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Burgundy Cellar

5 de Fevereiro de 2019

A importação de vinhos no Brasil deveria ter mais Amauris de Faria. Homem refinado com vasta experiência de mesa e copo. Escolhe vinhos para Cellar, sua importadora sem sócios, graças a Deus, como se os escolhessem para beber. Com seu extremo bom gosto, basta este único critério. Se ofende com descontos, pois seus preços são absolutamente justos. Não tem aquela pegadinha infame de por uma gordurinha a mais para dar uma de bonzinho depois. Muito de seus vinhos são como Ferrari. Não se discute preço, apenas se escolhe o modelo.

Num jantar extremamente prazeroso, ele nos brindou com algumas surpresas bem instigantes, saindo do óbvio. Sutilmente, uma pequena aula de Borgonha. Antes porém, nada como um belo champagne para iniciar os trabalhos.

img_5598Blanc de Blancs com estilo

Larmandier-Bernier é um produtor artesanal e biodinâmico com 16 hectares de vinhas na Côte des Blancs, por excelência terroir de Chardonnay. Esta é uma cuvée especial só com vinhedos Grand Cru de idade avançada, entre 50 e 80 anos. O vinho-base, boa parte é vinificado em madeira inerte com longo trabalho sur lies. Este trabalho continua com a prise de mousse, onde permanece nas caves pelo menos sete anos, antes do dégorgement. Portanto, estamos falando de um Blanc de Blancs Millésime. A safra 2009 foi generosa com uma riqueza de fruta extraordinária. Pelas características acima, trata-se de um champagne cremoso, generoso, e altamente gastronômico. Por sua classe e equilíbrio, merece pratos de aves ou frutos do mar com alto refinamento. Uma galinha d´angola (pintade) com creme de morilles seria perfeito.

bela dobradinha!

Em seguida, uma dupla adorável de Borgonhas de apelações mais simples, extremamente indicada para o dia a dia. A apelação Saint-Romain esta fora do circuito das badalações, uma reentrância acima de Auxey-Duresse, próximo a Meursault. Um branco com ótimo poder de fruta, aliado a um trabalho exemplar de barricas. Na ótima safra 2015, um branco muito agradável aromaticamente, bem equilibrado, e com uma persistência surpreendente para um nível de vinho, teoricamente simples. 

Passando ao tinto, estamos falando de um Borgonha genérico elaborado e engarrafado pelo produtor, Michel Magnien, especialista nas comunas de Morey-St-Denis e Chambertin. Portanto, estamos falando de uvas da Côte de Nuits, a melhor área da Borgonha para Pinot Noir. Novamente a safra 2015 com seu esplendor de frutas. Um tinto delicado, elegante, e muito bem equilibrado em todos os quesitos. Por 160 reais, não vale a pena se arriscar em aventuras perigosas na ofertas de Pinot Noir sem expressão.

harmonização divina!

Aqui, o ponto alto do jantar com belos pratos na Trattoria Fasano. Este carpaccio de Namorado com temperos delicados e flor de sal, combinou maravilhosamente com o Chablis Grand Cru do vinhedo Les Preuses 2016 do Domaine Fèvre. São somente 4500 garrafas por safra de uma área de vinhas de 2,3 hectares, plantadas entre 1950 e 1973. O vinho tem um mix de aço inox com barricas de extremo refinamento. A mineralidade aflora tanto nos aromas, acompanhando lindos toques florais, como na salinidade em boca. Agudo, incisivo, com um frescor notável. Bela pedida para este verão insolente. 

img_5603Sancerre de estilo próprio

Neste último branco, Alphonse Mellot mostra um estilo próprio, sobretudo nesta cuvée Edmond. Os vinhedos somam seis hectares com idade entre 40 e 87 anos, em solos de marga pedregoso e subsolo Kimmeridgiano, o mesmo solo de Chablis com fosseis marinhos, também chamado de Virgule. É um Sancerre trabalhado em barricas de diferentes idades e tamanhos com longo contato sur lies. Portanto, trata-se de um Sancerre macio, com nuances de madeira, e sabores refinados. Um Sancerre feito à moda borgonhesa. Por ser muito gastronômico, fica ideal com ostras gratinadas e temperos sutis.

sutilezas à mesa

Passando agora aos tintos, toda a sutileza da Côte de Nuits no terroir de Vosne-Romanée. Este Premier Cru Les Beaux Monts fica na parte alta entre os Grands Crus Richebourg e Echezeaux. O vinhedo de solo pedregoso tem alta densidade com dez mil pés por hectare. As uvas são vinificadas parcialmente com engaço e o amadurecimento é feito em barricas 50% novas, de 15 a 18 meses. O resultado é um vinho elegante e sedutor. Taninos refinados e um equilíbrio perfeito entre álcool e acidez. Acompanhou divinamente esta costeleta à milanesa com tagliolini na manteiga de sálvia (foto acima). 

0a86f97d-9e30-4000-8675-f18a775b0671o brilho de um Grand Cru

Passando a régua, um brilhante Grand Cru de Vosne-Romanée, um Richebourg da ótima safra 2005. O que impressiona neste vinho é sua prontidão com todos os terciários de um Borgonha envelhecido de grande classe. Sous-bois, ervas finas, notas de caça, especiarias delicadas, e outros aromas maravilhosos. Thibault Liger-Belair possui este vinhedo na parte histórica, original,  da área de Richebourg. São apenas meio hectare de vinhas plantadas entre 1931 e 1936. A vinificação é feita parcialmente com engaço (30%) e o trabalho com madeira, extremamente criterioso. São 18 a 24 meses em barricas, sendo 60% novas. Pela cor (foto acima), percebemos a riqueza deste tinto com quase quinze anos de vida. Equilíbrio, elegância e longa persistência, resumem bem sua essência e complexidade. Um belo fecho de refeição!

