos.

Quanto à compatibilização com as trufas, um dos requisitos mais importantes são os aromas terciários dos vinhos, relacionados a vinhos antigos. Vinhos novos não têm nada a ver com trufas, mesmo que sejam os famosos tintos piemonteses. Neste sentido, todos os Barolos acima descritos possuem este precedente. No entanto, possuem textura muito robusta e excesso de taninos, sobrepujando de certa forma os pratos. Aqui, um Brasato al Barolo com lâminas de trufas por exemplo, seria um prato mais indicado. Pelo que foi exposto, fica fácil perceber que o Barolo de Angelo Gaja, Sperss 89, foi o vinho mais adequado aos pratos servidos.

Próximo artigo, as trufas se encontram com Barbarescos e  Vins de Bourgogne. Aguardem!

Petrus x Médoc

31 de Outubro de 2017

Mais um belo jantar preparado pelo Chef Laurent Suaudeau, um dos mais clássicos franceses radicado em nosso país, escoltando cinco bordaleses de primeiro escalão num bom momento de evolução em garrafa de safras não tão badaladas. É nessas horas que vemos toda a categoria desses vinhos e sua capacidade de envelhecer longamente em adega. Antes porém, um Champagne e um Meursault fizeram as honras da casa recepcionando os convivas.

champagne e bottarga

Na foto acima, Louis Roederer Cristal Rosé 2005 em Magnum. Um dos diferenciais deste incrível champagne é ser elaborado com maceração pelicular da Pinot Noir, ou seja, um rosé de saignée. Na grande maioria dos champagnes rosés, o método normalmente usado é de assemblage, misturando um pouco de vinho tinto no mosto incolor apenas para tingi-lo devidamente. Além disso, sua categoria Brut está no limite do açúcar residual permitido, entre 11 e 12 gramas por litro. O blend é feito com 70% Pinot Noir e 30% Chardonnay. O vinho permanece cerca de quatro anos sur lies antes do dégorgement. O resultado é um champagne de estrutura, macio, com a elegância da Maison acima de tudo. Mousse muito delicada e um final harmônico, mesclando frescor e uma sensação off-dry. Acompanhou bem uma das entradas (foto acima), lâminas de bottarga com purê de batata, mostrando personalidade. 

bisque de camarão e Meursault. Hum !!!

Nesta combinação tem um pequeno detalhe. O Meursault é do Roulot e a bisque, do Laurent. Isso pode fazer uma enorme diferença. Este Premier Cru Le Porusot tem uma diminuta área de 0,42 hectare. Seu estilo é muito mineral, um toque alimonado, e uma textura não tão untuosa como um Lafon, por exemplo. A porcentagem de barrica nova no processo é bem pequena, da ordem de 15 a 20%. Muito equilibrado, super bem acabado e complementou divinamente uma das entradas (foto acima), panelinha de vongole e camarão. 

Nessa altura do campeonato, todos já olhando para os decanters na mesa de apoio com os cinco vinhos devidamente livres de seus sedimentos.

carlos lafite e margaux 79

safra que pode surpreender

Abrindo os trabalhos, lado a lado, Lafite e Margaux com quase 40 anos. O Lafite 79 mostrou toda a evolução de um grande Bordeaux. Aromas terciários plenos, taninos polimerizados, um toque de cedro muito elegante. Enfim, o vinho mais pronto no momento e com incrível prazer. É sem dúvida, o mais delicado e elegante entre os grandes Pauillac. Já o Margaux 79, surpreendeu positivamente. Uma safra que muita gente não dá bola, mas no caso de Margaux apresenta grande estrutura. Seus taninos ainda não estão totalmente resolvidos. Os aromas muito elegantes do Margaux lembram um toque floral e de sous-bois, entre outros. Já pode ser bebido, mas evolui por pelo menos cinco anos. Tem 93 pontos Parker.

