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California Dreams

3 de Fevereiro de 2019

Em mais uma reunião da confraria, o almoço no ótimo restaurante de carnes Varanda Grill, foi regado com alguns cult wines de Napa Valley. Parte deles, como Cabernet Sauvignon puro, e os demais como cortes bordaleses. Nas duas versões, os americanos mostram que entendem do assunto, cumprindo bem a função de digerir a fibrosidade de alguns cortes nobres com seus poderosos e finos taninos.

 

uma festa para bons taninos!

Os cortes acima, miolo de alcatra e fraldinha, entre outros que desfilaram, mostraram ótima suculência para abrandar taninos, um dos componentes do vinho de maior conflito em harmonizações.

Antes porém, uma pausa para refrescar este impiedoso verão. Chardonnay e Sauvignon Blanc americanos.

img_5616uvas bem interpretadas com tipicidade

O Chardonnay à esquerda, pertence à região da Costa Central, beirando o litoral californiano, a sul de Napa Valley, a caminho de Los Angeles. Região de altitude em Santa Bárbara que compreende as AVAs: Santa Rita Hills, Santa Ynes Valley, e Santa Maria Valley. Trabalham muito bem as uvas Chardonnay e Pinot Noir. Neste exemplar, o vinho passa 10 meses em barricas com baixa porcentagem de madeira nova. A fruta está bem presente, o vinho tem frescor e equilíbrio. Os aromas são elegantes, lembrando algo da Borgonha.

O vinho da direita é um belo Sauvignon Blanc do histórico vinhedo Eisele, propriedade de Araujo Estate. Como curiosidade eles trabalham com um clone exótico de Sauvignon Blanc denominado “Musque”. O vinho tem um mix de aço inox, barricas usadas e uma pequena porcentagem de novas. Como estilo, fica no meio termo entre um Sancerre do Loire e um Bordeaux blanc. Fresco e muito instigante.

img_5614históricos vinhedos de Napa

O vinho da esquerda é do histórico vinhedo Eisele em Calistoga, extremo norte de Napa Valley. Pela lei americana, um vinho com mais de 85% de uma determinada uva é considerado varietal e pode colocar o nome da uva no rótulo. Neste caso, temos 93% Cabernet Sauvignon, 4% Cabernet Franc, e 3% Petit Verdot. O vinho passa 22 meses em barricas francesas, sendo 75% novas. Vinho de muita estrutura, sem sinais de decadência e com boa vida ainda em adega. 92 pontos Parker.

Enfim, o primeiro 100 pontos do almoço, Abreu Madrona Ranch 1997. Talvez o melhor Abreu de toda a história. Tinto complexo, elegante, cheio de nuances. Madrona Ranch é um vinhedo histórico da AVA Santa Helena, mesclando uvas bordalesas. Neste corte temos 50% de Cabernet Sauvignon, 35 a 40% de Cabernet Franc, o que explica a elegância do vinho, e uma pequena porcentagem de Merlot e Petit Verdot. O vinho passa 24 meses em barricas francesas novas. Um Bordeaux de primeira classe. Foi páreo duríssimo para o Dominus 1994, que será comentado a seguir.

img_5613200 pontos na mesa

O ponto alto do almoço. Se existe perfeição em Napa Valley, ei-la aqui. Harlan Estate é um corte bordalês de alta classe. Com cerca de 80% Cabernet Sauvignon, e o restante com Merlot e Cabernet Franc, é um autêntico margem esquerda. Esse da safra 97 é um dos mais perfeitos Harlans. Tem potência e elegância num nível absurdo. É profundo e de longa persistência. Enquanto o Abreu descrito acima encontra-se no auge de sua evolução, este Harlan ainda tem chão pela frente, embora já delicioso.

Já o vinho da esquerda, é a perfeição num Cabernet Sauvignon puro. A safra 97 foi uma das históricas da vinícola boutique Screaming Eagle com produção limitadíssima. A potência e a montanha de taninos que esse vinho apresenta consegue ter a mesma dimensão na textura cremosa de seus taninos. Um tinto impactante que tem força para te esmagar, mas no entanto te dá um abraço carinhoso. Espetacular!

img_5615estilos opostos

Este foi sem dúvida, o painel mais contrastante em termos de estilo de vinho. Dominus 94 é um vinho praticamente perfeito com 99 pontos Parker. O ícone dos cortes bordaleses de Napa com 70% Cabernet Sauvignon e o restante entre Merlot e Cabernet Franc. Um vinho inteiro, cheio de charme e elegância. Embora com um pouco mais de estrutura que o Abreu 97 acima comentado, ainda tem alguns anos para atingir o pleno apogeu. Os vinhedos da Dominus estão na AVA Yountville, divisa de comuna com Oakville.

