Posts Tagged ‘hospices de Beaune’

Latour e algumas preciosidades

17 de Março de 2019

Quando um Latour está sobre a mesa, os demais vinhos o reverenciam, independente de seus pedigrees. Entre champagnes, Domaine Leflaive, e outros margens esquerdas de prestígio, ele reinou absoluto. Antes de falarmos dele, algumas borbulhas, e brancos da Borgonha, deram início a um belo almoço no Ristorantino, Jardins.

estilos de champagne

Neste primeiro embate, grandes surpresas. Sempre tive em mente um estilo delicado e elegante para a cuvée de luxo Dom Pérignon, mas não pensei que fosse tanto. No confronto acima, Dom Pérignon conseguiu ser mais delicado que o Blanc de Blancs Robert Moncuit, um Grand Cru de Le Mesnil sur Oger, terroir de prestígio da Côte de Blancs, mesmas terras do Champagne Salon. Embora fosse 100% Chardonnay, o champagne Robert Moncuit tinha uma estrutura invejável com uma bela acidez. Seu estilo mais gastronômico pede pratos como ostras gratinadas, por exemplo. Encarou com galhardia o todo poderoso champagne da Maison Moët & Chandon.

frutos do mar num caldo com fregolas 

Dando sequência, uma dupla de brancos da Côte de Beaune, dois Premiers Crus. Um de Meursault, do vinhedo Genevrières do Hospices de Beaune 2001, e o grande Puligny-Montrachet Les Pucelles 2002 de Madame Leflaive, seu melhor Premier Cru. Aqui a disputa foi meio desigual. Primeiro pela questão de safras, agravado pela garrafa de Meursault fora de sua melhor forma, ou seja, um vinho um pouco cansado. O Les Pucelles em ótima forma, deu um banho de equilíbrio e elegância numa safra de grande destaque. Embora um Meursault com problemas, ficou notória a diferença de texturas entre os vinhos com o Puligny-Montrachet mais leve e elegante. O prato acima de frutos do mar deu eco aos sabores dos vinhos.

img_5823embate de gigantes

Nesta altura, o ponto marcante do almoço, dois belos Premiers Grands Crus Classés da mítica safra 1959. Latour neste ano foi um dos destaques com 96 pontos, um vinho quase perfeito. É impressionante seu vigor, sem nenhum sinal de decadência. Pelo contrário, esbanja juventude com taninos finíssimos. Bela expansão de boca com aromas multifacetados. Uma garrafa perfeita, assim como o Chateau Margaux a seu lado. Este, talvez tenha sido a melhor garrafa de Margaux 59 que já provei. O vinho estava divino com aromas plenamente desenvolvido, além de perfeitamente macio e envolvente no palato. Mesmo assim, não foi páreo para o Senhor do Médoc, sua majestade Latour.

alguns dos pratos do Ristorantino

Na foto acima, massa com ragu de pato e costela assada com lentilhas, acompanharam bem a força e elegância dos vinhos. Taninos mais polimerizados e aromas terciários pedem pratos com este tipo de perfil. Agradecimentos especiais a toda brigada do Ristorantino pelo serviço dos vinhos e atenção aos detalhes e taças.

img_58221982 na berlinda

Começando pelo Beychevelle 82, talvez a maior safra de toda a história do Chateau, é um vinho encantador, com a complexidade esperada de um Bordeaux envelhecido, sobretudo se tomado sozinho. Entretanto, deu um azar danado de estar ao lado deste gigante, inclusive na garrafa, uma double magnum magnífica, perfeitamente conservada do grande Latour. Pode ser considerado o vinho mais perfeito entre os grandes de 82. Uma cor inacreditavelmente jovem, taninos polidos, o fino aroma de pelica dos grandes Latour, e uma boca perfeita em equilíbrio e expansão. Embora ainda com muita vida pela frente, me pareceu mais acessível que o grande 59 comentado a pouco.

l´Enclos: a essência de Latour

A genialidade do terroir

Os vinhas em torno do Chateau, a construção principal propriamente dita, somam algo com 47 hectares denominado l´Enclos, foto acima. Um terroir único com quinze metros de profundidade de pedras, argila e areia, proporcionando uma drenagem excelente no terreno, e ao mesmo tempo, retendo um mínimo de reserva hídrica para os anos mais secos. Neste sentido, é o melhor solo do mundo para o cultivo da Cabernet Sauvignon que no caso do vinhedo l´Enclos, perfaz cerca de 80% da área. A alta porcentagem de pedras (50 a 80%) está entremeada entre areia e argila, formando as chamadas “croupes graveleuses”, leves ondulações no terreno, semelhante a campos de golfe. Esta maravilha esculpida ao longo de dois milhões de anos, tem pedras originárias dos Pirineus (divisa com a Espanha) e do maciço central ( terras francesas onde se cultiva o melhor carvalho do mundo), devido a cataclismos de outras eras geológicas.

