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Bordeaux: Sonho e Realidade

26 de Julho de 2017

Naquela caixa de sonhos de qualquer enófilo, sempre haverá pelo menos uma garrafa de Bordeaux. Sua penetração mundo afora é tão marcante, que cerca de 22 garrafas são comercializadas por segundo no mundo. Os grandes Bordeaux são verdadeiras commodities, disputados acirradamente nos mais prestigiados leilões. Além do estilo único e complexidade, esses vinhos apresentam enorme longevidade, capazes de atravessar décadas, sobretudo nas grandes safras.

Contudo, o sonho precisa ser sustentado e ao mesmo tempo, ele próprio é um componente importante no marketing de vinhos menores, mais simples, e de preço compatíveis à maioria dos mortais. Neste contexto, veremos um panorama atualizado do comércio de todos esses vinhos, grandes e pequenos.

bordeaux 2014

distribuição de Bordeaux na França

Conforme mapa acima, mais de 50% do vinho bordalês consumido na França, concentra-se na região parisiense, além de todo o norte francês, região não produtora de vinho. A influência e tradição inglesas e de países nórdicos explicam em parte esta preferência.

bordeaux 2015

área de vinhas – 2015

Quase dois terços da área de vinhas bordaleses destina-se a vinhos relativamente simples. Cerca de um terço da área, o filé mignon bordalês (Mèdoc, St Emilion e Pomerol), ainda assim tem que ser peneirada para separar o joio do trigo. A participação dos vinhos brancos é bem modesta, sendo que os vinhos doces são quase insignificantes em área plantada.

bordeaux 2015 cepages

predominância da Merlot

A distribuição de cepas no quadro acima, reflete bem a coerência com a área de vinhas. Na produção de tintos de Bordeaux mais simples, faz todo o sentido a Merlot ser majoritária no chamado corte bordalês, fornecendo mais maciez e apelo ao conjunto, além de tornar o vinho mais pronto para um consumo imediato. Aqui, não há necessidade de um aporte tão expressivo de taninos.

bordeaux medoc 2009

a exclusividade do Médoc

Quando falamos dos famosos 60 classificados de 1855 do Médoc, muitas vezes não temos ideia da diminuta produção desses vinhos. E olha que entre os 60 crus, temos ainda que fazer a melhor seleção, pois praticamente metade estão abaixo das expectativas. O quadro acima, apesar de um pouco defasado, dá uma boa ideia de proporção das principais comunas do Médoc.

Vamos pegar por exemplo, Pauillac. 19% dos tintos bordaleses vem do Mèdoc. Dentro desses 19%, temos apenas 12% de todos os vinhos de Pauillac. E dentro desses 12%, precisamos pinçar os realmente muito bons. Dá para entender porque um Pontet-Canet por exemplo, custa tão caro. Isso, sem falar nos três Premiers Grands Crus Classés; Latour, Mouton, e Lafite.

bordeaux brasil 2014

importação brasileira de Bordeaux – 2014

Diante deste quadro, a importação brasileira de vinhos de Bordeaux não poderia ser outra, senão o acima exposto. Juntando poder aquisitivo baixo e altas taxas de importação, mais de 70% dos tintos bordaleses concentram-se em apelações genéricas ou no máximo, Bordeaux Supérieur. Se falarmos nos brancos, tudo fica insignificante.

 

Margem Esquerda

bordeaux medoc mapa

 oito comuna no Médoc

Em todo o Médoc temos 16500 hectares de vinhas produzindo cem milhões de garrafas por ano, ou seja, 15% dos vinhedos de Bordeaux.

A parte norte chamada Médoc, de solo mais argiloso e arenoso, tem 35% das vinhas acima, de vinhos  medianos. Nenhum vinho classificado encontra-se nessas vinhas.

Na parcela restante, ao sul de Médoc, exceto as seis comunas, temos o chamado Haut-Médoc, respondendo por cerca de 29% das vinhas totais de todo o Médoc. Aqui, com certos cuidados, pode-se pinçar coisas interessantes.

