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Bourgogne à Mesa

23 de Julho de 2018

Sempre que falamos de vinhos da Borgonha, nos deparamos com três fatores essenciais: produtor, vinhedo e safra. Sabemos que neste terroir, as referências de cada comuna são fundamentais. Neste jantar, testamos e degustamos várias destas referências, analisando e confrontando pratos da enogastronomia.

De início, a referência absoluta no terroir Pouilly-Fuissé, Domaine Ferret. Seus vinhos tanto jovens, como envelhecidos, são de uma pureza e finesse extraordinárias. Não confundir com Pouilly-Fumé, uma apelação do Loire para a uva Sauvignon Blanc.

img_4882cuvée intermediária

Nesta cuvée “Autour de la Roche, temos vinhas com idades de 10 a 40 anos numa vinificação em cuba sem nenhum resquício de madeira nova. O vinho aporta um frescor e mineralidade notáveis. Seus delicados aromas vão no sentido de frutas brancas delicadas como pêssegos e um toque sutil de amêndoas. Muito equilibrado com final extremamente agradável .

img_4885bacalhau e siri

Na foto acima, temos uma casquinha de siri e um folhado de brandade de bacalhau. Embora a carne de siri seja delicada, os temperos da casquinha sobrepujaram o sabor do vinho. Em compensação, o delicado folhado teve intensidade de sabor exato para a personalidade do vinho, fazendo um casamento perfeito.

img_4883o melhor em Chevalier-Montrachet

O branco acima dispensa comentários. A delicadeza de vinificação de Domaine Leflaive combina à perfeição com o terroir de Chevalier-Montrachet. Este Grand Cru, imediatamente acima do grande Le Montrachet, disfruta de um solo pedregoso com toda a elegância  do calcário. Neste exemplar, percebemos toda a complexidade de um Montrachet com uma delicadeza indescritível. A madeira que faz parte da vinificação e amadurecimento do vinho é de uma integração total em perfeita harmonia. Algumas gotas de limão sobre a casquinha de siri deram a liga exata para os sutis toques cítricos do vinho. Uma harmonização de sabores marcantes, mas de extrema delicadeza.

img_4886uma força impressionante

Para completar o jantar, um tinto de Morey-St-Denis num momento difícil. Explico melhor, o vinho estava no período de latência. Domaine Dujac é uma das grandes referências na apelação Clos de La Roche, um dos mais austeros Grands Crus da Côte de Nuits. Não era de se esperar esta condição num tinto de onze anos de garrafa numa safra teoricamente precoce. No entanto, alguns vinhos pregam estas surpresas. A cor era espantosamente pouco evoluída com nítidos reflexos violáceos. Os aromas não tinham defeitos, mas estavam bastante discretos, sem sinais de toques terciários evidentes. A boca estava perfeita em equilíbrio com taninos extremamente polidos. Contudo, uma expansão discreta. Garrafa muito bem conservada. Nesta fase, o vinho se fecha para formar complexos aromas terciários. Foi somente um momento infeliz. Talvez mais uns cinco anos, e o vinho certamente iniciará um lindo apogeu.

img_4888galeto com farofa de frutas secas

De todo modo, o galeto da foto acima foi bem tanto com o tinto, como o Chevalier-Montrachet. A textura da carne de aves vai muito bem com os Borgonhas. Os aromas e sabores da farofa de frutas secas e cogumelos Portobello assados forneceram a elegância necessária aos vinhos.

img_4889vale a experiência

Como sobremesa, uma mousse de chocolate amargo contrastando com um autêntico Irish Whiskey. O uísque irlandês costuma ser triplamente destilado, proporcionando delicadeza e maciez notáveis. Os aromas de mel e cevada maltada deste Jameson equilibram perfeitamente os sabores de cacau num final de grande intensidade e prazer. A despeito da bela combinação com os Portos, essa é uma experiência surpreendente.

img_4890combinação perfeita

O Gran finale não poderia ser melhor, Puros e Cognac, os Espíritos mais nobres. A expressão “Grande Champagne” no rótulo da bebida indica o mais exclusivo terroir de Cognac onde o solo de greda faz toda a diferença para a extrema finesse da bebida. X.O., Extra Old, indica o maior envelhecimento em madeira pelas leis atuais. 

Quanto aos Puros, Bolivar Belicosos já comentado em outros artigos, é um clássico da marca que prima pela elegância, a despeito da fortaleza da marca. Em seu modulo e tamanho, uma referência dos melhores Havanas. Do outro lado, uma edição especial da marca Montecristo com um blend ligeiramente mais forte que a média da Casa.

Na harmonização, um belo expresso dá início às primeiras baforadas. Entretanto, no segundo e terceiro terço sobretudo, a complexidade e força de ambos, Cognac e Charuto, propiciam a sublimação de sabores. Uma noite memorável!

Pauillac e o caminho das pedras

29 de Maio de 2018

De todos os fatores de terroir para explicar a excelência dos tintos de Bordeaux, o fator drenagem do terreno parece ser o mais determinante a ponto de persistir o ditado na chamada margem esquerda: “o solo do Médoc muda a cada passo”. Nesse sentido, as profundas camadas de cascalho fazem da comuna de Pauillac, o terroir perfeito para o cultivo da Cabernet Sauvignon, cepa protagonista no tradicional corte bordalês. Não nos esqueçamos que nesta comuna saem três dos cinco Premier Grand Cru Classé de 1855.

