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Petrus e os Três Reis de Pauillac

18 de Maio de 2019

Sabe aquele dia que nada pode dar errado. Você não quer correr riscos, nada de quase, nada de poderia ser melhor, ou seja, você põe o Dream Team em quadra. Para começar a escalação, que tal um Petrus 1955?

O problema agora é colocar companheiros à altura para dar liga. Só tem uma saída: convocar a tropa de elite de Pauillac, a começar pelo Lafite 59, um dos grandes destaques desta safra maravilhosa cheia de craques. Complementando o time, Mouton 82, uma das feras de outra safra mítica, e um bebezinho ainda engatinhando chamado Latour 1996, uma safra perfeita para este Chateau excepcional.

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Para o aquecimento deste timaço, foi convocado Comtes Lafon com seu maravilhoso Montrachet 2013. Seus últimos Montrachets tem estado com notas altíssimas, realmente numa grande fase. Seu estilo de certa opulência, oferece camadas de frutas acajuadas, toques de pâtisserie, textura macia e envolvente. Apesar de tenra idade, um Montrachet delicioso que acompanhou com distinção alguns crudos muito bem executados no restaurante Nino Cucina.

linguado e atum divinamente in natura

Voltando agora ao Dream Team, vamos falar do maior clássico de Pauillac, a disputa eterna entre Latour e Mouton, dois grandes Premier Grand Cru Classe. Na foto abaixo, duas grandes safras em momentos diferentes de evolução.

Tour de Force de Pauillac

Falar de Mouton 82 é falar de um tinto perfeito, 100 pontos inconteste, e uma das safras históricas deste Chateau. O vinho é exuberante em aromas, taninos que deslizam como rolimãs, boca absolutamente perfeita e final longo, macio, luxuriante. Uma bela garrafa em plena forma. Já seu oponente, um monstrinho que destruirá tudo pela frente em 2040, seu apogeu previsto. Um mar de taninos ultrafinos a serem lapidados lentamente nas sonolentas adegas mundo afora. Um Bordeaux à moda antiga onde os tintos não passavam de 12,5 graus de álcool. Equilíbrio perfeito e grande expansão em boca. Será certamente um dos Latours históricos de 2030 em diante. Neste embate você vê claramente como nasce uma estrela e ao mesmo tempo, o apogeu de outra estrela de brilho intenso. Ainda bem que neste caso, não precisamos de anos-luz para atingir o esplendor.

aqui não há perdedores

Mais do que comparar essas duas obras de arte acima, é poder divagar sobre a essência destes respectivos terroirs únicos dentro de si mesmos. Se pensarmos em Pauillac como a grande comuna do Médoc e a força dos vinhos de margem esquerda, os exemplos de Latour e Mouton encaixam-se perfeitamente neste cenário com vinhos pujantes e de grande torque. São exemplos mais que didáticos para enaltecer as características de um grande Pauillac. Já no caso de Lafite, outro Premier Grand Cru Classé de Pauillac, tudo muda, a exceção acontece. Os solos de Lafite tem um cascalho fino misturado com areia e importantes camadas de calcário. Essa configuração confere leveza ao vinho e ao mesmo tempo, elegância, acidez, tensão, dada pelo calcário, fazendo de Lafite o Borgonha do Médoc. É um vinho cheio de sutilezas e um certo mistério brilhantemente demonstrado neste 1959. Um tinto que foi crescendo no decanter por horas, seduzindo cada vez mais os convivas com uma finalização impecável. Um Lafite histórico!

pratos requintados

Fazendo uma pausa para o menu degustado, dois destaques do almoço com os Bordeaux. O tortelli de vitela com cogumelos à esquerda da foto acima, ficou divino com os velhinhos bordaleses, Lafite e Petrus. Enquanto isso, a paleta de vitela ensopada, cozida lentamente com guarnição de polenta cremosa, deu as mãos ao grande Mouton 82 de ricos sabores. Parabéns ao Chef Rodolfo de Santis.

Partindo agora para o grande Petrus 1955, é fundamental ressaltar o prazer de provar um Petrus pronto, sem aquelas amarras que este Pomerol costuma nos receber em tenra idade. Petrus é outra exceção de terroir dentro de Pomerol. Quando pensamos nesta comuna, lembramos de tintos afáveis, macios, generosos e acessíveis em aromas e sabores, os quais são regidos pela presença marcante da casta Merlot. No entanto, o terroir de Petrus busca o ponto mais alto de Pomerol numa solo único de argila azul, de drenagem muito particular onde mesmo em anos secos, o suprimento de água para as raízes das velhas vinhas é garantido. Essa condição faz do Merlot de Petrus uma uva de grande estrutura, austera, rica em taninos, muito mais semelhante a um Cabernet Sauvginon, proporcionando tintos de grande poder de longevidade.

solos: Lafite e Petrus, respectivamente

Voltando aos vinhos propriamente dito, estavam maravilhosos. Os toques de incenso, cedro, ervas finas, especiarias, tabaco, permeavam a taça de Lafite. Boca delicada, elegante, ao mesmo tempo tensa, com uma acidez de aço. Um Pauillac fora da curva. Já o rei Petrus, altivo, toques minerais, terrosos, profundos, um núcleo frutado extremamente elegante. Em boca, uma estrutura tânica magnifica, quase imortal. Persistência aromática expansiva, extremamente harmônico. 

Neste último embate, ficou claramente marcado o lado masculino, viril, de Pomerol, neste terroir único de Petrus. Por outro lado, a feminilidade, a sutileza, de Pauillac, foi enaltecida pelo elegante Lafite. Características antagônicas a seus respectivos terroirs que fazem destes ícones, tintos de enorme personalidade. Um final de prova triunfante.

Fica até deselegante falar dos valores que envolvem estas preciosidades, mas a generosidade dos confrades presentes não tem preço. Obrigado pela companhia, a boa conversa de sempre, e o privilégio de constantemente dividir os prazeres da mesa e do copo com grandes amigos. Que Bacco nos proteja!

Bordeaux em quatro atos

27 de Abril de 2019

Neste cenário paradisíaco  aconteceu um belo almoço envolvendo Grand Cru Classés de Bordeaux, tanto da  margem direita, como da margem esquerda, em flights às cegas. A despeito da colocação  e preferência de cada um, não houve vencedores e perdedores. Todos os tintos mostraram seu valor, tipicidade de terroir, e porque são considerados ícones nas mais rigorosas avaliações da crítica especializada.

 

exclusividade para doze convidados

 

abrindo e encerrando o evento

Antes dos flights propriamente dito, a recepção foi regada a Dom Perignon 2006, uma safra generosa em aromas com certo toque de tropicalidade em seu estilo, geralmente mais austero. Champagne de 96 pontos já muito prazeroso no momento, mas com bom potencial de guarda.

Passando a régua, já com as sobremesas e charutos, um bebezinho em magnum foi servido para deleite dos convivas, Taylor´s Port Vintage 2003. Outra safra generosa em aromas, de grande corpo e concentração, mas ainda em tenra idade. Deve evoluir por décadas em garrafa, entrando na galeria dos grandes Vintages da Casa, a qual é uma de suas especialidades.

algumas das delicias do Chef Magaldi

O Chef Magaldi do buffet Fasano abrilhantou o almoço numa sucessão de pratos muitos bem executados. Alguns dos destaques que combinaram muito bem com os vinhos servidos foram o ravióli de zampone com ossobuco, e um corte de Wagyu ultra maturado e marmorizado de uma maciez e sabores impressionantes. Grande Magaldi!

img_6016confronto de margens

Sem mais delongas, vamos ao primeiro flight, num par de Moutons, ladeado por um Pomerol, Chateau L´Evangile. Na preferência dos convivas, L´Evangile ganhou com folga. Pudera, com 95 pontos Parker numa das melhores safras de Pomerol, o vinho esbanja fruta, certa maciez em boca, embora possa envelhecer com propriedade por longos anos. Com 72% Merlot e 28% Cabernet Franc, seu balanço entre graciosidade dada pela Merlot e uma certa estrutura e elegância advinda da Cabernet Franc, garantiram o primeiro lugar. 

