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Números: Distribuição do vinho francês

30 de Maio de 2017

Sabemos de longa data que França e Itália disputam ano a ano a hegemonia do vinho no mundo, sobretudo em termos de produção. Entretanto, a divisão do vinho francês quanto a tipos e categorias, não é um assunto tão corriqueiro. Vamos então a alguns números relativamente recentes da safra 2015.

frança colheita 2015

Num total de quase 47 milhões de hectolitros, 40% são vinhos tintos, 15% vinhos rosés e 45% vinhos brancos. Tudo isso de vinho branco? sim !!!. Esqueceram que Cognac é feito de vinho branco? e que é preciso de 9 a 10 litros para fazer um litro de Cognac? Pois bem, só de vinho branco para esta finalidade são quase 10 milhões de hectolitros.

frança vinhos 2005 a 2015

queda acentuada de tintos no período

No gráfico acima, percebemos a queda acentuada de tintos no período (2005/2015) e uma queda mais branda nos vinhos brancos. Quanto aos rosés, uma progressão discreta, mas consistente. O mesmo podemos dizer quanto aos vinhos brancos destinados à produção sobretudo de Cognac.

Quanto às categorias de vinho, podemos dizer que de um total de 47 milhões de hectolitros, 45% são vinhos AOC (appellation d´origine contrôlée), 29% são VDP (vins de pays), 20% (vinhos destinados ao Cognac, sobretudo) e apenas 6% de vins de table. Colocando os vinhos AOC e VDP de um modo geral, como vinhos de boa qualidade, sobram poucos vinhos sob suspeita. Evidentemente, aqueles vinhos diferenciados, artesanais, de produtores meticulosos, continuam e continuarão a serem raridades.

O dossiê ainda fala sobre vinhos elaborados por produtores (mis en bouteille au domaine) ou por cooperativas. O sul da França de modo geral tem grande concentração de cooperativas com ênfase para Languedoc-Roussillon e sul do Rhône.

frança regiões vinicolas

regiões vinícolas

Em termos regionais, Languedoc-Roussillon continua sendo a área mais produtiva, embora sem a mesma pujança de outros tempos. Resumindo, menos porcaria em quantidade e mais qualidade média nos produtos. A região de Cognac tem muita expressão na produção, a despeito da maioria das pessoas desconhecerem o fato. Vale do Rhône e Provence têm muito vinho a oferecer, mesclando produtos do dia a dia até alguns ícones de produção exclusiva. A Aquitânia emglobando a região de Bordeaux alia quantidade e qualidade como nenhuma outra região.

nelson-sauvignons

Acima e abaixo, dois exemplos de vins de pays de alta qualidade a preços convidativos. Jaja de Jau (à direita) é uma linha de vinhos que expressa com fidelidade seus respectivos terroirs. Neste exemplo, temos um Sauvignon Blanc de Gaillac, sudoeste francês, região famosa por seus brancos e espumantes vibrantes, de grande acidez. Dentro da denominação VDP Côtes de Gascogne.

brumont rosé

rosé vibrante

Da mesma apelação VDP Côtes de Gascogne, este rosé do produtor Brumont, referência absoluta no Madiran na elaboração de Tannats, mostra um perfil aromático, muito fresco, e muito gastronômico. Substitui com méritos os bons e agradáveis rosés provençais, num balanço de elegância e frescor único. Importado pela Decanter (www.decanter.com.br).

O Sudoeste francês, bem como o Languedoc-Roussillon, ainda têm potencial para revelar muitas surpresas. Da mesma forma, a Provence e o sul do Rhône são celeiros de belos vinhos a serem descobertos. Basta ter coragem e curiosidade e sairmos do óbvio.

Tintos de Verão

9 de Fevereiro de 2017

O assunto é recorrente, mas não tem jeito de fugir dele. Sobretudo aqueles que não abrem mão dos tintos, nesta época de calor devem ser tomados alguns cuidados nas escolhas. A primeira dica é sempre pensar na comida que irá acompanhar esses vinhos. Não faz muito sentido optar por vinhos pesados, encorpados, cheios de taninos, para acompanhar lanches, comidas rápidas, molhos delicados, e muitas vezes; peixes, frutos do mar e carnes brancas. Portanto, vamos pensar nos principais componentes dos vinhos tintos.

Acidez

Esse é o componente fundamental para o nosso assunto. É preciso frescor, leveza, vinculados com aromas mais vivazes e de juventude. Como normalmente a acidez agride os taninos, convém que estes sejam pouco numerosos e de boa textura. Esse é o binômio típico de um Beaujolais, tinto leve do sul da Borgonha, elaborado com a uva Gamay.

Álcool

Este é outro componente  que idealmente deve ser baixo ou pelo menos, moderado. Contudo, existem vinhos que apesar de um teor alcoólico relativamente alto, têm acidez suficiente para equilibra-lo. É tudo uma questão de ponderação e principalmente, da sensação final do frescor esperado ou pelo menos, da sensação de pseudocalor amenizada. Por exemplo, vinhos do Piemonte costumam ter álcool elevado, embora tenham muito boa acidez. É o caso de Dolcettos e Barberas.

Falando em Barbera, é importante que eles não sejam “barricatos”. Normalmente, este tipo de Barbera costuma ser mais estruturado, mais tânico, fungindo um pouco da proposta de verão. É bom lembrar que um Barbera fresco, jovem, é um dos ótimos parceiros de pizza, paixão sobretudo dos paulistanos.

Para exemplificar, vamos a três vinhos didaticamente selecionados, sem presença ou interferência da madeira:

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Antônio Saramago Risco 2013

A vinícola deste Senhor sabe fazer vinhos. Antônio Saramago tem talento e experiência de sobra para elaborar belos vinhos com castas locais que ele conhece tão bem. Tanto no Alentejo, como na região da Península de Setúbal (antiga denominação Terras do Sado), seus vinhos expressão tipicidade, equilíbrio, sem maquiagens.

Neste exemplar degustado, o vinho tem boa concentração de cor, ainda com reflexos violáceos. Há uma pequena porcentagem de Alicante Bouschet aliada a Castelão, uva majoritária e muito difundida na região de Setúbal. Seus aromas remetem a frutas escuras, intenso floral e uma ponta de mentol. O corpo vai de médio a bom, belo frescor, e uma tanicidade importante, porém taninos muito bem polidos. Termina bem em boca, com sensações de frescor e os florais citados.

