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La Tâche, Tarefa Cumprida

12 de Agosto de 2017

Dando prosseguimento ao artigo anterior, nada melhor do que esquecer o passado e viver o presente com oito joias enfileiradas para a degustação. Dentre elas, algumas preciosidades como as safras 99, 90 e a tenra safra de 2005. A degustação seguiu com quatro flights formados por duplas. Antes porém da tarefa (tâche em francês), alguns mimos para acariciar as papilas e o devido aquecimento.

picchi gaja e meursault

Angelo Gaja e seu Gaia & Rey 2014, Arnaud Ente Meursault 1° Cru La Gotte d´Or 2007, e Comte de Champagne Taittinger 1961, abriram os trabalhos.

Gaia & Rey está entre os melhores Chardonnays italianos, se não for o melhor. Branco elegante, fresco, lembrando algo de Puligny-Montrachet. Bom para alegrar as papilas. Já este Meursault de produção limitadíssima (1200 garrafas por safra) é um espetáculo. São apenas 0,22 hectare de vinhas. Textura gordurosa dos grandes Meursaults, mas com um toque limonado sensacional refrescando o palato. Um vinho muito jovem para seus dez anos de idade. A noite promete!

evolução de um grande champagne

Já à mesa, primeira grande harmonização. Creme de cenoura com caviar escoltado por este senhor Champagne quase sexagenário. Aqui o que vale é a qualidade do vinho-base, embora ainda com delicada e discreta mousse. Um Blanc de Blancs envelhece muito bem e este como observou um dos convivas, tem um perfil interessante de um belo Jerez Amontillado. A força e mineralidade desse champagne mais seus toques oxidativos combateram bem a personalidade do caviar. Vamos em frente …

picchi coche dury

Agora um triunvirato básico de Coche-Dury. Para quem não conhece muito bem esse nome, segue abaixo um pequeno relato envolvendo as safras 96, 99 e 2007.

Coche-Dury Corton-Charlemagne Grand Cru

São apenas 0,33 hectare, um terço de hectare, ou se preferirem, 3300 metros quadrados de vinhas na Montagne de Corton. Para cuidar deste jardim, uma das referências da Borgonha, Coche-Dury. Embora seu foco maior seja a comuna de Meursault, seus métodos tradicionais e o cuidado extremo com as vinhas, o credenciam para brilhar no extremo norte da Côte de Beaune. Seus vinhos são fermentados em barricas de carvalho com baixa porcentagem de madeira nova. O amadurecimento dos mesmos dá-se também em barrica por longos meses num eficiente trabalho de bâtonnage (revolvimento das borras no fundo do barril, fornecendo complexidade ao vinho e ao mesmo tempo, protegendo-o do oxigênio).

picchi salsão tartar caviar anchova

salsão desidratado, tartar e caviar de anchova

harmonização instigante com os Meursaults

Todo esse savoir-faire para explicar como a safra 1996 pode ser magnífica atualmente, conforme constatação unânime dos convivas. Um branco com mais de vinte anos de idade num esplendor que só os grandes vinhos possuem. Mineralidade, balanço incrível entre seus componentes e uma textura inigualável. A safra 99 também é espetacular, mas vem a maldita comparação. Degustado solo, é outro branco incrível, talvez um pouco menos opulento. Já o 2007, temos uma safra um pouco inferior às demais, além de estar muito novo para um embate deste naipe. Está atualmente delicioso, fresco, com todos os toques da juventude, mas evoluirá com dignidade nos próximos dez anos. Em suma, Coche-Dury está no posto mais alto da Borgonha quando o assunto são Brancos.

Ufa! como é duro chegar aos La Tâche!. Não vou me aprofundar no assunto, visto que o artigo anterior dissecou bem o tema. Vamos sem delongas ao embate de duplas.

picchi la tache 05 e 09

Fundamentalmente, um flight da juventude. Sobretudo o 2009, foi um verdadeiro infanticídio. O vinho estava nervoso, parecendo não querer acordar aquela hora e dizendo: quem me tirou da garrafa agora???. Ainda formando seus aromas, tentando encontrar um ponto de equilíbrio, mas sem dúvida uma grande promessa, tal a montanha de taninos que envolve sua estrutura.

Quando passamos ao 2005, percebemos como quatro anos a mais de garrafa faz bem. Uma safra esplendorosa num momento radiante de juventude. Aquela intensidade de fruta, taninos ultra polidos, e uma persistência aromática notável. É aquela criança com um futuro promissor sem chances de dar errado. Será um dos grandes La Tâche do século em curso, na cola do 99.

picchi 03 e 99

Neste flight, La Tâche mostra porque é um dos maiores vinhedos sobre a Terra. Vamos começar pelo 2003 numa safra quente e polêmica. O vinho tem um extrato fabuloso, taninos em abundância, mas numa sintonia fina, um pouco quente para um La Tâche. Falta-lhe um pouco de frescor. De todo modo, um belo vinho.

picchi ravioli de coelho

agnolotti de coelho com os La Tâche

Agora, toda a reverência para este La Tâche 99. Não tem como tirar ponto deste vinho. É lindo demais. Conjuga com rara felicidade potência e elegância. Taninos ultra finos, corpulento, denso, multifacetado, e um final de boca interminável. Robert Parker dá 100 pontos e Allen Meadows 99 pontos. Alguém na mesa disse não ser uma boa garrafa. Pode mandar uma caixa lá pra casa …

picchi la tache 95 e 96

Neste terceiro flight, safras próximas, mas diferentes em estilo e concentração. Enquanto 95 é um estilo mais sisudo, pedindo tempo para uma melhor avaliação, 96 é puro prazer e elegância. Vai um pouco na linha do 99, sem tanta potência, porém muito elegante. Talvez tenha sido a preferida da maioria e pensando bem, um clássico La Tâche bem de acordo com a elegância e sutileza dos vinhos de Vosne-Romanée.

picchi la tache 93 e 90

Finalmente, o flight mais díspar, safras 90 e 93. Este La Tâche 1993 mostrou-se austero, duro, com taninos não condizentes para um vinho desta envergadura. É evidente que precisa de tempo para desenvolver aromas e polimerizar esses taninos, mas é uma aposta cheia de dúvidas.

picchi porcini e mousse de parmesão

porcini fresco e mousse de parmesão

bela textura para os La Tâche

Já o 1990, tudo que se espera de um La Tâche e seus aromas terciários. Pleno, com todos seus componentes integrados, exibe notas de couro, terra, chocolate amargo (cacau), num final de boca extremamente bem acabado. Por toda a expectativa que o cerca por ser da grande safra de 90, sempre esperamos um pouco mais. De todo modo, um grande final de prova.

picchi oremus eszencia 2002

Já no apagar das luzes, a estrela maior da enologia húngara, o néctar Oremus Eszencia 2002. Elaborado somente com as uvas Aszú (totalmente botrytisadas), elas são empilhadas em recipientes, onde o gotejamento natural pelo próprio peso das mesmas, dá origem ao caldo a ser fermentado lentamente por anos a fio. A concentração de açúcares perto de 600 gramas por litro dificulta sobremaneira a ação das leveduras. Portanto, apenas alguns graus de álcool são conseguidos. Neste caso, foram 3,5º graus. O segredo para este equilíbrio fantástico em boca é sua incrível acidez, na ordem de mais de 15 gramas por litro. Para se ter uma ideia deste número, é superior à acidez de um vinho-base de Champagne. Concentração absurda de sabores. Como diz um dos convivas, esse é para tomar de colher.