Quanto aos Moutons, são muito parecidos em notas, 97 pontos para o 98, e 94 pontos para o de safra 96. A safra 98 para a margem esquerda, proporcionou vinhos um pouco mais duros, de taninos de longa guarda, razão pela qual o 96 mostrou-se mais gracioso, mais abordável no momento. Dois belos Moutons que devem envelhecer com muita dignidade.

img_6017sua Majestade, Chateau Latour

Um trio de Latours deu um ar de imponência à degustação. O Latour 88 já apresenta boa maturidade, embora possa envelhecer com tranquilidade por longos anos. Sua estrutura tânica e seu toque aromático de couro fino são notáveis. Foi o mais pronto do trio. A grande surpresa do flight foi a diferença de garrafas entre os dois 90 acima, provando mais uma vez que em vinhos antigos não existem grandes safras e sim, grandes garrafas. Uma delas estava divina, vinho elegante, taninos de rara textura, e longo em boca. Já o outro exemplar de mesmo ano, parecia um pouco cansado, com aromas evoluídos para esta idade de garrafa. Davam a impressão de dois vinhos de safras diferentes, bastante didático.

img_6018Destaque para o Chateau Margaux

No terceiro flight, aparece um vinho de 100 pontos, Chateau Margaux 1990. Em todas as avaliações de Parker, consistentemente 100 pontos com apogeu previsto para 2040. Uma das grandes safras deste Chateau com taninos de veludo. Boca perfeita, aromas elegantes envolvendo cedar box, especiarias, e um toque de sous-bois. Longa persistência aromática e um final arrebatador.

Os outros dois do páreo não eram do mesmo nível de perfeição. O Haut Brion 86 que alguns acharam um pouco cansado, estava delicioso mesmo assim. Talvez pela safra, potente em taninos, o vinho ainda apresenta um estrutura impressionante com mais de trinta anos. Os aromas de cacau, couro e incenso, ratificam a elegância deste Chateau. Quanto ao Latour 93, o infanticídio do almoço. Muito novo para um Latour num dos melhores vinhos da difícil safra 1993. Um tinto ainda com taninos potentes, aromas um tanto fechados, embora muito elegante. Vinho de longa decantação para ser apreciado no momento.

img_6023Pavie, o único em Magnum do painel

Chateau Pavie 2004 degustado em Magnum, mostrou a sensualidade da margem direita. Fruta deliciosa com toques florais e uma boca firme, embora sedutora, num blend que além da majoritária Merlot, conta com as duas Cabernets, Franc e Sauvignon, proporcionando mais estrutura. Deve envelhecer bem em adega.

Chateau Haut Brion 2000, outro infanticídio com apogeu prevista para 2050. Um vinho praticamente perfeito com 99+ pontos Parker. Gostaria de saber de onde ele tirou um ponto deste vinho. Boca grandiosa, equilíbrio perfeito, e longa persistência final. Os aromas ainda são tímidos, mas com muita tipicidade. Ervas, estrebaria e um toque de tabaco. Um grande vinho, ainda muito longe do que pode oferecer de pleno prazer. 

Por fim, a grande injustiça do almoço, ficando na lanterna deste flight. É bem verdade que 95 não é uma grande safra deste Chateau. Contudo, Cheval Blanc é um dos vinhos mais elegantes entre todos os Bordeaux. Um bouquet fino, ricos em ervas e especiarias. Em boca, taninos delicados, bem integrados, e um equilíbrio dos grandes vinhos. Talvez, pelo nível alcoólico do pessoal nesta altura do campeonato, esses detalhes passaram desapercebidos.

img_6026mais um embate entre margens

Deu tempo ainda para mais uma dupla poderosa com 95 pontos cada um. No caso do Mouton, a safra 95 proporciona vinhos muito macios, elegantes e de taninos suaves. É um vinho muito gostoso de ser tomado com as notas de cassis, café e um leve toque de tabaco que será amplificado com o tempo em garrafa. No caso do Valandraud 2000, a maciez e sensualidade continuam por uma questão de terroir, onde a Merlot confere maciez e elegância, enquanto a Cabernet Franc aporta estrutura e firmeza ao conjunto. 

De todo modo, foram flights diversificados, curiosos em certos aspectos, mostrando a grandeza e pluralidade da mais fina região de tintos do mundo. Agradecimentos a todos os confrades, que proporcionaram momentos de alegria e descontração.

a hora da fumaça!

Já fora da mesa, cafés, fortificados e destilados entraram em ação. Cohibas das mais variadas bitolas, inclusive Behikes estavam à disposição. Grappas Poli, das mais refinadas da Itália estavam presentes nas versões com e sem madeira. Um pouco mais de conversas, piadas e risadas. Essa é a essência da vida.

img_6030para aqueles que ainda tinham sede!

No apagar das luzes, para os que tinham sede e alguns amigos de última hora, foram abertas mais duas garrafas dos rivais, Bordeaux e Bourgogne. Maison Leroy e seu elegante Volnay, um tinto  de Beaune dos mais delicados, convivendo com os vinhos de Meursault. Safra precoce e já bastante abordável. No lado bordalês, um dos destaques da safra 2003. Um vinho cheio de vida, rico em frutas e toques empireumáticos, lembrando café e notas tostadas. Boca ampla, cheia de taninos finos, e final expansivo.

Hora de ir pra casa e sonhar com os anjos. Agradecimentos especiais ao anfitrião pela imensa generosidade e simpatia em nos agradar sem limites. Que Bacco nos proteja e nos proporcione mais encontros memoráveis. Abraços a todos!

Uma Seleção de Bordeaux

13 de Abril de 2019

A proposta foi a seguinte: trazer sua melhor garrafa de Bordeaux dos anos 80 e 90 para uma degustação às cegas. Foram onze garrafas abertas, formando uma verdadeira seleção onde o menos cotado pelos confrades, ainda assim, era craque frente aos inúmeros chateaux que desfilaram nestas duas décadas. Vamos então à escalação: Goleiro (Mouton 99), zaga (Leoville Las Cases 86, Mouton 83, Mouton 89), volantes (Vieux-Chateau-Certan 90, Beychevelle 82), meio de campo (Cheval Blanc 86, Chateau Certan de May 82), atacantes (Haut Brion 86, La Mission Haut Brion 89, Angelus 95). Um esquema com três zagueiros, dois volantes, sendo um de contenção e outro de ligação, um meio de campo criativo, e um ataque com centroavante goleador e pontas que voltam para marcar.

img_5972Mouton acessível, embora possa ser guardado

Como todo bom goleiro, foi degustado isoladamente. Um Mouton acessível, bem de acordo com a característica da safra. Taninos bem moldados, os toques de café e chocolate que caracterizam o chateau, além de um belo equilíbrio em boca. Um goleiro ainda em formação, mas com belo potencial pela frente. Nota 92 (RP).

img_5968uma zaga segura

Leoville Las Cases, zagueiro consagrado, mas vindo de contusão (bouchonée), ainda assim mostrou sua classe. De fato, era para ser o vinho da almoço com uma estrutura e cor extraordinárias, 100 pontos Parker. Infelizmente, uma garrafa comprometida. Em compensação, a dupla de Moutons supriu a deficiência do ilustre zagueiro. O Mouton 83 no nariz tinha lindos toques de cogumelos, mais precisamente funghi porcini seco. Já o Mouton 89 tinha uma boca deliciosa, de acordo com a sensual safra 89. Taninos sedosos e textura glicerinada. Notas 90 e 93 de Parker para os Moutons 83 e 89, respectivamente.

