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Sommellerie: Um novo Campeão Mundial – Parte II

27 de Abril de 2016

Continuando a jornada, partimos agora para a terceira mesa com seis pessoas. O serviço aqui era decantar uma Magnum (um litro e meio) de Malbec Gran Reserva Tomero 2011 da Bodega Vistalba. Um vinho jovem que precisa de aeração e portanto, deve ser decantado. A decantação foi executada à vela com dois decantadores de base larga, eficientes na oxigenação. O uso da vela poderia ser dispensado, já que provavelmente o vinho não tem depósito. Por via das dúvidas, é prudente usa-la, pois atualmente há muitos vinhos não filtrados. O desempenho que menos me agradou foi da irlandesa Julie Dupouy, a qual só utilizou um decanter e não apagou a vela no término do serviço. Quando o vinho foi servido à mesa, o comandante da mesma alertou o sommelier que uma pessoa não tomava vinho tinto e que portanto, havia um vinho branco a ser servido exclusivamente à mesma. Biraud não só serviu corretamente os dois vinhos como também, sugeriu a harmonização de ambos. Para o Malbec, um corte de carne ao ponto acompanhado de molho chimichurri (especialidade argentina) e para o branco, um vinho alemão da Francônia, em garrafa típica (tipo cantil) com a uva Sylvaner, sugeriu um ceviche de corvina, realçando sua acidez e mineralidade.

Saindo da terceira mesa, os candidatos enfrentaram uma série de baterias de vinhos e destilados às cegas. O primeiro flight foi de quatro brancos servido nesta ordem: Torrontés argentino de Salta, Riesling alemão do Nahe, Riesling francês da Alsácia, e um espanhol Albariño Rias Baixas Rosal.

Um dos brancos degustados, safra 2011

O desempenho de Biraud e Arvid foi muito parecido. Os dois acertaram os três primeiros vinhos e erraram o último. Biraud arriscou um Sauvignon Blanc europeu e Arvid palpitou por um Chardonnay sem madeira argentino. Julie, a irlandesa, só acertou o riesling alemão.

O segundo flight de quatro tintos foi servido nesta ordem: espanhol de Ribera del Duero,  Nebbiolo d´Alba do Piemonte, Malbec argentino e um Bordeaux de margem esquerda Pontet-Canet 2003.

grande Bordeaux de margem esquerda (RP 95 pontos)

Nesta bateria, o equilíbrio foi maior entre os concorrentes. Biraud, acertou o Malbec argentino e o Bordeaux do Médoc. Arvid, acertou o Nebbiolo d´Alba, o Malbec e o Bordeaux. No caso de Julie, acertou o Nebbiolo e o Malbec.

O terceiro e último flight foi de oito destilados nesta ordem: Rum Zacapa da Guatemala, Bas-Armagnac, Cognac, o mexicano Tequila Donjulio, uísque americano Bourbon, eau-de-vie Prune (ameixa escura), uísque japonês  Imazaki e Pisco chileno. Na continuação dos destilados, houve um licor francês Chartreuse, descrito brilhantemente por Biraud, sugerindo um suflê de chocolate com sorvete de verbena e canela para acompanhamento.

Neste último flight, os candidatos foram praticamente perfeitos. Foi dada a lista dos destilados acima  fora de ordem a cada um deles com a tarefa de indicarem em cada taça o destilado correto. Biraud e Arvid só trocaram a ordem do Cognac e Armagnac. Julie por sua vez, acertou todos. Isso prova que mesmo para degustadores excepcionais, Cognacs e Armagnacs envelhecidos e de boa procedência, as diferenças são muito sutis.

o grande licor francês Chartreuse em cuvée especial

Em seguida aos flights, houve uma série de oito slides com erros nas descrições de vários tipos de vinho a serem assinalados oralmente pelos candidatos.

Neste momento, aparentemente as provas pareciam encerradas antes do anúncio do vencedor. Contudo, haviam mais surpresas. Uma série de dez slides com fotos de vinícolas e personalidades do vinho a serem descritas pelos candidatos. Figuras como Angelo Gaja (Piemonte), Joseph Phelps (Napa Valley) e René Barbier (Priorato), além de vinícolas como Almaviva e Chateau Haut-Brion, foram mostradas nesta prova.

o campeão em sua última tarefa

Encerrando a longa prova, os concorrentes teriam que cumprir a tarefa de servir uma magnum de Moët & Chandon em quinze taças de maneira equitativa, sem volta às taças anteriores e se possível, não sobrar nada na garrafa. Visualmente, depois de executada, parecia que um tinha copiado os outros. Em olhos de lince, os juízes foram avaliar a tarefa minuciosamente.