Enfim, tudo bem cuidado e coordenado no restaurante Picchi com atenção especial do Chef Paolo Picchi e o competente sommelier Ernesto e sua paciência nipônica.

O que me resta, senão agradecer a todos pela companhia, pela boa mesa, pelos belos vinhos, tudo em harmonia e boa prosa. Vida longa a todos e que Bacco nos proteja!

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La Tâche Gaudichottée

29 de Julho de 2017

O mosaico bourguignon em termos de vinhedos e parcelas não é nada fácil de entender e memorizar. O conceito de terroir aqui é levado às últimas consequências, delimitando parcela por parcela. E já para complicar, há uma diferença conceitual entre Climat e Lieu-Dit, gerando enormes polêmicas no que diz respeito ao rigor filosófico da ideia de terroir.

Segundo o site oficial de vinhos da Borgonha (www.vins-bourgogne.fr), Climats são parcelas devidamente delimitadas pelo INAO, Instituto Francês que rege as apelações de origem (AOC), oficializadas em 1935. Portanto, algo oficial e com força de lei. Na Borgonha, segundo o site (www.climats-bourgogne.com), existem 1247 Climats em toda a apelação, sendo 635 exclusivamente a vinhas Premier Cru.

Já o termo Lieu-Dit, refere-se a locais consagrados pelo tempo, pela tradição, independente de leis que posteriormente possam ser criadas. Para alguns mais ortodoxos, a própria essência e origem de determinados terrenos.

Num raciocínio lógico e coerente, as duas definições se confundem, não havendo a principio distorções. Contudo, alguns casos particulares merecem uma reflexão mais profunda, sobretudo quando se trata de um dos maiores Grands Crus não só de Vosne-Romanée, mas de toda a Borgonha. No caso, o esplendoroso La Tâche, monopole da reputada Domaine de La Romanée-Conti. O quadro abaixo, ajuda elucidar o fato.

les gaudichots

Les Gaudichots: repartição complexa

No final do século XIX, em 1855, Les Gaudichots pertencia a quatro proprietários: Lausseure, Ragonneau, Confuron, e Bergeret. Nesta época, La Tâche já tinha reputação semelhante ao vinhedo Romanée-Conti e sua área era de apenas 1,40 hectare. Já Les Gaudichots possuía 5.95 hectares.

Em negociações um tanto obscuras, a maioria das parcelas de Les Gaudichots foram adquiridas por Duvault-Blochet, então proprietário DRC, entre final do século XIX e inicio do século XX, conservando em seus rótulos o nome Les Gaudichots. Tanto é verdade, que o Les Gaudichots 1929 Domaine de La Romanée-Conti é um vinho legendário.

Aproveitando o gancho, segue link do site Académie des Vins Anciens num almoço memorável com a presença de Aubert de Villaine no restaurante Taillevent, regado a grandes caldos, inclusive Henri Jayer Cros-Parantoux 1991 e 1995. http://www.academiedesvinsanciens.org/dejeuner-les-gaudichots-1929-au-restaurant-taillevent/

les gaudichots 1929

menção “grand premier cru”

Em 1933, o vinhedo original La Tâche, então propriedade da família Liger-Belair, é vendido ao Domaine de La Romanée-Conti. Baseado numa antiga prática de muitos Les Gaudichots serem comercializados na época com a menção La Tâche, ganhando assim prestígio, Domaine de La Romanée-Conti resolveu unificar os dois vinhedos, já que tinha quase a totalidade dos Les Gaudichots. Portanto, a área original de 1,43 hectare foi acrescida de 4,63 hectares, totalizando 6.06 hectares, área que comumente conhecemos dos La Tâches atuais.

Em 1936 com a criação das AOCs, La Tâche com a área ja unificada, foi declarado Grand Cru. Restou apenas um hectare de Les Gaudichots não pertencente ao Domaine. Essa pequena área é atualmente fragmentada nas categorias Village e Premier Cru, ou seja, Vosne-Romanée menção Les Gaudichots (Lieu-Dit) e Vosne-Romanée Premier Cru Les Gaudichots. Complicado, mas é verdade.

les gaudichots (2)

Forey: um dos proprietários atuais

Velho La Tâche versus Novo La Tâche

Muita discussão para pouca conclusão. De acordo com relatos da velha Borgonha, o La Tâche original possuia um terroir diferenciado com vinhos mais ricos. Com a mistura dos vinhedos, provavelmente houve uma certa diluição. De qualquer modo, o vinho é extraordinário e certamente mais prazeroso em muitos momentos, do que o astro maior Romanée-Conti, de evolução mais lenta em garrafa.

 vosne_romanee terroir (2)

perfil geológico

No perfil geológico acima num corte da comuna de Vosne-Romanée, o extenso vinhedo La Tâche já unificado, tem um declive de 50 metros do ponto mais baixo na mesma latitude de Romanée-Saint-Vivant, perto de 250 metros de altitude, até acima de La Romanée, passando por Romanée-Conti, na cota de 300 metros de altitude.

Desta forma, ele passa por três diferentes tipos de solo, fornecendo várias expressões nos diversos setores do vinhedo. Na parte mais baixa, coincidindo com o vinhedo original, o solo mais nobre e raro de Vosne-Romanée chamado Marnes à Ostrea Acuminata, uma mistura judiciosa de argila e pequenos fragmentos de fosseis marinhos, transmitindo grande mineralidade ao vinho. No meio da subida, o calcário fragmentado começa ter mais volume relativo à argila num solo menos profundo. O vinho perde força, mas ganha elegância. Por fim, na parte mais alta do vinhedo, o chamado Calcaire de Premeaux ganha volume, resultando num solo raso, fruto da erosão da rocha-mãe com pouca proporção de argila. Portanto, vinhos mais leves.

Isso pode explicar em parte o esplendor dos La Tâches antigos no final do século XIX, baseado na análise geológica acima. Segundo Jules Lavalle, estudioso e crítico de alto gabarito neste período na Borgonha, classificou o antigo La Tâche no mesmo nível do Romanée-Conti como Tête de Cuvée, enquanto o vinhedo Les Gaudichots numa classificação imediatamente abaixo, como Premier Cuvée.

Concluindo, mesmo na França, país de grande tradição vinícola e de leis bem estabelecidas e definidas, pode passar a falsa impressão de imutabilidade de grandes terroirs como visto acima. Percebemos no entanto, que leis, costumes e a própria evolução do homem, modifica e ajusta caminhos traçados pela história. 