img_5965grandes safras em Bordeaux

Nesta dupla de volantes, Vieux-Chateau-Certan estava mais contido, cobrindo a zaga. Este vinho costuma ser surpreendente nesta safra de 90, mas não era das melhores garrafas. É um margem direita diferente, lembrando a estrutura tânica dos vinhos do Médoc pela presença de certo destaque das uvas Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. Já o Beychevelle 82 é aquele volante que sai para o jogo. A safra 82 é o grande ano deste chateau de Saint-Julien. Especialmente esta garrafa estava muito bem adegada. O vinho tinha uma força extraordinária com frutas escuras presentes, notadamente o cassis. Um vinho de muito vigor e com vida pela frente.

img_5966outras grandes safras em Bordeaux

Neste meio de campo, Chateau Certan dá seus passes corretos, mas o Cheval Blanc bate um bolão. É o camisa 10 do time com imensa criatividade. Mesmo numa safra dura como 86, o vinho é de uma elegância ímpar. Em boca, esbanja equilíbrio e suavidade. Persistência aromática longa e expansiva. Voltando ao Chateau Certan, é um vinho que tem o charme de Pomerol numa bela safra. Tem uma boa estrutura tânica, embora seus taninos sejam um tanto rústicos para esta categoria de vinho. Notas: Cheval Blanc 86 (RP 93) e Chateau Certan 82 (RP 93).

img_5970ataque incisivo

Neste ataque de peso, os atacantes Haut-Brion e La Mission não estavam num grande dia. Opinião de muitos confrades com a qual não concordo. Haut Brion 86 tinha notas marcantes de chocolate amargo, cacau, e um toque terroso. Já o La Mission, 100 pontos Parker, é um vinho suntuoso, de grande poder aromático, boca ampla, e longa persistência aromática. De certo que as garrafas poderiam não ser as melhores, mas estavam longe de serem defeituosas. Enfim, são duas grandes safras de chateaux fora de série. Em compensação, em dias de atacantes pouco inspirados, eis que surge o goleador de quem menos se esperava, Angelus 95. Um vinho ainda novo, mas com uma bela estrutura. Taninos potentes e finos, bom corpo, e muito bem equilibrado. Tem muito poder de fruta, toques tostados e minerais de grande classe. Goleou de lavada seus dois companheiros de flight, supostamente superiores. Notas: Haut Brion (RP 93) e (RP 94). 

Para acompanhar esta seleção, o conceituado restaurante Picchi preparou um menu com pratos criativos e bem apropriados aos vinhos envelhecidos de Bordeaux.

sabores surpreendentes

Os pratos acima, lâminas de funghi porcini fresco grelhadas com pinoli, parecendo lâminas de berinjelas, estavam ótimas. Já a polenta cremosa com escargots no molho rôti, tinha muitas ligações de sabores com os tintos envelhecidos. Belos pratos!

Na foto abaixo, a massa Picchi, tradicional da Casa com molho de linguiça, e um dos melhores tiramisus na qual a foto, dispensa comentários.

tradicionais da Casa

final surpreendente

Finalizando o evento, uma bela Grappa di Sassicaia envelhecida em toneis de carvalho francês, acompanhando alguns mimos do restaurante no serviço de café. Uma Grappa sedosa, grande classe, e longa persistência.

Agradecimentos finais a todos os confrades pela companhia, boa conversa, e imensa generosidade de todos. Que Bacco nos proteja e nos guie sempre nos melhores caminhos dos grandes vinhos! Abraços a todos!

 

 

Petrus e a argila azul

7 de Abril de 2019

Fazer um time de Petrus do goleiro ao ponta esquerda não é tarefa corriqueira. O dream team foi composto pelas safras 70, 75, 76, 81, 83, 89, 90, 97, 98, 99, e um 2009, praticamente um feto. Além destes, um Saute-Loup 2010 em Magnum, vinho da família do rei Petrus, pouco conhecido na mídia.

52d7d9d7-f42e-4e4e-9578-c9bd80677b29o time todo no restaurante Parigi

Evidentemente, precisamos aguçar as papilas, antes de enfrentar esta seleção. Nada melhor que dois champagnes Dom Perignon safras 96 e 98 de longo tempo sur lies. A primeira 98 trata-se de um Oenothèque, antiga nomenclatura, e um maravilhoso 96 P2, nova nomenclatura para as chamadas “plenitudes”.

12 anos sur lies

Dois champagnes maravilhosos, mas de estilos diferentes. O 96 é extremamente mineral, agudo, de muita leveza, e longa persistência aromática. Já o 98, mais vinoso, mais gastronômico, e cheio de brioches. A preferência é pessoal, mas o 96 impressiona pela vivacidade com 97 pontos.

16 anos sur lies

img_5937velhinhos de respeito

Abrindo a degustação, este primeiro flight mostrou didaticamente a evolução de um vinho de guarda. Todos os principais aromas terciários estavam lá, adega úmida, cogumelos, trufas, notas de chá, especiarias, ou seja, os deliciosos aromas etéreos. O 83 é discretamente mais concentrado que o 81, mas ambos deliciosos.

img_5938trio de respeito, mostrando a força deste vinho

Neste segundo flight, subimos de patamar. O 97 e 99, num estilo mais abordável, de certa maciez, mostrou bela concentração de aromas e taninos finos. O 99 com um pouco mais de riqueza e estrutura, embora o 97 seja mais prazeroso no momento. Falando agora do 98, um verdadeiro mamute com 98+ pontos e um largo caminho a percorrer, buscando um apogeu esplendoroso. A estrutura tânica deste vinho impressiona e garante esta enorme longevidade. Para toma-lo agora com algum prazer, é necessário uma decantação de pelo menos três horas. Paciência com este monstro!

img_5941200 pontos na mesa

Neste terceiro flight, vinhos perfeitos, a despeito de estarem longe de seu apogeu. O 90 tem um lado mais delicado, bela acidez, e um equilíbrio perfeito. Já o 89, um tinto de mais opulência, uma riqueza de fruta extraordinária, e longa persistência final. A garrafa estava um pouco prejudicada com certa turbidez. De todo modo, um embate espetacular sem vencedores.

img_5942um trio para selar uma grande degustação

Neste ultimo flight, ficamos com os vinhos mais longevos e de grande pontuação, verdadeiros mitos deste grande terroir. O 76 menos badalado, mostrou bela evolução, com todos os componentes bem balanceados, maciez notável, e grande classe. Ótimo para ser apreciado no momento. O 75 de estilo parecido com o 98 acima descrito, tem um força extraordinária com taninos impressionantes. Já entrando em seu apogeu, é vinho quase imortal, sem nenhum sinal de decadência. Tinto impressionante. Deixamos para o fim, o melhor do almoço, o magnifico e feminino Petrus 70. Uma verdadeira poesia liquida com lindos toques de alcaçuz. Macio, sedutor, envolvente, uma das safras perfeitas de Petrus com 99 pontos. Não me perguntem onde o Parker tirou um ponto desta maravilha. O homem realmente é chato e exigente com os grandes Bordeaux.

Um pouco mais de Petrus …

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Petrus: a Chave para o Céu

Petrus está para Pomerol, assim como Yquem está para Sauternes. São Chateaux hors-concours que dispensam apresentações por seus respectivos terroirs únicos. No caso de Petrus, seu solo é composto de uma argila azulada rica em ferro no platô de um outeiro numa altitude de 40 metros em relação ao nível do mar. Isso confere ao vinho uma riqueza de cor extraordinária e muda as características principais da Merlot, uva altamente majoritária na composição do vinho. No caso, é um Merlot rico em taninos, lembrando pela estrutura um Cabernet Sauvignon. Outra curiosidade é que depois de 60 a 80 centimetros abaixo do solo, esta argila se torna dura, não permitindo um aprofundamento das raízes. Portanto, elas crescem lateralmente, fazendo com que o espaçamento entre as vinhas seja maior que o habitual.

É um vinho de maturação lenta, sobretudo nas grandes safras, capaz de envelhecer por décadas. Somente o Chateau Lafleur possui estrutura semelhante.

