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Chateau Pavie em pedacinhos

10 de Março de 2018

Já comentamos neste blog a filosofia de terroir no pensamento bordalês em elaborar vinhos. Como é de praxe, cada chateau tem uma intrincada divisão parcelar baseada em variedades de uvas e tipos de solo, ou seja, há várias parcelas de Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, e Merlot, de um modo geral. Essas parcelas são vinificadas separadamente e em seguida, é formatado o blend do chamado Grand Vin e de seu respectivo segundo vinho, vide artigo Bordeaux em Segundos.

Num agradável almoço no restaurante Nino Cucina, tivemos a rara oportunidade de avaliar com precisão a força dessas parcelas na composição de um grande Chateau, no caso Chateau Pavie, um Premier Grand Cru Classe de Saint-Emilion, entre os quatro melhores na categoria A. Os outros são Cheval Blanc, Ausone, e Angelus.

A família Perse é proprietária além do Chateau Pavie, do Chateau Pavie-Decesse e do Chateau Bellevie-Mondotte, todos em Saint-Emilon. O mapa abaixo, mostra a divisão parcelar destes chateaux com atenção especial às parcelas mencionadas Clusière. Clique no link abaixo da imagem para uma visão mais detalhada.

chateau pavie vignoblehttp://www.vignoblesperse.com/fr/chateau-pavie/carte

Voltando à história do Chateau, a família Perse comprou o Chateau La Clusière em 1997, propriedade esta encravada entre os chateaux Pavie e Pavie-Decesse. Entre 1998 e 2001, portanto quatro safras, Chateau La Clusière foi engarrafado sob a supervisão da família Perse, sendo a safra 2000, lendária com 100 pontos. A partir de 2002, os 2,5 hectares de vinhas 100% Merlot com média de idade de 55 anos de La Clusière foram incorporadas na elaboração exclusivamente do Chateau Pavie.

A grande brincadeira do almoço e por sinal, extremamente didática, foi comparar lado a lado, Chateau La Clusière e Chateau Pavie, ambos da safra 2000, e ambos com 100 pontos.

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200 pontos em jogo

Nesta safra mítica de 2000, La Clusière foi elaborado em quantidades mínimas, apenas 10 barricas, totalizando 3000 garrafas. O rendimento de 12 hectolitros por hectare é algo absurdo somente comparável ao Chateau d´Yquem, um vinho que por suas características, enquadra-se neste tipo de rendimento. Além disso, este tinto foi fermentado em barricas novas e amadurecidos nas mesmas por 22 meses.

Para o Chateau Pavie, estamos falando em 37 hectares de vinhas sendo 65% Merlot, 25% Cabernet Franc, e 10% Cabernet Sauvignon. A idade média das vinhas é de 43 anos e a produção média por safra de 70 mil garrafas. O vinho passa entre 18 e 32 meses em barricas, sendo de 70 a 100% novas.

Devidamente apresentados, vamos à luta!. Nocaute já no primeiro round. La Clusière 2000 mostrou de cara uma concentração de sabores incrivelmente persistentes. Taninos de rara textura, deslizando como rolimãs na boca. Evidentemente, está longe de seu auge, ainda por apresentar aromas terciários fantásticos, mas já mostra a que veio. Do outro lado, Chateau Pavie 2000 bem mais pronto, e até mais prazeroso de ser tomado no momento. Pode certamente evoluir em adega, mas não tem a concentração de seu oponente. Isoladamente e sem comparações, um vinho delicioso e encantador.

Conclusão, um borgonhês classificaria La Clusière como Grand Cru e Chateau Pavie como Premier Cru, vinificados é claro, separadamente. Voltando à realidade bordalesa, a incorporação de La Clusière ao Chateau Pavie só enriqueceu o blend ou assemblage, como dizem os franceses. Não foi só o incremento de La Clusière ao Pavie. Seis hectares do Pavie-Decesse foram incorporados ao Grand Vin Pavie, todos vinhedos da família Perse. Embora a junção de parcelas na elaboração dos grandes chateaux extingam preciosidades como La Clusière, por outro lado, reforçam a consistência e regularidade safra após safra do chamado Grand Vin. Questão de ponto vista e filosofia.

