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Sancerre, Sílex, Sauvignon …

23 de Janeiro de 2019

No centro do Loire, as apelações Sancerre e Pouilly-Fumé se destacam num clima mais continental com a uva Sauvignon Blanc. Os dois vinhos são muito frescos e minerais, mas Pouilly-Fumé costuma ser mais incisivo sobretudo por boa parte da área possuir solos de Sílex e do tipo Kimmeridgiano, o mesmo solo de Chablis.

Em recente degustação na importadora Clarets (www.clarets.com.br), pudemos constatar que essas diferenças entre as duas apelações podem ser bem mais sutis. Quatro vinhos do Domaine Vacheron foram degustados. Um produtor biodinâmico e detalhista que é um dos destaques da região. São vinhas antigas na sua maioria, tratada com baixíssimos rendimentos. São 34 hectares de Sauvignon Blanc e 11 hectares de Pinot Noir.

vacheron-silexSílex (solo pedregoso)

O branco de entrada degustado já mostra a que veio. As vinhas tem idades entre 30 e 60 anos em solos calcários e de sílex (pedras de argila calcinadas). A vinificação ocorre    com leveduras naturais e sem contato com madeira. O vinho é de grande pureza com toques cítricos de grapefruit e minerais. Em boca, uma bela acidez cortante, bom meio de boca, e final refrescante e limpo. Concorre facilmente com bons Chablis e por consequência acompanham muito bem ostras frescas. Por menos de 200 reais, é uma pedida irrecusável.

vacheron taças zalto

Taças Zalto numa bela recepção

Neste segundo branco do vinhedo Les Romains, é um solo totalmente de sílex (flint) com parreiras de idade superiores a 60 anos. A vinificação ocorre em tanques, mas o amadurecimento em barricas de carvalho inertes (antigas). O resultado é um vinho de aromas defumados, minerais e também cítricos, sem interferência nociva da madeira. Em boca, é mais encorpado que o anterior, com mais textura. A acidez permanece alta e vibrante. O vinho tem ótima persistência com toques finos de casca de laranja. Um belo upgrade!

IMG_5586

O último branco, uma exclusividade do Domaine, é um vinhedo de apenas 0,4 hectare, produzindo só duas barricas por safra. É relativamente jovem, plantado em pé-franco. O solo é totalmente de sílex localizado em uma pequena porção não classificada pela apelação Sancerre. Portanto, trata-se de um “Vin de France”.

Com o mesmo tratamento do vinho anterior (Les Romains), é amadurecido em barricas de carvalho inerte (barricas de cinco anos). É um branco de corpo, textura mais espessa, sem perder o frescor. Foi decantado previamente, pois seus aromas demoram a abrir na taça. Tem o lado cítrico, mineral, e um intrigante defumado. Persistência notável e uma certa adstringência final. Um branco extremamente gastronômico e bom parceiro para pratos bem elaborados com Haddock ou bacalhau.

vacheron par sancerre

o par de entrada do Domaine

Para fechar o painel, um tinto Sancerre, par do nosso primeiro branco. Conforme a apelação, é 100% Pinot Noir. As vinhas tem entre 30 e 50 anos. O vinho amadurece em carvalho inerte (barricas e tonéis). Muito agradável em boca com bela acidez, taninos na medida certa, sem extração excessiva. Os aromas são elegantes com toques terrosos, florais e de cerejas escuras. Bom parceiro para pratos leves de verão como rosbife e embutidos finos. Por menos de 200 reais, um Pinot Noir autêntico e sem subterfúgios. 

Agradecimentos a todo o pessoal da Clarets, especialmente a Guilherme Lemes e Keren Marchioro. Pouco a pouco, eles vão formando um portfólio invejável com vinhos criteriosamente selecionados e a preços bem competitivos. Vinho Sem Segredo se sente horando em acompanhar de perto este sucesso. Abraço a todos!

