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Clos de Tart: Um Terroir de Séculos

21 de Junho de 2016

Grande noite entre amigos num jantar no restaurante Emiliano (Hotel). Lugar tranquilo, elegante, e serviço eficiente. Dois grandes vinhos nos esperavam, um branco italiano de Abruzzo e um tinto enigmático da Côte de Nuits, comentados abaixo.

clos de tart

a estrela da noite

De saída, não podíamos baixar o nível, um clássico champagne Deutz Extra-Brut para acariciar as papilas, iniciando os trabalhos. Preço honestíssimo na carta do restaurante, 315 reais. Acompanhou muito bem o couvert e uma cortesia da casa, um bolinho crocante recheado com carne de pato. A bela acidez do champagne combateu bem a deliciosa gordura da fritura. Uma harmonização clássica.

deutz extra brut

A precisão alemã em Champagne

bolinho de pato desfiado

mimo de entrada: fritura com pato desfiado

O branco à nossa espera é uma marco da vitivinicultura italiana, Azienda Valentini Trebbiano d´Abruzzo 2010. A uva Trebbiano normalmente não inspira grandes expectativas. Contudo, trata-se de algo especial. A vinícola é cuidadosa em seu plantio e condução da vinha, além de uma vinificação bem artesanal e sem malabarismos. As leveduras naturais permitem uma fermentação natural e sem pressa. O vinho matura em botti (toneis de grandes dimensões) inertes da Eslavônia.

valentini trebbiano

branco de extrema distinção

Este exemplar foi decantado por longas horas, chegando à mesa com aromas límpidos e sabores bem equilibrados. Notas cítricas e de frutas brancas estão bem presentes, sugerindo carambola. Nuances de especiarias e frutas secas também podem ser percebidas. Em boca, sua acidez é marcante, vislumbrando bons anos de guarda. Equilibrado e com final longo. Vinho de grande distinção e exótico.

Os pratos abaixo fizeram par com este branco, destacando-se as vieiras. A textura e o agridoce do prato levantaram o sabor do vinho, deixando um final bem harmonioso. Já a salada de polvo que parecia uma combinação certeira, pecou pelo excesso de maresia não combatida pelo vinho, embora o prato estivesse muito bem executado. Harmonização é isso: treino é treino, jogo é jogo.

vieiras uvas passas

vieiras frescas com molho de uvas passas e alcaparras

salada de polvo defumado

salada de polvo defumado com molho de limão siciliano

Agora o ponto alto do jantar, o enigmático Clos de Tart da comuna de Morey-St-Denis. Pessoalmente, coloco este tinto em pé de igualdade com Domaine Ponsot Vieilles Vignes (vinho sugerido no último campeonato mundial de sommeliers na Argentina, safra 1945), e o todo poderoso Romanée-Conti. Abaixo, seguem alguns detalhes da fera.

clos de tart 2007

um tinto secular

O mito Romanée-Conti é sempre reverenciado entre outras coisas por sua história milenar através dos séculos. Nesta trajetória, ele nunca esteve sozinho. Clos de Tart, tinto da comuna de Morey-St-Denis, trilhou caminho parecido desde o ano 1141 pelos monges cistercienses, melhor dizendo, freiras. Num vinhedo murado com pouco mais de sete hectares, as uvas são colhidas e vinificadas separadamente em seis parcelas com solos diferentes. A idade média das vinhas chega a 60 anos com algumas centenárias. O replantio paulatino das mesmas é feito com muito critério, pois trata-se de um patrimônio viticultural de grande valor. A opção de desengaçar as uvas ou não depende das condições de maturação das mesmas, conforme a característica  da safra. O vinho estagia em barricas novas pelo menos por dezoito meses. A adega do domaine possui condições naturais excelentes de armazenamento com temperaturas inalteradas em torno de 13ºC e umidade relativa do ar por volta de 75%. O estilo Clos de Tart costuma ser comparado entre a elegância de um Musigny e força de um Chambertin.

É o maior vinhedo Grand Cru individual da Borgonha, ou seja, somente um proprietário. Assim como Romanée-Conti, é um Monopole. Como as condições de safra variam bastante, falaremos do vinho provado do ano 2007. Embora seja um infanticídio, a safra 2007 é caracterizada pela precocidade, gerando vinhos mesmo na juventude, relativamente acessíveis. Os rendimentos neste ano foram de 27 hl/ha (hectolitros por hectare) e o estagio em barricas novas foi de dezoito meses.