IMG_4383.jpgjuventude e plenitude lado a lado

Mas nem só de Pavie vive o homem. Outros mimos estiveram presentes no almoço. A começar por dois borgonhas brancos divinos, cada qual na sua idade, no seu terroir, e na genialidade de seus produtores. Primeiramente, Meursault Charmes Premier Cru 2015 de Domaine Roulot. Um Meursault com a impressão digital deste grande produtor que pode até não ser o melhor na apelação, mas certamente esbanja elegância e personalidade em seus vinhos. Um Meursault que equilibra divinamente tensão, acidez, e nervo, com textura, refinamento e equilíbrio fantásticos. Uma de suas marcas registradas, um toque cítrico meio alimonado, combinou perfeitamente com a massa abaixo, envolvendo lagosta e molho de limão.

IMG_4385.jpgNino Cucina: limão, manjericão e lagosta

O segundo branco, Domaine Leflaive Chevalier-Montrachet Grand Cru 1995. Um monumento à Borgonha, o melhor Chevalier indiscutivelmente, sobretudo nesta linda safra de 1995. Envolve toda a complexidade do Montrachet,  mas sempre com uma leveza elegante, nunca pesado, textura na medida certa, e que aromas!. Um festival de tostados, frutas secas, mel, e outras notas indescritíveis. Tomar um branco da Madame é sempre um momento de contemplação.

IMG_4386.jpgA sublimação da denominação Toro

Para continuar o almoço, só mesmo um Toro como da foto acima para manter o nível. Este da safra 2004 é a expressão máxima da pouco conhecida apelação Toro, próxima a Ribera del Duero. A bodega Numanthia proprietária deste vinho, é uma referência da região e um dos maiores mitos de toda a Espanha. Este exemplar trabalha com vinhas pré-filoxera com mais de 120 anos. Aqui nessas paragens, a Tempranillo assume o nome de “Tinta de Toro”. A concentração deste vinho devido a baixíssimos rendimentos é tal, que é preciso utilizar 200% de carvalho novo francês para domar esta fera, ou seja, nos 20 meses passados em barricas novas, no meio do caminho o vinho é trasfegados para novas barricas novas. O resultado com seus já 14 anos é de um vinho jovem, sem nenhum traço de evolução na cor. Apesar de seus 14,5° graus de álcool e toda essa montanha de madeira, o que ser percebe é uma riqueza de fruta imensa num equilíbrio fantástico. Foram elaboradas 4350 garrafas nesta safra com rendimentos de 1200 quilos por hectare, menos de um quilo por parreira. Um vinho delicioso, ainda com bons anos em adega.

IMG_4387.jpgPaleta cozida à baixa temperatura

O prato acima, de uma rusticidade elegante, caiu muito bem com este tinto espanhol cheio de alma. Paleta cozida à baixa temperatura com molho do assado e feijões brancos.

uma combinação dolce

Encerrando os trabalhos, talvez o melhor Tokaji 4 Puttonyos que provei. O número de Puttonyos tem a ver com o grau de botrytisação do vinho (25 quilos de uvas botrytisadas para cada 136 litros de vinho). A doçura deste vinho fica entre 60 e 90 gramas de açúcar residual por litro. Disznókó é um dos melhores produtores e a safra 1993 tem grande destaque. Com seus mais de 20 anos, o vinho está inteiro, sublime, com seus toques de mel, damascos, curry, e notas de esmalte. Combinou divinamento com o gorgonzola dolce da foto, num contraponto entre açúcar e sal, doce e salgado, além das texturas cremosas se entrelaçarem.

Agradecimentos ao amigos presentes, em especial ao nosso Maestro, por garimpar estas preciosidades bordalesas. O Termanthia e o Tokaji complementaram a festa, fruto da generosidade de um querido confrade vindo especialmente de Nova Iorque. Saúde e brindes a todos!