Para alguns especialistas em solos de viticultura, l´Enclos é o melhor terroir de todo o Médoc, considerando  que o fator drenagem do terreno é o mais relevante na escolha dos melhores terrenos de margem esquerda. Lembrando o velho ditado médocain: “o solo do Médoc muda a cada passo”.

 e aquele Yquem para finalizar …

Embora 1946 não tenha sido uma grande safra em Sauternes, Yquem é sempre soberano. Sem aquela untuosidade dada pelos anos onde a Botrytis é mais intensa, é um Yquem elegante com perfeito equilíbrio entre acidez e açúcar. Uma garrafa muito bem conservada acompanhando uma seleção de queijos e sobremesas diversas. Doçuras e contrastes  em perfeita harmonia.

Enfim, mais um encontro memorável com amigos generosos, partilhando experiências e laços de amizade em torno do vinho e da boa mesa. Abraços a todos e que Bacco continue com suas bênçãos!

Entre Chambertins e Musignys

3 de Março de 2019

Num agradável almoço pré-carnaval, algumas taças da fina flor da Borgonha desfilaram entre pratos do restaurante Bela Sintra. Produtores e vinhedos consagrados mostraram o lado mágico que os tintos da Borgonha são capazes de proporcionar.

polvo, lulas, e pasteizinhos para acompanhar …

Para iniciar os trabalhos, um Premier Cru de Meursault do ótimo produtor Comtes Lafon, foto acima. Meursault-Charmes 2010 com 95 pontos, mostra o lado mais delicado de Lafon, comparado ao vigoroso Perrières-Meursault. Finamente trabalhado na barrica, seus aromas de patisserie já encantam nas primeiras impressões olfativas. Muito equilibrado em boca, mostra um leveza singular, embora não fuja do terroir de Meursault, sempre com uma textura mais vigorosa. Alguns da mesa o acharam levemente oxidado. Particularmente o achei delicioso, a despeito de não guarda-lo por muito tempo em adega. De todo modo, um belo abre-alas do almoço.

img_5760joias da Madame Leroy

Na comissão de frente, este primeiro trio acima, mostrou indubitavelmente o alto nível dos vinhos Leroy. Nenhum deles são de Domaine. O do centro, é o único Grand Cru, Mazis-Chambertin, elaborado pelo Hospices de Beaune e devidamente educado nas adegas Leroy. Os dois que o ladeiam são lieux-dits com nível de Premier Cru, vizinhos de parede com o reputado Clos St-Jacques, conforme mapa abaixo. O vinhedo Grand Cru Mazis-Chambertin está localizado na parte baixa à esquerda do mapa, delimitado por linhas vermelhas e pretas. A distância de Mazis-Chambertin a Clos St-Jacques não chega a mil metros.

clos st jacques lavaut estournellesmosaico bourguignon

Lavaut-St-Jacques, um vinhedo de 9,53 hectares, com destacada proporção de calcário no solo, prima pela delicadeza e elegância. Mostrou isso na taça, com lindos terciários de sous-bois, taninos polimerizados, e o mais pronto deste trio.

Mazis-Chambertin, o preferido da maioria, tem uma acidez pronunciada, fator que lhe confere longevidade. A despeito do belo equilíbrio e finesse, já tomei garrafas melhores deste mesmo vinho. A safra 85, ponto comum deste flight, é histórica na Borgonha.

Finalmente, Estournelles St-Jacques, um vinhedo de apenas 2.04 hectares, tem um solo com presença de Ostrea Acuminata, fosseis marinhos também presentes no vinhedo Clos St-Jacques. Foi o vinho que mais impressionou pela cor e densidade. Com taninos presentes, mostrou-se o menos evoluído do painel com um caráter mais masculino.