Já o Colgin Herb Lamb 1994 foi o vinho menos evoluído do painel com um rubi profundo na tonalidade de cor. Um Cabernet austero, potente, e bem casado com a madeira. Precisa de decantação, pois de início pareceu um pouco fechado. Aguenta fácil mais uns dez anos em adega, mostrando o potencial de longevidade destes grandes tintos de Napa. 96 pontos Parker. Os vinhedos da Colgin estão na AVA Santa Helena.

img_5617sete anos depois …

Não é foto repetida não. Foi mais um flight desta estupenda dupla de tintos sete anos mais nova com a safra 2004. Não temos mais 200 pontos na mesa, mas o nível continua altíssimo. Este Screaming Eagle 2004 tem 97+ pontos de Parker. A novidade é que apesar de ainda ser um Cabernet Sauvignon em sua essência (85%), temos um pouco de Merlot e Cabernet Franc. A profundidade de sabor e a elegância de taninos continuam notáveis. Evidentemente pela juventude, ainda tem bons anos em adega.

Passando ao Harlan Estate 2004, um monstro engarrafado com 98 pontos Parker. É de uma riqueza e elegância excepcionais. Fica difícil julga-lo neste momento, mas seu equilíbrio, estrutura de taninos, seu poder de fruta, são arrasadores. Seu apogeu ainda está longe, mas será um dos grandes Harlans memoráveis.

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AVA Oakville

O mapa acima mostra a AVA (American Viticultural Area) de  Oakville, uma espécie de Denominação de Origem americana. Assim como temos as comunas de  St-Estèphe, Pauillac, St Julien e Margaux em Bordeaux,  em Napa temos Rutherford, Oakville, Santa Helena e Stag´s Leap. A atenção especial a Oakville vem do fato de ser o distrito que abriga as vinícolas Harlan e Screaming Eagle em lados oposto do vale. Harlan Estate do lado esquerdo do mapa, junto ao conjunto de montanhas Mayacamas, tem um solo aluvial, bem drenado, proporcionando vinhos elegantes e com bom potencial de guarda. Já o lado leste de Screaming Eagle, junto as montanhas Vaca, tem um solo mais pesado de origem vulcânica e um clima mais quente, proporcionando vinhos de grande caráter e potência. Acho que isso explica bem a diferença destes dois ícones americanos, embora grandiosos em seus respectivos estilos.

img_5612join venture famosa de Napa

Opus One foi uma jogada de mestre do carismático Robert Mondavi, unindo-se ao Baron Rothschild para produzir um dos mais icônicos tintos de Napa Valley. Este 2007 provado é um dos melhores de todas as safras já produzidas. Ainda jovem, tem uma boa trama tânica, bem equilibrado, e bem dosado nos seus 19 meses de barricas francesas novas. Tem 95 pontos Parker e é composto de 79% Cabernet Sauvignon, 8% Merlot, 6% Cabernet Franc, 6% Petit Verdot e 1% Malbec.

Já o Opus One 1997 é um vinho pronto, muito agradável no momento, bem equilibrado, tendo todos os terciários de um corte bordalês. Embora seja um dos grandes de Napa, não foi páreo para o time de cima como Harlan e Screaming Eagle. Este exemplar tem 88 pontos Parker. Opus One pertence à AVA Oakville.

 

garrafa magnum e bife de tira

Este tinto apresentado em Magnum, foi dos menos empolgantes do painel. Hundred Acre é uma das vinícolas boutique mais badaladas na atualidade, pertencente à AVA Santa Helena. Este Cabernet Sauvignon do vinhedo Ark safra 2007 não despertou paixões, embora bastante macio e pronto para ser apreciado. Faltou um pouco mais de estrutura e classe para chegar ao nível dos demais. Como curiosidade, valeu a experiência, mostrando que devemos ter cuidado em separar o joio do trigo. Muitas vezes a publicidade e o influente lobby do vinho fala mais alto que a verdade na taça.