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Grand Cru Tasting: Destaques II

8 de Maio de 2016

Continuando a maratona de vinhos, mais alguns exemplares interessantes entre tintos e vinhos doces (sobremesa) na bela Casa da Fazenda Morumbi, sob o comando da importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br).

shiraz wallace

o clássico Shiraz australiano

Barossa Valley é a cara do autentico Shiraz australiano. Cheio de fruta, macio, envolvente, e muito bom para os dias mais frios onde aquela pitada de álcool acima é bem-vinda. O corte com a Grenache ajuda ainda mais no lado frutado e na maciez. O segredo é o vinho ter um bom balanço de frescor. Ben Glaetzer segue esta linha.

morande golden harvest

o Sauternes da América do Sul

A vinícola chilena Morandé além de moldar belos vinhos de mesa, elabora esta joia à base de Sauvginon Blanc com uvas botrytisadas. O cuidado no vinhedo, na colheita, e nas várias fases de elaboração em cantina, faz deste branco dourado um exemplo de equilíbrio notável entre seus componentes (açúcar, álcool, e uma bela acidez). Parceiro para queijos potentes, curados, além dos sempre lembrados queijos azuis.

gorgonzola dolce

la dolce vita!

Falando em queijos azuis, a foto acima mostra um autêntico gorgonzola dolce, um dos melhores queijos não só da Itália, mas do mundo. Cremoso e mais delicado que a versão normal, enriqueceu o farto buffet, além de acompanhar bem os vinhos, sobretudo os dois de sobremesa, acima e abaixo nas fotos.

delas beaumes de venise

o esquecido Beaumes de Venise

Um dos mais injustiçados vinhos do Rhône é o pouco lembrado Muscat Beaumes de Venise. Um vinho fortificado à base de Moscatel, de estilo bem delicado. Um contraponto ao notável Moscatel de Setubal de Portugal. Seus aromas florais e de pêssegos encantam ao primeiro contato. Experiência gastronômica única de contrastes de textura quando combinado com uma mousse de pêssego. Vale a pena prova-lo.

nero d´avola passivento

o Amarone da Sicilia

A típica uva siciliana Nero d´Avola molda tintos agradáveis na ilha. Contudo, este exemplar foge à regra. As uvas são colhidas  passificadas na planta, prolongando o período de colheita. Lembra de certo modo o grande tinto do Veneto, senhor Amarone, onde a passificaçao ocorre em caixas ou esteiras após a colheita. Neste sentido, o vinho ganha corpo, estrutura, e riqueza de frutas em compota. Boa concorrência para outro tinto sulino bem conhecido da Puglia com a uva Primitivo. Bela surpresa do produtor Barone Montalto.

fonterutoli

Mazzei reina em Castellina in Chianti

Há certos produtores que não podemos dissociar e nem deixar de mencionar nas regiões em que atuam. Um destes é a família Mazzei, ícone da sub-região histórica do Chianti Classico de Castellina in Chianti. Tipicidade, equilíbrio e consistência à toda prova. Pedida certa nesta denominação.

chinon serge e bruno

o lado delicado da Cabernet Franc

O vale do Loire é berço de grandes vinhos brancos nos seus mais variados estilos e uvas. Contudo, os tintos da região são conhecidos em apelações famosas como Chinon, elaborados com a casta Cabernet Franc. Vinhos de corpo médio, delicados, equilibrados, e muito gastronômicos. O rótulo acima é um bom exemplar.

pulenta cabernet franc

exemplar diferenciado num mar de Malbecs

Bem diferente do vinho acima, este tinto argentino também é elaborado com Cabernet Franc, uva pouco usual, sobretudo como varietal, na zona alta do rio Mendoza, Lújan de Cuyo, mais especificamente Agrelo, terroir de destaque.  Partindo de vinhedos antigos, perfeitamente adaptados ao solo e ao clima, as uvas são bem trabalhadas na cantina, gerando um vinho de grande personalidade. Mesclado de forma coesa à madeira, este tinto mostra equilíbrio e persistência. As barricas francesas novas respeitam a estrutura do vinho. Tinto para sair da rotina malbequiana.

morande black

sul da França no Maule

Mais um show da Morandé neste corte ousado mesclando uvas do Rhône com a Carignan. São vinhedos plantados nos anos 50 que garantem aquela concentração das chamadas vinhas velhas. Um toque de rusticidade neste tinto de personalidade muito bem integrado com a madeira a qual quase não se percebe. Exemplar fora da curva, fugindo da rotina.