carlos mouton 87 e latour 94

a força de Pauillac

Neste segundo flight, a maior disparidade. Tanto em evolução, como diferenças de safra. Mouton 87 numa safra com muitos problemas. Por ser uma safra relativamente precoce e sem muita concentração, seu melhor momento certamente passou. Ainda longe de qualquer indicio de oxidação, não foi tão longo em boca. Já o Latour 94, foi o infanticídio da noite. Outra safra não muito badalada, mas com 94 pontos Parker. Cor ainda escura, aromas um pouco fechado, foi se abrindo aos poucos. Uma montanha de taninos para ser trabalhada ao longo do tempo. Aromas clássicos com um toque de cassis, couro fino, mineral, e tabaco. Longo em boca, precisa dormir pelo menos mais dez anos em adega. Latour é Latour.

carlos bouef bourguignon

boeuf bourguignon comme il faut

Acima, um dos pratos do mestre Laurent, o clássico cozido borgonhês para cutucar um pouco os bordaleses. Sem nenhum problema de harmonização, quando já bem evoluídos, os bordaleses pegam um pouco a delicadeza da Borgonha.

carlos petrus 80

um dos mitos de Bordeaux

Abram alas para sua majestade, Rei Petrus. É mais ou menos assim que pensamos quando ele chega à mesa. Para começar, esta safra mostra uma boa estratégia para aqueles que desejam prova-lo  pelo menos uma vez. Não é tão cara como outras safras badaladas e tem a vantagem de estar pronto, sem muitas arestas. Com seus 37 anos, é muito prazeroso de toma-lo. Ainda com muita fruta, toques terrosos e de adega úmida, seus taninos são sedosos, e um final complexo. Pela expectativa da safra, surpreendeu positivamente. Além disso, título do artigo, enfrentou sozinho os quatro da margem esquerda com altivez.

Ainda deu tempo de dar um pulinho na safra 99 com dois grandes chateaux, Haut-Brion de Graves, e Ausone de Saint-Emilion.

carlos ausone e haut brion 99

já chegando nos seus 20 anos!

Outra safra que muitas vezes passa esquecida em Bordeaux. Os dois chateaux acima ainda muito novos, provando mais uma vez a enorme longevidade desses vinhos. Haut-Brion sempre prazeroso com seus toques terrosos e de estrebaria. Segue o perfil elegante, não muito encorpado, mas extremamente equilibrado. Devidamente decantado por duas horas, pode ser muito agradável no momento. Já o Ausone, foi outro infanticídio. Um vinho com 95 pontos Parker de taninos abundantes e muito finos. Fruta escura concentrada, um toque mineral esfumaçado, faltando claramente integração entre seus componentes. Lembra um pouco os aromas do Troplong Mondot, outro grande St-Emilion. Com a devida paciência, será um dos grandes Ausones, fechando o século passado.

carlos yquem 87

o melhor final de festa bordalês

Falar que Yquem é um grande Sauternes, um vinho maravilhoso, é chover no molhado. O que novamente surpreendeu positivamente neste exemplar foi a safra 87, outra vez pouco badalada. Um vinho pronto, não muito untuoso, mas com aromas delicados e muito harmônicos. Um toque sutil de mel, caramelo e marron glacé. Final não muito longo, mas extremamente prazeroso.

carlos noval vintage 1970

Madelaine, Porto e Latour ao fundo

Na foto acima, o brinde final. Quinta do Noval Vintage 1970 devidamente decantado. A cor é bem mais delicada que o decanter da foto, no caso Latour 94. Noval é uma Casa de elegância impar. Notas balsâmicas e de frutas em compota permeiam seus aromas. Boca ampla, de grande equilíbrio, e terrivelmente persistente. As madeleines não são de Proust, mas do mestre Laurent. Um Gran Finale!    

