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Vinhos da Áustria: Parte V

16 de Julho de 2014

Dando prosseguimento às famosas denominações DAC (Districtus Austriae Controllatus), deixamos as três últimas mais emblemáticas para este artigo (Kremstal DAC, Kamptal DAC e Neusiedlersee DAC), as quais serão esplanadas abaixo:

DAC Gebiete

Kamptal e Kremstal: Reino da Gruner Veltliner

Kremstal DAC

Os 2243 hectares de vinhas desta nobre área dividem-se em dois tipos de solos: um solo sedimentar com a formação de loess (solo formado sob a ação do vento) de boa capacidade hídrica, ideal para o cultivo da Gruner Veltliner, além de solos rochosos, propícios para o bom desenvolvimento da Riesling. Os profundos vales são bem protegidos dos gélidos ventos do norte, enquanto a leste, o clima quente da Panônia facilita a maturação das uvas.

As duas uvas são apresentadas nas versões Classic e Reserve, sendo a primeira para vinhos aromáticos, frescos, sem notas de madeira. A versão Reserve apresenta vinhos mais encorpados, ricos, com alguma presença de madeira e eventuais toques de Botrytis.

Kamptal: vinhedos em terraços

Kamptal DAC

Região imediatamente a norte de Kremstal com 3.800 hectares de vinhas. As estrelas também são as mesmas de Kremstal, as uvas Gruner Veltliner e Riesling nos estilos Classic e Reserve.

Muitos dos vinhedos desenvolvem-se em terraços combinando solos de gneisse (origem vulcânica), sandstone (origem sedimentar), loess e gravel, de origem vulcânica e sedimentar. O clima mescla os ventos frios do norte com o clima quente da Panônia, proporcionando notável amplitude térmica. Com esses fatores, temos rieslings potentes, minerais e de grande longevidade. Da mesma forma, a Gruner Veltliner mostrar vinhos encorpados e de bom impacto. Essas características ficam potencializadas no estilo Reserve.

Neusiedlersee: Lago raso rodeado de juncos

Neusiedlersee DAC

Finalmente, temos o lar da outra grande uva tinta austríaca, Zweigelt. Como varietal ou blend (mistura), desde que tenha pelo menos sessenta por cento no corte juntamente com outras uvas nativas. Fruto do cruzamento das cepas Blaufränkisch e St Laurent, a Zweigelt gera vinhos coloridos, taninos suaves e aromas intensos de frutas, notadamente as cerejas. O estilo Classic preserva o lado frutado e de especiarias destes tintos maturados em aço inox, ou eventualmente, com alguma passagem por madeira. Já o estilo Reserve, mostra vinhos mais potentes, estruturados com madeira mais evidente (grandes tonéis ou barricas).

Dos 7.649 hectares de vinhas, 1.812 hectares são destinados ao cultivo da uva tinta acima (Zweigelt). O restante é destinado sobretudo a uvas brancas como Chardonnay, Pinot Blanc e Welschriesling (Riesling Itálico). Esta última, é a uva branca mais plantada na Áustria, depois da emblemática Gruner Veltliner. Os solos franco-arenosos, calcários e eventualmente pedregosos, aliados a um clima relativamente quente oriundo da Panônia (vale), produz uvas bastante aromáticas. A pouca profundidade do lago Neusiedl e sua grande extensão propiciam a necessária evaporação para o bom desenvolvimento do fungo Botrytis Cinerea (podridão nobre). Neste particular, esse lago é reduto do local mais certeiro para vinhos botrytrisados. Vale lembrar que a ocorrência e intensidade da infecção do fungo em regiões clássicas como Sauternes, Tokaj, alguns lugares do Loire e da Alemanha, é sempre incerta e motivo de grande preocupação. Portanto, Neusiedlersee ainda é fonte segura e presente em todas as safras de ótimos vinhos botrytisados a preços ainda atrativos. As versões Beerenauslese e Trockenbeerenauslese respondem por este tipo de vinho.

Com este artigo, chegamos ao fim desta série. Oportunamente, voltaremos ao assunto sempre que esses vinhos, uvas ou harmonizações específicas fizerem-se necessários. Os artigos desta série específica foram baseados no site http://www.austrianwine.com

Apesar da pouca oferta de vinhos austríacos no Brasil, a importadora Mistral traz alguns exemplares (www.mistral.com.br) e também uma importadora pouco conhecida chamada Vinhos da Áustria (www.vinhosdaaustria.com.br).