Amigos descontraídos, Vinhos sérios: Parte I

31 de Março de 2015

Mais um encontro descontraído entre amigos em torno dos míticos DRCs (Domaine de La Romanée-Conti). Um show do terroir Saint-Vivant frente às feras de Richebourg e La Tâche. A comida sob a batuta da grife Fasano estava deslumbrante. Os vinhos, já de certa idade, deram trabalho com suas  rolhas fragilizadas pelo tempo. Nem tudo são flores, mas o serviço compensou. A recepção dos convivas foram com frios e queijos acompanhados pelos DRCs: Échezeaux 87, Richebourg 98 e Richebourg 2007. Evidentemente, o mais abordável via de regra é o Échezeaux. Sem grandes segredos, se mostra sempre sedutor. Os Richebourgs, muito jovens, ainda tem um longo caminho a percorrer em adega.

O início em alto nível deu o tom do que vinha pela frente. O Montrachet DRC 2007 escoltou brilhantemente a Terrine de Foie Gras e Figos Assados. Branco potente, amplo, com todo o esplendor deste terroir sagrado. Evidentemente, com muita vida pela frente, mas delicioso com seu frescor da juventude.

Terrine impecável

Montrachet DRC: menos de 4000 garrafas

Seguindo em frente, veio a Polenta com Ragu de Linguiça de Javali e Porcini Fresco. Outra bela harmonização com vinhos envelhecidos da safra 1992, um Saint-Vivant e um La Tâche. Saint-Vivant em seu esplendor andou de mãos dadas com o prato. La Tâche, sempre grande, um dos melhores vinhedos sobre a terra (Hugh Johnson). Este ainda tem coisas a mostrar. Esperemos pelo menos mais cinco anos. Aí sim, ele vai confirmar porque é o segundo na hierarquia DRC.

Saint-Vivant: O Allegro Andante do DRC

Falando em Saint-Vivant, o 1982 gerou dúvidas quanto à sua evolução. Alguns acharam certos toques de oxidação. Pessoalmente, achei-o deliciosamente evoluído com notas de cacau, chocolate, ervas finas. Algo como um Lindt 70% Cacau. De fato, sua cor notadamente atijolada, chamou a atenção. Enfim, não entrou na brincadeira. O mesmo ocorreu com o Saint-Vivant 1974.

Um prato irretocável

Continuando o sacrifício, o terceiro prato foi um Raviolini de Cotecchino na Manteiga e Sálvia com Redução de Vinho e Mostarda de Cremona. A harmonia de sabores era incrível. Desta feita, um Saint-Vivant 86, e dois La Tâche, um 87 e um 2002. Novamente, Saint-Vivant surpreendendo. As safras 86 e 87 já se encontram num bom momento evolutivo, sendo 86 um pouco mais tânica. 2002 é muito boa para os tintos, mas para um La Tâche, precisamos um pouco mais de paciência.

Ribeye Kobe: Sabores em harmonia

No último ato, um Ribeye Kobe Cozido à Baixa Temperatura ao Molho Marsala com Mousseline de Mandioquinha e Mix de Brotos, muito bem executado. Para escolta-lo um belo pelotão DRC: Romanée-Saint Vivant 83 e 78, La Tâche 86 e 90, e Richebourg 70. Os velhinhos 70 e 90 com boa evolução em taça, taninos resolvidos e lindos aromas terciários, embora o La Tâche 90 posso ainda mostrar algo mais com o tempo. O Saint-Vivant 83 e La Tâche 86 um pouco abaixo, com vitória do Saint-Vivant, muito provavelmente pela superioridade da safra. Agora o Saint-Vivant 78 é um caso à parte, relatado abaixo.

 

Safra esplendorosa

No vinho acima, tudo o que você imaginar de aromas terciários da Pinot Noir no mais alto nível estavam aqui. Notas de adega úmida, sous-bois, minerais terrosos, as rosas, alcaçuz, e outros tantos inumeráveis. A cor evoluída, atijolada, e taninos perfeitamente resolvidos. Boca ampla, e persistência notável. Uma das grandes safras históricas da Borgonha e dos vinhos DRC. Se o preço não for problema, o prazer está garantido.

Assortimento de Queijos

Bem, agora para arrematar o almoço, um seleção de queijos. escoltado por um Porto Vintage. E que Porto, que safra! Um Taylor´s 1977, safra esta comparada a 63 e 94. A cor ainda com nítidas notas rubi, aroma com compota de frutas escuras, além dos esperados toques terciários, mesclando minerais, chocolate, especiarias, entre outros. Acompanhou muito bem tanto o clássico queijo Serra da Estrela, como o Gorgonzola Dolce.

