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Vinhos Antigos: Privilégio para poucos

21 de Maio de 2019

Vinho, quanto mais velho, melhor!. Uma das maiores mentiras no mundo de Bacco. Nem cinco por cento dos vinhos elaborados no mundo são aptos a longo envelhecimento em garrafa. Entretanto, uma pequena parcela de alguns chateaux, domaines, sobretudo franceses, tem esse privilégio. Privilégio maior ainda são aqueles poucos mortais que conseguem com certa regularidade provar destas preciosidades. Estas pessoas, além de desembolsarem milhares de dólares ou euros em leilões, adegas particulares oferecidas, e outras fontes não reveladas, correm grande riscos nas falsificações e no próprio estado de cada garrafa. Lembrando que, em vinhos antigos não existem grandes safras e sim, grandes garrafas.

Vencidos os problemas de grana, e muita grana diga-se de passagem, falsificações, e sorte com as garrafas, degustar esses vinhos é como visitar o céu de vez em quando. A maioria das pessoas só ouvem falar de alguns mitos como Petrus, Romanée-Conti, Latour, Margaux, e muitos outros figurões. Alguns mortais, em situações de rara felicidade conseguem provar uma dessas garrafas através de amigos, degustações especiais, ou presentes inesperados. Nessas situações, fica gravado na memória aquela garrafa, aqueles aromas, aqueles sabores, tudo inesquecível. E aí vem a pergunta: será que esta avaliação foi precisa numa análise fria do vinho, sem isenção, ou a emoção de estar cara a cara com o mito fala mais alto?

Seguindo este raciocínio, em degustação recente publicada neste blog, Bordeaux 82, o Paraíso existe!, tivemos quatro garrafas de Lafite 82 em quatro flights distintos. Uma garrafa diferente da outra. Uma espetacular, uma bouchonnée, uma com aromas estranhos, e uma ainda fechada, de evolução lenta. Se cada pessoa pudesse provar uma destas garrafas, talvez não distinguissem essas diferenças por estarem maravilhadas com o rótulo. Mesmo a garrafa bouchonnée, não é todo mundo que reconhece.

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se acertar a garrafa, beba de joelhos!

A safra 85 foi maravilhosa na Borgonha em particular. Lembro-me de um Romanée-Conti desta safra numa garrafa perfeita. Aromas terciários incríveis e inesquecíveis. Na foto acima, um Mazis-Chambertin do Négociant Leroy do Hospices de Beaune 85. Em três oportunidades tivemos: uma garrafa maravilhosa, e as outras duas muito boas, mas não esplendorosa como a primeira.

Dentro deste universo de vinhos de guarda, há alguns já acessíveis em tenra idade, embora possam envelhecer com propriedade. É o caso dos chateaux Haut Brion e Cheval Blanc que são adoráveis em qualquer momento. Basta uma boa decantação. Isso para ficar nestes dois exemplos. 

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este trio tem muita história

Os chamados La-La-Las, foto acima, dispensam comentários num dos vinhos mais espetaculares em termos de longevidade. A idade parece não chegar para essas crianças com aromas terciários incríveis e um equilíbrio de boca singular. Cada qual pode ter sua preferência, mas não vou fazer distinção entre eles, pois já provei vários de todos eles e sempre espetaculares. Para ficar em apenas três safras: 85, 88 e 90. A elegância e sutileza de aromas destes tintos, elevam a casta Syrah numa outra dimensão.

Por outro lado, os mitos Petrus e Romanée-Conti são vinhos difíceis na juventude, um tanto duros, sem muita conversa. Portanto, diante deles, só mesmo o tempo para lapidar essas joias e revelar todo seu esplendor. Muitas vezes, mais de vinte anos são necessários para todo esse processo. Some-se a isso, características especificas de safra que podem atenuar ou intensificar este período de maturação em garrafa. Lembrando do Mouton 1986, este é um caso clássico de difícil  amadurecimento por ser de uma safra de taninos extremamente potentes e de lenta evolução. 

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talvez o único que possa encarar o Petrus de frente!

Poderia escolhe inúmeros Bordeaux já degustados, mas preferi mostrar o Pomerol acima, o grande Lafleur. Vinho introspectivo como o rei Petrus e de lenta evolução. A destacada participação da Cabernet Franc confere elegância, mas a estrutura da Merlot com taninos poderosos lembra o rival maior. 90 é uma grande safra que está ainda em evolução. Precisa de pelo menos duas horas de decantação. Outras grandes safras brilham para este chateau como a mítica 82, 100 pontos inconteste.

