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Bordaleses que Animam a Alma

25 de Agosto de 2018

Num agradável almoço no recém-inaugurado restaurante de carnes Ânima Mea (alma minha em latim), mesmos proprietários do Cór em Pinheiros, sob a supervisão do assador Renzo Garibaldi, alguns bordaleses desfilaram à mesa.

harmonização de frescor

Na espera dos confrades, um grande branco da América do Sul, White Stones da bodega Catena (foto acima). Um dos topos de gama da vinícola, este branco é elaborado com Chardonnay em elevada altitude (1500 metros) na região mendocina de Tupungato num vinhedo de apenas 2,5 hectares. Um branco de grande mineralidade e frescor num equilíbrio perfeito com modestos 13° de álcool. Muito harmônico e persistente, a madeira é imperceptível num vinho de grande distinção, apesar de fermentado e amadurecido em barricas. Sua acidez chega a quase 9 gramas por litro, índice de vinho-base em Champagne. A combinação com o prato ao lado; mexerica, molho de pepino e burrata, foi de grande frescor e leveza.

img_4998200 pontos na mesa

Após as preliminares, o ponto alto do almoço, carnes e tintos bordaleses. Comentar estes dois tintos é enaltecer a safra de 82 em terroirs consagrados como Saint-Julien e Pauillac. O Pichon Lalande 82 talvez seja o melhor Pichon já elaborado, tal a concentração e elegância deste vinho. Costuma bater às cegas o Mouton de mesma safra que já é um monumento. Infelizamente, esta garrafa em questão não é das mais gloriosas. Um dos indícios, era o nível do líquido um pouco abaixo do esperado, quase no ombro da garrafa. Mesmo assim, ele foi se abrindo aos poucos com alguma acidez volátil no início da degustação. Seus toques de tabaco e chocolates eram notáveis num vinho com o corpo e presença de um grande Pauillac.

Já o Gruaud Larose estava perfeito. Depois da mítica safra de 1961 para este tinto, este 82 é seu digno sucessor. Um Bordeaux envelhecido de livro com o cassis, tabaco, ervas finas, e um fundo mineral, tudo muito elegante. Equilíbrio perfeito, taninos de seda, e longa persistência aromática. Desta vez, o Pichon Lalande teve que admitir a derrota. Contudo, confrontando garrafas ideais, este Pauillac acaba mostrando sua força e nobreza.

riqueza de sabores

O Chef Geovane Godoy caprichou neste dois pratos, ricos em sabor. Esse arroz de pato (foto acima) numa versão espanhola, é feito com arroz de Valência à moda de uma paella com os sabores do pato e emulsão de chorizo, dando um toque defumado. A textura é sensacional. Já a metade maior do T-Bone, um dry-aged de 45 dias, é a especialidade da Casa. Este corte que é o contrafilé, combinou muito bem com os tintos, pois tem sabor e suculência para os taninos bordaleses. A concentração de sabores de um dry-aged e a ausência de sangue, embora o corte seja mal passado, deixa o visual e o paladar diferenciados, numa experiência que vale a pena. Você se satisfaz com quantidades menores, tal a riqueza de sabores.

img_5001esta assinatura impõe respeito!

Se você quiser provar um Cult Wine de Napa Valley de alma bordalesa sem pagar um fortuna, Dominus é a única escolha. Não que seja barato, mas comparado com seus concorrentes, os preços são bem atraentes. Prova disso, foi a naturalidade que ele encarou a degustação no meio dos dois bordaleses acima. Sem intimidação, embora ainda muito jovem, exibiu sua classe, presença e equilíbrio notáveis. Seus 98 pontos traduzem bem a equivalência com seus concorrentes franceses. As safras 91 e 94 são notáveis, provando a longevidade deste tinto. Colocado às cegas no meio de bordaleses, pode fazer um estrago e rever conceitos.

img_4999este rótulo é muito chique!

Como ainda estávamos com sede, deu tempo para esta criança acima, Clos de Tart 2001, o maior entre os Grands Crus de Morey-St-Denis. Um tinto de história milenar e um dos mais enigmáticos  da Borgonha. Embora decantado e numa paciente espera, ele não se abriu totalmente. Tanto na cor como nos aromas, ainda muito jovem. Muito aroma primário com toques florais e de cerejas escuras, seu lado terciário ainda muito tímido. E olha que 2001 não é daquelas safras poderosas que precisam de longo envelhecimento. Mas os mitos são assim, temperamentais e surpreendentes. Quem tiver paciência, pode ser inesquecível.

Terminado o almoço, mal sabia que o dia estava apenas começando. Convocado por nosso Maestro, tive que partir para o sacrifício. Alguns Puros exclusivos e algumas garrafas especiais como a da foto abaixo, o monumental Nacional 1963. Se não bastasse este ano mítico, um Quinta do Noval Nacional já é um ponto fora da curva.

O termo “Nacional” refere-se a parreiras pré-filoxera que têm rendimentos baixíssimos e produção inconstante. Este Porto em questão com mais de 50 anos exibe uma juventude extraordinária, confirmando sua imortalidade. É muito delicado em boca, fugindo daqueles Portos muito densos. Contudo tem uma elegância, uma harmonia, e profundidade, que marcam definitivamente a memória. Um verdadeiro Borgonha no mundo dos Portos. É mais ou menos o que o Soldera representa entre os Brunellos. Experiência marcante!

img_5007sobremesa inesperada!

A tarde caindo e os Puros surgindo. Numa seleção impecável da Casa suíça Gérard Père et Fils em caixas deslumbrantes em laca, Romeu & Julieta, H. Upamnn e Partagas, se apresentaram em vários sabores e bitolas. As seleções Reserva e Gran Reserva, partem de tabacos envelhecidos com uma complexidade aromática extra.

Puros com assinatura Gérard Pére et Fils

verdadeiras obras de arte

Como a noite é uma criança, que tal um Cognac para uma prova às cegas. Richard e Louis XIII é o que tem pra hoje (foto abaixo). Marcas topo de gama das Casas Hennessy e Rémy Martin, respectivamente, são verdadeiros objetos de desejo, tal sua exclusividade e singularidade de sabores. São verdadeiras joias que partem de uma seleção rigorosa de eaux-de-vie e longas décadas de envelhecimento em toneis de carvalho.

Fizemos uma prova às cegas com tira-teima para eleger Louis XIII como melhor, mas a escolha é difícil e não conclusiva, tal o nível de complexidade destas bebidas. Na dúvida, fique com os dois. Aqui você entende exatamente o significado da expressão “Spirits”.

img_5008garrafas suntuosas!

Grappe de alto nível!

O sonho ainda não acabou. Agora entramos na especialidade do Maestro, o mundo das Grappe. Na verdade este da esquerda, é um destilado de vinho, o equivalente ao Cognac, segundo o conceituado produtor Jacopo Poli. Trata -se de um vinho Trebbiano di Soave de alta acidez que por sua vez é destilado e posteriormente afinado em madeira da Eslavônia, Limousin (França) e Allier (França). Sua qualidade é tal que bateu às cegas o Marc de Bourgogne Domaine Dujac de produção exclusiva. Deve ser servida entre 18 e 20°C em pequenas taças tipo tulipa.