Bourgogne e Bordeaux em Harmonia

20 de Julho de 2017

Bordeaux e Bourgogne  são incomparáveis, mas podem conviver juntos, cada qual com seu brilho próprio. Foi o que aconteceu num agradável almoço entre amigos, onde a França falou alto, mostrando a excelência de seus vinhos.

Dando as boas vindas, um  Pessac-Léognan Blanc, terroir inconteste para brancos bordaleses fermentados em barrica. No caso, Chateau Pape Clément da bela safra 2009. O corte bordalês para este chateau privilegia um pouco mais a Sauvignon Blanc (50%), seguida de perto pela Sémillon (40%). Embora possa haver uma pitada de Muscadelle, o chateau dá preferência para outra branca pouco comum, chamada Sauvignon Gris. O vinho é fermentado em barricas de carvalho com bâtonnage, além de mais 16 meses de amadurecimento nas mesmas. A integração com a madeira é excelente, além de maciez notável sem perder o frescor. Foi muito bem com alcachofras marinadas, de entrada.

São 100  pontos Parker num vinho de incrível densidade e frescor ao mesmo tempo. Os toques de frutas exóticas como carambola, mel e ervas finas, permeiam o complexo aroma.

nino cucina pape clement 2009

corte bordalês em perfeita harmonia

Para mante o nível, tivemos que chamar Batman e Robin com um estupendo trio DRC pela ordem: Romanée-Saint-Vivant 2004, Romanée-Saint-Vivant 1985, e o majestoso La Tâche 1989. Nada mau!

nino cucina rsv 2004

Hoje é dia de maldade!. Matamos uma criança nascida em 2004. Este primeiro Romanée-Saint-Vivant com seus 13 anos de idade só foi começar a se mostrar depois de mais de uma hora de decantação com notas florais muito puras. A boca poderosa, quase agressiva, dando indicio de longos anos para domar seus finos taninos. Bela acidez e um equilíbrio fantástico.

nino cucina trio DRC

não tá fácil pra ninguém!

Aí chega sua versão: eu sou você amanhã. DRC Romanée-Saint-Vivant 1985. Silêncio para se observar os finos aromas terciários de um Borgonha deste naipe. Sous-bois, toques minerais divinos, fruta completamente integrada ao conjunto, especiarias delicadas, e um floral de fundo. Taninos absolutamente polimerizados, fornecendo uma textura sedosa e um final arrebatador. Já valeu o almoço!

nino cucina la tache 89

alguém já disse: um dos maiores vinhedos sobre a terra!

Só que um DRC sempre pode se superar, e aí chega sua majestade, La Tâche 1989. Bom, é hora de ligar o turbo e colocar a sexta marcha. Por incrível que pareça, ainda não está totalmente pronto, fruto de uma garrafa extremamente bem conservada. Taninos ainda presentes, mas de rara textura. Boca ampla, multifacetada, vai do Alfa ao Ômega, final expansivo, muito longo. Obrigado super Mário!

Você deve estar se perguntando, como é possível um Pinot Noir ainda não estar pronto com quase trinta anos?. Embora seja uma uva delicada, na Borgonha o ciclo de maturação da Pinot Noir é alongado ao extremo, permitindo um aporte de taninos acima do esperado. Some-se a isso, o fato dos DRCs serem vinificados com engaço, aumentando sobremaneira a estrutura de seus vinhos. Para isso ter sucesso, as uvas devem estar perfeitamente maduras, inclusive fenolicamente (taninos) falando.

iguarias para os DRCs

Não é fácil escolher comida para esses DRCs, sobretudo os dois mais antigos e complexos. Graças a Deus tinham algumas trufas para salvar a situação. Na fota acima, o restaurante Nino Cucina elaborou dois pratos com muita competência. O da esquerda, servido lindamente na frigideira, tratava-se de um Gnocchi maravilhoso com molho Taleggio, um dos melhores queijos do norte da Itália. Lascas de trufas negras por cima, completaram o quadro. Com o St Vivant 85, ficou uma maravilha. A textura de ambos se completavam, além das trufas darem campo para os divinos aromas terciários do vinho.

Já no prato à direita, um clássico do restaurante, talvez a melhor Língua de São Paulo. No caso, Língua ao molho de Mostarda em grãos (senape) com cebolas e batatas ao forno. O sabor e a textura desta língua são uma delicadeza sem fim. Precisão cirúrgica para envolver aqueles taninos ainda presentes no La Tâche 89 e deixa-lo desfilar à vontade, protagonizando a harmonização. Um gran finale!

alguns mimos para o Yquem 1998

Adoçando um pouco a vida, algumas especialidades da casa para escoltar o rei sol de Sauternes, Chateau d´Yquem. Com quase 20 aninhos, é uma boa fase desses vinhos capazes de atravessar décadas. A fruta ainda intensa, o mel perfumado, e os toques de Botrytis, se fundem bem na transição de aromas mais terciários. O belo Cannoli com raspas de laranja incita o lado cítrico e de juventude do vinho. Por outro lado, o Cucciolone, um biscoito de difícil elaboração com vários ingredientes na receita, envolvendo baunilha, cacau, malte, entre outros, complementado por uma calda de caramelo, instiga o lado mais doce e complexo do vinho. Enfim, este Yquem foi acariciado por todos os lados.

No final do almoço, um pessoal da Ficofi, da mesa ao lado, veio conferir e se surpreender com as maravilhas degustadas. Esta entidade de luxo reúne os melhores Chateaux e Domaines do mundo com ênfase evidentemente na França.

Um pouco mais de conversa e vários cafés encerraram este belo almoço, unindo de forma brilhante, Bordeaux e Bourgogne, além de França e Itália à mesa. Vida longa aos amigos de mesa e copo! Que Bacco nos abençoe sempre!

Bordeaux e outros grandes 85 – Parte I

22 de Dezembro de 2016

A ideia de reunir grandes tintos da safra 1985 surgiu em muitas comparações quando foram confrontados lado a lado alguns belos bordaleses safras 82 e 85 em degustações verticais memoráveis ao longo do ano. É claro que os míticos 1982 têm seu lugar cativo, pois trata-se de uma das maiores safras do século passado. Entretanto, embora os 85 não tendo a mesma potência dos gloriosos 82, guardam um equilíbrio fantástico, são sedutores, e continuam em grande forma.

safra-85-fazenda-sertao

as joias da safra 1985

Nesta última degustação do ano, resolvemos perfila-los numa seleção do que há de melhor na elite dos Bordeaux. Mais que isso, foram pinçados outros grandes 85 de regiões diversas, pois esta safra brilhou em várias denominações de origem prestigiadas. Assim, participaram Bourgogne, Piemonte, Toscana e Douro.

Divididos em grupos, vamos a seguir lembra-los, já começando com um trio arrasador. Num flight sem comparativos entre si, valeu a individualidade e a tipicidade confirmada por cada um. Afinal, trata-se de grandes produtores, referências em suas respectivas denominações de origem.