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Vinhos da Áustria: Parte IV

11 de Julho de 2014

Após alguns artigos esmiuçando as principais regiões e leis dos vinhos austríacos, vamos explorar agora as denominações mais nobres do país com as chamadas DACs (Districtus Austriae Controllatus), conforme mapa abaixo:

DAC Gebiete

Nove regiões no leste do país

Weinviertel DAC

Começando no extremo norte do mapa, Weinviertel conta com uma área de 13.356 hectares. Aqui cultiva-se Grüner Veltliner no estilo Classic e Reserve. O primeiro mais leve, fresco e sem madeira. O segundo mais encorpado e eventualmente com notas amadeiradas. Vale a pena salientar que a área cultivada com a uva acima de 6.200 hectares representa mais da metade produzida em toda Áustria desta nobre cepa.

Weinviertel, área relativamente extensa, pode ser dividida em três partes. A primeira, mais a noroeste, apresenta um solo mais rochoso. Já o setor nordeste, mostra um solo mais calcário, responsável pela mineralidade dos vinhos. Por último, a parte sudeste, próximo ao vale da Panônia, mostra um clima mais quente, propício a vinhos mais encorpados.

Traisental DAC

Região de 790 hectares de vinhas, sobretudo Gruner Veltliner e uma pequena porcentagem de Riesling. Situa-se ao sul do rio Danúbio, abaixo de regiões famosas como Kamptal, Kremstal e Wachau. Os vinhedos basicamente situam-se em terraços misturando solos calcários, argilosos, arenosos e pedregosos, com grande amplitude térmica (diferença de temperaturas entre dia e noite). Os vinhos à base de Grüner Veltliner são frescos e aromáticos (toques apimentados). Já os Rieslings, são intensos, encorpados e com toques minerais.

Viena: Vinhedos ao redor da cidade

Wiener Gemischter Satz DAC

A cidade de Viena com suas zonas de vinhedos (612 hectares) protagoniza esta DAC com um blend (mistura) de uvas que remonta a idade média denominado Gemischter Satz. Uvas como Chardonnay, Riesling e Weissburgunder (Pinot Blanc) fazem parte deste blend. A proporção da uva principal não deve estar acima de 50% e a de menor proporção com pelo menos 10%.

Regras como a indicação de um single vineyard (cru) não precisam necessariamente ser designado como Trocken (dry). Já sem a menção single vineyard, a designação Trocken (dry) é obrigatória.

Em termos de sub-regiões, na parte oeste de Viena os solos são predominantemente calcários. Bom para o cultivo das uvas Grüner Veltliner e Riesling. No setor sul da cidade, solos também calcários são complementados por terras escuras (argilas), gerando vinhos mais ricos e encorpados.

Leithaberg DAC

Com 3576 hectares de vinhas, Leithaberg é uma das regiões mais antigas da Áustria. Há influência do clima quente do lago Neusiedl favorecendo a maturação das uvas. Por outro lado, as montanhas amenizam estas temperaturas, sobretudo à noite, proporcionando acidez e finesse aos vinhos. Os solos são compostos basicamente de calcário e ardósia.

Os vinhos podem ser varietais ou blends, entre tintos e brancos. As uvas brancas são Weissburgunder (Pinot Blanc), Chardonnay, Neuburger e Grüner Veltliner. Com relação às tintas, temos Blaufränkisch (85% no mínimo) e no máximo 15% das uvas (St, Laurent, Zweigelt e Pinot Noir). Os vinhos brancos devem ser delicados , aromáticos e minerais com pouca madeira e preferencialmente nenhuma. Já os tintos, devem passar em madeira. Costumam ser estruturados e tânicos.

Mittelburgenland DAC

Região ao lado da Hungria (2.117 hectares de vinhas) e com forte influência da planície da Panônia, o clima é ideal para a maturação da tardia uva clássica austríaca Blaufränkisch. Este clima relativamente quente é garantido pela proteção das cadeias de montanhas ao norte, sul e oeste. O solo mistura argila, areia e pedras com bancos importantes de coral.

