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Vosne também tem seu lado masculino!

25 de Maio de 2019

Segundo Pepeu Gomes em sua canção: Masculino e Feminino, todos nós temos nosso lado oposto, aquele que contradiz o que somos realmente. Pois bem, os vinhos da Borgonha têm o glamour da delicadeza, da feminilidade, da sensualidade, sobretudo na comuna de Vosne-Romanée, berço dos mais espetaculares tintos borgonheses. Num agradável almoço no restaurante Gero, um desfile de grandes Borgonhas, mostrou com propriedade que o lado masculino desta comuna abençoada também existe, convivendo em harmonia com a feminilidade onipresente. 

uma viagem no tempo …

Essa história começa com a dupla de vinhos acima, mostrando muitos contrastes e uma viagem pelo tempo. O vinho da esquerda é um dos mais tradicionais monopólios da Borgonha, o clássico Clos des Mouches, localizado na Côte de Beaune. Embora a família Drouhin detenha boa parte da propriedade, a Maison Chanson tem uma parcela significativa de 4,5 hectares. Este exemplar degustado no estilo old school é da safra 1964 com todos seus terciários desenvolvidos, sobretudo toques terrosos, de cogumelos e de chá. Um tinto com uma masculinidade incrível, ora lembrando um Barolo ou Barbaresco, ora lembrando alguns tintos do sul do Rhône. Bem evoluído, mas ainda íntegro. 

O outro lado da moeda é o Volnay Premier Cru do Domaine Chassorney safra 2013. Além de bem mais jovem e uma vinificação mais moderna, Volnay expressa toda a feminilidade na Côte de Beaune. Um tinto de fruta muito limpa, toques florais e especiarias finas, tudo calcado num equilíbrio harmonioso. Portanto, os sexos dos anjos estão apresentados.

img_6128um abismo separa estes tintos

Neste primeiro embate, o maior contraste do almoço, quase um disparate, inclusive na opção sexual. Embora seja um Grand Cru de um mesmo produtor, as safras falam por si e mostram imensos contrastes. Os tintos de 83 são geralmente duros, austeros e masculinos. Além disso, esta garrafa 83 estava um pouco prejudicada com um vinho turvo e um tanto cansado. Mesmo que estivesse em sua melhor forma, não seria páreo para o vinho do almoço, sua majestade DRC Romanée-St-Vivant 1978. Um tinto lendário de Vosne-Romanée cheio de feminilidade e principalmente, jovialidade. Seus aromas de carne, rosas, alcaçuz, especiarias delicadas, permeavam a taça. Um equilíbrio fantástico em boca com final bastante expansivo, sem nunca perder a delicadeza. Um tinto de sonhos para ser colocado na prateleira dos grandes tintos de Vosne na história. O mestre Jayer já dizia sobre a safra 78: este foi o melhor Richebourg e o melhor vinho que fiz, outro tinto lendário. 

img_6130mais alguns contrastes …

DRC Grands-Echezeaux 1988 personifica em estilo e safra o lado masculino de Vosne-Romanée. Uma safra dura para um vinho austero deste belo Grand Cru. Só mesmo o tempo com seus trinta anos para domar esta fera. O vinho já está evoluído, taninos polimerizados, aromas terciários de adega úmida, além de um final arrebatador. Um tinto para quem tem paciência em adega, mas vale cada segundo de envelhecimento. Bravo!

Por outro lado, Madame Leroy fez milagre na pobre safra 1992 para tintos, pois os brancos são espetaculares. Apesar de ser um tinto do Domaine e não da Maison, falta a ele profundidade e maior riqueza aromática num nível Grand Cru. Mesmo assim, é um vinho extremamente feminino e com o toque elegante desta bruxa maravilhosa. 

img_6134um embate de gigantes!

Nesta briga de titãs, a hierarquia foi mantida. Embora o Richebourg 90 estivesse maravilhoso e muito mais pronto no momento, teve que ceder à suntuosidade do grandioso La Tache, um dos maiores vinhedos sobre a Terra, já dizia Hugh Johnson. Richebourg teve que ficar com o lado feminino com muita graciosidade e sedosidade em boca. Já o La Tache 90 tem um toque oriental de incenso maravilhoso, muito equilíbrio em boca, e uma persistência aromática bastante ampla. Deve ainda evoluir em adega e dar muito prazer por décadas. Um tinto marcante!

img_6135cinco anos faz diferença

Duas obras de arte pareadas em nota, 95 pontos cada um. É claro que o 95 não está pronto e acabou sendo o infanticídio do almoço, mas é muito bem elaborado e com futuro brilhante pela frente. Contudo, acho que não chega na grandiosidade do La Tache 90, um tinto que beira a perfeição. Aqui, os sexos se misturam e o que vale é o prazer. Aliás, falando de La Tache,  a safra 99 vai ser lendária como um dos melhores La Tache da história. Lembro-me até hoje do maravilhoso La Tache 62 degustado com muitas saudades …

alguns dos pratos do menu

A polenta com funghi e o tagliarini com molho de costela, fotos acima, foram um dos pratos que casaram bem com os vinhos, sobretudo os de certa evolução. A fidalguia do maître Ismael e toda a equipe do Gero sempre nos conforta. Adendo especial ao sommelier Felipe Ferragone com um serviço de sommellerie perfeito e rolhas intactas, foto logo mais abaixo. 

img_6140Terroir de duas comunas

Bonnes Mares é uma das poucas apelações na Borgonha que divide comunas contíguas. Uma boa parte está em Chambolle-Musigny, mas seu caráter parece ser de Morey-St-Denis. Dujac é um dos especialistas na apelação com os dois exemplares acima de safras muito pontuadas. Servidos às cegas, o 2005 parecia mais jovem, tanto na cor, como nos aromas e taninos mais presentes. Já o 2009, muito mais gracioso, feminino, e acessível no momento. Um flight aparentemente fácil, mas surpreendente, onde a maioria arriscando pela lógica, trocou as safras. Nosso presidente, homem forte da confraria sentenciou: o 2005 é mais austero, mais fechado, de evolução mais lenta em garrafa. Mais um acerto taxativo. 

o único branco e rolhas intactas

No final do almoço já com os queijos, surge um branco da Madame, Domaine d´Auvenay, sua reserva particular de produção limitadíssima. Auxey-Duresses é uma apelação sem grande expressão, frente aos badalados brancos de Beaune. No entanto, em se tratando de Auvenay, nada surpreende. Um lieu-Dit comunal, Les Boutonniers, nas mãos da bruxa, se transforma num verdadeiro Grand Cru. Com seus quase 20 anos, é um branco complexo com toques de evolução e equilíbrio perfeito. Expansivo em boca e de alta classe. Bate com folga muitos Grands Crus de Beaune. 

parceria harmoniosa

Passando a régua, um Yquem 98 para encerrar o almoço. 95 pontos com apogeu previsto para 2050. O vinho encontra-se naquela fase de transição, entre a juventude e maturidade. Doçura bem equilibrada com a acidez, textura macia e envolvente da Botrytis, e um final longo. Foi muito bem com o pudim de pistache da Casa com calda de caramelo.

Por fim, os agradecimentos aos confrades, companheiros de mesa e copo, que sempre nos proporcionam momentos de  descontração, alegria, e imensa generosidade. Que Bacco nos proteja nesta gostosa caminhada aos prazeres da vida!

Triunvirato em Vosne-Romanée

30 de Março de 2019

Quando falamos dos grandes vinhos da Borgonha, nomes como Montrachet, Chambertin, Musigny ou Vosne-Romanée soam como a sinfonia perfeita. Indo um pouco mais a fundo, dentro da comuna de Vosne-Romanée existem muitos astros, mas nada se compara à Santíssima Trindade formada por DRC, Leroy e Henri Jayer. Foram exatamente esses vinhos que nos fizeram sonhar num belo jantar no restaurante Gero.