Chablis x Pouilly-Fumé: O Relativismo da Cepa

26 de Fevereiro de 2015

Quando as pessoas referem-se à Chardonnay para falar da Borgonha, os franceses ficam de certa maneira surpresos e até incomodados com a importância dada à cepa. Eles sentem-se muito mais confortáveis quando discorrem sobre comunas como Chassagne-Montrachet, Puligny-Montrachet, Meursault, e assim por diante. Para eles, o “Climat” é mais importante, ou seja, um conjunto de fatores que determinam um terroir específico onde a cepa é mera coadjuvante. Para o pessoal do Novo Mundo é difícil assimilar este conceito, provocando em certos casos até uma sutil ironia. Neste contexto, o título do presente artigo faz todo o sentido. Às vezes, precisamos de fatos e de exemplos extremos para entender algo um tanto camuflado.

Obviamente, sabemos que as apelações francesas mencionadas acima partem de uvas e regiões distintas. Portanto, num primeiro momento de precipitação, parece não haver nenhum sentido no tema proposto. Ocorre, que os diversos fatores de terroir caminham às vezes em rotas diferentes, mas acabam revelando resultados bastantes próximos, os quais podem confundir e por conseguinte, meditar sobre esses caminhos. Esclarecendo melhor, nas apelações Chablis e Pouilly-Fumé, o clima é rigoroso, frio, mesmo para padrões europeus, sobretudo no inverno, e o solo de cada uma das regiões, extremamente particular e muito específico. Esses dois fatores, clima e solo, sobrepujam e muito as características das uvas e a própria intervenção do homem, o qual sabiamente, isto inclui os melhores vinhateiros de cada uma destas apelações, a realizarem um mínimo de intervenção possível. Só assim, esses vinhos passam a ser únicos, emblemáticos e por vezes, incompreendidos. Resumindo, não há Chardonnay no mundo que possa reproduzir o que acontece em Chablis. Da mesma forma, não há Sauvignon Blanc no mundo que possa reproduzir o que acontece em Pouilly-Fumé. Entretanto, os solos e climas destas duas regiões são tão particulares e tão intensos, que os vinhos em degustações às cegas se confundem agradavelmente.

Argile à Silex

Quando degustamos Chablis ou Pouilly-Fumé há um certo mistério de início. São vinhos que não se mostram de cara. Pouco a pouco, vão aparecendo alguns toques florais, um frutado muito sutil, e os característicos traços minerais, esfumaçados. Em boca, a dureza fala mais alto, acidez marcante, algo quase cortante, e a mineralidade mostra-se com certa salinidade. Esses são os pontos mais evidentes e categóricos para confirmar as semelhanças dos vinhos. O lado varietal, o ponto que distingue uma cepa de outra é extremamente sutil, difuso, quase totalmente encoberto pela força extraordinária de seus solos e climas respectivos.

Marnes à Petites Huîtres (Virgule)

Só para lembrar, Chablis é a sub-região da Borgonha mais a norte, bem deslocada das demais sub-regiões contíguas a sul. Esta no meio do caminho, entre Dijon e o sul da Champagne. Um clima extremamente rigoroso e um solo muito específico chamado de Kimméridgien ou Kimmeridgiano, sobretudo nos melhores terroirs. Neste solo estão presentes fósseis marinhos que “teoricamente” seriam responsáveis pela tal mineralidade. Da mesma forma, em Pouilly-Fumé, o clima é rigoroso e os solos também específicos. Um deles é o chamado Sílex, solo pedregoso composto de pedras de argila calcinadas em outras eras geológicas, além do solo chamado “Virgule”, o mesmo encontrado em Chablis.

Importado pela Cellar (www.cellar-af.com.br)

Possivelmente, o melhor produtor encontrado no Brasil

Os dois rótulos acima são dignos representantes de suas apelações. O Premier Cru Montée de Tonnerre é de grande tipicidade. Este Chablis é encontrado na importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br). Um confronto sem vencedores, ou melhor, sem perdedores.