O sucesso do vinho em termos de história é relativamente recente, já que Pomerol não possui nenhuma classificação oficial em Bordeaux. Somente depois da segunda guerra mundial, Petrus ganhou fama e prestígio no mundo quando foi apresentado na Casa Branca, onde as recepções eram regadas pelo tinto de Pomerol. Em especial, a família Kennedy era fã do vinho.

http://www.rendezvous.com.br/o-mito-petrus-com-olivier-berrouet/
O Link acima traz uma reportagem técnica muito detalhada com o atual enólogo do Petrus, Olivier Berrouet, filho do grande enólogo do Petrus, Jean-Claude Berrouet que produziu 45 safras do mítico vinho.

Por fim, os agradecimentos pela imensa generosidade dos confrades em proporcionar este encontro inesquecível. Independente do alto nível dos vinhos, a conversa e integração do grupo é o mais importante nesses encontros. Saúde a todos! 

1945, o ano da Vitória!

19 de Janeiro de 2019

Só os vitoriosos nascem em 45, final da segunda guerra mundial, ano de criação da ONU, última safra do Romanée-Conti de parreiras pré-filoxeras com pouco mais de 600 garrafas elaboradas, além do maior dos Moutons elaborados até hoje.

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hoje é dia de maldade!

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Double Magnuns enfileiradas

Um dos confrades, nosso Professore, assim chamado carinhosamente, é um desses vitoriosos com uma carreira brilhante e muita história para contar e nos ensinar. Num almoço memorável, talvez na mais bela cobertura dos Jardins, desfilaram várias Double Magnuns de grandes Chateaux, inclusive uma 1945 em sua homenagem.     

Jamón de Bellota com Jacques Selosse

Começando a farra, uma seleção dos melhores Lieux-Dits de Jacques Selosse,  enólogo e proprietário que revolucionou a região de Champagne como produtor individual de destaque. Na cola dele, vieram outros tantos que fazem sucesso atualmente. Ele está para a excelência de produtor individual na região, assim como Gravner está para os vinhos laranjas. Resumindo, referência absoluta.

Jacques Selosse servidos:

  • Initial (champagne de entrada da Maison. Um Blanc de Blancs de muita pureza e frescor).
  • Lieu-Dit Les Carelles (um Blanc de Blancs de Mesnil sur Oger, o suprassumo da Côte de Blancs de extrema mineralidade).
  • Lieu-Dit Mareuil sur Aÿ (um Pinot Noir delicado e elegante).
  • Selosse V.O. (Version Originale, um blanc de Blancs de estilo oxidativo com safras mais antigas)

Tudo isso para entreter os convivas, acompanhando um Jamón cirurgicamente cortado in loco com a devida técnica espanhola. A peça tinha 60 meses de cura, tempo suficiente para sabores e aromas perfeitamente desenvolvidos. Um autêntico Pata Negra!

um dos Lieux-Dits

Já à mesa, seguiu-se um lauto almoço, numa sequência de pratos e vinhos muito bem arquitetada. Somente formatos Double Magnum de grandes safras e chateaux.

Doisy-Daëne 2001 – 95 pts com Foie Gras

A safra dispensa comentários, uma das históricas na região de Sauternes. Este produtor remete inexoravelmente ao professor Denis Dubourdieu, falecido recentemente, uma das maiores autoridades em vinhos bordaleses, sobretudo. A propriedade é da família. Com vinhedos localizados em Barsac, por questões de solo, elabora Sauternes delicados e de muita elegância. Um acompanhamento quase covarde com foie gras de entrada e bolo de pistache com creme ingles e ninho de caramelo na sobremesa. Não tinha como dar errado.

Montrachet Henri Boillot 2009 com Robalo, bottarga e champignos

Ele não é proprietário de vinhas nesta apelação, mas Henri Boillot faz um Montrachet elegante, de acordo com suas raízes em Puligny-Montrachet. Esta safra precoce e generosa mostra fruta exuberante e um trabalho notável com a barrica. Perfeita harmonia e equilíbrio. O robalo com bottarga e champignons complementou muito bem os sabores do vinho.

 Gruaud-Larose 1945 – 96 pts e trufas negras

Este chateau é um dos destaques na histórica safra de 1945 com vinhos memoráveis e altamente disputados em leilões mundo afora. O vinho estava um pouco cansado, mas sem nenhum defeito. Um nariz nobre de Bordeaux evoluído onde o tabaco, finos tostados e toques balsâmicos, se destacavam. Um tinto de 74 anos que mostra claramente tratar-se de uma safra excepcional e de um extrato fabuloso. Uma bela homenagem a nosso aniversariante e anfitrião. O tagliolini com trufas negras frescas só valorizou ainda mais o vinho. Ponto alto do almoço!

DRC Romanée-Saint-Vivant 1983 – coelho com risoto

Num almoço desses tinha que aparecer um DRC, preferencialmente pronto e evoluído. Este Romanée-Saint-Vivant 1983 cumpriu bem a missão. Taninos estruturados e resolvidos, boca macia, e os aromas de um grand Vosne-Romanée. Toques terrosos, de sous-bois, e de flores secas, permeavam a taça. Um demonstração de força e elegância muito bem balanceadas. Um saboroso coelho com risoto tinha a força exata para o vinho.

Chateau Ducru-Beaucaillou 1982 – 96 pts e Kobe Beef

Referência da comuna de Saint-Julien, Ducru-Beaucaillou prima pela elegância e altivez. Lembrado por Parker como Lafite de Saint-Julien, este 82 estava um espetáculo. Provalvemente pelo formato (double magnum), ainda tinha taninos a resolver. Uma estrutura de boca fantástica com taninos finos, acidez vibrante, e longa persistência final. Bem adegado, ainda vai longe e ratifica porque 1982 é uma das maiores safras do século XX. Um tenro Kobe Beef enalteceu a nobreza do vinho.          

Petrus 1976 – 92 pts em double magnum

Passando a régua, um Gran Finale com o maior de Pomerol, rei Petrus na mesa safra 1976. Mais do que uma safra notável, o segredo de tomar um bom Petrus é ele estar evoluído, maduro, sem a sisudez que lhe é peculiar. Algo terroso e de trufas, um lado mineral importante, e taninos bem delineados, formaram um belo conjunto deste mito bordalês. 

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Porto Croft Vintage 1960 – duas garrafas, duas histórias

Com uma bela seleção de queijos, um Vintage maduro se fez presente, Croft 1960. No alto de seus 58 anos, o Vintage se transforma em algo gracioso, perdendo aquele poder e potência da juventude. Seus aromas são mais etéreos, toques florais aparecem, e a boca incrivelmente sedosa. Aquela geleia de frutas da juventude muda para frutas em licor. Coisas que só a idade e o tempo são capazes de transformar. Vale a nota da diferença entre garrafas. Uma mais evoluída que a outra, mostrando que em vinhos antigos não existem garrafas iguais.

fecho de ouro

Para os mais insistentes, um Havana ao cair da tarde encerrando as conversas. Marc DRC 1991, uma Grappa de luxo, como diriam os italianos. O figurado H. Upmann Reserva, um tabaco envelhecido do excepcional terroir de Vuelta Abajo, Cuba, estava à altura da Eau-de-Vie.

Todas as bênçãos do mundo ao nosso aniversariante, anfitrião impecável, e daqueles amigos que a gente não esquece. Vida longa com muitas comemorações como esta. Em nome de todos os presentes, agradecimentos eternos. Viva 1945!

Petrus: a Chave para o Paraíso

1 de Dezembro de 2018

Não está explícito, mas o rótulo mostra a chave do céu. Degustar Petrus é sempre um momento de tensão onde a disputa (esplendor x expectativa) ganha proporções monumentais. De fato, um dos Bordeaux mais caros da história, valendo milhares de dólares uma garrafa, se espera sempre fogos de artifício. 

Embora Petrus seja elaborado quase exclusivamente com uvas Merlot, seu terroir proporciona vinhos de grande estrutura de taninos, capazes de envelhecer por décadas, sobretudo nas grandes safras. É um tinto geralmente fechado na juventude que lentamente vai adquirindo evolução em garrafa. Seu apogeu ocorre com pelo menos dez, quinze anos de safra. Nos grandes anos, esse tempo pode facilmente dobrar.