 

Oenothèque: agora P2 ou P3

Alguma coisa fora do Triunvirato acima, só mesmo um Dom Perignon Oenothèque da maravilhosa safra 1996 para abrir os trabalhos. O degorgement foi feito em 2008, portanto, 12 anos sur lies. Champagne de grande frescor, mineralidade, leveza, parecendo um Blanc de Blancs, embora em sua composição entre pelo menos 40% de Pinot Noir. Acompanhou muito bem um delicado carpaccio de atum.

img_5885garrafa muito bem conservada

Passando aos brancos, começamos com um “intruso” muito bem-vindo, Domaine Etienne Sauzet Chevalier-Montrachet 1992. Safra de destaque para esta apelação, o vinho mostrou-se integro, sem sinais de decadência. Pelo contrário, aromas já evoluído, mas com frescor e muita elegância. Um toque de caramelo e de botrytis permeavam seus aromas.

img_5876embate de gigantes

Encarar um Montrachet DRC é tarefa para poucos, mesmo se tratando de outros Montrachets. Entretanto, estamos falando de Domaine d´Auvenay, uma reserva particular de Madame Leroy do que ela tem de melhor. A produção desses vinhos quando muito, chega a poucas centenas de garrafas. No caso deste Chevalier-Montrachet 2009, é um vinho com grande concentração de aromas e enorme presença em boca. Deixou o DRC até um pouco tímido, tratando-se de um vinho também de certa potência. Sua persistência aromática é bastante longa e expansiva. Para completar o mérito deste Chevalier, a garrafa do Montrachet DRC estava muito boa com uns aromas de umami, lembrando shitake fresco, toques minerais delicados e um fundo de mel. Bela comparação, mostrando a grandeza e a força do terroir nestas apelações tão exclusivas.

 

pratos do menu exclusivo

O carpaccio de atum com Dom Perignon e a sopa de lentilhas e bacalhau com o Montrachet foram harmonizações bem agradáveis. O champagne com seu frescor e mineralidade formou um belo par com os sabores de maresia e o toque cítrico do molho do carpaccio. Já a sopa de lentilhas com o bacalhau tinha intensidade e textura para acompanhar os Montrachets, sobretudo o DRC, calibrando bem a harmonia de sabores.

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A fidalguia do maître Ismael sempre nos confortando, e o serviço de vinhos eficiente do sommelier Felipe Ferragone, preservando todas as rolhas, faz do restaurante Gero um porto seguro.

 

acredite, é um Richebourg DRC

Os tintos começaram em alto nível com um Richebourg DRC 1961. O estado do rótulo, foto acima, é inversamente proporcional ao nível do vinho. Uma garrafa muito bem conservada e íntegra. O vinho tanto na cor, como na força de seus taninos não revelava a idade de quase 60 anos. Seus aromas terciários e de grande mineralidade revelavam sous-bois, toques terrosos, e frutas escuras. Equilíbrio perfeito em boca com longa persistência final. Acompanhou bem o risoto de ervas com guisado de cordeiro.

img_5881um dos vinhos mais raros e disputados

Com 94 pontos, este Richebourg do mestre Henri Jayer esbanjou elegância num estilo oposto ao DRC acima. Muito delicado, com aromas florais, especiarias, e um fundo mineral, o estilo Jayer prima pelas nuances e sutilezas. Um vinho para meditar num equilíbrio perfeito em boca. Já totalmente pronto, num belo platô de evolução. O mítico Richebourg 1978 é um dos tintos mais disputados em leiloes mundo afora. O próprio Henri Jayer declarou certa vez que o Richebourg 78 foi seu grande vinho de todas suas vinificações.

img_5880quase 200 pontos na mesa

Ponto alto do jantar, dois Cros-Parantoux de grandes safras. Para um Premier Cru, o vinho é de uma elegância que poucos Grands Crus possuem. O 93 é a safra mais bem pontuada, ainda com uma força extraordinária. O vinho não está totalmente pronto com taninos muito finos, mas ainda a resolver. Os toques terrosos e as especiarias são muito bem mesclados à fruta. Já o 85, é puro devaneio. Um tinto gracioso, cheio de feminilidade, boca sedosa, e um final harmonioso. Uma grande safra nas maões de um grande Mestre. Salve Henri Jayer!

img_5886o infanticídio da noite

No final do jantar, avaliamos duas promessas da safra 2004 para os DRCs. Um Romanée-St-Vivant delicado, floral, taninos suaves, já bem agradável pela idade. Por outro lado, um La Tache austero, com taninos ainda ferozes, precisando ser domado pelo tempo. Um estilo bem masculino que deve evoluir bem pelos próximos dez anos.

Enfim, uma noite memorável com belos vinhos e a boa conversa pra lá de animada. Agradecimento a todos os confrades pela generosidade e companhia. Um adendo especial ao nosso Presidente pela alta competência na análise dos vinhos, acertando às cegas de maneira categórica todos as ampolas do jantar. Sem nenhuma arrogância, ele nunca acha, sempre tem certeza, provando mais uma vez, que degustação técnica é treino e atenção aos detalhes. Contra fatos, não há argumentos. Parabéns Presidente!

Saúde a todos e que Bacco sempre nos proteja!

Leroy e DRC: a perfeição tem preço

8 de Fevereiro de 2019

Quando falamos da Borgonha em vinhos de alto nível, estamos falando de produtores pontuais, especialistas em suas respectivas comunas, as chamadas referências. Neste sentido, há grandes nomes com pontuações altíssimas na crítica especializada e uma consistência notável em várias safras. Contudo, há duas joias que se destacam dos demais. Domaine de La Romanée-Conti com seis Grands Crus irrepreensíveis e Madame Leroy, sobretudo seus vinhos de Domaine e os assombrosos Auvenay, seu Domaine particular.

Em grande jantar realizado no restaurante Fasano, uma série deles desfilaram para escoltar um menu com trufas negras. Para encorpar o time, alguns outros borgonhas fizeram companhia, além dos dois grandes Barolos da família Conterno: Monfortino e Aldo Conterno Granbussia.

img_5627quebra de hierarquia

Antes dos tintos, um trio de brancos aguçaram as papilas com alguns petiscos de entrada, ainda fora da mesa. A dupla acima mostra claramente que alguns produtores se destacam sobremaneira mesmo em terroirs hierarquicamente inferiores. Como comparar um Meursault com o todo poderoso Montrachet. Este 2010 de Louis Jadot tem 98 pontos e é um dos destaques da safra. Evidentemente um grande vinho, bem equilibrado, toques elegantes de barrica, mas não está no time de cima dos melhores Montrachets. Já o Meursault do Roulot é um vinho mágico. Este em particular é um Monopole chamado Clos des Bouchères 2012 com somente 1,37 hectare de vinhas. Um branco vibrante, um toque cítrico elegante, textura rica em boca sem ser pesado. Final persistente e harmonioso. Somente Coche-Dury para ombreá-lo. 

harmonização divina

Só mesmo o vinho acima para fazer esquecer Roulot. Este Domaine Leroy Corton-Charlemagne 2009 degustado várias vezes é um vinho a ser batido. Moldado pela Madame, tem uma textura rica e intensa. As pitangas, frutas secas, notas finamente tostadas sobressaem na taça. Desde sua entrada em boca com uma acidez refrescante, até sua persistência aromática intensa, é um branco sem defeitos. Tudo nele é rico e magnífico. Acompanhou divinamente o tartar de atum com foie gras (foto acima). 

img_5632longevidade para poucos

Começa a sequencia de tintos de forma arrasadora. Dois DRCs Romanée-St-Vivant antigos com dez anos separando as safras. O de safra 88 estava mais evoluído que seu par mais antigo, a começar pela cor. Este safra é classicamente um ano de taninos mais duros, difíceis de amadurecer plenamente. É um belo vinho, mas sem grandes emoções. Se estivesse sozinho, talvez tivesse brilhado mais. Deu azar pela comparação, pois o Romanée-St-Vivant 78 é um vinho mítico. Felizmente, degustado algumas vezes, é sempre grandioso. Seu aroma é um roseiral cheio de nuances e especiarias finas. A boca é um sonho com taninos de seda. Equilíbrio perfeito e um final de boca grandioso. Ainda encontra-se pleno em seu esplendor. Talvez seja um daqueles vinhos imortais. Segundo o próprio Henri Jayer, seu Richebourg 78  que vale uma pequena fortuna nos leilões, foi seu melhor vinho elaborado. Realmente, uma safra mítica!

img_5636Babette se renderia ao Richebourg

Neste embate de gigantes, surge o melhor Richebourg DRC que já provei, safra 90. Ele estava tão delicado que parecia feito pela Madame Leroy. Um vinho encantador com taninos delicados, aromas de carne, terroso, e especiarias doces. Consegue superar o La Tache 90, tarefa para poucos. Já o Clos Vougeot 90 da Madame, Babette não aprovaria. O vinho estava meio sem graça, sem o charme costumeiro deste Domaine. Pode até ser um problema de garrafa, mas estava meio blasé, embora sem defeitos.

