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Top 100 Wine Spectator 2016

6 de Dezembro de 2016

Analisando os Top Ten recém-anunciados com seis vinhos americanos, ficamos induzidos a pensar que o mundo divide-se em americanos e o restante, incluindo a Europa. Já frisamos várias vezes que puxar a sardinha para sua brasa é algo normal e compreensivo. Portanto, temos que raciocinar com isenção e posicionar os Estados Unidos no seu devido lugar no mundo dos vinhos. A força vinícola deste país é inquestionável. É o quarto produtor mundial, um dos principais importadores da bebida, e faz vinhos espetaculares. Neste sentido, cabe a nós respeitá-los e ao mesmo tempo, estarmos também conscientes do habitual exagero americano, ou seja, um pouco menos …

Vamos pinçar  e comentar alguns vinhos interessantes da lista, inclusive o vinho do ano. Uma espécie de Top Ten pessoal, dando já algumas dicas para o final do ano que se aproxima.

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Vinho do Ano, Number 1

Lewis Cabernet Sauvignon Napa Valley 2013 é um dos ótimos Cabernet Sauvignon de Napa Valley, região extremamente famosa, e um dos melhores terroirs para esta casta. Mais do que o vinho do ano, ele está representando um grupo de ótimos concorrentes  como Screaming Eagle, Harlan Estate, Insignia, Abreu, entre outros. E aqui certamente, entra o lado promocional de um nome que não tem o peso e a tradição dessas feras citadas. Ele nem sequer é o top da própria vinícola. Seja como for, aqui vão seus atributos.

As uvas são colhidas em seu ponto ótimo de maturação, desengaçadas, e vinificadas em aço inox com longa maceração. O vinho amadurece por cerca de 19 meses em carvalho francês novo, e é engarrafado sem filtração. Muita concentração, maciez e balanço, num final longo.

Os outros nove pessoais

Nesses demais vinhos, fiz questão de não colocar mais nenhum americano, já que no Top Ten eles abusaram um pouco. Em compensação a Espanha entrou em peso, notadamente a região de Ribera del Duero na safra 2012.

Todos os vinhos são bem pontuados, encontrados no Brasil, e com a indicação das respectivas importadoras. São vinhos que pessoalmente tenho familiaridade, e portanto, podem valer como dicas para presentes neste final de ano.

Hamilton Russell Chardonnay Hemel-en-Aarde Valley 2015 – 94 pontos

Esse é um velho conhecido, exemplo de um bom Chardonnay fora da Borgonha. Hamilton Russell foi aprender in loco como se faz Borgonha (branco e tinto), e escolheu Walker Bay, litoral muito frio da Áfrical do Sul, para formar seu terroir. Ele tem uma preocupação absurda com vinificação em barricas e o uso da madeira. Trabalha com baixíssimos rendimentos (23 hl/ha). O resultado é um vinho com incrível balanço entre fruta e madeira. Importadora Mistral (www.mistral.com.br).

Abadia Retuerta Selección Especial Sardon de Duero 2012 – 93 pontos

Os tintos da Abadia Retuerta são sempre muito bem feitos. Localizada em Castilla y León, está fora da denominação Ribera del Duero. Este Selección Especial é um corte com predomínio de Tempranillo, utilizando os melhores vinhedos. É complementado com Cabernet Sauvignon e Syrah, principalmente. Amadurece entre 16 e 22 meses em barricas de carvalho (francês e americano). Mescla muito bem o vigor da fruta com os toques de madeira. Importadora Peninsula (www.peninsulavinhos.com.br), especializada em vinhos espanhóis de alta qualidade.

Condado de Haza Ribera del Duero 2012 – 93 pontos

Quando se pensa em Ribera del Duero, exceto Vega-Sicilia, se pensa em Pesquera do grande bodegueiro Alejandro Fernandez. Seus tintos calcados na Tempranillo (Tinto Fino na região) são cheios de personalidade. O grupo Pesquera em uma de suas bodegas tem o Condado de Haza, tintos de muita consistência e preços competitivos. Mais de três mil barricas para brincar com as uvas Tempranillo. Importadora Mistral.

Bodegas y Viñedos Maurodos Toro San Roman 2012 – 95 pontos

Por trás desta bodega está Mariano Garcia, talvez o melhor enólogo de toda Castilla y León, trabalhando por décadas no Vega-Sicilia. Este projeto em Toro, denominação vizinha à Ribera del Duero, trabalha com 100% Tempranillo (localmente conhecida por Toro) em solos pobres e de baixos rendimentos. Passa cerca de dois anos em barricas francesas e americanas, entre novas e usadas. Importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br).

