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Canadá novamente no topo das Américas

4 de Junho de 2018

Realizado agora no mês de maio/2018, mais um campeonato pan-americano de sommeliers sob a tutela da ASI (Association de La Sommellerie Internationale). Mais um vez um canadense sobe ao podium para conquistar o primeiro lugar, Pier-Alexis Soulière, Master Sommelier. Em segundo lugar, o argentino Martin Bruno, e em terceiro lugar, outro canadense, Carl Villeneuve Lepage. Os brasileiros Paulo Limarque e Diego Arrebola participaram do concurso realizado em Montreal onde Diego chegou às semifinais entre os oito melhores.

sommelier america 2018

campeão, vice, e terceiro, da esquerda para direita

Após exaustivas provas de serviço e uma prova escrita sempre “cabeluda”, os três sommeliers acima, realizaram a grande final num cenário cheio de tarefas e desafios. Para aqueles com interesse e paciência, segue o endereço no youtube com mais de quatro horas de duração.

Baseado na prova do campeão, vamos descreve-la passo a passo, enfatizando o ritual e a dificuldade das várias etapas, sempre com tempo justo para um serviço eficiente e sem rodeios.

O início de prova de Pier-Alexis foi meio desastroso e preocupante. O candidato ficou visivelmente perturbado, mas daí para frente soube conduzir o evento com segurança. Digo isso porque a primeira tarefa era servir uma mesa com três pessoas onde duas beberam um champagne Piper-Heidsieck, e a outra pessoa pediu um Manhattan, cocktail clássico, composto de rye whisky (normalmente canadian whisky), red vermouth, angostura bitter, decorado com um palito espetado numa cereja. Pois bem, ele fez uma confusão de início, batendo o cocktail na coqueteleira, usando outros ingredientes, mas felizmente lembrou do processo correto e fez tudo de novo a tempo. A abertura e serviço do champagne foram corretos, embora sem muito charme.

Em seguida, numa mesa com seis pessoas, entre elas os campeões mundiais, Paolo Basso e Serge Dubs, o candidato tinha que harmonizar vinhos das Américas de diferentes países com o menu descrito abaixo. Tempo de seis minutos.

MENU

Caviar de Rio Negro

Espumante Santiago Queirolo Blanc de Blancs (Peru)

Erizos de Puerto Montt (Ouriço do Mar)

Bodega Garzon Albariño (Uruguai)

Ceviche Mixto

Casa Marin Sauvignon Blanc (Chile)

Ojo de Bife com papas rusticas

Miolo Lote 43 (Brasil)

Pecan pie with maple syrup

Sine Qua Non Mr. K NobelMan Chardonnay (California)

As harmonizações foram clássicas e precisas com países variados das Américas, conforme exigido. Particularmente, prefiro um espumante mais encorpado e ultra seco com caviar. A indicação do Albariño uruguaio com o ouriço foi bem original. Ceviche e Sauvignon Blanc é chover no molhado, embora Casa Marin faça um varietal exemplar. Boa indicação brasileira para ojo de bife (miolo do bife ancho) com a menção do Lote 43 da Miolo, Brasil. O mais original foi a lembrança de um raro Chardonnay botrytisado da Califórnia da vinícola boutique Sine Qua Non. A doçura e incrível acidez do vinho realçam os sabores da torta pecan.

Continuando o roteiro, foi proposto a abertura de um Sancerre de Pascal Jovilet Attitude em Magnum, uva Sauvignon Blanc, decantado em dois decanters de 750 ml. O vinho com aromas redutivos se beneficia com a decantação. O serviço foi feito no tempo proposto, seis minutos.

Seguindo o enterro, veio uma bateria de degustações às cegas. De início, uma Barolo de Paolo Scavino, descrito corretamente e com palpite certeiro. Em seguida, a descrição de um Madeira Boal com seus aromas complexos, mas confundido como Jerez Oloroso pelos candidatos. Continuando, três Cabernet Sauvignon das Américas às cegas, sendo proposta a descrição e a procedência de cada um. O campeão acertou só o primeiro, um Cabernet americano, não exatamente de Napa Valley, mas Knights Valley, e confundiu os outros dois. O segundo era um Cabernet do Maipo, Chile, e o outro, um Cabernet argentino de Salta. Mesmo para um Master Sommelier, às cegas, é sempre difícil um acerto total.

manhattan cocktail

 Manhattan: um dos clássicos da coquetelaria

Em compensação, os cinco destilados que vieram em seguida, ele matou a pau todos em menos de dois minutos. O primeiro era uma Grappa, o segundo uma Vodka, o terceiro um Gin inglês, o quarto uma Tequila, e por último um Pisco chileno de Limari. O homem conhece bem os Espíritos …

Por fim, uma série de slides mostrando sempre três vinhos em cada slide com algum tipo de erro na descrição. Não acertou todos, mas mandou bem na maioria deles. Havia erro na denominação de origem de alguns, vinhos não elaborados em certas safras, e uvas equivocadas em outros.

sommelier andreas larsson

título mundial em 2007 

O sueco Andreas Larsson foi o apresentador da prova final, conduzindo o evento com charme e precisão. Com vários títulos internacionais, sagrou-se campeão mundial pela ASI em 2007 na cidade de Rhodes, Grécia.

