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Festa bordalesa com certeza!

28 de Novembro de 2017

Dando prosseguimento ao inesquecível verão de 42, vamos agora entrar no time bordalês, liderado pelo rei Petrus. Para aquecer os motores, uma pequena prova às cegas: Montrose 89, Vieux Chateau Certan 90, e Mouton 90. É evidente que o Mouton deste ano ficou na rabeira. É misterioso como este vinho  consegue ser desapontador. O ano de 90 é maravilhoso, todos os outros Premiers têm pontuações altíssimas. Margaux é nota 100 e Latour outra maravilha, mas no caso do Mouton erraram a mão feio numa safra gloriosa. Tomado sozinho, é um vinho agradável, bem equilibrado, porém sem o punch de um grande Mouton. Isso fica muito claro quando comparado lado a lado com outros chateaux de mesmo ano. Falta meio de boca.   

gero margem esquerda

neste caso, a hierarquia se inverte   

Em compensação, O Montrose 89 é espetacular. Com notas sucessivamente aumentadas por Parker ao longo dos anos, Montrose tem a maciez e aquela explosão de frutas bem de acordo com a safra 89. Ele até chega a fugir um pouco de seu estilo mais austero e fechado. Tem grande presença em boca, taninos abundantes e ultra polidos, acidez na medida certa, e uma expansão final extremamente harmoniosa. O melhor de tudo, é que no ano seguinte repetiram a fórmula. Montrose 90 também é estupendo.

gero pomerol 89 e 90

o rei Petrus intimida os companheiros

O terceiro vinho, Vieux Chateau Certan 90 têm duas enormes vantagens. Esta muito prazeroso de ser tomado e tem um preço bem camarada para um Bordeaux 90 com aromas terciários. Ainda com um bom núcleo frutado, os aromas de tabaco e de couro são sedutores. Muito bem equilibrado, este Pomerol tem um certo jeitão de margem esquerda. Muito provavelmente, pela alta proporção de Cabernets, tanto Cabernet Franc, como Cabernet Sauvignon. Enfrentou bem o Montrose 89 (nota 100) por um preço bem abaixo. No máximo, metade do valor.    

gero bordaleses 89 e 90

a turma toda na foto

Após longa decantação, a magnum de Petrus 1989 foi servida. Na extensa fila de notas 100 do rei de Pomerol, Parker coloca o 89 no topo, junto com o 90 e 2000. Ao contrário do Montrose de mesmo ano, ainda não quer muita conversa. Troca algumas palavras e basta. Êta cara difícil!. O vinho tem uma força extraordinária. Parece que ele está preso numa camisa de força, pronto a explodir a qualquer momento. É por isso que Petrus é Pomerol, e não Merlot. Aquela montanha de taninos, aquela estrutura portentosa, não tem muita a ver com os Merlots comuns que esbanjam suavidade e maciez. Quem tiver paciência, estará diante de um dos maiores tintos já elaborados. Auge previsto para 2040. Proporcionalmente, bem mais acessível que o 90, um ano mais novo, com previsão para 2065. É meus amigos, o jeito é esquece-lo na adega.

gero linguine e ragu de coelho

linguine e ragu de coelho

Mais um belo prato do restaurante Gero, bela massa com molho substancioso. Sem modismos, sem frescura, comida com gosto de comida. Coisas de quem entendo do riscado.    

Por fim, ainda deu tempo de dar uma passadinha em 1978 com o fabuloso La Mission, outro colecionador de notas 100 de Parker. Este em questão tem 96 pontos com enorme vantagem de estar pronto e absolutamente delicioso. É sério candidato ao vinho da safra 78. Longe de qualquer indício de decadência, este La Mission tem aromas e sabores multifacetados com o típico tabaco, defumados, estrebaria, e outras cositas próprias de sua apelação Pessac-Léognan. O eterno rival e vizinho de parede do altivo Haut Brion. Parede é força de expressão, basta atravessar a rua.

Em resumo, uma aula de Bordeaux  com suas contradições e exceções. Senão vejamos, Montrose é um clássico Saint-Estèphe austero, mas a safra 89 quebra um pouco essa austeridade, dando suavidade ao vinho. Os dois de Pomerol fogem um pouco da costumeira maciez e feminilidade da apelação. Petrus, por características únicas de terroir e VCC, pela proporção de Cabernets.   

Ainda falando de Pomerol, este VCC 1990 seria mais austero com a maciça maioria de outros vinhos da comuna, sobretudo da precoce safra 89. Como ele bateu de frente com o Petrus 89, os papeis se inverteram. Ele virou a mocinha do casal. A situação faz o ladrão!

Senhores, caros confrades, mais uma vez meus agradecimentos. Essas aulas que vocês proporcionam valem muito mais que todos os livros e tratados sobre vinhos. Saúde a todos!

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Petrus x Médoc

31 de Outubro de 2017

Mais um belo jantar preparado pelo Chef Laurent Suaudeau, um dos mais clássicos franceses radicado em nosso país, escoltando cinco bordaleses de primeiro escalão num bom momento de evolução em garrafa de safras não tão badaladas. É nessas horas que vemos toda a categoria desses vinhos e sua capacidade de envelhecer longamente em adega. Antes porém, um Champagne e um Meursault fizeram as honras da casa recepcionando os convivas.

champagne e bottarga

Na foto acima, Louis Roederer Cristal Rosé 2005 em Magnum. Um dos diferenciais deste incrível champagne é ser elaborado com maceração pelicular da Pinot Noir, ou seja, um rosé de saignée. Na grande maioria dos champagnes rosés, o método normalmente usado é de assemblage, misturando um pouco de vinho tinto no mosto incolor apenas para tingi-lo devidamente. Além disso, sua categoria Brut está no limite do açúcar residual permitido, entre 11 e 12 gramas por litro. O blend é feito com 70% Pinot Noir e 30% Chardonnay. O vinho permanece cerca de quatro anos sur lies antes do dégorgement. O resultado é um champagne de estrutura, macio, com a elegância da Maison acima de tudo. Mousse muito delicada e um final harmônico, mesclando frescor e uma sensação off-dry. Acompanhou bem uma das entradas (foto acima), lâminas de bottarga com purê de batata, mostrando personalidade. 

bisque de camarão e Meursault. Hum !!!

Nesta combinação tem um pequeno detalhe. O Meursault é do Roulot e a bisque, do Laurent. Isso pode fazer uma enorme diferença. Este Premier Cru Le Porusot tem uma diminuta área de 0,42 hectare. Seu estilo é muito mineral, um toque alimonado, e uma textura não tão untuosa como um Lafon, por exemplo. A porcentagem de barrica nova no processo é bem pequena, da ordem de 15 a 20%. Muito equilibrado, super bem acabado e complementou divinamente uma das entradas (foto acima), panelinha de vongole e camarão. 