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Concha Y Toro Cabernet Sauvignon Puente Alto Don Melchor 2012 – 95 pontos

Cabernet Sauvignon consagrado do Alto Maipo, Don Melchor procura aprimorar-se a cada ano com vinhos sedosos e acessíveis, mesmo jovens. Uma pitada de Cabernet Franc e o uso criterioso de carvalho francês, molda um dos tintos mais consistentes do Chile. Lojas Ville du Vin (www.villeduvin.com.br).

Fattoria di Fèlsina Chianti Classico Berardenga 2013 – 92 pontos

No mar de Chiantis espalhados em lojas e importadoras, consegue-se pinçar alguns exemplares de grande personalidade. Fattoria de Fèlsina é o grande nome de Castelnuovo Berardenga, sub-região do Chianti Classico, perto de Siena. Seus Chiantis com 100% Sangiovese são de uma pureza e tipicidade extraordinárias. Sempre um porto seguro. Importadora Mistral.

Fournier Père & Fils Sancerre Les Belles Vignes 2015 – 92 pontos

Um clássico do Loire com a uva Sauvignon Blanc. De estilo cítrico, bem mineral, seus vinhos são típicos, bem secos, quase austeros. Vinificação tradicional com maturação sur lies (sobre as borras), sem passagem por madeira. Ótimo com produtos do mar in natura (ostras, sashimis, carpaccio, …). Importadora Premium (www.premiumwines.com.br).

La Rioja Alta 904 Gran Reserva 2007 – 93 pontos

É o clássico dos clássicos em Rioja. Elaborado com Tempranillo e uma pitada de Graciano, este tinto permanece por pelo menos quatro anos em barricas de carvalho americano de fabricação própria, e mais um bom tempo em garrafa, antes de ser comercializado. Aromas sedutores, equilíbrio fantástico, um verdadeiro Borgonha da Rioja. Importadora Zahil (www.zahil.com.br).

Quinta Vale Dona Maria Douro 2013 – 94 pontos

Se você procura um vinho tinto do Douro sofisticado, ei-lo aqui. Partindo de um vinhedo antigo com mais de 60 anos, as uvas foram plantadas todas misturadas com mais de 40 variedades (tinta Francisca, tinta Roriz, rufete, sousão, …). As uvas são pisadas em lagares de granito e fermentadas com longa maceração. O vinho estagia em barricas de carvalho francês de várias marcas renomadas (Seguin Moreau, Taransaud, …) por cerca de 20 meses. A maciez, profundidade e persistência deste tinto são notáveis. Importadora World Wine (www.worldwine.com.br).

Don Melchor 2012

12 de Agosto de 2016

Quando falamos em terroir para Cabernet Sauvignon logo pensamos na margem esquerda de Bordeaux, terra sagrada para os grandes tintos da região. Contudo, há outros locais famosos para esta uva de maturação tardia que necessita de solos pobres, pedregosos, e de excelente drenagem.

Lugares como Napa Valley, Bolgheri (Toscana), Coonawarra (Austrália) e Alto Maipo em Chile, costumam expressar grandes Cabernets, cada qual com suas características específicas, marcando de fato um terroir único.

No caso chileno, muito próximo de Santiago, ao pé da cordilheira dos Andes, cabernets famosos como Casa Real, Almaviva, Domus Aurea, e um dos pioneiros nos anos 80, Cousiño Macul Antiguas Reservas, entre outros, marcaram o Alto Maipo como um dos grandes terroirs do mundo. Em particular, falaremos neste artigo do ícone maior do grupo Concha Y Toro, o famoso Don Melchor. Com a primeira safra lançada em 1987, este tinto vem evoluindo ano após ano, aprimorando sua expressão neste terroir e ao mesmo tempo, se atualizando ao homem contemporâneo, num trabalho brilhante e de muita dedicação do competente enólogo Enrique Tirado.

Para termos uma noção exata do vinhedo, fazendo um paralelo com as sub-regiões de Bordeaux, Puente Alto (local do vinhedo Don Melchor) seria uma espécie de Pauillac dentro do Alto Maipo, e este  por sua vez, uma espécie de Haut-Médoc. As características do solo local são mostradas no vídeo abaixo.

Don_Melchor_Puente_Alto_Vineyard_Parcel_Map

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parcelas 4, 5 e 6 em destaque

Na busca pela excelência, o quadro acima mostra sete parcelas distintas do vinhedo Don Melchor com pouco mais de cem hectares. Cada um delas, relacionadas sobretudo a pequenas diferenças de solo e temperatura, fornece uvas distintas quanto ao estilo. Algumas com frutas mais intensas, outras com mais taninos, outras com mais corpo, e assim por diante. Seguindo o modelo clássico bordalês, as parcelas são colhidas e vinificadas separadamente. Após à estabilização dos vinhos, chega o momento de conceber o famoso blend, nascendo assim um novo Don Melchor.