Dentro da família DRC, o caso mais evidente e didático quanto à maturação e acessibilidade dos vinhos são os Grands Crus Echezeaux e Grands-Echezeaux. O primeiro, um tinto acessível, sensual, em qualquer idade que abri-lo, salvo características específicas de safra. Já o Grands-Echezeaux é um vinho duro, viril, completamente oposto à feminilidade de seu parceiro de vinhedo. Aqui, as questões de terroir falam mais alto, já que o produtor e a técnica de vinificação são os mesmos. Domaine de la Romanée-Conti possui as melhores localizações destes dois Grands Crus, onde os vinhedos estão muito próximos. Grands-Echezeaux fica na parte de cima do Grand Cru Clos Vougeot, fazendo divisa. As parcelas DRC de Echezeaux ficam imediatamente a norte de Grands-Echezeaux, praticamente coladas em sua divisa. No entanto, sutilezas de solos, relevo e inclinação do terreno, resultam em relevantes diferenças entre os vinhos. Só a Borgonha propicia este mistério. 

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Madeira: um vinho indestrutível!

De todos os fortificados portugueses, o Madeira impressiona pela extrema longevidade, quase imortalidade. O exemplo são os Madeiras do século XIX, foto acima, parecendo não ligar para o tempo. Aromas e sabores fantásticos e um equilíbrio perfeito em boca. Sobretudo o Terrantez, um dos Madeiras mais raros, é da categoria Frasqueira ou o equivalente a um Vintage. O vinho é de uma só colheita e passa pelo menos vinte anos em canteiros (estrutura de ripas que sustentam as pipas para não encostarem no chão), antes do engarrafamento. Este período extremo de oxidação, fazem destes vinhos algo quase imortal.

Na evolução em garrafa de grandes vinhos, o tempo, o silêncio e a escuridão da adega, fazem a transformação de algo incompleto, com arestas, e certa introspecção. Lentamente, os ácidos e álcoois do vinho em meio aquoso se transformam em ésteres, formando o chamado bouquet. Esta é uma transformação lenta e gradual, onde esses mesmos ésteres se decompõem em ácidos e álcoois, recomeçando o ciclo novamente. A não perturbação da garrafa neste longo período é fundamental para o bom andamento das etapas.

Por outro lado, os taninos conjuntamente iniciam um processo de polimerização, formando longas cadeias moleculares. Num determinado momento, por peso próprio esses taninos começam a precipitar-se formando os famosos depósitos, também chamado de borra. Daí, a necessidade de decantação de vinhos antigos, a fim de separar as partes sólidas do líquido límpido. 

Ficamos na França para elucidar o assunto deste artigo, mas a Europa de um modo geral, permite o mesmo raciocínio para outros vinhos e vinhedos, embora o arsenal francês em quantidade e qualidade dos grandes vinhos de guarda seja incomparável aos demais países.

 

 

A inesquecível seleção de 82

19 de Março de 2017

Eu também lembro do Zico, Sócrates, Falcão e tantos outros craques. Seleção que marcou época, mas não levou. Entretanto, outro time de estrelas lá da França continua batendo um bolão. São os Bordeaux desta mítica safra em plena forma. Tudo isso para comemorar o aniversário de um grande confrade, que tanto no pessoal, como no profissional, parafraseando o Faustão, merece vinhos deste quilate.

montrachet drc 1989

tudo que um Chardonnay quer ser quando crescer

Sabedor do tema, além de grande conhecedor de vinhos, não deixou por menos. Logo de cara, sem muito alarde como é de seu feitio, serviu de entrada um estupendo Montrachet DRC 1989. Lapsos à parte, não me recordo de provar um DRC tão impressionante  e acima de tudo, tão bem adegado. A cor já de certa evolução lembrava de algum modo Sauternes. Inclusive no aroma, tinha uma pontinha de Botrytis. Multifacetado, notas de damasco, frutas secas, mel, um fundo tostado, marron glaçé, esses aromas permeavam e se entrelaçavam nas taças. O tom do almoço estava dado.

caviar beluga

o brilho do ouro negro

Antes dos tintos porém, outra surpresa. Porções generosas de caviar iraniano Beluga com champagne rosé. De fato, não é uma harmonização fácil. Pessoalmente, acho que nada se compara a uma autêntica vodka gelada (-20°C), cortando com competência o intenso sabor da aguaria. Insistindo no vinho, vale a experiência de defronta-lo com um Riesling extremamente seco e mineral da Maison Trimbach, o fabuloso Clos Ste-Hune. Nosso confrade Ivan, apreciador destes alsacianos, pode se encarregar deste desafio.