Para aqueles que se  interessarem em comprovar na prática, é uma degustação bastante didática. Evidentemente, não é fácil convencer amigos, confrarias, associações, a realizarem degustações de temas polêmicos. O óbvio sempre é mais fácil e menos trabalhoso. Contudo, para os inquietos, os destemidos e os que procuram novos desafios, este é um dos caminhos.

Jantar Borgonhês entre Amigos

19 de Novembro de 2014

É sempre bom reunir amigos em torno de uma mesa. Se a mesa for na Roberta Sudbrack e os amigos de bom gosto, tudo fica perfeito. A ideia partiu do aniversariante, o amigo Roberto Rockmann. Entusiasta de borgonhas e mencionado algumas vezes neste blog. O tema central não poderia ser outro, evidentemente, recheado com algumas preciosidades fora da Borgonha, de produtores renomados tais como: Didier Dagueneau (Loire), Krug (Champagne) e Castello di Ama (Chianti Classico).

Pouilly-Fumé de Legenda

Os trabalhos começaram com o branco acima. É difícil descreve-lo. Às vezes, nem parece um Sauvignon Blanc como normalmente conhecemos. Não tem aroma de maracujá, não tem um herbáceo acentuado, mas tem uma mineralidade incrível. Embora com seus dez anos de idade, a acidez é marcante. Os aromas são delicados e presentes sem qualquer interferência  da madeira, apesar de ser fermentado e amadurecido em barricas. Essas características caíram muito bem com os pratos de entrada.

A sublimação da elegância

Na sequência, o primeiro tinto. E que tinto! Nada menos que Les Amoureuses do craque Frédéric Mugnier. Aqui a feminilidade da comuna de Chambolle-Musigny é exacerbada ao extremo. O vinho anterior preparou magnificamente a boca para percebermos toda a delicadeza deste exemplar. Os aromas de rosas, frutas delicadas, especiarias sutis estavam lá. Em boca, a delicadeza era marcante e persistente. A tênue linha que separa a sutileza da falta de personalidade, do insosso, foi de uma execução cirúrgica. Poucos produtores (artistas) conseguem esta proeza.

O Rolls-Royce dos champagnes

Não quer correr riscos? Então sirva Krug. Espetacular, suntuoso, sedutor, e tantos outros adjetivos. Ele tinha que seguir após o Les Amoureuses. É muito marcante, e muito envolvente. Só mesmo o Sílex com aquela sutileza peculiar para não interferir na apreciação do primeiro tinto. Voltando ao Krug, a Grande Cuvée é seu vinho mais emblemático, o retrato fiel da Maison, a regularidade e a fidelidade ao estilo Krug. Dentre os diversos aromas e sabores proporcionados por essas mágicas borbulhas, as notas sutis de gengibre são pessoalmente marcantes. A combinação com o prato abaixo foi sublime. Aliás, poucos pratos não combinam com um Krug.

Sabores autênticos e sofisticados

Neste ponto do jantar chega o divisor de águas. Agora é hora de separar os homens dos meninos. Na mesa, um dos mitos da Borgonha. Le Musigny do purista Mugnier novamente. Num paralelo bordalês, Musigny está para Chambolle assim como Margaux está para a comuna homônima. São terroirs que primam por delicadeza, mas que nestes respectivos exemplares apresentam uma firmeza e força arrebatadoras. Este tinto da Borgonha é um dos poucos capazes de desafiar o mito Romanée-Conti. Seus aromas  parecem  nos certificar que os sabores serão intensos e profundos. A mineralidade (toque terroso dos grandes borgonhas), sua estrutura tânica incomum, e sua expansão em boca, tentam de forma superficial descrever um pouco de sua complexidade. Foi sem dúvida, o ponto alto do jantar.