Cabernet Sauvignon: solo pedregoso e excelente drenagem

Safra 2012

Este foi um ano com temperaturas mais altas, acima da média, proporcionando uma colheita mais precoce. Graças ao efeito da amplitude térmica devido à grande proximidade da cordilheira dos Andes, a acidez e o frescor foram preservados. Portanto, espera-se um vinho com taninos perfeitamente maduros, bem equilibrado e sedutor, mesmo em tenra idade.

É difícil precisar uma data ideal para consumo desta safra. De fato, atualmente nesta fase de juventude, encontra-se extremamente prazeroso para o consumo. Entretanto, deve evoluir bem nos próximos dez anos, adquirindo os toques terciários de couro, tabaco, acentuando a mineralidade. É sobretudo uma questão de gosto pessoal.

don melchor 2012

decanta-lo por meia hora: aromas abertos

A colheita deu-se entre 10 de abril e 9 de maio com rendimentos muito baixos de 2,9 toneladas/hectare. O blend foi composto por 93% Cabernet Sauvignon e 7% Cabernet Franc. O vinho amadureceu por 15 meses em barricas francesas, sendo 71% novas.

Em anos onde a porcentagem de Cabernet Franc é mais destacada como em 2012, o vinho ganha em elegância e suavidade, quebrando um pouco a habitual austeridade da majoritária Cabernet Sauvignon. Neste ano de colheita mais precoce, a maturação da Cabernet Franc acaba sendo perfeita, pois seu ciclo é mais curto em relação à Cabernet Sauvignon.

A renovação do vinhedo vem sendo feita com o plantio de pequenas parcelas de Merlot e Petit Verdot, além das tradicionais Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. As vinhas mais antigas plantadas entre 1979 e 1992 foram adensadas com 4000 pés/hectare. Para o vinhedo novo, entre 2004 e 2013, o adensamento dobra chegando a 8000 pés/hectare. Esta mudança acirra a competição entre as vinhas, aprofundando raízes.

O vinho tem importação exclusiva pela própria Concha Y Toro, sendo distribuído nas lojas Ville du Vin, tanto em Alphaville, como no Itaim Bibi em São Paulo. Maiores informações: http://www.villeduvin.com.br

Wine Spectator: Douro em destaque

24 de Novembro de 2014

A tão esperada lista de final de ano da revista americana Wine Spectator já está na mídia com o famoso TOP 100. O grande destaque para as primeiras colocações é a região portuguesa do Douro. Não só abocanhou o primeiro lugar com um Porto da espetacular safra de 2011, como dois grandes vinhos de mesa ícones da região foram muito bem ranqueados. Um deles, o respeitado Vale do Meão, conhecido também como “Barca Nova”, foi durante muito tempo um tinto fundamental no assemblage do mítico Barca Velha. O outro de estilo mais moderno, trata-se do Chryseia, parceria vitoriosa da família Symingnton (tradicional em Vinho do Porto) com a família Prats (ex-Cos d´Estournel), de tintos bordaleses de alto nível. Aliás, numa degustação relativamente recente na ABS-SP, ainda neste semestre corrente, esses dois vinhos de mesa estavam presentes. A degustação foi um sucesso.

Um clássico moderno

De um modo geral, a lista premiou 24 vinhos americanos, 19 italianos, 14 franceses, 9 espanhóis, 6 portuguese, 6 chilenos, 6 australianos e o restante dividido entre Argentina, Alemanha, África do Sul, Grécia, Hungria, Áustria, e Nova Zelândia. Dentre os destaques podemos citar algumas figurinhas carimbadas tais como: Don Melchor (Chile), Château Guiraud (Sauternes), Flaccianello (Toscana), Two Hands Shiraz (Barossa Valley), Château de Beaucastel (Châteauneuf-du-Pape), e Clos de Papes (Châteauneuf-du-Pape).

O vinho do Ano 2014

O vinho do ano, Dow Vintage Port 2011 surpreendeu até mesmo o espetacular Fonseca de mesma safra. Castello di Ama com seus vinhedos sublimes é sempre tiro certo na concorrida região do Chianti Classico. A safra de 2010 na Toscana e no Vale do Rhône promete grandes vinhos. Vários Pinot Noir foram destaque na Califórnia, mostrando grande potencial. Pessoalmente, algumas regiões são notáveis para esta temperamental casta, incluindo Russian River.