Logo após, as taças foram servidas a todos os sommeliers dos países participantes deste magnifico evento para um brinde final. Aí sim, finalmente foi anunciado o grande vencedor, o sueco Arvid Rosengren.

Foi pena Paz Levinson não se classificar para a grande final por pequenos detalhes, ficando com a quarta colocação, sobretudo por ter sido em seu país, Argentina. Outras oportunidades virão. Quem sabe em 2019!, próximo concurso.

Terroir: Alsace IV

14 de Julho de 2011

A polêmica apelação Alsace Grand Cru responde por cerca de 4% de toda a produção e conta atualmente com 51 Grands Crus catalogados. Apesar de ser instituída em 1975, só a partir de 1982 sua produção começou a ser computada estatisticamente com 852 hectolitros. Hoje são pouco mais de 35.000 hectolitros no ano de 2010.

Atualmente, a aceitação da Apelação Alsace Grand Cru dentre os produtores está mais digerida. No início houve muita discussão, pois de certo modo, era uma apelação que elitizava um pequeno grupo de produtores que tinha de fato, terroirs diferenciados. Como os critérios nunca são perfeitos, outros vinhedos famosos ficaram de lado, acirrando mais ainda a confusão. Marcas como Trimbach, Hugel e Léon Beyer são contrárias à esta apelação, preferindo rotular seus vinhos com cuvées e vinhedos consagrados pelo público e crítica.

Zind Humbrecht: Biodinâmico talentoso

A apelação Alsace Grand Cru começou em 1975 com apenas um vinhedo (Schlossberg Grand Cru). Somente em 1983 foram agregados mais 24 vinhedos (Grand Cru), completando a lista em 1992 com mais 25 vinhedos. Em 2007 permitiu-se mais um vinhedo (Kaefferkopf Grand Cru), totalizando 51 Grands Crus.

Clos Saint Urbain: Declividade imponente

A escolha dos Grands Crus foi baseada em fatores de terroir, tais como: geologia diferenciada, exposição privilegiada conjugada com altitudes adequadas. Os rendimentos por parreiras são mais restritos e as uvas permitidas são: Riesling, Pinot Gris, Gewurztraminer e muito pouco da Muscat, todas elas, sempre em caráter varietal. Recentemente, foi permitida a Sylvaner para o vinhedo Zotzenberg, além dos vinhedos Altenberg de Bergheim e Kaefferkopf poderem elaborar vinhos de corte com várias uvas.

Apenas para citar um exemplo, o vinhedo Clos Saint Urbain conduzido por Olivier Humbrecht, primeiro francês Master of Wine, pertence ao Grand Cru Rangen de Thann. Existe uma expressão francesa denominada Lieu-dit, que no caso significa um terroir consagrado pela história. Portanto, os 51 Grands Crus da Alsácia podem receber esta menção, muito comum na literatura francesa. Voltando ao Clos Saint Urbain, é um terroir de solo vulcânico e de exposição excepcional (vide rótulo e fotografia acima). Neste tipo de solo são cultivadas a Riesling, Pinot Gris e Gewurztraminer. Como este solo retém muito calor, o amadurecimento, sobretudo das duas últimas uvas mencionadas é perfeito.

Alsace: Alto Reno e Baixo Reno

Dê um zoom no mapa acima e observe a linha pontilhada, dividindo os departamentos Bas-Rhin e Haut-Rhin (baixo e alto Reno). Mais ao sul fica o Haut-Rhin, onde teoricamente estão os melhores vinhedos alsacianos. Aqui, normalmente as encostas são mais acentuadas e a proteção dos Vosges, muito mais eficiente. Não é à toa que a maioria de vinhedos Grands Crus estão nesta porção. Os melhores vinhedos do chamado Bas-Rhin gozam de proteções (Vosges), solos e inclinações privilegiadas e pontuais.

Próximo post, menções especiais nos rótulos: Vendanges Tardives e Sélections de Grains Nobles


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