Enfim, fica mais uma vez ratificado que os cult wines de Napa são vinhos de grande prestígio, de grande poder de longevidade, a despeito de preços estratosféricos como Harlan e Screaming Eagle. A diversidade de marcas e estilos enriqueceu o painel, mostrando que a confraria voltou com força total para 2019. Agradecimentos a todos pela generosidade, a boa conversa, e o entusiasmo por sempre estarmos presentes e compartilhando histórias. Que Bacco nos proteja!

 

Cult Wines and Steak

26 de Janeiro de 2018

Nada como um bom Cabernet Sauvignon para amalgamar seus taninos em meio à suculência de belos cortes de carne. Foi exatamente esta ideia que nos levou a conhecer mais um restaurante do grupo Varanda Grill Faria Lima.

menos de uma barrica por safra

Por uma questão de tipologia, carnes de excepcional qualidade pedem vinhos à altura. Portanto, os belos Cabernets do Napa Valley cumpriram bem sua missão. Antes porém, uma obra-prima de Madame Leroy, os estupendos brancos Domaine d´Auvenay. Neste caso um Puligny-Montrachet Les Enseignères 2012 Premier Cru. Menos de uma barrica produzida (225 garrafas). Um primor de vinho, embora muito novo, quase um feto. Precisa ser obrigatoriamente decantado por duas horas, para poder expressar alguma de suas virtudes e segredos. Equilíbrio, harmonia, persistência; notáveis.

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Estilo Novo Mundo sem cerimônias

Foi o que menos me agradou. Embora com seus quase 20 anos, Grace Family faz um Cabernet Sauvignon com os típicos toques mentolados do Novo Mundo. Nesta safra de 1989 houve dificuldades no amadurecimento das uvas, mostrando claramente toques de pirazina (algo herbáceo, lembrando pimentão). No mais, a evolução do vinho estava correta com bom equilíbrio em boca, sem sinais de decadência. O grande ano deste vinho foi 1985 com 96 pontos.

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o clássico assado de tira

Uma carne macia com boa presença de gordura pede vinhos com boa acidez. Neste caso, o Grace Family cumpriu bem seu papel, fornecendo ótimo frescor. Foi o de menor teor alcoólico do painel.

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93 pontos numa safra exuberante

Talvez o melhor vinho do almoço por sua prontidão, embora possa ser adegado por mais tempo. Um Cabernet encorpado, taninos ultra macios, e álcool bem sustentado por ótimo meio de boca. Muita fruta presente, indicando que seu platô de evolução parece ser amplo.

IMG_4208.jpgFilé Mignon com osso

Esta é uma parte nobre do T-bone do lado mais estreito, onde se encontra o filé mignon. Um filé alto corretamente assado com uma suculência muito agradável. Fez bonito par com o vinho abaixo, Abreu Madrona Ranch, e tenho certeza que também seria ótima companhia para o Lokoya 1997, acabado antes de chegar o prato.

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vinho elegante que se aproxima dos grandes Bordeaux

Aqui, outra fera de Napa. Madrona Ranch é o melhor vinhedo da vinícola Abreu. A safra de 1996 foi minúscula, mas de ótima qualidade. O que falta da potência de 1997, sobra em elegância neste 1996. De fato, foi o mais bordalês de todo o flight. Seus aromas terciários lembrando couro e tabaco, remetiam aos bons tintos de Pessac-Léognan. Equilíbrio notável e taninos finíssimos. Um vinho quase perfeito, 98 pontos.

uma promessa de 100 pontos

O vinho acima é o mais novo 100 pontos de um dos mais caros Cult Wines, safra 2012. No momento, uma explosão de frutas numa opulência sem igual. Um típico corte bordalês de margem esquerda (79% Cabernet Sauvignon, 17% Merlot, 4% Cabernet Franc). Seus 14,8° de álcool são perfeitamente balanceados por um extrato fabuloso e um ótimo frescor. Seus taninos são rolimãs em boca, tal a textura sedosa dos mesmos. Previsão de auge, ano 2034.

Enfim, mais uma ótima experiência de carnes vermelhas nobres com tintos tânicos, sem modismos e invenções de professor Pardal. Afinal, para que complicar o óbvio. 