Agora sim, uma Grappa in pureza do excelente produtor Nonino. É elaborado com uma uva rara do Friuli chamada Picolit, a qual faz um excelente vinho de sobremesa. Atinge 50º de álcool natural, graduação ideal para expressar as grandes Grappe. Aroma delicado lembrando Poire. Em boca é sutil e de grande profundidade. Deve ser servida segundo o produtor, a 12°C em pequenas taças tipo tulipa. 

Bem, já é quase meia-noite e carruagem vai virar abóbora. Agradecimentos aos confrades pelo belo almoço que já ficou distante, e em especial ao Maestro de grandes conversas e generosidade sem fim. Esperando novos encontros com muitos brindes. Saúde a todos!

Hits da Borgonha

16 de Abril de 2018

Vez por outra, é bom dar um passeio pela Borgonha buscando comunas distintas em épocas onde o glamour do vinho tinha um sentido mais romântico e filosófico do que os atuais dias onde o marketing e a especulação imperam num dos terroirs mais fascinantes da França. Foi com esses propósito, que um grupo de amigos reuniu-se na Trattoria Fasano num belo almoço outonal. 

Old School

Diferentemente de champagne ou vinho branco, iniciamos os trabalhos com um aperitivo distinto, um Charmes-Chambertin 1964 da velha guarda da Borgonha. Notem no rótulo abaixo, que não há menção Grand Cru. Nesta época, Charmes-Chambertin como Lieu-Dit (território consagrado) era mais relevante para os conhecedores. É um vinho muito mais de alma que de corpo. Seus aromas etéreos com notas de chá, manteiga de cacau e sous-bois, além das sutilezas em boca, nos leva a outros tempos …

IMG_4478.jpgsafra 1964: sabor nostálgico

Descendo mais um pouquinho no tempo, chegamos a mítica safra de 1959, minha safra também, para nos deliciarmos com toda a energia deste Pommard Village sem identificação do vinhedo. Aparentemente sem pedigree, o vinho é de uma força extraordinária, justificando sua fama de Barolo da Borgonha. Com seus quase 60 anos, tem sua rusticidade domada pelo tempo com aromas terciários fantásticos. Sem sinais de declínio. 

1959, uma das safras históricas

Deixando de lado a nostalgia, vamos para 1997 na comuna de Volnay, sabidamente de tintos delicados, exceto por este produtor, Domaine Marquis d´Angerville. Sobretudo em seu grande tinto, o monopole Clos des Ducs do século XVI de pouco mais de dois hectares, mostra extrema virilidade, taninos bastante firmes, aromas recatados, dando indícios de sua longa guarda. Este provado da safra 1997, mostra-se ainda muito jovem, necessitando de decantação. Seus aromas um tanto tímidos mostra um lado sanguíneo, notas de alcatrão, e frutas escuras. Sua incrível acidez e estrutura tânica o permitirão vencer décadas de lenta polimerização, liberando seu bouquet.

IMG_4482.jpgum tinto para envelhecer

O outro grande nome da comuna de Volnay é Domaine Lafarge, de estilo mais feminino e elegante, mas igualmente complexo e sedutor. Seu monopole Clos des Chenes 1999 provado há anos, ainda está na memória …

DRC Romanée-St-Vivant em dois tempos

Entrando no terroir sagrado de Vosne-Romanée, um dos meus DRCs preferidos, Romanée-St-Vivant. É sempre um vinho vibrante, gracioso, sem muita timidez. A safra 1995 da foto abaixo, mostra já um vinho delicioso em sua maioridade, mas com muita vida pela frente. Taninos firmes e polidos, aromas de cerejas negras, especiarias, toques balsâmicos, e uma boca harmoniosa. Aqui não há vinhos comuns …

diferentes momentos de evolução

Agora para tudo, sua majestade Romanée-St-Vivant DRC 1978 entra em cena. Um dos cinco melhores Borgonhas que já provei numa safra mítica da região. Esta garrafa estava incrivelmente jovem comparada a outras degustadas. Um vinho praticamente imortal, com uma energia e vivacidade ímpares. Suas notas de cerejas negras, rosas, especiarias delicadas, toques balsâmicos, são de um riqueza e harmonia absolutas. Impossível não ser seduzido por todo este encantamento. Aquela garrafa da ilha deserta …

IMG_4487.jpgum bebê engatinhando

Ainda em Vosne-Romanée, um pequeno infanticídio com a criança acima, um Echezeaux Liger-Belair da ótima safra 2015. Um vinho elegante, muito bem equilibrado e com ótima riqueza de fruta. Vide, foto acima.

flagey echezeaux

uma comuna que se confunde com Vosne-Romanée

O mapa acima tenta ilustrar a complexidade deste terroir chamado Echezeaux com área em torno de 37 hectares. É um pouco menor do que Clos de Vougeot, Grand Cru com 50 hectares de vinhas. Nos dois casos, cerca de 80 produtores disputam espaço e imprimem por conseguinte seu estilo de vinho. Portanto, uma comuna com vinhos bastante heterogêneos. 

A rigor, os Grands Crus Echezeaux e Grands-Echezeaux pertencem à comuna de Flagey-Echezeaux conforme mapa acima, e frequentemente confundida e englobada na badalada comuna de Vosne-Romanée. Em termos de terroir, existem 11 diferentes Climats em torno de Grands-Echezeaux formando o mosaico chamado Echezeaux. Em linhas gerais, os climats adjacentes a Grands-Echezeaux de solo mais argiloso, mostram vinhos mais robustos e concentrados. Não é por acaso, que as vinhas DRC para esta apelação estão concentradas nesta porção de terreno, sobretudo no climat Les Poulaillères. Já Liger-Belair, objeto de nosso tinto degustado, possui vinhas nos climats Les Crouts e Les Champs Traversins, de solo mais arenoso e menos argiloso. Isso proporciona vinhos mais leves e elegantes. Seu grande diferencial, são vinhas muito antigas, em torno de 65 anos. Daí se explica a delicadeza de seus vinhos.

IMG_4484.jpgfettuccini com cogumelos e molho rôti

Um dos pratos de grande sucesso do almoço na Trattoria Fasano foi o Fettuccini com cogumelos e molho rôti. A textura da massa estava perfeita para a densidade dos borgonhas, além dos aromas e sabores do prato instigarem o aspecto de evolução desses vinhos baseados em sous-bois e algo terroso.

IMG_4490.jpgum vinho enigmático

Por fim, um dos tintos mais enigmáticos da Côte de Nuits, Clos de Tart, monopole histórico da comuna de Morey-St-Denis. Seu rótulo sóbrio traz o peso de sua história e tradição. Um vinho sempre muito difícil de se mostrar, pedindo tempo ao tempo, mas de uma riqueza impressionante, incitando o degustador a tentar revelar seus segredos. O vinho é muito equilibrado, muito estruturado em todos seus componentes, mas ainda a ser lapidado. Esse seu mistério e relutância em não se revelar por completo me remete de alguma forma ao mítico Romanée-Conti. Sempre um privilégio prova-lo. 

bolivarianos em ação

Finalizando a conversa, nada como uma sessão espiritual, Puros e Cognacs. A seleção ficou a cargo da Casa Bolivar, uma das mais tradicionais marcas cubanas conhecida por sua destacada fortaleza em aromas e sabores. No caso, um duplo figurado lembrando um concorrente à altura, Partagas Salomones. Além disso, uma bitola exclusiva de nome Geniales com ring 54 de ótimo fluxo completou o deleite.