Mostrou-se acessível, após horas de decantação. Sua cor é das mais intensas dos tintos da Côte de Nuits. Os aromas de rosas, especiarias e um toque de alcaçuz são de grande delicadeza. Na evolução, aromas terrosos, de fumo, e notas de charcuterie (embutidos), são mais presentes. Boca ampla, estrutura de taninos marcantes, equilíbrio perfeito, fazendo antever longos anos de guarda. Um tinto marcado pela  força, profundidade, sempre permeado por uma elegância impar. Aqui percebe-se a grandiosidade de um Borgonha.

codorna recheada cogumelos e foie gras

prato da noite à altura do vinho

A escolha do prato de acompanhamento foi unânime; uma codorna assada, recheada com cogumelos e foie gras, guarnecida com risoto de alecrim e molho do próprio assado. Um prato lembrando vagamente Festa de Babette (les cailles en sarcophage escoltada por Clos de Vougeot). Harmonização muito boa em termos de textura, refinamento e sabores sintonizados. A delicadeza do risoto sendo o alecrim uma erva marcante, foi muito feliz, além da complexidade do molho do assado. Enfim, o vinho sentiu-se valorizado.

contrate de chocolate

contraste de chocolate

interpretação de chocolates

interpretação de chocolates

Finalizando o jantar, duas sobremesas instigantes adoçaram maravilhosamente o paladar, conforme fotos acima. O contraste de chocolate marca pela ousadia em defrontar o doce do chocolate com o caramelo salgado. O sorvete de cumaru (semente de uma árvore da Amazônia) lembra um pouco o sabor da baunilha. Já a interpretação de chocolates é um deleite ao paladar, mostrando várias texturas, técnicas e doçuras crescentes em sabor.

petits fours emiliano

Emiliano: petits fours

partagas salomones

Salomones: o tabernáculo do Havana

Por fim, um mimo de saída. Belos e saborosos petits fours que valem por uma sobremesa, acompanhando o café. A noitada continuou com Havanas de gente grande, Partagas Salomones. Puros sublimando a habitual força e potência da marca. Sabores marcantes e muita conversa …

Champagne e Bourgogne à mesa

7 de Janeiro de 2016

Champagne talvez seja o vinho mais gastronômico por seu ecletismo. Tem boa acidez, álcool comedido, e não se sobrepõe aos pratos, mantendo revigorado o paladar. Os dois senões são: carnes vermelhas e comidas rústicas, pesadas, já que trata-se de um vinho com certa aristocracia. Num almoço oferecido por um grande amigo, pudemos comprovar mais uma vez esta versatilidade.

jacquesson

Cuvées numeradas

É bem verdade, que tratava-se de um champagne acima da média, o espetacular Jacquesson Extra-Brut Cuvée 738. Esta cuvée baseia-se no ano de 2010, sendo que 33% do blend são vinhos de reserva. Na sua composição, temos 61% de Chardonnay, fornecendo elegância, 39% entre Pinot Noir e Pinot Meunier, proporcionando estrutura ao conjunto. O resultado é um champagne de grande frescor, cremoso, profundo e muito persistente. Acompanhou muito bem as entradas de funghi e patinhas de caranguejo com molho tártaro. E se quiséssemos, podia ir mais longe à mesa.

clos des lambrays

vinho com muita história

O vinho acima apesar de muita tradição, só foi promovido a Grand Cru em 1981. Sua história começa no século quatorze onde monges beneditinos cultivavam vinhas numa parcela chamada “Cloux des Lambrey”. Durante a revolução francesa as terras foram divididas em 74 proprietários. Com o tempo, a propriedade volta a um domínio familiar sendo que em 1996, o casal Günter e Ruth Freund assume o domaine com muitos investimentos no vinhedo.

Clos des Lambrays é constituído de 8,7 hectares, propriedade grande para padrões borgonheses. Suas vinhas têm em média 40 anos com alta densidade de 10 a 12 mil pés/hectare e rendimento de 30 hectolitros/hectare. Nessas dimensões, o terroir é dividido em três partes: meix rentier, les larrets e les bouchots. O primeiro são terras mais argilosas e pesadas. O segundo tem excelente exposição solar e drenagem, enquanto que o terceiro é bem protegido dos ventos do norte. Neste contexto, combina-se finesse, elegância, com estrutura e corpo.

A produção é grande para um Grand Cru, entre 30 e 40 mil garrafas por safra. A vinificação envolve uma boa extração com trabalho constante de pigeage. O amadurecimento dá-se em barricas de carvalho por dezoito meses, sendo metade novas.

codorna assada

Codorna: um clássico para borgonhas

Babette já mostrava o caminho: codorna com Clos de Vougeot. Quem sou eu para contraria-la! Esta da foto acima preparada no forno, acompanhada de arroz puxado no próprio molho é um clássico do restaurante Tatini, fundado em 1954. Continua em plena atividade como os tradicionais “concorrentes” La Casserole e Freddy. Seu atendimento com os réchauds pelo salão é um espetáculo à parte. Fruto do trabalho sem tréguas de Mário Tatini, patriarca e alma deste restaurante, moldou uma geração de garçons à sua maneira, ampliando muito seus conhecimentos à mesa e não apenas, em servir e retirar pratos. Seu filho Frabizio, dá prosseguimento à saga com conhecimento e elegância.