Nessa altura do campeonato, todos já olhando para os decanters na mesa de apoio com os cinco vinhos devidamente livres de seus sedimentos.

carlos lafite e margaux 79

safra que pode surpreender

Abrindo os trabalhos, lado a lado, Lafite e Margaux com quase 40 anos. O Lafite 79 mostrou toda a evolução de um grande Bordeaux. Aromas terciários plenos, taninos polimerizados, um toque de cedro muito elegante. Enfim, o vinho mais pronto no momento e com incrível prazer. É sem dúvida, o mais delicado e elegante entre os grandes Pauillac. Já o Margaux 79, surpreendeu positivamente. Uma safra que muita gente não dá bola, mas no caso de Margaux apresenta grande estrutura. Seus taninos ainda não estão totalmente resolvidos. Os aromas muito elegantes do Margaux lembram um toque floral e de sous-bois, entre outros. Já pode ser bebido, mas evolui por pelo menos cinco anos. Tem 93 pontos Parker.

carlos mouton 87 e latour 94

a força de Pauillac

Neste segundo flight, a maior disparidade. Tanto em evolução, como diferenças de safra. Mouton 87 numa safra com muitos problemas. Por ser uma safra relativamente precoce e sem muita concentração, seu melhor momento certamente passou. Ainda longe de qualquer indicio de oxidação, não foi tão longo em boca. Já o Latour 94, foi o infanticídio da noite. Outra safra não muito badalada, mas com 94 pontos Parker. Cor ainda escura, aromas um pouco fechado, foi se abrindo aos poucos. Uma montanha de taninos para ser trabalhada ao longo do tempo. Aromas clássicos com um toque de cassis, couro fino, mineral, e tabaco. Longo em boca, precisa dormir pelo menos mais dez anos em adega. Latour é Latour.

carlos bouef bourguignon

boeuf bourguignon comme il faut

Acima, um dos pratos do mestre Laurent, o clássico cozido borgonhês para cutucar um pouco os bordaleses. Sem nenhum problema de harmonização, quando já bem evoluídos, os bordaleses pegam um pouco a delicadeza da Borgonha.

carlos petrus 80

um dos mitos de Bordeaux

Abram alas para sua majestade, Rei Petrus. É mais ou menos assim que pensamos quando ele chega à mesa. Para começar, esta safra mostra uma boa estratégia para aqueles que desejam prova-lo  pelo menos uma vez. Não é tão cara como outras safras badaladas e tem a vantagem de estar pronto, sem muitas arestas. Com seus 37 anos, é muito prazeroso de toma-lo. Ainda com muita fruta, toques terrosos e de adega úmida, seus taninos são sedosos, e um final complexo. Pela expectativa da safra, surpreendeu positivamente. Além disso, título do artigo, enfrentou sozinho os quatro da margem esquerda com altivez.

Ainda deu tempo de dar um pulinho na safra 99 com dois grandes chateaux, Haut-Brion de Graves, e Ausone de Saint-Emilion.

carlos ausone e haut brion 99

já chegando nos seus 20 anos!

Outra safra que muitas vezes passa esquecida em Bordeaux. Os dois chateaux acima ainda muito novos, provando mais uma vez a enorme longevidade desses vinhos. Haut-Brion sempre prazeroso com seus toques terrosos e de estrebaria. Segue o perfil elegante, não muito encorpado, mas extremamente equilibrado. Devidamente decantado por duas horas, pode ser muito agradável no momento. Já o Ausone, foi outro infanticídio. Um vinho com 95 pontos Parker de taninos abundantes e muito finos. Fruta escura concentrada, um toque mineral esfumaçado, faltando claramente integração entre seus componentes. Lembra um pouco os aromas do Troplong Mondot, outro grande St-Emilion. Com a devida paciência, será um dos grandes Ausones, fechando o século passado.

carlos yquem 87

o melhor final de festa bordalês

Falar que Yquem é um grande Sauternes, um vinho maravilhoso, é chover no molhado. O que novamente surpreendeu positivamente neste exemplar foi a safra 87, outra vez pouco badalada. Um vinho pronto, não muito untuoso, mas com aromas delicados e muito harmônicos. Um toque sutil de mel, caramelo e marron glacé. Final não muito longo, mas extremamente prazeroso.

carlos noval vintage 1970

Madelaine, Porto e Latour ao fundo

Na foto acima, o brinde final. Quinta do Noval Vintage 1970 devidamente decantado. A cor é bem mais delicada que o decanter da foto, no caso Latour 94. Noval é uma Casa de elegância impar. Notas balsâmicas e de frutas em compota permeiam seus aromas. Boca ampla, de grande equilíbrio, e terrivelmente persistente. As madeleines não são de Proust, mas do mestre Laurent. Um Gran Finale!    

À Droite, s´il vous plaît!

2 de Setembro de 2017

Quando Miles no filme Sideways (entre umas e outras) tentou execrar a casta Merlot, esqueceram de informa-lo que um certo vinho de nome Petrus, utiliza quase integralmente esta uva. Imbecilidades à parte, o filme vale pela divertida história, enaltecendo a delicada Pinot Noir. Entretanto, mais do que Merlot, Petrus é acima de tudo um Pomerol. E esta palavrinha para os amantes de terroir diz tudo. Portanto, vamos à chamada Margem Direita de Bordeaux, procurar alguns amigos do Astro-Rei, e também alguns “intrusos” muito bem-vindos.

Tudo transcorreu num belo almoço entre amigos no restaurante Chef Vivi com quatro exemplares de primeiríssima linha das terras de Pomerol e Saint-Emilion. No meio da brincadeira, dois italianos de grande prestígio encararam os bordaleses de frente, sem se intimidarem. Na sequencia, vocês entenderão.

julio cristal 2004

Tudo na vida deveria começar com champagne e suas borbulhas mágicas. E como começou bem! Logo de cara, um Cristal 2004 da respeitabilíssima Casa Louis Roederer. Com leve predomínio de Pinot noir sobre a Chardonnay, esta Cuvée de Luxo passa cerca de cinco anos sur lies, tempo suficiente para conferir textura e complexidade ao conjunto. Seus aromas de pralina são marcantes e típicos. Merece com louvor 97 pontos. Nada mau!

alguns pratos do Chef Vivi

A posta de tainha devidamente grelhada com tubérculos levemente agridoces foi providencialmente escoltada pelo suntuoso Cristal 2004. Já a sopa de beterrabas ao lado, promoveu uma instigante combinação com os Merlots. Tanto a acidez dos vinhos, como o lado de fruta intensa desses tintos, foram bem reverberados com a sopa. Surpreendente!

julio apparita trotanoy e gomerie

grande expressão da Merlot em três versões

No primeiro embate de Merlots, um Saint-Emilion de garagem, um Pomerol do time de cima, e talvez o mais elegante Merlot italiano, L´Apparita 2004 da Azienda Castello di Ama, que dispensa apresentações. Apesar de seus mais de dez anos de vida, um frescor imenso, muita fruta vibrante ainda, aromas de cacau encantadores, e um estilo delicado de Merlot, sem perder a profundidade. Encarou com uma altivez impressionante o belíssimo Trotanoy 2005 de nota 98+, ainda muito tímido e fechado. Mesmo com mais de três horas de aeração, estava certamente numa fase de latência, onde o vinho se fecha por um certo período, para mais tarde desabrochar e justificar seu enorme carisma. Trotanoy pertence ao grupo de vinhos de Christian Moueix, dono do Petrus, e está certamente no Top Five dos grandes Pomerols.