pauillac terroirhavia uma pedra no caminho …

Com esse intuito, nos reunimos no simpático Ristorantino, sempre no comando do dinâmico Ricardo Trevisani. Sete garrafas devidamente escolhidas se defrontaram em interessantes flights com grandes surpresas. Antes porém, algumas borbulhas para animar a festa. Afinal, ninguém é de ferro …

baixíssimas produções

O produtora acima, Marie-Courtin elabora apenas algumas milhares de garrafas na Côtes des Bar, região sul de Champagne, a meio caminho de Chablis. Trata-se de um Blanc de Noirs (100% Pinot Noir)  de um vinhedo de apenas 2,5 hectares com vinhas entre 35 e 40 anos. É um solo de caráter argiloso, muito propício ao cultivo da Pinot Noir. Um champagne fresco, gastronômico, e de boa complexidade, já que foram três anos de contato sur lies antes do dégorgement. Esta cuvée 2013 chama-se Concordance. Belo início!

bela harmonização

Todas as atenções estavam voltadas para este champagne curioso e surpreendente até a chegada de um Krug. Só que não era simplesmente um Krug, o que já é motivo de êxtase, mas um vintage, ainda por cima da safra de 1990 com 95 pontos. Aí para tudo! Que Champagne maravilhoso!

Equilíbrio perfeito, bom corpo sem ser pesado. Ao contrário, sua incrível acidez lhe dá uma leveza ímpar. Os aromas cítricos, de especiarias, de gengibre, dão um toque oriental inconfundível. O final de boca e a longa persistência é digna dos grandes champagnes sem denotar qualquer sinal de idade. Perlage e mousse perfeitos. E olha que estamos falando de mais de 25 anos …

A harmonização da foto acima, um tartar de atum com limão-caviar ficou divina. Este limão-caviar, mais uma das descobertas do inquieto Ricardo, é uma planta de origem australiana parecida com um quiabo. Cortado nas extremidades, após certa pressão no mesmo, começa a sair as bolinhas verdes em cima do tartar com um sabor marcante e delicado de limão. A acidez e os toques cítricos do champagne ecoaram no sabor do prato.

img_4688a enigmática safra 2000

Foi então dada a largada com o trio acima às cegas da safra de 2000. As notas, muito parelhas: Mouton 96+ pontos, Pichon Lalande 96 pontos, e Pichon Baron 97 pontos. Pelas notas, pode-se imaginar a dificuldade da degustação. Aí começaram as surpresas. 

O mais pronto, o mais sedutor, de aromas terciários mais presentes, foi o Mouton Rothschild, o único Premier Grand Cru Classe deste flight. Os dois Pichons, bem mais fechados, vislumbrando grande guarda em adega. Evidentemente, Pichon Lalande é bem mais abordável, agrada muito mais. Não é à toa, que em degustações às cegas com a presença dos Premiers, ele costuma aprontar. Taninos macios, aromas doces, é difícil resistir a seus encantos. Tem um ótima estrutura para evoluir em adega. Por fim, Pichon Baron 2000, um vinho sempre um tanto duro, de personalidade distinta de seu eterno concorrente. Apresenta uma acidez que me incomodou um pouco e taninos de textura um pouco rústica para o nível do painel. Contudo, as opiniões foram bem variadas. Afinal, a unanimidade é burra …

img_4691as aparências enganam …

Trata-se de uma safra precoce, onde os 89 costumam abrir com facilidade. No caso do Lynch Bages, é uma das grandes safras de sua história, comparável ao mítico ano de 1961. É bem verdade que Parker exagerou em sua última nota para este 89 com 99+ pontos. Sua média sempre girou em 95 pontos, já um ótimo nível. De fato, é um vinho tecnicamente superior ao Lafite nesta safra, embora de estilo totalmente diferente. É um Pauillac de livro com toques de cassis, fino tostado, e notas terciárias típicas. Ainda pode evoluir em adega. Já o Lafite, mesmo não sendo de suas melhores safras, é de uma elegância ímpar, um verdadeiro Borgonha dentro de Pauillac. Os aromas etéreos, de cedro, de incenso, são elegantes e marcantes. Boca equilibrada, embora não muito longa. Um vinho de enorme prazer para ser tomado neste momento.

pratos de sabor e elegância

Entre tapas e beijos, além dos vinhos, as comidinhas brilharam com sabores e aromas sutis. O risoto de linguiça com vinho tinto e radicchio foi muito bem com a dupla de 89, enquanto o cordeiro em seu próprio molho de redução com polenta, brilhou ao acompanhar a dupla de ouro abaixo da emblemática safra de 1982.

img_4695a grandeza de Pauillac

A foto acima vale mais que mil palavras. 200 pontos é muito pouco para a grandeza desses vinhos. Felizmente, tenho provado esta dupla lado a lado de vez em quando. E cada vez mais, o Latour mostra sua grandiosidade. Eu não sei exatamente onde esse vinho ainda pode chegar, mas trata-se de um monstro engarrafado. Uma estrutura de taninos monumental e uma persistência aromática sem fim. Do outro lado, Mouton sempre sedutor, macio, com seus toques terciários bem desenvolvidos, e cada vez mais, em seu apogeu. Dá pra tirar foto juntos, mas o Latour está o constrangendo cada vez mais.

Sauternes exótico

Realmente uma tarde especial para um Sauternes especial, Chateau Gilette Crème de Tête 1975. Este Chateau pertence à sub-região de Preignac, pouco conhecida em Sauternes. O mais curioso é que este vinho não tem nenhum contato com madeira, ao contrário do grande Yquem. Nesta safra, o vinho ficou em tanques de cimento até 1991, quando foi engarrafado. Portanto, seus aromas terciários não têm interferência da barrica. O lado mineral, salino, e de castanhas portuguesas, são marcantes e muito bem fundidos. O combinação com o pudim de pistache deu um toque de exotismo, acompanhando o estilo do vinho. Sensacional!

