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Homenagem a Paul Bocuse

14 de Outubro de 2013

Pegando gancho sobre o artigo do grand chef Frédy Girardet, falaremos hoje sobre Paul Bocuse, dando sequência à trilogia mencionada, completada pelo mestre Joël Robuchon.

Fricassé de Volaille de Bresse aux Morilles 

Falar de Paul Bocuse é falar de um dos patrimônios da gastronomia francesa. É uma longa história onde seu restaurante próximo a Lyon (Borgonha), Collonges-au-Mont D´Or, ostenta três estrelas no guia Michelin desde 1965. Hoje, com quase noventa anos, Bocuse viveu de perto todas as causas e efeitos da segunda guerra mundial, criou o instituto Paul Bocuse, recebeu várias honrarias como cozinheiro do século XX tanto pela França, como pelo Culinary Institute of América de Nova Iorque. Serviu presidentes como De Gaulle, Giscard D´Estaing e Jacques Chirac. Enfim, são muitas histórias.

Para exemplificar um dos pratos do mestre, escolhemos a receita acima (foto) com o famoso frango de Bresse (uma das denominações de origem para alimentos diferenciados e fiéis ao seu terroir). Esta receita inclui cogumelos Morilles (devem ser hidratados e cozidos), cogumelos de Paris, cebola, estragão, caldo de frango, creme de leite, manteiga, vinho branco, vinho madeira e Noilly (famoso vermute francês), os dois últimos em pequenas doses.

Collonges-au-Mont-d´Or: estilo clássico

Evidentemente, para uma harmonização clássica, a opção seria pelos borgonhas, tintos ou brancos. Os tintos, preferencialmente da Côte de Beaune, mais delicados. Quanto aos brancos, um elegante Puligny-Montrachet enquadra-se muito bem. Como Paul Bocuse é fã dos Beaujolais, por que não um Morgon ou Moulin-à-Vent?. No Loire, um Cabernet Franc das apelações Chinon ou Bourgueil é uma bela alternativa (grande parceria com cogumelos). Um champagne millésime delicado como das Maisons Taittinger, Billecart-Salmon ou Deutz, é também uma bela alternativa.

Fora da França, as opções geralmente ficam abaixo da expectativa. Podemos pensar num belo Chardonnay do Piemonte (Angelo Gaja) ou no ótimo espumante Ferrari (Trentino), ambos do norte da Itália. De Portugal, o Pera Manca branco pode ser bem interessante. Os Cavas (Espanha) Reserva ou preferencialmente Gran Reserva são bem apropriados.

Do Novo Mundo, brancos e tintos elegantes e delicados são os mais indicados. Chardonnays de Sonoma e Pinot Noir de Russian River, ambos americanos, são bem interessantes, ou também o Château Montelena branco, sempre muito elegante. O produtor Hamilton Russell da África do Sul tem comumente Chardonnays e Pinot Noir à altura do prato.

Próxima homenagem: Joël Robuchon

Detalhes da Borgonha: Crus du Beaujolais

5 de Maio de 2010

Segredos de um autêntico terroir

Apesar de fazer no úlitmo post um parênteses sobre os Crus du Beaujolais, achei por bem detalharmos melhor o assunto. Assim como a garrafa azul fez tão mal aos verdadeiros brancos alemães, o Beaujolais Nouveau deixou uma péssima imagem dos autênticos Beaujolais.

Situando-se entre Mâcon (a norte) e Lyon (a sul), esta apelação é discriminada mesmo dentro da Borgonha, chegando vários autores a descartá-la do mapa borgonhês. Basicamente temos dois tipos de solos: os xistosos, de base granítica, onde temos as melhores comunas de Beaujolais, incluindo os dez crus mostrados no mapa acima. Na parte sul da figura, temos predominância de solos argilo-calcários, não tão favoráveis ao bom desenvolvimento da uva Gamay, variedade única na elaboração do Beaujolais.

Dentre as dez comunas que são a elite da apelação Beaujolais, vamos detalhá-las em termos de estilo:

  • Os mais encorpados, estruturados e que apresentam condições de relativa guarda. Em média, até cinco anos. Algumas exceções podem chegar a dez anos de safra. Neste perfil podemos citar Moulin-à-Vent, Morgon e boa parte dos Chénas.
  • Os mais delicados, florais e que devem ser apreciados em sua juventude. Não esperar mais do que dois ou três anos de safra. Raramente podem suportar cinco anos. Fleurie, Saint Amour e Brouilly são os melhores exemplos.
  • Os intermediários mesclam um pouco dos dois estilos com tendência para os mais delicados. Neste bloco ficam Côte de Brouilly, Juliénas, Chiroubles, Régnié

Nos melhores rótulos, Beaujolais não é mencionado

Estes Crus costumam ser agradáveis, com personalidade e extremamente gastronômicos. Apresentam-se medianamente encorpados, com bom frescor, estrutura tânica discreta, aromas convidativos e sabores prazerosos, sem ser dominadores. Podem inclusive, acompanhar certos peixes e preparações que levem salmão ou atum, por exemplo. Aves, cogumelos e embutidos são seus parceiros clássicos.