IMG_4493.jpgencontro espiritual

Essa garrafinha dentilhada de  Baccarat quando entra em cena, não há espaço para a concorrência. Cognac Louis XIII, a excelência desta apelação francesa, primando pelo extremo cuidado na seleção e envelhecimento dos melhores cognacs da Maison Remy Martin. Personalidade, força, em perfeita harmonia com a elegância e delicadeza de um verdadeiro néctar.

O que mais dizer, senão agradecer aos amigos pela companhia, bom papo, e alto astral. Que Bacco nos proteja em busca de novas orgias. Abraço a todos!

 

 

Pratos e Vinhos: Parte II

8 de Janeiro de 2017

Continuando com as harmonizações, agora temos um pernil de porco assado, regado com o próprio molho. Para escolta-lo, dois tintos de características distintas, mas de certa evolução, com aromas terciários. O sabor do assado, normalmente pede vinhos mais evoluídos, com taninos mais resolvidos.

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pernil de porco assado

O primeiro tinto, foto abaixo, trata-se do segundo vinho de um dos melhores produtores da Bourgogne, o aristocrático Clos de Tart, o maior monopólio da apelação Morey-St-Denis com mais de sete hectares de vinhas, o que na Borgonha é considerado um latifúndio. Não gosto de usar esse raciocínio, mas o segundo vinho, prática comum entre os bordaleses, é a rejeição do Grand Vin. E isso fica claro quando se toma o La Forge de Tart 2004. Apesar de inteiro, embora já evoluído, a textura de taninos difere muito do astro maior. Entretanto, com o pernil, o vinho se comportou bem, mostrando uma bela acidez, aquela certa aspereza tânica foi resolvida em contato com o prato, e os aromas terrosos e de sous-bois casaram bem com o pernil.

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Clos de Tart: segundo vinho

O outro vinho, foto abaixo, trata-se de um Reserva do Douro, numa quinta pertencente à Dona Ferreirinha, figura mítica na região, com vinhas muito antigas de castas típicas plantadas todas juntas, costume da época. Com passagem adequada por madeira, este tinto tinha mais corpo que o anterior, fato perfeitamente previsível. Tinha também um pouco mais de fruta, já que era menos evoluído. Muito equilibrado, agradável, e com vida pela frente. Na harmonização, dominou um pouco a cena devido exatamente à esta juventude parcial. O vinho de fato encontra-se num período de transição, ganhando aromas terciários, tão propícios aos sabores do assado. De todo modo, valeu a experiência.

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quinta e vinhas antigas

Hora da sobremesa e eis que surge esse belo tiramisù de produção caseira. Bastante mascarponizado, de textura bem cremosa, e toques de café bem amenos. É sempre bom termos referência dos verdadeiros Tiramisùs, pois o que encontramos por aí nos restaurantes em geral, são altamente suspeitos. Trata-se de um pavê na maioria das vezes, bem longe do que realmente é esta sobremesa maravilhosa, a qual tem origem provavelmente no Veneto.

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cremosidade e amargor deliciosos

Para acompanha-lo, um vinho de sobremesa também da região do Veneto. O clássico Recioto di Soave do impecável produtor Pieropan, safra 2007. A cuvée Le Colombare é feita com as típicas uvas de nome Garganega que faz os melhores vinhos brancos da região. Essas uvas são colhidas maduras e em seguida sofrem o processo de appassimento, ou seja, são postas para secarem em esteiras de bambu por alguns meses, perdendo cerca de 70% de seu peso original. Portanto, trata-se de rendimentos muito baixos. O resultado é um vinho concentrado, muito bem balanceado no quesito açúcar/acidez, e de uma grande persistência aromática. Para complementar sua complexidade, o vinho passa cerca de dois anos em barris de carvalho de 2500 litros.

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uvas 100% Garganega

A combinação foi inusitada e muito boa como primeira vez. Os aromas de mel, resina, especiarias e pequenas frutas cítricas, combinaram bem com o tiramisù, já que o sabor de café não era tão pronunciado. O ponto alto foi a textura de ambos, a densidade do vinho com a cremosidade do doce. A delicadeza de sabores do prato permitiu que o vinho expressasse toda sua exuberância. Outro Recioto clássico para o Tiramisù é o della Valpolicella, a versão doce do grande tinto do Veneto, Amarone dela Valpolicella, principalmente quando a sobremesa é mais carregado no café.

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do couro sai a correia

Outra sobremesa leve e maravilhosa é um bela torta de pera. Sabores delicados, açúcar sutil e muito adequada ao verão, sobretudo para aqueles que não abrem mão de um docinho para finalizar a refeição. Vinhos de sobremesa do Loire são muito bem-vindos nesta hora, mas se você quer algo inusitado e apenas um pouco de bebida para acompanha-la, uma dose de eau-de-vie Poire William´s é perfeita nesta hora. Este pequeno produtor Hohmann é da Alsácia, região francesa famosa por eaux-de-vies de frutas como pera, framboesa, ameixas. São necessários dez quilos de frutas para obter uma garrafa de 700 ml do destilado em todo o processo. Servir um cálice bem gelado.

A Poire está para a pera, assim como o Calvados está para a maçã. A Poire pode ser elaborado na Alsácia (França), Floresta Negra (Alemanha) e em regiões limítrofes da Suíça. Já o Calvados é uma apelação francesa da Normandia.

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Barros: tradição em Colheitas

Ter amigos no mundo do vinho é constantemente viver momentos de enorme generosidade. O Porto acima da tradicional Casa Portuguesa Barros, especializada no estilo Colheita, tem esta preciosidade (foto acima), oferecida por um grande amigo, Ricardo Tannus. É uma referência à fundação da vinícola em 1913 com um lote exclusivo envelhecido em pipas de carvalho, e engarrafado após cem anos, em 2013.

Os aromas terciários de um Porto ultra envelhecido como este são encantadores. Todo o rol de frutas secas e frutas passificadas como figos, tâmaras, além das especiarias, caramelo, e notas balsâmicas, estavam presentes e em harmonia. Só mesmo o tempo para produzir esta maravilha.

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vai um Cohiba aí?

Como se não bastasse por si só este raro Porto, uma caixa de Cohiba foi me apresentada, fazendo o par perfeito para este néctar. Como tinha tempo de sobra, saquei um Cohiba Behike ring 56 da caixa e foi só alegria. Com um por do sol maravilhoso, o cenário ficou perfeito.

E assim, segue a vida …

Bordeaux e outros grandes 85 – Parte I

22 de Dezembro de 2016

A ideia de reunir grandes tintos da safra 1985 surgiu em muitas comparações quando foram confrontados lado a lado alguns belos bordaleses safras 82 e 85 em degustações verticais memoráveis ao longo do ano. É claro que os míticos 1982 têm seu lugar cativo, pois trata-se de uma das maiores safras do século passado. Entretanto, embora os 85 não tendo a mesma potência dos gloriosos 82, guardam um equilíbrio fantástico, são sedutores, e continuam em grande forma.

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as joias da safra 1985

Nesta última degustação do ano, resolvemos perfila-los numa seleção do que há de melhor na elite dos Bordeaux. Mais que isso, foram pinçados outros grandes 85 de regiões diversas, pois esta safra brilhou em várias denominações de origem prestigiadas. Assim, participaram Bourgogne, Piemonte, Toscana e Douro.