Dry Martini: a excelência dos Drinks

O almoço se encerrou em alto estilo. Algumas baforadas com e essência de Vuelta Abajo, uma caixa exclusiva de Montecristo Vitola Especial 80 Aniversario. Trata-se de um Puro com 55 de ring e fortaleza média/alta, acima do habitual para a linha Montecristo. Entre Porto Graham´s 10 anos, Grappa Nonino, e cafés, um Dry Martini “comme il faut” deu uma ar de sofisticação à mesa.

Agradecimentos quase sem palavras aos confrades, numa tarde de grandes vinhos, conversa animada, e amizades cada vez mais consolidadas. Que Bacco sempre nos proteja com a bebida dos Deuses. Saúde a todos!

Espíritos do Caribe

2 de Janeiro de 2018

Nessas festas, além da bebida e comida, muitos Puros energizaram as expectativas do ano vindouro. Com eles, alguns espíritos e as inevitáveis comparações e harmonizações.

Cohiba  

Embora não seja uma marca de grande tradição, sua ligação com o comandante Fidel é visceral. Inicialmente criada exclusivamente para o governo cubano após a revolução, a marca foi comercializada em 1982. Rapidamente, o próprio Fidel, embaixador da novidade, fez dos Cohibas, o Puro mais sofisticado e de preços elevados. De fato, a marca alia potência e elegância numa sintonia admirável.

Cohibas de alta gama

O da foto à esquerda, é o clássico Cohiba Lanceros numa edição limitada de 2011. Conhecido como Laguito nº 1, é um charuto de 19 centímetros com um ring de 38, formato esguio e de capa escura. Muito bem construído, podemos começa-lo com um espresso forte, passando por um Madeira Boal ou Malmsey. Do meio pra frente ou no seu terço final, a intensidade da bebida precisa ser elevada mantendo a mesma textura. Neste caso, o guatemalteco Ron Zacapa XO tem força e elegância para um final intenso e macio. O Lanceros de cabo a rabo, mantem uma elegância ímpar, aumentando a potência final sem sobressaltos, mas pleno de sabor.

transição similar de texturas

Na foto à direita dos charutos acima, temos o mais exclusivo dos Cohibas, a linha Behike. Este em questão, é o de maior ring 56, que dá nome ao charuto. Um blend de folhas de maior potência, sempre mantendo a elegância como referência. Neste caso, podemos começar com um Negroni ou um Mojito, um pouco mais refrescante no verão. Em seguida, no terço final, um rum um pouco mais austero e potente, acompanhando a elegância de fundo neste Puro excepcional. O rum em questão é o da foto abaixo, Barceló Imperial Premium Blend, um dominicano com partidas extremamente envelhecidas e muito bem mescladas. Menos untuoso que o Zacapa mencionado, mas com uma força extraordinária.

potência crescente com final amplo

Falar de Montecristo, segunda foto abaixo, é falar da marca cubana mais vendida e de ampla tradição. Nascida a partir da H. Upmann, outra grande marca de Puros, sua linha segue  a receita de uma fortaleza média, agradando uma legião de fãs. Entretanto, Montecristo nº 2 foge do padrão da Casa, com sabores intensos e potentes. Cafés, Portos, Madeiras, e drinks clássicos, podem acompanhar bem o primeiro terço. Daí em diante, os destilados dominam a área. Runs de grande potência com o Barceló, podem cumprir bem o papel. Contudo, para emoções mais fortes, o poderoso Talisker, um Single Malt da ilha de Skye, tem explosão suficiente para encarar este incrível torpedo.   

um time respeitável dos grandes Havanas 

Na primeira foto acima, uma dupla de grandes módulos, mas com propostas extremamente diferentes. O da esquerda, o clássico dos clássicos, Romeo Y Julieta Churchill, imortalizado pelo grande primeiro-ministro inglês. Um show de elegância, jamais cansativo. Sua evolução é lenta e gradual num terço final marcante, mas muito agradável. Pode ser  perfeitamente acompanhado por Porto ou Madeira. Se a ideia for um destilado, cognac ou armagnac maduro na categoria XO. Se a mega-sena ajudar, vá de Louis XIII ou Richard, tudo que um cognac pode oferecer.

Já o Partagas Lusitanias, um double corona de grande fortaleza. Mantem uma relativa acessibilidade, mas não abre mão de fumadores experientes. Não tem a explosão do Montecristo nº 2, porém seus aromas vão num crescendo, pedindo certamente um grande destilado. Novamente, o Ron Barceló mencionado, é um final arrebatador para este Havana dos mais respeitados. Um Puro que pede paciência e reflexão.

Continuando nos potentes da marca Partagas, a primeira foto do artigo, mostra o duplo figurado Partagas Salomones com o incrivle ring 57. Definitivamente, para fumadores experientes. Sua construção é espetacular, exigindo os mais experientes torcedores. Não tem um impacto tão potente de início, mas sua evolução sinaliza sabores e aromas de grande intensidade. Decididamente, no terço final sobretudo, pede destilados de alto calibre. Por exemplo, o Talisker acima mencionado. Exige tempo e ritmo pausado em sua apreciação.

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Negroni, um clássico do coquetelaria 

Um dos charutos ainda não mencionado e presente nas fotos acima, é o torpedo Bolivar Belicosos. De construção impecável, foge totalmente da fortaleza da marca. Extremamente elegante, mostra-se ao longo de sua evolução, sabores e aromas sedutores sem perder em nenhum momento sua notável elegância. Pode ser acompanhado por Portos e Madeiras, ou drinks clássicos como Negroni, foto acima. Bebida e fumaça em grande sintonia. Um Puro de módulo versátil, jamais cansativo, perfeito para fazer parte do seu time para o dia a dia.