Taças Zalto e Arroz de pato

Na foto acima com taças Zalto, percebemos pela cor que a amostra número três, à direita da foto, é a de maior concentração de cor. O arroz de pato, um dos pratos emblemáticos da Casa, acompanhou bem o Estournelles St-Jacques, pelo vigor do vinho.

img_5762todos com nível de Grand Cru

Neste flight temos dois Premier Cru classicamente com nível de Grand Cru. Historicamente são vinhedos de grande reputação, os quais talvez numa nova classificação, fossem nomeados como Grand Cru. O Les Amoureses, sobretudo de Mugnier, é o mais delicado dos Borgonhas, caminhando numa linha tênue entre a elegância e a mediocridade. Explicando melhor, é um vinho muito delicado, onde só mesmo a força de seu terroir permite um diferencial de distinção e elegância. Qualquer outra tentativa na Borgonha, pareceria um vinho diluído e sem atrativos. Um vinho extremamente preciso em sua elaboração. A discussão acadêmica em torno de seu envelhecimento, sempre provoca a eterna dúvida: toma-lo jovem, aproveitando sua graciosidade de frutas e flores, ou envelhece-lo com os inevitáveis toques terciários?

Partindo agora para o grande Musigny, este um autêntico Grand Cru, é um vinhedo  colado ao Les Amoureses, num setor mais alto e de solo menos pedregoso. Este exemplar 2012 tem notas variando entre 95 e 98 pontos. Completamente diferente do Les Amoureses, o vinho tem densidade sedosa, sem perder a elegância. Numa comparação com o Médoc, seria o Chateau Margaux da Borgonha. Um vinho de extrema elegância e profundidade, onde os aromas de violeta, frutas escuras, e um toque carnoso, se completam perfeitamente. Gostaria de prova-lo lado a lado com um La Tache de mesma safra, outro vinho de predicados semelhantes.

clos st jacques

Rosseau: a maior parcela

No último vinho do flight, o vinhedo Clos St-Jacques, foto acima, é dividido em cinco parcelas, cuja a maior porção pertence a Armand Rousseau com 2,2 hectares. No exemplar acima da safra 2015, é um vinho de grande concentração com um poder de fruta extraordinário. Ainda muito jovem, tem aromas basicamente primários com taninos de fina textura. Uma grande promessa para as próximas décadas. Seu apogeu está prevista para 2050. Por hora, perder para o Musigny, num embate de gigantes.

Enfim, uma prova exemplar de grandes produtores das comunas de Chambolle-Musigny e Gevrey-Chambertin em seus mais afamados terroirs. Além disso, a constatação que o nome Leroy,  seja como Négociant, seja como Domaine, transita com competência e regularidade por todos os atalhos do intrincado mosaico bourguignon. 

Agradecimentos eternos a nosso Presidente pela imensa generosidade e competência nas escolhas das mais sofisticadas ampolas. Saúde a todos, e que Bacco nos proteja!

Vosne-Romanée e seus arredores

27 de Outubro de 2018

Em sua octingentésima edição (800 artigos), Vinho Sem Segredo precisava de uma matéria especial. E nada mais especial que falar dos vinhos de Vosne-Romanée, em particular da família DRC, Domaine de La Romanée-Conti. E lá vamos nós para mais um almoço daqueles. O pessoal estava animado e com sede.

img_5224Hospices de Beaune by Madame Leroy

O começo já foi arrasador, degustação solo de um Mazis-Chambertin da mítica safra 1985. Olha a cor deste vinho na foto. Cor de Borgonha saudavelmente envelhecida. Essa é a terceira vez que o provo, e vinhos antigos são sempre garrafas únicas. A primeira foi esplendorosa e essa não ficou atrás. Tudo que se espera de um fino Borgonha maduro em perfeita harmonia: sous-bois, especiarias, rosas, toques de carne, e outros perfumes. Lógico que Leroy tem um peso enorme na elaboração deste Hospices de Beaune num vinhedo minúsculo e de grande prestígio dentro de Chambertin.

img_5226faltou o Richebourg na foto 

img_52251cores divinas com La Tache à esquerda

Lamentavelmente faltou o Richebourg de mesma safra na foto acima, completamente bouchonné. Mesmo em rolhas tão especiais, o perigo sempre existe. Ano glorioso na Borgonha, esses dois 1996 estavam encantadores, guardadas as devidas diferenças entre si. Evidentemente, Echezeaux era o Grand Cru mais pronto como sempre. Taninos resolvidos, aromas abertos, e muita sensualidade. Já o grande La Tache, uma joia ainda em lapidação com uma estrutura tânica fantástica. Boca ampla, cheio de nuances, e uma persistência aromática daquelas. Deve evoluir seguramente por mais dez anos. Um dos grandes do almoço.