Para entender melhor este intrincado terroir, favor acessar link deste blog Petrus e a Argila Azul

Além do link, o vidéo abaixo ajuda elucidar o assunto.

Numa degustação memorável na Trattoria Fasano, algumas raras garrafas de Petrus envelhecido desfilaram pelas taças em cinco flights didaticamente escolhidos, mostrando vários estilos e períodos diferentes de evolução.

img_5372uma década de evolução

Embora 11 anos os separem, o 88 tem cores mais intensas na taça. Parece menos evoluído, com muita mineralidade, e uma montanha de taninos. Deve ser obrigatoriamente decantado por duas horas. Talvez a nota um pouco menor que o 99 de Parker deva-se a uma excessiva extração na vinificação. Já o 99 mais jovem, é muito mais prazeroso. Seus taninos são dóceis e sedosos. Muita fruta no aroma, num momento ótimo para ser apreciado. Um belo começo com esse 99 surpreendendo a todos.

img_5373a complicada década de 70

Este flight mostra claramente o quão longevo são os grandes terroirs como Petrus. Vinhos de anos complicados, já envelhecidos, mais de 40 anos, e ainda assim deliciosos e interessantes. O 76 segue o estilo do prazer como 99. Ainda com fruta, maciez em boca, e aromas delicados. Sem nenhum sinal de decadência. É muito melhor provar um Petrus plenamente evoluído de uma safra pouco badalada do que tomar uma grande safra ainda com aromas e sabores fechados. Já o 73, um ano complicado para Bordeaux, Petrus foi o vinho da safra. Estava um pouco turvo na taça, mas com uma força extraordinária para sua idade. Bastante terciários no aroma e um final de boca relativamente seco, denotando que a fruta já está indo embora. Melhor tomar, não há porque esperar.

img_5375só o devido tempo para aproximá-los

Quase 20 anos entre as safras, demonstra claramente que Petrus precisa de tempo em adega. Este 98 à esquerda, é um mamute, um vinho quase perfeito (98 pontos Parker), mas que precisa de longo tempo em adega para domar esta montanha de taninos. Muita fruta concentrada no aroma, além de notas de café e chocolate escuro. Previsão de apogeu para 2040. Quem viver, verá!

Já o 82 é puro deleite. Aromas terciários dos grandes Bordeaux e boca macia com taninos aveludados. Falta talvez um pouco mais de concentração das grandes safras, mas sua elegância compensa. Mesmo na margem direita, Petrus não foi dos mais expressivos na mítica safra 82. Está num momento ótimo para ser apreciado e foi para muitos, o vinho mais prazeroso do almoço.

img_5377200 pontos na mesa!

Aqui, só jogando a moeda para cima, cara ou coroa. Dois monstros engarrafados, demonstrando que Petrus nas grandes safras molda vinhos indestrutíveis. São 200 pontos incontestáveis, mas que precisam de décadas em adega para revelarem tudo que sabem. Vai ser uma tortura espera-los. Talvez o 89 seja mais prazeroso no momento. Parece ser mais macio, mais dócil. Já o 90 tem mais frescor, mais austeridade, mas impressiona muito por sua estrutura. Seu apogeu está prevista para 2054. Prova-los agora significa decanta-los por horas para conseguir arrancar alguns segredos. Tecnicamente, um flight perfeito!

alguns dos pratos para o desfile bordalês 

Entre um flight e outro, pappardelle com ragu de pato e polpettone com batatas ao forno, foram algumas das delicias servidas na Trattoria Fasano num serviço sempre atencioso. 

a turma toda e as rolhas impecáveis

Um dos confrades mostrou sua habilidade em abrir vinhos antigos. Rapidez e eficiência que poucos sommeliers profissionais demonstram na prática.

img_5383aqui se separam os homens dos meninos

Um final apoteótico. Dois velhinhos em plena forma, mostrando claramente que idade não tem limites. Um com quase 50 anos, outro com pouco mais de 50 anos. Duas extraordinárias safras de Petrus com praticamente 100 pontos cada uma, e sendo as duas, os melhores vinhos das respectivas safras em Bordeaux.

Os estilos são totalmente diferentes, mas igualmente encantadores. O 75 é um vinho mais viril, cheio de taninos, ao estilo 88 comentado acima. Estava um pouco turvo na taça, mas com uma estrutura espetacular, embora haja melhores garrafas. Mesmo assim, um grande vinho. Já o 64, o mais velhinho, tem um vigor espetacular com muita elegância. Segue o estilo do 99, mas com mais extrato e estrutura. Nenhum sinal de decadência e com muita fruta nos aromas, embora seus terciários sejam maravilhosos. Além disso, a safra de nosso querido Beato. Não podia terminar melhor!

doçura e amargor sublimes!

Calma, ainda falta a sobremesa e o costumeiro Yquem para encerrar a festa bordalesa. Mas nosso maestro não ia trazer qualquer Yquem. Tinha que ser algo especial como a safra 83, superior a 82 no que diz respeito a Sauternes. O que tem diferente neste 83 é sua agradável acidez, frescor, o que o torna muito mais equilibrado em açúcares. Fez par perfeito com o Tiramisu da casa. Aliás, um dos melhores da cidade. Embora não seja uma harmonização clássica, este  Yquem e este tiramisu em particular, tinha uma sintonia em níveis de açúcar, além dos lado cítrico do vinho complementar bem o sabor do cacau.

Esta confraria se supera a cada evento. Depois do paraíso, não conheço outros caminhos. Mas desses confrades, não podemos duvidar de nada. O imponderável sempre acontece. Obrigado a todos vocês mais uma vez pela companhia e incrível generosidade. Que Bacco nos proteja sempre!

Os grã-finos dos anos 50

24 de Novembro de 2018

A década de 50 é marcada por grandes acontecimentos: o início da televisão, auge das carreiras de Elvis Presley e Marylin Monroe, nascimento da Bossa Nova, primeiro título mundial da Seleção brasileira de futebol, Ernest Hemingway ganha o Prêmio Nobel de Literatura. Além disso, grandes anos para os vinhos de Bordeaux: 1950, 1953, 1955, e 1959. Em 1950, a margem direita com grandes notas (Lafleur e Petrus perfeitos). Em 1955, vários chateaux com notas altíssimas, em especial, Chateau La Mission Haut-Brion em ano glorioso. Contudo, vamos falar dos anos 53 e 59 com alguns exemplares degustados num belo almoço no restaurante Parigi em São Paulo.

as entradinhas com Madame Leflaive

Grand Cru com aproximadamente 3,7 hectares, Bienvenues Batard-Montrachet tem seu auge nas mãos de Domaine Leflaive, maior proprietário desta apelação com 1,15 hectares de vinhas plantadas no final dos anos 50. Embora ainda muito novo, a bela safra 2015 proporciona aromas maravilhosos com a fruta bem mesclada à madeira. Seu equilíbrio e persistência aromática são notáveis, vislumbrando um grande futuro. Começamos bem!

mais de 50 anos os separam

Antes de entrarmos nos destaques, algumas baixas do almoço. Dois belos chateaux em duas grandes safras. Contudo, duas garrafas com problemas. O Haut Brion 98 com 99 pontos Parker e previsão de apogeu para 2045 estava oxidado, embora ainda muito novo. Mesmo assim, exibiu toques de chocolate escuro ou cacau com taninos poderosos, confirmando que se trata de um grande ano para este chateau. O Beychevelle 45, ano da vitória, com aromas plenamente desenvolvidos de Bordeaux antigo e taninos todos polimerizados. Havia um pequeno indício de TCA que o prejudicou um pouco. Mesmo assim, percebe-se uma das grandes safras para este chateau de Saint-Julien.

img_5355vinhos soberbos!