Delicadeza e força se fundem no inexplicável

Na sequência de tintos, seguiram-se Chambertin Grand Cru 2007 do produtor Bertagna e Domaine Courcel Grand Clos des Épenots Premier Cru, respectivamente. O primeiro, o único infanticídio da noite. Um vinho que promete, muita concentração e elegância. Seus aromas foram desabrochando lentamente nas taças, mostrando que sua evolução é inexorável. Por último, o estupendo Pommard de Courcel, referência nesta apelação. Os aromas de evolução denotando trufas, alcatrão e mineralidade, lembraram os grandes Barolos. Foi o grande parceiros dos queijos que finalizaram a refeição. A safra 1990 dispensa mais comentários.

Castello di Ama: Propriedade irretocável

Fechando com chave de ouro, o Vinsanto Castello di Ama. Vinícola irretocável na região do Chianti Classico (Gaiole in Chianti). Foi um dos Vinsantos mais delicados já provados com comedidos treze graus de álcool (normalmente, espera-se entre 15 e 16 graus alcoólicos). Os aromas nobremente oxidados tinham como linha mestra notas de figos em compota. Portou-se muito  bem não só com os queijos, como as sobremesas delicadas.

Realmente, um jantar memorável. Esses momentos é que fazem verdadeiramente a vida ter sentido. Que venham outros nesta mesma emoção!

A satisfação do aniversariante anfitrião

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Mineralidade nos vinhos

6 de Junho de 2013

Caráter mineral num vinho é um dos assuntos mais subjetivos e mais polêmicos. A razão principal até o momento, é que não há provas científicas sobre esta questão, sobre esta afirmação. De fato, os mais renomados fisiologistas em plantas, geólogos, agrônomos e enólogos, são extremamente céticos quanto ao tema. Aliás, eles acham que a maioria das pessoas que mencionam o termo “mineral” não sabem exatamente do que estão falando.

O vídeo acima na região chilena de Limari mostra uma das inúmeras tentativas de vincular a mineralidade dos solos aos vinhos. Notem que no decorrer do vídeo, ele fala sutilmente que de “alguma forma” esta mineralidade é passada para as uvas, deixando um certo mistério no ar.

Outro fator inerente ao termo e da mesma forma, subjetivo e polêmico, é a expressão terroir, analisada exaustivamente em vários artigos deste blog. De todas as expressões utilizadas para a descrição de vinhos, a mineralidade é sem dúvida nenhuma o cordão umbilical com o terroir e daí, todo o glamour, sutileza e mistério em torno do vinho.

Neste campo minado, três fatores parecem convergir para a solução da questão, segundo esses mesmos especialistas: regiões frias, acidez dos vinhos e supressão parcial da fruta. De fato, as clássicas regiões européias como Chablis na Borgonha, Sancerre, Savennières e Pouily-Fumé no Loire, Mosel e Saar na Alemanha, apresentam solos calcários ou de ardósia, os quais geram uvas de alta acidez, aliados a climas frios. A fruta mais discreta, mais contida, nestes mesmos vinhos, dão espaço para o chamado caráter mineral. Entretanto, não se pode provar por A+B que as raízes absorvem esses minerais e os mesmos são transferidos para os frutos. Mesmo que estes mecanismos sejam um dia provados, as quantidades absorvidas são tão irrisórias, que seriam extremamente difíceis de serem detectadas sensorialmente. Sendo assim, o mistério continua.

Randall Grahm, pesquisador famoso na Califórnia, acrescenta mais alguns fatores para a expressão da mineralidade nos vinhos: vinhas antigas (raízes profundas), baixos rendimentos no vinhedo, vida microbiana no solo (mycorrhiza ou micorriza), e colheitas com perfeita maturação das uvas (não sobre-maturação).   