O terceiro do flight era o Chateau La Gomerie 2005, grande safra em Bordeaux, um “vin de garage” 100% Merlot. Tinto de micro produção com 800 caixas por ano. Foi sem dúvida, o mais prazeroso para ser provado no momento. Bela concentração de sabor, super equilibrado, inclusive em termos de madeira, já que passa 100% por barricas novas. É o tal negócio, quando o vinho tem estrutura, a barrica lhe faz muito bem. 95 pontos bem referendados.

julio masseto e clinet

concentração e força neste duelo franco-italiano

Finalmente, um embate de gigantes, sobretudo em termos de estilo e potência. Do lado italiano, Masseto 2007, um Merlot de Bolgheri, de terroir com influência marítima, próximo ao mar Tirreno. Costuma ser um tinto mais muscular, sem contudo perder a elegância e equilíbrio. Muita concentração, muita vida pela frente, mas já encantador. Fez bonito diante de seu rival francês, Chateau Clinet 2009, 100 ponto Parker. Não é muito meu estilo de Pomerol, mas o vinho apresenta uma estrutura impressionante com taninos mastigáveis. Certamente, um infanticídio. Seu auge está previsto para 2040.

julio chef vivi ancho e legumes

bife ancho com legumes

O prato acima foi providencial para este ultimo flight onde intensidade de sabores, textura mais corpulenta, e taninos mais presentes, deram as mãos para este bife ancho suculento com legumes e redução de balsâmico. Belo fecho de refeição com sabores e texturas plenas.

julio VCC 1990

aos 27 anos o patinho feio vira cisne

Deixamos para o final, delicadeza, elegância, sutileza. Encerrando em grande estilo, um Pomerol da safra 1990, Vieux-Chateau-Certan. Pertencente à família Thienpont, proprietária também do exclusivíssimo Le Pin, este Pomerol de vinhas antigas (mais de 50 anos), apresenta um corte inusitado, lembrando de certa forma, um Margem Esquerda. 60% Merlot, 30% Cabernet Franc, e 10% Cabernet Sauvignon. A alta pedregosidade do solo explica esta proporção acentuada de Cabernets. O vinho encontra-se no auge com seus aromas terciários já desenvolvidos, sugerindo tabaco, couro, toques balsâmicos e terrosos. Enfim, a magia dos grandes Bordeaux envelhecidos. Joanna Simon, grande escritora inglesa, sugere um autêntico Camembert não muito evoluído e na temperatura ambiente para apreciação desses vinhos num final de refeição.

julio fargues 2004

rótulo belíssimo!

Como ninguém é de ferro, que tal um Chateau de Fargues 2004 para encerrar o sacrifício! Tirando o todo poderoso Yquem, Fargues para muitos é a segunda opção, e das mais seguras. Pertencente à mesma família Lur Saluces, Fargues também é nome da comuna contigua à Sauternes, formando este terroir abençoado pela Botrytis Cinerea. Este provado, estava super delicado, um balanço incrível entre acidez e açúcar, além de toda a complexidade aromática e textura inigualável desses brancos sedutores. Nem precisou de sobremesa, tal sua persistência aromática e expansão em boca.

Resta-me somente agradecer aos amigos, especialmente ao Julio por sua imensa generosidade, proporcionando momentos tão agradáveis e ao mesmo tempo, didáticos no aprendizado de Bacco. Vida longa aos confrades!

De vez em quando a gente vai pro céu …

10 de Junho de 2017

A morte é uma viagem sem volta, mas para dar uma olhadinha no céu e voltar, vale a pena. Um dos atalhos mais seguros nesta vereda são os grandes Bordeaux. E neste almoço de comemoração de um dos confrades, as passagens para o céu estavam reservadas. Nas boas vindas ao paraíso, que tal um Dom Pérignon 1971 Oenothèque degorjado em 2006! Fora da nomenclatura atual, trata-se de um P3 (terceira plenitude), dentro do conceito da casa de manter por longo tempo o vinho em contato com as leveduras. Para atingir o nível máximo, somente as melhores partidas de cada ano têm estrutura e folego para tal fim.

o pulo do gato: 35 anos sur lies

E este P3 estava divino. Não há adega no mundo que conserve tão bem um champagne como a proteção natural das leveduras na garrafa (contato sur lies). Além de conferir complexidade e textura inigualáveis, as borbulhas se mantêm vivas, presentes, e ultra delicadas. Uma maravilha de sabor mesclando leves toques amanteigados, cítricos de toda sorte e algo como pêssegos confitados. É como estar nas nuvens.

gero haut brion 89 double magnum

o paraíso existe!

Para começar a brincadeira, foi aberta uma Double Magnum de Haut Brion 1989, 100 pontos indiscutíveis, que permeou todo o almoço. Sabe aquele vinho que ainda não está pronto, que ainda vai durar por décadas, mas que mesmo assim já é maravilhoso, este é o Haut Brion 89, prazer em conhece-lo. Pensem em aromas complexos, taninos ultra finos, profundidade, equilíbrio, e persistência, notáveis. Realmente, excepcional!

briga de gente grande

Para um primeiro confronto, duas taças lado a lado: Latour 1988 e Margaux 1990. O primeiro, não está entre os grandes Latours, mas é um Latour. Isso por si só, já o credencia a um vinho brilhante. Ainda novinho e uma montanha de taninos a serem lapidados por longos anos em adega. A estrutura de um Latour faz dele o senhor do Médoc. Já o Margaux 1990 foi o infanticídio do almoço. Praticamente um feto, tímido, tentou se soltar aos poucos, mas ainda sem pernas para caminhar sozinho. Digamos assim, um monstrinho engarrafado. Contudo, não tenham dúvidas, será um dos grandes Margaux da história. Para quem não tem paciência, decanta-lo por pelo menos duas horas.

gero risoto de codorna

em sintonia com os bordeaux

Fazendo uma pausa com os vinhos, o delicioso almoço onde desfilaram vários pratos, o da foto acima, risoto de codornas com o próprio molho, foi o que mais harmonizou com os caldos bordaleses, sobretudo os mais delicados e de aromas terciários.

Já em outra Dimensão …

Agora totalmente no paraíso, chega a Santíssima Trindade: Haut Brion 1959, Margaux 1947, e o rei Petrus 1947. Para tudo! não se pontua, não se compara, só se aprecia. É neste estágio, que poucos vinhos se diferenciam dos demais, mesmo entre os grandes. A cor do Margaux 47 é simplesmente inacreditável, conforme foto abaixo. A imagem não precisa de palavras.

gero margaux 1947

um grande Bordeaux não mostra a idade

Novamente o Haut Brion em cena, e com a mesma consistência, elegância e classe. Que Bordeaux maravilhoso! onde o tempo só faz muda-lo de aparência com a pátina da idade. Um dos maiores da safra 1959, por sinal, meu ano.

como é bom envelhecer!