Divididos em grupos, vamos a seguir lembra-los, já começando com um trio arrasador. Num flight sem comparativos entre si, valeu a individualidade e a tipicidade confirmada por cada um. Afinal, trata-se de grandes produtores, referências em suas respectivas denominações de origem.

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italianos abraçando um português

Difícil começar por um, mas vamos lá. Sassicaia 85 é algo diferente já entre os demais Sassicaias. O rei dos supertoscanos nesta safra tornou-se imortal. Encorpado, equilíbrio fantástico, aromas que vão do chocolate, tabaco, até uma profusão de ervas como tomilho e sálvia, marcando a tipicidade italiana. Seu concorrente piemontês, Aldo Conterno Granbussia, numa elegância impar. Um Barolo de grande refinamento, mostrando que a Nebbiolo pode moldar vinhos tão elegantes quanto os mais finos borgonhas. Delicadeza e equilíbrio fantásticos. Barca Velha, a obra-prima de Fernando Nicolau de Almeida, colocando o Douro no mapa-múndi dos grandes vinhos. Cheio de vida, taninos presentes e muito finos. Os toques balsâmicos, ervas, e frutas em compota, permearam seus aromas. Ainda com bons anos pela frente.

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Guigal iniciando os bordaleses

Como tínhamos somente dois tintos do Rhône, resolvemos juntá-los a um par de bordaleses que respeitassem sua elegância. Os La-La-La, como são conhecidas as joias do produtor Guigal, trata-se de um triunvirato do mais alto nível da apelação Côte-Rôtie, norte do Rhône. La Landonne, mostra toda a elegância da Syrah neste solo granítico e escarpado. Muito sedoso, aromas balsâmicos com toques de incenso. Extremamente longo e harmonioso. La Turque, o macho da dupla, é cheio de virilidade, taninos mais presentes, uma certa austeridade, mas igualmente delicioso. Difícil pontua-los e compara-los em preferencia. Com toda essa delicadeza, entra em cena o Borgonha de Pauillac, o majestoso Lafite. Notas balsâmicas, especiarias delicadas, ervas finas, e o toque de tabaco característico da comuna. Bela evolução, mas com muita vida pela frente. Finalizando, o exclusivíssimo Le Pin, Pomerol de alto coturno. Mais denso que os demais, porém mantendo a suavidade do flight. Os toques de ameixa escura, chocolate, e um certo terroso, marcam seus aromas. Persistente e em plena forma.

Em meio aos flights, vários pratos preparados pelo assador Renzo Garibaldi, especialista em carnes dry aged, longamente maturadas, como da foto abaixo. 

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maturação de um ano

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Clos de Tart ladeado por DRC

Chegando ao terceiro flight, temos um “intruso” no meio dos DRCs. Não é fácil colocar um vinho nesta situação, sem humilha-lo, pois a comparação é cruel. Contudo, Clos de Tart se portou altivo, respeitando sua vizinhança, mas impondo-se como um dos maiores entre os tintos da Côte de Nuits. De história tão antiga quanto o ilustre Romanée-Conti, Clos de Tart é o maior monopólio individual entre os Grands Crus da Borgonha. Extremamente longevo, nesta safra já se mostra acessível com seus lindos toques de cerejas escuras, violetas, especiarias e um mineral impressionante. O primeiro DRC, Romanée-St-Vivant, estava gracioso com seus toques florais, ervas, especiarias, muito macio e resolvido em boca. Safra prazerosa e num ótimo momento para ser apreciado. Por fim, a estrela do flight, o suntuoso La Tâche. Que imponência, que estrutura, que equilíbrio! O que é isso? Hugh Johnson já disse: “um dos maiores vinhedos sobre a Terra”.

Próximo artigo, os grandes Bordeaux, razão maior desta degustação, e outras preciosidades after dinner. Aguardem!

Tintos da Borgonha: Top Ten

23 de Junho de 2016

Tempos atrás fiz um ranking pessoal dos melhores tintos de Bordeaux provados ao longo de mais de 20 anos. Agora, chegou a vez dos tintos da Borgonha. É sempre uma escolha difícil, até porque a memória nos trai. Em todo caso, segue abaixo alguns vinhos com a ressalva ao longo do tempo de serem modificados. De qualquer modo, são vinhos especiais, e que dificilmente irão decepcionar aqueles que experimentarem. É bom frisar também, que não sou um especialista na matéria, mas alguém já disse: o gosto é soberano!

la tache 1990

Hug Johnson: Um dos melhores vinhedos sobre a Terra

A ordem da lista não significa prioridades ou escala de pontuação. Evidentemente, são vinhos sob meu critério, acima de 95 pontos, ou seja, obras de arte.

  • DRC Romanée-Conti 1985

vinho difícil que precisa de tempo. acho que com seus mais de trinta aninhos mostra suas verdadeiras virtudes.

  • DRC La Tâche 1990

normalmente, agrada mais que o mito acima na maioria das vezes.

  • DRC Romanée-St-Vivant 1978

um vinho de sonhos. É o meu preferido do Domaine e nesta safra, extrapola as expectativas.

  • Henri Jayer Cros Parantoux 1988

aqui é um homenagem ao monstro sagrado da Borgonha, Henri Jayer. Poderia ser outra safra ou qualquer um de seus tintos. A delicadeza e longevidade desses vinhos não tem descrição a meu ver.

  • Clos de Tart

Novamente, independe da safra. particularmente, as safras 88 e 96 são magnificas. Um dos poucos da Borgonha capazes de encarar o mito (Romanée-Conti).

  • Domaine Jacques-Frédéric Mugnier Chambolle-Musigny Premier Cru Les Amoureuses

Independente da safra, mas com este produtor. você não completará a Borgonha sem ter provado esta obra-prima. A linha tênue que separa o encantamento da mediocridade, só Mugnier chegou mais perto.

  • Domaine Ponsot

Independente de safra, seus Grands Crus Clos St Denis e Clos de La Roche, todos vinhas velhas, são de uma profundidade impar. O silencio depois da prova é inevitável.

  • Domaine Rousseau

Seus Chambertins são espetaculares. Difícil escolher um. Até seu Premier Clos St-Jacques é inesquecível.

  • Domaine Méo-Camuzet

Seus Grands Crus Richebourg e Clos de Vougeot são raros, caros e divinos. A essência de Vosne-Romanée.

  • Domaines Michel Lafarge e/ou Marquis D´Angerville

Uma homenagem aos tintos da Côte de Beaune com dois domaines espetaculares. Não são Grands Crus, mas seus Volnay topo de gama são de uma delicadeza impar. Lafarge, mais feminino. D´Angerville, mais viril. Premiers Crus como Clos des Chênes, Chateau des Ducs e Clos des Ducs, são sensacionais e podem envelhecer dignamente.

clos te tart 2007

Terroir de séculos

Reparem que com exceção do último vinho, todos os demais são da Côte de Nuits, berço espiritual da Côte d´Or e por conseguinte, de toda a Borgonha. Todos são Grands Crus distribuídos pelas famosas comunas de Vosne-Romanée, Chambolle-Musigny, Morey-St-Denis e Chambertin.

richebourg meo camuzet

exclusividade: menos de meio hectare

Além dos Premiers Crus da Côte de Beaune como última indicação, Les Amoureuses também inclui-se nesta classificação. Contudo, este tinto por si só, já é uma exceção.

henri jayer cros parantoux

o mito engarrafado

Há uma lacuna nesta classificação que precisa ser explicada. Os vinhos do Domaine Leroy. Infelizmente, os vinhos tintos do Domaine e não da Maison Leroy ainda não os provei. O branco Corton-Charlemagne é divino. Penso que os tintos devem seguir o mesmo caminho. Como disse, uma lista como essa jamais pode ser definitiva. A fila anda …

mugnier les amoureuses

a epítome da delicadeza

Todos esses vinhos são tintos de guarda que precisam pelo menos dez anos para se expressarem plenamente, alguns bem mais, especialmente Romanée-Conti, Clos de Tart e Domaine Ponsot.