O Espirito de Champagne

20 de Outubro de 2017

O mundo em Champagne gira em torno de suas variações de safras e seus vinhos de reserva. Num clima instável, quase no limite do cultivo da vinha, a característica e quantidade de cada safra são muito bem pensadas na sua utilização em si, procurando manter um alto padrão de qualidade e tipicidade dos vinhos.

Baseados em estatísticas oficiais recentes da safra 2015, vamos falar um pouco dos champagnes Brut non millésimés, Millésimés, e Cuvées de Prestige. Sabemos que por lei, os champagnes nom millésimés, sem safra, devem passar pelo menos 15 sur lies antes de serem expedidos. Na prática, as grandes Maisons superam com folga este tempo. Mesmo assim, é importante a devida proporção de vinhos de reserva,  mantendo a qualidade e o padrão de cada casa. Faz parte do esteio, da grande produção da região em termos de volume e sobretudo de receita, garantindo a prosperidade do negócio.

Quando a safra é muito boa, fato raro na região, uma parte da mesma é destinada aos millésimés. São champagnes de pequena produção onde não há inclusão dos vinhos de reserva e assim, refletem as características da safra em questão. Para aumentar a complexidade desses vinhos, o tempo mínimo por lei em contato sur lies são de três anos. De fato, o contato prolongado com a levedura acaba gerando uma complexidade aromática maior e uma textura mais macia ao champagne. A maior parte dessas grandes safras é adicionada aos vinhos de reserva, garantindo assim a manutenção da qualidade nos anos menos favorecidos.

Por fim, as suntuosas cuvées de prestige que geralmente são millésimés. Estas são o “crème de la crème” dos melhores vinhos-bases dos melhores vinhedos com alta porcentagem da classificação Grand Cru. Como o contato prolongado com as leveduras tem a ver com a estrutura do vinho-base, pois o ambiente é altamente redutivo, esses vinhos costuma passar pelos menos de cinco a seis anos sur lies.

Tanto os millésimés como as cuvées de luxo são champagnes que podem envelhecer em adega a despeito de perderem um pouco o vigor das borbulhas. Seus vinhos-bases são capazes de compensar a eventual falta de gás. A propósito, falando em formato de taças, este é o caso em que a opção por uma taça de branco por exemplo, é altamente recomendável, liberando com eficiência aromas mais complexos da bebida.

Para aqueles que não abrem mão das borbulhas e exigem complexidade e frescor, neste mercado de luxo existem os champagnes com tempo sur lies extremamente prolongado, acima de dez anos digamos. A proteção e conservação das leveduras em contato com o liquido garantem um frescor inigualável ao produto. É o caso por exemplo dos champagnes Bollinger RD, Krug Collection, e o Dom Pérignon P2 e P3. Não são nada baratos, pois o tempo dispensado para sua elaboração justifica os preços. Tirando este detalhe, é uma maravilha!   

champagne estatisticas 2015

Europa e outros países – ano 2015

Dos números acima, podemos perceber porque os champagnes millésimés são tão especiais. São porcentagens mínimas, até menores que as suntuosas cuvées de prestige. Por outro lado, como é importante para este negócio a venda de seus champagnes non millésimés, a base da produção que sustenta o sonho dos grandes rótulos.

O aumento de procura por vinhos rosés tem sido crescente, e não é diferente para os champagnes, sobretudo para os mercados dos Estados Unidos e Japão. A grande maioria dos champagnes rosés é feita pelo método de assemblage, ou seja, misturando um pouco de vinho tinto no chamado vinho-base, prática condenada na elaboração dos rosés tranquilos.