Grands Crus Classés de 1855

Concentrados nas comunas de St Estèphe, Pauillac, St Julien, e Margaux, os 60 Crus correspondem a 3400 hectares de vinhas com uma produção de 21% de todo o Médoc.

 

Margem Direita

saint emilion pomerol fronsac

 margem direita: panorama geral

Antes de falar dos vinhos e apelações, vamos falar do conceito de corte bordalês nestas áreas. A Merlot, cepa majoritária, responde por 80% dos cortes em Pomerol e Fronsac por conta do solo mais argiloso. Já em Saint-Emilion, varia de 65 a 80%, conforme a complicada e diversificada composição de solo.

A Merlot evidentemente fornece a fruta e a graça desses vinhos, embora em alguns Chateaux como Petrus e Lafleur, seus taninos podem ser poderosos. A Cabernet Franc nessas paragens dá estrutura e taninos  ao corte, enquanto a Cabernet Sauvignon, quando fortuitamente é utilizada, fornece um toque de especiarias ao conjunto.

Saint-Emilion

De toda a margem direita, a apelação Saint-Emilion é sem dúvida, a mais pulverizada. Afinal são 5400 hectares de vinhas. Aquela chamada classificação Grand Cru é uma das maiores enganações de Bordeaux. Para não correr riscos, concentre-se na apelação Premier Grand Cru Classe A e B com 18 vinhos classificados, inclusos evidentemente, os irretocáveis Chateaux Ausone e Cheval Blanc. São menos de 400 hectares de vinhas entre todos os 18 chateaux.

Pomerol

Toda a apelação Pomerol tem apenas 800 hectares de vinhas onde a Merlot domina amplamente. São menos de 1% de toda a produção de Bordeaux. Aqui, não há classificação oficial.

As apelações satélites Lalande de Pomerol, Fronsac, e Canon Fronsac, têm respectivamente; 1136 ha, 808 ha, e 264 ha de vinhas.

A elite bordalesa

Juntando o que há de melhor nos vinhos de Bordeaux, teoricamente, mais alguns dados sobre produção e área de vinhas;

  • Grand Cru Classé 1855 (60 crus)

          3630 ha – 18 milhões gf

  • Crus Bourgeois (243 chateaux)

          3300 ha – 30 milhões gf

  • Crus Classés de Graves (tintos)

          500 ha – 2,6 milhões gf

  • Saint-Emilion Premier Grand Cru Classé (18 chateaux)

         400 ha – 1,2 milhão gf

  • Pomerol ( classificação não oficial 14 chateaux )

         180 ha – 600 mil gf

Deste total de pouco mais de 50 milhões de garrafas de “elite”, temos que tirar a metade dos classificados do Médoc, pois muitos chateaux vivem hoje apenas da fama de outrora. Temos também que peneirar muito bem os chamados Cru Bourgeois da atualidade, onde a inclusão nesta categoria vive mais de interesses comerciais, do que propriamente critérios técnicos. E aí, o facão é cruel. Apenas 10% tem realmente credibilidade para padrões de alto nível. 

Portanto, dos 50 milhões, vamos nos contentar com digamos, 15 milhões. Isso, fazendo um pouco de vista grossa. Mesmo assim, nenhuma outra região vinícola no mundo, chega perto desses números.

Voltando aos pequenos, desde que o preço compense, é sempre uma opção interessante, sobretudo para o dia a dia. Como dizia o mestre Denis Dubourdieu, os verdadeiros pequenos são aqueles que não querem se passar por grandes. Contentam-se em ser equilibrados, autênticos, e fornecerem o devido prazer. Seus vinhos são um bom exemplo deste pensamento.