Por preços mais atraentes que os Crus de Beaujolais, é uma bela alternativa com maior potencial de guarda relativa, ou seja, sem mantem bem por mais dois anos, pelo menos. Importadora Vinissimo (www.vinissimostore.com.br).

Como sugestão de harmonização, eu acompanharia este tinto com uma carne magra grelhada e de guarnição, uma ratatouille fria. A carne domaria os taninos mencionados, enquanto as frutas e flores do vinho enriqueceriam esse mix de legumes.

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Dolcetto Dogliani Superiore Papà Celso 2013

Dogliani é o terroir mais nobre, mais reputado, para fazer Dolcettos de alma e boa concentração. Este, parte de vinhedos antigos com vinhas de mais de 50 anos. Não é propriamente um vinho de verão, mas vale a pena prova-lo. Digamos, um vinho mais outonal.

A concentração de cor impressiona. Escura, intensa, tingindo a taça. Os aromas são complexos e bem definidos, mostrando frutas escuras (cerejas), toque floral, especiarias, notas de café em grão, cacau, e um fundo mineral. Em boca tem bom volume, sempre com muito frescor. Seus taninos são presentes, mas ultrafinos. Apesar de seus 14,5° de álcool, seu equilíbrio é notável e muito harmonioso entre seus componentes. Final longo, fresco, e limpo. Um Dolcetto para rever conceitos. Importadora Mistral (www.mistral.com.br).

Pensando em harmonização, vamos deixa-lo para essas noites mais frescas de verão. Eu iria de costeletas de porco grelhadas com molho agridoce ricos em especiarias, acompanhadas de batatas ao forno com alecrim. O corpo e a intensidade de fruta desse vinho se adequariam bem.

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Couly-Dutheil Chinon Les Gravières 2014

Vale do Loire, terra de vinhos equilibrados e gastronômicos. Neste tinto da apelação Chinon, a Cabernet Franc mostra toda a tipicidade de um clima mais fresco. Outras apelações como Bourgueil e Saumur-Champigny devem ser lembradas. Esses tintos costumam ser boas alternativas para acompanhar peixes de rio, sem inconveniente da maresia.

Na degustação, mostrou cor rubi escuro de boa intensidade com reflexos violáceos. Os aromas de frutas escuras frescas é bem presente, notas minerais terrosas, de cogumelos, toque floral de rosas, especiarias (pimenta negra) e uma ponta animal (estrebaria), indicando um possível Brett, nada exagerado. Em boca, corpo médio, bom frescor, e taninos na medida certa. Persistência de média intensidade. Belo padrão para um tinto de verão. Importadora Decanter (www.decanter.com.br).

Para acompanhar, um belo Stroganov (estrofonofe) com arroz e batata-palha. A textura do prato, bem como o creme de leite e cogumelos, vão de encontro aos sabores do vinho. Um pouco de pimenta do reino moída na hora, dá o toque final à harmonização.

Brancos Espanhois e Viña Tondonia

2 de Fevereiro de 2017

Sobretudo por questões climáticas, os tintos espanhóis se destacam muito mais no cenário internacional. Rioja, Ribera del Duero, Priorato e mais recentemente, Bierzo, fazem dos tintos espanhóis um porto seguro.

Em termos de branco, exceto os Jerezes e Cavas, talvez somente os Albariños tenham alguma penetração no mercado, embora os Alvarinhos do lado português sejam fortes concorrentes. Um outro branco de certa tradição mas pouco conhecido do público, são os Verdejos de Rueda, região árida de Castilla y Léon, próxima a Ribera del Duero e vizinha de Toro.

Seguem abaixo, os comentários desses brancos, culminando num vinho único de Rioja, os brancos Viña Tondonia da bodega López de Heredia, tecendo maiores considerações.

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Paco & Lola Albariño Rias Baixas 2014

A denominação de origem Rias Baixas, extremo noroeste da Espanha, região da Galicia, engloba várias sub-regiões sendo uma dela Val de Salnés, de onde provem este Albariño. Este vale tem um produção intensa de Albariño que são caracterizados por sua leveza e salinidade. Ideal para peixes e mariscos in natura como sashimis e carpaccio.

De fato, o vinho apresenta cor muita clara e brilhante. Os aromas são bastante cítricos, minerais e algo floral. Boca leve, limpa, muito fresca, com predomínio amplo da acidez. Percebe-se claramente a salinidade e um final estimulante e de muito frescor. Neste verão, é uma ótima opção. importadora – http://www.almeria.com.br

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Jose Pariente Verdejo Rueda 2014

A casta Verdejo tem uma resistência impressionante no árido solo pedregoso de Rueda. Não fosse o frio vento Gallego e noites mais frescas, garantindo uma boa amplitude térmica, seria inviável elaborar brancos de qualidade como este. Com parreira de mais de 30 anos, as uvas são vinificadas com breve contato das cascas em temperatura controlada e aço inox. O vinho permanece sur lies até o engarrafamento. importadora Decanter (www.decanter.com.br).

A cor é de boa intensidade com um palha-dourado e reflexos verdeais. Os aromas são cítricos, de ervas, e frutas tropicais mais frescas. Em boca, tem certa textura, mas com uma acidez estimulante e agradável. Final persistente e de personalidade. Pode acompanhar bem um belo ceviche, com seus toques de limão, coentro e pimenta.

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López de Heredia Viña Tondonia Blanco Reserva 2000

Cor dourada brilhante levemente envelhecida, sugerindo um vinho doce. As uvas são Viura (Macabeo) e 10% de Malvasia. Os aromas são complexos e multifacetados com sugestão de frutas secas, damascos, notas de chá, caramelo, mel, resinoso, entre outros. Em boca, um equilíbrio fantástico entre álcool e acidez. Nem um pouco invasivo, mas com muita harmonia. Persistência longa e expansiva. E olha que 2000 não é uma grande safra!. Importadora Vinci (www.vinci.com.br).

Nada melhor para acompanha-lo que uma bela posta de bacalhau ao forno com legumes bem condimentados. Outra sugestão seria um camarão a provençal com arroz puxado no próprio molho (manteiga, ervas e alho).