Agradecimentos aos confrades presentes, começando bem o ano 2018. Aqui é como o Brasileirão. Cada jogo é uma final e quem tem mais pontos ao longo do ano, leva a taça. Abraço a todos!  

Pratos e Vinhos: Parte I

5 de Janeiro de 2017

A comida sempre ligada ao vinho é uma busca constante dos enófilos que dão importância à enogastronomia, posto que comer é uma necessidade física, mas ter prazer à mesa é outra conversa. Fora isso, como dividir algumas garrafas com amigos sem ter nada no estômago?. Daí, a necessidade de por a cabeça para funcionar e tentar nos surpreender neste desafio difícil, de opiniões diversas, mas sempre prazeroso. Mesmo para aquelas harmonizações mais óbvias, o ponto certo da comida e o estágio de evolução de um determinado vinho a principio correto, pode não dar certo na prática.

Entradas

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frutos do mar e massa recheada

Nestes dois exemplos, um mesmo vinho branco irá escolta-los. Trata-se de um Meursault do produtor Michel Bouzereau. Apesar de comunal, trata-se de um Lieu-dit chamado Le Limozin, ou seja, um Meursault de vinhedo. São apenas quatro mil metros de vinhas plantadas nos anos 60 e 80. O vinho passa um ano em barricas, sendo 25% novas. A fruta é vibrante, bem casada com a madeira quase imperceptível. A textura não é tão densa como de outros Meursaults, o que ajuda na harmonização. Muito equilibrado, ótimo meio de boca, e final bem acabado. Importadora Cellar (www.cellar-af.com.br).

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Meursault para conhecedores

A combinação com a salada de frutos do mar ficou muito interessante, pois a textura mais delgada deste Meursault especificamente, promovia um respeito ao corpo do prato. Além disso, os frutos do mar e o molho levemente picante, aguçava no vinho sua mineralidade e seu lado mais delicado. Já com a massa, recheada de queijo e ricota, mostrava textura ainda compatível com o vinho. Tanto a gordura do queijo, como do azeite, eram contrapostas pela bela acidez do vinho. Uma certa neutralidade do prato em termos de sabor, mostrava todo o lado frutado do vinho, inclusive um sutil toque amanteigado. Em suma, vinho e pratos em harmonia.

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salmão defumado

Salmão defumado, um prato ótimo para o verão, mas com muita personalidade, ou seja, apesar de leve, seu sabor é marcante, capaz de dizimar muito mais vinhos do que se imagina. A dupla de vinhos abaixo, fez o duelo com o prato. O australiano de Adelaide Hills é famoso por seu Sauvignon Blanc num país dominado pelas Chardonnay e Sémillon. Com leve passagem por madeira, seu corpo estava um pouco acima do prato, embora sem comprometimento. O maior problema foi a falta de acidez que o prato exigia, e um excesso de fruta que não tinha sintonia com o salmão defumado. Já o Sauvignon Blanc do sudoeste francês, região de Gaillac, mostrou uma certa neutralidade de fruta com um cítrico mais austero. Além disso, sua bela acidez e mineralidade combateram bem o lado de maresia do prato.

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Austrália x Sudoeste Francês

Estilos diferentes de Sauvignon Blanc. O primeiro (australiano) com mais textura, mais macio em boca, e bem equilibrado. O segundo (francês), mais delgado, mais incisivo, mais cítrico e mineral nos aromas. Propostas diferentes e ambos interessantes.

Pratos de Resistência

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steak au poivre vert

Um clássico francês com várias versões e alternativas. Particularmente, gosto com pimenta verde e flambado no Cognac ou brandy. O filé mignon ao ponto e textura macia. A pimenta dá o sabor e intensidade ao prato, enquanto o creme de leite fresco fornece textura e um certo abrandamento ao ardor da pimenta. Aqui, precisamos de um vinho tinto com sabores intensos e sintonizados com a pimenta. Uma dose de acidez é fundamental para combater a ardência do prato. Os taninos podem ser relativamente dóceis, já que a textura da carne é macia. Um bom Syrah é uma das melhores opções. De clima frio, seria o ideal.