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italianos abraçando um português

Difícil começar por um, mas vamos lá. Sassicaia 85 é algo diferente já entre os demais Sassicaias. O rei dos supertoscanos nesta safra tornou-se imortal. Encorpado, equilíbrio fantástico, aromas que vão do chocolate, tabaco, até uma profusão de ervas como tomilho e sálvia, marcando a tipicidade italiana. Seu concorrente piemontês, Aldo Conterno Granbussia, numa elegância impar. Um Barolo de grande refinamento, mostrando que a Nebbiolo pode moldar vinhos tão elegantes quanto os mais finos borgonhas. Delicadeza e equilíbrio fantásticos. Barca Velha, a obra-prima de Fernando Nicolau de Almeida, colocando o Douro no mapa-múndi dos grandes vinhos. Cheio de vida, taninos presentes e muito finos. Os toques balsâmicos, ervas, e frutas em compota, permearam seus aromas. Ainda com bons anos pela frente.

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Guigal iniciando os bordaleses

Como tínhamos somente dois tintos do Rhône, resolvemos juntá-los a um par de bordaleses que respeitassem sua elegância. Os La-La-La, como são conhecidas as joias do produtor Guigal, trata-se de um triunvirato do mais alto nível da apelação Côte-Rôtie, norte do Rhône. La Landonne, mostra toda a elegância da Syrah neste solo granítico e escarpado. Muito sedoso, aromas balsâmicos com toques de incenso. Extremamente longo e harmonioso. La Turque, o macho da dupla, é cheio de virilidade, taninos mais presentes, uma certa austeridade, mas igualmente delicioso. Difícil pontua-los e compara-los em preferencia. Com toda essa delicadeza, entra em cena o Borgonha de Pauillac, o majestoso Lafite. Notas balsâmicas, especiarias delicadas, ervas finas, e o toque de tabaco característico da comuna. Bela evolução, mas com muita vida pela frente. Finalizando, o exclusivíssimo Le Pin, Pomerol de alto coturno. Mais denso que os demais, porém mantendo a suavidade do flight. Os toques de ameixa escura, chocolate, e um certo terroso, marcam seus aromas. Persistente e em plena forma.

Em meio aos flights, vários pratos preparados pelo assador Renzo Garibaldi, especialista em carnes dry aged, longamente maturadas, como da foto abaixo. 

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maturação de um ano

safra-85-borgonha

Clos de Tart ladeado por DRC

Chegando ao terceiro flight, temos um “intruso” no meio dos DRCs. Não é fácil colocar um vinho nesta situação, sem humilha-lo, pois a comparação é cruel. Contudo, Clos de Tart se portou altivo, respeitando sua vizinhança, mas impondo-se como um dos maiores entre os tintos da Côte de Nuits. De história tão antiga quanto o ilustre Romanée-Conti, Clos de Tart é o maior monopólio individual entre os Grands Crus da Borgonha. Extremamente longevo, nesta safra já se mostra acessível com seus lindos toques de cerejas escuras, violetas, especiarias e um mineral impressionante. O primeiro DRC, Romanée-St-Vivant, estava gracioso com seus toques florais, ervas, especiarias, muito macio e resolvido em boca. Safra prazerosa e num ótimo momento para ser apreciado. Por fim, a estrela do flight, o suntuoso La Tâche. Que imponência, que estrutura, que equilíbrio! O que é isso? Hugh Johnson já disse: “um dos maiores vinhedos sobre a Terra”.

Próximo artigo, os grandes Bordeaux, razão maior desta degustação, e outras preciosidades after dinner. Aguardem!

Tintos da Borgonha: Top Ten

23 de Junho de 2016

Tempos atrás fiz um ranking pessoal dos melhores tintos de Bordeaux provados ao longo de mais de 20 anos. Agora, chegou a vez dos tintos da Borgonha. É sempre uma escolha difícil, até porque a memória nos trai. Em todo caso, segue abaixo alguns vinhos com a ressalva ao longo do tempo de serem modificados. De qualquer modo, são vinhos especiais, e que dificilmente irão decepcionar aqueles que experimentarem. É bom frisar também, que não sou um especialista na matéria, mas alguém já disse: o gosto é soberano!

la tache 1990

Hug Johnson: Um dos melhores vinhedos sobre a Terra

A ordem da lista não significa prioridades ou escala de pontuação. Evidentemente, são vinhos sob meu critério, acima de 95 pontos, ou seja, obras de arte.

  • DRC Romanée-Conti 1985

vinho difícil que precisa de tempo. acho que com seus mais de trinta aninhos mostra suas verdadeiras virtudes.

  • DRC La Tâche 1990

normalmente, agrada mais que o mito acima na maioria das vezes.

  • DRC Romanée-St-Vivant 1978

um vinho de sonhos. É o meu preferido do Domaine e nesta safra, extrapola as expectativas.

  • Henri Jayer Cros Parantoux 1988

aqui é um homenagem ao monstro sagrado da Borgonha, Henri Jayer. Poderia ser outra safra ou qualquer um de seus tintos. A delicadeza e longevidade desses vinhos não tem descrição a meu ver.

  • Clos de Tart

Novamente, independe da safra. particularmente, as safras 88 e 96 são magnificas. Um dos poucos da Borgonha capazes de encarar o mito (Romanée-Conti).

  • Domaine Jacques-Frédéric Mugnier Chambolle-Musigny Premier Cru Les Amoureuses

Independente da safra, mas com este produtor. você não completará a Borgonha sem ter provado esta obra-prima. A linha tênue que separa o encantamento da mediocridade, só Mugnier chegou mais perto.

  • Domaine Ponsot

Independente de safra, seus Grands Crus Clos St Denis e Clos de La Roche, todos vinhas velhas, são de uma profundidade impar. O silencio depois da prova é inevitável.

  • Domaine Rousseau

Seus Chambertins são espetaculares. Difícil escolher um. Até seu Premier Clos St-Jacques é inesquecível.

  • Domaine Méo-Camuzet

Seus Grands Crus Richebourg e Clos de Vougeot são raros, caros e divinos. A essência de Vosne-Romanée.