Um pouco mais de López de Heredia …

Este vinho merece maiores considerações, pois trata-se de um dos melhores brancos espanhóis de guarda, se não for o melhor. A bodega López de Heredia tem uma filosofia de trabalho muito particular e mantem a tradição de elaborar vinhos à moda antiga com um trabalho artesanal, de paciência e muita sensibilidade no desenvolvimento do vinho em seu processo de “crianza”.

Aqui existe um ritual muito sério com a madeira que é mesclada ao vinho com maestria. A bodega possui tanoaria própria, ou seja, ela confecciona as barricas de carvalho. Com um arsenal de quinze mil barricas, o carvalho é todo americano por razoes específicas. No carvalho americano as fibras são mais compactas, gerando menor porosidade e por consequência, a madeira deve ser obrigatoriamente serrada e não fendida como nos carvalhos franceses. A madeira é recebida bruta na bodega e posteriormente cerrada em aduelas (pequenas ripas que formam a barrica). Em seguida, procede-se a secagem natural da madeira com as aduelas todas empilhadas. Primeiro ano, ao relento (chuva, vento, sol). Segundo ano, coberta.

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um mar de barricas

Este processo de secagem natural elimina uma série de substâncias indesejáveis da madeira, e ao mesmo tempo, o enriquecimento de outra série de substâncias que contribuirão em termos aromáticos. Além disso, o processo confere mais resistência da madeira à putrefação, aumentando sua vida útil.

Devidamente secadas, as aduelas são agrupadas então para a construção propriamente da barrica. Mediante à ação do fogo, vão se moldando as mesmas. Neste novo processo, a tosta da barrica se faz necessária e trará consequências importantes ao vinho. López de Heredia opta por tostadura de grau médio, onde a integração aromática entre barrica e vinho é mais coesa e natural. Em tostaduras ligeiras, os aromas de frutas secas e coco ficam muito evidentes. Da mesma forma, em tostaduras mais intensas, os aromas empireumáticos como de café, torrefação, ficam muito dominantes.

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gran reservas maravilhosos

Pausa para a foto acima. Estas duas safras históricas acima (64 para o tinto e 68 para o branco) são de uma complexidade e integridade excepcionais. Ainda permanecem vivos, inteiros, quase imortais. Tanto o branco, como o tinto, chegam a passar dez anos em madeira. Devemos tomar alguns cuidados no serviço. Devem ser abertos pelo menos uma hora antes do consumo e mesmo o branco, deve ser servido a temperatura ligeiramente inferior do tinto, em torno de 16 graus.

Por fim, o longo processo de crianza, onde o vinho permanece por anos nas barricas, criando toda a magia. Nesta fase, a idade da barrica é muito importante com três categorias distintas a serem mescladas, visando total harmonia.

Barricas novas, maior micro-oxigenação, maior aporte de taninos e substâncias aromáticas. São utilizadas apenas 10% de barricas novas. Barricas com idade até 10 anos têm essas características atenuadas, marcando menos o vinho. São utilizadas 50% dessas barricas. O restante (40%), são utilizadas barricas antigas, com mais de dez anos. Nestas barricas a micro-oxigenação é muita lenta, ajudando na estabilização do vinho e dos polifenóis, conferindo ricos sabores. Neste interim, o vinho sofre várias trasfegas ao longo dos anos, promovendo uma clarificação e filtração naturais.

Finalizando o assunto, todo o mosto é fermentado em tinas enormes de madeira com mais de cem anos de idade, devidamente monitoradas. Ao longo do tempo, as paredes desses recipientes formaram uma crosta em suas paredes com resíduos de tartaratos e outros compostos de fermentações sucessivas e acumuladas. Disto resulta uma blindagem natural dessas tinas e um ambiente perfeito para as leveduras naturais que ano após ano acompanham as uvas e o mosto em cada safra. Elas não só revigoram essas leveduras, como servem para catalisar o início de uma nova fermentação. Esse é mais um detalhe que contribui para a distinta personalidade deste vinhos.

Vale a pena entrar no site da vinícola e verificar todo esse assunto e outras particularidades desta tradicional bodega. http://www.lopezdeheredia.com

Champagnes e Taças

22 de Janeiro de 2017

Estamos vivendo tempos de mudança no serviço de champagne. A tão propalada taça Flûte está em xeque!. Para uns tornou-se obsoleta, para outros é visualmente o símbolo de vinhos espumantes. Quem está com a razão? Prontamente, se responde: sempre o cliente.

Do ponto de vista técnico e com uma pitada pessoal, a questão deve ser aprofundada e a resposta não pode ser radical. Para espumantes mais simples, elaborados pelo método Charmat, caso típico do Prosecco, os aromas de frutas e flores são melhores apreciados na flûte, além do perlage se manter mais gracioso na taça.

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taças: flûte, tulipa e vinho branco

Para espumantes elaborados pelo método clássico (o mesmo feito em Champagne), incluindo os champagnes mais simples, caso das cuvées básicas de cada Maison, a tulipa parece ser mais adequada. Ao mesmo tempo, ela mantém bem os aromas sem prejudicar o perlage.

No caso de champagnes especiais como os millésimés (safrados) ou cuvées de luxo, ainda prefiro a tulipa, embora neste caso a taça de vinho branco estilo bordalês esteja ganhando bastante espaço. Contudo, a tulipa deve ser obrigatoriamente de bojo maior. A Riedel por exemplo, tem um belo exemplar com 330 ml de capacidade e um design primoroso.

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Richard Geoffroy: Chef de cave Dom Pérignon

Cabe nesta discussão a opinião de Richard Geoffroy, Chef de Cave do Champagne Dom Pérignon. Ele é defensor da taça de vinho branco no serviço de champagne. Tanto é verdade, que a cristaleria alemã Spiegelau tem uma taça específica da linha Authentis que Geoffroy adota como referência (foto acima).

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outras taças sugeridas: Jamesse, Riedel e Zalto >

a do meio: linha Riedel Veritas (445 ml)

Por fim, para os grandes champagnes envelhecidos, onde o perlage já não é o mais importante e sim o vinho-base, supondo que seja de grande qualidade, a taça de vinho branco torna-se praticamente obrigatória. Realmente neste caso, o champagne está muito mais para um vinho branco do que propriamente para um vinho com borbulhas.

Posto isto, vamos a três champagnes degustados recentemente em três estilos diversos e muito interessantes.