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Screaming Eagle está por trás

A vinícola Jonata ligada à sofisticada e consagrada Screaming Eagle, uma das boutiques mais famosas do Napa Valley, faz este Syrah no frio vale de Santa Ynez (Central Coast), região costeira e montanhosa ao sul da Califórnia. O clima guarda um frescor importante para uvas, proporcionando vinhos frescos e de acidez agradável. Este da safra 2006 tem uma pitada de 2% de Viognier no corte, lembrando o mesmo critério de alguns Côte-Rôtie. Passa em madeira francesa, sendo 50% nova.

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chocolate ao extremo

O vinho exibe uma cor intensa, jovem, apesar de seus dez anos de vida. Os aromas concentrados de frutas escuras em geleia são notáveis, além de especiarias, chocolate, e toques defumados. Belo corpo, equilíbrio perfeito e taninos ultra polidos. Persistente e intenso. Além de acompanhar bem o steak au poivre, foi muito bem com o chocolate acima, 99% cacau. Nesta porcentagem, a presença de cacau e a total falta de açúcar crescem em escala exponencial. O chocolate além de manter toda a fruta do vinho, ressalta em muito sua mineralidade. Combinação que vale a pena fazer.

Próximo artigo, mais pratos e vinhos …

Cult Wines

27 de Novembro de 2016

Existem belos vinhos no Novo Mundo, mas com o nível de sofisticação dos Cult Wines americanos, é difícil confronta-los. Sobretudo, quando falamos de Cabernet Sauvignon ou também, o chamado corte bordalês com predominância da Cabernet, o que em Bordeaux chamamos de Margem Esquerda. Foi neste contexto, que a degustação abaixo de grandes tintos de Napa Valley rolou com quatro safras históricas: 1990, 1994 e 1997.

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Chardonnay de Gladiadores

Inicialmente, um branco de Sonoma, região com influência costeira, elaborado com Chardonnay. Estamos falando de uma fera chamado Marcassin, safra 2002. A figura do javali no rótulo demonstra bem a força deste vinho. Encorpado, intenso, amanteigado, e bastante persistente. Dentro de seu estilo é muito bem feito, mas passa longe de qualquer comparação com similares da Borgonha.

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Grace: 100% Cabernet

30 meses de barricas francesas

                                                 Dominus: Cabernets, Merlot, Petit Verdot

30% barricas novas

Neste primeiro embate da safra 1990, pessoalmente, foi o duelo mais díspar da degustação. Embora, o Grace Family estivesse mais pronto, e de fato estava, sua acidez um pouco exagerada e taninos não tão finos como os demais vinhos, incomodaram numa avaliação geral. É certamente, um vinho que deve ser tomado, e não adega-lo por mais tempo. De todo modo, o pessoal gostou bastante por sua prontidão.

Bem diferente estava seu oponente, Dominus 1990. Certamente, foi a garrafa com mais depósito (borras), tal a opacidade apresentada na taça. De estilo bem bordalês, este tinto passa facilmente num painel de grandes Bordeaux de Margem Esquerda. Denso,  terciário nos aromas, uma montanha de taninos ultrafinos, e de grande persistência. Já muito prazeroso, embora tenha estrutura para mais uns bons anos. De novo, pessoalmente, o grande vinho da degustação, lembrando belos bordaleses.

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Bife de Chorizo Varanda Grill

Entre um gole e outro, um bifinho para incrementar. Para esse perfil de vinhos, potentes, com muitos taninos, nada mau a suculência de uma carne vermelha nobre. Não há melhor alimento para doma-los (taninos). Realmente, uma combinação clássica.

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Aqui, 100% Cabernet Sauvignon em carvalho francês

O embate acima envolve dois 100% Cabernets elaborados pela mesma winemarker nesta bela safra 1994, Helen Turley. Aqui, foi cabeça a cabeça. Tanto é verdade, que Parker concedeu notas 98 e 96 respectivamente, a Bryant Family e Colgin. Concordo com Parker, dando a Bryant Family uma pontinha a mais de elegância. De todo modo, são vinhos de muita estrutura que ainda devem ser adegados por pelo menos mais cinco anos. Mesmo assim, devem ser decantados ao menos, por uma hora antes do consumo.