Embora o rótulo do Trotanoy esteja de ponta-cabeça, o vinho é deslumbrante. A disputa foi tão acirrada como as notas de cada um, Lafite 99 pontos e Trotanoy 98 pontos. Trotanoy, um dos grandes Pomerol depois do rei Petrus, começou estonteante com aromas delicados e uma maciez impressionante, dando mostras que iria levar fácil este flight. Lafite por sua vez, começou tímido, um tanto austero com sua acidez marcante. Pouco a pouco, ele foi crescendo na taça e mostrando porque é um dos cinco Premier Grand Cru Classé do Médoc. Seus aromas de cedro, tabaco e especiarias finas são muito elegantes. Essa delicadeza com uma textura em boca mais delgada o credencia a ser o Borgonha entre os bordaleses. De todo modo, um flight belíssimo com empate técnico.

img_5363os dois melhores do ano 53

Este flight foi bem mais fácil. Lafite 53 foi o melhor dos Lafites que já provei. Estava mais inteiro que o 59 e ainda com vida pela frente. Um monumento de vinho com aquela acidez cortante e taninos ainda firmes, embora extremamente finos. O Margaux 53 com nota 98 Parker não foi tão feliz nesta garrafa. Estava até um pouco turvo. Seus aromas eram o ponto alto com muita elegância, mas em boca um tanto cansado, sem aquela persistência aromática. Mas claramente, é uma questão de garrafa, pois trata-se de um grande vinho para esta safra. Lafite brilhando mais uma vez …

os pratos e mais um 59

Não era mesmo dia de Haut-Brion. Embora 59 não seja a melhor safra para este chateau, já provei outros 59 soberbos. Este estava um pouco prejudicado, um pouco cansado, sem o mesmo brilho que lhe é peculiar. Mesmo assim, é super equilibrado, aparecendo na taça um toque intrigante de menta. Taninos totalmente resolvidos.

Quanto aos pratos, foto acima, eles foram escolhidos pela delicadeza, deixando os velhinhos bordaleses mais à vontade. A omelete com foie gras e molho de vinho tinto, tinha uma textura delicada e sabores compatíveis aos vinhos. Já a massa na manteiga com trufas, dispensa comentários.

img_5364a estrela do almoço!

Ele nem está relacionado nas notas de Parker, mas nunca duvide de um Cheval Blanc, independente da safra. Sem querer compara-lo ao estupendo Lafite 53, comentado a pouco, este Cheval foi o vinho que mais impressionou pela força, pela intensidade de cor, e pela estrutura de taninos, podendo ainda ser adegado por longo tempo. Eu não diria que podemos compara-lo ao mítico 1947, mas ele faz um boa sombra. Sem dúvida nenhuma, Cheval é o mais elegante entre todos os de Saint-Emilion com alta proporção de Cabernet Franc, o que lhe confere extrema longevidade.

mosaico de cores

Olha a cor deste Cheval 53 à esquerda, impressionante. As taças à direita sempre Zalto, estão com alguns dos Bordeaux 59. É quando eles atingem a devida maturidade. Muita paciência até chegar este momento. São vinhos de evolução muito lenta.

foto invertida do Trotanoy

De sobremesa num almoço bordalês, não podia faltar o majestoso Yquem. Como curiosidade, as duas meias-garrafas da foto acima, oriundas da mesma adega, apresentaram evoluções diferentes, inclusive na cor. Uma mais desenvolvida com lindos toques de mel, caramelo e frutas passas com damasco, por exemplo. O outra, um pouco mais contida, mas igualmente bem equilibrada. A safra de 90 é praticamente perfeita com 99 pontos e muita vida pela frente. Certamente, será um dos grandes Yquems apreciados no século XXI. 

Encerrando a esbórnia, ficam os agradecimentos a todos os confrades presentes e o lamento pelos ausentes. Uma experiência sensorial divina com Bordeaux de alto coturno no auge de sua apreciação. Confraria de grande generosidade, sem frescuras, e alto conhecimento de pessoas acostumadas com grandes ampolas. Abraços a todos e que Bacco nos proteja sempre!.

Cabernet Franc em Pomerol

16 de Setembro de 2018

Seus vinhos são elegantes e longevos, mas a Cabernet Franc não costuma ser protagonista nos cortes bordaleses, mesmo na chamada margem direita dominada pela Merlot. Entretanto, quatro exemplos incontestáveis de vinhos consagrados pela história, refletem a importância desta cepa capaz de expressar-se com muita personalidade, conforme o contexto da situação.

Chateau Angelus, Chateau Cheval Blanc, Chateau Ausone, e Chateau Lafleur, apresentam altas proporções de Cabernet Franc em seus cortes, moldando tintos com personalidade diferente, de acordo com o respectivo terroir. O Cascalho em solo arenoso no extremo oeste de St Emilion, gera vinhos elegantes e sutis como Cheval Blanc. Já o calcário próximo à cidade de St Emilion, molda tintos mais viris, de grande mineralidade, como Ausone. Por fim, os solos pedregosos e argilosos de Lafleur geram vinhos densos, ricos em taninos, um tanto fechados na juventude, capazes de envelhecer por décadas em adega. Em todos os casos, a Cabernet Franc proporciona a estrutura e elegância ao blend, contando sempre com a redondez da Merlot. Lafleur acaba sendo neste grupo o único representante de Pomerol.

Foi neste contexto, que fizemos uma vertical de Lafleur de safras com perfis distintos, contanto um pouco a história deste grande tinto que muitos o comparam ao rei Petrus por sua austeridade na juventude e incrível capacidade de vencer o tempo. Num dos trechos do ótimo site (www.thewinecellarinsider.com), é dita a frase: “Lafleur is the one wine in Pomerol that not only rivals Petrus, it can even be better in certain vintages!”.

Chateau Lafleur possui cerca de 4,5 hectares de vinhas, aproximadamente um terço da área do Petrus, ficando a menos de um quilômetro de distância. Seu solo contem muitas pedras em meio a areia e argila em três configurações geológicas. Neste cenário, Cabernet Franc (50%) e Merlot  (50%) dividem a área de plantio com muitas videiras antigas. A média de idade é de 40 anos, mas há muitas vinhas centenárias que venceram a histórica geada de 1956. Isso gera mostos altamente concentrados com rendimentos baixíssimos por parreira. O vinho tem discreta passagem por madeira nova, entre 25 e 50% no máximo de barricas novas, conforme a safra. Por exemplo, a mítica safra de 82 onde o vinho tem 100 pontos, não há mais que 10% de barricas novas. A propósito, este vinho foi feito pelo enólogo do Petrus, Jean-Claude Berrouet. Christian Moueix, dono do Petrus, tem enorme respeito por este Chateau. É só prestar a atenção no rótulo do Dominus, sua propriedade em Napa Valley.

1970: o tricampeonato no México

Como já virou tradição na confraria, iniciamos os trabalhos com um Dom Perignon P3, nada mau!. Este conforme o contrarrótulo, passou 25 anos sur lies. Portanto, recebeu a rolha definitiva em 1995. Mesmo assim, já se passaram mais de 20 anos arrolhado. Ainda com borbulhas num sentido mais frisante, porém com um vinho-base de alta qualidade. Os sabores cítricos, mel, frutas secas, e brioche, explodiam na boca. Mousse ultra delicada e bastante expansivo em boca. Quase 50 anos muito bem vividos!

img_5096safras bem distintas

Na foto acima, além de 96 não ser uma grande safra para o Chateau, a garrafa estava prejudicada. No mínimo, uma leve oxidação. Os aromas terciários já estavam bem desenvolvidos, mas o final de boca era seco, praticamente sem fruta. Em compensação, o Lafleur 95 estava um deslumbre, embora extremamente novo. Ele tem 96 pontos Parker com previsão de apogeu em 2040. O que mais impressiona neste vinho é sua estrutura tânica. Taninos em profusão de textura notavelmente polida. Muita expansão em boca e um equilíbrio fantástico. Merece ser decantado por pelo menos duas horas.

img_5097safras abordáveis

Flight de vinhos muito agradáveis, já praticamente prontos para serem apreciados. A safra 97 mais precoce, tem seus terciários bem fundido com a fruta, um vinho macio, mas sem grande persistência. Já o Lafleur 99 tem mais estrutura. Também já muito agradável, mas tem alguns anos para envelhecer. Taninos polidos e um belo equilíbrio. Os dois acompanharam bem o Stinco de cordeiro desossado com polenta, foto abaixo.

