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Harmonização: Intensidade, Sabores e Texturas

1 de Novembro de 2016

Uma das regras básicas da harmonização entre pratos e vinhos é que os mesmos devem ter estrutura e corpo semelhantes, de modo que um não sobrepuja o outro. Vez por outra, essa regra pode ser conscientemente quebrada a fim de valorizar um grande vinho, um vinho especial, para que o mesmo se destaque na parceria e não corra o risco de ser incomodado com algum inconveniente do prato. Foi o que aconteceu no caso abaixo, onde um excepcional Palo Cortado acompanhou a entrada de um jantar.

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rótulo à altura do vinho

Palo Cortado é uma categoria de Jerez ou Sherry que por si só, já é especial. Mesmo para os mais experientes bodegueiros, definir e educar um Palo Cortado exige muita sensibilidade e cuidado. Normalmente, ele começa numa criação biológica, sob a proteção da flor, mas já nesta fase apresenta tendências bem sutis a pender para o lado oxidativo. De fato, após breve crianza biológica, é encabezado (fortificado) e segue sua jornada em crianza oxidativa como se fosse um Oloroso. Em resumo, o nariz pende para um Amontillado, mas a boca lembra um Oloroso, em meio a características especificas.

No caso do rótulo acima, diga-se de passagem, belíssimo, este Palo Cortado é o suprassumo na categoria. Além de pertencer a Bodegas Tradicion, extremamente artesanal, está enquadrado na legislação mais sofisticada chamada VORS (Very Old Rare Sherry), onde a média de idade da solera supera os 30 anos. Vinho multifacetado e de grande complexidade.

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sabores variados e sutis

A entrada acima procurou sobretudo não ofuscar e nem perturbar o vinho. Apresentou vários sabores muito sutis como creme de amêndoas e curry, quenelles de cogumelos e batata-doce, julienne de alho-poró em fritura e azeitonas negras. Esta variedade de sabores delicados, procurou despertar  e realçar as nuances de sabores múltiplos do vinho sempre com o intuito destes últimos, prevalecerem nas sensações finais da harmonização. As frutas secas, as notas terrosas, salinas, empireumáticas e cítricas do vinho, eram alternadamente realçadas na harmonização, conforme a combinação dos ingredientes do prato a cada colherada. Em termos de textura, também houve harmonia. A cremosidade do prato sintonizava com a densidade do vinho, já que o teor de glicerina do mesmo assemelhava-se a um Oloroso.

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harmonização de respeito e cordialidade

Outro ponto alto foi ao final do jantar, onde  este Palo Cortado volta à cena de mãos dadas com um Bolívar Belicosos, Puro de grande classe e sutileza. O primeiro terço é quase indescritível, tal a gentileza de ambas as partes em valorizar seu par, sem esconder sua própria elegância. As notas de especiarias, defumadas, e terrosas, se entrelaçavam numa combinação harmoniosa, delicada, e ao mesmo tempo, marcante. Uma experiência absolutamente inesquecível.

Porém, nem tudo são flores. A harmonização sempre nos prega surpresas, muitas vezes, não tão agradáveis. Embora, prato e vinho separados estivessem divinos, não houve a sinergia esperada do encontro na sequência do jantar.

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longo cozimento

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galinha d´angola caipira

Esta galinha d´angola caçada em Minas Gerais deu o que falar. Promessa antiga de um bom mineiro, finalmente chegou. Deixamos ele faze-la à sua moda, e lá se foram mais de quatro horas na panela num belo guisado. Sem grandes novidades no tempero, a carne tinha sabor marcante e textura bastante firme. Na foto acima, coxa e sobrecoxa com polenta cremosa e vagem.

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um monumento a Pommard

Para acompanhar o prato, foi escolhido um Borgonha, combinação clássica para muitas aves. Mesmo sendo um Pommard, talvez o mais viril da Terra Santa, o vinho quase não aguentou o prato. A intensidade de sabor da carne, aliada à sua textura compacta, pedia um tinto de maior suculência e peso. Um belo Syrah, seria certamente uma escolha mais adequada. Merlot ou Primitivo com bastante suculência, também se sairiam bem.

Voltando ao Pommard, Comte Armand juntamente com Domaine Courcel são referências da apelação. Este Clos des Epeneuax é um monopólio de pouco mais de cinco hectares de vinhas antigas. Tinto de grande estrutura, taninos presentes, um verdadeiro Barolo na Borgonha. A safra 2007 traz uma certa precocidade, deixando-o mais acessível. Mesmo assim, é vinho para mais uma década de evolução.