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Foto de 200 pontos

Acima, briga de gigantes, 100 pontos cada um. Pontuação é sempre algo polêmico, mas claramente, este ultimo flight da safra 1997 é superior ao anterior. Mais concentração, mais estrutura, mais complexidade. É sobretudo uma questão de gosto. O curioso é que a meu ver, o Harlan pareceu mais potente, dando a impressão de ser o Screaming Eagle. E este último, vice-versa. Foi o mais elegante Screaming Eagle que provei. Concentrado, macio, e muito longo. Este é um dos poucos exemplos em que um 100% Cabernet (Screaming Eagle) consegue ombrear-se a um corte bordalês (Harlan Estate). O Cabernet Sauvignon sozinho sempre deixa algumas arestas pela potência e rusticidade da cepa. Sabiamente, os bordaleses tem esse feeling, mesclando outras uvas.

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potência e maciez incriveis

No final, apareceu uma carta fora do baralho, Quilceda Creek 2005, um belo Cabernet de Washington (Columbia Valley), extremo noroeste do país. Com toda sua juventude e 14,9° de álcool, esbanjou volume, maciez e vivacidade em fruta. Muito bem balanceado por cima, o vinho apresenta estrutura e taninos muito macios, apesar de seus 22 meses em barricas francesas novas. Talvez essa maciez, seja o ponto que marque a diferença para os Cabernets de Napa, um pouco mais austeros. Um vinho hedonista, difícil de não gostar.

É sempre bom lembrar que o grupo degusta com duas taças premium, Zalto e Riedel Sommeliers. Embora magnificas em si, proporcionam sensações diferentes. Os aromas na Riedel são mais sutis, enquanto o paladar na Zalto, é mais concentrado. Em resumo, se você encontrar algum defeito no vinho, é só trocar de taça …

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Fine e Marc: apelações regulamentadas na Borgonha

Por fim, tive a difícil missão de confrontar  dois destilados exclusivos, de grandes Domaines da Borgonha, Fine de Bourgogne Domaine de La Romanée-Conti e Marc de Bourgogne Hor d´age Domaine Dujac. Nos dois casos, trata-se de transformar materiais residuais advindos do processo de vinificação destes dois grandes Domaines.

Explicando melhor, vamos começar pelo Marc de Bourgogne. Após o processo de fermentação dos grandes vinhos Dujac, as cascas, engaços (eventualmente) e sementes que sobram nos tanques, são destilados e posteriormente envelhecidos em madeira. Este produto equivale a boas Grappas (Itália). O termo Hors d´Age prevê um envelhecimento mínimo em madeira por dez anos. Este, especificamente não tem safra. No caso, é uma mistura de destilados dos anos 1978 a 1991, a qual foi engarrafada em 2012.

Já este Fine de Bourgogne é a destilação de tudo que sobra nas barricas dos grandes vinhos do Domaine de La Romanée-Conti. No processo de engarrafamento, é comum sobrar no fundo das barricas um pouco de vinho junto com as borras e lias (leveduras mortas). Pois bem, a junção destas sobras são destiladas, dando origem ao produto. Este por sua vez, deve ser envelhecido por lei em madeira. Neste caso, estamos falando da safra 1991, engarrafada em 2008. Em resumo, é algo similar a um brandy (cognac).

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belo fecho de refeição

O confronto das duas eau-de-vie foi mediado por um Puro H. Upmann Magnum 50. É um charuto de fortaleza média para dar neutralidade ao embate. Evidentemente, o primeiro terço foi dominado amplamente pelos destilados, dada a potência de ambos. Já no segundo terço, o lado mais macio, mais cremoso do Fine Bourgogne, casou melhor com a evolução do charuto. Em compensação, no terço final, com toda a potência imprimida pelo Puro, os aromas terciários e refinados do Marc Dujac foram providenciais. Final dramático!

Mais uma vez, só tenho a agradecer a companhia de todos os presentes, os grandes vinhos, e as grandes lições aprendidas. Na expectativa de muitas surpresas ainda este ano! Abraços,

Amigos descontraídos, Vinhos sérios: Parte II

2 de Abril de 2015

Após o belo almoço DRC do artigo passado, só o desejo de provar um Romanée-Conti poderia continuar a saga. Em Petit Comitê, seguimos à casa de outro confrade onde outras surpresas estavam reservadas. Logo que chegamos, o confrade responsável pela fera chegou com a garrafa do mito 1998. Como gentilezas não têm limites, ele trouxe também um Petrus 2001 para a adega do anfitrião.