Os Históricos Bordeaux 1982

14 de Novembro de 2016

É muito comum serem mencionadas safras “históricas” em regiões vinícolas europeias de grande prestigio, sobretudo em Bordeaux. As especulações são inevitáveis já que esses vinhos são verdadeiras comódites no mercado financeiro, funcionando de certo modo como uma forma de investimento. Depois de alguns anos com a poeira assentada, fica mais claro separar o joio do trigo.

bordeaux-82

Dream Team: Lafleur em Magnum

Dentre essas safras “históricas”, existem aquelas que são mais históricas. Uma delas por exemplo é a de 1982, equiparada a anos como 1945, 1947, 1959 e 1961, para ficarmos no século XX. O abençoado ano de 1990 onde foi praticamente impossível se fazer vinhos ruins na Europa, ainda não emplacou definitivamente neste seleto rol, talvez por não estar totalmente pronta, no auge de sua evolução, principalmente para os grandes Bordeaux.

Dito isso, defrontamos quatro belos Bordeaux 82, dois margem esquerda, e dois margem direita, num embate de gigantes. Falar de vencedores é uma questão muito mais pessoal do que técnica. Cada qual fiel a seu terroir, a seu estilo, mas todos inteiros e impecáveis. Enfim, obras de arte não se comparam …

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o sonho de tomar um grande 82

Testados vários vezes, em várias épocas, e sempre muito consistente. Fico imaginando até quando esse platô de evolução vai se estender, pois ainda não há nenhum sinal de decadência. É muito fácil gostar deste vinho, mesmo para aqueles que tem problemas com taninos. Ele é sedutor nos aromas, macio em boca, muito equilibrado, e um final bastante longo. Sempre na elite dos campeões desta mítica safra.

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apelação Pessac-Léognan só em 1987

Pessoalmente, foi o que menos me impressionou, mas sem dúvida, é uma questão pessoal. Outra razão, foi a cruel comparação com os demais concorrentes ilustres. De todo modo, um perfil brilhante de Pessac-Léognan com seus aromas de estábulo e toques terrosos. Menos encorpado que o Mouton (Pauillac), é também de um equilíbrio notável. Taninos ultrafinos e longa persistência. Em comparação a seu grande rival, Chateau Haut-Brion, é um pouco mais potente e com menos elegância.

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inspiração para o rótulo americano Dominus

Apesar de estarmos falando de um margem direita na sub-região de Pomerol, é de uma austeridade impressionante. Lafleur é o único Pomerol comparável ao astro maior Petrus, não só pela fleuma e estilo mais introvertido, mas também por seu incrível poder de longevidade. Esta safra em particular, uma das mais perfeitas de sua história, foi elaborada por Jean-Claude Berrouet, o famoso enólogo de Petrus, com apenas 10% de barricas novas.

Seu solo é muito particular e multifacetado, mesclando argila, areia e importante pedregosidade. Com isso, seu corte de uvas também é único e bem especifico com Merlot e Cabernet Franc pareando as porcentagens. Talvez a presença importante da Cabernet Franc lhe forneça essa espinha dorsal e estrutura  incomuns para um típico Pomerol, mais calcado na Merlot.

Esta safra de 1982 considerada perfeita, é de uma cor impressionantemente jovem e intensa. Os aromas se desenrolam pouco a pouco na taça com forte presença mineral, frutas escuras, e toques de chocolate amargo, lembrando cacau. Deve ser obrigatoriamente decantado por pelo menos uma hora. O boca é de um pujança extraordinária, vislumbrando ainda bons anos de guarda. Um vinho realmente impressionante. Como conselho, se você tiver uma garrafa deste Chateau com menos de quinze anos, não abra. A paciência irá lhe recompensar, certamente.

petrus-1982

o singelo rótulo num vinho sofisticado

Reparem que no rótulo não está escrito Chateau. Realmente, a simplicidade  e a aparência mal cuidada de sua construção confirmam esta observação. O solo extremamente argiloso faz da Merlot praticamente seu território único com quase 100% do plantio, de vinhas muito antigas. As condições particulares deste terroir dão uma imponência, uma austeridade, e uma introspecção ao vinho, que o diferencia de maneira inconteste de todos os outros Pomerols.