Clos de Tart: Um Terroir de Séculos

21 de Junho de 2016

Grande noite entre amigos num jantar no restaurante Emiliano (Hotel). Lugar tranquilo, elegante, e serviço eficiente. Dois grandes vinhos nos esperavam, um branco italiano de Abruzzo e um tinto enigmático da Côte de Nuits, comentados abaixo.

clos de tart

a estrela da noite

De saída, não podíamos baixar o nível, um clássico champagne Deutz Extra-Brut para acariciar as papilas, iniciando os trabalhos. Preço honestíssimo na carta do restaurante, 315 reais. Acompanhou muito bem o couvert e uma cortesia da casa, um bolinho crocante recheado com carne de pato. A bela acidez do champagne combateu bem a deliciosa gordura da fritura. Uma harmonização clássica.

deutz extra brut

A precisão alemã em Champagne

bolinho de pato desfiado

mimo de entrada: fritura com pato desfiado

O branco à nossa espera é uma marco da vitivinicultura italiana, Azienda Valentini Trebbiano d´Abruzzo 2010. A uva Trebbiano normalmente não inspira grandes expectativas. Contudo, trata-se de algo especial. A vinícola é cuidadosa em seu plantio e condução da vinha, além de uma vinificação bem artesanal e sem malabarismos. As leveduras naturais permitem uma fermentação natural e sem pressa. O vinho matura em botti (toneis de grandes dimensões) inertes da Eslavônia.

valentini trebbiano

branco de extrema distinção

Este exemplar foi decantado por longas horas, chegando à mesa com aromas límpidos e sabores bem equilibrados. Notas cítricas e de frutas brancas estão bem presentes, sugerindo carambola. Nuances de especiarias e frutas secas também podem ser percebidas. Em boca, sua acidez é marcante, vislumbrando bons anos de guarda. Equilibrado e com final longo. Vinho de grande distinção e exótico.

Os pratos abaixo fizeram par com este branco, destacando-se as vieiras. A textura e o agridoce do prato levantaram o sabor do vinho, deixando um final bem harmonioso. Já a salada de polvo que parecia uma combinação certeira, pecou pelo excesso de maresia não combatida pelo vinho, embora o prato estivesse muito bem executado. Harmonização é isso: treino é treino, jogo é jogo.

vieiras uvas passas

vieiras frescas com molho de uvas passas e alcaparras

salada de polvo defumado

salada de polvo defumado com molho de limão siciliano

Agora o ponto alto do jantar, o enigmático Clos de Tart da comuna de Morey-St-Denis. Pessoalmente, coloco este tinto em pé de igualdade com Domaine Ponsot Vieilles Vignes (vinho sugerido no último campeonato mundial de sommeliers na Argentina, safra 1945), e o todo poderoso Romanée-Conti. Abaixo, seguem alguns detalhes da fera.

clos de tart 2007

um tinto secular

O mito Romanée-Conti é sempre reverenciado entre outras coisas por sua história milenar através dos séculos. Nesta trajetória, ele nunca esteve sozinho. Clos de Tart, tinto da comuna de Morey-St-Denis, trilhou caminho parecido desde o ano 1141 pelos monges cistercienses, melhor dizendo, freiras. Num vinhedo murado com pouco mais de sete hectares, as uvas são colhidas e vinificadas separadamente em seis parcelas com solos diferentes. A idade média das vinhas chega a 60 anos com algumas centenárias. O replantio paulatino das mesmas é feito com muito critério, pois trata-se de um patrimônio viticultural de grande valor. A opção de desengaçar as uvas ou não depende das condições de maturação das mesmas, conforme a característica  da safra. O vinho estagia em barricas novas pelo menos por dezoito meses. A adega do domaine possui condições naturais excelentes de armazenamento com temperaturas inalteradas em torno de 13ºC e umidade relativa do ar por volta de 75%. O estilo Clos de Tart costuma ser comparado entre a elegância de um Musigny e força de um Chambertin.

É o maior vinhedo Grand Cru individual da Borgonha, ou seja, somente um proprietário. Assim como Romanée-Conti, é um Monopole. Como as condições de safra variam bastante, falaremos do vinho provado do ano 2007. Embora seja um infanticídio, a safra 2007 é caracterizada pela precocidade, gerando vinhos mesmo na juventude, relativamente acessíveis. Os rendimentos neste ano foram de 27 hl/ha (hectolitros por hectare) e o estagio em barricas novas foi de dezoito meses.

Mostrou-se acessível, após horas de decantação. Sua cor é das mais intensas dos tintos da Côte de Nuits. Os aromas de rosas, especiarias e um toque de alcaçuz são de grande delicadeza. Na evolução, aromas terrosos, de fumo, e notas de charcuterie (embutidos), são mais presentes. Boca ampla, estrutura de taninos marcantes, equilíbrio perfeito, fazendo antever longos anos de guarda. Um tinto marcado pela  força, profundidade, sempre permeado por uma elegância impar. Aqui percebe-se a grandiosidade de um Borgonha.

codorna recheada cogumelos e foie gras

prato da noite à altura do vinho

A escolha do prato de acompanhamento foi unânime; uma codorna assada, recheada com cogumelos e foie gras, guarnecida com risoto de alecrim e molho do próprio assado. Um prato lembrando vagamente Festa de Babette (les cailles en sarcophage escoltada por Clos de Vougeot). Harmonização muito boa em termos de textura, refinamento e sabores sintonizados. A delicadeza do risoto sendo o alecrim uma erva marcante, foi muito feliz, além da complexidade do molho do assado. Enfim, o vinho sentiu-se valorizado.

contrate de chocolate

contraste de chocolate

interpretação de chocolates

interpretação de chocolates

Finalizando o jantar, duas sobremesas instigantes adoçaram maravilhosamente o paladar, conforme fotos acima. O contraste de chocolate marca pela ousadia em defrontar o doce do chocolate com o caramelo salgado. O sorvete de cumaru (semente de uma árvore da Amazônia) lembra um pouco o sabor da baunilha. Já a interpretação de chocolates é um deleite ao paladar, mostrando várias texturas, técnicas e doçuras crescentes em sabor.

petits fours emiliano

Emiliano: petits fours

partagas salomones

Salomones: o tabernáculo do Havana

Por fim, um mimo de saída. Belos e saborosos petits fours que valem por uma sobremesa, acompanhando o café. A noitada continuou com Havanas de gente grande, Partagas Salomones. Puros sublimando a habitual força e potência da marca. Sabores marcantes e muita conversa …

Cellar, França e Itália: 20 Anos

4 de Agosto de 2015

Vinho Sem Segredo não tem o perfil de badalação, de envolvimentos comerciais com importadoras, lojas de vinhos ou qualquer outro meio de merchandise. Simplesmente, queremos liberdade total para falarmos do que quisermos, da forma que quisermos e quando quisermos. Contudo, sempre há uma ou outra exceção, faz parte da vida. E esta exceção hoje, vai para a importadora Cellar que completa 20 anos de atividade com um catálogo muito bem elaborado pelo seu mentor, Amauri de Faria.