As exportações de Champagne concentram-se pela ordem em Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha, Japão e Bélgica. O Brasil ocupa a 22º posição atrás de México, Canadá e Finlândia, por exemplo.   

champagne 2015

distribuição de champagne pelo mundo

Os franceses consumem metade da produção de champagne, mas de valores relativamente modestos, inclusive tendo boa ofertas dos champagnes de vignerons, ou seja, pequenos produtores. Este nicho é muito mais restrito para exportação já que os grandes grupos de champagne dominam este mercado.  

jacquesson 738

sempre uma boa pedida

Como sugestão, o belo champagne Jacquesson disponível no Brasil, importadora Franco-Suissa (www.francosuissa.com.br), é um dos melhores no mercado, fugindo um pouco das marcas tradicionais. Tem predomínio de Chardonnay sobre as outras uvas (Pinot Noir e Pinot Meunier) com 33% de vinhos de reserva. Alta porcentagem que faz toda a diferença. Esta cuvée passa até quatro anos sur lies. É provar e aprovar!

 

Havia umas pedras no meio do caminho …

11 de Outubro de 2017

Espanha, terceira maior produtora mundial de vinhos, vai muito além de Rioja e Ribera del Duero, regiões de referência nos vinhedos espanhóis. Vamos falar hoje de solos pedregosos, de xisto, em lugares montanhosos, moldando tintos de muita personalidade e caráter, Bierzo e Priorato, conforme mapa abaixo.    

espanha relevo

Bierzo: canto superior esquerdo

Priorato: canto superior direito

Embora as duas regiões sejam de caráter montanhoso e solos parecidos de xisto, a diversidade de clima entre ambas, resultam em escolhas de uvas diferentes para que possam expressar  com sucesso seus respectivos terroirs.

Bierzo    

Administrativamente, Bierzo pertence à ampla região de Castilla y Léon, bem nas limitações da divisa. Contudo seu solo, subsolo, e clima, têm muito mais a ver com a região da Galicia. De fato, a umidade relativa, a pluviosidade, e as temperaturas relativamente baixas, são influenciadas pelo mar Cantábrico e o Atlântico. Assim temos, temperatura média anual em torno de 12º centígrados e precipitações por volta de 700 mm. O solo tem textura franco-limosa em ladeiras entre altitudes de 450 a 800 metros. A pedregosidade também é importante com uma espécie de xisto chamado de pizarras. Com quase três mil hectares de vinhas, a Mencia domina amplamente os vinhedos de uvas tintas.

Priorato

Priorato ou Priorat, como os espanhóis gostam de chamar, é também uma região montanhosa com solo pedregoso na paisagem catalã, mas com uvas e climas distintos da região de Bierzo. Outro ponto semelhante entre as duas regiões são suas histórias antigas e muito ricas atreladas a um passado religioso. Em tempos recentes, final da década de 80 para Priorato e um pouco mais tarde para Bierzo, essas vinhas antigas foram revitalizadas, renascendo assim um patrimônio viticultural inestimável.

As principais castas cultivadas em quase dois mil hectares de vinhas em terrenos de grande declive são Garnacha e Cariñena, esta última conhecida como Mazuelo. As altitudes variam muito entre 100 e 750 metros. Com verões bastante quentes, podendo chegar a 40º centrigrados em determinados períodos, temos também pluviosidade mais baixa que Bierzo, entre 400 e 600 mm anuais extremamente concentrada no inverno. Nessas condições de secura, as uvas acima mencionadas de maturação tardia não apresentam dificuldades de amadurecimento, gerando vinhos robustos e de grande riqueza aromática. Para contrabalançar este cenário, as noites costumam ser muito frias, provocando a tão benvinda amplitude térmica e assim conservando um bom nível de acidez nas uvas. Compondo este terroir, a influência do mar Mediterrâneo, mais quente e bastante diverso dos mares do noroeste, próximos a Bierzo, apenas amenizam o calor nestas terras da Catalunha.

