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Vinhos Chilenos: Saindo do Óbvio

7 de Abril de 2014

A convite do sommelier e amigo Ariel Pérez, participei do seminário de vinhos chilenos (Chilean Wine Ambassador Brasil 2014), evento com um bom time de enólogos, sommeliers e especialistas na área. Um desfile expressivo de vinhos chilenos, dos mais variados estilos, abrangendo todos os vales importantes deste país.

Ariel na supervisão dos serviços

Dentre as amostras apresentadas, algumas figurinhas carimbadas dos ícones chilenos. São vinhos que dispensam comentários, fartamente mostrados e promovidos por todos os veículos da mídia. Don Melchor, Don Maximiano e Santa Rita Casa Real, três dos melhores Cabernets do Chile. Casa Marin Sauvignon Blanc, entre os dois melhores chilenos desta casta. Terrunyo Carmenère da Concha Y Toro, uma aula da temperamental uva emblemática. Gravas Syrah, mais um ícone da Concha Y Toro, com muita personalidade e potência. Viu Manent Viu 1, o Malbec que a Argentina não tem. Enfim, vinhos de grande prestígio no mercado nacional de importados. Contudo, falaremos hoje de belos vinhos ainda desconhecidos de boa parte do público e que trazem consigo um conceito mais preciso de terroir. Vejam a seguir:

Parras Viejas: Elegância acima da Potência

Este exemplar da Santa Helena parte de videiras antigas, algumas plantadas em 1910 na sub-região de Colchagua, zona dos Andes, junto à cordilheira. Um Cabernet Sauvignon elegante, muito equilibrado e bem mesclado com as barricas francesas. Importadora Interfood (www.interfood.com.br). 

Herencia: boa opção em Carmenère

Um vinho bem moldado no terroir de Peumo (melhor microclima para a Carmenère no Chile). Não tem a profundidade e a concentração do Terrunyo da Concha Y Toro, mas exibe elegância surpreendente. Barrica bem tramada com a fruta proporcionando interessantes toques balsâmicos e de especiarias. Importadora Casa Flora (www.casaflora.com.br). 

Maquis Franco: Cabernet Franc de destaque

Outro tinto curioso de Colchagua com vinhedos plantados em solo aluvial de alta pedregosidade, num clima seco e frio. Este 100% Cabernet Franc, para quem gosta da casta como varietal é pura elegância com um intrigante toque mineral. Parceiro de carnes com molhos delicados.

Toknar: Petit Verdot de caráter

Outro tinto original de Aconcagua (zona entre cordilheiras) 100% Petit Verdot. Tinto para quem gosta de fortes emoções. Uma estrutura tânica comparável a um Tannat. Rendimentos muito baixos por parreira (1,2 quilo de uvas) aliados a longa maceração pós-fermentativa gera vinhos potentes com grande profundidade. Os vinte e seis meses de barricas francesas novas não intimidam sua estrutura. Bom parceiro para pratos fortes como Cassoulet e Confit de Pato. Importadora Terramatter (www.terramatter.com.br). 

RE Chardonnoir: Vinificação singular

Começa pela cor encantadora, lembrando um vin gris, uma cor salmonada bem clara e de leve intensidade. As uvas Chardonnay e Pinot Noir são vinificadas separadamente em ânforas e tonéis de grande capacidade. Os vinhos permanecem separados com grande contato sur lies (sobre as leveduras), quase dois anos. Aí sim, eles são mesclados e preparados para o engarrafamento. Lembra os aromas dos bons rosés provençais, com toques florais, frutas delicadas e especiarias.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes FM 90,9 às terças e quintas-feiras. Pela manhã no programa Manhã Bandeirantes e à tarde no Jornal em Três Tempos.

Claude Troisgros: Haddock com Maçãs

9 de Janeiro de 2014

Haddock ou Hadoque (aportuguesado) é um peixe de águas frias semelhante ao Cod Fish (mais conhecido como bacalhau). Normalmente, encontramos o mesmo defumado, processo pelo qual expressa-se melhor. Apesar de tratarmos esta receita como de verão, o mais indicado é servi-la no jantar, especialmente para uma noite romântica. O passo a passo é dado pelo endereço abaixo, no programa Que Marravilha! do Chef Claude Troisgros.

http://gnt.globo.com/receitas/Hadoque-confitado-com-macas–anote-a-receita-de-Claude-Troisgros.shtml

Segundo a receita, podemos perceber a oleosidade do prato. Para isto, precisaremos de vinhos de muito boa acidez. Só por este fato, os brancos saem na frente, deixando pouquíssimas opções para os tintos. Outros ingredientes como amêndoas tostadas, o próprio toque de defumação do peixe, limão siciliano e as maçãs, vão de encontro a um bom champagne. Contudo, devemos procurar champagnes relativamente jovens e com muito frescor. Além disso, o toque açucarado e as as uvas passas no preparo das maçãs, aconselham um champagne não muito seco. Pode ser um Brut com açúcar residual próximo ao limite de sua denominação ou então, um Sec ou Extra-Dry. Um Moët Chandon costuma ter estas características. O Taittinger pode ser uma escolha ainda melhor.