Douro de mesa potente

Apesar de toda a polêmica que cerca o lado ético da revista, a mesma exerce forte influência no mercado, sobretudo nas vendas para bebedores de rótulos. A habitual tendência em enfatizar os norte-americanos é sempre comentada. Contudo, a despeito dos rótulos premiados a cada ano, os Estados Unidos continua de longe fornecendo os melhores vinhos do Novo Mundo, sobretudo em padrões de exigência mais elevados. Além disso, é um grande produtor mundial da bebida e expressivo país importador não só de vinhos, como de destilados.

O primeiro nº 1 em 1988 da safra de 1985

Desde 1988, quando deu-se a primeira edição dos TOP 100, Estados Unidos e França travam uma disputa acirrada pelo vinho do ano. Bem atrás, vêm Itália com três toscanos (Solaia, Ornellaia e Casa Nova de Neri) e Portugal com dois Portos (Fonseca e Dow´s, o atual número um).

Terroir Chileno

12 de Setembro de 2010

Já foi o tempo em que o Chile resumia-se em vinhos do Vale Central, entre tintos e brancos. Principalmente nas últimas duas décadas, o terroir chileno está sendo devidamente estudado, com exploração de vários outros vales, como mostra o mapa abaixo. Casablanca, por exemplo, promoveu grande impacto nos vinhos brancos com as castas Chardonnay e Sauvignon Blanc, descoberto na década de oitenta por Pablo Morandé. Atualmente, Limarí, Elqui, Bio Bio e Malleco, são a bola da vez, com vinhos curiosos e surpreendentes.

corrente de Humboldt → ventos marítimos gelados

Observando o mapa acima, podemos perceber algumas variáveis importantes para definir o terroir chileno. O Chile é um país comprido, tendo grandes variações de latitude. Portanto, quanto mais ao norte, mais quente, culminando no deserto de Atacama. Quanto mais ao sul, mais frio, chegando à Patagônia chilena.

Outra variável importante é o relevo chileno. Olhando para o mapa, do lado direito temos o paredão da Cordilheira dos Andes. Do lado esquerdo, em determinadas faixas de latitude, principalmente no vale central, temos a chamada cordilheira da Costa, que barra o ar gelado vindo do pacífico, gerado pela corrente marítima de Humboldt, a qual é a terceira grande variável. Portanto, é uma questão de calibrarmos a latitude com o nível de influência da corrente de Humboldt. Mesmo em vales bem ao norte como Limarí, a ausência da cordilheira da costa, permite notável amplitude térmica (diferença de temperatura entre o dia e a noite), gerando belos vinhos brancos, como o Chardonnay De Martino Single Vineyard Quebrada Seca, importado pela Decanter (www.decanter.com.br).

Para quem gosta de Cabernet Sauvignon chileno, o Alto Maipo, com vinhedos próximos à capital chilena Santiago, é um dos melhores terroirs do mundo para esta uva. No mesmo nível de Bolgheri (Toscana), Napa Valley (Califórnia) e Coonawarra (Austrália). Evidentemente, o Médoc na região bordalesa, é a inspiração de todos eles.

No Alto Maipo, temos dias ensolarados sem a influência do pacífico, protegido pela cordilheira costeira. As noites são frias pelo ar gelado que desce da cordilheira dos Andes. O solo é pedregoso e de excelente drenagem. Todos esses fatores fazem a Cabernet Sauvignon amadurecer lentamente, com riqueza de aromas e taninos bem desenvolvidos. Vinhos como Don Melchor, Almaviva, Casa Real e Chadwick, confirmam esta teoria, com altas pontuações em inúmeras safras.

Uvas como Carmenère e Merlot parecem ter encontrado seus respectivos terroirs nos Vales Cachapoal e Conchagua. Apesar de muito próximos e de fato vizinhos, esses vales apresentam características distintas na maturação das uvas acima citadas, que por sinal, foram confundidas durante muito tempo, até a devida separação das vinhas de cepa Merlot, das de cepa Carmenère.

O Vale Cachapoal fica praticamente atrás do Vale Conchagua, que de certa forma o protege da influência marítima. Esta particularidade torna Cachapoal suficientemente quente para amadurecer de forma adequada a tardia Carmenère, a qual deve ser colhida muitas vezes, no mês de maio. Já o Vale Conchagua, recebendo maior influência oceânica, torna-se uma vale mais frio, devidamente ajustado à maturação precoce da uva Merlot. É evidente que outras questões como solo, relevo e microclima, têm seu peso no balanço final.

O assunto é vasto e mereceria vários posts para um detalhamento maior. O fato é que hoje no Chile, as vinícolas comprometidas com a qualidade e a expressão correta de cada varietal, investem em pesquisas detalhadas para buscarem terroirs cada vez mais adequados, elaborando vinhos de personalidade e distinção. Os inúmeros vales de norte a sul levarão ainda um bom tempo para serem devidamente estudados.


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