Voltando ao tinto, a harmonização comprovou-se muito boa. A delicadeza da codorna com ervas casou perfeitamente com a elegância do vinho. Seus aromas terciários, além das especiarias, alcaçuz e sous-bois foram de encontro aos sabores do prato. Tinto de bom corpo, taninos macios e final persistente. Bom momento para ser apreciado.

Outros tintos do domaine são um Premier Cru Les Loups e um comunal Morey-St-Denis, perfazendo em média quinze mil garrafas por safra. Evidentemente, são cuvées que não estão à altura de um Grand Cru. Além disso, o domaine elabora um Fine des Lambrays no mesmo processo feito em Cognac. “Fine” é o brandy mais sofisticado da Borgonha. Envelhece por sete anos em carvalho da floresta de Tronçais. É engarrafado sem redução de álcool com graduação de 49° graus. São pequenas partidas de vinho, próprias para destilação. Os vinhos são trazidos pela importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br).

Enfim, quando Champagne e Bourgogne estão à mesa, a companhia e a comida devem estar à altura. E estavam …

Menu Harmonizado: A Festa de Babette

16 de Janeiro de 2011

Apesar de muitos filmes citarem a enogastronomia ou até mesmo, protagonizar o tema inserido num contexto adequado, A Festa de Babette de 1987 continua sendo ¨hors concours¨. Sem querer entrar na parte emocional do filme, podemos perceber claramente, que ela acaba influenciando na própria sequência do menu.

Abaixo, num breve trecho do filme, vemos alguns detalhes da preparação dos pratos e vinhos.

http://www.youtube.com/watch?v=xvHYGv-Ul18&feature=player_detailpage

Sequência do jantar:

  • Soupe de Tortue Géante (Sopa de Tartaruga Gigante)
  • Blinis Demidoff (creme azedo e caviar, se possível Beluga)
  • Cailles en Sarcophage (codornas com trufas e foie gras)
  • Salade de Crudités (salada de folhas e legumes)
  • Fromages (queijos curados variados)
  • Baba au Rhum (bolo embebido em calda de rum)
  • Fruits Frais (frutas frescas variadas)

O início do jantar foi brilhante. A escolha da sopa abrindo o evento, mostra toda a sensibilidade de Babette no intuito de quebrar a tensão dos convivas, que naturalmente estavam acostumados a um caldo reconfortante nas frias noites da Dinamarca. Isso minou a expectativa de algo suntuoso e ofensivo aos rígidos princípios religiosos daquela comunidade de idade avançada. A partir de então, ficou muito menos impactante servir caviar e champagne, com as pessoas embevecidas com toda a riqueza e exotismo da sopa. O Xérès (grafia francesa para Jerez) Amontillado acompanhando o prato, foi outro fator de relaxamento, já que trata-se de um vinho fortificado, sabidamente consumido naquela época.

Continuando a sequência, vejam a sábia alternância entre os pratos, mesclando frescor e delicadeza com maciez e profundidade de sabor. O Blinis entre a sopa vigorosa e as cordornas ricas em sabor tem a importantíssima função de revigorar o paladar, mantendo o mesmo entusiasmo da primeira colherada.

A salada em seguida, faz uma bela pausa antes daqueles queijos intensos de sabor. Já a sobremesa, faz a ligação perfeitas para as frutas frescas, fornecendo um sabor doce contrastante e menos intenso que os queijos. Finalizando o jantar fora da mesa de refeição, foi servido café moído na hora e um destilado praticamente esquecido nos dias de hoje, Marc de Champagne. É uma espécie de grapa com o bagaço das uvas de Champagne. Detalhe: Babette escolheu uma reserva especial extremamente envelhecida.

Quanto aos dois grandes vinhos safrados, Veuve Clicquot gozava de grande prestígio na época, sendo o champagne preferido do pintor Claude Monet. Já o Grand Cru Clos de Vougeot tinha alta reputação e por conseguinte era muito mais confiável frente à incostância da atualidade. As safras 1860 e 1845, respectivamente, apresentavam aromas terciários, de acordo com a data do banquete nos anos 70 daquele século. Principalmente o Clos de Vougeot, por vonta de seus trinta anos, deve ter casado perfeitamente com a textura das codornas, a riqueza do molho e os soberbos sabores do foie gras e trufas.

Realmente, uma lição de enogastronomia! Que os céus a tenha em bom lugar!


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