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Montrose x Cos d´Estournel

23 de Março de 2015

A comuna de Saint-Estèphe tem dois astros de primeira grandeza: Château Montrose e Château Cos d´Estournel. Situada na margem esquerda do Gironde, é a última comuna na direção norte. Apesar de não haver nenhum Premier Grand Cru Classé, Saint-Estèphe fornece vinhos firmes na juventude com alto potencial de envelhecimento. Aqui, embora o cascalho seja importante, a presença de argila é mais evidente. Esse fator acaba deixando o vinho mais fechado, menos convidativo quando jovem e de uma acidez mais destacada. Seus taninos são firmes e presentes, pedindo muitos anos em adega.

Cerca de dois quilômetros separam os dois châteaux.

Mais do que a distância acima entre os châteaux, a diferença de altitude  e a distância de cada um do Gironde são aspectos mais importantes. Montrose está mais perto do Gironde e portanto, numa altitude mais baixa, na média doze metros acima do mar. Já Cos d´Estournel, mais longe do rio, encontra-se numa colina a cerca de vinte metros acima do mar. Aliás, Cos no dialeto Gascon quer dizer colina.

Safra clássica de um Montrose

As diferenças não param por aí. Montrose apresenta um solo com mais cascalho e maior proporção de areia em meio argiloso. O cascalho se dando bem no Médoc, pois a calor é refletivo nas uvas nos meses de maturação, além de contar com excelente drenagem, são fatores essenciais para o cultivo da Cabernet Sauvignon. A proporção de Cabernet no corte clássico de um Montrose é de dois terços para um terço de Merlot. Isso faz de Montrose um vinho firme, tânico e de alta acidez.

Montrose: Vinhas que olham o Gironde

Diversas são as  frases que definem o Médoc: “o solo do Médoc muda a cada passo”, “Médoc: um terroir forjado pelo homem”, e  “as melhores vinhas são aquelas que olham o rio”. A primeira frase refere-se ao fator drenagem, extremamente irregular na região, importantíssimo num local cercado por águas. A segunda diz sobre um conjunto de fatores que permitem plantar vinhas de alta qualidade. A floresta de pinheiros a oeste evitando o avanço das dunas e ao mesmo tempo, impedindo a umidade e salinidade do Atlântico. O trabalho de engenheiros holandeses no século dezessete drenando toda a região com as famosas valas, muitas delas divisas de comunas famosas. E por último, a localização das melhores vinhas numa posição privilegiada vigiando o rio. Esta localização tem a ver com o movimento das marés ao longo de milhares de anos depositando e posicionando as camadas mais espessas de cascalhos, item fundamental para melhorar a eficiência de absorção de água no terreno.

Em Cos d´Estournel,  o solo também pedregoso mistura-se numa mescla de argila e calcário. A proporção de Merlot sempre que possível, é ligeiramente maior que Montrose. As fermentações procuram enaltecer a fruta, sem extrações excessivas de taninos. O tempo de amadurecimento em barricas de carvalho é um pouco maior em relação ao Montrose, além da porcentagem de barricas novas também ser prevalente. Na média, 80% de barricas novas em Cos d´Estournel e 60% em Montrose. Todos esses fatores fazem de Cos d ´Estournel um vinho mais macio, mais frutado, e mais aromático em sua juventude, embora possa envelhecer de forma brilhante ao longo dos anos. A safra de 1982 encontra-se em plena forma.

Duas safras memoráveis

Pela acidez e tanicidade dos tintos de Saint-Estèphe, se comparássemos aos vinhos de Barolo, Montrose seria um Serralunga d´Alba e Cos d´Estournel seria um La Morra.

Enfim, o Médoc tem seus mistérios como toda grande região vinícola. Alguns ainda por descobrir, outros parcialmente desvendados, tentado explicar as sutilezas desses caldos bordaleses que há séculos encantam apreciadores mundo afora.

Terroir: Cognac x Bordeaux

29 de Abril de 2014

Vendo o mapa abaixo, a primeira pergunta a fazer: Como regiões tão próximas podem elaborar bebidas tão diversas? A resposta são as condições inerentes a cada um dos terroirs.

Bordeaxu e Cognac: latitudes próximas

Embora estejamos falando de latitudes bastante próximas, as condições litorâneas e de solo são bem diversas. De fato, em Cognac a influência marítima é direta sobre o continente, tornando a ar frio e salino. Além disso, os solos em Cognac são fortemente calcários a partir do centro da apelação, perdendo radialmente esta característica até a borda com as sub-regiões de Bons Bois e Bois Ordinaires. Nestas condições, o cultivo de uvas brancas com destacada acidez é evidente, dando origem a vinhos ácidos e magros, pré-requisitos indispensáveis para boas eaux-de-vie (aguardentes). Aqui estamos diante do melhor destilado de vinhos na sua forma bruta. Aliado a outras condições de terroir, como manejo da destilação, amadurecimento em carvalho de Limousin e critérios próprios de assemblage, este diamante bruto é devidamente lapidado ao longo tempo nas caves.

Grande Champagne: solo calcário no melhor terroir de Cognac

Neste terroir de Cognac o amadurecimento das uvas é dramático. O melhor a fazer é cultivar uvas brancas relativamente neutras como a Ugni Blanc, mais conhecida localmente como Saint-Emilion. Na Itália assume o nome de Trebbiano. Este vinho neutro e magro é tudo que uma aguardente de qualidade precisa.