 

 

Sutilezas da cozinha italiana

20 de Abril de 2017

Normalmente, quando se pensa em Itália, pensamos em muita fartura, molhos densos, temperos marcantes, e assim por diante. É uma comida que afaga a alma. Entretanto, há exceções como a Osteria del Pettirosso, comandada pelo chefe romano Marco Renzetti. Não que não seja saborosa, pelo contrário, seus sabores são bem definidos, mas de uma delicadeza e precisão pouco usuais. Você termina a refeição de maneira leve, satisfeito, pronto para continuar um trabalho, se for o caso. Vamos então a alguns pratos.

pettirosso carne cruda

entrada instigante

Na foto acima, temos carne cruda com morangos marinados no aceto e tempero de salsão, além de lascas de parmesão. A textura é delicada, o morango perfeitamente integrado no vinagre, onde um complementa o outro aparando as arestas (fruta do morango esmaecida quebrando a acidez do vinagre). O tempero com salsão levanta o sabor do prato.

É uma entrada que admite tantos brancos, como tintos. Um Dolcetto, por exemplo, bem leve, frutado, novo, seria um belo par. Do mesmo modo, um Fiano di Avellino, branco da Campania, acompanharia bem a delicadeza do prato. Um rosé da Toscana como do Castello di Ama é outra opção interessante.

massa e carne de intensidades surpreendentes

Os pratos principais com expectativas contrastantes. O maccheroncini com molho picante de linguiça toscana (foto à esquerda) tinha força para encarar um Barolo, o que é surpreendente para uma massa. Já o Saltimbocca de vitela tinha uma apresentação pra lá de original. A delicadeza do prato era tal, que poderia perfeitamente ser acompanhado por um vinho branco. Por exemplo, um Greco di Tufo (Campania), ou um Soave de bom produtor (Pieropan ou Anselmi).

pettirosso barolo vajra

um Barolo de estilo macio

Um Barolo elaborado na comuna homônima com características semelhantes a La Morra. Estilo mais denso, macio, embora com seus aportes de acidez e taninos. Bricco delle Viole é um terreno de vinhas antigas, plantadas inicialmente em 1949 com replantações em 1963, 1968 e 1985. Amadurce por três anos em botti (grandes toneis) de carvalho eslavônio. Seus aromas de cacau, alcaçuz e os típicos toques defumados permeiam a taça. Ótimo momento para ser tomado, embora possa ser adegado por mais alguns anos.

sobremesas impecáveis

Tanto a Panna Cotta, como o Tiramsu, muito bem executadas e com sabores bem definidos. A Panna Cotta de uma delicadeza incrível, inclusive o mel que a acompanha. Aqui um Belo Recioto di Soave faria um par perfeito. Já o Tiramisu, autêntico, com sabores marcantes de café, biscoito embebidos corretamente, e um mascarpone super delicado. Aqui um Maury (fortificado do sul da França, concorrente do Banyuls) de estilo rancio, mais amadeirado, de certa oxidação, seria um gran finale.

Havana e Bourbon: forças equivalentes

Gran finale mesmo foi a dupla acima. Montecristo nº 2, peça de destaque no tabernáculo dos Havanas. De estilo mais potente do que normalmente a casa entrega, este Puro mostra toda a sua força e caráter no terço final, sobretudo acompanhado pelo Bourbon Woodford. A intensidade do Whiskey e suas notas de coco e baunilha, complementam de forma magnifica a potência do charuto. Talvez, pela delicadeza da comida um Hoyo de Monterrey Double Corona fosse mais adequado. Quem sabe, duma próxima vez …

Puros: um pouco de fumaça !!!

24 de Novembro de 2016

Existem Champagnes e espumantes, Cognacs e brandies, Puros e charutos. Sem entender muito do assunto, mas já dando meus pitacos, Cuba é soberana quando o assunto é charutos. Geralmente, eles têm começo, meio e fim, em grande harmonia. Existe uma zona no lado oeste da ilha chamada Vuelta Abajo com condições ideais de cultivar o melhor tabaco do mundo. Essas condições que envolvem plantas, clima, solo, e um savoir-faire peculiar, os franceses chamam de terroir. Transferindo para um assunto pessoalmente mais familiar (vinhos), Vuelta Abajo é uma espécie de Côte d´Or para Borgonha, ou se quiserem, uma espécie de Médoc para Bordeaux.

cuba-map

Pinar del Rio e San Luis, referência em Vuelta Abajo

O negócio do charuto em Cuba funciona de certo modo com muita similaridade à Champagne. Pequenos produtores (vegueros no caso de Cuba) vendem sua produção para grandes marcas de charutos como Partagas, Bolívar, Hoyo de Monterrey; similarmente a Pol Roger, Bollinger, Taittinger, em Champagne.

Quando falamos em excelência do tabaco cubano, estamos nos referindo a puros (designação do charuto cubano) elaborados por estas grandes marcas tabaqueras mencionadas acima. São charutos feitos com folhas inteiras submetidas a pelo menos duas fermentações, baixando muito os índices de nicotina da planta.

A confecção dos puros é um capítulo à parte com torcedores (pessoas que confeccionam charutos) hábeis, trabalhando manualmente com ferramentas extremamente simples como a chaveta, por exemplo. A estrutura de um puro envolve o miolo ou tripa (blend de folhas a cargo do torcedor), capote ou subcapa (para fixar e moldar as folhas da tripa), e finalmente a capa (folha especial, muito macia) para dar acabamento à peça. Um dos segredos para uma boa confecção dos puros é a pressão que o torcedor impõe com as mãos nos vários movimentos das operações a fim de não travar o charuto, ou seja, deixar o fluxo sem obstruções, proporcionando prazer aos consumidores.

É bom esclarecer aos marinheiros de primeira viagem, que charuto não se traga. Portanto, não precisar saber fumar, lembrando o ato dos fumadores de cigarros. O prazer da brincadeira fica todo na boca, no palato, sendo a fumaça expelida naturalmente.