Amauri de Faria pode lá ter uma personalidade um tanto difícil, quase um Barolo em tenra idade, mas absolutamente sincero e preciso em suas opiniões. Profundo conhecedor de vinhos há décadas, formado em arquitetura, já projetou muitas adegas residenciais. Conhece a enogastronomia europeia como poucos e tomou uma decisão ousada e desafiadora, trabalhar somente com vinhos franceses e italianos. Para isso, escolheu e escolhe a dedo seus parceiros, produtores de altíssimo nível. A outra ponta do negócio é formar uma clientela fiel e seleta para seus produtos. E aqui entra a verdadeira fidelização. À medida que uma pessoa torna-se cliente da Cellar, pouco a pouco, a critério do próprio Amauri, vai tendo acesso a alguns mimos que só os mais antigos conhecem. Bem ao contrário da fidelização moderna de vários produtos e serviços, onde as vantagens estão só no começo da relação como armadilhas, para mais tarde apunhalar-nos com seus verdadeiros preços extorsivos.

Uma das falsas críticas que se faz à esta importadora é  sua rigidez em fornecer descontos. O brasileiro geralmente está acostumado a ser extorquido com preços inflados de muitas importadoras que para fechar as vendas costumam fornecer descontos generosos e assim, fazer um “agrado” ao cliente. Em inúmeras pesquisas de preços praticados por importadoras de vinhos ao longo de vários anos, a importadora Cellar sempre se destacou por praticar preços justos levando em conta a situação tributária de nosso país. Portanto, o que vale é o preço final pago pela garrafa, e não certos descontos “generosos” praticados no comercio selvagem.

Quanto aos produtos trazidos pela Cellar, fica difícil destacar um ou outro. Porém, quem trabalha com Aldo Conterno (Barolos de alta costura), Jermann (brancos de grande personalidade), Anne Gros (os grandes tintos de Vosne-Romanée), Clos de Tart (borgonha enigmático), Domaine Mugnier (a delicadeza de Chambolle-Musigny), Domaine Courcel (referência em Pommard), Yann Chave (Hermitages profundos) e tantos outros, não está brincando em serviço. Em suma, qualquer vinho desta importadora é no mínimo uma escolha segura, de produtores realmente sérios. Em termos de preços, nada de sustos. Naturalmente, cada vinho tem seu preço numa escala hierárquica, mas têm vários exemplares também abaixo de cem reais numa compra extremamente confiável.

Aldo Conterno: Barolos irretocáveis

Mugnier: Expressão Máxima em Chambolle-Musigny

Este texto é ao mesmo tempo uma homenagem, nem o próprio Amauri ainda sabe. Entretanto, fiz questão de mostrar aos seguidores deste blog, que ainda existem pessoas confiáveis e altamente capacitadas neste mundo dos vinhos, infelizmente recheado de aventureiros. Amauri de Faria é uma pessoa muito reservada, avesso a badalações, redes sociais e eventos de fachada. Colaborou muito com seus conhecimentos nas década de 80 e 90 para a divulgação do vinho e enogastronomia em nosso país, sendo um dos pioneiros em participações na antiga revista Gula, com ótimos conteúdos na época.

Quatro sugestões pessoais, sendo duas de cada país (França e Itália):

  • Paolo Avezza Barbera d´Asti Superiore Nizza “Sotto la Muda” DOCG 2009 – R$ 130,00

Vinho macio, de bom corpo, bem casado com a madeira. Boa sugestão para o Inverno

  • Salcheto Vino Nobile di Montepulciano 2010 (Tre Bicchieri) – R$ 135,00

          Prugnolo Gentile (nome local da Sangiovese) vinificada num estilo mais tradicional. Bela tipicidade.

  • Thibault Liger-Belair Moulin-à-Vent Vieilles Vignes 2012 – R$ 120,00

           O mais reputado Cru de Beaujolais. Um Gamay com elegância e profundidade.

  • Yann Chave Hermitage 2011 – R$ 370,00

           Um vinho de guarda para quem tem paciência. Profundidade, corpo e grande mineralidade.

http://www.cellar-af.com.br

Parabéns à Cellar, e que venham pelo menos mais 20 anos com esta mesma filosofia!

Filosofias: Bourgogne e Bordeaux

3 de Julho de 2015

Numa garrafa de Bourgogne ou Bordeaux há muito mais filosofia do que se pensa. Evidentemente, estamos falando dos grandes vinhos destes míticos terroirs. A despeito da enorme diferença do solos, climas e uvas envolvidas, o fator humano me parece ser mais decisivo e mais apaixonante. Um dos encantos da França é classificar, selecionar e individualizar certas filosofias sobre seus vinhos.

No caso da Bourgogne, Deus presenteou um terroir abençoado, sobretudo no que chamamos de Côte d´Or (não é costa dourado e sim, costa do oriente). As duas colinas (Côte de Beaune e Côte de Nuits) foram concebidas em plena harmonia na composição de seus solos, drenagem e insolação perfeitas e clones criteriosamente adequados ao plantio. Couberam aos monges cistercienses o devido tempo e paciência para formar perfeitamente o intrincado mosaico de vinhedos com classificações hierárquicas muito bem definidas.

Já no caso bordalês, a natureza não foi tão privilegiada a principio, sobretudo na sub-região do Médoc, a chamada margem esquerda de Bordeaux. No final da idade média, tínhamos sérios problemas de drenagem na região que sofria com cheias periódicas do Gironde. A solução foi contratar engenheiros holandeses, especialistas em represamento de águas, para drenarem toda a região. Assim o presente divino começa a ser desvendado. Encontrou-se então um solo e subsolo de destacada pedregosidade  e com grande capacidade de escoamento de águas. Nessas condições aliadas ao clima moderado com a influência do Gironde, a Cabernet Sauvignon encontrou seu lar ideal. Mas não foi só isso. Do lado do Atlântico, o avanço das grandes dunas de areia, mais a umidade e salinidade dos ventos marinhos tiveram que ser barradas. A solução foi uma enorme floresta de pinheiros com mais de um milhão de hectares, chegando até os Pirineus, divisa com a Espanha. Portanto, podemos dizer que Bordeaux, ao contrário da Bourgogne, foi um terroir forjado pelo homem.

