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Mouton Rothschild: do inferno ao céu

8 de Junho de 2019

Quando falamos de um dos cinco Premier Grand Cru Classé da classificação bordalesa de 1855, pensamos sempre na perfeição e em vinhos inesquecíveis. Porém, nem tudo são flores. O famoso Mouton Rothschild 1965 ficou marcado na história de Robert Parker como o pior Mouton já degustado. À época, ele concedeu a nota mínima de 50 pontos, execrando o vinho em comentários horripilantes. Neste contexto, resolvemos fazer uma pequena vertical de Mouton incluindo alguns velhinhos, entre eles o 65, mas também algo de maravilhoso como os Moutons 59 e 61, para não ficar uma má impressão do Chateau que realmente em algumas safras é espetacular.

mineralidade com sabores puros do mar

Para iniciar os trabalhos, a primeira baixa do almoço. Um Montrachet do produtor Ramonet 1995 oxidado, descendo a ladeira. Uma pena, pois em plena forma seria maravilhoso. Para recompensar e dar o troco à altura, um Krug Clos du Mesnil 2000 com 95 pontos despertou as papilas para sabores elegantes e estimulantes. Embora já com seus quase vinte anos, um champagne cheio de vida, mousse vivaz, equilíbrio perfeito, e aqueles toques cítricos com notas de gengibre. Final limpo, seco, mineral, quase cortante. Um espetáculo. Como diz a família Krug, é fácil me agradar, basta servir o melhor. Acompanhou muito bem alguns crudos de mare do restaurante Nino Cucina. Ver fotos acima, vieiras e atum.

img_6164os anos 60 nada dourados …

Neste primeiro flight, outra baixa de cara. O Mouton 64 nem foi para a mesa, tal o grau de oxidação do vinho. A grata surpresa foi o Mouton 62 em plena forma. Realmente, sua cor era mais intensa e com vivacidade surpreendente. Ele não tem a densidade das grandes safras, mas é equilibrado, elegante, e muito agradável no momento. Já o Mouton 63 num patamar inferior. Não estava comprometido, mas percebe-se a falta de extrato do vinho numa safra sem grandes emoções. Mais curto e bem menos rico que seu antecessor. Finalmente, o terror de Parker, Mouton 65. O bicho não é tão feio quanto parece, mas realmente nada animador. Seus aromas já evoluídos, não comprometem, mas a boca decepciona a cada instante que passa. É um vinho curto, sem fruta, deixando a boca seca. Seus poucos taninos são de péssima qualidade para a categoria do vinho, deixando um herbáceo desagradável no final de boca. Coitado do Parker …

belos pratos do Nino Cucina

Na foto acima, alguns pratos do Chef Rodolfo de Santis do Nino Cucina, sempre lotado. À esquerda, um tagliolini com molho de calabresa, massa fresca al dente. À direita, uma polenta taragna com vitela ao molho. Pratos muito bem executados, além da clássica sobremesa da Casa, torta della nonna com gianduia, última foto do artigo.

img_6166quase 200 pontos na mesa

Era para ser uma trinca, mas o Mouton 60 nem saiu na foto. Outra baixa lamentável. Um aroma forte de acetona com níveis de acidez volátil altíssimos. Finalmente, depois de alguns instantes no inferno e purgatório, eis que vamos para o céu. A dupla acima da foto, esta é bem afinada. O que impressiona de cara nos dois vinhos é a juventude desses senhores sexagenários sem nenhum sinal de decadência. O Mouton 61 neste embate parece estar um pouco mais pronto. Seus aromas são mais desenvolvidos, taninos finíssimos e de boa polimerização, além de um final harmônico e persistente. Por fim, o Mouton 59 com 100 pontos Parker, e um dos grandes da história. É só dar um pequeno zoom no Mouton 61 para chegar a ele. Tem uma cor mais marcante, seus aromas são um pouco mais fechados, e sua estrutura tânica é mais potente. Tanto o 61 como o 59 devem ser decantados por pelo menos uma hora antes do serviço. Dois tintos que realmente dignificam o prestígio deste grande Chateau.

img_6168dois grandes Sauternes

Podia ser uma parada realtivamente fácil para o grande Yquem, mas era outro vinho um pouco prejudicado. Embora da safra 99, sua cor estava evoluída demais para a idade e tinha um pontinha de acidez volátil acima do aceitável. Já o Rieussec 2005, em plena forma. Aromas intensos de pâtisserie, mel, flores. Boa untuosidade, bom frescor, e doçura agradável. Persistente e muito harmônico. Garrafa em excelente estado.

Tokaji Aszu acima de seis puttonyos

Passando a régua e adoçando um pouco mais o almoço, um Tokaji raro de 1993 com uma bela carga de puttonyos, medida em peso húngara para definir o grau de botrytis nos vinhos Tokaji doces. O Aszu Eszencia é um nível acima de 6 puttonyos que não é mais produzido, estando atualmente fora da legislação. Um estilo diferente do Sauternes, onde temos menos untuosidade e mais acidez dada pela uva Furmint. Muito equilibrado e revigorante. Seus aromas de favo de mel e rapadura eram marcantes e intensos.