Um dos pontos de preferências e discussões é a chamada fortaleza do charuto. Cada marca traz consigo este estilo, semelhante ao estilo das casas de Champagne. No caso do tabaco, tem muito haver com a mistura das folhas para a formação da tripa, primeira parte do charuto. Conforme esquema abaixo, dependendo da região da altura da planta, temos três tipos de folha, basicamente.

tabaco-folha

as proporções da mescla definem a fortaleza do puro

Os charutos de maior fortaleza aumentam a proporção de ligero (parte alta da planta), acentuando seus sabores. Os de média fortaleza, diminuem um pouco esta proporção, dando mais ênfase ao aroma. Por fim, os de baixa fortaleza apresentam proporções tímidas de ligero, proporcionando fumos bem suaves. É importante que os três tipos de folha participem do blend mesmo o volado, pois aporta facilidade e condições para a queima do charuto.

Pessoalmente, para os puros habitualmente consumidos, excetuando módulos específicos, e fixando apenas as marcas, segue relação abaixo:

  • grande fortaleza: Partagas, Bolívar e Cohiba
  • média fortaleza: Montecristo e Romeu & Julieta
  • baixa fortaleza: Hoyo de Monterrey

O acendimento do puro também requer alguns cuidados e um certo ritual. É deselegante acender um charuto na boca, aspirando gases indesejáveis. Melhor acende-lo como manda a etiqueta de um habano, conforme vídeo abaixo.

Por último, evite comprar charutos por encomenda, via internet, caixa fechada, a menos que você tenha total confiança na operação de venda. Pessoalmente, acho importante a pessoa ir à tabacaria, tocar os charutos, verificando a uniformidade da construção e a umidade dos mesmos. Os charutos devem ter uma maciez, uma maleabilidade agradável ao toque.

A certeza de um verdadeiro Puro você confirma ao longo dos terços:

  • Primeiro terço: pode ser um cubano
  • Segundo terço: acho que é um cubano
  • Terceiro terço: tenho certeza que é um cubano

Boas Baforadas!

Entre tintos, brancos, secos, doces …

17 de Novembro de 2016

Belos exemplares degustados recentemente, envolvendo uvas diversas, regiões, denominações e safras diferentes. Para começar, duas feras da Borgonha, lado a lado, cada qual especialista em seu terroir específico. Iniciando os trabalhos, Raveneau Valmur Chablis Grand Cru 2009 (foto abaixo).

raveneau-valmur-2009

Valmur: um dos Grands Crus de Chablis

Embora seja uma safra relativamente nova e muito badalada, mostra-se incrivelmente precoce e sobretudo, atípica. Aquela acidez cortante, aguda dos grandes Chablis, é muito mais esmaecida, dando lugar a um toque frutado destacado pouco comum neste tipo de vinho. E olha que estamos falando de um Raveneau, o epitome nesta apelação francesa. De todo modo, não deixa de ser um vinho brilhante, muito bem equilibrado, e de final bem acabado.

leflaive-chevalier-montrachet-2005

Chevalier Leflaive: What Else?

A segunda fera, foto acima, resume a perfeição de uma apelação em todos os sentidos: produtor, vinhedo, e safra. Domaine Leflaive é o grande nome de Chevalier-Montrachet na excepcional safra 2005. Ainda jovem, mas extremamente prazeroso para consumo. Aromas intensos de tudo que a família Montrachet é capaz de proporcionar. Frutas, especiarias, tostado fino, mineral, entre outros aromas. Em boca, aquela sutil leveza que o diferencia de um Montrachet sem de maneira alguma, ser um demérito. Pelo contrário, pessoalmente, adoro este lado mais vivaz e ligeiro. O equilíbrio e a persistência aromática são quase indescritíveis. Felizes daqueles  que tiverem esta chance!

Nota: uma das explicações desta leveza do Chevalier em relação ao Montrachet é dada pela altitude do terreno (Chevalier está acima de Montrachet), aliada à forte pedregosidade de Chevalier, proporcionando uma textura de solo mais leve, mais aerada.

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tartare de pato com morilles

O prato acima preparado pelo Nino Cucina foi bem com os dois brancos acima. A carne de pato e a delicadeza do cogumelo entrelaçaram-se bem com a força, elegância e acidez dos brancos. Ora, o Chablis com sua acidez realçava o prato, ora o Chevalier entrava com sua força e complexidade enriquecendo a combinação.

A safra 2006 em Bordeaux, especialmente na margem esquerda, quase nem é mencionada. Muito provavelmente, foi e ainda é ofuscada pelo monumental ano 2005. Entretanto, preste atenção em alguns exemplares do Médoc. É uma safra de qualidade, sem ter que esperar longos anos para seu apogeu. Foi o caso deste Calon-Segur 2006, foto abaixo. Aromas típicos com notas de frutas escuras, minerais, e erva finas. Em boca, aquela acidez que marca a tipicidade da comuna, taninos presentes, e muito bem equilibrado. O que realmente falta é aquele meio de boca, próprio das safras espetaculares. De todo modo, preço relativo e precocidade são bons atrativos.

calon-segur-2006

ótima referência de Saint-Estèphe

Montevetrano é o grande tinto do sul da Itália quando se trata de um vinho moderno, calcado na internacional Cabernet Sauvignon. Complementado por Merlot e uma pitada de Aglianico (10%), é praticamente um corte bordalês da Campania. Seu mentor, o grande Ricardo Cotarella, uma espécie de Michel Rolland italiano, tem feeling para este tipo de vinho. De estilo encorpado, combinando bem com o jeito sulino, é um dos preferidos de Robert Parker que o chamou de “Sassicaia of the South”.