Chambertin divino

A baixa da noite aconteceu neste flight acima. Domaine des Chezeaux elaborado pelo Domaine Ponsot estava turvo e com aromas bem estranhos, lembrando um daqueles Barolos rústicos. Pela densidade e concentração, parece ser um grande Chambertin, afinal tem 98 pontos. Contudo, certamente é um problema de garrafa. Fazendo um parêntese, Este Domaine des Chezeaux possui a maior área de vinhas do Grand Cru Griotte-Chambertin. Entretanto, ele delega a vinificação para o Domaine Ponsot com 0,89 hectare, e Domaine Rene Leclerc com 0,68 hectare. Um vinho a ser testado novamente.

Em compensação, Domaine Leroy Chambertin 1990 deu um banho de elegância. Dos Grands Crus do Domaine, só perder em exclusividade para o Musigny. Este Chambertin tem apenas meio hectare de vinhas. Não é o melhor dos Chambertin desta safra, mas a garrafa estava divina. Toda a delicadeza de aroma da Madame com notas de cerejas escuras, florais, madeira finamente tostada, e um fundo mineral sutil. É um vinho que prima mais pela elegância do que pela potência. Final equilibrado e super harmonioso. Um dos destaques da noite.

promessas de adega

Neste penúltimo flight, uma avaliação de longevidade. La Tache é sempre La Tache, um vinho charmoso, elegante, com seus toques orientais de incenso, especiarias finas, e notas terrosas. Embora não seja uma safra grandiosa, 2007 gera vinhos precoces e graciosos. Seu par Echezeaux do excelente Domaine Liger Belair respeitou a hierarquia, embora seja de uma safra brilhante, 2009. Muita fruta no nariz, aromas limpos e de grande pureza com notas florais e de alcaçuz. Em boca, seus taninos são finos, acidez equilibrada e ótima persistência aromática. Um vinho que merece adega por uns dez anos. No caso do La Tache, já está prazeroso, mas evolui com dignidade como é de se esperar de um vinho deste naipe.

img_5639Monfortino numa noite feliz!

No último flight, Barolos de outro planeta. Simplesmente, obras-primas da família Conterno. Aldo Conterno com seu Granbussia 2001 e Giacomo Conterno com o caríssimo Monfortino Riserva 1999. Este Monfortino estava tão elegante que parecia ter sido feito pelo Aldo. O vinho é possante com uma montanha de taninos super bem polidos. Foi o melhor Monfortino que já provei. Longo, persistente, e sem aquela costumeira nota de oxidação e extração excessiva que costuma ter neste mítico Barolo. Já o Granbussia não estava em grande forma, parecia um garrafa um pouco cansada. A próprio cor estava mais evoluída. No entanto, também um grande Barolo, mas sem o brilho costumeiro. As notas confirmam a superioridade do Monfortino com 98 pontos, contra 94 pontos do Granbussia.

trufas e La Mission

Para encerrar a orgia, um bordalês não podia faltar. E ele veio grandioso, La Mission Haut Brion 1998. Um Pessac-Léognan de peso, imponente, taninos densos e finos. Seus aromas de chocolate, couro, estrabaria, e toques de tabaco. Boca harmônica, grandiosa, e de longa persistência. Tem 98 pontos Parker e um dos destaques desta safra. O pessoal nesta altura do campeonato nem deu muita bola pra ele. Ainda bem que não fui na conversa deles. Coloquei o DRC Saint Vivant  1978 logo de cara. Esse eles vão lembrar para sempre.

Quanto ao Fasano, destaque para toda equipe, especialmente o maître Almir Paiva e o competente sommelier Fábio Lima, sempre muito preciso. Todos os pratos do menu com pratos trufados acompanharam bem os vinhos, executados com maestria pelo Chef Luca Gozzani. Destaques para os pratos fotografados pela ordem: ovo crocante com funghi porcini, costeletas de cordeiro com molho do próprio assado, e pastel com queijo taleggio. 

Agradecimentos a todos os confrades presentes numa noite muito animada. Os vinhos escolhidos sempre com imensa generosidade ratificaram um jantar inesquecível. Mais uma vez, muito honrado em ser sommelier deste grupo de craques que não tomam vinhos caros para exibição, e sim pelo profundo conhecimento do grupo. 2019 promete, sempre com a proteção de Bacco! Saúde a todos!

1945, o ano da Vitória!

19 de Janeiro de 2019

Só os vitoriosos nascem em 45, final da segunda guerra mundial, ano de criação da ONU, última safra do Romanée-Conti de parreiras pré-filoxeras com pouco mais de 600 garrafas elaboradas, além do maior dos Moutons elaborados até hoje.

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hoje é dia de maldade!

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Double Magnuns enfileiradas

Um dos confrades, nosso Professore, assim chamado carinhosamente, é um desses vitoriosos com uma carreira brilhante e muita história para contar e nos ensinar. Num almoço memorável, talvez na mais bela cobertura dos Jardins, desfilaram várias Double Magnuns de grandes Chateaux, inclusive uma 1945 em sua homenagem.     

Jamón de Bellota com Jacques Selosse

Começando a farra, uma seleção dos melhores Lieux-Dits de Jacques Selosse,  enólogo e proprietário que revolucionou a região de Champagne como produtor individual de destaque. Na cola dele, vieram outros tantos que fazem sucesso atualmente. Ele está para a excelência de produtor individual na região, assim como Gravner está para os vinhos laranjas. Resumindo, referência absoluta.

Jacques Selosse servidos:

  • Initial (champagne de entrada da Maison. Um Blanc de Blancs de muita pureza e frescor).
  • Lieu-Dit Les Carelles (um Blanc de Blancs de Mesnil sur Oger, o suprassumo da Côte de Blancs de extrema mineralidade).
  • Lieu-Dit Mareuil sur Aÿ (um Pinot Noir delicado e elegante).
  • Selosse V.O. (Version Originale, um blanc de Blancs de estilo oxidativo com safras mais antigas)

Tudo isso para entreter os convivas, acompanhando um Jamón cirurgicamente cortado in loco com a devida técnica espanhola. A peça tinha 60 meses de cura, tempo suficiente para sabores e aromas perfeitamente desenvolvidos. Um autêntico Pata Negra!

um dos Lieux-Dits

Já à mesa, seguiu-se um lauto almoço, numa sequência de pratos e vinhos muito bem arquitetada. Somente formatos Double Magnum de grandes safras e chateaux.

Doisy-Daëne 2001 – 95 pts com Foie Gras

A safra dispensa comentários, uma das históricas na região de Sauternes. Este produtor remete inexoravelmente ao professor Denis Dubourdieu, falecido recentemente, uma das maiores autoridades em vinhos bordaleses, sobretudo. A propriedade é da família. Com vinhedos localizados em Barsac, por questões de solo, elabora Sauternes delicados e de muita elegância. Um acompanhamento quase covarde com foie gras de entrada e bolo de pistache com creme ingles e ninho de caramelo na sobremesa. Não tinha como dar errado.

Montrachet Henri Boillot 2009 com Robalo, bottarga e champignos

Ele não é proprietário de vinhas nesta apelação, mas Henri Boillot faz um Montrachet elegante, de acordo com suas raízes em Puligny-Montrachet. Esta safra precoce e generosa mostra fruta exuberante e um trabalho notável com a barrica. Perfeita harmonia e equilíbrio. O robalo com bottarga e champignons complementou muito bem os sabores do vinho.

 Gruaud-Larose 1945 – 96 pts e trufas negras

Este chateau é um dos destaques na histórica safra de 1945 com vinhos memoráveis e altamente disputados em leilões mundo afora. O vinho estava um pouco cansado, mas sem nenhum defeito. Um nariz nobre de Bordeaux evoluído onde o tabaco, finos tostados e toques balsâmicos, se destacavam. Um tinto de 74 anos que mostra claramente tratar-se de uma safra excepcional e de um extrato fabuloso. Uma bela homenagem a nosso aniversariante e anfitrião. O tagliolini com trufas negras frescas só valorizou ainda mais o vinho. Ponto alto do almoço!