Passando a régua, Petrus 1947 com engarrafamento na Bélgica. Sim, naquela época uma parte do Petrus era engarrafada na Bélgica, onde as barricas eram exportadas. O “mis en bouteille au Chateau” não era tão rígido. Até mesmo os Cognacs, muitos deles eram mandados em barricas para envelhecer no porto de Londres, por exemplo. Engarrafamentos à parte, estava divino, muito longe daqueles Petrus fechados, que relutam em amadurecer. Este completamente desnudo, mostrando tudo que um vinho como esse é capaz de proporcionar. Ultra macio, equilibradíssimo, com tudo no lugar. Seus aromas terciários remetiam a uma floresta de cogumelos. Finalmente, um Petrus no ponto de ser tomado.

gero latour 82

O Senhor do Médoc

Saindo um pouco do céu, mas ainda no paraíso, mais um nota 100 entra em cena para fazer par com o Haut Brion 89, Chateau Latour 1982, uma legenda de vinho. Com muito fôlego pela frente, já se mostra extremamente prazeroso com toda aquela imponência que lhe é peculiar. Notas de couro fino, tabaco, o clássico cassis, e um mineral estupendo. Foi muito didática a comparação dessas duas comunas (Pauillac e Pessac-Léognan) em termos de terroir, sobretudo por questões de solo e de blend. Onde a participação da Merlot no Haut Brion é mais enfática, e em contrapartida a participação da Cabernet Sauvignon, imperativa no Latour, percebemos claramente a maior robustez deste emblemático Pauillac. A preferência aqui é antes de mais nada, pessoal. Dois monumentos da margem esquerda.

gero bas armagnac 1959

taças: a tradicional e a técnica

Após muito papo, sobremesa e cafezinhos, a festa tem que continuar. E agora, já fora da mesa. O grande sommelier do grupo, mestre Beato, nos presenteou com um Bas Armagnac da safra 1959, engarrafado em 1987. O Domaine Boingnères é um dos mais reputados nesta apelação. Aliás, Bas-Armagnac é o melhor terroir da região, moldando as aguardentes mais finas e delicadas. O longo tempo de permanência em barricas de carvalho diluiu completamente o excesso de álcool inicial, sem necessidade de retificação com água. É a chamada parte dos anjos (part des anges), onde a evaporação natural nas adegas faz perder cerca de meio grau alcoólico por ano. Não havia melhor bebida para encerrarmos mais esta orgia.

gero partagas lusitanias gran reserva

aqui se separa os homens dos meninos

Os Puros evidentemente, escoltaram devidamente este néctar, o qual foi lentamente sorvido. Um dos Havanas em destaque, foto acima,  foi o Partagas Lusitanias Gran Reserva. De grande fortaleza e persistência, seus tabaco é envelhecido por pelo menos cinco anos. Esse em questão, um Double Corona, é da safra 2007.

O que mais dizer senão agradecer a todos, pela companhia, energia positiva, e grande generosidade dos confrades. Parabéns Moreira! Vida longa!

A inesquecível seleção de 82

19 de Março de 2017

Eu também lembro do Zico, Sócrates, Falcão e tantos outros craques. Seleção que marcou época, mas não levou. Entretanto, outro time de estrelas lá da França continua batendo um bolão. São os Bordeaux desta mítica safra em plena forma. Tudo isso para comemorar o aniversário de um grande confrade, que tanto no pessoal, como no profissional, parafraseando o Faustão, merece vinhos deste quilate.

montrachet drc 1989

tudo que um Chardonnay quer ser quando crescer

Sabedor do tema, além de grande conhecedor de vinhos, não deixou por menos. Logo de cara, sem muito alarde como é de seu feitio, serviu de entrada um estupendo Montrachet DRC 1989. Lapsos à parte, não me recordo de provar um DRC tão impressionante  e acima de tudo, tão bem adegado. A cor já de certa evolução lembrava de algum modo Sauternes. Inclusive no aroma, tinha uma pontinha de Botrytis. Multifacetado, notas de damasco, frutas secas, mel, um fundo tostado, marron glaçé, esses aromas permeavam e se entrelaçavam nas taças. O tom do almoço estava dado.

caviar beluga

o brilho do ouro negro

Antes dos tintos porém, outra surpresa. Porções generosas de caviar iraniano Beluga com champagne rosé. De fato, não é uma harmonização fácil. Pessoalmente, acho que nada se compara a uma autêntica vodka gelada (-20°C), cortando com competência o intenso sabor da aguaria. Insistindo no vinho, vale a experiência de defronta-lo com um Riesling extremamente seco e mineral da Maison Trimbach, o fabuloso Clos Ste-Hune. Nosso confrade Ivan, apreciador destes alsacianos, pode se encarregar deste desafio.

ristorantino margaux pichon

quando o segundo escalão se destaca

Feitas as considerações iniciais, vamos ao desfile que foi realizado por algumas duplas. Primeiramente, Chateau Margaux e Pichon Lalande. Este tinto de Pauillac é sério candidato ao status de Premier Grand Cru Classe. Especialmente nesta safra, Pichon Lalande mostra toda sua exuberância, equilíbrio e finesse. Um tinto encorpado, mostrando a força da comuna e de persistência muito longa. É sem dúvida, uma das referências desta safra.

ristorantino polenta com tallegio

polenta, taleggio e trufas

Já o Margaux, tem a desvantagem de não ser um grande ano para a comuna. A safra 83 é a grande pedida. Contudo, sua elegância e personalidade são notáveis. Talvez, a melhor garrafa desta safra que eu já tenha tomado. Foi muito bem com o prato de entrada, uma polenta com queijo taleggio e trufas  negras  complementando.

ristorantino mouton e cheval

destaques da safra 82

Teoricamente, o flight acima é pra ser campeão. Contudo, em safras antigas o que manda mesmo são as grandes garrafas. E essas, não eram das melhores. O que valeu no Mouton foi seu incrível aroma de cacau, chocolate, assim que a taça chegou. No mais, se mostrou um pouco cansado, sem o mesmo brilho de outros exemplares. Já para o Cheval, a conversa foi diferente. Embora aromaticamente outras garrafas degustadas fossem mais exuberantes, em boca estava uma seda. Taninos finíssimos, equilíbrio fantástico e aquela elegância típica dos grandes Chevais.

ristorantino la mission e haut brion

os eternos rivais

Neste embate, infelizmente não houve disputa. A garrafa do La Mission estava levemente bouchonné, e como não existe mulher meio grávida, não vou comentar este vinho. Em compensação, Haut Brion nunca decepciona. Que tipicidade! que personalidade! Sempre equilibrado, sóbrio e marcante, sem ser invasivo. Acompanhou muito bem o risoto de faisão com radicchio, foto abaixo.

ristorantino risoto faisao e radicchio

Neste momento, o auge da expectativa. Sua majestade, rei Petrus entra em cena. Sempre se espera um pouco mais deste mito de Bordeaux. Sempre discreto nos aromas, percebe-se lentamente, um toque mineral, terroso, um pouco de chocolate, não muito intensos. Em boca seus taninos são presentes e de ótima textura. Muito equilibrado, persistente, e com muita vida pela frente. No final ele diz: vamos dar tempo ao tempo.