Percepção do sabor: interrogação nos solos

Na prática, o que chamamos de aromas ditos “minerais” são aqueles que lembram algo defumado, esfumaçado, iodado, grafite, petróleo, cat´s pee (urina de gato), terroso, giz, sílex, alcatrão. Geralmente, os solos relacionados com mineralidade são do tipo vulcânico, calcário, xisto, granito, ardósia, normalmente com a presença de pedras, sobretudo em camadas mais profundas.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9a/Roue_des_Ar%C3%B4mes_du_Vin.jpg

Muito desses aromas são colocados em outras famílias na famosa roda de aromas, tais como: animal, químicos, medicinais, empireumáticos, entre outros. A roda de aromas acima (favor clicar no atalho) parece-me bastante completa e elucidativa. Notem que a família de aromas minerais está indefinida entre aroma e bouquet. Eles sugerem que esses aromas provavelmente não provêm do solo e sim do processo fermentativo com a presença de ésteres e tióis. Enfim, é um assunto que dá pano pra manga!

Vinhos que vencem o tempo

11 de Abril de 2013

Dos muitos ditados sobre vinhos, um dos mais ilusórios é o que diz: “Vinho, quanto mais velho, melhor”. Na prática, isso vale para cerca de dois porcento dos vinhos produzidos no planeta. Poucos passam dos dez anos em plena forma, sem sinais de declínio. Portanto, quando nos deparamos com essas raridades, vale a pena comentá-las.

Didier Dagueneau Silex 2005

Morto há poucos anos em um acidente de ultraleve, Didier Dagueneau foi um dos mais talentosos vinicultores do Loire, notadamente da apelação Pouilly-Fumé, que ele fazia questão de nominá-la Blanc Fumé de Pouilly. Sua cuvée Silex faz menção a um dos famosos terroirs da apelação com solo pedregoso de nome homônimo. Apesar de seus oito anos de safra, a fruta delicada estava bem presente, envolta num mineralidade extremamente elegante. O equilíbrio é seu ponto alto, com final persistente, harmônico e em plena forma. Vinhas antigas, uma grande safra e um vinicultor brilhante, geralmente culminam nestas maravilhas.

Vega-Sicilia Valbuena 5º Año 1999

Este é um daqueles segundos vinhos que só dignifica o grand vin que está por trás. Geralmente, são vinhas mais jovens, partidas que não estão à altura do grande Vega, pois a exigência é cruel. Mas é com este rigor, que grandes nomes são feitos, mesmo em seus exemplares mais humildes. Nesta safra, foram mescladas as uvas Tempranillo (80%), Merlot e Malbec (20%). Seu amadurecimento em madeira, extremamente peculiar, deu-se com cinco meses em tonéis de 20.000 litros, seguido em barricas novas de carvalho americano e francês por dezesseis meses, e voltando aos tonéis até o ano de 2002, antes do engarrafamento. Só começou a ser comercializado em 2004.

Esta amosta, com seus catorze anos de safra, diga-se de passagem, não foi uma grande safra, não mostrou sinais da idade. Aliás, esta é uma marca registrada da bodega Vega-Sicilia. Nunca tente adivinhar um Vega pela cor. Deve haver alguma magia no amadurecimento longo em madeira. Voltando à cor, ainda tinha traços violáceos. Os aromas finos mesclavam com maestria fruta e madeira num final balsâmico. Novamente, o equilíbrio de boca notável. Nada era muito potente, mas extremamente fino.

Henri Gouges Nuits-St-Georges Premier Cru Clos des Porrets 1998

Para muitos, guardar borgonhas tintos pode ser uma temeridade. São muito frágeis, delicados e com pouca estrutura tânica. Porém, nunca duvide de um Nuits-St-Georges, principalmente um Henri Gouges. Este exemplar com uma cor impressionante tinha taninos de um autêntico Barolo. Firme, musculoso e profundo. Seus aromas terrosos, de cerejas escuras e alcaçuz eram os mais destacados. Grande equilíbrio e persistência, mostrando outras facetas da Pinot Noir.