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Pierre Gimonnet & Fils Cuvée Fleuron Brut Premier Cru 2005

Pierre Gimonnet é uma Maison especializada no estilo Blanc de Blancs, ou seja, somente vinhedos Chardonnay. Esta cuvée Fleuron mescla aproximadamente 80% de vinhedos Grand Cru (Cramant e Chouilly) com 20% Premier Cru de Cuis. A ideia é harmonizar estrutura (Grand Cru) com frescor (Premier Cru). Normalmente, esta cuvée passa pelo menos quatro anos sur lies (em contato com as leveduras) antes do dégorgement. A ótima safra de 2005 confere extrato e destacado potencial de envelhecimento. Importadora Premium (www.premiumwines.com.br).

A cor é um leve dourado brilhante com reflexos verdeais. Os aromas são muito delicados mesclando flores, mel, frutas secas e um fundo mineral. Em boca, ao mesmo tempo que sentimos sua acidez, seu frescor, em seguida vem a maciez dada pelo tempo sur lies. A complexidade é notável, assim como sua persistência e equilíbrio. Pode abrir grandes jantares, como acompanhar pratos delicados da alta gastronomia.

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Barnault Blanc de Noirs Brut Grand Cru

Outra casa artesanal de Champagne utilizando nesta cuvée somente vinhedos Grand Cru (Bouzy, Ambonnay e Louvois). Em estilo totalmente oposto, trata-se de 100% uvas Pinot Noir. Sua dosagem de açúcar de apenas 6 gramas por litro reforça sua elegância e austeridade. Importadora Decanter (www.decanter.com.br).

Champagne de corpo, estrutura e de gastronomia. Não dá para bebericar sem comida. Seus aromas remetem a cogumelos, frutas secas e um traço mineral. Em boca, bela acidez, profundidade e mousse intensa. Persistente, e de final marcante. Ideal com aves especiais como cordorna ou perdiz e molhos de cogumelos.

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Henriot Brut Souverain

Souverain é a cuvée básica da Maison Henriot. Composta  por mais de 25  Crus das sub-regiões de Montagne de Reims e Côte des Blancs, temos Pinot Noir, Chardonnay e uma pitada de Pinot Meunier. Em média, temos 20% de vinhos de reserva. As garrafas permanecem sur lies por três anos, tempo muito acima do exigido pela legislação vigente. Importadora Vinci (www.vinci.com.br).

É um champagne comme il faut (como se deve). Cor palha dourada brilhante. Aromas de brioche, empireumáticos (café e caramelo), frutas secas, cítricos e algo floral. Corpo médio, acidez marcante, mousse intensa e delicada, e um final fresco e equilibrado. Tudo que se espera de um bom champagne.

Brancos e Tintos à Mesa

19 de Janeiro de 2017

Continuando na enogastronomia, tema recorrente deste blog, mais algumas harmonizações testadas com vinhos interessantes e pratos ecléticos.

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grande Mosela

Eis um grande Riesling do Mosel do excelente produtor Grans-Fassian. Esse vem do médio Mosel da sub-região de Piesport do vinhedo Goldtröpchen. Terroir escarpado, rico em ardósia. Spätlese é a categoria de açúcar imediatamente acima de kabinett. Leve docura com uma acidez fenomenal. Persistente, rico em flores, cítricos e minerais. Acompanha muito bem patês de porco e de aves. Desta feita, acompanhou uma salada de folhas, aspargos e camarões. Dominou um pouco a cena, sem comprometer a harmonização.

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Vitovska: uva exótica da Eslovênia

Marko Fon é o grande produtor da Eslovênia na região do Carso, terroir montanhoso rico em calcário. Vitovska é uma uva nascida do cruzamento da Malvasia Bianca com a Glera (uva do Prosecco). É um vinho laranja com maceração das cascas não tão intensa. O vinho é muito aromático, rico em damascos e cítricos com incrível mineralidade. Muito equilibrado, acompanhou bem um ravióli de queijos defumados, ervas e presunto parma. Tem corpo e estrutura para prato ainda mais condimentados. Os dois brancos citados são da Decanter (www.decanter.com.br).

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belo par harmonizado

Se você quer um Sauternes relativamente “simples”, Haut-Bergeron é a pedida certa importado pela Cellar (www.cellar-af.com.br). Por um preço muito razoável, temos toda a tipicidade da apelação com muito equilíbrio e complexidade surpreendente. Acompanhou muito bem os dois folhados acima, um de pera, outro de maçã, e um sorvete de mel para refrescar. Grande fecho de refeição.

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outra bela combinação

A safra 2006 em Bordeaux é subestimada, sobretudo este Chateau Bahans Haut-Brion. Parker dá menos de 90 pontos, o que considero muito rigoroso. Trata-se do segundo vinho do grande Haut-Brion com taninos bem moldados, corpo médio, e toda a tipicidade da comuna de Pessac-Léognan. Fez um belo par com o bife ancho acima, acompanhado de batatas ao forno com alecrim. A textura macia da carne estava de acordo com a estrutura tânica do vinho. Delicioso de ser bebido no momento, mas pode evoluir com segurança por mais cinco anos.

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harmonização surpreendente

Raposeira é um dos grandes nomes de Lamego em termos de espumantes, região adjunta ao baixo corgo (Douro) onde pessoalmente, considero o local ideal para espumantes portugueses elaborados pelo método clássico. Este rosé é feito com castas portuguesas típicas do Douro com estágio sur lies (contato com as leveduras) por pelo menos três anos. Bom corpo, rico em frutas, especiarias e toques defumados. Acompanhou muito bem o prato acima, uma espécie de cuscuz paulista com coentro, pimenta e camarões. A harmonização foi muito refrescante e rica aromaticamente, além de sabores bem casados.

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marrote: nome gaúcho do leitãozinho

A carne acima é bem macia e tenra do chamado marrote, nome dado no sul do país para um leitão novo não castrado. Acompanhado com molho do próprio assado, ervas e batatas ao forno.

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Borgonha e Dão em confronto

Não é que este Borgonha da Côte de Beaune foi muito bem com o prato!. Pernand-Vergelesses é uma comuna encrustada entre Savigny-Les-Beaune e Aloxe-Corton. Trata-se de um Premier Cru delicado como muitos desta parte do sul da Côte d´Or. A safra é excelente. Embora já com seis anos de vida, tem muito vigor e vida pela frente. Entretanto, é muito agradável de ser tomado no momento. Rico em frutas, cerejas frescas, especiarias e um leve sous-bois. A delicadeza do vinho casou perfeitamente com a textura da carne e o sabor do assado. Em seguida, chegou o Quinta da Pellada Touriga Nacional da boa safra 2004. Embora com mais de dez anos, o vinho mostrou vivacidade e uma acidez incrível. Um pouco mais robusto que o antecessor, não comprometeu a harmonização.