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Montevetrano: Sassicaia do sul da Itália

Neste exemplar safra 2004 (foto acima), mostra todo seu vigor com seus 12 anos de vida. Muita concentração de fruta, especiarias, notas defumadas e de chocolate. Sucedeu bem o Calon Segur descrito acima, acompanhando carnes como um bife de chorizo grelhado.

A riqueza dos vinhos doces do Loire é um capitulo à parte, sendo o grau de doçura um ponto importante de diversidade, desde os menos doces, até paulatinamente aos intensamente doces. Apelações como Coteaux du Layon, Bonnezeaux, Quarts de Chaume, e Vouvray, baseadas na casta Chenin Blanc, mostram vinhos delicados e absolutamente profundos. São os que mais se aproximam do estilo alemão e ao mesmo tempo, lembram a bela acidez dos vinhos húngaros Tokaji. O ponto em comum entre eles é a Botrytisação, ou seja, o ataque do fungo Botrytis Cinerea que resumidamente gera vinhos de muita complexidade aromática, muito equilibrados, de muito frescor, e de texturas únicas.

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Chenin Blanc Botrytisado

No exemplar degustado da bela safra 2005 (foto acima), este Quarts de Chaume do Chateau de Suronde, apresenta rendimentos por volta de 10 hectolitros por hectare, 18 meses em barricas de carvalho, e várias passagens no vinhedo, colhendo seletivamente as uvas botrytizadas. O resultado é um vinho que se assemelha a um bom alemão doce entre a categoria Beerenauslese e Trockenbeerenauslese,  ou se preferirem, um Tokaji entre 5 e 6 Puttonyos.

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Tatin de Pêssegos

Acompanhou maravilhosamente uma Tatin de pêssegos, tanto na similaridade de sabores, como também de texturas. As notas de mel, cera, e caramelo, eram notáveis no vinho, sempre mantendo um enorme frescor.

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Vintage: Datas de safra e engarrafamento obrigatórios

Existem Vintages e Vintages para a categoria máxima em Vinho do Porto, mas 1994 está certamente no rol das melhores safras do século XX. Felizmente, tenho o privilegio de ter provado vários 94 em suas várias fases de evolução até agora. Não foi diferente com este Graham´s 1994 com 96 pontos. É uma safra que está saindo da infância agora, de evolução muito lenta. Não sei se vou ter tempo para ver seu apogeu. Atualmente, mostra com muita intensidade notas de licor de jabuticaba, especiarias, chocolate e um traço mineral. Muito equilibrado e de final bastante longo.

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Torpedos, sempre ótimas pedidas

Acompanhou muito bem esta dupla de Puros, Montecristo n°2 e Bolívar Belicosos. As melhores harmonizações ocorreram no segundo terço do Montecristo, mais potente que este Bolívar, que por sua vez, ficou melhor na sua fase final com o Porto.

Outra combinação muito boa com este Vintage foi o pão de mel. Textura, chocolate e os toques de especiarias deste bolinho delicioso, estavam bem balanceados com a força e complexidade do vinho, valorizando ambos. Enfim, outras experiências virão …

Clássicos e Enogastronomia

11 de Julho de 2016

Mais um almoço entre amigos e sempre boas surpresas. Estilos de vinhos variados, novas experiências enogastronômicas e aprendizado constante no assunto. De início, um Pouilly-Fuissé de livro do Domaine Ferret. Mais uma de suas cuvées espetaculares num terroir discreto em relação aos grandes brancos da Borgonha. Desta feita, a cuvée Tête de Cru “Les Perrières”. Vinhedo de um hectare no meio da encosta em solo argilo-calcário com presença de pedras (sílex) e idade média de 35 anos. Fermentação e amadurecimento sobre as borras (sur lies) em madeira por dez meses. Vinte a trinta por cento de madeira nova, imperceptível ao nariz e em boca. Os aromas remetem a notas minerais, de mel, resinosos e toques florais. A boca é o ponto forte com uma textura untuosa sensacional, quase igual a de um Sauternes. Contudo, seu suporte de acidez permite um bom equilíbrio com o álcool, relativamente discreto de apenas treze graus. Amplo, persistente e expansivo. Tudo o que você pode esperar de um Pouilly-Fuissé em grande estilo. Detalhe importante, safra 2004. Portanto, doze anos de vida e esplendor. Sem sinais de decadência.  Mais um tesouro da Terra Santa.

pouilly fuisse les perrieres

textura deliciosa em boca

Acompanhou muito bem a quiche abaixo com escarola, nozes e gruyère, bem cremosa. Aliás, o acordo de texturas foi o ponto alto da harmonização. Os aromas de mel e acidez do vinho complementaram bem a gordura e sabores da torta. A valorização de ambos, comida e vinho, foi de fato ressaltada. Um começo arrasador.

quiche de escarola

quiche de escarola e nozes

Abaixo, outro grande vinho do almoço. Um Barbaresco de gente grande. Potente, macio, equilibrado e taninos de grande categoria. Estamos falando de La Spinetta, vinhedo Gallina, safra 2005. O rinoceronte mostra bem a estrutura do vinho. Gallina é um vinhedo de cinco hectares localizado em Neive, uma das famosas comunas da denominação. As vinhas com mais de trinta anos trabalham com rendimentos baixos. O vinho é amadurecido entre 20 e 22 meses em barricas de carvalho francês novas. E aonde está a barrica? Realmente a resposta só pode ser esta: o vinho está à altura da barrica. Discretamente evoluído, tem muita vida pela frente. Aromas de frutas escuras (cereja), toques de especiarias, alcatrão, alcaçuz e fumo. A boca é de um equilíbrio fantástico com tudo lá em cima. Acidez agradável e taninos de rara textura, embora ainda bem presentes. Em termos de corpo e estrutura, não é qualquer Barolo que o enfrenta de igual para igual. Ele é mais ou menos o que um Dal Forno Romano é para a denominação Valpolicella.