Os solos de pizarras aqui também presentes são chamados de llicorella com quatro tipos geologicamente distintos: pizarra (praticamente em todo o território), pizarra gresosa de origem mais arenosa, pizarra del devoniano (rocha mais antiga do Priorato), e pizarra moteada (rocha extremamente dura como granito encontrada quase exclusivamente em Porrera, microterroir da região). Vale mencionar que Priorato é uma das duas regiões com denominação de origem qualificada, ou seja, DOCa (Denominacion de Origen Calificada). O outra DOCa é a tradicional Rioja.

llicorella x pizarra

Na foto acima, os solos do Priorato e Bierzo, da esquerda para direita. Semelhantes em sua constituição, transmite a típica mineralidade aos vinhos. As diferenças climáticas são imperativas nas respectivas diferenças de terroir.

Bierzo x Priorato

Esta com certeza é a segunda maior rivalidade na Espanha em termos de regiões, após Rioja x Ribera del Duero, mais clássicas e tradicionais. Neste embate, só o consumidor se beneficia com vinhos de grande personalidade e uvas bastante típicas, marcando com propriedade os respectivos terroirs.

Podemos dizer que os tintos de Bierzo são relativamente menos encorpados que os do Priorato. Parece também que eles conservam uma melhor acidez. Aromaticamente, os dois são muito interessantes com toques minerais notáveis. Talvez numa sintonia fina, poderiamos dizer que os de Bierzo são mais elegantes, enquanto que os do Priorato, mais potentes.

Aqui no Brasil, felizmente temos bons exemplares de ambos. Evidentemente, Priorato por já ser um vinho mais consagrado, seus preços não são tão atraentes. Já os de Bierzo, não alcançaram semelhante status e assim, podemos encontrar boas ofertas.   

Dominio de Tares Cepas Viejas e Bodegas Peique Viñedos Viejos são belos exemplos deste distinto terroir de Bierzo com cepas muito antigas. É imperativo que se decante esses vinhos por duas horas. Podem ser encontrados nas importadoras Tahaa e Decanter, respectivamente.

Do lado do Priorato, Alvaro Palacios Les Terrasses e Mas Igneus FA112 baseados nas uvas Garnacha e Cariñena com passagem por barricas francesas, podem ser encontrados nas importadoras Mistral e Vinissimo, respectivamente. Também devem ser decantados previamente. Por ser uma região com mais notabilidade que Bierzo, seus preços são geralmente mais caros.

l´ermita priorato 2013

O Petrus do Priorato

L´Ermita de Alvaro Palacios simboliza o que há de mais exclusivo no Priorato. Um vinhedo de pouco mais de um hectare de vinhas centenárias de Garnacha e rendimentos muito baixos, perfazendo em torno de mil garrafas por safra. Um vinho que atinge mil euros cada garrafa com tranquilidade. Disputado nas melhores adegas. O da foto acima tem 100 pontos.

Enfim, um belo tema para degustações didáticas onde a influência climática é determinante para um mesmo tipo de solo, gerando vinhos distintos e igualmente notáveis.

Margaux: Ideia de Felicidade

7 de Outubro de 2017

Friedrich Engels, filósofo alemão e um dos pilares do Marxismo, disse quando questionado o que seria um momento de felicidade, Chateau Margaux 1848. Esses momentos se prolongaram num excelente almoço no restaurante Parigi, provando dois dos mais exemplares Chateaux da clássica comuna de Margaux no Médoc. O grande Margaux que dá nome à comuna, e no seu encalço, Chateau Palmer, injustamente classificado como Troisième Grand Cru Classe.

a entrada e a saída

Tartar de atum, um pouco de proteína para enfrentar a batalha. Mil-folhas clássico, uma das especialidades da casa. Belo serviço de vinhos executado pelo sommelier Alexandre.

Os tintos de Margaux são conhecidos por sua elegância dentre os grandes da Margem Esquerda. Se comparado com a Borgonha, seria uma espécie de Chambolle-Musigny. Neste sentido, Chateau Palmer enquadra-se bem com significativa participação da Merlot em seu corte, tendo leve predominância da Cabernet Sauvignon. Já o grande Margaux, comporta-se como Le Musigny, um tinto mais estruturado com alta porcentagem de Cabernet Sauvignon, por volta de 75% no corte. Como dizia o mestre Paul Pontallier, falecido recentemente: “sua força se esconde atrás de uma rara elegância”. Vale salientar que Chateau Margaux envelhece muito bem, sobretudo nas grandes safras. Um dos mais espetaculares vinhos que já provei, senão o melhor, foi uma garrafa perfeita de Margaux 1900 com muito de vocês presentes já há alguns anos, meus caros confrades.