O Borgonha vem da importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br) e o Dão da importadora Mistral (www.mistral.com.br).

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combinação ousada

Côtes de Blaye é uma apelação bordalesa pouco conhecida e não tem a nobreza dos tintos do Médoc. Fica na margem oposta do rio Gironde, na altura da comuna de Margaux, e é vizinha à outra apelação também sem muita expressão, Côte de Bourg. São tintos de corte bordalês para o dia a dia, sem grande complexidade e que não precisam envelhecer muito. Importado pela Vinissimo (www.vinissimostore.com.br).

Com a informalidade do nosso tradicional virado a paulista, pode ser uma boa combinação, tendo estrutura adequada ao prato, além de fruta, taninos e um sutil toque amadeirado para enfrentar sabores e texturas dos ingredientes. Mesmo que o vinho com a idade ganhe um pouco de aromas terciários, os toques defumados do prato se adequam bem.

O importante aqui é a questão de tipologia do prato, ou seja, pratos frugais com vinhos sem sofisticação. Não adianta querer comer pizza com Sassicaia. Neste caso, vá de Chianti simples. É como se vestir de terno e gravata com chinelos.

Outras sugestões para o prato são Côtes-du-Rhône, Chinon ou Bourgueil do Loire, bons Merlots nacionais ou um Alentejano de média gama.

Entre Tintos e Brancos

22 de Agosto de 2016

Nas últimas provas realizadas entre amigos, brancos e tintos destacaram-se numa diversidade de propostas, uvas, regiões e estilos.

meursault perrieres

safra prazerosa e acessível

O vinhedo Perrières expressa de forma magnifica toda a essência de um Meursault, sobretudo nas mãos de Michel Bouzereau. Com vinhas plantadas em 1960, 78 e 97, seus vinhos têm estrutura e equilíbrio notáveis. A fermentação e amadurecimento são feitos em barricas, sendo 25% novas. Medida certa para não marcar o vinho. Notas de mel, frutas brancas maduras, e um elegante tostado em meio a um toque mineral, somam-se a uma textura macia, prolongando o final de boca. Já muito agradável, vai bem com vitela, peixes, e frutos do mar em molhos brancos, além de ostras gratinadas. Importadora Cellar.

malvasia eslovenia

branco exótico

Os vinhos eslovenos de Marko Fon são sensação no momento pelo seu exotismo. Ele trabalha com as brancas Vitovska e Malvazija Istarska, ambas uvas locais. Na foto acima, trata-se da Malvazija, também conhecida como Malvasia Istriana, própria do nordeste italiano (Friuli). Suas vinhas de quatro hectares são de idade avançada, algumas centenárias, num solo calcário no Carso (Kras), sub-região eslovena bem próxima do mar adriático, sofrendo sua influência salina.

O mosto é fermentado com algum contato com as cascas em toneis de madeira inerte com leveduras naturais. Esse tipo de Malvasia confere grande acidez ao vinho e pureza em fruta. Um branco vibrante, bastante austero e fechado logo que aberto, necessitando de decantação por pelo menos uma hora. Aromas exóticos lembrando pêssegos, damascos e carambola, além de um fundo mineral e ervas. Ele lembra de maneira sutil um vinho Laranja. Pode acompanhar bem bacalhau, pratos com aspargos, e numa combinação ousada, ostras frescas com geleia de estragão. Importadora Decanter.

aldo conterno colonnello

o inimitável Aldo Conterno

Todos aqueles que já tomaram bons Barolos precisam ter a experiência com um Aldo Conterno. O homem consegue fazer um Borgonha dentro do Piemonte, tal a delicadeza de seus Nebbiolos. Este do vinhedo Colonnello com vinhas entre 40 e 45 anos prima pela elegância numa escola tradicionalista. Seus 28 meses em carvalho da Eslavônia promovem a micro-oxigenação certa para seus aromas etéreos com notas de alcaçuz, cerejas negras, alcatrão e especiarias. Seus taninos são um capitula à parte. E olha que taninos de Nebbiolo não são fáceis. Muito equilibrado e um final extremamente harmônico. Importadora Cellar.

matetic 2007

foge do estilo Novo Mundo

O que encanta de cara neste vinho é o frescor, apesar de seus quase dez anos (safra 2007). A cor é escura, muito intensa. Melhorou muito com o tempo em taça, ratificando que os vinhos com a uva Syrah são muito redutivos, merecendo longa decantação. Frutas negras em geleia, toques defumados, de chocolate escuro, e especiarias, além de toques mentolados e minerais. Corpo de médio a bom, taninos de rara textura, e um final fresco e longo. As vinhas situam-se em Rosario, setor nobre da vinícola com grande influência do Pacifico no Valle San Antonio. Muito agradável no momento, embora vislumbre ainda bons anos de guarda. Uma verdadeira referência de Syrah no Chile. Importadora Grand Cru.

rioja alta ardanza 2001

safras espetaculares: 1964, 1973 e 2001

Viña Ardanza Reserva Especial 2001

A bodega Rioja Alta dispensa comentários com seus ótimos vinhos cheios de personalidade. Viña Ardanza é o terceiro na hierarquia, atrás dos estupendos Gran Reserva 904 e 890. Costuma mostrar o caminho do estilo da casa com seus toques balsâmicos, de especiarias, caramelo, cevada, além de um equilíbrio gustativo notável. Contudo, neste ano 2001 superou em todos os sentidos, merecendo a menção Reserva Especial. Já na cor, percebemos a alta concentração do vinho, nem de longe denotando seus 15 anos de vida. Mais encorpado que o normal, taninos ultra finos e uma expansão de boca marcante. Definitivamente, um grande ano para esta bodega. Importadora Zahil.

madeira verdelho

o equilíbrio dos Madeiras

Cossart Gordon Madeira Verdelho 5 Years Old

Os Madeiras costumam relacionar suas uvas mais nobres com o grau de doçura do vinho. Portanto; Sercial para o seco, Verdelho para o meio seco, Boal para o meio doce, e finalmente, Malmesy para o doce. Este Medium Dry degustado, surpreendeu pela doçura e complexidade apresentadas. Acompanhou muito bem um Partagas E2, finalizando um belo almoço. Suporta bem sobremesas levemente adocicadas como bolos e tortas de frutas secas. Belo equilíbrio em boca, sustentado por uma acidez marcante e agradável. Expansivo, álcool na medida certa, e final de grande frescor. Bela opção no mercado. Importadora Decanter.