Harmonização com acidez e açúcar em equilíbrio

Outra bela opção seria um Riesling alsaciano ou alemão. A ótima acidez desta nobre casta e a comunhão com o aroma das maçãs é perfeita. Um Zind-Humbrecht, um dos melhores nomes da Alsace, possui o equilíbrio de doçura perfeito. Um alemão Halbtrocken (meio seco ou não tão seco) é uma excelente alternativa. Doctor Bürklin-Wolf da importadora Mistral (www.mistral.com.br) é uma referência na região germânica de Pfalz.

Um Chardonnay poderia ser uma alternativa, mas teria que ser da Borgonha, pela elegância e o perfeito equilíbrio da madeira. Poderia ser um Puligny-Montrachet, porém um Chassagne-Montrachet tem mais peso para o prato. Se for do Novo Mundo, apenas alguns podem cumprir os requisitos acima. Por exemplo, alguns americanos de Sonoma Valley, um argentino Catena Alta, um chileno Amelia ou Sol de Sol, um Hamilton Russell sul-africano, ou um australiano Roxburgh da vinícola Rosemount.

Algum desses vinhos são trazidos pelas seguintes importadoras:

  • Mistral (www.mistral.com.br)
  • Interfood (www.interfood.com.br)
  • Zahil (www.zahilvinhos.com.br

Terroir: A temperamental Nebbiolo

30 de Junho de 2011

Falar da denominação Barolo sem usar expressões como: exceto, depende da safra, dependendo do produtor, dependendo da exposição do terreno, e outras tantas considerações, é como pisar num campo minado, dizendo que até aquele instante, está tudo sob controle. Este tema foi elaborado a pedido do meu amigo Roberto Rockmann, barolista convicto, em busca incessante de novas opiniões sobre uma das mais importantes e tradicionais denominações italianas.

Apesar de ser elaborado exclusivamente com Nebbiolo, esta uva é tão ou mais complicada que a própria Pinot Noir na Borgonha. Sua maturação é tardia, com um ciclo bastante longo. O próprio nome está ligado à época de colheita, com a característica neblina (nebbia) que se intensifica no começo do outono piemontês. Seus taninos são potentes e exigem um amadurecimento perfeito, dificultando ainda mais seu paciente cultivo. Portanto, é fundamental uma excelente exposição do terreno, preferencialmente a sudeste, como ocorre nos grandes vinhedos no hemisfério norte.

Esta breve introdução nos mostra o tamanho do problema. A despeito da pequena área desta denominação (imaginem um retângulo de oito quilometros de largura por doze quilometros de comprimento), tomar um barolo genérico é mais arriscado que tomar um borgonha comunal. Portanto, é fundamental conhecer o vinhedo específico e o estilo do produtor, para tentar entender o que se está tomando, de acordo com a característica da safra em questão.

 

[BaroloMap.jpg]

As várias comunas de Barolo

O mapa acima (dê um zoom para maiores detalhes) mostra uma importante linha divisória no sentido longitudinal, separando a oeste um solo denominado Tortoniano, de um solo a leste denominado Helvético. O solo Tortoniano, típico da comuna de La Morra, é composto de marga (mistura judiciosa de argila e calcário) com presença marcante de manganês e magnésio. É um solo claro com uma leve nuance azulada, semelhante à cor gelo. A Nebbiolo cultivada neste tipo de solo gera vinhos mais aromáticos, precoces, com taninos mais dóceis. Já o solo Helvético, é composto de marga com presença marcante de ferro, dando uma aparência mais amarelada. Nebbiolo cultivada neste tipo de solo gera vinhos mais austeros, de maior acidez e taninos mais marcantes. São os chamados Barolos de guarda, muito típicos da comuna de Serralunga d´Alba.

Seguindo esta linha de raciocínio, os chamados produtores Modernistas procuram cultivar uvas Nebbiolo em solos do tipo Tortoniano, cujo terroir é mais favorável  ao estilo moderno de vinficação, gerando Barolos de grande empatia.

Os chamados produtores Tradicionalistas encontram mais facilidades de expressar seus Barolos em solo do tipo Helvético, enfatizando toda a potência e austeridade desses vinhos.

Estilo Modernista

São Barolos aromáticos, agradáveis de beber mesmo em tenra idade, taninos relativamente macios e eventualmente, mostrando traços de barricas novas. Muito ao agrado do chamada gosto internacional.

Alguns Produtores: Domenico Clerico, Elio Grasso, Roberto Voerzio e Elio Altare.

Estilo Tradicionalista

São Barolos austeros, de grande acidez, taninos firmes, aromaticamente fechados quando novos. Vão se expressar melhor à medida que adquirirem aromas terciários (envelhecimento em garrafa).