img_5095cozinha clássica e precisa

Abaixo, o flight mais esperado com o estupendo Lafleur 82. Os dois vinhos são bem pontuados e estão próximos de seus respectivos apogeus. Os aromas terciários do 88 são encantadores com toques de terrosos, de torrefação e algo de couro. O Lafleur 82 tem todos esses terciários, mas ainda uma fruta vibrante lembrando compota de ameixas. Em boca, continua a superioridade em relação ao 88 com mais expansão e taninos ainda presentes, embora de textura irrepreensível. De fato, características de um verdadeira nota 100.

img_5098o flight mais esperado

Devido a um confrade desavisado, tivemos que provar um La Fleur-Petrus 1970. Ele confundiu o nome do vinho nesta degustação, mas ninguém reclamou. Novamente 70 abrindo e fechando o almoço. O vinho estava divino com todos aqueles terciários maravilhosos do Bordeaux: couro, tabaco, especiarias, torrefação e um fundo mineral. Totalmente resolvido, estava em plena forma. Este Chateau está tão perto do Petrus como o Lafleur, mas seu corte de uvas segue a tradição de Pomerol, 80% Merlot e 20% Cabernet Franc. Estilo bem distinto de seus vizinhos com muita sensualidade da Merlot.

img_5099velhinho em plena forma

Nessa altura do campeonato, o pessoal ainda estava com sede. Não teve jeito, tivemos que abrir uma Double Magnum de Lafleur 1990. Não estava tão pronta como o 82, mas muito mais acessível que o 95. Embora seu apogeu esteja previsto para 2040, este exemplar com 97+ pontos Parker estava bem agradável no momento. Seus taninos são de seda e um equilíbrio fantástico em boca. Ainda pode desenvolver certos aromas, mas seus terciários bem mesclados com a fruta já são deliciosos. Acompanhou muito bem o contrafilé ao ponto assado em forno josper do restaurante Parigi. Aliás, um belo serviço de vinho e mesa.

os taninos agradeceram o ponto da carne

Como ninguém é de ferro, chegou a hora da sobremesa. Em mais uma tradição da confraria, Porto Vintage tem que ser 1963. Um belo Taylor´s devidamente decantado e com os aromas e sabores condizentes de um Porto com mais de meio século. Neste estágio, os taninos estão resolvidos e os aromas plenamente desenvolvidos. Acompanhou divinamente o tiramisu da casa “comme il faut”.

olha a cor deste 63!

Estava difícil de sair da mesa, pois sua majestade Yquem pede passagem. A safra de 90 é praticamente perfeita com um vinho complexo e de longa guarda. Esta garrafa em questão já estava relativamente evoluída com seus deliciosos aromas de mel resinoso, compota de damascos, figos, e toques de curry. Seu equilíbrio entre álcool, açúcar e acidez é notável. Acompanhou bem a clássica tarte tatin do Parigi.

a sublimação da doçura

Ainda deu tempo para mais um dedo de prosa com um Jurançon, famoso vinho doce do sudoeste francês com a uva Petit Manseng colhida tardiamente. Neste exemplar da foto abaixo, temos o mestre do Loire, Didier Dagueneau, com seu fabuloso Les Jardins de Babylone safra 2004.

img_5106mais uma joia da França

Este é um vinhedo de apenas três hectares com a uva Petit Manseng de difícil cultivo e amadurecimento. Elas são colhidas perfeitamente maduras com ótimos níveis de acidez e açúcar. O vinho mostra deliciosas notas de mel, de frutas cítricas, Gran Marnier, e um frescor muito agradável equilibrando perfeitamente o açúcar. Sem nenhum sinal de decadência, tem fôlego para mais alguns anos em adega. 

Por fim, restam os agradecimentos a todos os confrades pela enorme generosidade, além da conversa sempre animada. O tema foi extremamente didático e criativo, já que Lafleur não é dos vinhos mais badalados, se comparado a outras estrelas de Pomerol. Que Bacco sempre nos proteja e nos guie para novas descobertas! Saúde a todos!

Bordeaux e seus anos Dourados

16 de Julho de 2018

Os anos 80 foram ótimos para Bordeaux, especialmente com a mítica safra de 82, uma das melhores do século XX. Tirando 84 e 87, safras de poucas emoções, o restante tem muita coisa boa. Neste almoço, demos atenção à dobradinha 89/90, anos de vinhos gloriosos com bom potencial de guarda. Difícil afirmar taxativamente a superioridade de um desses dois anos, embora a safra 90 desperte maior glamour. Entretanto, 89 pode surpreender e ganhar esta disputa. Tire suas próprias conclusões com os vinhos abaixo.

img_4864la vie en rose …

Como de costume, algumas borbulhas para atiçar as papilas são bem-vindas, ainda mais com um Dom Pérignon Rosé 2003. Neste exemplar, temos 60% de Pinot Noir e 40% de Chardonnay. Nesta porcentagem de Pinot, temos uma parte de vinho tinto, dando a nuance e intensidade do rosé. É o chamado Rosé de Assemblage (5 a 20% de vinho tinto). Estilo elegante, muito frescor, mousse presente e cremosa. Tem um lado gastronômico, capaz de acompanhar muitos pratos à base de peixes, aves, e frutos do mar.

img_4869o terroir explica as diferenças

Voltando aos caldos bordaleses, vamos ao primeiro flight, o mais desigual em evolução e estrutura dos vinhos. Afinal de contas, tínhamos o rei Petrus na parada, um tinto sempre de estrutura e longevidade monumentais. Aqui percebemos de fato a força do terroir. Como é possível obter um Merlot com tamanha estrutura tânica, força, e austeridade. Nesta safra 90, temos um Petrus de 100 pontos com previsão de apogeu para 2054. Um tinto com uma força extraordinária  de frutas escuras, notas de cacau, chocolate, especiarias, e um toque terroso. Taninos massivos e extremamente finos. É imperativo decanta-lo por pelo menos duas horas. O infanticídio do almoço, sem dúvida. 

Vieux Chateau Certan 90 fez um par gracioso ao lado de sua Majestade, mostrando bela evolução ao longo de seus 28 anos. Um tinto pleno de aromas com um toque de margem esquerda, já que seu blend comtempla além da Merlot, Cabernet Franc, e Cabernet Sauvignon, pouco usual nestas paragens, nas seguintes proporções respectivamente: 65 a 70% Merlot, 25% Cabernet Franc, 5 a 10% Cabernet Sauvignon. Encontra-se no auge de sua evolução com toques de tabaco, couro, ervas finas e notas balsâmicas. Muito prazeroso neste momento. Os mesmos proprietários do badaladíssimo Le Pin, outro Pomerol de destaque.

img_4871embate de gigantes!

Este segundo flight só foi decidido no fotochart. Dois dos grandes Montroses lado a lado, safras 89 e 90. Duzentos pontos sobre a mesa e um punhado de dúvidas quanto à identificação. É intrigante como Parker pontua o Montrose 90 com 100 pontos e uma (?) interrogação entre parênteses. De fato, é um vinho bem evoluído no nariz e bem resolvido em boca, mas aquele toque de curral, animal, é mais acentuado que o 89, dando margem à possível presença de Brettanomyces (contaminação desta levedura no vinho, perdendo o poder de fruta, e acentuando toques terciários nos aromas). A sensação é que este exemplar de 90 está pronto, sendo temeroso guarda-lo por muito tempo. Já o 89 mostrou-se superior, pelo menos pessoalmente. A fruta está mais presente, sem perder seus toques terciários. Ele parece um pouco mais encorpado e com maior estrutura tânica. Seu apogeu pode atingir o ano 2060, segundo Parker. Pessoalmente, acho um pouco exagerado. O tempo dirá, mas que é um baita vinho, não tenho dúvidas. 