DRC Romanée-Saint-Vivant 1983 – coelho com risoto

Num almoço desses tinha que aparecer um DRC, preferencialmente pronto e evoluído. Este Romanée-Saint-Vivant 1983 cumpriu bem a missão. Taninos estruturados e resolvidos, boca macia, e os aromas de um grand Vosne-Romanée. Toques terrosos, de sous-bois, e de flores secas, permeavam a taça. Um demonstração de força e elegância muito bem balanceadas. Um saboroso coelho com risoto tinha a força exata para o vinho.

Chateau Ducru-Beaucaillou 1982 – 96 pts e Kobe Beef

Referência da comuna de Saint-Julien, Ducru-Beaucaillou prima pela elegância e altivez. Lembrado por Parker como Lafite de Saint-Julien, este 82 estava um espetáculo. Provalvemente pelo formato (double magnum), ainda tinha taninos a resolver. Uma estrutura de boca fantástica com taninos finos, acidez vibrante, e longa persistência final. Bem adegado, ainda vai longe e ratifica porque 1982 é uma das maiores safras do século XX. Um tenro Kobe Beef enalteceu a nobreza do vinho.          

Petrus 1976 – 92 pts em double magnum

Passando a régua, um Gran Finale com o maior de Pomerol, rei Petrus na mesa safra 1976. Mais do que uma safra notável, o segredo de tomar um bom Petrus é ele estar evoluído, maduro, sem a sisudez que lhe é peculiar. Algo terroso e de trufas, um lado mineral importante, e taninos bem delineados, formaram um belo conjunto deste mito bordalês. 

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Porto Croft Vintage 1960 – duas garrafas, duas histórias

Com uma bela seleção de queijos, um Vintage maduro se fez presente, Croft 1960. No alto de seus 58 anos, o Vintage se transforma em algo gracioso, perdendo aquele poder e potência da juventude. Seus aromas são mais etéreos, toques florais aparecem, e a boca incrivelmente sedosa. Aquela geleia de frutas da juventude muda para frutas em licor. Coisas que só a idade e o tempo são capazes de transformar. Vale a nota da diferença entre garrafas. Uma mais evoluída que a outra, mostrando que em vinhos antigos não existem garrafas iguais.

fecho de ouro

Para os mais insistentes, um Havana ao cair da tarde encerrando as conversas. Marc DRC 1991, uma Grappa de luxo, como diriam os italianos. O figurado H. Upmann Reserva, um tabaco envelhecido do excepcional terroir de Vuelta Abajo, Cuba, estava à altura da Eau-de-Vie.

Todas as bênçãos do mundo ao nosso aniversariante, anfitrião impecável, e daqueles amigos que a gente não esquece. Vida longa com muitas comemorações como esta. Em nome de todos os presentes, agradecimentos eternos. Viva 1945!

Vosne-Romanée e seus Mistérios

24 de Dezembro de 2018

Encerrando o ano, alguns tintos de Vosne-Romanée com a assinatura DRC. E para ficar tudo em casa, um Corton-Charlemagne Domaine Leroy abrindo os trabalhos. O vinho safra 2011 estava maravilhoso com frutas exóticas como caju, bem casadas com toques tostados e de frutas secas. A produção destes vinhos é irrisória. Este Corton possui uma área de vinhas antigas de apenas 0,4325 ha, ou seja, menos de meio hectare. Isso é exclusividade!

entradinhas com o branco

Para falarmos dos DRCs, vamos recordar os vinhedos no mapa abaixo. Se o mapa da Borgonha fosse um alvo, os Grands Crus abaixo seriam a mosca. Aqui existe a conjunção perfeita do terroir: as melhores altitudes, as melhores composições de solo, as melhores declividades do terreno, entre outros fatores imponderáveis. O centro gravitacional de todos eles é o mítico Romanée-Conti.

IMG_5460a mosca do alvo

Os vinhos da foto abaixo, início da degustação, são de vinhedos que ficam à direita do mapa acima na comuna de Flagey-Echezeaux, mostrados no mapa abaixo. Sutilezas do mosaico bourguignon. 

Os vinhos degustados beiram a perfeição com notas acima de 95 pontos na estupenda safra de 1990. O Echezeaux é sempre o mais amável dos Grands Crus do Domaine. Muita elegância, taninos dóceis, e os aromas de rosas e sous-bois. Já o Grands-Echezeaux, sempre mais sisudo, mais austero, com acidez alta, precisando de tempo em taça. Seu terroir bem mais restrito que Echezeaux em área, fica no limite superior das vinhas de Clos de Vougeot, em terras mais altas. O Domaine possui cerca de 40% de toda a apelação Grands-Echezeaux, ou seja, pouco mais de 3,5 hectares.

IMG_5449sutilezas de terroir

Embora os nomes sejam parecidos e os vinhedos contíguos, Echezeaux e Grands-Echezeaux apresentam grandes diferenças de terroir e estilos. Depois do Grand Cru Clos Vougeot, Echezeaux é o maior Grand Cru em área com pouco mais de 35 hectares, dividido em 11 parcelas e vários proprietários. 

IMG_5461as várias parcelas de Echezeaux

Os vinhos abaixo são do mesmo vinhedo e mesma safra, porém procedências diferentes. Embora não seja uma safra tão antiga, já se percebe claramente o quão importante é o histórico das garrafas e sua real legitimidade. Uma delas estava maravilhosa, só perdendo para o vinho do almoço, La Tache 85, que comentaremos a seguir. A outra garrafa foi decepcionante, sem mostrar complexidade e até um certo desequilíbrio. Enfim, o bom St Vivant com seus toques florais, terrosos, e de torrefação, encantaram os confrades.

IMG_5454duas garrafas, dois destinos

O Richebourg 90, foto abaixo, sempre se mostra um pouco misterioso, mas com uma estrutura fantástica de taninos. Um certo toque de couro, de carne, permeia seus aromas. Foi um belo parceiro para um dos pratos do almoço, o clássico Bollito Misto, especialidade de carnes cozidas de origem piemontesa, magistralmente executada pelo restaurante Gero. É só não abusar da mostarda de Cremona na harmonização.

bollito misto

A foto abaixo já diz tudo, um dos maiores vinhedos sobre a Terra. Servido às cegas, já nos aromas mostra que estamos diante de uma obra-prima. A complexidade, a delicadeza, a harmonia de seus aromas, faz deste La Tache na estupenda safra 85, um dos grandes borgonhas de todos os tempos. Boca harmoniosa, expansiva, super bem balanceada. Fica difícil tomar algo depois deste néctar. Acho que o 99 pode supera-lo com o devido tempo. Por hora, este 85 reina absoluto. 

IMG_5448a perfeição existe!

Após um vinho deste naipe, a sobremesa não podia cair de nível. Aliás, as sobremesas. Sim, porque existiam dois grandes vinhos para encerrar as conversas, fotos abaixo. O primeiro, o grande Yquem 1953, safra rara, homenageando um dos confrades. Os Yquems antigos sempre ganham um caramelo gostoso e algo de marron-glacê, perdendo um pouco a potência e ganhando complexidade. Foi muito bem com o pudim de pistache, compartilhando aromas e sabores. As texturas cremosas de ambos também casaram bem. Propositalmente, não houve calda no pudim, deixando a doçura e a untuosidade do vinho fazer este papel.

IMG_5457embate de gigantes!

O vinho da direita é um raro Trockenbereenauslese alemão de Rheinhessen com uvas quase extintas, Huxelrebe e Sieger. A primeira, Huxelrebe, é uma uva branca de alta acidez, propícia a este tipo de vinho. A segunda, Sieger, também conhecida como Siegerrebe é uma uva rosada, parente da Gewurztraminer, muito aromática. Restam poucos hectares na Alemanha com o cultivo destas duas uvas “old school”. 