É sempre bom frisar a diferença entre Aszu Eszencia e Eszencia. O primeiro, já explicado acima, é bastante intenso, mas com nível de doçura abaixo do raro Eszencia que normalmente fica entre 2 e 3 graus de álcool somente. Sua doçura que pode chegar a 600 gramas de açúcar por litro é compensada por uma surreal acidez acima de 15 gramas por litro. Um néctar para ser sorvido calmamente.

Agradecimentos a todos os confrades pela excelente companhia e generosidade, especialmente a nosso Presidente e seu assessor direto que hoje estava impossível. Matou todos os vinhos, sem delongas e sem comparações com outras amostras. Preciso estudar mais para acompanhar este pessoal. Que Bacco sempre nos acompanhe, seja no céu ou no inferno …

Bordeaux: Parte V

24 de Fevereiro de 2010

 

Sauternes/Barsac e apelações satélites

Os vinhos doces de Sauternes não deixam espaço para outros exemplares de regiões vizinhas, mesmo a notória região contígua de Barsac. Encabeçados pelo grande Yquem, châteaux como Rieussec, Guiraud, Suduiraut e Fargues reforçam este imperialismo.

Os vinhos são baseados na supremacia das uvas Sémillon, que podem chegar a 80% ou mais na composição do corte, complementadas pela Sauvignon Blanc, além de eventualmente, uma pitada de Muscadelle. A magia destes vinhos  deve-se à atuação precisa do fungo chamado Botrytis Cinerea, o qual submetido a períodos de alternância entre neblina matinal  e ensolação, provoca nos grãos de uva (particularmente a Sémillon, que é muito suscetível a seu ataque)  perdas de água significativas, concentrando níveis de açúcar importantes. Para completar o processo, a luta entre as uvas e o fungo gera teores de acidez incríveis, proporcinando aromas e sabores diferenciados, além da característica untuosidade, advinda da produção extra de glicerina. São vinhos macios, complexos e untuosos, sem perder um equilíbrio invejável.

Um dos segredos destes vinhos são as várias passagens no vinhedo em busca de colheitas seletivas, já que a botrytização não ocorre de maneira uniforme. Daí a explicação de sucesso do Yquem e outros grandes châteaux que só trabalham com uvas plenamente botrytizadas. Já os Sauternes baratos são meras caricaturas da apelação, misturando uvas majoritariamente não atacadas com uma parcela reduzida atacada às vezes parcialmente pelo famoso fungo.

Vale a pena aqui fazer justiça à comuna de Barsac que erroneamente parece transmitir uma certa submissão à apelação Sauternes. Na verdade, essas apelações são altamente e igualmente reputadas, diferenciando-se em estilo de vinho. Sauternes que geologicamente apresenta um solo pedregoso de natureza calcária com presença de argila, gera vinhos mais potentes e untuosos. Já Barsac, com solos mais arenosos e avermelhados (presença de ferro) e forte presença de calcário (tanto em rocha, como em pedras denominadas calhaus), gera vinhos mais sutis e elegantes, sem toda a untuosidade do seu rival.

Nesta comuna de Barsac, principalmente o Château Climens tem papel destacado, seguido de perto pelo ótimo Château Coutet. Outro menção que se faz necessária é o Château Doisy-Daëne, elaborado pelo craque Denis Dubourdieu, um dos maiores especialistas em vinhos brancos de Bordeaux.

Os châteaux até então mencionados de Sauternes e Barsac já eram famosos no século XVIII. Portanto, foram incluídos também na classificação de 1855, juntamente com os tintos do Médoc. A lista completa com 27 châteaux de Sauternes e Barsac está à disposição no site www.bordeaux.com.

Existe um Sauternes não classificado que deve ser mencionado entre os grandes. Trata-se do Château Gilette da comuna de Preignac. É um vinho de alto nível que passa mais de 15 anos na adega do próprio château em tanques de cimento, sem nenhum contato com madeira. Chega pronto ao mercado com todos os atributos que um Sauternes evoluído deve possuir.

Outro injustamente não classificado e já mencionado acima é o Château de Fargues (curiosamente da mesma família Lur-Salices, proprietária do Yquem).

Apelações Satélites

Voltando ao nosso mapa, percebemos uma série de comunas que rodeiam o centro nevrálgico da região (Sauternes e Barsac). Sobretudo as comunas de Cérons, Loupiac e Sainte-Croix -du-Mont costumam elaborar vinhos interessantes com duas grandes vantagens. Evidentemente o preço é uma delas. A outra é a prontidão destes vinhos e o caráter menos untuoso que às vezes, por uma questão de gosto ou adequação enogastronômica, é extremamente benvido. Contudo, fatores como complexidade e persistência aromática devem ser devidamente restringidas à relativa simplicidade das  respectivas apelações em questão.

Considerções finais

Com este quinto e último post sobre Bordeaux procuramos fornecer os elementos de foco para o que há realmente de interessante em seus vinhos, fazendo jus à toda magia e glamour que envolve a região. O conhecimento mais aprofundado e preferências pessoais acirram ainda mais a discussão pelos melhores châteaux.

Infelizmente um mar de vinhos na região aproveita a onda de fama e prestígio daqueles que realmente merecem para promover vinhos insípidos e decepcionar consumidores despreparados. Entretanto, um grande Bordeaux a gente nunca esquece.

Tendo um bom champagne de ínicio, não haverá motivos para mudanças de curso durante um jantar,  entre brancos, tintos e doces bordaleses. Principalmente,  quando não fazemos concessões ao conceito de terroir.


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