ristorantino margaux pichon

quando o segundo escalão se destaca

Feitas as considerações iniciais, vamos ao desfile que foi realizado por algumas duplas. Primeiramente, Chateau Margaux e Pichon Lalande. Este tinto de Pauillac é sério candidato ao status de Premier Grand Cru Classe. Especialmente nesta safra, Pichon Lalande mostra toda sua exuberância, equilíbrio e finesse. Um tinto encorpado, mostrando a força da comuna e de persistência muito longa. É sem dúvida, uma das referências desta safra.

ristorantino polenta com tallegio

polenta, taleggio e trufas

Já o Margaux, tem a desvantagem de não ser um grande ano para a comuna. A safra 83 é a grande pedida. Contudo, sua elegância e personalidade são notáveis. Talvez, a melhor garrafa desta safra que eu já tenha tomado. Foi muito bem com o prato de entrada, uma polenta com queijo taleggio e trufas  negras  complementando.

ristorantino mouton e cheval

destaques da safra 82

Teoricamente, o flight acima é pra ser campeão. Contudo, em safras antigas o que manda mesmo são as grandes garrafas. E essas, não eram das melhores. O que valeu no Mouton foi seu incrível aroma de cacau, chocolate, assim que a taça chegou. No mais, se mostrou um pouco cansado, sem o mesmo brilho de outros exemplares. Já para o Cheval, a conversa foi diferente. Embora aromaticamente outras garrafas degustadas fossem mais exuberantes, em boca estava uma seda. Taninos finíssimos, equilíbrio fantástico e aquela elegância típica dos grandes Chevais.

ristorantino la mission e haut brion

os eternos rivais

Neste embate, infelizmente não houve disputa. A garrafa do La Mission estava levemente bouchonné, e como não existe mulher meio grávida, não vou comentar este vinho. Em compensação, Haut Brion nunca decepciona. Que tipicidade! que personalidade! Sempre equilibrado, sóbrio e marcante, sem ser invasivo. Acompanhou muito bem o risoto de faisão com radicchio, foto abaixo.

ristorantino risoto faisao e radicchio

Neste momento, o auge da expectativa. Sua majestade, rei Petrus entra em cena. Sempre se espera um pouco mais deste mito de Bordeaux. Sempre discreto nos aromas, percebe-se lentamente, um toque mineral, terroso, um pouco de chocolate, não muito intensos. Em boca seus taninos são presentes e de ótima textura. Muito equilibrado, persistente, e com muita vida pela frente. No final ele diz: vamos dar tempo ao tempo.

Quanto ao Ducru, as coisas estavam meio complicadas. Não nos aromas, e sim na boca. Ele apresentava uma acidez um pouco agressiva que inclusive, prejudicava seus taninos. Parece ser um problema de garrafa, pois já provei belos exemplares desta safra. Normalmente, é muito elegante, não muito encorpado, e rico em nuances. Pessoalmente, é o que mais se aproxima dos Lafites.

ristorantino petrus e ducru

Petrus intimidou o elegante Ducru

Como não tinha ninguém para fazer par com ele, Latour fez uma apresentação solo. Ainda bem, pois roubou a cena. É temeroso certas afirmações, mas Latour é o rei do Médoc. A consistência, a concentração, a personalidade, que este tinto entrega safra após safra é impressionante. E este 82, só mesmo o monumental 61 para superá-lo. Os aromas seguem um pouco a discrição do Petrus, mas os toques de cassis, especiarias, chocolate, e seu inconfundível toque de pelica(couro), são notáveis e marcantes. A boca une potência e elegância como poucos, culminando numa persistência de longa duração.

ristorantino latour

Nota 100 com louvor!

Fechou o almoço comme il faut!, acompanhando um tenro cabrito ao forno com ervas, guarnecido por um tagliolini al dente. Os taninos do Latour foram devidamente abrandados pela fibrosidade e suculência da carne.

ristorantino cabrito e massa

carne e massa perfeitos

Encerrando a orgia, o nível se manteve alto. Um Yquem 1990, quase uma criança ao lado de um grande Madeira do século XIX. Falar de Yquem é retórica, é o rei dos vinhos botrytisados, decantado em prosa e verso. Este da safra 90 tem 99 pontos. A própria classificação de 1855 já segure sua superioridade, separando-o dos demais chateaux.

ristorantino vinhos doces

vinhos que atravessam décadas …

Madeira sim, esse precisamos falar. Um dos vinhos mais injustiçados e esquecidos pela maioria dos consumidores. Se existe um vinho capaz de atravessar séculos, este vinho é o autêntico Madeira. Existem quatro tipos nobres relacionados com suas respectivas uvas e em grau de doçura crescente: Sercial, Verdelho, Boal e Malmsey. Os dois primeiros vão muito bem com sopas exóticas e patês de caça. Já Boal e Malmsey acompanham bem os doces, sobretudo bolos e tortas de frutas secas como nozes e tâmaras.