Saint-EstèpheMédoc: comuna de Saint-Estèphe

Na região imediatamente abaixo, separada pelo estuário do Gironde, temos a nobre região de Bordeaux, mais especificamente, o Médoc. Este terroir forjado pelo homem, tratou de proteger o continente com uma floresta de pinheiros à beira-mar dos ventos salinos do Atlântico. Na verdade, o florestamento com pinheiros foi para impedir o avanço das dunas sobre o continente. A protecão dos ventos veio como consequência. Além disso, as principais comunas do Médoc (desde Saint-Estèphe até Margaux) foram devidamente drenadas por engenheiros holandeses no início do século dezessete, aflorando um solo bastante pedregoso, os famosos “graves”. Some-se a isso a influência da massa de água do rio Gironde, regulando as temperaturas, e teremos o melhor terroir do mundo para o cultivo de Cabernet Sauvignon, cepa protagonista no famoso corte bordalês de margem esquerda. O solo aqui também se modifica com camadas alternadas de argila, calcário e areia. De fato, a Cabernet Sauvignon, cepa de maturação tardia, encontra no Médoc seu ciclo de maturação alongado, acumulando lentamente açúcar, polifenóis, sobretudo os taninos, componentes fundamentais para a incrível longevidade deste grandes tintos.

À mesa, estas duas regiões atendem à mais refinada gastronomia. Os brancos bordaleses são surpreendentes e relativamente pouco conhecidos. Os tintos dispensam comentários, assim como os brancos doces, botrytisados, entre os melhores do mundo. Para finalizar qualquer refeição, o melhor dos brandies, o inimitável Cognac em suas várias categorias. Neste mesmo blog, há artigos específicos sobre essas duas grandes regiões (Bordeaux e Cognac).

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Bordeaux: Parte I

18 de Janeiro de 2010

O mapa acima mostra a aparente complexidade dos vinhos de Bordeaux, a maior região vinícola francesa  perfeitamente delimitada em 57 apelações de origem. Os números de Bordeaux (dados de 2007) impressionam em vários quesitos:

  • 120 mil hectares de vinhas
  • Produção anual: 760 milhões de garrafas
  • 3,4 bilhões de euros, sendo 1,4 em exportações
  • 32% da exportação de vinhos traquilos franceses

A fama dos Bordeaux é toda voltada para os tintos que são a maciça maioria da produção. Contudo, os brancos são injustamente esquecidos e não devem ser desprezados, sobretudo os da região de Graves.

Quanto aos doces, o grande Yquem se encarrega de valorizá-los, colocando a região de Sauternes no podium. Châteaux classificados e bem administrados são as melhores pedidas da região. Rieussec, Suduiraut, Fargues e Guiraud são exemplos  clássicos.

 

A foto acima mostra a junção dos dois grandes rios da região (Dordogne e Garonne) formando o Gironde que desaguará no Atlântico 80 km adiante. Paradoxialmente, é uma região com muita água, a princípio, imprópria à cultura da vinha. Na verdade, toda esta massa de água funciona como um verdadeiro ar condicionado, resfriando as vinhas no verão e amenizando os invernos mais rigorosos.

As classificações de vinhos em Bordeaux é uma verdadeira torre de Babel. Sem dúvida, a mais famosa é a de 1855, onde foram avaliados os melhores vinhos do Médoc e os melhores doces da região de Sauternes. Eram os vinhos mais prestigiados da época. Esta classificação torna-se cada vez mais polêmica porque é imutável. Sendo assim, esses châteaux sofreram mudanças ao longo do tempo e não podem eternamente viver das glórias do passado. Felizmente, a grande maioria faz jus à classificação, sabendo renovar-se  de acordo com sua época.

A segunda grande classificação ocorreu com os vinhos de Graves (tintos e brancos). Iniciou-se em 1953 e foi completamente definida em 1959 com dezesseis châteaux.

A terceira grande classificação são dos vinhos de Saint-Emilion iniciada em 1958, prevendo revisões de 10 em 10 anos. Seguiram-se então as de 1969, 1986, 1996 e 2006. Esta última com grande polêmica.

A tradicional classificação de Crus Bourgeois está anulada até o momento, desde sua última revisão em 2003. Existe também uma classificação pouco conhecida e também irrelevante chamada Crus Artisans, relacionada à tradicional aristocracia do Médoc.

Apesar do tinto mais famoso e caro de Bordeaux (Château Petrus), Pomerol ainda não possui classificação oficial de seus vinhos, embora não falte um grupo extremamente seleto para sua inauguração.

De todo modo, é bom  que fique bem claro que todas essas classificações são independentes entre si e absolutamente restritas às suas respectivas subregiões.

Neste primeiro apanhado geral sobre Bordeaux devemos sempre ter em mente que a fama, reputação e alta qualidade de seus vinhos estão restritas a menos de 2% de seus mais de 10.000 châteaux. Mesmo assim, estamos falando em mais de 200 châteaux de alta qualidade, batendo de longe qualquer comparação com outras grandes regiões vinícolas do planeta.

Detalhando a região, no próximo artigo abordaremos especificamente o terroir do Médoc.


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