50 anos os separam

Como a comparação é cruel, este Vosne DRC da ótima safra 2009 ficou na rabeira. É um lindo vinho tomado sozinho, sem a presença dos astros maiores. Fruta bem colocada, belo equilíbrio e muita elegância. Ainda um pouco novo, mas extremamente prazeroso. Já o velhinho da direita servido às cegas, deu um trabalho e tanto. Embora com seus quase 60 anos, o vinho tinha uma presença de fruta desproporcional para sua idade, quase sem nenhum toque terciário. Não tinha o sous-bois esperado da Borgonha, nem os toques alcatroados de um Nebbiolo piemontês. Já na boca, taninos ainda poderosos que provavelmente vão morrer com o vinho. Este toque agradavelmente rústico faz dos vinhos de Pommard a menção “Barolos da Borgonha”. Uma bela lição para todos nós. 

uma pausa para as borbulhas!

No meio do almoço, um Chef convidado da Liguria devido a Settimana Cucina Italiana, estava na Osteria del Pettirosso, e fez este prato de peixe com legumes, foto acima. A entrada do Cristal 2006 foi providencial para a harmonização, quebrando de forma estratégica a sequência de tintos. Seria redundante falar que o champagne tem alta classe, grande equilíbrio, e persistência aromática notável. Realmente, os paladares foram revigorados para a continuação do almoço.

img_5231um dos mais longevos DRCs

A diferença de um Echezeaux para um Grands Echezeaux é sempre notável, sobretudo na família DRC. Grands Echezeaux é um vinho duro, fechado na juventude, clamando por anos em adega. Esses acima com mais de 30 ou 40 anos, respectivamente, alcançam esse apogeu, entregando muito prazer. Embora 76 não tenha sido um ano esplendoroso, esta garrafa estava divina, competindo seriamente com sua majestade La Tache 96, descrito acima. Um meio de boca bem preenchido e taninos condensados pelo tempo. Já o 86, teoricamente de safra mais nobre, decepcionou um pouco na comparação. Claramente, não tinha a mesma persistência de seu concorrente. De todo modo, um Grands Echezeaux devidamente envelhecido e bem construído. 

tinto com alcachofra!

Os pratos do restaurante Pettirosso foram muito bem executados, valendo a pena citar alguns. A alcachofra frita acima foi muito bem acompanhada pelo velho Pommard do almoço. Sua bela acidez e seu toque adocicado de fruta casou muito bem com os sabores e textura do prato.

risoto e lingua divinos!

O risoto de funghi porcini frescos estava irrepreensível, sobretudo acompanhado pelo La Tache 96 com seus toques terrosos. A lingua magistralmente bem executada tinha sabores e textura impecáveis, acompanhado divinamente o envelhecido Grands Echezeaux 76.

img_5237o infanticídio duplo do almoço

É difícil avaliar DRCs tão novos, ainda com seus primeiros aromas desabrochando. Ainda bem que nenhum deles tinha colocado pijama para dormir, o período de latência que a maioria dos grandes vinhos apresentam. O Romanée-Conti é um poesia com lindos toques florais e uma delicadeza sem fim. Tem muitos anos em adega para se tornar o esperado mito. Já o Romanée-St-Vivant é menos misterioso, mas do mesmo modo ainda muito novo para uma analise mais profunda. O que é extraordinário nestes grandes vinhos é seu equilíbrio harmonioso e uma estrutura incrível para envelhecer longos anos em adega.

Depois desta avalanche, só nos resta agradecer a companhia de todos e tanta generosidade. Que Bacco continue nos protegendo e nos inspirando por novos caminhos. Saúde a todos!

Parte II: Entre goles e amigos!

24 de Junho de 2015

A vida é dura, mas temos que continuar o sacrifício. Após a apresentação  e a recepção com o belo La Grande Dame Rosé do artigo anterior, vamos ao início do almoço.

Menu amplo e bem executado

O foie gras em  linhas retas.

A cebola assada com creme de mexilhões e o foie gras com brioche, chutney de cebolas e avelãs, escoltaram bem o primeiro e único branco do almoço, o Imperial em todos os sentidos (garrafa de seis litros), Corton-Charlemagne Grand Cru 2006 da Maison Champy (Hospices de Beaune), conforme foto abaixo.

Montagne de Corton: terroir diferenciado

O que são nove anos para um Corton-Charlemagne? quase nada. Cor pouco evoluída, aromas com predomínio de cítricos e minerais. Muito frescor em boca, denso na medida certa e muito bem acabado, fruto de um belo equilíbrio. Persistente, marcante, vislumbrando bons anos de guarda. Muito bem conservado e adegado.