Sobremesa de deixar nas nuvens

O Gran Finale nos foi brindado com um Zabaione Frio com frutas do Bosque Frescas. Para acompanhar, nada mais, nada menos, que um Yquem 2001, nota cem com louvor de qualquer crítico. Evidentemente, ainda jovem. Vai evoluir por décadas, sem um previsão precisa de seu apogeu. Contudo, seu frescor e sua untuosidade fez um belo par com o prato. Notas de Botrytis, favo de mel, cítricos, e um equilíbrio notável entre álcool e acidez. Persistência interminável.

Agora um mimo antes do café, um Bas-Armagac Francis Darroze safra 1952. Para quem não sabe, é bem mais fácil encontrar um Armagnac safrado do que um Cognac. Além disso, Bas-Armagnac é a melhor sub-região deste belo destilado do sudoeste francês. Equivale ao nobre terroir de “Grande-Champagne” em Cognac. Caloroso, maduro, persistente e belo equilíbrio  de álcool frente ao seu extrato. A tentação de um Puro é imediata.

Pensa que parou aqui a brincadeira? De jeito nenhum. Um dos confrades não queria terminar o dia sem um Romanée-Conti. Mas isso é conversa para o próximo artigo. Ufa, haja fígado!

Nederburg Noble Late Harvest: Doçura sul-africana

25 de Abril de 2014

Para aqueles que querem testar ou repetir a agradável experiência entre vinhos botrytisados e queijos azuis, a foto abaixo aguça o paladar. A similaridade de texturas, o contraste entre o doce e o sal, além do embate gordura versus acidez, são pontos notáveis nesta harmonização.

Gorgonzola Dolce e Noble Late Harvest

Às vésperas da Copa do Mundo não vou fazer apologia do Nederburg Twenty Ten, vinho oficial do último torneio na Africa do Sul. Entretanto, tem um vinho desta vinícola extremamente interessante. Trata-se do Nederburg Winemaster´s Noble Late Harvest, importado pela Casa Flora (www.casaflora.com.br). O termo Noble sugere que as uvas foram atacadas pelo nobre fungo (Botrytis Cinerea). 

Como introdução, vamos falar do famoso Nederburg Edelkeur Noble Late Harvest, criado pelo competente enólogo alemão, Günter Brözel, cuja primeira safra em 1969, fez enorme sucesso em 1972, destacando-se em degustação histórica na cidade de Budapeste, frente a grandes nomes de Sauternes (França), Tokaji (Hungria) e Trockenbeerenauslese (Alemanha). Juntamente com o Vin de Constance, Edelkeur é o vinho doce mais prestigiado deste país.

Este vinho ainda é lançado em safras especiais, baseado na casta Chenin Blanc (uva emblemática do Vale do Loire). Com uvas atacadas pela Botrytis Cinerea (fungo reponsável pelos melhores vinhos doces), Edelkeur é para muitos uma unanimidade em vinhos de sobremesa sul-africanos, ostentando em várias edições do famoso guia de bolso Hugh Johnson, as cobiçadas quatro estrelas. Pode ser uma bela cópia dos melhores botrytizados do Loire (Quarts de Chaume ou Bonnezeaux).

Como todo ícone, a baixa produção torna sua oferta no mercado extremamente limitada, não tendo exemplares atualmente no Brasil. O preço elevado, embora não proibitivo é outro fator a considerar. Contudo, ele foi inspiração para uma série de sucessores em seu estilo pela Nederburg, como por exemplo, a meia garrafa acima ilustrada.

Analisando a safra de 2011, uma das mais recentes do Noble Late Harvest, percebemos alguns dados técnicos bastante diferencidos. Primeiramente, o corte é inusitado: 87% Chenin Blanc, 13% Muscat de Frontignan (variedade de moscatel do sul da França). Tanto a Chenin Blanc, como a Moscatel, têm forte tradição na viticultura sul-africana. As vinhas foram plantadas entre 1984 e 1993. 

Ótima alternativa frente aos caros franceses

O tripé básico de equilíbrio de um vinho doce é baseado no teor alcoólico, nível de acidez e índice de açúcar residual (evidentemente natural). Pois bem, neste exemplar temos discretos 12,10% de álcool, consideráveis 188 g/l (gramas por litro) de açúcar residual e inacreditáveis 9,30 g/l de acidez fixa, que via de regra é o calcanhar de Aquiles da maioria dos vinhos doces. Para termos exata noção deste valor, a acidez mencionada é comparável às mesmas dos vinhos bases de Champagne, as quais são um dos trunfos desta refinada bebida.