Sedimentos deixados pelo tempo

Pela foto acima, não há como deixar de decantar um vinho desses. Mais um contradição para aqueles que dizem que borgonhas não se decantam. Produtores e terroirs diferenciados nunca seguem regras. Eles caminham longe da padronização, por isso são únicos.

Terroir: Sauvignon Blanc

9 de Novembro de 2010

O chamado Loire do Centro ou Alto Loire  é o berço espiritual da Sauvignon Blanc sob as apelações Pouilly-Fumé e Sancerre. O clima frio aliado às características predominantemente continentais, além de solos específicos, garantem um Sauvignon autêntico e de singular tipicidade. Os principais solos encontrados na região são com predominância de sílex ou solos do tipo Kimeridgiano, conforme fotos abaixo, respectivamente.

Sílex: rocha sedimentar composta de quartzo e argila

Solo kimeridgiano: fósseis marinhos calcinados em marga

Esses tipos de solo, segundo os terroiristas, transmitem a peculiar mineralidade destes vinhos, sempre acompanhada de uma notável acidez. No segundo tipo de solo (kimeridgiano), percebemos nitidamente conchas de ostras (fósseis marinhos) que foram solidificadas em outras eras geológicas. Afinal, o local já foi mar um dia. Este mesmo tipo de solo é famoso em Chablis, principalmente na faixa nobre dos sete Grands Crus (Blanchot, Grenouilles, Valmur, Les Clos, Vaudesir, Preuses e Bougros).

Portanto, o Sauvignon do Loire apresenta um estilo incisivo com aromas discretos, além da mineralidade acentuar-se ao longo do envelhecimento em garrafa. Sua acidez marcante é muito apropriada para entradas e pratos leves, notadamente da cozinha japonesa (peixes in natura).

 

Um das referências em Pouilly-Fumé

Além do sofisticado Baron de L acima, a domaine Ladoucette elabora outros exemplares dignos da apelação, que são importados pela Vinci (www.vinci.com.br). Chateau de Tracy e Michel Redde também são opções seguras das importadoras Decanter (www.decanter.com.br) e Club Taste Vin (www.tastevin.com.br), respectivamente.

 

Nova Zelândia

Rótulo histórico para o Novo Mundo

O exemplar acima colocou definitivamente a Nova Zelândia no mapa do vinho, mostrando ao mundo uma nova dimensão de Sauvignon Blanc, com uma tropicalidade ímpar.

O terroir chama-se Marlborough (porção nordeste da Ilha Sul neozelandesa). O terreno apesar de plano, tem excelente drenagem, graças ao solo de gravilha (espécie de pedrisco), que escoa a água rapidamente. A região é protegida ao norte e a oeste por uma cadeia de montanhas (ver foto abaixo retratada no rótulo do Cloudy Bay) dos ventos frios e úmidos, impiedosos nesta ilha. A insolação é uma das maiores no mundo vitícola, propiciando amadurecimento perfeito das uvas. Para completar, as noites são frias, provocando a tão benvinda amplitude térmica para manter ótimos níveis de acidez.

Richmond Ranges: barreira natural contra os ventos

Nestas condições temos um Sauvignon de bom corpo, extremamente frutado com incríveis toques tropicais (notadamente o maracujá), complementado por ervas, flores e em alguns casos, um fundo mineral discreto. O grande trunfo destes vinhos é sua bela acidez, frescor, valorizando e equilibrando sua exuberância frutada. Um dos melhores exemplares da atualidade é o Sauvignon Blanc Jackson Estate, importado pela competente e especializada importadora de vinhos neozelandeses Premium, www.premiumwines.com.br

Portanto, dois estilos incríveis de Sauvignon, respeitando seus respectivos terroirs, esperando o momento adequado para serem apreciados. Para um salmão defumado, como entrada, vá de Sauvignon do Loire. Já uma posta de salmão cozido no vapor ou em papillote, com ervas, especiarias, e gaurnições delicadas, vá de Sauvignon da Nova Zelândia. Bon Appétit!


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