O vinho totalmente evoluído, apresenta um cor quase negra, lembrando um Pedro Ximenez ou aqueles Tokaji Eszencia bastante antigo. No aroma lembra um pouco o Pedro Ximenez com intensos aromas de figada e bananada. Em boca, é bem menos untuoso, mas com altíssima acidez. Aí sim, lembrando um grande Tokaji. Enfim, um vinho raro, altamente equilibrado, e com persistência bastante expansiva em boca. Foi muito bem com um folhado de bananas do restaurante Gero, reverberando todos seus sabores maravilhosos.

sobremesas sincronizadas

Aproveitando o fim de tarde maravilhoso, uma pausa para os Puros, fechando as últimas conversas. Em cena, o Cohiba Maduro 5, um charuto de grande fortaleza, não indicado para iniciantes. Para refrescar e não propriamente harmonizar, um refrescante Fitzgerald, drink clássico à base de Gim com toques cítricos e leve amargor (angostura).

acompanhamento refrescante

Como último almoço do ano, não poderia ser melhor, tanto vinhos, como companhia. Agradecimentos a todos pela imensurável generosidade e espírito de companheirismo desta confraria, fechando com chave de ouro o ano de 2018. Que 2019 seja tão prazeroso e ainda mais desafiador. Saúde a todos e Boas Festas!

Vosne-Romanée e seus arredores

27 de Outubro de 2018

Em sua octingentésima edição (800 artigos), Vinho Sem Segredo precisava de uma matéria especial. E nada mais especial que falar dos vinhos de Vosne-Romanée, em particular da família DRC, Domaine de La Romanée-Conti. E lá vamos nós para mais um almoço daqueles. O pessoal estava animado e com sede.

img_5224Hospices de Beaune by Madame Leroy

O começo já foi arrasador, degustação solo de um Mazis-Chambertin da mítica safra 1985. Olha a cor deste vinho na foto. Cor de Borgonha saudavelmente envelhecida. Essa é a terceira vez que o provo, e vinhos antigos são sempre garrafas únicas. A primeira foi esplendorosa e essa não ficou atrás. Tudo que se espera de um fino Borgonha maduro em perfeita harmonia: sous-bois, especiarias, rosas, toques de carne, e outros perfumes. Lógico que Leroy tem um peso enorme na elaboração deste Hospices de Beaune num vinhedo minúsculo e de grande prestígio dentro de Chambertin.

img_5226faltou o Richebourg na foto 

img_52251cores divinas com La Tache à esquerda

Lamentavelmente faltou o Richebourg de mesma safra na foto acima, completamente bouchonné. Mesmo em rolhas tão especiais, o perigo sempre existe. Ano glorioso na Borgonha, esses dois 1996 estavam encantadores, guardadas as devidas diferenças entre si. Evidentemente, Echezeaux era o Grand Cru mais pronto como sempre. Taninos resolvidos, aromas abertos, e muita sensualidade. Já o grande La Tache, uma joia ainda em lapidação com uma estrutura tânica fantástica. Boca ampla, cheio de nuances, e uma persistência aromática daquelas. Deve evoluir seguramente por mais dez anos. Um dos grandes do almoço.

50 anos os separam

Como a comparação é cruel, este Vosne DRC da ótima safra 2009 ficou na rabeira. É um lindo vinho tomado sozinho, sem a presença dos astros maiores. Fruta bem colocada, belo equilíbrio e muita elegância. Ainda um pouco novo, mas extremamente prazeroso. Já o velhinho da direita servido às cegas, deu um trabalho e tanto. Embora com seus quase 60 anos, o vinho tinha uma presença de fruta desproporcional para sua idade, quase sem nenhum toque terciário. Não tinha o sous-bois esperado da Borgonha, nem os toques alcatroados de um Nebbiolo piemontês. Já na boca, taninos ainda poderosos que provavelmente vão morrer com o vinho. Este toque agradavelmente rústico faz dos vinhos de Pommard a menção “Barolos da Borgonha”. Uma bela lição para todos nós. 

uma pausa para as borbulhas!

No meio do almoço, um Chef convidado da Liguria devido a Settimana Cucina Italiana, estava na Osteria del Pettirosso, e fez este prato de peixe com legumes, foto acima. A entrada do Cristal 2006 foi providencial para a harmonização, quebrando de forma estratégica a sequência de tintos. Seria redundante falar que o champagne tem alta classe, grande equilíbrio, e persistência aromática notável. Realmente, os paladares foram revigorados para a continuação do almoço.

img_5231um dos mais longevos DRCs

A diferença de um Echezeaux para um Grands Echezeaux é sempre notável, sobretudo na família DRC. Grands Echezeaux é um vinho duro, fechado na juventude, clamando por anos em adega. Esses acima com mais de 30 ou 40 anos, respectivamente, alcançam esse apogeu, entregando muito prazer. Embora 76 não tenha sido um ano esplendoroso, esta garrafa estava divina, competindo seriamente com sua majestade La Tache 96, descrito acima. Um meio de boca bem preenchido e taninos condensados pelo tempo. Já o 86, teoricamente de safra mais nobre, decepcionou um pouco na comparação. Claramente, não tinha a mesma persistência de seu concorrente. De todo modo, um Grands Echezeaux devidamente envelhecido e bem construído. 

tinto com alcachofra!

Os pratos do restaurante Pettirosso foram muito bem executados, valendo a pena citar alguns. A alcachofra frita acima foi muito bem acompanhada pelo velho Pommard do almoço. Sua bela acidez e seu toque adocicado de fruta casou muito bem com os sabores e textura do prato.

risoto e lingua divinos!

O risoto de funghi porcini frescos estava irrepreensível, sobretudo acompanhado pelo La Tache 96 com seus toques terrosos. A lingua magistralmente bem executada tinha sabores e textura impecáveis, acompanhado divinamente o envelhecido Grands Echezeaux 76.

img_5237o infanticídio duplo do almoço

É difícil avaliar DRCs tão novos, ainda com seus primeiros aromas desabrochando. Ainda bem que nenhum deles tinha colocado pijama para dormir, o período de latência que a maioria dos grandes vinhos apresentam. O Romanée-Conti é um poesia com lindos toques florais e uma delicadeza sem fim. Tem muitos anos em adega para se tornar o esperado mito. Já o Romanée-St-Vivant é menos misterioso, mas do mesmo modo ainda muito novo para uma analise mais profunda. O que é extraordinário nestes grandes vinhos é seu equilíbrio harmonioso e uma estrutura incrível para envelhecer longos anos em adega.

Depois desta avalanche, só nos resta agradecer a companhia de todos e tanta generosidade. Que Bacco continue nos protegendo e nos inspirando por novos caminhos. Saúde a todos!

Vosne-Romanée brilha em Saint-Vivant

10 de Junho de 2018

Como em Vosne-Romanée não existem vinhos comuns, nada mau uma vertical de Romanée-Saint-Vivant (RSV) com vinhos dos prestigiadíssimos Domaine Leroy e Domaine de La Romanée-Conti. De quebra, um La Tâche 1990, um Petrus 1955 e um Vintage Port Graham 1966, para emoldurar ainda mais um brilhante almoço no restaurante Gero em São Paulo.

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vosne-romanee grand cruRomanée-St-Vivant: nobre vizinhança

Para começar os trabalhos, dois brancos de Beaune de safras e apelações diferentes, conforme foto abaixo. O da esquerda, um Meursault Perrières 2011 de Maison Leroy, não Domaine. Embora Meursault tenha vinhos de rica textura, nesta safra mostra-se um branco mais delgado, elegante, e mineral. Não é um vinho de grande persistência, mas muito bem construído, e com incrível frescor.

O da direita, estamos no terroir de Chassagne-Montrachet num Premier Cru de vinhedo único, La Romanée. Percebe-se os toques de madeira elegante e uma rica textura em boca.  A safra 2015 é poderosa, rica em aromas, e expansiva em boca. Nesta comuna, já temos os indícios dos grandes brancos Montrachet.

img_4740terroirs de texturas cremosas

Para começar a brincadeira, um trio do final dos anos 80 em safras de respeito: 88, 89 e 90, conforme foto abaixo. Nas duas pontas, Domaine Leroy e seu RSV com menos de três mil garrafas por safra. Ao centro, um RSV do DRC safra 89. O mais prazeroso, o mais pronto, com belos toques florais e de especiarias. Boca sedosa, um final longo e muito bem equilibrado. Já o 88 Leroy, ainda um tinto arredio, taninos presentes, e aromas um pouco fechado, embora com notas de manteiga de cacau deliciosas. É realmente um safra dura com muitas dúvidas se ela abrirá totalmente algum dia. Um vinho para ser decantado e altamente gastronômico.