Antes da premiação, foi exibido na tela algumas personalidades femininas no mundo do vinho. Entre elas, Jancis Robinson, a Baronesa Rothschild, Laura Catena, Madame Lalou-Bize Leroy, Madame Lily Bollinger, entre outras. Último teste para identificação das personalidades antes do anúncio esperado para o melhor sommelier das Américas.

Com mais este resultado, a escola canadense está fazendo história na sommellerie das Américas com fortes candidatos, inclusive para o mundial que se aproxima, já no próximo ano de 2019 em Bruxelas.

Novidades no sul do Brasil

17 de Novembro de 2014

Confesso a vocês que não sou muito otimista com os vinhos brasileiros, sobretudo quanto à sua relação qualidade/preço. Isso é facilmente comprovado pelos poucos artigos descritos neste blog. Entretanto, quando há boas novidades, é um dever divulga-los. Além de se fazer justiça, é sempre um incentivo aos produtores em busca incessante pela qualidade e esmero em seus vinhos. Numa viagem recente, segue abaixo relato do que melhor tivemos a oportunidade de degustar.

Só para começar, dois Alvarinhos surpreendentes do sul do país. É! É isso mesmo, Alvarinho. Aquela casta do Minho português, das Rias Baixas espanhola. Não só cumpriram o desafio desta temperamental casta, como marcaram personalidade em seus vinhos. O primeiro, foto abaixo, é da vinícola Hermann, do mesmo Adolar, proprietário da destacada importadora Decanter (www.decanter.com.br). Branco elegante, delicado, com toques florais e de frutas brancas.

Bela expressão do varietal

O vinho abaixo, Alvarinho da vinícola Miolo, é elaborado na Campanha, região mais meridional do sul do país, fazendo divisa com terras uruguaias. Apresenta passagem por barrica, um procedimento sempre ousado para vinhos brancos, mas com grande êxito. A madeira só valorizou o vinho, acrescentando elegância e finesse.

Toque elegante de madeira

O vinho abaixo é outra grata surpresa. Um Alicante Bouschet da serra gaúcha elaborado pela competente vinícola Pizzato. Esta é a casta majoritária do grande Mouchão, um alentejano de primeira linha que pessoalmente, é o melhor e mais diferenciado da região. Um tinto de cor extremamente profunda a despeito de seus seis anos de idade (safra 2008). Os aromas concentrados de frutas escuras somam-se a toques de ervas e mentol muito bem casados. A estrutura tânica é notável  e sua persistência aromática bastante expansiva. Trata-se de um vinho de guarda para pelo menos mais oito anos. Vale a pena provar!

Casta exótica surpreendente

O vinho abaixo às cegas passaria facilmente por qualquer ícone chileno ou argentino. Sua cor é impenetrável  e seus aromas esbanjam frutas, especiarias e um refinado toque de madeira francesa. O corpo é impactante com um equilíbrio notável. Seus taninos ainda muito presentes, mas extremamente finos, se amoldarão certamente ao longo dos anos. Um vinho para colocar sem medo às cegas com tintos potentes do Novo Mundo. Este tinto é elaborado na Campanha (divisa com o Uruguai) com seis castas (Cabernet Sauvignon, Tempranillo, Petit Verdot, Merlot, Tannat e Touriga Nacional(,

Encara qualquer ícone do Mercosul

Por fim, uma vertical completa de um dos melhores tintos gaúchos dos últimos tempos, o famoso Lote 43 da vinícola Miolo. Algumas impressões ficaram bem nítidas na degustação. Primeiramente, a boa concentração dos vinhos, bem equilibrados e bem casados com a madeira. A primeira safra histórica é a de 1999. Um tinto de quinze anos que ainda apresenta-se inteiro e com aromas muito elegantes. Deve ter mais uns cinco anos neste platô de evolução antes de sua fase final.

Linhagem autêntica de um clássico

Falar sobre um vinho brasileiro que se destaca no mercado e é sempre lembrado como um dos melhores do sul do país, pode significar uma questão de marketing, de comodismo ou ainda, de interesses escusos. Não é o caso do vinho acima. O Lote 43 desde sua primeira safra heroica nos idos de 1999, primou por concentração e qualidade em todas as etapas de elaboração. Sou suspeito em falar desta safra pioneira, pois já degustei-o em várias oportunidades e em todas elas, sempre com muita classe, personalidade e consistência. Quem diria que um tinto nacional de quinze anos de guarda estaria em perfeito estado? Naturalmente, com as marcas da idade, aromas terciários, taninos polimerizados, mas ainda proporcionando grande prazer. Evidentemente, as demais safras a despeito de julgamentos técnicos, pesa o gosto pessoal e algumas peculiaridades respectivas de cada amostra. Por isso, os anos de 2002, 2004, 2008 e os recentes, 2011 e 2012, apresentam um belo padrão de tipicidade e consistência. Contudo, devo destacar a singular safra de 2005. Vários exemplares desta safra já me impressionaram favoravelmente, mas o Lote 43 2005 é um “tour de force” neste batalhão. Um tinto potente, de grande estrato, cores profundas, não denotando a idade. Seus aromas são intensos e marcantes, além de uma boca muito bem equilibrada e agradavelmente quente. Um vinho para inverno, belos assados e molhos densos. Seus taninos apesar da abundância, são finos e agradavelmente firmes. Persistência longa e expansiva. Muitos anos pela frente e para os mais apressados, uma decantação obrigatória de pelo menos uma hora. O 99 pode descansar em paz quando chegar a sua hora, pois tem um sucessor à altura.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.


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