Vale ressaltar que além dos belos tintos do Chateau, Margaux também elabora tradicionalmente um branco impecável exclusivamente com Sauvignon Blanc há quase cem anos, Pavillon Blanc du Chateau Margaux. Suas características únicas de terroir permitem esta ousadia num território fundamentalmente de tintos. O cascalho muito fino e profundo, além da presença notável de calcário são algumas de suas particularidades, marcando com muita elegância seus vinhos.   

parigi margaux 83

duas joias de 1983

Feita as devidas preliminares, vamos aos vinhos em quatro flights de muito prazer e aprendizado. Já de cara no primeiro, talvez o melhor deles, dois dos grandes tintos de Bordeaux da safra 83 lado a lado, Margaux e Palmer. Quase duzentos pontos em jogo. O Margaux 83 só confirmou mais uma vez ser um dos grandes Bordeaux já produzidos. Espetacular em todos os sentidos. Este seu momento com mais de trinta anos, tem um esplendor maravilhoso. Todos aqueles aromas que se exige de um grande tinto bordalês estão presentes. Fruta madura e elegante, os toques de tabaco, especiarias, café, florais e balsâmicos, permeiam a taça em grande harmonia. Não sei se ainda vai evoluir, mas como está, já é uma maravilha.

O Palmer 83 com dois pontos acima do Margaux descrito é um monstro engarrafado. Sua cor é menos evoluída e mais profunda. Seus aromas chegaram na taça ainda tímidos, soltando-se pouco a pouco. Uma montanha de taninos ainda a resolver. Muita concentração de fruta e os florais desabrochando a cada instante. Sua boca é densa, longa, e muito bem equilibrada. Atualmente, não dá o prazer de seu ilustre oponente, mas certamente romperá décadas para aqueles mais pacientes. Sua estrutura é tal que podemos compara-la à mítica safra de 1961. Um vinho impressionante ainda longe de seu apogeu.

parigi margaux 89

aqui Palmer deu a aula

Bom, gastei o verbo neste primeiro flight porque realmente foi impecável. Se neste segundo, conseguíssemos subir mais ainda, estaríamos no céu. De todo modo, estamos falando de dois dos maiores de toda a comuna de Margaux de maneira incontestável. Neste segundo flight da safra 89 o nível desceu um pouquinho mas principalmente, houve maior disparidade entre os vinhos. Começando pelo Palmer, o nariz lembrava muito o Margaux 83 no sentido de evolução aromática. É um vinho muito complexo, fino, bem trabalhado, mas no fotochart perde por uma cabeça para o Margaux 83. De qualquer modo, aqui uma primeira amostra de como o Palmer em algumas safras pode encarar de frente o grande Premier Cru Margaux.

Agora falando do Margaux 89, um vinho difícil de ser avaliado, pois parece ainda não estar pronto. Fechado nos aromas de início, foi se mostrando muito timidamente ao longo da degustação. Sua estrutura tânica impressiona, mas parece um tanto super extraído,  faltando meio de boca. Tenho sérias dúvidas quanto à evolução para melhor deste tinto. Não senti a mesma firmeza que o grande Palmer 83 me passou.

parigi margaux 90

difícil escolha

Seguindo em frente, vamos ao terceiro flight. Sem dúvida, o mais surpreendente de todo o painel. Teoricamente parecia ser fácil, pois tratava-se da safra de 90 onde Chateau Margaux e seu segundo vinho, Pavillon Rouge, estavam lado a lado. Para ratificar mais ainda este favoritismo, o Margaux 90 tem 100 pontos. Começando pelo Pavillon Rouge, esta garrafa veio diretamente do Chateau. Portanto, seu histórico é ilibado. De fato, estava maravilhoso, pronto, sem arestas, e extremamente prazeroso. Um nível de segundo vinho invejável. 