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canastra e bananada: rima boa

Finalizando a noitada mineira, nada melhor que a combinação perfeita: queijo e doce de tacho. Na foto acima, um queijo canastra de textura macia e sal na medida certa elaborado com leite cru, ladeado por uma bananada lentamente elaborada com todos os segredinhos a que tem direito. Só faltou o cigarro de palha, mas os Puros …

Bourgogne: Confronto de Terroirs

1 de Dezembro de 2014

Discutir sobre a Borgonha é sempre prazeroso, instigante e sobretudo, sem conclusões definitivas, lembrando um pouco as infindáveis discussões sobre futebol, ou seja, não se chega a lugar algum. Dentro desta perspectiva, o tema de hoje pode ser interessante, principalmente para aqueles que estão iniciando no assunto. Um dos fatores que mais intrigam os degustadores é desvendar as peculiaridades de cada “climat”, termo muito típico para designar terroirs específicos nesta região. Só para ficar nas comunas mais famosas como Chambolle-Musigny, Vosne-Romanée, Pommard, Volnay, Chambertin, entre outras, os escritores, críticos e apaixonados por este vinhos, tentam marcar as principais características específicas de cada uma delas. Seguindo este raciocínio, podemos propor alguns paineis em dupla, comparando vinhos aparentemente diversos, distintos. Seguem abaixo alguns exemplos:

Côte d´Or: O coração da Borgonha

Volnay x Chambolle-Musigny

Num primeiro momento, temos uma comuna da Côte de Beaune (Volnay) e uma comuna da Côte de Nuits (Chambolle). Terroirs bem separados, já que na Borgonha, mesmo em vinhedos lado a lado, as diferenças podem ser marcantes.  O ponto principal a ser comparado é a delicadeza, a elegância e a sutileza destes respectivos vinhos. A priori, os vinhos de Chambolle parecem vencer o páreo. Teoricamente, teriam mais profundidade, poderiam ser mais marcantes. Só que treino é treino e jogo é jogo. Na prática, às cegas, dependendo do produtor, os respectivos terrenos e a filosofia do produtor, tudo pode mudar. Entretanto, vale a bincadeira. Dois belos Premiers Crus, lado a lado, um de cada comuna, às cegas. Como sugestão, um Chambolle do craque Mugnier e um Volnay do diferenciado Lafarge.

Pommard x Nuits-Saint-Georges

Força, personalidade e até uma certa rusticidade, marcam esses tintos robustos para padrões borgonheses. Pommard é também chamado o “Barolo” da Borgonha. Já o terroir de Nuits-Saint-Georges é mais complexo. A porção que me refiro é mais ao sul, mais afastado de Vosne-Romanée. Aqui sim, são vinhos robustos, mais duros na juventude, porém podem envelhecer maravilhosamente. Nas duas comunas não existem Grands Crus. Como disse, para padrões borgonheses, falta-lhes algo mais refinado numa sintonia mais ajustada. Proponho para Pommard, os produtores Domaine Courcel ou Comte Armand, e para Nuits-Saint-Georges, Henri Gouges ou Faiveley.

Henri Gouges: Meu preferido de Nuits-St-Georges

Corton x Gevrey-Chambertin

Vinhos firmes, uma certa austeridade, um cunho másculo e novamente o antagonismo: Côte de Beaune x Côte de Nuits. Corton é a exceção. Único Grand Cru tinto da Côte de Beaune e Chambertin da Côte de Nuits, com o maior número de Grands Crus por comuna (são nove no total). Ambos geologicamente apresentam influência direta de um subsolo calcário, fornecendo finesse e elegância. Corton do produtor Chandon de Briailles e Chambertin do inacessível Rousseau. Na impossibilidade deste último, Domaine Trapet.

Embate de Gigantes

Vosne-Romanée x Morey-Saint-Denis

Aqui a proposta é mais ousada e até certo ponto, leviana. Comparar Vosne-Romanée com outros tintos da Borgonha pode ser para alguns um verdadeiro insulto. Contudo, como experiência vale. Um grande Bonnes-Mares, um Clos de Tart ou o grande Musigny, este último de Chambolle, podem ás cegas, surpreenderem degustadores até mesmo com os DRCs à mesa. Entenda-se DRC como os fabulosos Grands Crus da Domaine de La Romanée-Conti. Sem a presença de rótulos, os soberbos tintos de Vosne tornam o embate mais democrático.

Quase sempre uma surpresa às cegas

Enfim, esse é um dos caminhos divertidos para tentar compreender a Borgonha. É como as mulheres. É divertido, prazeroso, enriquecedor e necessário este contato, mas entende-las é uma outra história. Quanto mais estudamos, quanto mais formulamos teses, menos compreendemos. Eis é o fascínio.

Domaine de Courcel: A essência de Pommard

23 de Maio de 2013

No frenético marketing do mundo do vinho, os lançamentos em várias importadoras multiplicam-se. Na maioria das vezes, um estardalhaço bem acima do vinho comercializado. Já a importadora Cellar (www.cellar-af.com.br), com um portfólio enxuto e vinhos “didaticamente” escolhidos, mantém a discrição e sobriedade de seu proprietário, o expert Amauri de Faria. Um de seus últimos lançamentos é nada mais, nada menos, que Domaine de Courcel, um dos ícones da Borgonha. Juntamente com Comte Armand (produtor já comentado em outros artigos deste blog), espelha toda a nobreza da apelação Pommard, uma das mais famosas comunas da Côte de Beaune. Só para nos situarmos, segue abaixo um mapa ilustrativo desta comuna.