Mais um pequeno infanticídio

A princípio, na minha opinião, um Romanée-Conti não deve ser tomado com menos de 20 anos de safra, e em alguns casos até mais. Contudo, não deixa de ser uma experiência interessante, nem que seja para tentar vislumbrar seu potencial de guarda. A cor predominantemente rubi, denota sua junventude. Os aromas apesar de extremamente elegantes, ainda são tímidos, tanto pelo vinho em si, como pela característica da safra. Em boca, um equilíbrio fantástico, taninos finíssimos a resolver, e final harmonioso. Estimo seu auge daqui uns dez anos.

Preços estratosféricos

Este é um dos americanos mais caros e mais badalados de Napa Valley. O terroir não poderia ser melhor, a sub-região  de Oakville, situada entre Rutherford e Stag´s Leap. O corte bordalês é baseado com alta porcentagem de Cabernet Sauvignon. A safra é relativamente nova de 2006 com 98 pontos Parker. Vinho potente, cor concentrada e aromas um tanto fechados. Em boca, muito macio, taninos ultra-finos e persistência longa. Um estilo moderno, mas muito bem delineado. Longos anos de adega pela frente. Essa é uma das provas que os americanos estão muito à frente em relação a outros países do Novo Mundo quando se trata de vinhos topo de gama.

Safra surpreendente: 94 pontos (RP)

Esta é uma bela compra para os bordaleses de margem esquerda da pouco badalada safra de 2006. Com 94 pontos de Parker, mostrou-se muito agradável para o momento com toda a tipicidade de um grande Saint-Esthèphe. Cor pouco evoluída, mas aromas relativamente abertos, com toques de frutas escuras (notadamente o cassis), toques de torrefação, especiarias e ervas finas. Em boca, muito receptivo, macio, e com um balanço de componentes digno de um Grand Cru Classé. Final agradável e extremamente elegante.

Potência e Elegância no mais alto nível

Como cantava Nara Leão, o barquinho vai, a tardinha cai …, e mais um tinto de tirar o fôlego. Simplesmente, Amarone Dal Forno Romano safra 2006. Um estilo moderno, superconcentrado, muito mais do que se espera de um Amarone. Para se ter uma ideia da concentração deste tinto, o vinhedo sofre um forte adensamento de vinhas, chegando a ultrapassar mais de 13000 pés por hectare. Como essas uvas são colhidas supermaduras e posteriormente, sofrem o processo de appassimento, os rendimentos são baixíssimos. De 100 kg de uvas faz-se apenas 15 litros de Amarone. Além disso, o proprietário não deixa por menos, utiliza 100% de barricas novas. Diz ele: se o vinho não aguentar a barrica, é porque ele não está à altura da mesma. E de fato, a madeira reina em plena harmonia. Cor quase impenetrável, aromas potentes de frutas em geleia, alcaçuz, especiarias, café, e um defumado inebriante. Em boca, extremamente macio, um veludo, taninos bem dóceis, e um bom suporte de acidez. Pode ser tomado com prazer, mas evolui por muitos anos de adega. Um de seus parceiros clássicos é o queijo Grana Padano, o qual foi provado e confirmado com esta garrafa.

Um Corton-Charlemagne de Exceção

O nosso confrade do Romanée-Conti não estava para brincadeiras. Como se não bastasse ter trazido a fera, não deixou por menos no branco. E que Branco! Um preciosíssimo Corton-Charlemagne 2009 de Madame Leroy de produção extremamente limitada. Um dos melhores brancos da Borgonha que provei, unindo potência e elegância como poucos. Frutas como pêssego, damasco, o famoso pão com manteiga na chapa, o tostado lembrando frutas secas secadas ao forno (amêndoas), toques florais, e vai por aí afora. Já era noite, mas este monumental branco levantou o ânimo e nos reavivou. Fantástico!