Por fim, o Leroy RSV 1990. Um tinto majestoso, embora ainda não totalmente pronto. Portentosa estrutura tânica, mas de textura primorosa. Precisa de tempo na taça para se expressar, mas seus toques de especiarias, flores e de café, são notáveis. Mais alguns anos, e tudo estará em perfeita harmonia. O mais completo do trio. 

img_47431uma trinca de 30 anos

Seguindo a vertical, mais um trio, agora do meio dos anos 2000, todos DRC. O didatismo deste trio é de livro. A safra 2004 é uma safra de clima frio com alta acidez. Percebe-se claramente estes fatores neste tinto, embora com uma elegância e delicadeza ímpares. Já o 2007, uma safra mais quente, a maciez, a generosidade dos aromas, os taninos macios e resolvidos, o tornam um vinho envolvente. Muito prazeroso no momento. Por fim, o monumental RSV 2005 com uma riqueza e estrutura invejáveis. Um tinto ainda saindo da juventude, mas com um futuro brilhante. Seus ricos aromas de cerejas, florais, e de especiarias, o credenciam a uma complexidade terciária de grande distinção. Precisa de pelo menos mais dez anos para se tornar um dos grandes RSV da família DRC.

img_4748juventude de elegância

entre um gole e outro …

Entre as sequências de flights, alguns pratos fizeram sucesso com os vinhos. A massa da esquerda (paccheri, uma espécie de rigatoni mais largo), foto acima, com molho de vitela, e a galinha d´angola com molho de seu próprio assado, acompanharam bem os tintos envelhecidos de Vosne-Romanée.

Não exatamente na sequência, mas uma dupla a mais de Saint-Vivants DRC, foto abaixo. A pronta e acessível safra 2000 com seus toques de especiarias, chocolate e sous-bois. Talvez o mais pronto entre todos provados, já com seus 18 anos. Em compensação, RSV 1996 vai no estilo do 2005, robusto e cheio de vida. Embora com quase dez anos, dá para perceber claramente como é lenta a evolução em garrafa de um DRC. O 96 está um pouco mais aberto em relação ao 2005, mas ainda tem muito a evoluir. Seus toques terrosos, de tabaco, e finas especiarias, são muito harmoniosos.

Concluindo, os RSV Domaine Leroy 1990 e este DRC 1996 foram os melhores do almoço. Logicamente, o RSV 2005 é uma grande promessa!

img_4753potenciais diferentes de safras

A foto abaixo lembra bem duas grandes seleções de futebol como Brasil e Alemanha. Grandes títulos, passados gloriosos, e tradição de longa data. Contudo, em alguns embates na história, acontece um 7×1 da forma mais surpreendente possível. Foi o que aconteceu com este Petrus 1955 que estava perfeito. Não que o La Tâche 1990 não seja um grande vinho e com certeza, tomado isoladamente, arranque suspiros dos mais exigentes amantes do vinho. Mas o fato é que o Petrus fez 5×0 em vinte minutos. Não dava mais para alcançar, acabou o jogo. Que vinho fantástico! com seus aromas de adega úmida, cogumelos, trufas, chocolate, café, e vai por aí  afora. Mais um vinho de curriculum. 

img_4751aqui foi mais ou menos os 7×1, lembram?

O vinho de encerramento depois deste Petrus não poderia ser apenas ótimo. Tinha que ser algo impactante. Eis que chega à mesa um Vintage Port 1966 da tradicionalíssima Casa de Porto Graham, outra maravilha. Como é bom provar um Vintage em sua plenitude com todas as vicissitudes do tempo!

Sabe aquele Porto onde o álcool está totalmente integrado à massa vínica em perfeito equilíbrio!. Pois bem, este vinho tinha tudo isso com taninos totalmente polimerizados e em harmonia com seus outros componentes. Um licor de frutas negras sensacional, especiarias, toques de torrefação lembrando café, chocolate e notas balsâmicas. Acompanhou muito bem o bolo de aniversário com chocolate amargo de um querido confrade de humor peculiar. Vida longa a você meu amigo!

img_4739o auge de um Vintage Port!

Para esticar um pouco mais o papo, Panna Cotta de saída, cafés, e alguns Cohibas de estirpe, o belo Talismán Edición Limitada 2017 Ring 54. Um charuto super elegante do começo ao fim, mantendo como poucos, potência e elegância no mais alto nível.

Alguns Negronis para refrescar porque ninguém é de ferro!

O barquinho vai, a noitinha cai …

E assim mais um encontro memorável com amigos de generosidade extrema, alto astral, desfrutando os prazeres da mesa e vinhos que nos fazem pensar. Agradecimentos a nosso grande Maestro que sempre turbina nossos encontros. Saúde a todos e que Bacco nos proteja!

Hits da Borgonha

16 de Abril de 2018

Vez por outra, é bom dar um passeio pela Borgonha buscando comunas distintas em épocas onde o glamour do vinho tinha um sentido mais romântico e filosófico do que os atuais dias onde o marketing e a especulação imperam num dos terroirs mais fascinantes da França. Foi com esses propósito, que um grupo de amigos reuniu-se na Trattoria Fasano num belo almoço outonal. 

Old School

Diferentemente de champagne ou vinho branco, iniciamos os trabalhos com um aperitivo distinto, um Charmes-Chambertin 1964 da velha guarda da Borgonha. Notem no rótulo abaixo, que não há menção Grand Cru. Nesta época, Charmes-Chambertin como Lieu-Dit (território consagrado) era mais relevante para os conhecedores. É um vinho muito mais de alma que de corpo. Seus aromas etéreos com notas de chá, manteiga de cacau e sous-bois, além das sutilezas em boca, nos leva a outros tempos …

IMG_4478.jpgsafra 1964: sabor nostálgico

Descendo mais um pouquinho no tempo, chegamos a mítica safra de 1959, minha safra também, para nos deliciarmos com toda a energia deste Pommard Village sem identificação do vinhedo. Aparentemente sem pedigree, o vinho é de uma força extraordinária, justificando sua fama de Barolo da Borgonha. Com seus quase 60 anos, tem sua rusticidade domada pelo tempo com aromas terciários fantásticos. Sem sinais de declínio. 

1959, uma das safras históricas

Deixando de lado a nostalgia, vamos para 1997 na comuna de Volnay, sabidamente de tintos delicados, exceto por este produtor, Domaine Marquis d´Angerville. Sobretudo em seu grande tinto, o monopole Clos des Ducs do século XVI de pouco mais de dois hectares, mostra extrema virilidade, taninos bastante firmes, aromas recatados, dando indícios de sua longa guarda. Este provado da safra 1997, mostra-se ainda muito jovem, necessitando de decantação. Seus aromas um tanto tímidos mostra um lado sanguíneo, notas de alcatrão, e frutas escuras. Sua incrível acidez e estrutura tânica o permitirão vencer décadas de lenta polimerização, liberando seu bouquet.