Melhores vinhedos: Rugiens e Epenots

Já comentamos em artigos anteriores sobre a dificuldade de acerto em comprar vinhos da Borgonha. É um campo minado, onde todo o cuidado é pouco. Primeiro passo, escolher uma comuna e saber de suas características. No caso de Pommard, sabemos que seus tintos são potentes, musculosos, principalmente tratando-se de Pinot Noir e da sub-região de Beaune que prima por tintos mais leves. Segundo passo, escolher os especialistas da respectiva comuna. É nesta hora, que Domaine de Courcel é referência absoluta, ou seja, se você não gostar de seus vinhos, mude de comuna.

Falando agora dos vinhos propriamente ditos, Courcel elabora dois excepcionais: Les Rugiens (1,07 hectares) e  Le Grand Clos des Epenots (4,89 hectares). Esses dois Premiers Crus apresentam uma tanicidade marcante, lembrando um pouco os grandes Barolos no melhor sentido da palavra (que os franceses não me ouçam). Numa sintonia fina, Rugiens é mais elegante e Clos des Epenots é mais potente e viril. São vinhos de longa guarda, desenvolvendo aromas terciários fascinantes. As vinhas são sexagenárias com rendimentos em torno de 25 hectolitros por hectare. O controle de temperatura na fermentação, bem como a extração de cor e taninos, são precisos.

Mesmo seu Village, simplesmente apelação Pommard, é de grande categoria. Trata-se do vinhedo Les Vaumuriens de ínfimos 0,35 hectares, praticamente um jardim. Suas vinhas têm quarenta anos de idade, e estão suficientemente adaptadas a expressar todo seu terroir. Não tem a estrutura e longevidade dos vinhos anteriormente descritos, mas são autênticos e prazerosos.

Domaine de Courcel adota a cultura biológica em suas vinhas, deixando seu terroir expressar-se da forma mais natural possível. Os vinhos passam cerca de vinte meses em barricas não totalmente novas. A ideia principal é proporcionar uma micro-oxigenação e estabilização para seus vinhos, jamais sobrepujando a fruta.

A importadora Cellar dispõe das belas safras 2009 e 2010 a preços bastante convidativos em relação à categoria de seus vinhos. Compra certeira para grandes borgonhas.

Borgonha: Parte VII

12 de Abril de 2012

Caminhando no sentido sul da Côte de Beaune, após explorarmos a montanha de Corton, vamos nos fixar em dois belos tintos deste climat, Volnay e Pommard. Como dois vinhedos tão próximos, podem gerar vinhos absolutamente distintos. O primeiro, Volnay, é o mais emblemático exemplo de delicadeza em que a Pinot Noir é capaz de se transformar, enquanto o segundo, Pommard, mostra toda a virilidade e caráter masculino desta mesma uva.

O solo tem papel fundamental nesta interpretação, mostrando que a presença marcante de calcário em Volnay torna a Pinot Noir extremamente delicada e feminina. Já em Pommard, o marga assume proporções de argila mais acentuadas, aliadas à importante presença de óxido de ferro, tornando seus vinhos mais encorpados e com cores mais marcantes. É a magia e lógica deste grande terroir.

Para fazer a prova, escolha um grande Volnay do produtor Montille (www.mistral.com.br) e Pommard do produtor Comte Armand (www.premiumwines.com.br). Dois belos vinhos em interpretações distintas e surpreendentes.

Côte de Beaune: Brancos importantes

No prolongamento de Volnay começa o terroir de Meursault. Aqui começamos a falar de brancos sérios, coisa de gente grande. Os importantes afloramentos de calcário começam a dominar o marga, sem a pedregosidade mais evidente de Volnay. Meursault não consegue ter toda a sutileza de Puligny, comuna que falaremos na sequência, mas sua densidade, sua textura e sua riqueza de aromas, impressionam à primeira vista. Ainda aqui, não há um Grand Cru, mas Premiers de grande destaque sobretudo, Les Perrières. Produtores como Roulot, Michel Bouzerau e J-M Boillot são altamente confiáveis. Já produtores do quilate de Coche-Dury e Comtes Lafon são irrepreensíveis e de preços proibitivos. Jean-Marc Boillot  e Michel Bouzerau são trazido pela importadora Cellar (www.cellar-af.com.br). Outro belo produtor de Meursault é Patrick Javillier trazido pela Premium Wines (www.premiumwines.com.br).

Lafon: a perfeição em Meursault

Próximo post: Se há o paraíso de vinhos brancos na terra, qualquer palavra com o sufixo Montrachet é sua porta de entrada.


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