Alguns Produtores: Massolino, Bruno Giacosa, Mascarello e Aldo Conterno.

Os produtores mencionados podem ser encontrados nas seguintes importadoras:

Grand Cru (Massolino): www.grandcru.com.br

Mistral (Giacosa): www.mistral.com.br

Vinci (Elio Altare e Domenico Clerico): www.vinci.com.br

Cellar (Aldo Conterno): www.cellar-af.com.br (fale com Amari de Faria, expert no Piemonte, e você terá outras dicas e produtores)

Interfood (Elio Grasso): www.interfood.com.br

Decanter (Mascarello): www.decanter.com.br

World Wine (Roberto Voerzio): www.worldwine.com.br

O fator complicador de toda esta história reside no fato de definir claramente o tipo de solo predominante de um determinado vinhedo, além de saber exatamente, até que ponto o produtor em questão pende para a escola Modernista ou Tradicionalista. Some-se a isto, os fatores climáticos de cada ano e por conseguinte, a safra, e a apaixonante polêmica está armada.

Concluindo, para você encontrar seu Barolo de coração, procure saber sobre o produtor, seu estilo e seus vinhedos. Veja se esses dados estão de acordo com seu gosto pessoal. Posso garantir que para chegar neste estágio, muitos Barolos serão abertos. Então, vamos ao sacrifício!

Terroir Mendocino

15 de Setembro de 2010

 

Particularidades de Mendoza

A província de Mendoza lidera com absoluta supremacia qualquer pesquisa vitivinícola da Argentina. Seja em variedades de uva, produção e principalmente qualidade, o terroir mendocino oferece inúmeras opções, e vem sendo descoberto e explorado pouco a pouco. Provar um Malbec de Mendoza não é algo genérico. É preciso identificar a microregião e quando se trata de vinhos de corte, mais uma variável entra em ação.

A pioneira neste estudo de precisão das peculiaridades de Mendoza foi a bodega Catena com vinhos muito bem elaborados em qualquer faixa de preço. Mesmo quando se trata de uma única uva, no caso, a Malbec, o Catena Malbec-Malbec sugere um corte de Malbecs de regiões distintas dentro do terroir mendocino.

O vinhedo argentino, sobretudo em  Mendoza, é calibrado basicamente em níveis de altitude. O clima é seco e continental, influenciado de modo marcante pela cordilheira dos Andes. O nível pluviométrico é praticamente desértico, com 200 mm anuais em média. Didadicamente, a linha Terrazas da Chandon, soube mostrar seus varietais de acordo com a altitude adequada, tanto para os brancos, como para os tintos.

De acordo com o mapa acima, os vinhedos mais a oeste, próximos à cordilheira dos Andes, ganham em altitude, entre 1100 e 1500 metros. Portanto, os dias são ensolarados e as noites frias, com grande amplitude térmica. Esses fatores alongam o ciclo de maturação das uvas, gerando vinhos elegantes e estruturados. Valle do Uco, incluindo Tupungato, é um dos grandes terroirs para Malbecs elegantes. Para os brancos de destaque, este terroir torna-se imprescindível. Não é por acaso, que o Catena Alta Chardonnay é o melhor branco argentino e porque não, da América do Sul, se levarmos em conta seu preço, menos de cem reais, atualmente. Seu vinhedo Adrianna a 1500 metros de altitude em Tupungato, são alguns de seus segredos.

Outro destaque da Catena, é o excepcional Catena Zapata Estiba Reservada. Muita gente toma este vinho pensando ser um grande Malbec. Na verdade, é 100% Cabernet Sauvginon, e que Cabernet Sauvignon! Sem dúvida, o melhor da Argentina, além de sério concorrente para os grandes Cabernets chilenos. Aqui novamente, a precisa calibragem dos vinhedos mendocinos. No caso, são três vinhedos: La Piramide, Domingo e Adrianna. O primeiro pertence a Agrelo, excepcional terroir para Cabernet Sauvignon, com solo pedregoso e altitudes ideais para esta casta (abaixo de 1000 metros). O segundo e terceiro vinhedos ficam em Tupungato, em altitudes de 1100 e 1500 metros, respectivamente. Essas parcelas fornecem a elegância tão benvinda dos vinhedos de altitude, mesclada à potência e profundidade do terroir de Agrelo. Resultado final, um equilíbrio fantástico!

Para os vinhos de corte, a Malbec combinada com uvas como Cabernet Sauvignon, Tempranillo ou Merlot, ganha profundidade e certa longevidade. Pessoalmente, a ordem das uvas acima citadas, fornece melhores resultados de forma decrescente. Os exemplos mais emblemáticos seguindo esta mesma ordem de corte são Cheval des Andes, Zuccardi Zeta e Trapiche Iscay. Respectivamente, são importados pelo grupo LVMH, importadora Ravin e importadora Interfood. Os vinhos da Catena já são velhos conhecidos da importadora Mistral.


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