O Margaux 90 evidentemente ainda não estava pronto, mas não o achei em grande forma. Talvez seja um problema de garrafa. É logico que minha lembrança desta safra é das melhores, pois provei uma Imperial há poucos anos atrás. De todo modo, é um vinho muito complexo e no momento ainda cheio de mistérios, mas que o Pavillon fez bonito, isso fez …

parigi margaux 86

o presente e o futuro juntos

Por fim, neste quarto flight, uma verdadeira lição de quando um vinho está pronto e o outro ainda no início da jornada.Vamos falar agora de Pavillon Rouge 1982. Um segundo vinho com 35 anos de idade. Outra garrafa impecável diretamente do Chateau. Um vinho totalmente resolvido, no seu auge, com todos os aromas terciários em harmonia. Falta evidentemente, aquela expansão de boca que só um Premier Cru é capaz de alcançar. De todo modo, um vinho delicioso.    

Falando agora do Margaux 86, terminamos este último flight. Trata-se de uma safra de vinhos de grande estrutura, muito tânicos, muito austeros na juventude, e este não fugiu à regra. Em  termos de longevidade é uma boa questão se este 86 irá evoluir no mesmo nível do Palmer 83 comentado no primeiro flight. São vinhos musculosos, aptos a vencer grandes jornadas, atravessar décadas. O tempo dirá …

parigi pavillon rouge

 exemplos de dois super segundos

A foto acima resume o alto nível desses vinhos a despeito das gloriosas safras 82 e 90. Sabemos que o segundo vinho do Chateau são os vinhos rejeitados para o assemblage do Grand Vin. No caso do Chateau Margaux, Pavillon Rouge coloca-se em altissimo nível. Talvez seja depois do Les Forts de Latour, o melhor segundo vinho do Médoc. Para rever conceitos com a vantagem de ficarem prontos mais cedo.

Enfim, mais uma lição de como as principais comunas do Médoc possuem Chateaux de grande calibre, capazes de fazer frente aos vinhos mais badalados e sabidamente grandes no melhor sentido da palavra. Uma certeza fica, Palmer sempre será um porto seguro na elegante comuna de Margaux.   

Agradecimentos aos confrades presentes e vários puxões de orelha em outros tantos ausentes. Afinal de contas, sexta-feira é sagrada. Abraços e brindes a todos!

Muito além das sete notas musicais …

30 de Setembro de 2017

Esta sinfonia é regida por treze cepas no sul da França, Chateauneuf-du-Pape. Entre tintas e brancas, o corte é comandado pela Grenache. O problema é que esta apelação tem um mar de vinhos muito aquém de seu glamour. Separando o joio do trigo, chegamos a poucos produtores devidamente sintonizados com este complexo terroir. Neste contexto, num agradável almoço no restaurante Varanda Grill, quatro Domaines irretocáveis desfilaram seus vinhos em três flights.

Relembrando as treze cepas, entre oito tintas e cinco brancas.

Tintas: Grenache, Syrah, Mourvèdre, Cinsault. Essas quatro costumam entrar em maior volume, sobretudo a Grenache. Counoise, Vaccarèse, Muscardin e Terre Noir, são as outras quatro em pequenas proporções, e funcionam como uma espécie de tempero para o corte principal.