IMG_4482.jpgum tinto para envelhecer

O outro grande nome da comuna de Volnay é Domaine Lafarge, de estilo mais feminino e elegante, mas igualmente complexo e sedutor. Seu monopole Clos des Chenes 1999 provado há anos, ainda está na memória …

DRC Romanée-St-Vivant em dois tempos

Entrando no terroir sagrado de Vosne-Romanée, um dos meus DRCs preferidos, Romanée-St-Vivant. É sempre um vinho vibrante, gracioso, sem muita timidez. A safra 1995 da foto abaixo, mostra já um vinho delicioso em sua maioridade, mas com muita vida pela frente. Taninos firmes e polidos, aromas de cerejas negras, especiarias, toques balsâmicos, e uma boca harmoniosa. Aqui não há vinhos comuns …

diferentes momentos de evolução

Agora para tudo, sua majestade Romanée-St-Vivant DRC 1978 entra em cena. Um dos cinco melhores Borgonhas que já provei numa safra mítica da região. Esta garrafa estava incrivelmente jovem comparada a outras degustadas. Um vinho praticamente imortal, com uma energia e vivacidade ímpares. Suas notas de cerejas negras, rosas, especiarias delicadas, toques balsâmicos, são de um riqueza e harmonia absolutas. Impossível não ser seduzido por todo este encantamento. Aquela garrafa da ilha deserta …

IMG_4487.jpgum bebê engatinhando

Ainda em Vosne-Romanée, um pequeno infanticídio com a criança acima, um Echezeaux Liger-Belair da ótima safra 2015. Um vinho elegante, muito bem equilibrado e com ótima riqueza de fruta. Vide, foto acima.

flagey echezeaux

uma comuna que se confunde com Vosne-Romanée

O mapa acima tenta ilustrar a complexidade deste terroir chamado Echezeaux com área em torno de 37 hectares. É um pouco menor do que Clos de Vougeot, Grand Cru com 50 hectares de vinhas. Nos dois casos, cerca de 80 produtores disputam espaço e imprimem por conseguinte seu estilo de vinho. Portanto, uma comuna com vinhos bastante heterogêneos. 

A rigor, os Grands Crus Echezeaux e Grands-Echezeaux pertencem à comuna de Flagey-Echezeaux conforme mapa acima, e frequentemente confundida e englobada na badalada comuna de Vosne-Romanée. Em termos de terroir, existem 11 diferentes Climats em torno de Grands-Echezeaux formando o mosaico chamado Echezeaux. Em linhas gerais, os climats adjacentes a Grands-Echezeaux de solo mais argiloso, mostram vinhos mais robustos e concentrados. Não é por acaso, que as vinhas DRC para esta apelação estão concentradas nesta porção de terreno, sobretudo no climat Les Poulaillères. Já Liger-Belair, objeto de nosso tinto degustado, possui vinhas nos climats Les Crouts e Les Champs Traversins, de solo mais arenoso e menos argiloso. Isso proporciona vinhos mais leves e elegantes. Seu grande diferencial, são vinhas muito antigas, em torno de 65 anos. Daí se explica a delicadeza de seus vinhos.

IMG_4484.jpgfettuccini com cogumelos e molho rôti

Um dos pratos de grande sucesso do almoço na Trattoria Fasano foi o Fettuccini com cogumelos e molho rôti. A textura da massa estava perfeita para a densidade dos borgonhas, além dos aromas e sabores do prato instigarem o aspecto de evolução desses vinhos baseados em sous-bois e algo terroso.

IMG_4490.jpgum vinho enigmático

Por fim, um dos tintos mais enigmáticos da Côte de Nuits, Clos de Tart, monopole histórico da comuna de Morey-St-Denis. Seu rótulo sóbrio traz o peso de sua história e tradição. Um vinho sempre muito difícil de se mostrar, pedindo tempo ao tempo, mas de uma riqueza impressionante, incitando o degustador a tentar revelar seus segredos. O vinho é muito equilibrado, muito estruturado em todos seus componentes, mas ainda a ser lapidado. Esse seu mistério e relutância em não se revelar por completo me remete de alguma forma ao mítico Romanée-Conti. Sempre um privilégio prova-lo. 

bolivarianos em ação

Finalizando a conversa, nada como uma sessão espiritual, Puros e Cognacs. A seleção ficou a cargo da Casa Bolivar, uma das mais tradicionais marcas cubanas conhecida por sua destacada fortaleza em aromas e sabores. No caso, um duplo figurado lembrando um concorrente à altura, Partagas Salomones. Além disso, uma bitola exclusiva de nome Geniales com ring 54 de ótimo fluxo completou o deleite.

IMG_4493.jpgencontro espiritual

Essa garrafinha dentilhada de  Baccarat quando entra em cena, não há espaço para a concorrência. Cognac Louis XIII, a excelência desta apelação francesa, primando pelo extremo cuidado na seleção e envelhecimento dos melhores cognacs da Maison Remy Martin. Personalidade, força, em perfeita harmonia com a elegância e delicadeza de um verdadeiro néctar.

O que mais dizer, senão agradecer aos amigos pela companhia, bom papo, e alto astral. Que Bacco nos proteja em busca de novas orgias. Abraço a todos!

 

 

O inesquecível verão de 42

25 de Novembro de 2017

Quem não lembra do filme Summer of ´42 onde a bela atriz Jennifer O´Neill casada na história, encanta um adolescente em suas férias de verão. Pois bem, neste ano estava nascendo um dos maiores La Tâche da história com as últimas parreiras pré-filoxera. A descrição dos vinhos deste ano no livro do Romanée-Conti é a seguinte: “um peu plus foncé”, ou seja, uma cor um pouco mais escura. É exatamente na cor que o mito começou a se revelar. Num dos últimos encontros dos ano, porque o último só Deus sabe, os confrades estavam eufóricos por trazerem e beberem preciosidades. Não podia ser só um belo vinho, tinha que ser algo marcante. Cada qual se vangloriando de sua garrafa, quando nosso super Mário num golpe de mestre, saca duas garrafas e coloca na mesa: La Tâche 1942 e Romanée-Conti 1977. Em seguida, “despretensiosamente” sugere: vamos começar por essas duas para fazer um treino. Quando os vinhos foram servidos, imediatamente lembrei do primeiro tempo na Copa de 2014. Com 25 minutos, Alemanha 5, Brasil 0. Acabou o almoço!. Para não falar de coisas tristes onde em 1942 aconteceram ataques terríveis na Segunda Guerra Mundial,  essas duas garrafas caíram como mísseis teleguiados, não deixando pedra sobre pedra. Lembrou também aquelas lutas do pugilista Mike Tyson, onde o pessoal ainda procurando se acomodar no ginásio, e a luta já acabou. Foi impressionante!

taça de esquerda, 35 anos mais jovem. Inacreditável!

Vamos então falar do La Tache 1942. Felizmente, já tive a sorte de provar alguns vinhos imortais como Margaux 1900, por exemplo. Neste La Tâche temos a mesma sensação. Como pode um delicado Borgonha de 75 anos estar íntegro deste jeito?. Só mesmo a imortalidade explica. A cor é maravilhosa, sem indícios de envelhecimento. O nariz de adega úmida, sous-bois, carne, e incrível mineralidade. Boca perfeita, maravilhosamente frutado, acidez e álcool perfeitos, e taninos de seda. No fundo, todo o La Tâche deseja chegar neste estágio. Mais uma vez, a recorrente frase de Hugh Johnson: “um dos maiores vinhedos sobre a Terra”.

gero romanee conti 77 e st vivant 93

1977 – 1993, o tempo revela segredos …

Com tudo isso, não pensem que o Romanée-Conti 1977 ficou para trás. Ao contrário, deu um show de aromas e delicadeza. Sua cor, muito mais evoluída que seu companheiro La Tâche, embora 35 anos mais jovem. Sabe aquela mãe que parece que é irmã da filha, pois é, o exemplo traduz bem a cena. Quem por inúmeras razões, não pode esperar um Romanée-Conti evoluir pelo menos 30 anos, não tem ideia do que este vinho é capaz. Mesmo numa safra delicada como 77, o bouquet de rosas que emana desta garrafa é algo divino. Sua delicadeza em boca tem outra dimensão. Mas repito, é preciso esperar. Pois quando novo, se esconde no casulo, e não vira borboleta de jeito nenhum.

Graças a Deus que neste início fulminante, ainda não tinha comida na mesa. E nem precisava, esses vinhos bastam por si só. Bom, agora vamos virar a chave e descer ao mundo terreno com um desfile de vinhos geniais.

gero montrachet 85 e 2011

o berço espiritual da Chadonnay, Montrachet.

De início, dois Montrachets DRC. Uma magnum 1985 divinamente oxidada com notas de cogumelos e Jerez. Possivelmente com histórico duvidoso, deve ter sido muito judiado em sua conservação. Já o DRC 2011, um bebê ninando no berço. Precisa ser decantando por pelo menos uma hora neste estágio de vida. Um vinho duro, fechado, não querendo acordar. Após um bom tempo de aeração em taça, aromas divinos de pâtisserie.    