  • Domaines Michel Lafarge e/ou Marquis D´Angerville

Uma homenagem aos tintos da Côte de Beaune com dois domaines espetaculares. Não são Grands Crus, mas seus Volnay topo de gama são de uma delicadeza impar. Lafarge, mais feminino. D´Angerville, mais viril. Premiers Crus como Clos des Chênes, Chateau des Ducs e Clos des Ducs, são sensacionais e podem envelhecer dignamente.

clos te tart 2007

Terroir de séculos

Reparem que com exceção do último vinho, todos os demais são da Côte de Nuits, berço espiritual da Côte d´Or e por conseguinte, de toda a Borgonha. Todos são Grands Crus distribuídos pelas famosas comunas de Vosne-Romanée, Chambolle-Musigny, Morey-St-Denis e Chambertin.

richebourg meo camuzet

exclusividade: menos de meio hectare

Além dos Premiers Crus da Côte de Beaune como última indicação, Les Amoureuses também inclui-se nesta classificação. Contudo, este tinto por si só, já é uma exceção.

henri jayer cros parantoux

o mito engarrafado

Há uma lacuna nesta classificação que precisa ser explicada. Os vinhos do Domaine Leroy. Infelizmente, os vinhos tintos do Domaine e não da Maison Leroy ainda não os provei. O branco Corton-Charlemagne é divino. Penso que os tintos devem seguir o mesmo caminho. Como disse, uma lista como essa jamais pode ser definitiva. A fila anda …

mugnier les amoureuses

a epítome da delicadeza

Todos esses vinhos são tintos de guarda que precisam pelo menos dez anos para se expressarem plenamente, alguns bem mais, especialmente Romanée-Conti, Clos de Tart e Domaine Ponsot.

Vinhos Antigos: Entre o Céu e o Inferno

14 de Junho de 2016

A velha máxima diz: em vinhos antigos não existem grandes safras e sim, grandes garrafas. Vez por outra, surpresas e decepções convivem lado a lado degustando garrafas antigas. O principal motivo é o chamado histórico da garrafa, ou seja, por onde ela passou todo este tempo até chegar na sua taça. Lugares diferentes, adegas diferentes, temperaturas diferentes, fora os eventuais maus tratos até por desconhecimento. O fato é que diante de uma grande safra, o vinho pode estar aquém, sobretudo quando as expectativas são enormes. Por outro lado, safras relativamente discretas, podem ser boas surpresas ligadas à ótima conservação e muitas vezes, tamanhos maiores de garrafas. Lembro-me bem de uma Magnum de Le Pin 1981, longe de ser uma grande safra, o vinho apresentou-se sedoso, complexo e até hoje com boas lembranças. É isso, a vida tem suas surpresas!

degustação loi

as estrelas do almoço

O almoço transcorreu no belo restaurante Loi com pratos muito bem pensados nesta degustação de tintos antigos, sobretudo com a delicadeza peculiar dos borgonhas. É importante os sabores de  molhos e ingredientes não agredirem a sutileza esperada nessas grandes ampolas, como o pessoal do grupo costuma se referir às garrafas. As fotos de algumas das iguarias falam por si.

Tudo isso para falar de algumas garrafas relativamente antigas de borgonhas tintos e brancos. De início, dois Montrachets com a marca Leroy. É bom frisar que existem dois Leroy: a Maison Leroy (Négociants) e o Domaine Leroy (mis en bouteille au domaine). O primeiro, embora seja caro também, nunca me emocionou. São vinhos bem elaborados, mas altamente discutíveis quanto à profundidade e consequente longevidade. Já os vinhos do Domaine Leroy são monstros sagrados, tanto brancos ou tintos. Exclusivíssimos, com menos de um hectare de vinhas cada um.

montrachet leroy 76 e 78

os brancos do encontro

Os Montrachets degustados eram da Maison Leroy. O de safra 1978 saiu-se melhor, como era de se esperar pela qualidade da mesma. Já evoluído, um pouco cansado, mas mesmo assim, com boa complexidade aromática e muito bem equilibrado. Já o 1976, menos possante, mais delicado, faltando um pouco de extrato, e por consequência, menos persistente. Evoluiu bem na taça com um delicioso toque de caramelo no aroma. Possivelmente, os Montrachets de oficio como DRC, Leflaive, Ramonet, entre outros, teriam mais punch neste mesmo estágio de evolução.

Passando agora aos tintos, é bom termos em mente características das safras recentes terminadas em oito. Fora 1978, que é uma safra esplendorosa, as safras 1988, 1998 e 2008, tendem a ser safras duras, sobretudo quanto aos taninos. Ao mesmo tempo que apresentam poder de longevidade, seus taninos parecem não resolverem-se nunca, ficando sempre uma certa aspereza, um tanto desagradável. Feitas essas considerações, vamos os vinhos degustados às cegas.

charmes-chambertin

surpresa na degustação

Primeiro vinho, um Charmes-Chambertin Vieilles Vignes Grand Cru 1998 do até então desconhecido produtor Domaine Bachelet, trazido pelo expert Manoel Beato. O vinho surpreendeu a todos não só pela boa complexidade, mas também pelo vigor e poder de longevidade apresentados. Os taninos estão presentes, mas agradáveis.

musigny comte vogue

a decepção da degustação

lasagna de pato loi

lasanha de pato surpreendente

Segundo vinho, Domaine Georges de Vogüé Musigny Vieilles Vignes Grand Cru 1988. A grande decepção do painel. Vinho duro, aromas e sabores um tanto rústicos, final áspero, deixando a boca seca. Não tinha a delicadeza esperada de um Grand Cru da Borgonha. Seu estilo parecia mais um Barolo pela virilidade. Enfim, não encantou.

la tache 83

infelicidade da garrafa

Terceiro vinho, Domaine de la Romanée-Conti La Tâche 1983. Só não foi pior que o vinho anterior, mas certamente o mais decepcionante La tâche que provei. Aqui sim, houve um problema de garrafa. Além de 83 ser uma boa safra, a elegância e sofisticação de um La Tâche são notáveis e marcantes. Estava claramente cansado e portanto, sem o brilho que este terroir costuma mostrar. Uma pena!

richebourg 88

a força de um DRC

risoto com lingua loi

belo risoto guarnecido por laminas de lingua e foie gras

Quarto vinho, Domaine de la Romanée-Conti Richebourg 1988. Aqui os motores começaram a esquentar. Um DRC de raça, bela safra, austera, potente, taninos firmes. Muita classe no nariz, boca equilibrada e final longo, como deve ser um Richebourg.

romanee st vivant 85

a elegância e equilíbrio de um Vosne

Quinto vinho, Domaine de la Romanée-Conti St-Vivant 1985. Dos DRCs, Romanée Saint-Vivant é meu preferido. Aromas terrosos, de adega úmida, sous-bois, e tudo que um Vosne é capaz de entregar. Taninos num nível superior, boca ampla e longa. Um grande 85.

romanee st vivant 78

tudo que se espera de um DRC

cabrito assado loi

cabrito assado com batata cremosa

Sexto vinho, Domaine de la Romanée-Conti St-Vivant 1978. Falei tudo isso do 85, mas a comparação é cruel. Este 78 é coisa séria. É tudo que eu disse do 85, dando um zoom no volume. Está na elite dos DRCs, embora só superado por outra garrafa degustada de mesma safra em ocasião passada.

grands echezeaux 83

longevidade à toda prova

Sétimo vinho, Domaine de la Romanée-Conti Grands-Échézeaux 1983. Este Grands-Échézeaux é um grand cru de austeridade. Esta safra traduz bem este lado viril, masculino. Belos aromas, abertos na medida do possível, mas com vida pela frente. Terroir de grande personalidade. Fechou bem a degustação, fazendo bonito depois do imbatível 78.