Brancas: Roussanne, Bourboulenc, Clairette, Picpoul e Picardin, completam o corte, fornecendo sutis aromas florais e certa vivacidade em termos de acidez.

varanda chevalier montrachet

referência na apelação

Antes porém, uma Magnum de Chevalier-Montrachet Domaine Leflaive 2008. Uma aula desta apelação que tem na elegância seu ponto forte. Jamais pesado, tem uma vivacidade impressionante, harmonizando com rara felicidade fruta e madeira, num final altamente complexo. Combinou muito bem com pequenos filetes de costela de tambaqui fritos. A gordura do prato deu o contraponto exato com a acidez do vinho, além das texturas de ambos casarem perfeitamente.

tambaqui e assado de tira

Devidamente embalados pelas taças deste belo Grand Cru, partimos para o sacrifício, iniciando o primeiro flight já de cara arrebatador, conforme descrição abaixo.

varanda beaucastel e pegau

200 pontos na mesa

O que falar de dois vinhos notas 100?. Apenas reverenciar seus méritos. Os dois com todos os acordes, treze cepas. Chateau de Beaucastel Hommage a Jacques Perrin 2007, um tinto sedutor, macio, com taninos ultrafinos, e longa persistência aromática. Seu característico brett, quase uma impressão digital de seu terroir, estava presente com notas animais e de couro perfeitamente integradas ao conjunto. Por outro lado, Domaine Pegau Cuvée da Capo 2010, deslumbrante. Ainda em sua fase primária, esbanjava fruta e concentração impressionantes. Tudo muito bem equilibrado e um final longo. Pode descansar sossegado pelo menos mais dez anos em adega. Nota 100 com louvor!. Estendendo este conceito de longevidade, nosso Capo terá vida longa …

varanda chateau rayas

elegância ao extremo

Neste segundo flight, duas ótimas safras de Chateau Rayas. Aqui a música é “samba de uma nota só”. Apenas a Grenache em jogo numa interpretação magnífica. A safra 1990 é perfeita e encontra-se em seu auge. Delicadeza extrema, todos os aromas terciários em perfeita harmonia. Taninos totalmente polimerizados e um final longo e expansivo. Como tirar ponto de um vinho desses!. Já o da safra 2000 antes de mais nada, uma bela garrafa. O nariz é tão encantador quanto seu par, mas a boca naquela comparação cruel, desempata a questão. Sozinho seria um sonho num vinho muito bem construído, embora a safra não tenha a mesma dimensão  que a magnífica 1990. Aromaticamente Rayas lembra alguma coisa de Haut-Brion e dos famosos La, La, Las do Guigal.

varanda henri bonneau

vinhos celestiais

Por fim, outro mestre da Grenache, Henri Bonneau, falecido em 2016. Flight duríssimo, extremamente pareado. Dois Réserve des Célestins, anos 1990 e 1986. O primeiro, 1990, outro nota 100. Comparando com o Rayas de mesma safra, podemos dizer numa sintonia fina que Henri Bonneau é mais viril, mais incisivo, enquanto Rayas, mais delicado, feminino. Contudo, são tão espetaculares, que vou ficar em cima do muro. Empate técnico!       

Agora esse 1986, deu trabalho!. Uma garrafa perfeita. Sem a influência de notas, podemos dizer que 86 superou 90, tal a concentração de sabores. Aqui as notas de chocolate amargo e alcaçuz falam alto. Muito bem conservado e íntegro. Grande final de prova!

varanda yquem 1979

 a elegância de sempre

Encerrando sempre com doçura, mais um Yquem no currículo. Desta feita, um 1979, quase a idade do aniversariante. Trata-se de um Sauternes que prima muito mais pela elegância do que pela potência. Está numa fase intermediária entre a juventude e a maturidade. Cor lindamente dourada, bem equilibrado entre açúcar e acidez. Falta um pouco de meio de boca num final agradável, mas relativamente curto. Enfim, uma doce lembrança neste almoço com as maravilhas do Rhône.

Mais uma vez, abraços aos amigos, votos de sucesso e felicidades ao aniversariante, na certeza de grandes encontros, cultuando sempre a boa mesa e os bons vinhos. Saúde a todos!


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