Chegando ao nosso Madeira, Terrantez é a quinta uva nem relacionada atualmente. Encontra-se praticamente extinta na ilha. Seus vinhos são de uma acidez notável e seus aromas etéreos se proliferam na taça. Sua doçura fica entre o Verdelho e Boal. É o grande Madeira a ser desvendado. A raridade deste vinho e o respeito que o cerca, provocam alguns ditados como este: “Se tiveres uvas Terrantez, não as comas nem as dês, pois para o vinho Deus as fez”. Como se vê, terminamos no céu …

Abraços a todos os confrades, sobretudo ao aniversariante, que reflete vivamente a qualidade e longevidade dos vinhos desfilados. Vida longa a todos!

O Imortal Madeira Frasqueira Terrantez 1977

5 de Dezembro de 2013

“Vinho, quanto mais velho, melhor!”. Esta é uma frase bem apropriada para o vinho deste artigo, compartilhado e oferecido pelo casal de amigos: Roberto e Adriana Rockmann. É evidente, que a maciça maioria dos vinhos produzidos mundo afora tem seu devido tempo de apogeu, ou seja, no máximo algumas décadas para os melhores exemplares, o que já é raro. Recordando parte dos artigos sobre o vinho da Madeira, publicado neste mesmo blog, trata-se da categoria mais elitizada dentre os vários tipos de Madeira. Além disso, a misteriosa uva Terrantez está extinta na ilha, ou quase extinta, ou em lugares onde os mortais não têm acesso. Parafraseando o ditado espanhol: “yo no creo en brujas, pero quelas las hay, las hay” (eu não creio em bruxas, mas que elas existem, existem).

Digno de encerrar qualquer grande refeição

O exemplar degustado, Madeira Terrantez 1977 Cossart Gordon, é o que se pode esperar de mais sofisticado entre todos os seus tipos. Mais raro ainda, com a uva Terrantez, onde esses vinhos tornam-se cada vez mais lendários.

Realidade ou Lenda

Muitas pessoas acabam equivocadamente chamando de Vintage este tipo de vinho. Talvez pela menção da colheita no rótulo. Contudo, nada tem a ver com o grande Porto Vintage, que passa de dois a três anos em madeira, e o restante do tempo envelhecido na própria garrafa. Se houvesse um termo de comparação, esses grandes Madeiras aproximam-se de certo modo aos grandes Portos Colheita, onde ambos sofrem intensos e lentos processos oxidativos no bom sentido do termo. A menção correta para este nobre Madeira é a palavra “Frasqueira”. Pela legislação, os Madeiras Frasqueiras devem repousar no mínimo por vinte anos em canteiro (termo que designa o envelhecimento em tonéis ou pipas de carvalho inerte, ou seja, com bons anos de uso). A ideia é provocar uma lenta micro-oxigenação, sem passar aromas de madeira ao vinho. O nosso exemplar em questão, foi engarrafado em 2004. Portanto, passou 27 anos em madeira e mais praticamente dez anos em garrafa.

O amigo Rochmann acertou em decantá-lo logo pela manhã para degustarmos após o jantar. Todas essas horas de decantação só fizeram bem ao vinho. O eventual aroma redutivo após quase dez anos em garrafa foi eliminado pela decantação, devolvendo seus aromas de evolução de caráter oxidativo encontrado nas barricas. É quase um fenômeno de regressão nos consultórios psiquiátricos. 