Quanto ao Ducru, as coisas estavam meio complicadas. Não nos aromas, e sim na boca. Ele apresentava uma acidez um pouco agressiva que inclusive, prejudicava seus taninos. Parece ser um problema de garrafa, pois já provei belos exemplares desta safra. Normalmente, é muito elegante, não muito encorpado, e rico em nuances. Pessoalmente, é o que mais se aproxima dos Lafites.

ristorantino petrus e ducru

Petrus intimidou o elegante Ducru

Como não tinha ninguém para fazer par com ele, Latour fez uma apresentação solo. Ainda bem, pois roubou a cena. É temeroso certas afirmações, mas Latour é o rei do Médoc. A consistência, a concentração, a personalidade, que este tinto entrega safra após safra é impressionante. E este 82, só mesmo o monumental 61 para superá-lo. Os aromas seguem um pouco a discrição do Petrus, mas os toques de cassis, especiarias, chocolate, e seu inconfundível toque de pelica(couro), são notáveis e marcantes. A boca une potência e elegância como poucos, culminando numa persistência de longa duração.

ristorantino latour

Nota 100 com louvor!

Fechou o almoço comme il faut!, acompanhando um tenro cabrito ao forno com ervas, guarnecido por um tagliolini al dente. Os taninos do Latour foram devidamente abrandados pela fibrosidade e suculência da carne.

ristorantino cabrito e massa

carne e massa perfeitos

Encerrando a orgia, o nível se manteve alto. Um Yquem 1990, quase uma criança ao lado de um grande Madeira do século XIX. Falar de Yquem é retórica, é o rei dos vinhos botrytisados, decantado em prosa e verso. Este da safra 90 tem 99 pontos. A própria classificação de 1855 já segure sua superioridade, separando-o dos demais chateaux.

ristorantino vinhos doces

vinhos que atravessam décadas …

Madeira sim, esse precisamos falar. Um dos vinhos mais injustiçados e esquecidos pela maioria dos consumidores. Se existe um vinho capaz de atravessar séculos, este vinho é o autêntico Madeira. Existem quatro tipos nobres relacionados com suas respectivas uvas e em grau de doçura crescente: Sercial, Verdelho, Boal e Malmsey. Os dois primeiros vão muito bem com sopas exóticas e patês de caça. Já Boal e Malmsey acompanham bem os doces, sobretudo bolos e tortas de frutas secas como nozes e tâmaras.

Chegando ao nosso Madeira, Terrantez é a quinta uva nem relacionada atualmente. Encontra-se praticamente extinta na ilha. Seus vinhos são de uma acidez notável e seus aromas etéreos se proliferam na taça. Sua doçura fica entre o Verdelho e Boal. É o grande Madeira a ser desvendado. A raridade deste vinho e o respeito que o cerca, provocam alguns ditados como este: “Se tiveres uvas Terrantez, não as comas nem as dês, pois para o vinho Deus as fez”. Como se vê, terminamos no céu …

Abraços a todos os confrades, sobretudo ao aniversariante, que reflete vivamente a qualidade e longevidade dos vinhos desfilados. Vida longa a todos!

Os Históricos Bordeaux 1982

14 de Novembro de 2016

É muito comum serem mencionadas safras “históricas” em regiões vinícolas europeias de grande prestigio, sobretudo em Bordeaux. As especulações são inevitáveis já que esses vinhos são verdadeiras comódites no mercado financeiro, funcionando de certo modo como uma forma de investimento. Depois de alguns anos com a poeira assentada, fica mais claro separar o joio do trigo.

bordeaux-82

Dream Team: Lafleur em Magnum

Dentre essas safras “históricas”, existem aquelas que são mais históricas. Uma delas por exemplo é a de 1982, equiparada a anos como 1945, 1947, 1959 e 1961, para ficarmos no século XX. O abençoado ano de 1990 onde foi praticamente impossível se fazer vinhos ruins na Europa, ainda não emplacou definitivamente neste seleto rol, talvez por não estar totalmente pronta, no auge de sua evolução, principalmente para os grandes Bordeaux.

Dito isso, defrontamos quatro belos Bordeaux 82, dois margem esquerda, e dois margem direita, num embate de gigantes. Falar de vencedores é uma questão muito mais pessoal do que técnica. Cada qual fiel a seu terroir, a seu estilo, mas todos inteiros e impecáveis. Enfim, obras de arte não se comparam …

mouton-rothschild-82

o sonho de tomar um grande 82

Testados vários vezes, em várias épocas, e sempre muito consistente. Fico imaginando até quando esse platô de evolução vai se estender, pois ainda não há nenhum sinal de decadência. É muito fácil gostar deste vinho, mesmo para aqueles que tem problemas com taninos. Ele é sedutor nos aromas, macio em boca, muito equilibrado, e um final bastante longo. Sempre na elite dos campeões desta mítica safra.

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apelação Pessac-Léognan só em 1987

Pessoalmente, foi o que menos me impressionou, mas sem dúvida, é uma questão pessoal. Outra razão, foi a cruel comparação com os demais concorrentes ilustres. De todo modo, um perfil brilhante de Pessac-Léognan com seus aromas de estábulo e toques terrosos. Menos encorpado que o Mouton (Pauillac), é também de um equilíbrio notável. Taninos ultrafinos e longa persistência. Em comparação a seu grande rival, Chateau Haut-Brion, é um pouco mais potente e com menos elegância.

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inspiração para o rótulo americano Dominus

Apesar de estarmos falando de um margem direita na sub-região de Pomerol, é de uma austeridade impressionante. Lafleur é o único Pomerol comparável ao astro maior Petrus, não só pela fleuma e estilo mais introvertido, mas também por seu incrível poder de longevidade. Esta safra em particular, uma das mais perfeitas de sua história, foi elaborada por Jean-Claude Berrouet, o famoso enólogo de Petrus, com apenas 10% de barricas novas.

Seu solo é muito particular e multifacetado, mesclando argila, areia e importante pedregosidade. Com isso, seu corte de uvas também é único e bem especifico com Merlot e Cabernet Franc pareando as porcentagens. Talvez a presença importante da Cabernet Franc lhe forneça essa espinha dorsal e estrutura  incomuns para um típico Pomerol, mais calcado na Merlot.

Esta safra de 1982 considerada perfeita, é de uma cor impressionantemente jovem e intensa. Os aromas se desenrolam pouco a pouco na taça com forte presença mineral, frutas escuras, e toques de chocolate amargo, lembrando cacau. Deve ser obrigatoriamente decantado por pelo menos uma hora. O boca é de um pujança extraordinária, vislumbrando ainda bons anos de guarda. Um vinho realmente impressionante. Como conselho, se você tiver uma garrafa deste Chateau com menos de quinze anos, não abra. A paciência irá lhe recompensar, certamente.

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o singelo rótulo num vinho sofisticado

Reparem que no rótulo não está escrito Chateau. Realmente, a simplicidade  e a aparência mal cuidada de sua construção confirmam esta observação. O solo extremamente argiloso faz da Merlot praticamente seu território único com quase 100% do plantio, de vinhas muito antigas. As condições particulares deste terroir dão uma imponência, uma austeridade, e uma introspecção ao vinho, que o diferencia de maneira inconteste de todos os outros Pomerols.