Agora vem a parte filosófica, talvez a mais interessante. No Médoc sempre reinou a aristocracia, os imponentes châteaux e uma polêmica classificação exclusiva e imutável (classificação de 1855). Contudo, a concepção do vinho bordalês parte de uma visão socialista. Em propriedades que chegam perto de cem hectares, às vezes um pouco mais, o vinhedo é dividido em inúmeras parcelas, mesmo em se tratando de uma das uvas, ou seja, parcelas de Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e uma pitada de Petit Verdot, quando muito. Após vinificação individual das parcelas, opta-se pelo famoso Assemblage, o chamado corte bordalês. É aí que entra o socialismo: “a união das parcelas para um todo melhor”. Normalmente faz-se dois assemblages. Um para o “Grand Vin”, com as melhores parcelas degustadas e o restante, para o chamado “segundo vinho do château”.

clos de tart 1996

Dois belos monopólios

Já na concepção da Borgonha, as propriedades dos melhores domaines não passam de cinco hectares de vinhas. Números acima destes são verdadeiras exceções. Curiosamente, sua filosofia de vinho muda completamente. Após a Revolução Francesa, os vinhedos borgonheses foram todos fragmentados e repartido entre as famílias. Porém, a concepção do vinho continuou a mesma. Parcelas pequenas de vinhedos com uma só uva para tintos (Pinot noir) e uma só uva para brancos (Chardonnay). Com isso, temos uma visão aristocrática do vinho. Embora a fragmentação dos vinhedos tivesse uma ideia mais igualitária entre os viticultores, cada parcela sempre foi individualizada e hierarquizada no rígido sistema de classificação (Grand Cru, Premier Cru, Villages, …). Portanto, os melhores vinhos não se misturam com os plebeus, uma divisão de castas em todos os sentidos. São vinhos extremamente elitizados onde a procura pelos melhores produtores é uma constante, além das complicações de safras.

clos de tart

Clos de Trat: Concepção curiosa

Sou suspeito para falar do vinho acima, o belíssimo Clos de Tart. Provei uma garrafa safra 1988 ano passado e ainda estava longe de estar pronto. Talvez o mais enigmático dos borgonhas, tanto quanto o imaculado Romanée-Conti. Entretanto, bem mais em conta, naturalmente neste padrão de qualidade e relativismo. Mas vamos à sua concepção. Trata-se de uma propriedade extensa para padrões borgonheses. É um monopólio de 7,5 hectares repartidos em várias parcelas ao longo da colina. As zonas no alto da colina com solos de marga (mistura judiciosa de argila e calcário), bem como as zonas carbonatadas contando com vinhas antigas agregam parcelas privilegiadas. Reparem na diferença de altitudes entre a parte baixa e alta da colina. Exatamente, na faixa dos Grands Crus (entre 250 e 300 metros).

O assemblage das parcelas juntamente com a ideia de se conceber um “Grand Vin” e um “segundo vinho” tem de certo modo uma vertente bordalesa. O primeiro está classificado como Grand Cru e o segundo vinho  etiquetado como Premier Cru. Que o doutor Roberto, borgonhês juramentado, me perdoe a ousadia. Os vinhos são respectivamente Clos de Tart Grand Cru Monopole, e La Forge de Tart Morey-Saint-Denis Premier Cru.

A taça não corresponde ao vinho

Há também paradoxos no lado bordalês, sobretudo em Pomerol, com uma área total de 800 hectares de vinhas. Um lado borgonhês na chamada margen direita, com propriedades pequenas e sem a imponência do Médoc. Se compararmos com o total de área para brancos e tintos da Borgonha de primeira linha (Grand Cru e Premier Cru), temos algo como 3.500 hectares de vinhas. Separando ainda o joio do trigo, podemos reduzir seguramente para metade desta área. Os números começam a ficar próximos.

Só para destacar um dos grandes vinhos de Pomerol, acima temos o Château Le Pin com 2,7 hectares de vinhas, não produzindo mais do que 5.000 garrafas por safra. A base do vinho é praticamente Merlot com pitadas de Cabernet Franc. É elaborado apenas o “Grand Vin” numa concepção bastante borgonhesa.

Um fator altamente decisivo na opção destas filosofias é o tamanho das propriedades. Tanto de um lado, como de outro, Bordeaux e Borgonha se confundem em aspectos de concepção dos vinhos, conforme exemplos acima. Pondo um pouco mais de lenha na fogueira, a famosa frase de Friedrich Engels, uma marxista convicto. “Um momento de felicidade: Margaux 1848”. Um vinho aristocrático, mas com concepções socialista, onde o conjunto das partes forma um todo melhor.

Bourgogne: Confronto de Terroirs

1 de Dezembro de 2014

Discutir sobre a Borgonha é sempre prazeroso, instigante e sobretudo, sem conclusões definitivas, lembrando um pouco as infindáveis discussões sobre futebol, ou seja, não se chega a lugar algum. Dentro desta perspectiva, o tema de hoje pode ser interessante, principalmente para aqueles que estão iniciando no assunto. Um dos fatores que mais intrigam os degustadores é desvendar as peculiaridades de cada “climat”, termo muito típico para designar terroirs específicos nesta região. Só para ficar nas comunas mais famosas como Chambolle-Musigny, Vosne-Romanée, Pommard, Volnay, Chambertin, entre outras, os escritores, críticos e apaixonados por este vinhos, tentam marcar as principais características específicas de cada uma delas. Seguindo este raciocínio, podemos propor alguns paineis em dupla, comparando vinhos aparentemente diversos, distintos. Seguem abaixo alguns exemplos:

Côte d´Or: O coração da Borgonha

Volnay x Chambolle-Musigny

Num primeiro momento, temos uma comuna da Côte de Beaune (Volnay) e uma comuna da Côte de Nuits (Chambolle). Terroirs bem separados, já que na Borgonha, mesmo em vinhedos lado a lado, as diferenças podem ser marcantes.  O ponto principal a ser comparado é a delicadeza, a elegância e a sutileza destes respectivos vinhos. A priori, os vinhos de Chambolle parecem vencer o páreo. Teoricamente, teriam mais profundidade, poderiam ser mais marcantes. Só que treino é treino e jogo é jogo. Na prática, às cegas, dependendo do produtor, os respectivos terrenos e a filosofia do produtor, tudo pode mudar. Entretanto, vale a bincadeira. Dois belos Premiers Crus, lado a lado, um de cada comuna, às cegas. Como sugestão, um Chambolle do craque Mugnier e um Volnay do diferenciado Lafarge.

Pommard x Nuits-Saint-Georges

Força, personalidade e até uma certa rusticidade, marcam esses tintos robustos para padrões borgonheses. Pommard é também chamado o “Barolo” da Borgonha. Já o terroir de Nuits-Saint-Georges é mais complexo. A porção que me refiro é mais ao sul, mais afastado de Vosne-Romanée. Aqui sim, são vinhos robustos, mais duros na juventude, porém podem envelhecer maravilhosamente. Nas duas comunas não existem Grands Crus. Como disse, para padrões borgonheses, falta-lhes algo mais refinado numa sintonia mais ajustada. Proponho para Pommard, os produtores Domaine Courcel ou Comte Armand, e para Nuits-Saint-Georges, Henri Gouges ou Faiveley.

Henri Gouges: Meu preferido de Nuits-St-Georges

Corton x Gevrey-Chambertin

Vinhos firmes, uma certa austeridade, um cunho másculo e novamente o antagonismo: Côte de Beaune x Côte de Nuits. Corton é a exceção. Único Grand Cru tinto da Côte de Beaune e Chambertin da Côte de Nuits, com o maior número de Grands Crus por comuna (são nove no total). Ambos geologicamente apresentam influência direta de um subsolo calcário, fornecendo finesse e elegância. Corton do produtor Chandon de Briailles e Chambertin do inacessível Rousseau. Na impossibilidade deste último, Domaine Trapet.