Como curiosidade, a argila azulada de Petrus é rica em ferro, gerando vinhos com intensidade de cor marcante. Além disso, não há como aumentar a densidade de plantio das vinhas que fica em torno de 7000 plantas/hectare. A explicação vem de um subsolo extremamente duro onde a camada de argila para a ramificação e expansão das raízes é de apenas 70 centímetros, ou seja, pouca profundidade para uma competição entre as vinhas mais acirrada.

Além de uma boa conta bancária, você precisa de muita paciência para esperar seu Petrus acordar. Os infanticídios com este vinho mundo afora são rotineiros. Nesta safra em particular, ele não tem a potência de seu concorrente Lafleur, mas sobra elegância e finesse. O grande trunfo de 82 é que Petrus conseguiu se soltar, mostrando aromas terciários muito finos e de rara sutileza. Não é um vinho óbvio, mas sua sedosidade contrasta magnificamente com seu lado cerimonioso. Talvez por não ser uma safra especificamente concentrada, seu desabrochamento chegou mais cedo, concedendo prazer e expectativa esperados. Grande vinho!

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Esta é a cor do Lafleur 1982. Acreditem!

Como se não bastasse esses quatro prazeres em si, tivemos que analisa-los em duas taças não menos espetaculares e bem merecedoras destes grandes caldos. Riedel Sommeliers versus Zalto Bordeaux, num embate de titãs entre duas excepcionais cristalerias  austríacas.

Riedel Sommeliers é uma linha de taças maravilhosas com um bojo de 860 ml de capacidade para o modelo Bordeaux Grand Cru. Aromaticamente, mostra-se muito sutil captando aromas multifacetados dos mais complexos tintos bordaleses. Em boca, procura mostrar a essência de um grande Bordeaux com texturas delicadas, sem perder o frescor.

Zalto Bordeaux, como toda taça Zalto, é de uma leveza incrível, além da ínfima espessura do cristal. Dá medo de tocar na taça, tal a aparente fragilidade que ela transmite. Em relação à Riedel Sommeliers, seus aromas são mais concentrados, perdendo-se um pouco as nuances de vinhos mais sutis. Entretanto na boca, mostra com ênfase, o corpo e estrutura dos grandes Bordeaux, numa percepção ampliada da textura de seus finos taninos.

Qualquer que seja a escolha, você estará bem servido. De todo modo, é sem dúvida um diferencial, um detalhe relevante, quando se trata de vinhos de tamanha complexidade, em períodos de evolução onde as sutilezas devem sempre que possível, ser amplificadas.

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lingua com polenta cremosa

Eis um prato (foto acima) que muitos torcem o nariz, língua. Realmente, não é uma carne fácil de se trabalhar, mas quando bem feita, é digna dos mais finos tintos já com aromas evoluídos e taninos resolvidos. Foi o caso deste prato, do Nino Cucina, escoltado pelos Bordeaux acima comentados. O casamento foi perfeito pela delicadeza de sabores de ambos, prato e vinho. Em particular, Petrus agradeceu a parceria.

Harmonização: Cordeiro em Crosta de Pistache

3 de Setembro de 2012

Nesta harmonização, além do tenro lombo de cordeiro, temos a crosta de pistache, o molho de carne reduzido e o delicado ravioli de batata. Neste contexto, os componentes decisivos para a escolha do vinho são o molho reduzido e a crosta de pistache, sendo que o ravioli e o próprio cordeiro influenciarão na textura do mesmo, conforme foto abaixo.

Receita de Salvatore Loi

Pode parecer estranho um ravioli com recheio de batata, mas a ideia é servi-lo como guarnição, despertando certa originalidade e surpresa. Na verdade, o recheio leva além das batatas, um pouco de parmesão ralado, mix de ervas e um toque de pimenta do reino.

Para a crosta de pistache, temos salsinha, um pouco de alho, creme de leite fresco, manteiga e evidentemente, pistache triturado. Além do sabor, a crocância faz um contraponto interessante com os demais elementos de maciez do prato.

O molho de carne deve ser concentrado e reduzido com a evaporação de um cálice de vinho branco, finalizando sua textura com um pouco de manteiga.