Como curiosidade, a argila azulada de Petrus é rica em ferro, gerando vinhos com intensidade de cor marcante. Além disso, não há como aumentar a densidade de plantio das vinhas que fica em torno de 7000 plantas/hectare. A explicação vem de um subsolo extremamente duro onde a camada de argila para a ramificação e expansão das raízes é de apenas 70 centímetros, ou seja, pouca profundidade para uma competição entre as vinhas mais acirrada.

Além de uma boa conta bancária, você precisa de muita paciência para esperar seu Petrus acordar. Os infanticídios com este vinho mundo afora são rotineiros. Nesta safra em particular, ele não tem a potência de seu concorrente Lafleur, mas sobra elegância e finesse. O grande trunfo de 82 é que Petrus conseguiu se soltar, mostrando aromas terciários muito finos e de rara sutileza. Não é um vinho óbvio, mas sua sedosidade contrasta magnificamente com seu lado cerimonioso. Talvez por não ser uma safra especificamente concentrada, seu desabrochamento chegou mais cedo, concedendo prazer e expectativa esperados. Grande vinho!

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Esta é a cor do Lafleur 1982. Acreditem!

Como se não bastasse esses quatro prazeres em si, tivemos que analisa-los em duas taças não menos espetaculares e bem merecedoras destes grandes caldos. Riedel Sommeliers versus Zalto Bordeaux, num embate de titãs entre duas excepcionais cristalerias  austríacas.

Riedel Sommeliers é uma linha de taças maravilhosas com um bojo de 860 ml de capacidade para o modelo Bordeaux Grand Cru. Aromaticamente, mostra-se muito sutil captando aromas multifacetados dos mais complexos tintos bordaleses. Em boca, procura mostrar a essência de um grande Bordeaux com texturas delicadas, sem perder o frescor.

Zalto Bordeaux, como toda taça Zalto, é de uma leveza incrível, além da ínfima espessura do cristal. Dá medo de tocar na taça, tal a aparente fragilidade que ela transmite. Em relação à Riedel Sommeliers, seus aromas são mais concentrados, perdendo-se um pouco as nuances de vinhos mais sutis. Entretanto na boca, mostra com ênfase, o corpo e estrutura dos grandes Bordeaux, numa percepção ampliada da textura de seus finos taninos.

Qualquer que seja a escolha, você estará bem servido. De todo modo, é sem dúvida um diferencial, um detalhe relevante, quando se trata de vinhos de tamanha complexidade, em períodos de evolução onde as sutilezas devem sempre que possível, ser amplificadas.

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lingua com polenta cremosa

Eis um prato (foto acima) que muitos torcem o nariz, língua. Realmente, não é uma carne fácil de se trabalhar, mas quando bem feita, é digna dos mais finos tintos já com aromas evoluídos e taninos resolvidos. Foi o caso deste prato, do Nino Cucina, escoltado pelos Bordeaux acima comentados. O casamento foi perfeito pela delicadeza de sabores de ambos, prato e vinho. Em particular, Petrus agradeceu a parceria.

Bordeaux 1982

16 de Agosto de 2016

Logo de cara, um painel com oito Bordeaux 82 parece ser um paraíso, além de um porto seguro. Não foi exatamente o que ocorreu, embora como experiência, sempre prazerosa. Para começar, logo dois tintos bouchonée, um Léoville-las-Cases e um Lafleur. Uma pena, pois são dois belos 82. Outra decepção foi o Mouton 82, um pouco oxidado, cansado, longe do esplendor de uma boa garrafa.

bordeaux 1982

Bordeaux 82: rótulos de respeito

Felizmente, nem tudo é problema. Chega um Cheval Blanc divino, roubando a cena do almoço. Um margem direita delicado, elegante, soberbo, com todas as notas terciarias de um grande Bordeaux. Equilíbrio, taninos ultra finos, numa sinfonia de ervas finas, tabaco, couro, e incenso. Delicioso e talvez no seu melhor momento.

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a nobreza de um grande Cheval

Outro que fez bonito foi o altivo Haut-Brion. Sempre elegante, agradavelmente evoluído, mesclando frutas, ervas, especiarias, notas terrosas e o característico toque animal. Bem próximo do grande Cheval. É um grande parceiro para pratos com trufas.

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sempre espetacular

Fechando o trio do almoço, o consistente, o aristocrático, o imponente, Chateau Latour. Personifica com maestria toda a essência de um Pauillac. O cassis impressionante, as notas de couro e tabaco, e uma estrutura de taninos portentosa. E sempre com a marca Latour, quase atingindo seu apogeu. Extremamente prazeroso de ser tomado, mas com uma guarda ainda de pelo menos mais dez anos. Um monumental margem esquerda.

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o imponente Latour

Um destaque dentre os pratos do Maní é esta leitoa com abóbora num sabor bem brasileiro. Um prato saboroso pelo assado e os toques adocicados do molho, cebolas e abóbora cambotcham. Ficou muito bem com o grande Cheval, o qual tinha acidez para combater a gordura e não necessitava de taninos na harmonização, e sim delicadeza, o que tinha de sobra.

mani leitoa

Maní: leitoa com abóbora

Para encerrar o almoço, nada menos que um Climens 1990, com seus 27 anos de plena juventude. Que equilíbrio! que delicadeza!. É o grande nome de Barsac, moldando um estilo elegante e menos opulento que os demais Sauternes. O poder de fruta, os toques de botrytis e o ponto certo entre açúcar, acidez e álcool. Agradavelmente macio, intenso, e longo, num final lindo com notas de marron-glacê.

climens 90

a delicadeza em forma de Botrytis

A sobremesa abaixo do restaurante Maní é uma releitura do quindim. Proporcionou um contraste de texturas muito interessante com o Sauternes, além da sintonia de sabores. O vinho com sua delicada untuosidade caiu como uma calda para a sobremesa, valorizando a sensação de ambos, prato e vinho.

mani quindim

Maní: a releitura do quindim

Falando um pouco das decepções, Petrus 82 novamente uma surpresa. É bem verdade, que 82 não foi um grande ano para este enigmático chateau. Normalmente, o rei de Pomerol está sempre aquém de seu apogeu e muitas vezes, irritantemente fechado, não quer conversa. Neste caso não, estava sem graça. Agradável para beber, mas sem a complexidade esperada. Em algum momento, ainde pego ele de jeito.

Quanto aos dois Pichons, um supostamente falso, nenhum agradou em cheio. E olha que Pichon 82 para muitos, é o melhor 82 de todos, o que não é pouca coisa. O mais interessante é que o supostamente falso, estava melhor que o sem grandes predicados verdadeiro. De certo modo tem lógica. Ninguém vai fazer uma falsificação barata com este tipo de vinho. Não tem dúvida que o falsário é um grande degustador.