Embate de Gigantes

Vosne-Romanée x Morey-Saint-Denis

Aqui a proposta é mais ousada e até certo ponto, leviana. Comparar Vosne-Romanée com outros tintos da Borgonha pode ser para alguns um verdadeiro insulto. Contudo, como experiência vale. Um grande Bonnes-Mares, um Clos de Tart ou o grande Musigny, este último de Chambolle, podem ás cegas, surpreenderem degustadores até mesmo com os DRCs à mesa. Entenda-se DRC como os fabulosos Grands Crus da Domaine de La Romanée-Conti. Sem a presença de rótulos, os soberbos tintos de Vosne tornam o embate mais democrático.

Quase sempre uma surpresa às cegas

Enfim, esse é um dos caminhos divertidos para tentar compreender a Borgonha. É como as mulheres. É divertido, prazeroso, enriquecedor e necessário este contato, mas entende-las é uma outra história. Quanto mais estudamos, quanto mais formulamos teses, menos compreendemos. Eis é o fascínio.

Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte IV

20 de Outubro de 2014

Continuando nossa saga pela Borgonha e relembrando o grande almoço no restaurante de Marc Meuneau, descrito no artigo anterior, ainda tínhamos um longo caminho a percorrer logo em seguida. Em vez de um descanso, fazendo uma espécie de detox, partimos para o jantar no hotel Bernard Loiseau, onde estávamos hospedados. E não foi um jantar só para tapiar. Menu de pratos completo com mais uma bateria de vinhos inesquecíveis. Portanto, vamos à luta!

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Chablis Raveneau: Mais incisivo, provocante

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Chablis Dauvissat: Mais textura, mais presença

O início do jantar não poderia ser melhor. Simplesmente, os dois melhores produtores de Chablis sem contestação. Raveneau Chablis Grand Cru Valmur, com uma acidez um pouco mais marcante, estimulante, enquanto Dauvissat Chablis Grand Cru Les Clos, mais opulento, mais textura e um grande final de boca. Os dois vinhedos Grand Cru (Valmur e Les Clos) de certa forma, enfatizaram os estilos distintos de cada produtor. Valmur costuma gerar vinhos mais introspectíveis. Já Les Clos, vinhos mais abertos e de maior textura em boca. Os dois maravilhosos.

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Aqui é Meursault de gente grande

Em seguida vieram alguns Meursauts na sequencia de brancos, mas nenhum foi páreo para o espetacular Coche-Dury Meursault-Perrières. O melhor vinhedo (Perrières) com o melhor produtor para muitos especialistas. Aromas e sabores em sintonia, plenos de riqueza e sofisticação. É praticamente um Grand Cru disfarçado.

Após este início de brancos arrebatadores, uma sequência de tintos não menos surpreendente. Uma mescla de grandes Borgonhas e grandes Rhônes (Norte e Sul), como veremos abaixo:

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Cuvée Cathelin: Lotes especiais de Jean Louis Chave

Só para começar, se não bastasse o produtor “Hors Concours” de Ermitage, Jean Louis Chave, temos o suprassumo de sua produção. O raro Cuvée Cathelin da grande safra de 1990 com somente 2300 garrafas produzidas. Esse vinho só é elaborado em grandes anos com lotes especiais que o domaine separa com extremo rigor técnico. Vinho de personalidade, muita estrutura de taninos. Fica difícil vislumbrar seu apogeu. O epítome da Syrah nesta apelação.

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La Turque: o mais viril da trilogia

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La Landonne: o mais profundo

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La Mouline: o mais feminino

Continuando o sacrifício, o norte do Rhône estava arrebatador. Agora entramos na trilogia de Guigal na apelação Côte-Rôtie. A face feminina da Syrah. É bem verdade, que há uma pitada de Viognier, a uva branca nobre do Rhône, exceto no La Landonne. Todos espetaculares, evoluídos, de safras nobres como 85 e 88. O la Mouline 1985 é o mais feminino. Ele tem uma porcentagem maior de Viognier, além de um solo mais calcário que fornece muita elegância ao vinho. Textura sedosa, aromas florais e de especiarias inebriantes. Já La Turque 1988 é mais viril, masculino, com persistência aromática expansiva. Um Côte-Rôtie de raça. Por último, o La Landonne 1988, 100% Syrah. Tinto profundo, intenso e taninos de rara textura. Vida longa, mas já extremamente prazeroso. Outra trilogia deste porte, só mesmo Angelo Gaia com seus três Barbarescos “franceses” (Sori Tildin, Sori San Lorenzo e Costa Russi).

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Clos de Tart: Estrutura fantástica

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Michel Gaunoux: Corton de estilo

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Hubert Lignier: especialista da apelação

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Belo produtor numa grande safra

Em resposta ao sublime grupo do Rhône, agora foi a vez dos Borgonhas tintos. Que tal começarmos com um Clos de Tart 1988? Vinho de estrutura singular, comparável aos melhores Grands Crus da Côte de  Nuits, sem exceções. A idade parece não ter chegado. Muito agradável tanto nos aromas, como em boca, mas ainda guarda vários segredos para os mais pacientes que conseguem  guarda-lo. Absolutamente único. Em seguida, Sérafin Père & Fils Charmes-Chambertin Grand Cru 1990. Charme é tudo que este vinho tem. Ao mesmo tempo delicado, ao mesmo tempo viril, profundo. Uma grande safra ainda em evolução, porém já muito prazeroso. Seguindo a sequência, a prova inconteste que os grandes Borgonhas podem evoluir por décadas. Um deles foi o Domaine Hubert Lignier Clos de La Roche 1978. Como todo Morey, um vinho misterioso, que não se revela por completo. Não denotava idade, com taninos presentes, aromas de evolução bem mesclado com toques frutados e bela expansão em boca. Absolutamente inteiro. Por fim, o deslumbrante Michel Gaunoux Corton Renardes 1959, novamente minha safra. Renardes é um dos Climats de Corton. Uma aula de evolução de um grande Borgonha. Sous-bois fino, elegante, envolvido em especiarias, toques florais e alcaçuz. Um lindo final!

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Evolução de um grande Sauternes

Final dos tintos, bem entendido. Vieram os queijos, as sobremesas e aí aparece um Sauternes de tirar o fôlego, Château Gilette Crème de Tête 1937. Este Château é muito particular na região de Sauternes. Proveniente da comuna de Preignac, durante todo o processo de vinificação e envelhecimento, o vinho não tem contato com madeira. Pelo contrário, ele passa cerca de dezoito anos em cubas de cimento para seu perfeito amadurecimento. Textura inigualável e aromas incríveis de mel, marron glacé, frutas confitadas e algo floral.

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 Arremate francês: Plateau de Fromage

No final de uma refeição francesa, a tábua de queijos acima é item obrigatório. Estrategicamente, funciona para terminar os vinhos à mesa e ao mesmo tempo, um preâmbulo para os vinhos doces de sobremesa. Além do Sauternes, outras bebidas foram servidas, tais como: Château-Chalon 1964 e um licor Chartreuse La Tarragone du Siècle que será assunto de um artigo específico. Ufá! por hoje é só. O artigo foi tão extenso quanto o jantar. À Bientôt!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.


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