Malbec: Altitude x Atitude

17 de Julho de 2016

Os Malbecs argentinos estão tão presentes em nosso dia a dia que muitas pessoas não sabem ou esquecem que a origem desta uva é francesa. Menos divulgado ainda é a região de sua terra natal, o sudoeste francês. Dentre as várias apelações deste pedaço da França, Cahors (pronuncia-se caór) é seu centro nevrálgico. Ao longo do rio Lot, cheio de meandros, os vinhedos se espalham formando em altitudes escalonadas níveis de terraços. De toda a forma, não há comparação com o terroir argentino, de altitudes bem maiores.

Numa degustação recente na ABS-SP, exploramos estes dois terroirs (francês e argentino), percebendo nas taças suas diferenças, virtudes e diversidades. Vamos a eles, então.

terroir cahors

Terroir – Cahors

Apelação do sudoeste francês com pouco mais de três mil hectares de vinhas distribuídas ao longo do rio Lot, um tributário do Garonne, formando um terroir único e de características específicas. Na Idade Média era conhecido como “vinho negro” e muito apreciado pelos ingleses. Com a decadência da região pela ascensão dos vinhos bordaleses, culminando com a chegada da filoxera no final do século XIX, Cahors só conseguiu reerguer-se novamente na metade do século XX com um replantio consciente das vinhas numa espécie de renascimento.

Voltando ao terroir, junto ao rio, temos os primeiros terraços com solos aluviais de areia e limo, gerando vinhos mais ligeiros e de fácil abordagem. Subindo as encostas temos mais dois níveis de terraços onde o sílex se incorpora à argila e ao calcário em forma de pedras, chamado localmente de “éboulis du causse”. Aqui temos vinhos mais estruturados, ricos em taninos, e mais encorpados. Finalmente, os vinhos de planalto onde o sub-solo calcário domina a cena, promovendo vinhos um tanto duros na juventude, ricos em taninos e de alta acidez, e por conseguinte, vinhos de guarda. O esquema acima retrata bem este terroir. De toda a forma, as altitudes estão limitadas a trezentos metros.

terroir argentina x chile

Terroir – Mendoza

Na região argentina de Mendoza, esta uva adaptou-se muito bem e com enorme sucesso mundo afora. Trata-se de um terroir de altitude, ou seja, o clima quente aliado a uma bela insolação, sobretudo na época de maturação das uvas, não apresenta dificuldades para amadurecer as uvas Malbec. Pelo contrário, se quisermos obter vinhos mais finos e mais estruturados devemos buscar altitudes mais elevadas onde a chamada amplitude térmica preservar com muito equilíbrio a acidez das uvas, além de prolongar o ciclo de maturação fenólica. Dentro deste raciocínio, as zonas altas do rio Mendoza e o chamado Valle de Uco são as sub-regiões mais propícias para este sucesso.

Em Maipú e Lujan de Cuyo, setores de grande prestígio na zona alta de Mendoza, as altitudes giram em torno de mil metros. Essas alturas aliadas a solos pobres e bem drenados, criam um ambiente espetacular para uvas de alta qualidade. Somando-se a esses fatores as chamadas vinhas antigas, muitas com mais de 50 anos,  a equação fica perfeita. Vários Malbecs e também Cabernets fazem muito sucesso nessas áreas.

Um outro terroir mendocino relativamente mais recente é o Valle de Uco, setor de grandes altitudes na área de Mendoza. Aqui estamos falando acima de mil metros, chegando até números em torno de mil e quatrocentos metros de altitude. A insolação é espetacular, mas as uvas correm mais riscos no processo de amadurecimento, devido às intempéries, sobretudo os fortes ventos. No entanto, seus vinhos são muito equilibrados em termos de acidez, destacando-se pelo notável frescor. O esquema acima, mostra a influência da altitude.

don nicanor malbecmauricio lorca poetico

os destaques argentinos

Na degustação, os dois vinhos acima mostram bem a origem de seus respectivos terroirs. O da esquerda, Don Nicanor Barrel Select provem de Lujan de Cuyo, mostrando um Malbec mais encorpado, musculoso, e de notável maciez, envolvido pelos aromas da barrica. Já o da direta, o Lorca Poético, vem do Valle de Uco onde as maiores altitudes conferem um pouco mais de delicadeza, promovendo Malbecs mais equilibrados. Uma questão acima de tudo, de gosto pessoal. Os vinhos acima são importados pela Casa flora e Vinissimo, respectivamente da esquerda para direita. http://www.casaflora.com.br e http://www.vinissimostore.com.br

cahors chateau du cedre

grande capacidade de guarda

Os dois vinhos de Cahors mostram comportamentos diferentes. O vinho acima, Chateau du Cèdre, embora com seus praticamente oito anos, não mostra sinais de evolução. Pelo contrário, seus aromas são relativamente fechados, a boca marcada pelos taninos e acidez, sugerindo ainda um bom tempo de guarda. Percebe-se de maneira sutil, alguns toques de aromas terciários com notas defumadas e animais. De toda forma, muito equilibrado em boca. Importadora World Wine (www.worldwine.com.br).

lagrezette malbec

Safra 2004 com mais de dez anos

O outro Cahors, foto acima, trata-se do Chateau Lagrezette, chateau histórico da região, restaurado pelo bilionário Alain Dominique Perrin, executivo de alto escalão de várias marcas de luxo no Europa. Apesar de seus mais de dez anos, o vinho ainda pode ser guardado, embora já possa dar muito prazer. Taninos de boa presença e de grande qualidade. Os aromas terciários estão bem presentes, sugerindo algo de embutidos. Muito equilibrado, sua persistência aromática é expansiva com frutas, especiarias e notas defumadas. Grande final de prova. Importadora Decanter (www.decanter.com.br).