Imediatamente abaixo dos Crus, encontramos mais 38 comunas sob a apelação Beaujolais Villages entremeadas às mais famosas e desfrutando de um terroir muito próximo em termos de composição de solo, altitudes e declives de encosta. Podem ser também ótimas opções sabendo escolher produtor e safra, principalmente.

Na base da apelação, simplemente Beaujolais, os riscos são bem maiores. As características de terroir são mais vagas, a concentração dos vinhos é mais comprometida e o envelhecimento em garrafa acaba sepultando o pouco que pode haver de bom.

O Beaujolais Nouveau dispensa comentários. É puro marketing, vinho com data marcada para ficar pronto e a partir de então com contagem regressiva para se desfazer. Seu preço, muitas vezes injusticável, deve-se sobretudo ao frete de avião para completar toda a logística de entrega em várias partes do mundo, pontualmente na terceira quinta-feira do mês de novembro.

Apenas complementando a indicação do Morgon de Dominique Piron do Club Tastevin, segue telefone e e-mail de seu representante em São Paulo (Ivanildo – fone: 9603-4034 e-mail: ivanildo@tastevin.com.br). Dominique Piron não faz outra coisa a não ser Beaujolais. Nasceu e vai morrer na região.

 

 

Harmonização: Estrogonofe e Vinho

2 de Maio de 2010

 

 

Stroganov: modificações na grafia e na receita

A origem russa do prato sofreu muitas adaptações desde o início do século passado. Para não polemizar, vamos imaginar tiras de carne bovina de sua preferência, creme de leite fresco, cogumelos paris e ingredientes que provoquem um toque agridoce delicado como: mostarda, molho inglês, catchup, tomates, entre outros. Os acompanhamentos mais comuns são batata palha e/ou arroz branco. Em resumo, cada um vai dar seu toque pessoal à receita.

Nesta harmonização temos um prato medianamente encorpado e com certa delicadeza. A textura da carne vermelha geralmente não é muito compacta, o molho deve ser aveludado, o agridoce é sutil, e os cogumelos dão um toque terroso.

Um das  melhores harmonizações são os chamados Crus du Beaujolais que são frutados e ao mesmo tempo bastante frescos, duas características importantes para enfrentar pratos agridoces. Aqui faço um parênteses sobre este vinho tão mal compreendido. Nos melhores Beaujolais este nome não vem escrito no rótulo, e sim o nome de uma das famosas comunas, as quais são a elite da apelação Beaujolais. Em ordem decrescente temos o Beaujolais-Villages, Beaujolais e o comercial Beaujolais Nouveau.

Fechando parênteses, as comunas com Beaujolais mais estruturados são Moulin-à-Vent, Morgon e Chénas. São vinhos medianamente encorpados, com taninos delicados e boa acidez. Além disso, apresentam boa mineralidade, advinda de um subsolo granítico mais destacado, fazendo ótima sintonia com os cogumelos.

Uma das boas indicações é o Morgon de Dominique Piron, importado pelo Club Tastevin (www.tastevin.com.br). A outra dica tradicional é o Château des Jacques, Moulin-à-Vent importado pela Mistral (www.mistral.com.br).

Outras opções francesas podem ser um bom Côtes du Rhône-Villages, Saint-Joseph (apelação do Rhône com Syrah medianamente encorpado) e até um Chinon (Loire).

Das demais alternativas óbvias européias (Itália, Espanha e Portugal), geralmente é difícil encontrar o ponto exato de equilíbrio entre fruta, frescor e corpo adequado. Do lado italiano, um bom Valpolicella pode ter sucesso. Um Tempranillo Joven do lado espanhol e um Ribatejano do lado português parecem apresentar frescor e fruta suficientes ao prato.

Vinhos tintos do Novo Mundo geralmente são muito alcoólicos, encorpados e amadeirados, dominando os sabores dos prato. Prefira as versões mais simples desses vinhos, as quais geralmente não comprometem tanto o conjunto.


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