Por fim, o cordeiro após devidamente selado com um toque de alecrim, é coberto pela crosta de pistache previamente gelada e em seguida, levado ao forno. É importante que o cordeiro seja mal passado, conforme foto acima e apenas devidamente selado, mantendo a devida suculência.

Em resumo, o prato tem personalidade e ao mesmo tempo elegância e textura delicada. O vinho deve acompanhar esta linha mestra, com aromas elegantes, textura macia e taninos bem moldados. A crocância e a suculência da carne equilibraram bem este lado tânico. Um vinho saindo de seu estágio mais jovem e começando a ganhar aromas terciários pode encontrar o ponto ideal entre a tanicidade comedida e maciez esperada. Toques herbáceos e de alguma evolução encontrarão eco nas ervas do prato e no sabores do pistache. Neste sentido, um bordeaux de margem direita com boa presença de Cabernet Franc, parece ser a solução ideal. A complementação da Merlot lhe dará a maciez necessária. As apelações de Saint-Emilion e seus satélites cumprem bem este papel não esquecendo de apelações menos badaladas como Fronsac e Canon-Fronsac.

Como sugestão, a importadora Decanter (www.decanter.com.br) oferece o belo Chateau Tour de Pas St Georges, da apelação homônima, da grande safra de 2005. Encontra-se num bom estágio de evolução, justamente naquela transição acima descrita. É uma das referências da apelação St-Georges St-Emilion.

A propósito, nesta quarta-feira dia 05 de setembro, teremos uma degustação na ABS-SP com o tema cortes da margem direita de Bordeaux. Evidentemente, outras dicas para a harmonização acima.

Bordeaux: Parte IV

19 de Fevereiro de 2010

 

 

 

 Margem Direita

  

Mais uma expressão clássica: vinhos da margem direita. Pelo mapa acima, percebemos que a referência é a margem direita do rio Dordogne, sendo as apelações de Pomerol e Saint-Emilion seus grandes expoentes. As apelações satélites que rodeiam essas famosas regiões também fazem parte da margem direita. A rigor, até as apelações Côtes de Blaye e Côtes de Bourg que não aparecem no mapa  por estarem na margem direita do Gironde, devem também ser incluídas.

Tudo muda aqui em relação ao Médoc em termos de solo e composição de uvas. A argila predomina nesta área, notadamente em Pomerol, o que favorece o bom desempenho da Merlot. Em algumas áreas onde destaca-se também o cascalho, a Cabernet Franc entra em ação. Portanto, são essas duas uvas,  com a Cabernet Franc complementando a Merlot, que  norteiam o chamado corte bordalês, deixando muito pouco espaço para a Cabernet Sauvignon.

Pomerol

Berço espiritual da Merlot com o mítico Château Petrus reinando absoluto. Não há uma classificação oficial, mas todos sabem que o grande Petrus é hors concours, seguido por uma dezena de excelentes opções.

Se dinheiro não for problema, Petrus e Le Pin são as estrelas da região. Como viraram grifes, os preços vão às alturas, embora sejam vinhos diferenciados. Baseado na Merlot em solos argilosos, os rendimentos por parreira são baixíssimos, além de um belo estágio em barricas novas de carvalho. Os demais châteaux que são para mortais seguem descritos abaixo e podem surpreender os mais exigentes paladares.

Château Lafleur e Château Trotanoy são opções quase unânimes para as estrelas acima, com muito requinte e personalidade. La Conseillante, L´Evangile e Petit- Village são também pedidas encantadoras. Vieux-Château-Certan, do mesmo proprietário do Le Pin, apesar de suntuoso, segue um estilo mais medoquino, mais austero, com menor porporção de Merlot e presença de Cabernet Sauvignon.

Em resumo, os vinhos de Pomerol são adoráveis, macios e com frutas exuberantes, porém muito caros. A região é minúscula com menos de 800 hectares, ou seja, um quadrado de menos de 3 km de lado. Resultado: baixa produção para uma demanda enorme.