A costumeira elegância Dom Pérignon

Com a chegada da noite ninguém é de ferro, sobretudo com um Dom Pérignon Rosé 2003. Para uma bela harmonização, que tal comida japonesa de alta qualidade e esmero. Foi um sucesso, principalmente com os pratos que envolviam atum. A acidez, a elegância e frescor deste champagne são pontos-chaves para um casamento perfeito. Se um Dom Pérignon já é exclusivo, um Rosé de produção baixíssima nem se fala. Além do mais, a safra 2003, um tanto calorosa, foi ideal para o perfeito amadurecimento da Pinot Noir, uva importante neste estilo de vinho. E assim terminamos o dia, a noite, e os sonhos …

Uma das sensações da Borgonha

Só para encerrar o artigo, esqueci de comentar o Borgonha acima degustado no final do almoço, após os DRCs. Um Vosne-Romanée exclusivíssimo do Domaine Prieuré-Roch,  o qual seu proprietário, Henry-Frédéric Roch, assinou muitas safras de Romanée-Conti. Este exemplar denominado Le Clos Goillotte da safra 2006 parte de vinhas com mais de quarenta anos, situadas a cinquenta metros dos limites do vinhedo La Tâche. A produção não passa de duas mil garrafas/ano. Um vinho de estilo mais moderno e muito abordável na juventude. Aromas abertos, francos, frutas deliciosas, toques florais, defumados e de especiarias, muito bem integrado à madeira. Para quem não tem paciência de esperar anos em adega, é uma boa pedida.

Sem mais delongas, agradeço mais uma vez aos confrades que proporcionaram momentos inesquecíveis com boa conversa e belos vinhos. Se esqueci de algum outro detalhe, é porque o inevitável abuso do álcool não permitiu. Grande abraço, e até as próximas!

Napa Valley: Parte III

25 de Outubro de 2012

Caminhando para a parte sul de Napa Valley, as comunas ou melhor, as AVAs Oakville e Stag´s Leap entram em evidência. O esquema abaixo mostra Oakville, imediatamente a sul de Rutherford, comuna esta comentada em post anterior. Com clima um pouco mais fresco, ainda assim um belo terroir para Cabernet Sauvignon com vinhedos históricos como To Kalon, berço de um dos mais disputados tintos americanos, Opus One e também do consistente Robert Mondavi Reserve. Outro vinhedo espetacular é Martha´s Vineyard, da vinícola Heitz, com seu Cabernet Sauvignon bastante conceituado.

Do lado leste, destaca-se a boutique Screaming Eagle com seus Cabernets sendo disputados a peso de ouro. Algo como Pingus na região mais cara de Ribera del Duero, denominada e comentada em artigo específico neste mesmo blog como “Milha de Ouro”. Outros destaques desta comuna são as vinícolas Silver Oak Cellars e Far Niente.

Antes de nossa última comuna, um parênteses para a excepcional vinícola Dominus Estate, pertencente à AVA Yountville, imediatamente a sul de Oakville. Sob a inspiração de Christian Moueix, proprietário do Chateau Petrus em Pomerol, seu corte bordalês baseado em Cabernet Sauvignon do notável vinhedo Napanook é um dos mais elegantes tintos do Napa.

Cask 23: Um pesadelo para os grandes Bordeaux

Nossa última comuna ou AVA é Stag´s Leap District, criada recentemente, muito em função do vinho homônimo, o famoso Cask 23. Ele não fez barulho somente em 1976, na famosa degustação de Paris. Posteriormente, algumas vezes repetida a mesma degustação em outras ocasiões, este Cabernet Sauvignon ratificou sua primazia, mostrando não ser mero acaso. Alguns o chamam de o “Margaux do Napa” por sua elegância e seu toque floral característico. Mais uma coincidência, a comuna de Margaux também é homônima do seu grande vinho.

Stag´s Leap Wine Cellars trabalha com dois belos vinhedos muito bem dividido em setores baseados fundamentalmente em Cabernet Sauvignon, os vinhedos Fay e S.L.V., que serão descritos a seguir. O vinhedo original e mais antigo é o Stag´s Leap Vineyard (SLV). Foi utilizado para a elaboração do famoso tinto campeão em Paris, 1976. Na época, a safra de 1973 apresentou-se diferenciada num dos tonéis de amadurecimento. Chamou tanto a atenção, que resolveram engarrafá-la com a descrição Cask 23. O vinhedo Fay foi adquirido posteriormente, embora seja uma parcela antiga de um  proprietário tradicional da região. Atualmente, o famoso Cask 23 é uma assemblage das melhores partidas provenientes destes dois belos vinhedos, bem ao estilo de elaboração dos melhores grandes Bordeaux.


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