Voltando aos tintos DRC, temos o Romanée-St-Vivant 1993 em foto acima. 93 não foi um grande RSV para o Domaine, embora Madame Leroy tenha foi um St Vivant quase perfeito. É um vinho ainda um pouco fechado, num momento de transição onde os aromas terciários estão se formando. Devidamente decantado, já é um vinho prazeroso com a vibração de um autêntico St Vivant.

gero clos vougeot 02 e la romanee 00   

diferenças marcantes!

Aqui existe claramente uma superioridade de safra e produtor. 2002 é uma das grandes safras para tintos de guarda e Domaine Leroy dispensa comentários. Numa apelação tão polêmica e tão heterogênea em termos de qualidade, Clos de Vougeot Domaine Leroy seria escolhido com louvor para o filme Festa de Babette. Neste ano, alcançou 96 pontos e é realmente deslumbrante. Com muita vida pela frente, seus taninos são ultra polidos, uma delicadeza de aromas e sabores num equilíbrio perfeito.  Longe de seu auge, será um dos grandes na história do Domaine. Já o La Romanée 2000, um vinhedo de pouco menos de um hectare, cumpriu seu papel sem grandes emoções. Evidentemente, a comparação é sempre cruel, mas faltou um pouco de meio de boca, e a devida persistência aromática que se espera para um Grand Cru da Borgonha.

gero clos vougeot 02 leroy

isso é exclusividade!

Nem só de Romanée-Conti vive o homem, Madame Leroy também tem seus segredos. O contrarrótulo acima, mostra a exclusividade e todo o esmero de uma cultura biodinâmica e uma vinificação impecável.    

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a realidade e a promessa

Recentemente, comentei sobre o estupendo La Tâche 1999, um dos maiores da história. Ainda é uma promessa, pois tem muito para evoluir ao longo dos anos, mas já é delicioso. Tudo o que ele quer, é chegar aos 75 anos com o esplendor do 1942. Tarefa difícil e para poucos, que só os realmente grandes conseguem. A previsão de seu auge é para 2060. Tem tudo para isso, se formou em Harvard, fala cinco línguas, tem espírito de liderança, e tudo mais. Contudo, treino é treino, jogo é jogo. O tempo dirá …

gero ravioli de cordeiro

ravioli de cordeiro

Um dos pratos do almoço, foto acima, do excelente Gero do grupo Fasano, sob a batuta do insuperável maître Ismael. Prato de sabores e textura perfeitos para os vinhos acima apresentados. 

Temos ainda um desfile de bordaleses: Mouton, Petrus, Montrose, entre outros. Vamos fazer uma pausa para troca de cenário. Próximo artigo, em breve!

 

Trufas, Barbarescos e Bourgognes

7 de Novembro de 2017

Dando prosseguimento ao sacrifício do artigo anterior, vamos continuar falando das trufas de Alba e vinhos envelhecidos. Agora, a sutileza, a delicadeza, a elegância, são imperativas. Continuando na Itália, vamos a dois Barbarescos de sonho do mestre Angelo Gaja e seus três vinhedos irrepreensíveis. Desta feita, Sori Tildin 1981 e Costa Russi 1990.

carlos gaja sori tildin costa russi

a suprema elegância da Nebbiolo

Nem precisa falar que Costa Russi 1990 tem notas altíssimas (98 pontos Parker) e trata-se de um vinho praticamente perfeito. De fato, a denominação Barbaresco é o lado mais feminino do todo poderoso Barolo. Essas denominações são separadas por pouco quilômetros e por diferenças de altitude. Os Barbarescos costuma ser mais delicados e atinge seu apogeu mais cedo, embora sem pressa. Mesmo esse da safra de 1990 ainda pode ser guardado por mais algum tempo. Pleno de aromas e sabores, seus taninos são finíssimos, além de longa persistência em boca. Um francês diria: esse vinho é tão bom que nem parece italiano. Já o Sori Tildin 1981, totalmente pronto e extremamente prazeroso. Não tem o extrato da mítica safra de 90, mas esbanja delicadeza e elegância. Seus sutis aromas se entrelaçam ao perfume da trufa. Grande harmonização!

carlos granbussia 90

A Borgonha pulsa no Piemonte

Ué! voltamos aos Barolos!. Que nada, se existe um caminho no Piemonte, mais especificamente na terra do Barolo, que leve à Borgonha, Aldo Conterno conhece esta estrada. A sutileza, a profundidade, a finesse, que este produtor consegue transmitir a seus vinhos é algo impressionante, sobretudo em seu astro maior, o Granbussia, especialmente na safra de 1990, só superada por 89. Esta é a razão deste único Barolo estar no artigo sobre os Bourgognes e os melhores Barbarescos de Gaja.

carlos ovos e trufas

ovos e trufas: clássico dos clássicos

Gnocchi recheado de vitela

Voltando ao assunto harmonização, a maioria dos pratos envolvendo ovos e massas com trufas brancas, apresentam texturas delicadas, sem necessidade de vinhos muito encorpados. Ao Contrário, a elegância e aromas terciários são fundamentais neste casamento. Os brancos envelhecidos, sobretudo os borgonhas, vão muito bem neste caso, embora nosso assunto  hoje seja tintos. De todo modo, parece que os Barbarescos envelhecidos são imbatíveis em termos de textura e além disso, apresentam aquela rusticidade elegante, própria da Itália. Os borgonhas tintos são fabulosos, mas pessoalmente para ovos, sua extrema elegância fica um pouco deslocada. Nos pratos de massas, eles se saem melhor. E sem perder o fio da meada, olha a turminha abaixo.

carlos romanee st vivant e bonnes mares

passaporte para o céu

Este foi o ponto alto do almoço, a sublimação de aromas, sabores e texturas. A Borgonha no mais alto nível. Esses vinhos são poesia pura. Começando pelo Bonnes Mares, é um dos Grands Crus mais reputados da Côte de Nuits fora do território sagrado de Vosne-Romanée. Mesmo numa safra pouco badalada como 1952,  este vinho só pelo fato de estar totalmente integro nesta idade, já é uma vitória. Contudo, ele é muito mais que íntegro, ele é divino. Taninos totalmente integrados ao conjunto com uma acidez perfeita, revigorante. Seus aromas terrosos, de sous-bois, de adega úmida, são maravilhosos. De uma delicadeza ímpar.

E quando você pensa que a perfeição foi atingida, ao lado dele, eis um Romanée-Saint-Vivant de devaneio, o mítico DRC 1978, safra gloriosa. Graças a Deus que já pude prova-lo mais de uma vez, e vou continuar rezando para prova-lo quantas vezes mais for possível. Esse vinho não é desse planeta. Se eu tiver que colocar nos dedos de uma mão os melhores borgonhas tintos de minha vida, certamente esse é um deles, se não for o primeiro. Não vou descreve-lo porque isso chega a ser uma heresia, mas o bouquet de rosas que sai dessa garrafa não tem em nenhum jardim do mundo. Fenomenal!   

carlos aldo conterno 71

Musigny, outro Grand Cru excepcional!

Essa foto vocês já viram no artigo anterior, mas lave a pena ver de novo. Os franceses que entendem realmente de Borgonha dizem que um grande Musigny tem o efeito de uma cauda de pavão na boca, abrindo um leque de sabores. Realmente, eles tem toda razão. Novamente, uma safra pouco badalada de 1969. Lá se vão quase 50 anos, e o vinho está maravilhoso, sem nenhum sinal de decadência. Não é um vinho para veganos, pois os aromas de carne fresca que explodem na taça são impressionantes. Além disso, frutas silvestres delicadas, florais e muitas especiarias. Como esse pessoal da Velha Guarda da Borgonha sabia fazer vinho. É arrasador e absolutamente divino.  

carlos malvazia 1875

a imortalidade é palatável

Já que estamos no céu, vamos encerrar o assunto com um Madeira do século XIX. Um Malvazia 1875, grafia antiga com z, escrito em tinta branca. Este é o famoso Madeira Frasqueira, o mais reputado e longevo de toda a ilha. Deve passar pelo menos 20 anos em cascos pelo método de Canteiro, onde as variações de temperatura e estações do ano são naturais. Sem pressa, é engarrafado para viver na eternidade. Um vinho imortal, um verdadeiro néctar, terrivelmente persistente em boca. Nada mais a dizer …


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