VCC à esquerda, Petrus à direita

Alguns pratos do restaurante Gero escoltaram essa tropa de tintos. O Capeletti in Brodo fez uma parceria exótica com o Pomerol VCC 90. Seus aromas evoluídos e sua textura mais delicada caiu bem com o brodo.

img_4873as duas margens em confronto

No útimo flight, um embate da safra 89 com dois vinhos de comunas diferentes, Saint-Emilion e Pessac-Léognan. O primeiro vinho, Chateau Tertre Roteboeuf, é um Grand Cru de Saint-Emilion, mas não está no grupo de elite. Localizado próximo aos Chateaux Pavie e Troplong-Mondot, sua primeira safra deu-se em 1978, relativamente recente. Embora seus vinhos partam de um corte clássico para esta apelação (80% Merlot e 20% Cabernet Franc), seu estilo é mais austero, aproximando-se do famoso Ausone. A safra 89 degustada, é uma das melhores de sua história com 95 pontos. Percebe-se em boca um vinho estruturado com riqueza da taninos de textura muito fina. Seus aromas já com boa evolução denota fruta madura, notas de especiarias e chocolate, além de um toque mineral. Bem mais acessivel que seu parceiro no flight, o delicioso La Mission Haut Brion com 100 pontos consistentes.

Com boa proporção de Merlot no Corte, sendo a Cabernet Sauvignon a uva majoritária, é um Pessac-Léognan com toques de estrebaria, ervas finas, chocolate, tabaco, e tantos outros aromas. Embora evoluído e bastante prazeroso, tem muita elegância e vida pela frente. Particularmente, achei esta garrafa um pouco mais evoluída que a média. A despeito de seus 100 pontos, ainda acho seu eterno rival e vizinho Haut Brion, insuperável nesta memorável safra 89.

risoto e a famosa coteletta

Mais alguns pratos entremeando os vinhos. O risoto de parmesão com molho de rabada por cima foi muito bem com a dupla de Montrose. Os toques terciários dos vinhos além da força de sabores, complementaram bem a intensidade e personalidade do prato. Já a Coteletta Milanese foi muito bem com a elegância do La Mission Haut Brion 89.

img_4880

Neste embate doce, o grande Yquem brilhou nos dois anos, 89 e 90. Difícil comparar a complexidade e longevidade destes dois exemplares. O da safra 90 parece ser mais equilibrado em acidez e menos opulento. Vai na ala dos Yquems mais elegantes. Sua acidez certamente o levará muito longe em adega. Já o 89 é mais opulento, mais glicerinado, parece ter mais Botrytis. É uma questão de gosto, mas o 89 pessoalmente, é mais persistente em boca.

a competência no salão do mestre Ismael e o jovem sommelier Felipe

O creme de mascarpone com chocolate, foto acima, foi um bom complemento para os dois Sauternes, respeitando a compatibilidade de textura na harmonização. Um final de prova delicioso com mais esta especialidade bordalesa, os divinos brancos de Sauternes e Barsac.

Enfim, mais uma bela oportunidade de provar e confrontar os belos tintos de Bordeaux, onde Chateaux e safras permitem um cem números de experiências e combinações formidáveis. Agradecimento aos confrades por mais este momento, numa prova sempre recorrente de amizade e generosidade. Que Bacco nos proteja sempre!

Festa bordalesa com certeza!

28 de Novembro de 2017

Dando prosseguimento ao inesquecível verão de 42, vamos agora entrar no time bordalês, liderado pelo rei Petrus. Para aquecer os motores, uma pequena prova às cegas: Montrose 89, Vieux Chateau Certan 90, e Mouton 90. É evidente que o Mouton deste ano ficou na rabeira. É misterioso como este vinho  consegue ser desapontador. O ano de 90 é maravilhoso, todos os outros Premiers têm pontuações altíssimas. Margaux é nota 100 e Latour outra maravilha, mas no caso do Mouton erraram a mão feio numa safra gloriosa. Tomado sozinho, é um vinho agradável, bem equilibrado, porém sem o punch de um grande Mouton. Isso fica muito claro quando comparado lado a lado com outros chateaux de mesmo ano. Falta meio de boca.   

gero margem esquerda

neste caso, a hierarquia se inverte   

Em compensação, O Montrose 89 é espetacular. Com notas sucessivamente aumentadas por Parker ao longo dos anos, Montrose tem a maciez e aquela explosão de frutas bem de acordo com a safra 89. Ele até chega a fugir um pouco de seu estilo mais austero e fechado. Tem grande presença em boca, taninos abundantes e ultra polidos, acidez na medida certa, e uma expansão final extremamente harmoniosa. O melhor de tudo, é que no ano seguinte repetiram a fórmula. Montrose 90 também é estupendo.

gero pomerol 89 e 90

o rei Petrus intimida os companheiros

O terceiro vinho, Vieux Chateau Certan 90 têm duas enormes vantagens. Esta muito prazeroso de ser tomado e tem um preço bem camarada para um Bordeaux 90 com aromas terciários. Ainda com um bom núcleo frutado, os aromas de tabaco e de couro são sedutores. Muito bem equilibrado, este Pomerol tem um certo jeitão de margem esquerda. Muito provavelmente, pela alta proporção de Cabernets, tanto Cabernet Franc, como Cabernet Sauvignon. Enfrentou bem o Montrose 89 (nota 100) por um preço bem abaixo. No máximo, metade do valor.    

gero bordaleses 89 e 90

a turma toda na foto

Após longa decantação, a magnum de Petrus 1989 foi servida. Na extensa fila de notas 100 do rei de Pomerol, Parker coloca o 89 no topo, junto com o 90 e 2000. Ao contrário do Montrose de mesmo ano, ainda não quer muita conversa. Troca algumas palavras e basta. Êta cara difícil!. O vinho tem uma força extraordinária. Parece que ele está preso numa camisa de força, pronto a explodir a qualquer momento. É por isso que Petrus é Pomerol, e não Merlot. Aquela montanha de taninos, aquela estrutura portentosa, não tem muita a ver com os Merlots comuns que esbanjam suavidade e maciez. Quem tiver paciência, estará diante de um dos maiores tintos já elaborados. Auge previsto para 2040. Proporcionalmente, bem mais acessível que o 90, um ano mais novo, com previsão para 2065. É meus amigos, o jeito é esquece-lo na adega.

gero linguine e ragu de coelho

linguine e ragu de coelho

Mais um belo prato do restaurante Gero, bela massa com molho substancioso. Sem modismos, sem frescura, comida com gosto de comida. Coisas de quem entendo do riscado.    

Por fim, ainda deu tempo de dar uma passadinha em 1978 com o fabuloso La Mission, outro colecionador de notas 100 de Parker. Este em questão tem 96 pontos com enorme vantagem de estar pronto e absolutamente delicioso. É sério candidato ao vinho da safra 78. Longe de qualquer indício de decadência, este La Mission tem aromas e sabores multifacetados com o típico tabaco, defumados, estrebaria, e outras cositas próprias de sua apelação Pessac-Léognan. O eterno rival e vizinho de parede do altivo Haut Brion. Parede é força de expressão, basta atravessar a rua.

Em resumo, uma aula de Bordeaux  com suas contradições e exceções. Senão vejamos, Montrose é um clássico Saint-Estèphe austero, mas a safra 89 quebra um pouco essa austeridade, dando suavidade ao vinho. Os dois de Pomerol fogem um pouco da costumeira maciez e feminilidade da apelação. Petrus, por características únicas de terroir e VCC, pela proporção de Cabernets.   

Ainda falando de Pomerol, este VCC 1990 seria mais austero com a maciça maioria de outros vinhos da comuna, sobretudo da precoce safra 89. Como ele bateu de frente com o Petrus 89, os papeis se inverteram. Ele virou a mocinha do casal. A situação faz o ladrão!

Senhores, caros confrades, mais uma vez meus agradecimentos. Essas aulas que vocês proporcionam valem muito mais que todos os livros e tratados sobre vinhos. Saúde a todos!


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