tokaji eszencia 2000

a imortalidade é palpável

Oremus Tokaji Eszencia 2000. Este é o suprassumo dos vinhos Tokaji, quase um licor. Com uvas 100% botrytisadas, é produto da espremedura natural das uvas por peso próprio numa espécie de gotejamento. Um mosto que pode atingir perto de 800 gramas de açúcar por litro com acidez tartárica de 15 gramas por litro, acima dos níveis de  vinho-base para champagne. Sua fermentação é bastante lenta, podendo demorar anos. Atinge poucos graus de álcool. Neste caso da safra 2000, apenas três (3º graus de álcool). Cor escura, muito denso em boca, equilíbrio fantástico, praticamente apenas entre açúcar e acidez. Longo, muito longo em boca. A textura é de um Pedro Ximenez, mas o frescor é algo notável. Uma maravilha! quase uma oração …

tiramisu loi

tiramisù repaginado

Enfim, painel extremamente interessante, didático, sempre nos ensinando a degustar. Some-se a isso, a companhia agradável, bom papo e boas risadas. A vida é isso, feita de momentos agradáveis entre amigos. Abraço a todos!

Vinhos da Arca de Noé: Parte II

9 de Março de 2016

Saindo da arca de nosso Noé, segue agora o desfile de tintos, e que tintos!. Evidentemente, começamos pelos borgonhas. Na mais, nada menos, que DRC (Domaine de La Romanée Conti) e Madame Leroy. Em seguida, um ilustre intruso do Rhône (Jean Louis Chave). Na parte bordalesa, dois pares de margem direita (Clinet, Le Pin e Petrus), e finalmente, dois pares da margem esquerda (Latour e Haut-Brion). Então, vamos a eles!

leroy clos de la rocheElegância: marca inconteste de madame Leroy

Clos de La Roche é um dos Grands Crus de Morey-St-Denis. Tinto de raça e certa austeridade, mas nas mãos de Madame Leroy tem uma graciosidade ímpar. O 2001 mais típico, taninos macios, aromas minerais e de rosas muito bem delineados. 2003 mais robusto, concentrado, típico da safra. Taninos mais presentes e muito persistente no final de boca. Bela interpretação das duas safras.

la tache e richebourg

Safra e vinhos esplendorosos

Quando estamos diante de um DRC da safra de 90, precisamos de um minuto de silêncio para cair a ficha. Alguém ja disse que La Tâche é um dos maiores vinhedos sobre a terra. E não há dúvida, o vinho é de uma complexidade e equilíbrio em boca quase indescritíveis. Contudo, ainda não está totalmente pronto. Há alguns mistérios a serem desvendados. Por isso, neste momento, o Richebourg torna-se mais prazeroso. Nariz com toda a complexidade da Pinot Noir e boca absolutamente macia, deliciosa. Momento importante da degustação.

chaves hermitage

O melhor Hermitage: com ou sem H

Dizem que o grande Hermitage vem de produtores que mesclam um maior número de vinhedos da apelação. Pois bem, Jean Louis Chave possui o maior número de “Climats” para fazer esta mescla. Embora o Cuvée Cathelin à esquerda da foto seja um cuvée de partidas mais concentradas escolhidas a dedo,  seu Hermitage clássico à direita me agrada mais. Talvez por estar mais pronto. Contudo, estamos diante de um par sensacional da irrepreensível safra de 90. Os aromas de frutas escuras, minerais e de especiarias invadem nosso palato.

le pin e clinet

Pomerol em alto nível

A safra de 89 moldou grandes tintos em Bordeaux. E no caso de Pomerol, não podia ser diferente. Talvez tenha sido o flight menos acirrado do painel de tintos. Embora Clinet seja um belo Château, sobretudo nesta safra, a comparação é um pouco cruel. Le Pin esbanja elegância sem precisar usar força. É bem verdade que está mais pronto que seu concorrente, mas é extremamente prazeroso. Clinet ainda pode surpreender com mais alguns anos. É esperar para ver.

petrus 64 e 67

Raridade: Petrus em sua maturidade

Petrus é diferente de tudo em Pomerol. Talvez por isso reine isolado e chega a ser atípico para a apelação. Eu o chamo de Latour da margem direita. Embora com seus 50 anos, este par ainda tem pernas para andar muito. Vinho denso, muito estruturado e de longa persistência. Briga muito acirrada, mas pessoalmente, acho o 64 uma cabeça à frente.

latour 45 e 64

Latour: quase imortal

Falando em Latour, olha ele aí!. Os dois seguem o perfil do flight anterior. Densos, profundos, quase indestrutíveis. Toda a essência de Pauillac está nestas garrafas. O cassis, o mineral, a caixa de charuto, entre outros aromas. Pessoalmente, achei o 64 mais estruturado. Entretanto, pode ser a diferença de idade, já que 45 é um ano lendário. Na dúvida, fique com os dois.

bochecha de boi

último prato: bochecha de boi e purê de grão de bico

haut-brion 59 e 61

Haut-Brion: elegância ao extremo

Este último par pode não ter a estrutura, a pujança, o poder, de um Petrus ou um Latour, mas certamente sobra elegância. 1959, minha safra, era puro deleite. Tudo no lugar, tudo resolvido, e o melhor, num platô amplo de estabilidade. Nenhum sinal de declínio. O 1961, também com muito prazer, mas trazia a marca da safra. Ainda uma certa austeridade, com taninos presentes. Flight sensacional.

Calma, ainda não acabou. Temos a sobremesa, os charutos, e claro, mais vinhos. Mais um tempinho, no próximo artigo. Até lá!

Amigos descontraídos, Vinhos sérios: Parte II

2 de Abril de 2015

Após o belo almoço DRC do artigo passado, só o desejo de provar um Romanée-Conti poderia continuar a saga. Em Petit Comitê, seguimos à casa de outro confrade onde outras surpresas estavam reservadas. Logo que chegamos, o confrade responsável pela fera chegou com a garrafa do mito 1998. Como gentilezas não têm limites, ele trouxe também um Petrus 2001 para a adega do anfitrião.

Mais um pequeno infanticídio

A princípio, na minha opinião, um Romanée-Conti não deve ser tomado com menos de 20 anos de safra, e em alguns casos até mais. Contudo, não deixa de ser uma experiência interessante, nem que seja para tentar vislumbrar seu potencial de guarda. A cor predominantemente rubi, denota sua junventude. Os aromas apesar de extremamente elegantes, ainda são tímidos, tanto pelo vinho em si, como pela característica da safra. Em boca, um equilíbrio fantástico, taninos finíssimos a resolver, e final harmonioso. Estimo seu auge daqui uns dez anos.