la spinetta barbaresco

Se fosse Bordeaux, seria um Barbaresco de margem esquerda

Entretanto, nem tudo é perfeito. A combinação com a bacalhoada abaixo ficou a desejar. Esperávamos num Barbaresco de dez anos, algo mais evoluído, taninos polimerizados, e não foi isso que aconteceu. Além dos taninos ainda muito presentes, embora finíssimos, destoarem do prato, sua potência aromática dominou a cena. Contudo, uma agradável surpresa apareceu na mesa, um champagne Pol Roger cuvée básica bem envelhecido, quase sem perlage. A cor extremamente dourada dava sinais evidentes desta evolução, mas a boca além de agradável, caiu como uma luva na harmonização com o bacalhau. Sua acidez marcante, mousse surpreendente ainda com boa presença, combateram de maneira brilhante a gordura do prato. Os aromas de evolução do champagne com seus toques empireumáticos, de mel, e certa oxidação, foram de encontro aos sabores e aromas do bacalhau. Conclusão: champagnes envelhecidos e de certa oxidação, já têm uma função enogastronômica segura.

bacalhoada

bacalhoada tradicional

Mais uma estrela abaixo, completando este triunvirato, um Porto Vintage 1985 da excelente casa inglesa Warre´s. Esta é uma safra até certo ponto injustiçada, sem o glamour que verdadeiramente ela merece. Com seus trinta anos, este Porto esbanjou complexidade, classe, exotismo e ainda, muita longevidade. Inteiro, integro, e muito equilibrado. Um toque floral encantador lembrando de certo modo alguns Novais Nacionais. Desceu macio e de repente, desapareceu no decanter. De tão bom, mereceu uma degustação solo.

porto warre 85

elegância sobrepujando a potência

A sobremesa abaixo, finalizou em grande estilo o almoço. Flambada momentos antes do serviço com um belo Calvados envelhecido, esta tarte tatin acarinhou nossas papilas com grande suavidade. Merecia um bom branco de sobremesa do Loire. Um Quarts de Chaume ou um Bonnezeaux, talvez.

tarte tatin

tarte tatin de grande sutileza

calvados vieux

Calvados Vieux ou Réserve

Elaborado na Normandia, Calvados é um destilado de cidra (fermentado de maçãs). O termo Vieux é o equivalente ao Réserve que prevê um envelhecimento em madeira por pelo menos três anos. A menção “Pays d´Auge” é destinada a uma área restrita dentro da apelação Calvados. Não é o caso desta bela garrafa.

bolivar, partagas, montecristo

trio de ferro cubano

Finalizando a tarde, um trio de Puros de primeira linha. Bolivar Belicosos, Partagás E2 e Montecristo n° 2. Elegância, potência e exclusividade, respectivamente adjetivam os Puros citados. Expressos, chás e o Calvados Vieux, acompanharam a fumaça azul. Abraços e vida longa aos amigos!

Refeição Britânica: Champagne, Bordeaux e Porto

20 de Março de 2014

Almoço entre amigos é sempre muito bom, sobretudo quando há afinidades enogastronômicas. É o que acontece nos encontros com os médicos Cesar Pigati e Sylvio Gandra, companheiros de copo de longa data.

Pichon PauillacPichon-Longueville: Um dos grandes de Pauillac

Neste último almoço, seguimos a tradição inglesa. Inciamos os trabalhos com champagne Pol Roger (of course), dando sequência a um bordeaux tinto e finalizando com Porto Vintage.

Pichoin 99Pichon 99: Halo de evolução após quinze anos

Começando pelo bordeaux, era o grande Château Pichon-Longueville ou Baron de Pichon-Longueville, safra 1999, um Pauillac de bela evolução. Como todo margem esquerda, a uva majoritária no corte é a austera Cabernet Sauvignon, a qual mostrou-se perfeitamente domada após quinze anos de safra. A previsão de Parker estava certa, encontrando-se neste momento no auge de sua plenitude. Aromas terciários elegantes com frutas escuras, tabaco, couro, cedro, chocolate e ervas finas, marcas registradas de um autêntico Pauillac. A boca acompanha o nariz, macio, expansivo e taninos sedosos. Corpo médio, extremamente elegante e um final equilibrado, próprio dos grandes vinhos.

Porto e charutoTaylor´s Vintage: Engarrafado após dois anos de safra

O arremate final, um Porto Vintage, um Taylor´s Port, e que Taylor´s! Um dentre os maiores do século passado, o monumental 1994, cem pontos para vários críticos importantes. Desta feita, o remorso foi menor, após alguns infanticídios cometidos anteriormente. Apesar da riqueza de seu aroma, encontra-se ainda numa fase primária, mesmo decorridos vinte anos. Muita fruta em compota, especiarias, incenso e um fundo mineral. Deve evoluir por pelo menos mais trinta anos. Na boca, surpreende pela sedosidade, embora sua trama tânica seja portentosa. O equilíbrio é notável com seus vinte graus de álcool em perfeita harmonia balanceada pela acidez e taninos. Final de boca extremamente expansivo. Foi acompanhado à altura pelos puros Partagás Pirâmide P2 (sério concorrente do famoso Montecristo de mesma bitola) e pelo exótico Bolivar Belicosos (um Pirâmide de dimensões mais discretas).

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Rádio Bandeirantes FM (90,9) nas terças e quintas nos programas Manhã Bandeirantes e à tarde no Jornal em Três Tempos.