Enfim, acho que o desfile de vinhos acima definem bem os critérios de Amauri de Faria. Seu amor pela França, sua paciência em garimpar preciosidades no mosaico bourguignon, conhecendo os atalhos onde pode-se perder facilmente, acaba sendo tarefa para poucos que ele não delega a ninguém. Sempre um privilégio partilhar de sua companhia. Que Bacco continue te iluminando!

Entre vinhos e destilados

1 de Junho de 2016

Há pratos que nos deixam em dúvida quanto à harmonização. É bem verdade que para um determinado prato, cabe uma série de vinhos bem escolhidos, os quais proporcionarão sensações diferentes. Foi o que ocorreu neste embate com os vinhos abaixo, acompanhando um pappardelle ao molho de funghi porcini, guarnecido com frango ao forno com mostarda em grão e salvia.

vougeot premier cru

localização privilegiada

O exemplar acima trazido pelo especialista e amigo Roberto Rockmann, foi pinçado num vinhedo Premier Cru (Les Petits Vougeots) cercado por alguns astros de primeira grandeza como Musigny, Les Amoureuses e Clos de Vougeot. Delicado, elegante, taninos bem moldados e madeira quase imperceptível, na medida justa. Buscou enaltecer o lado mais sutil do prato com toques de sous-bois e florais.

clo de l´olive 2005Chinon de vinhedo na bela safra 2005

O tinto acima trata-se de um vinhedo específico do produtor Couly-Dutheil chamado Clos de L´Olive na ótima safra 2005. A apelação Chinon trabalha com a temperamental Cabernet Franc em latitudes limites para seu bom amadurecimento. Aqui o corpo do vinho e sua estrutura tânica  privilegiaram mais a textura tanto da massa, como do prato. O sabor do funghi e os toques de mostarda e salvia, também tiveram boa sintonia com o vinho que por sua vez, apresentava aromas terrosos, herbáceos e de especiarias, notadamente a pimenta. Enfim, a preferência é uma questão de gosto. Muito provavelmente, se degustados isoladamente, não deixariam as dúvidas criadas pela situação exposta.

fita ao molho de funghi porcinipappardelle ao molho de funghi porcini

Encerrando a refeição, tivemos uma tábua de queijos nacionais bem frescos, trazidos direto do produtor (Serra das Antas) com destaque para o Camenbert, Pont L´eveque e Taleggio, nesta ordem crescente de sabores. Para acompanhar os queijos, tivemos damascos, figos secos, e o original Vinsanto grego da ilha de Santorini. Este exemplar da safra 2004 é elaborado com a uva autóctone Assyrtiko de grande acidez e mineralidade. As parreiras plantadas em forma de cesto num solo vulcânico têm mais de sessenta anos, gerando vinhos de grande concentração e profundidade. Seus apenas 9º (nove graus) de álcool e ótima acidez foram contrabalançados por quase 300 g/l (trezentos gramas por litro) de açúcar residual. Aromático, denso e persistente.

vinsanto sigalas

Vinsanto: Os italianos o chamavan de Vin Pretto

torta de limão

torta de limão

A sobremesa acima é outra bela combinação com este Vinsanto grego. A acidez do vinho e seu açúcar residual garantem a força do prato, além das texturas, sabores e corpo de ambos estarem sintonizados.

Como ninguém é de ferro, o gran finale já fora da mesa, ficou para os puros abaixo, Partagas Lusitanias, um dos mais cultuados clássicos de Havana. A pegada, força, e potência desta marca é emblemática. No formato double corona, o primeiro terço começa com uma traiçoeira suavidade que vai intensificando-se sem que você perceba, feito uma sucuri que vai lentamente asfixiando a vítima. Pronto, você está enrolado. Um final de terço inesquecível onde só os destilados nobres podem ombreá-lo.

partagas lusitanias

Partagas Lusitanias: double corona de raça

O primeiro destilado foi o ótimo Knockando (em gaélico quer dizer pequena colina negra) 12 anos da safra 2002. Normalmente, essas indicações de idade referem-se a uma mistura de partidas (solera) onde a idade mais jovem do blend tem o numero de anos indicado. Este Malt Whisky de Speyside é macio, de boa presença em boca e o característico fundo de mel e ervas. Como curiosidade, este malt whisky faz parte do conhecido blended Scotch J&B (Justerini & Brooks).

knokando 12 anos

Single Malt de safra

O segundo destilado trata-se de um rum agrícola envelhecido da ilha de Martinica. O termo agrícola refere-se ao rum obtido somente com o calda da cana de açúcar, e não o melaço. Este V.S.O.P. envelhece quatro anos em madeira, sendo um ano em madeira francesa de Limousin (a mesma floresta para madeira do Cognac), e três anos em madeira americana de Bourbon Whiskey (Kentucky). Bebida de bom corpo, marcante, e persistente. Foi bem no terço final.

rum clement

Os velhos runs do Caribe

Vinhos diferentes, saindo do trivial, e destilados distintos cumprindo o mesmo papel no acompanhamento de puros. Tudo no seu devido tempo e sem conflitos entremeando os pratos. A mesa e o copo agradecem.


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