As versões rotuladas como clássicas apresentam vinhos encorpados, frutados e com aromas de especiarias. A maturação pode ser aço inox, ou madeira usada, e portanto inerte. Já a versão Reserve, admite tonéis ou barricas de madeira, consoante à estrutura dos vinhos desta categoria.

Eisenberg DAC

Outra região ao sul de Mittelburgenland com 498 hectares de vinhas baseada na uva tinta Blaunfränkisch. Não tem a mesma notoriedade de Mittelburgenland, mas seus tintos apresentam estilo semelhante. Há toques de tipicidade nesses tintos como mineralidade (nuances terrosas) e notas de especiarias. Muitos apontam os solos de ardósia e silte com presença de ferro os principais fatores para as características citadas.

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Vinhos da Áustria: Parte I

16 de Junho de 2014

Os vinhos austríacos são pouco difundidos e pouco consumidos no Brasil. É bem verdade que a produção é relativamente pequena, mas o desconhecimento é a maior barreira. O estilo e legislação vinícola têm inspiração alemã, embora a textura de seus brancos lembrem mais os caldos alsacianos. O mapa abaixo, situa a Áustria no centro da Europa com divisas importantes, tais como, Húngria, Eslovênia e Eslováquia. A porção leste do país é efetivamente onde estão as principais regiões vinícolas.

A picture shows a map of Austria with the climate influences

Fatores de terroir: Correntes eólicas

Pelo esquema acima, podemos perceber um dos importantes fatores de terroir, esquematizado pelas três principais correntes eólicas. A primeira em azul, refere-se aos ventos frios vindos do norte. Já as outras duas, são correntes quentes vindas da planície húngara e em menor grau de influência, os ventos do Mediterrâneo. 

As quatro zonas climáticas

A Áustria apresenta quatro grandes zonas climáticas expostas no mapa acima. A primeira, zona do Danúbio, beneficia-se de grande amplitude térmica (diferença entre as temperaturas diurnas e noturnas), além do fator moderador do rio, amenizando os extremos de temperatura nas várias estações do ano. É sem dúvida, a zona mais nobre da Áustria, como veremos em artigos subsequentes. 

A zona de Weinviertel é a mais setentrional e bastante fria. O grande destaque para os vinhos brancos parte da uva autóctone e mais famosa da Áustria, Grüner Veltliner, com seus toques apimentados. Ja a zona da Panônia é relativamente mais quente, englobando regiões para cultivo das uvas tintas locais como Zweigelt, St Laurent e Blaufränkisch. Os vinhos brancos doces botrytisados também ganham destaque ao redor do famoso lago Neusiedl. Por último, a zona da Estíria (Steirmark ou Styria), pouco produtiva, apresenta vinhos bastante aromáticos num clima relativamente quente. Seus solos de origem vulcânica e também com presença de calcário são fatores relevantes.

Generic wine growing regions ha

Distribuição da área de vinhas

Em aproximadamente quarenta e seis mil hectares de vinhas, a Áustria concentra todo seus vinhedos na porção leste do país. Regiões a oeste como o Tirol, divisa com a Itália, tem produção praticamente desprezível. Dois terços da área plantada são destinados a uvas brancas e um terço às tintas. Só a Gruner Veltliner, uva branca emblemática, responde por quase trinta por cento do plantio. Quanto às uvas tintas, a Zweigelt, uva local fruto do cruzamento das uvas St Laurent e Blaufränkisch, também autóctones da Áustria, responde por cerca de quatorze por cento do plantio austríaco.

Uvas da Asutria

A despeito de algumas uvas internacionais, a Áustria prima por elaborar vinhos autênticos com uvas locais, principalmente as tintas. Quanto a mais emblemática uva austríaca, Grüner Veltliner, há regiões onde seu cultivo gira em torno de cinquenta por cento da área de vinhas.

O consumo de vinho na Áustria gira em torno de dois milhões e seiscentos mil hectolitros (dados de 2010). Em termos de consumo per capita anual, estamos falando algo de trinta litros/habitante, enquanto a cerveja passa dos cem litros/ habitante.

Austria importação e exportação

As importações e exportações austríacas são niveladas em quantidade com números próximos de setecentos mil hectolitros para cada lado da balança. A Alemanha é disparada seu maior mercado exportador, enquanto a Itália é o país preferido com folga na importação de vinhos.

Continuamos com a Áustria no próximos artigos explorando regiões, leis, uvas, e muito mais.

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