Fazendo o par borgonhês, entramos no mundo DRC, um Grands-Échézeaux Grand Cru 1988. Apesar da idade, quanto caminho ainda a percorrer. É bem verdade que o nariz apesar da seriedade, estava extremamente prazeroso. Sous-bois, as rosas, as especiarias, estavam todos lá. Em boca, seus taninos poderosos perpetuam sua vida sem pressa. Meu grande amigo Marcos diz de maneira sucinta: “DRC Grands-Échézeaux é um vinho duro”. De fato, comparado a seu irmão, o Grand Cru Échézeaux, sobressai claramente sua incrível masculinidade. Enfim, um grande Vosne-Romanée que exige pelo menos duas horas de decantação, além de densos sedimentos.

Acima de Clos de Vougeot reina o Grand Cru da foto no alto da colina

Logo em seguida, o primeiro infanticídio, Château Petrus 1998. Grande safra, 98 pontos de Parker, mas e daí; ele não quer conversar. Ele é quase o João Gilberto dos vinhos, de difícil abordagem, mas quando quer cantar, todo mundo silencia para ouvi-lo. Cor absolutamente jovem, aromas fechados, tímidos, algo de mineral, frutas escuras contidas, e muitos segredos guardados. Em boca, apesar dos poderosos taninos, um equilíbrio fantástico, digno dos grandes tintos. Haja paciência, mas um dia ainda pego ele de jeito.

O Rei Petrus canta quando quer

Quer mais um pequeno infanticídio? Château Mouton-Rothschild 1988. Safra fechada, de taninos poderosos. Um pouco mais abordável que nosso João Gilberto. Cor ainda densa, aromas um tanto reticentes, mas deixa transparecer os belos toques animais, chocolate e o característico café torrado. Boca poderosa, com taninos de rara textura. Marcante, profundo e amplo em seu final extremamente equilibrado. Marcas registradas de um Premier Grand Cru Classe. Mais uns dez anos de promissora evolução.

Um dos poderosos Pauillacs

O arroz de pato abaixo moldou-se bem frente ao vinho. Enquanto isso, seu irmãozinho mais velho estava chegando, o fabuloso Mouton 1982. Um dos cem pontos desta safra histórica e que mostra atualmente porque os tintos de Bordeaux fazem jus ao prestigio e sua incrível longevidade.

Arroz de Pato

Eu sou altamente suspeito para falar de Mouton 82. Degustados várias vezes e sempre com extrema consistência. Conversa fácil com as pessoas. Seus aromas são sedutores, mesclando tabaco, café, as frutas escuras e concentradas (cassis) e um toque de fazenda nas boas estrebarias. Em boca, se agiganta com um equilíbrio maravilhoso, onde o álcool se funde a seus poderosos e aveludados taninos. Seu final reverbera todas essas sensações nos deixando silenciosos. É o respeito aos grandes vinhos. Perdão, acho que me empolguei demais …

Deslumbrante Double Magnum

Para acompanhar o Mouton e o último tinto do almoço (Vieux-Chateau-Certan), um leitão de leite na foto abaixo e uma costela de boi cozida a baixa temperatura. A gordura dos pratos moldou-se bem com os taninos e acidez dos tintos.

Leitão de Leite e  um delicado Vinagrete de Vagem

A apoteose estava reservada para um belo margem direita, Vieux-Chateau-Certan 1986, uma das melhores safras do chateau nesta década. Apesar de ser um Pomerol, reino absoluto da Merlot, este tinto tem um Q de margem esquerda, pois em sua composição, embora haja uma predominância da casta emblemática, há também boas porcentagens de Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon, o que não é habitual neste terroir. De todo modo, o vinho estava magnifico, no ponto certo de ser apreciado. Aromas amplos com toques de ameixa, trufa e um mineral maravilhoso (terroso). Seus taninos sedosos chancelam os tintos de Pomerol com um final de alta costura.

O tinto que encarou o todo-poderoso Mouton 82

Para encerrar o almoço e acompanhando a sobremesa, que tal um Yquem 1976! Uma das grandes safras antigas deste mito juntamente com o Yquem 1975. Cor âmbar brilhante, combinando com os aromas de damascos, entre outras frutas secas, mel, caramelo, e os toques de Botrytis como esmalte de unha e curry. Em  boca, glicerinado, untuoso e perfeitamente equilibrado entre açúcar e acidez. Bom momento de evolução, mas promete mais para quem tiver paciência. Neste instante, fiquei com saudades do foie gras …

O rei dos Sauternes numa grande safra

Este já seria um grande final se não fosse o pelotão de raros fortificados à nossa espera. Uns velhinhos de tirar o fôlego. Safras de 1863, 1880, 1860, entre outros. Mas isso é assunto para o próximo artigo. Preciso respirar um pouco.


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