Para finalizar, o vinho não tem passagem por madeira, sendo pura expressão da fruta. Aromas delicados e elegantes de frutas secas, notadamente o damasco, mel, flores e notas minerais. Se for percebido uma nota cítrica, provavelmente deve-se à participação da Moscatel. Seu equilíbrio é notável. Álcool discreto, doçura agradável, graças ao excepcional suporte de acidez, transmitindo um final fresco e nem de longe enjoativo.

Com um preço ao redor de R$ 80,00 cada garrafa,  é só comemorar. Este Nederburg bate um bolão!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Rádio Bandeirantes FM 90,9 às terças e quintas-feiras nos programas Manhã Bandeirantes e no Jornal em Três Tempos. 

Pantelleria e a uva Zibibbo

10 de Março de 2011

Moscatos e Passitos são algumas especialidades da enologia italiana. Um dos mais famosos e pouco conhecido no Brasil, são os Moscatos e Passitos di Pantelleria (ilha de origem vulcânica pertencente à Sicilia, contudo mais próxima da Tunísia, norte da África).

O clima da ilha é dominada por ventos como Maestrale (tem origem no Mistral da Provence) e sobretudo o Scirocco (vento quente que sopra do norte da África). O incansável Scirocco é que vai determinar a elaboração em determinados anos do Moscato di Pantelleria e o Passito di Pantelleria.

Pantelleria: mais próxima do continente africano

Segundo Marco de Bartoli, proprietário da Azienda Bukkuram, quando o inverno é frio (frio em Pantelleria quer dizer sem chuva antes da colheita) e o scirocco sopra depois da colheita, as uvas são postas a secar sobre o solo de pedras da ilha, tendo assim um appassimento perfeito. Nesta situação é elaborado o Passito, um vinho mais rico e concentrado. Já, se o Scirocco soprar antes da colheita com eventuais chuvas, o apassimento não será tão adequado. Neste caso, a tendência é fazer o Moscato di Pantelleria, um vinho agradável, equilibrado, porém sem a concentração do Passito. Vale salientar, que o rendimento destes vinhos são muito baixos. Cada quilo de uva de uva pode gerar no máximo 300 ml de vinho.

De todo modo, são vinhos muito interessantes que vale a pena serem provados. Cada qual em seu momento e devidamente harmonizado.  

Donnafugata: Produtor de destaque

O processo de elaboração dos dois tipos tem suas peculiaridades conforme critérios de cada produtor, mas em linhas gerais, uma parte das uvas é colhida e vinificada normalmente. Outra parte delas, é colhida e posta para secar por trinta, quarenta dias, ou mais. Posteriormente, as uvas passificadas são  adicionadas ao vinho da primeira parte do processo, dando continuidade à fermentação. Devido a elevados teores de álcool e açúcares, a fermentação é naturalmente interrompida, ficando um açúcar residual natural. Os rendimentos, as porcentagens de uvas passificadas e os índices de açúcar e álcool decorrentes de todo o processo, vão determinar as denominações Moscato ou Passito. Posteriormente, eles podem  passar por um amadurecimento em madeira (normalmente madeira inerte) por um tempo determinado, de acordo com o produtor (um a dois anos em média).

A uva em questão é a Moscatel di Alexandria, localmente chamada Zibibbo (em árabe quer dizer uva passa), com a pele espessa, resistente à passificação. É a mesma uva que elabora os famosos Moscatéis de Setúbal.

Um bela harmonização sugerida por Philippe Faure-Brac (melhor sommelier do mundo em 1992) é um Moscato di Pantelleria com  pão tipo italiano recheado de damasco, acompanhando um queijo italiano gorgonzola dolce. Eu digo italiano, porque existem muitos no mercado tipo gorgonzola, mas a cremosidade e concentração do italiano não têm paralelos.

Além do produtor Donnafugata da importadora World Wine (www.worldwine.com.br), temos outro belo exemplar de passito na Enoteca Fasano do produtor Benanti (www.enotecafasano.com.br).


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