Preços estratosféricos

Este é um dos americanos mais caros e mais badalados de Napa Valley. O terroir não poderia ser melhor, a sub-região  de Oakville, situada entre Rutherford e Stag´s Leap. O corte bordalês é baseado com alta porcentagem de Cabernet Sauvignon. A safra é relativamente nova de 2006 com 98 pontos Parker. Vinho potente, cor concentrada e aromas um tanto fechados. Em boca, muito macio, taninos ultra-finos e persistência longa. Um estilo moderno, mas muito bem delineado. Longos anos de adega pela frente. Essa é uma das provas que os americanos estão muito à frente em relação a outros países do Novo Mundo quando se trata de vinhos topo de gama.

Safra surpreendente: 94 pontos (RP)

Esta é uma bela compra para os bordaleses de margem esquerda da pouco badalada safra de 2006. Com 94 pontos de Parker, mostrou-se muito agradável para o momento com toda a tipicidade de um grande Saint-Esthèphe. Cor pouco evoluída, mas aromas relativamente abertos, com toques de frutas escuras (notadamente o cassis), toques de torrefação, especiarias e ervas finas. Em boca, muito receptivo, macio, e com um balanço de componentes digno de um Grand Cru Classé. Final agradável e extremamente elegante.

Potência e Elegância no mais alto nível

Como cantava Nara Leão, o barquinho vai, a tardinha cai …, e mais um tinto de tirar o fôlego. Simplesmente, Amarone Dal Forno Romano safra 2006. Um estilo moderno, superconcentrado, muito mais do que se espera de um Amarone. Para se ter uma ideia da concentração deste tinto, o vinhedo sofre um forte adensamento de vinhas, chegando a ultrapassar mais de 13000 pés por hectare. Como essas uvas são colhidas supermaduras e posteriormente, sofrem o processo de appassimento, os rendimentos são baixíssimos. De 100 kg de uvas faz-se apenas 15 litros de Amarone. Além disso, o proprietário não deixa por menos, utiliza 100% de barricas novas. Diz ele: se o vinho não aguentar a barrica, é porque ele não está à altura da mesma. E de fato, a madeira reina em plena harmonia. Cor quase impenetrável, aromas potentes de frutas em geleia, alcaçuz, especiarias, café, e um defumado inebriante. Em boca, extremamente macio, um veludo, taninos bem dóceis, e um bom suporte de acidez. Pode ser tomado com prazer, mas evolui por muitos anos de adega. Um de seus parceiros clássicos é o queijo Grana Padano, o qual foi provado e confirmado com esta garrafa.

Um Corton-Charlemagne de Exceção

O nosso confrade do Romanée-Conti não estava para brincadeiras. Como se não bastasse ter trazido a fera, não deixou por menos no branco. E que Branco! Um preciosíssimo Corton-Charlemagne 2009 de Madame Leroy de produção extremamente limitada. Um dos melhores brancos da Borgonha que provei, unindo potência e elegância como poucos. Frutas como pêssego, damasco, o famoso pão com manteiga na chapa, o tostado lembrando frutas secas secadas ao forno (amêndoas), toques florais, e vai por aí afora. Já era noite, mas este monumental branco levantou o ânimo e nos reavivou. Fantástico!

A costumeira elegância Dom Pérignon

Com a chegada da noite ninguém é de ferro, sobretudo com um Dom Pérignon Rosé 2003. Para uma bela harmonização, que tal comida japonesa de alta qualidade e esmero. Foi um sucesso, principalmente com os pratos que envolviam atum. A acidez, a elegância e frescor deste champagne são pontos-chaves para um casamento perfeito. Se um Dom Pérignon já é exclusivo, um Rosé de produção baixíssima nem se fala. Além do mais, a safra 2003, um tanto calorosa, foi ideal para o perfeito amadurecimento da Pinot Noir, uva importante neste estilo de vinho. E assim terminamos o dia, a noite, e os sonhos …

Uma das sensações da Borgonha

Só para encerrar o artigo, esqueci de comentar o Borgonha acima degustado no final do almoço, após os DRCs. Um Vosne-Romanée exclusivíssimo do Domaine Prieuré-Roch,  o qual seu proprietário, Henry-Frédéric Roch, assinou muitas safras de Romanée-Conti. Este exemplar denominado Le Clos Goillotte da safra 2006 parte de vinhas com mais de quarenta anos, situadas a cinquenta metros dos limites do vinhedo La Tâche. A produção não passa de duas mil garrafas/ano. Um vinho de estilo mais moderno e muito abordável na juventude. Aromas abertos, francos, frutas deliciosas, toques florais, defumados e de especiarias, muito bem integrado à madeira. Para quem não tem paciência de esperar anos em adega, é uma boa pedida.

Sem mais delongas, agradeço mais uma vez aos confrades que proporcionaram momentos inesquecíveis com boa conversa e belos vinhos. Se esqueci de algum outro detalhe, é porque o inevitável abuso do álcool não permitiu. Grande abraço, e até as próximas!

Amigos descontraídos, Vinhos sérios: Parte I

31 de Março de 2015

Mais um encontro descontraído entre amigos em torno dos míticos DRCs (Domaine de La Romanée-Conti). Um show do terroir Saint-Vivant frente às feras de Richebourg e La Tâche. A comida sob a batuta da grife Fasano estava deslumbrante. Os vinhos, já de certa idade, deram trabalho com suas  rolhas fragilizadas pelo tempo. Nem tudo são flores, mas o serviço compensou. A recepção dos convivas foram com frios e queijos acompanhados pelos DRCs: Échezeaux 87, Richebourg 98 e Richebourg 2007. Evidentemente, o mais abordável via de regra é o Échezeaux. Sem grandes segredos, se mostra sempre sedutor. Os Richebourgs, muito jovens, ainda tem um longo caminho a percorrer em adega.

O início em alto nível deu o tom do que vinha pela frente. O Montrachet DRC 2007 escoltou brilhantemente a Terrine de Foie Gras e Figos Assados. Branco potente, amplo, com todo o esplendor deste terroir sagrado. Evidentemente, com muita vida pela frente, mas delicioso com seu frescor da juventude.

Terrine impecável

Montrachet DRC: menos de 4000 garrafas

Seguindo em frente, veio a Polenta com Ragu de Linguiça de Javali e Porcini Fresco. Outra bela harmonização com vinhos envelhecidos da safra 1992, um Saint-Vivant e um La Tâche. Saint-Vivant em seu esplendor andou de mãos dadas com o prato. La Tâche, sempre grande, um dos melhores vinhedos sobre a terra (Hugh Johnson). Este ainda tem coisas a mostrar. Esperemos pelo menos mais cinco anos. Aí sim, ele vai confirmar porque é o segundo na hierarquia DRC.

Saint-Vivant: O Allegro Andante do DRC

Falando em Saint-Vivant, o 1982 gerou dúvidas quanto à sua evolução. Alguns acharam certos toques de oxidação. Pessoalmente, achei-o deliciosamente evoluído com notas de cacau, chocolate, ervas finas. Algo como um Lindt 70% Cacau. De fato, sua cor notadamente atijolada, chamou a atenção. Enfim, não entrou na brincadeira. O mesmo ocorreu com o Saint-Vivant 1974.