Quanto ao vinho degustado, espetacular, imortal, divino, entre tantos outros adjetivos superlativos. São os vinhos mais longevos do planeta, juntamente com o grande Tokaji Eszencia. A cor âmbar brilhante revela uma borda com toques alaranjados e esverdeados, típicos dos Madeiras. O aroma é quase indescritível, exibindo toques cítricos, chá (marcante nos grandes vinhos envelhecidos), empireumáticos (caramelo), frutas secas, especiarias (canela), incenso, além de notas etéras muito particulares da Terrantez. Em boca, uma acidez vibrante, seu grande trunfo para longevidade. Muito equilíbrio com perfeita intregração entre seus componentes. O açúcar residual está entre um Verdelho e um Boal (outras duas castas nobres desta categoria de Madeira). Final longo, persistente, expansivo. Para um charuto delicado e de personalidade, à altura deste vinho, um Hoyo de Monterrey Double Corona. Queijo Manchego, torta de frutas secas (damascos, nozes pecã, e bananas) são os acompanhamentos ideiais.

Enfim, um vinho para acrescentar no currículo e na caixa dos sonhos. Encontrado ainda na importadora Decanter (www.decanter.com.br). Produtor de grande referência, Cossart Gordon.

Vinho Madeira: Parte V

3 de Novembro de 2011

Neste último post, as perpectivas para o Vinho Madeira não são nada animadoras. A população da ilha está envelhecida, a demanda por bananas na Europa é maior que o próprio vinho, e os melhores terrenos para as castas nobres são muito acidentados. Com tudo isso, fica cada vez mais inviável perpetuar condições ideais para elaboração dos grandes Madeiras.

Infelizmente, a casta Tinta Negra está dominando a ilha, pois tem uma produtividade mais competitiva, aceita cultivo em terrenos menos acidentados e gera vinhos com uma rotatividade maior. As videiras mais antigas que restam das chamadas castas nobres estão sendo arrancadas pouco a pouco, e sendo substituídas por bananeiras ou pela competitiva casta Tinta Negra.

Terrenos acidentados e vinhas em terraços

De fato, se pensarmos friamente nos baixos rendimentos de videiras mais antigas, o enorme trabalho braçal para cultivá-las, o tempo de estocagem para os grandes vinhos chegarem ao mercado, veremos que os Madeiras são vinhos relativamente baratos. Portanto, aqueles que podem ainda desfrutá-los, não percam tempo, sob pena de num curto espaço de tempo, aparecerem mais fantasmas, além do grande Madeira Terrantez.

estatistica por casta

Madeiras disponíveis em nosso mercado (importadoras):

Vinho Madeira: Parte I

20 de Outubro de 2011

Após artigos específicos sobre Porto e Jerez, Vinho Sem Segredo não poderia deixar em segundo plano, um dos fortificados mais longevos e sofisticados, formando a Santíssima Trindade da península ibérica, o Vinho Madeira.

É impressionante o relato do grande sommelier Enrico Bernardo (melhor do mundo em 2004) quando degustou um Madeira Barbeito, semelhante à foto abaixo, da safra de 1834. Em sua descrição, além de ser um vinho imortal, ele diz: deve ser decantado imperativamente por três meses. Há duas grandes razões para isto. Primeiramente, é um vinho que passou por um processo oxidativo extremo na sua própria elaboração. Em segundo lugar, o fato de permanecer por décadas aprisionado numa garrafa, propiciou um ambiente extremamente redutor, exigindo portanto, um tempo de aeração igualmente proporcional. É de fato, um dos maiores vinhos de todos os tempos, mas injustamente esquecido. Às vezes, lembrado como vinho de cozinha para elaboração do molho homônimo.

Enrico Bernardo provou a safra de 1834

Esta série de artigos baseia-se no site oficial do IVBAM (Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira) que fundiu as três expressões artísticas da ilha (www.vinhomadeira.pt). A ilha da Madeira de origem vulcânica, localiza-se a 1.100 km da costa portuguesa e a 600 km da costa africana. O relevo é montanhoso e os melhores vinhedos plantados em socalcos, disputando espaços com as bananeiras, outra fonte de riqueza da ilha.

Terrantez: O fantasma da ilha

A casta dominante na ilha é a Tinta Negra Mole ou simplesmente Tinta Negra, a qual gera vinhos sem grandes atrativos, embora a idéia seja aprimorá-la, trabalhando com baixos rendimentos. As quatro castas nobres que são Sercial, Verdelho, Boal e Malvasia, serão abordadas num próximo post. A extinta Terrantez  que gera vinhos de grande complexidade e sutileza parece ter desaparecido da ilha. Entretanto, vez por outra, nos deparamos com uma garrafa de Terrantez fazendo jus ao célebre ditado espanhol: “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”.

O rótulo acima é importado pela Casa Flora (www.casaflora.com.br) e o Terrantez da Blandy´s é importado pela Mistral (www.mistral.com.br).

 


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