Na gastronomia, pratos típicos do sudoeste francês como Cassoulet e Confit de Canard são parceiros típicos destes Malbecs estruturados sob a apelação Cahors. Sua força, corpo, taninos e acidez, são componentes decisivos na harmonização, combatendo sobretudo a gordura e suculência destes clássicos.

Do lado argentino, o lado sedutor do vinho aliado aos aromas da barrica são grandes companheiros da rica tradição do país em carnes grelhadas e assadas. Para os Malbecs mais jovens e frutados, as típicas empanadas costumam ser um bom casamento também.

Borgonhas à Mesa

29 de Junho de 2016

Quando Borgonhas são bem escolhidos é preciso comemorar, divulgar, enfim, marcar o evento, pois este desafio costuma ser frustrante. Neste encontro com dois grandes amigos no restaurante Emiliano, tudo correu “comme il faut”. Da entrada ao cafezinho, só boas surpresas. Aliás, comida de primeira num ambiente tranquilo e sem filas.

de sousa zoemie cuvee precieuse

Preciosismo em Blanc de Blancs

O champagne que abriu os trabalhos cumpriu sua função com maestria, fazendo o papel de um verdadeira Blanc de Blancs: leveza, frescor e papilas estimuladas. Embora no rótulo não tenha a menção Blanc de Blancs, apenas cuvée Precieuse, trata-se de uvas 100% Chardonnay de vinhedos Grand Cru nas comunas de Avize, Cramant e Oger, todas na sub-região da Côte des Blancs. Champagne muito delicado, perlage e mousse adoráveis, com um final limpo e estimulante. Perfeito!. Importado pela Decanter.

puligny-montrachet les perrieres

Puligny de Terroir

Com o prato de entrada, um Puligny-Montrachet do produtor Louis Carrillon & Fils extremamente bem elaborado. O Premier Cru Les Perrières, vinhedo de pouco menos de um hectare, faz a transição para a comuna de Meursault. Isso fica bem nítido no vinho, onde percebemos um nariz de Puligny, mas a textura em boca é mais para Meursault. Num estilo elegante, o trabalho de bâtonnage é muito bem feito em barricas, sendo uma pequena porcentagem delas, novas. Fruta delicada, leve toque amanteigado da malolática enriquecido com notas  de especiarias, fez um par perfeito com prato de ravioli de vitela em molho de manteiga e sálvia (foto abaixo). Além dos aromas e sabores se complementarem, a sintonia de texturas foi perfeita.

Encerrando a primeira parte, a bela acidez deste branco garante uma boa longevidade. Foi decisiva no equilíbrio gustativo, contrapondo com maestria sua agradável maciez. Final de boca rico e complexo. Importado pela Mistral.

ravioli de vitela restaurante emiliano

leveza e sutileza de sabores

Mantendo o nível do branco, este Premier Cru de Vosne-Romanée (foto abaixo) fez bonito. Michel Gros elabora este belo tinto no vinhedo Aux Brûlées de vizinhanças nobres como Cros Parantoux, Richebourg e Les Souchots. São apenas 63 ares, pouco mais de meio hectare, em solo pedregoso e sub-solo calcário. O vinho amadurece em média 18 meses em carvalho, sendo de 50 a 80%  barris novos para os tintos Premier Cru com este, dependendo da safra. Em particular, 2005 foi excelente na região. Reflete-se em todo o vinho, a começar pela cor de intensidade marcante. Seus aromas de cerejas escuras e um toque agradavelmente defumado são dominantes. Em boca, um equilíbrio fantástico, onde a estrutura de taninos é marcante e presente. Contudo, são taninos de alta qualidade e de textura inigualável. Certamente, esses componentes vão permitir uma longa guarda, pelo menos mais dez anos.

aux brulees premier cru 2005

a sagrada comunhão de produtor, terreno e safra

O prato abaixo, um leitão assado em seu próprio molho guarnecido de mil-folhas de batatas, garantiu o bom casamento. Os sabores do assado e da própria carne ligaram-se perfeitamente ao vinho. Além disso, o corpo, textura e intensidade de sabores estavam sintonizados. A agradável gordura entremeada à carne foi devidamente combatida pela precisa acidez do vinho. Realmente, uma harmonização de detalhes.

leitao assado restaurante emiliano

precisão no ponto do assado

Em resumo, a enogastronomia foi praticada em alto nível com pratos e vinhos de grande precisão e singularidade. Poucas vezes este feito é atingido, embora na maioria dos casos, pratos e vinhos estejam bem representados individualmente. Mas é isso, geralmente quando as expectativas são mais comedidas, as surpresas costumam aparecer. Nesta noite, rondamos a perfeição. Obrigado aos amigos!, verdadeiros especialistas da Terra Santa.

Comemoração entre Amigos

13 de Janeiro de 2016

Como é bom você poder escolher as pessoas que vão comemorar seu aniversário! Aquelas que estão sempre juntas a você em qualquer situação. Os laços ficam mais fortes e nesses momentos de alegria aproveitamos cada instante para gravarmos na memória. Este é o verdadeira sentido da vida, bons relacionamentos.

larmandier

Chardonnay de pura elegância

Na recepção, não poderia faltar um autêntico Blanc de Blancs, champagne elegante, estimulante, abrindo os trabalhos com muita alegria. Patê de ricota com tomate-seco, salada de folhas com queijo de cabra e molho à base de iogurte, acompanharam perfeitamente as borbulhas de um Larmandier-Bernier, importado pela Cellar (www.cellar-af.com.br).

buçaco branco

Um dos seletos brancos longevos

A entrada tinha que ser contida, pois o prato de resistência era uma moqueca com frutos do mar (peixe, lula e camarões). O duelo de acompanhamento deu-se entre um Sancerre branco (Sauvignon blanc do Loire) e um belo Buçaco branco com as uvas Maria Gomes, Bical e Encruzado. Este exemplar da safra 2005 é ainda uma criança. Seus aromas cítricos e resinosos, além da acidez, são notáveis. Daqui a dez, quinze, vinte anos, esses sabores vão se fundir, surgindo sensações incríveis. Este vinho criado no grande hotel Bussaco (grafia usada para o hotel), fica entre a Bairrada e o Dão, e por conseguinte, as uvas das duas regiões são mescladas. Tem estágio em madeira inerte. É trazido pela Mistral (www.mistral.com.br).

mellot generation

Sancerre excêntrico

moqueca frutos do mar

moqueca “paulista”