Single Malt: O Explosivo Talisker

25 de Novembro de 2013

Jim Murray (especialista britânico em Whisky) diz em seu livro: “Islay precisou de oito destilarias para entrar no mundo do Scotch Whisky, Skye precisa de uma só”. Se você acha que já provou tudo sobre single malt, prepare-se para fortes emoções antes de enfrentar Talisker, uma explosão de sensações. Se for acompanhá-lo de charutos, escolha um puro potente (Partagás Lusitanias, Bolivar Coronas Gigantes, Cohiba Esplendidos, Montecristo nº 2, Ramón Allones Coronas Gigantes).

Paladares Marcantes

Sabemos que todo famoso Blended Scotch Whisky, ou seja, as marcas mais comerciais e portanto, extremamente conhecidas do grande público, têm por trás um grande Single Malt na essência. Pois bem, Talisker é a alma do badalado Johnnie Walker.

Talisker: única na ilha Skye

O processo de elaboração de Talisker começa na pureza da água. São quatorze fontes de água cristalina e subterrânea. A escolha do malte é rigorosa quanto ao potencial alcoólico e ao nível de turfa (entre 30 e 40 ppm – parte por milhão), índice significativo, mas inferior aos da ilha de Islay. Em seguida, a cevada é imersa em água quente com temperatura controlada onde extrai-se o líquido rico em açúcar a ser fermentado. Após a fermentação, o líquido cristalino é submetido à uma dupla destilação criteriosa em alambiques de cobre. Na sequência, chega o momento da maturação em barricas originalmente usadas no Bourbon Whiskey (americano). Uma pequena parte provêm de barricas utilizadas no amadurecimento dos vinhos de Jerez. Esta predominância em barricas americanas enfatiza os aromas marcantes de baunilha, mel e especiarias. O amadurecimento junto ao mar absorve sutilmente um gosto de salinidade, maresia, incorporada à bebida. No final do processo, principalmente no Whisky básico da destilaria, aromas de tostado, defumado e cítricos são marcantes. É um single malt potente e impactante. Veja as observações a seguir do competente crítico Ralfy Mitchell, no vídeo abaixo:

Abaixo, o mapa mostra as principais sub-regiões escocesas na produção de whisky. A ilha de Skye, mais a oeste, fica praticamente isolada.

Talisker: único na ilha Skye

Como curiosidade, o famoso licor de whisky Drambuie, é elaborado nesta ilha com a participação de Talisker. Uma mistura de ervas, açafrão, açúcar, limão, mel, especiarias e outros segredinhos guardados a sete chaves. Embora haja concorrentes neste seguimento, Drambuie reina absoluto entre os melhores licores de scotch.

Homenagem a Cole Porter

5 de Setembro de 2013

Um dos grandes compositores do século passado, Cole Porter também era um gourmet refinado, figura marcante da Belle Époque parisiense. Anfitrião brilhante, ofereceu várias festas e jantares famosos. Um deles, vale a pena revê-lo. Trata-se de um jantar em Nova Iorque no ano de 1947, oferecido ao Duque de Windsor na residência dos Porters, conforme texto abaixo:

canard a marengoChâteau Ausone: a estrela da noite

Este menu foi reproduzido em vários restaurantes de Nova Iorque na época. Um menu extenso, mas bem elaborado, onde temos pratos variados incluindo sopa, peixe, ave e cordeiro, além de salada, queijos e sobremesa. Curta abaixo Night and Day na voz de Frank Sinatra, enquanto comentamos o jantar.

http://youtu.be/h1ctPCMfdf0

O menu inicia-se com Amuses-Gueules (entradinhas e canapés para fazer a boca) acompanhado de Jerez Fino Williams & Humbert, uma harmonização à inglesa. O jantar propriamente dito inicia-se com uma sopa fria à base de tomate (Cole Madrilène à la Mimosa). Perfeita com Sancerre branco (Sauvignon Blanc do Loire). Em seguida com o mesmo vinho, segue-se Campanile de crêpes aux Fruits de Mer (frutos do mar envolto em massa delicada). Seguindo em frente, o primeiro prato de carne, Le Canard à la Marengo de Joséphine (normalmente um magret com molho de ervas, tomates e cogumelos com redução de vinho branco), acompanhado do Chãteau Ausone (o grande rival do Cheval Blanc em Saint-Émilion).

Neste momento, uma pausa para o paladar. É servido então um sorbet (sorvete à base de frutas, geralmente com algum destilado neutro na receita). No caso, um Sorbet au Gingembre Wunderbar (aromatizado com gengibre). Limpando o palato, um Blanc de Blancs Comtes de Champagne Taittinger para o acompanhamento.

Após esta pausa, Milk-Fed Lamb, Légumes de Saison, Bâtons de Pommes de Terre (costeletas de cordeiro de leite, guarnecidas com legumes da estação e bastonetes de batata). Segue o mesmo Ausone para a harmonização.

Para arrematar o assado antes dos queijos, Salade Le Dôme de la Belle Géraldine. Com a tábua de queijos, um belo Chambertin. 

Cole Porter e Champagne em 1913

Finalmente, chegamos às sobremesas. Croquembouche (profiteroles crocantes), Kiss me Kate Spice Cake (bolo de especiarias à base de cardamomo), acompanhadas de Champagne Perrier-Jouet Cuvée Belle Epoque. Tecnicamente não chega a ser uma harmonização, mas Champagne no final da festa era bastante comum naqueles tempos. 

Para finalizar outro docinho preferido de Porter, Peru Indiana Chocolate Fudge. Chocolate amargo ou meio amargo, leite condensado, frutas secas (pistache, nozes, avelãs), um pouco de manteiga e extrato de baunilha, tudo isso em banho-maria. Acompanhado de um bom café e/ou Cognac Extra Old. Neste final de um lauto jantar, por que não um Puro (Partagas, Bolivar, Montecristo) ou outro de sua preferência?


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