Um prato irretocável

Continuando o sacrifício, o terceiro prato foi um Raviolini de Cotecchino na Manteiga e Sálvia com Redução de Vinho e Mostarda de Cremona. A harmonia de sabores era incrível. Desta feita, um Saint-Vivant 86, e dois La Tâche, um 87 e um 2002. Novamente, Saint-Vivant surpreendendo. As safras 86 e 87 já se encontram num bom momento evolutivo, sendo 86 um pouco mais tânica. 2002 é muito boa para os tintos, mas para um La Tâche, precisamos um pouco mais de paciência.

Ribeye Kobe: Sabores em harmonia

No último ato, um Ribeye Kobe Cozido à Baixa Temperatura ao Molho Marsala com Mousseline de Mandioquinha e Mix de Brotos, muito bem executado. Para escolta-lo um belo pelotão DRC: Romanée-Saint Vivant 83 e 78, La Tâche 86 e 90, e Richebourg 70. Os velhinhos 70 e 90 com boa evolução em taça, taninos resolvidos e lindos aromas terciários, embora o La Tâche 90 posso ainda mostrar algo mais com o tempo. O Saint-Vivant 83 e La Tâche 86 um pouco abaixo, com vitória do Saint-Vivant, muito provavelmente pela superioridade da safra. Agora o Saint-Vivant 78 é um caso à parte, relatado abaixo.

 

Safra esplendorosa

No vinho acima, tudo o que você imaginar de aromas terciários da Pinot Noir no mais alto nível estavam aqui. Notas de adega úmida, sous-bois, minerais terrosos, as rosas, alcaçuz, e outros tantos inumeráveis. A cor evoluída, atijolada, e taninos perfeitamente resolvidos. Boca ampla, e persistência notável. Uma das grandes safras históricas da Borgonha e dos vinhos DRC. Se o preço não for problema, o prazer está garantido.

Assortimento de Queijos

Bem, agora para arrematar o almoço, um seleção de queijos. escoltado por um Porto Vintage. E que Porto, que safra! Um Taylor´s 1977, safra esta comparada a 63 e 94. A cor ainda com nítidas notas rubi, aroma com compota de frutas escuras, além dos esperados toques terciários, mesclando minerais, chocolate, especiarias, entre outros. Acompanhou muito bem tanto o clássico queijo Serra da Estrela, como o Gorgonzola Dolce.

Sobremesa de deixar nas nuvens

O Gran Finale nos foi brindado com um Zabaione Frio com frutas do Bosque Frescas. Para acompanhar, nada mais, nada menos, que um Yquem 2001, nota cem com louvor de qualquer crítico. Evidentemente, ainda jovem. Vai evoluir por décadas, sem um previsão precisa de seu apogeu. Contudo, seu frescor e sua untuosidade fez um belo par com o prato. Notas de Botrytis, favo de mel, cítricos, e um equilíbrio notável entre álcool e acidez. Persistência interminável.

Agora um mimo antes do café, um Bas-Armagac Francis Darroze safra 1952. Para quem não sabe, é bem mais fácil encontrar um Armagnac safrado do que um Cognac. Além disso, Bas-Armagnac é a melhor sub-região deste belo destilado do sudoeste francês. Equivale ao nobre terroir de “Grande-Champagne” em Cognac. Caloroso, maduro, persistente e belo equilíbrio  de álcool frente ao seu extrato. A tentação de um Puro é imediata.

Pensa que parou aqui a brincadeira? De jeito nenhum. Um dos confrades não queria terminar o dia sem um Romanée-Conti. Mas isso é conversa para o próximo artigo. Ufa, haja fígado!

Tesouros da Côte de Nuits

11 de Janeiro de 2013

Domaine de La Romanée-Conti, Clos de Tart, Méo-Camuzet e Armand Rousseau, por exemplo, são nomes conhecidos, reverenciados e dignos de todos os elogios, beirando a perfeição. Ocorre que a magia deste santo pedaço de terra esconde tesouros não tão óbvios como os acima citados. O primeiro comentado neste blog foi uma série sobre Henri Jayer numa degustação comparativa com o todo poderoso Romanée-Conti. Desta feita, por sugestão do amigo João Camargo, falaremos de algumas preciosidades do Domaine Prieuré Roch (www.domaine-prieure-roch.com). Abaixo, a marca registrada de seus rótulos.

Vinhas, Energia e Frutos

Henry-Frédéric Roch, neto do lendário Henry Leroy que fez história no Domaine de la Romanée-Conti, possui onze hectares muito bem posicionados em várias comunas da Côte de Nuits, impecavelmente cultivados de maneira orgânica, em completa harmonia com a natureza. A perfeita maturação da uvas, a vinificação com cachos inteiros, a utilização de leveduras naturais, a longa maceração para extração de cor e taninos e o amadurecimento em barricas novas de carvalho por dezoito meses, sobretudo nos vinhedos Grands Crus, são procedimentos coerentes com os grandes vinhos da Côte de Nuits.

Aubert de Villaine (esquerda) e Henry-Frédéric Roch (direita)

Os homens acima assinam o rótulo abaixo

Dentre seus vinhedos, temos dois Grands Crus: em Chambertin, Clos de Bèze; em Vougeot, Clos de Vougeot. Outras preciosidades vêm de vinhedos exclusivos, aqui chamados “Monopole”. O primeiro da comuna de Nuits-Saint-Georges, denominado Clos des Corvées, é uma propriedade de 5,2 hectares de vinhas antigas com qualidade excepcional. O segundo, a razão de ser de nosso artigo, é o monopole “Le Clos Goillotte”, localizado a apenas cinquenta metros abaixo do mítico vinhedo La Tâche, outro monopólio do famoso Domaine de La Romanée-Conti. Demarcado desde os tempos do príncipe Conti, estas vinhas antigas escondidas no intrincado mosaico bourguignon, produz apenas duas mil garrafas por safra numa área de míseros 0,55 hectare. Suas exclusividade e sutileza são tão marcantes, que a localização do terreno não é precisa em qualquer mapa dos vinhedos de Vosne-Romanée. Muitas vezes, passa despercebido.

Segundo a Ficofi, entidade promotora de grandes eventos envolvendo os principais Grands Crus da França, Le Clos Goillotte é a grande sensação da atualidade. O rendimento desta vinhas de mais de quarenta anos não foge muito dos quinze hectolitros por hectare. Seu caráter é de estilo feminino com perfumes florais bem particulares, lembrando mais um Henri Jayer do que o introspectivo Romanée-Conti. O termo “baroque”, barroco em português, é o adjetivo mais preciso para definí-lo, ou seja, explendor exuberante. Seu consumo desde os tempos do príncipe Conti sempre foi privado para um público local. Após a aquisição pelo Domaine Prieuré Roch, sua comercialização tornou-o mais democrático, embora obviamente seletivo.

No Brasil, quem estiver disposto a experimentar algumas destas maravilhas, os vinhos do domaine são importados pela World Wine com preços evidentemente em quatro dígitos (www.worldwine.com.br).


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