Voltando ao Sancerre, Alphonse Mellot molda brancos macios, baseados em longo trabalho sur lies e passagem por madeira. Uma filosofia perigosa onde qualquer exagero pode beirar a vulgaridade. Não é o caso deste exemplar, Cuvée Génération XIX safra 2012.  São vinhas com mais de 80 anos, plantadas em alta densidade (dez mil pés/hectare), em solo pedregoso de origem argilo-calcária. Sua elaboração envolve um trabalho de bâtonnage entre 10 e 12 meses em madeira inerte. Vinho macio, multifacetado em aromas e uma textura bem apropriada para a moqueca. Bom duelo com o Buçaco, mas neste momento, mais de acordo com o prato. Outro exemplar da competente importadora Cellar (www.cellar-af.com.br). Vale também ressaltar que esta moqueca puxa para um estilo mais capixaba com pequenas modificações. Portanto, não vai dendê.

madeira malmsey

A casa mais antiga da Madeira

torta de nozes

O presente de minha amada

Encerrando os trabalhos à mesa, uma torta de nozes recheada com marron-glacê e cobertura de suspiro. Bela cena para a entrada de um Madeira. Neste caso, um Cossart-Gordon Malmsey 5 Years Old da importadora Decanter (www.decanter.com.br). Seus aromas empireumáticos (caramelo), defumados, balsâmicos e de frutas secas, foram de encontro ao prato. Um belo fecho de refeição. Só para lembrar, 5 anos significa que o vinho mais jovem do blend tem esta idade.

h. upmann la casa

Ring 52: fumo complexo

Já fora da mesa, cafés, chás, e destilados, fizeram companhia aos Puros. Bolivar Belicosos (companheiro fiel do doutor Cesar Pigati) e H. Upmann Royal Robustos de fluxo agradável, enevoaram o ambiente. O embate para ambos foi o consistente Bourbon Wild Turkey (whiskey americano) e o estonteante Ron Zacapa Gran Reserva Solera 23. Brilharam sobretudo no terço final. Este tamanho de H. Upmann é levemente maior que um Robusto, porém com uma bitola avantajada, o que permite uma mistura de fumos mais complexa.

ron zacapa 23Sabores e intensidade notáveis

A propósito, este rum guatemalteco merece detalhes sobre sua elaboração. Nesta solera, participam runs com idade entre 6 e 23 anos no blend. Daí, a designação no rótulo. A solera é uma complexa mistura de barricas envolvendo whiskey americano, jerezes secos e Pedro Ximenez. A maturação ocorre a 2300 metros de altitude, completando este belíssimo terroir.

Rieslings do Rheingau

3 de Novembro de 2015

A Alemanha é indiscutivelmente a terra dos Rieslings, embora a região francesa da Alsácia tenha seus méritos legítimos. Dentre as regiões alemães, Mosel e Rheingau disputam a primazia no assunto. Numa sintonia fina, podemos dizer que o Rheingau produz Rieslings mais encorpados, mais potentes, enquanto o Mosel pende para a delicadeza e elegância. Sem querer tomar partido entre uma ou outra, mesmo porque não faz nenhum sentido, vamos falar a seguir do belo terroir do Rheingau.

Rheingau: mudança abrupta do Reno

Conforme mapa acima, caminhando pelo Reno do sul da Alemanha para o norte, na altura da cidade de Mainz, o rio faz uma curva acentuada para oeste. Nesta nova trajetória por cerca de trinta quilômetros, a margem direita do Reno é moldada por declives precisos das montanhas Taunus proporcionando uma insolação ideal  e uma drenagem perfeita para os vinhedos. Além disso esta cadeia de montanhas nos pontos mais altos oferece uma proteção eficiente para os fortes e frios ventos do norte. Realmente, um terroir de livro. A foto abaixo, ilustra bem este fato.

As imponentes montanhas Taunus moldando os vinhedos

Em termos de solo e altitude, os vinhedos no Rheingau apresentam suas particularidades. As zonas mais altas que podem chegar acima de 250 metros acima do nível do mar, geram vinhos mais elegantes e os solos apresentam um perfil de ardósia erodida. Em partes imediatamente abaixo, solos de marga, argila e loess (solos formados pela ação do vento), tornam os vinhos mais encorpados e estruturados, confirmando as características da região. Já em partes mais baixas ainda, próximas ao rio, o efeito das brumas, e a alternância de temperatura propiciam uma ação eficaz da Botrytis Cinerea, dando origem aos melhores vinhos doces do Rheingau. Tudo isso falando só de Riesling, a soberana nesta região.

kunstler 2010

Riesling de Hochheim

O vilarejo de Hochheim fica muito próximo a Mainz, antes do Reno fazer sua famosa curva. Os vinhedos são de altitude relativamente baixa e o solo é muito particular. Uma mistura de calcário, areia e loess. Aliado a um clima um pouco mais quente que o restante do Rheingau, seus vinhos são encorpados, porém mantendo uma bela acidez. Este da foto acima, provado recentemente, mostrava toque cítricos e minerais bem marcantes. Hölle é um dos vinhedos de Hochheim. Pode ser consumido já com prazer ou adegado por vários anos. Importado pela Decanter (www.decanter.com.br).

Peixes diversos, sobretudo de rio, carnes suínas, embutidos, são ótimos acompanhamentos para os Rieslings alemães. Dependendo da doçura do prato, pode-se calibrar a doçura dos vinhos, os quais na Alemanha têm uma escala bem graduada em ordem crescente (Kabinett, spätlese, auslese, beerenauslese (BA) e Trockenbeerenauslese (TBA)).

garantia: o símbolo da águia

Como dica para não errar nos vinhos alemães, o logo acima está presente normalmente nas capsulas das garrafas como garantia de qualidade. Este símbolo denota que são vinhos de predicado elaborados por produtores de tradição e respeito. É uma associação com cerca de 200 produtores da mais alta qualidade. Não encontrando este logo na garrafa, vale uma pesquisa mais atenta para não comprar gato por lebre. Para a maioria dos consumidores que não decifram rótulos alemães com facilidade, é importante ter ciência deste fato. Realmente, a lei vinícola e a própria língua alemã são fatores que dificultam a correta avaliação e certeza de compra dos consumidores.

Outro produtor de grande qualidade e fama no Rheingau encontrado no Brasil é Robert Weil. Seus vinhos são importandos pela Mistral (www.mistral.com.br).


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