Saint-Emilon

Comparada a Pomerol, esta apelação é bem maior (cerca de 5400 hectares) com solos extremamente complexos e diferenciados. Para não complicar muito, podemos dizer que os solos mais arenosos e os solos dos vales, próximos ao Dordogne dão origem a vinhos pouco expressivos. Os grandes vinhos  estão em torno da cidade de St Emilion nas chamadas Côtes (encostas), bem como, nos solos de cascalho (graves) nas proximidades de Pomerol.

A classificação oficial dos vinhos de Saint-Emilion passa por um momento conturbado. Iniciada em 1955 foi prevista uma revisão de 10 em 10 anos, sendo a úlitma em 2006, extremamente polêmica, diga-se de passagem. Esta classificação apresenta três níveis de hierarquia:

  • Premiers Grands Crus Classés A: Châtau Ausone e Château Cheval Blanc
  • Premiers Grands Crus Classés B: com treze châteaux
  • Grands Crus Classés: com cinquenta e três  châteaux

Neste último nível, a expressão Grands Crus Classés não tem nem de longe o peso que tem para os Grands Crus da Borgonha. São vinhos relativamente simples com raríssimas exceções. 

Falar dos châteaux classe A é chover no molhado. Seu único defeito é o preço. Château Ausone é um vinhedo quase dentro da cidade de St Emilon num solo extremamente calcário. É um vinho difícil, principalmente quando jovem. Revela-se aos poucos e exige paciência e experiência de quem o possui.

Já Cheval Blanc é totalmente oposto. De solo pedregoso, próximo a Pomerol, origina vinhos elegantes e extremamente receptivos, mesmo quando jovens. A Cabernet Franc tem participação marcante, sendo muitas vezes majoritária. É um vinho de sonhos com a safra de 1947 transformada no maior mito entre os grandes de Bordeaux. Château Figeac, da mesma região, é muito interessante, mas evidentemente, sem o mesmo brilho e glamour.

Os châteaux do grupo B são as grandes pedidas sem gastar uma fortuna. Château Canon, Pavie, Angelus, Magdelaine  e La Gafferière são  grandes experiências para sentir o terroir de Saint Emilion.

Satélites de St Emilion e Pomerol

Lalande de Pomerol, Montagne-St-Emilion, St-Georges-St-Emilion, Lussac-St-Emilion, Puisseguin-St-Emilion, Fronsac e Canon-Fronsac São apelações que circundam os grandes astros (Pomerol e St Emilion). São vinhos não tão complexos, mas podem ser interessantes, a medida em que o produtor possa exprimir com fidelidade seu respectivo terroir. Infelizmente, a oferta destes vinhos no Brasil é escassa. Vieux Château Saint-André, Château Les Hauts Conseillants e Château Fontenil são boas opções.

Vins de Garage

Tradição e notoriedade têm seus efeitos colaterais em Bordeaux. A Rigidez e inflexibilidade das classificações não dão margem a novos châteaux. Foi desta revolta que surgiram os garagistas nas regiões de Pomerol e St Emilion. São vinhedos minúsculos com uvas vinificadas em espaço reduzido (num cômodo como uma garagem). Os vinhos são concentrados, bastante extraídos e com passagem obrigatória por barricas novas, às vezes 200% em carvalho. É quando você passa um vinho no primeiro ano em barrica nova e no segundo ano você troca novamente a barrica por outra nova. Em resumo, são vinhos parkerizados, extremamente concentrados e acarvalhados. Muitos consideram o Le Pin como precursor desta categoria, mas pessoalmente considero um exagero. Os châteaux Valandraud e Le Dôme resumem melhor este conceito. São vinhos caros, pontuados e de prestígio. Enfim, conseguiram seu objetivo, mas altamente polêmicos quanto ao terroir.

Em resumo, os vinhos de St Emilion não apresentam um estilo bem definido. Ora são mais frutados e abertos tendendo a Pomerol, ora são mais austeros e fechados tendendo ao Médoc, sem falar nos garagistas que costumam anabolizar seus vinhos, tornando-os verdadeiros blockbusters.


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