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a grande surpresa do almoço

Terminando pelo início, o vinho acima da Niepoort, notável casa do Douro, reputada pelos seus magníficos Colheitas, mostrou que agora existe o grande branco de Portugal. Ele foi servido às cegas ao lado de um Meursault-Perrières Leroy 1998. Deu um banho de elegância e sutileza, mostrando que as castas brancas do Douro quando bem trabalhadas, são capazes de fazer maravilhas. Fermentado em barricas francesas, essas vinhas entre 60 e 100 anos, geram vinhos profundos e sutis. Esse Dirk Niepoort sabe fazer vinho! E o nome Coche é de uma irreverência ímpar. Parabéns!

Agradecendo a companhia de todos presentes e lamentando a ausência de alguns, espero ve-los em breve para novos desafios e o bom papo de sempre. Abraço a todos!

Vinhos da Arca de Noé: Parte II

9 de Março de 2016

Saindo da arca de nosso Noé, segue agora o desfile de tintos, e que tintos!. Evidentemente, começamos pelos borgonhas. Na mais, nada menos, que DRC (Domaine de La Romanée Conti) e Madame Leroy. Em seguida, um ilustre intruso do Rhône (Jean Louis Chave). Na parte bordalesa, dois pares de margem direita (Clinet, Le Pin e Petrus), e finalmente, dois pares da margem esquerda (Latour e Haut-Brion). Então, vamos a eles!

leroy clos de la rocheElegância: marca inconteste de madame Leroy

Clos de La Roche é um dos Grands Crus de Morey-St-Denis. Tinto de raça e certa austeridade, mas nas mãos de Madame Leroy tem uma graciosidade ímpar. O 2001 mais típico, taninos macios, aromas minerais e de rosas muito bem delineados. 2003 mais robusto, concentrado, típico da safra. Taninos mais presentes e muito persistente no final de boca. Bela interpretação das duas safras.

la tache e richebourg

Safra e vinhos esplendorosos

Quando estamos diante de um DRC da safra de 90, precisamos de um minuto de silêncio para cair a ficha. Alguém ja disse que La Tâche é um dos maiores vinhedos sobre a terra. E não há dúvida, o vinho é de uma complexidade e equilíbrio em boca quase indescritíveis. Contudo, ainda não está totalmente pronto. Há alguns mistérios a serem desvendados. Por isso, neste momento, o Richebourg torna-se mais prazeroso. Nariz com toda a complexidade da Pinot Noir e boca absolutamente macia, deliciosa. Momento importante da degustação.

chaves hermitage

O melhor Hermitage: com ou sem H

Dizem que o grande Hermitage vem de produtores que mesclam um maior número de vinhedos da apelação. Pois bem, Jean Louis Chave possui o maior número de “Climats” para fazer esta mescla. Embora o Cuvée Cathelin à esquerda da foto seja um cuvée de partidas mais concentradas escolhidas a dedo,  seu Hermitage clássico à direita me agrada mais. Talvez por estar mais pronto. Contudo, estamos diante de um par sensacional da irrepreensível safra de 90. Os aromas de frutas escuras, minerais e de especiarias invadem nosso palato.

le pin e clinet

Pomerol em alto nível

A safra de 89 moldou grandes tintos em Bordeaux. E no caso de Pomerol, não podia ser diferente. Talvez tenha sido o flight menos acirrado do painel de tintos. Embora Clinet seja um belo Château, sobretudo nesta safra, a comparação é um pouco cruel. Le Pin esbanja elegância sem precisar usar força. É bem verdade que está mais pronto que seu concorrente, mas é extremamente prazeroso. Clinet ainda pode surpreender com mais alguns anos. É esperar para ver.

petrus 64 e 67

Raridade: Petrus em sua maturidade

Petrus é diferente de tudo em Pomerol. Talvez por isso reine isolado e chega a ser atípico para a apelação. Eu o chamo de Latour da margem direita. Embora com seus 50 anos, este par ainda tem pernas para andar muito. Vinho denso, muito estruturado e de longa persistência. Briga muito acirrada, mas pessoalmente, acho o 64 uma cabeça à frente.

latour 45 e 64

Latour: quase imortal

Falando em Latour, olha ele aí!. Os dois seguem o perfil do flight anterior. Densos, profundos, quase indestrutíveis. Toda a essência de Pauillac está nestas garrafas. O cassis, o mineral, a caixa de charuto, entre outros aromas. Pessoalmente, achei o 64 mais estruturado. Entretanto, pode ser a diferença de idade, já que 45 é um ano lendário. Na dúvida, fique com os dois.

bochecha de boi

último prato: bochecha de boi e purê de grão de bico

haut-brion 59 e 61

Haut-Brion: elegância ao extremo

Este último par pode não ter a estrutura, a pujança, o poder, de um Petrus ou um Latour, mas certamente sobra elegância. 1959, minha safra, era puro deleite. Tudo no lugar, tudo resolvido, e o melhor, num platô amplo de estabilidade. Nenhum sinal de declínio. O 1961, também com muito prazer, mas trazia a marca da safra. Ainda uma certa austeridade, com taninos presentes. Flight sensacional.

Calma, ainda não acabou. Temos a sobremesa, os charutos, e claro, mais vinhos. Mais um tempinho, no próximo artigo. Até lá!

Entre Amigos …

27 de Setembro de 2015

Oi pessoal! Peço desculpas por tanto tempo fora do ar, mas depois do AVC, uma dor nas costas insuportável. Tentando retomar novamente os artigos, vamos falar do último encontro entre amigos com vinhos de grande expressão.

A brincadeira foi provar às cegas seis tintos irrepreensíveis começando pelo Bordeaux abaixo. Mais uma vez, Mouton 82 esbanja potência e elegância. Taninos ultra polidos, um leque de aromas sensacional e aquela persistência aromática que deixa saudades. Felizmente, tive o prazer de tomar vários, sempre em grande forma. 

mouton 82

1982: Até o carneiro está saltitante

Após um começo triunfante, que tal um La Landonne 1988! Umas das três joias de Guigal, este Côte-Rôtie é fora de série. Deliciosos aromas terciários mesclando fruta madura, especiarias, defumados de rara elegância e até um toque floral. A boca é uma seda com perfeito equilíbrio entre álcool e acidez. Apesar da idade, sua vivacidade é incrível.

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Um Côte-Rôtie fora da curva

O vinho abaixo é a decepção mais esperada às cegas,  o rei Petrus. Não dá nem para reclamar da safra 89, normalmente abordável, mesmo na juventude. É que Petrus é chato mesmo. Para um Merlot, é austero demais, tânico demais, fechado demais. O certo mesmo era ter uma apelação própria: appellation Petrus Controlée. Um vinho de futuro imenso, cor intensa ainda rubi. Os aromas são concentrados, a boca firme com uma estrutura tânica para poucos. Um dia ele desperta de seu longo sono para mostrar todo seu esplendor.

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Petrus 89: grande safra e muita paciência

Continuando a saga, outro clássico de 1982 em Bordeaux, Château La Mission Haut-Brion, o grande rival do único Premier de Graves na classificação de 1855. Vinho hedonista, com aromas terciários incríveis e muito bem dosados. Em boca, uma seda com taninos abundantes e polidos. Muito equilibrado entre seus componentes, persistência longa e um final delicioso. Pratos com trufas e cogumelos são a pedida ideal.

la mission 82

Um clássico de Graves nesta safra

Finalmente, um tinto do Novo Mundo. Este californiano da bela safra de 1997 baseado em Cabernet Sauvignon é o topo de linha da vinícola Abreu, seu vinhedo mais famoso, Madrona Ranch. Praticamente um Bordeaux da California. Elegante, denso, maduro, fazendo jus à excelente safra de 97. Talvez seja o mais pronto a ser bebido, mas com um bom potencial de guarda ainda.

abreu 97

Safra 1997: 100 pontos

Para fechar a série, outro 100 pontos, Château Latour 1982. Um Pauillac de grande estrutura com muita vida pela frente. Os aromas de cassis, caixa de charutos, ervas, toques animais, confirmam a autenticidade de sua comuna. Cor intensa, vinho de bom corpo, elegante e imponente, taninos sólidos, muito equilíbrio e um final de boca que só os grandes vinhos são capazes de proporcionar.

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Um dos grandes Latours de toda a história

600 pontos

600 pontos perfilados

Após a perfeição, somente ela para dar continuidade ao evento. Acompanhando belos puros, dois Portos para beber de joelhos em seus estilos mais nobres. O Vintage abaixo se não bastasse ser um Noval da mítica safra de 1963, tinha o requinte de ser um Nacional (parreiras pré-filoxera). Um vinho imortal. Cor ainda sadia, jovial. Aromas de grande complexidade com frutas em compota, toques florais, minerais, de especiarias, defumados, enfim, difícil descreve-lo.

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Nacional 1963: perfeição nos detalhes

Para terminar, lembram do Scion? um Porto Colheita excepcional da Casa Taylor´s?  Pois bem, a Graham´s também tem seus tesouros. Algumas barricas foram encontradas nas antigas adegas da família Symington constatando a data de 1882. Trata-se de um Colheita de grande permanência em madeira, beneficiando-se das benesses da micro oxigenação. Um equilíbrio fantástico, assim como sua persistência aromática interminável.

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Embalagem impecável de acordo com o conteúdo

A linda embalagem acima é o resultado final do engarrafamento de somente 656 decanters numerados, cuidadosamente confeccionados em cristal, emoldurado com um belo colar em prata num estojo em legitimo couro ingles. O nome desta joia: “Ne Oublie”.

ruby e tawny

Ruby e Tawny: dois caminhos de sucesso

As taças acima mostram bem os caminhos traçados por estes dois gigantes. A taça da esquerda (Noval Nacional) parte de um Porto com pouco contato em madeira, apostando num longo envelhecimento em garrafa, ambiente redutivo (ausência de oxigênio). Já a taça da direita (Graham´s Ne Oublie), ocorre o inverso. Longo envelhecimento em pipas de madeira com longa e constante micro oxigenação.

Para não estragar o dia, resolvemos parar na perfeição. Tem horas que não vale a pena arriscar. Que outros vinhos do Olimpo possam nos deleitar. Abraço a todos os confrades!

Bordeaux 1961: Primeiros Movimentos

16 de Agosto de 2015

Em mais uma reunião de amigos, uma degustação histórica: Grandes Bordeaux da safra 1961. Os desavisados pensarão, cinquenta e quatro anos de vinhos em decadência. Ledo engano, muitos estão no seu apogeu com um longo platô de estabilização. O Château Latour 61 é um mito que está revelando seus segredos agora. Cem pontos consistente de Parker com previsão de chegar bem até 2040.

A safra 1961 foi o grande ano do pós-guerra, só sendo ombreada por outra não menos espetacular de 1982. Foi uma colheita muito pequena por conta de geadas, mas amadureceu com uma concentração e níveis de taninos impressionantes. As sub-regiões de maior destaque foram: Pauillac, Saint-Julien, Saint-Estèphe e Graves, todas de margem esquerda. Na margem direita, apesar de belos vinhos, não teve o mesmo esplendor que sua rival. Contudo, há exceções como alguns grandes de Pomerol: Petrus, Latour à Pomerol, Lafleur, Trotanoy, todos com cem pontos ou muito próximos.

O Podium da degustação: Latour à Pomerol em Magnum

Antes de chegarmos ao supra-sumo da foto acima, tivemos um longo caminho a percorrer. Como a tarde era de tintos, precisaríamos de um único branco para dar início aos trabalhos. E este branco teria que ser fora da curva. Afinal, só no podium acima temos 300 pontos de Robert Parker consistentes em várias provas documentadas. Para não errar, que tal um Magnum Dom Pérignon 1973 Plenitude três (P3)?. Com mais de trinta anos sur-lies (contato com as leveduras), esbanjou frescor, corpo, complexidade e um equilíbrio fantástico. Persistência notável com notas de mel, brioche, frutas secas e delicadas especiarias. Só para deixar claro mais uma vez, o contato prolongado com as leveduras confere uma proteção ao champagne muito mais estável do que as melhores adegas poderiam fornecer, ou seja, a evolução em contato com as leveduras vai proporcionar uma complexidade aromática ímpar que dificilmente seria alcançada com tempo similar em adega. Só que para esse contato prolongado atingir tal êxito, os vinhos-bases que compõem estas cuvées especiais precisam ser excepcionais.

Dom Pérignon P3: Dégorgement tardio

Momentos tensos na abertura das garrafas. Rolhas extremamente fragilizadas pela idade, embora todas de excelente procedência. Neste caso, o abridor de lâminas paralelas é obrigatório. Mesmo assim, nem tudo é perfeito, conforme foto abaixo. Felizmente, pedaços que se desprenderam das rolhas foram devidamente retirados sem macular os preciosos líquidos. Além disso, as decantações acusaram sensíveis depósitos nas garrafas. Enfim, valeu a tensão.

Muita paciência e sensibilidade a cada rolha

Latour à Pomerol: abertura da estrela da tarde

Olha a cor deste cinquentão

Coube a mim o prazer e a responsabilidade de abrir o Magnum Latour à Pomerol 1961 (um dos sonhos de Robert Parker). Devidamente decantado, numa sucessão de vários 61 de grande categoria. Na foto acima, cor profunda e o depósito separado no fundo da garrafa.

Uma parte da brincadeira

Antes de analisarmos vinho a vinho sempre apresentados e degustados dois a dois, vale a pena comentar a qualidade e ao mesmo tempo a inconstância desta safra para cada château. Como foi dito, os vinhos de margem esquerda levam vantagem de um modo geral, mas há disparidades mesmo entre grandes châteaux de uma mesma comuna, como veremos nos próximos artigos. Em linhas gerais, a safra de 1982 é mais regular e igualmente esplendorosa. Contudo, 1961 produziu alguns vinhos quase inimitáveis como o grande Latour, Petrus, Latour à Pomerol, Haut-Brion, La Mission Haut-Brion, entre outros. Portanto, a escolha do château é de fundamental importância nesta mítica safra de 1961.

Próximos artigos: embate de gigantes dois a dois.


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