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Terroir: Vinhas do Douro

20 de Julho de 2015

Muito se fala sobre o Vinho do Porto; seus estilos, categorias, as grandes marcas, métodos de vinificação e amadurecimento, entre outros tópicos. Contudo, um fato de relevante importância é pouco mencionado nas publicações, as melhores vinhas. São delas que resultaram as melhores uvas que darão origem a todo o processo de elaboração. Como dizem: os grandes vinhos nascem no vinhedo. É neste contexto que alicerçamos nosso artigo com base no IVDP (Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto – http://www.ivdp.pt). Abaixo, mapa das sub-regiões do Douro.

Cima Corgo: Terroir de destaque

Sabemos que fatores naturais de terroir como clima e solo além do fator humano, podem ser individualizados conforme a região de estudo. No caso do Douro, os parâmetros de avaliação dividem-se em edafoclimáticos (solo e clima) e culturais. Portanto, fatores como localização da vinha, altitude, declive, rocha-mãe (subsolo), elementos grosseiros (antrossolos: solos removidos pelo homem na fragmentação do xisto), exposição (solar), e abrigo (ventos), são criteriosamente avaliados e pontuados. Some-se a essa pontuação os fatores culturais como rendimento da vinha (hectolitros/hectare), encepamento (conjunto de uvas), densidade de plantio (pés/hectare), sistema de condução (terraços, vinhas ao alto) e idade das vinhas. Baseado em todos esses dados planilhados, chega-se a determinadas faixas de pontuação e posteriormente, à chamada classificação por letras de A até F, conforme tabela abaixo.

Classe
Pontuação
A
>1200
B
entre 1001 e 1200 pontos
C
entre 801 e 1000 pontos
D
entre 601 e 800 pontos
E
entre 401 e 600 pontos
F
entre 201 e 400 pontos

Evidentemente, não vamos entrar no mérito dos valores numéricos desta avaliação. Basta sabermos que as vinhas mais prestigiadas são as de classificação A e B, algumas vezes mencionadas em fichas técnicas e sites de determinadas Casas do Porto. Só para lembrarmos do último artigo deste blog (Porto Cinco Estrelas), as Casas mencionadas no mesmo enquadram-se nesta seleta classificação.

melhores vinhas: junto ao rio

No mapa acima, percebemos que a faixa laranja limita a grosso modo as vinhas de classificação A e B, normalmente junto ao rio. Essas delimitações exclusivas são encontradas somente no Cima Corgo e Douro Superior. À medida que nos afastamos da área laranja, os fatores de terroir acima citados vão perdendo pontuação.

Quinta de La Rosa: Classificação A

A sub-região do Cima Corgo com vinhas mais próximas ao rio torna-se o terroir adequado para uvas de grande qualidade. O declive perfeito, o fator moderador do rio, a insolação adequada, o perfeito abrigo de ventos mais agressivos, a idade média avançada das vinhas e densidades altas de plantio, são alguns fatores primordiais para os melhores vinhedos. É dessas condições que saem as uvas para os melhores Vintages, grandes Colheitas e os belos Portos com declaração de idade.

Os critérios na elaboração dos Vintages são uvas de maturação plena em anos excepcionais, ricas em polifenóis, sobretudo taninos, fator fundamental para longa guarda em garrafa. Já para os Colheitas, o item mais relevante é  acidez, pois  os taninos serão praticamente todos polimerizados na longa guarda em pipas, tornando os vinhos límpidos, normalmente sem nenhum depósito.

Em suma, são estes fatores que fazem a diferença entre um Porto alcoólico, sem frescor, e com o chamado meio de boca vazio; de um Porto equilibrado, aromático, e com a persistência dos grandes vinhos.

Porto diferenciando com vinhas de mais de 60 anos cultivadas em socalcos (terraços). São mais de trinta variedades de uvas plantadas todas juntas. O vinho amadurece em tonéis de nove mil litros, evitando uma micro-oxigenação excessiva entre dois e quatro anos, dependendo do lote.

E para um bom serviço, os Portos são melhores apreciados em temperaturas ao redor dos 14°C, onde o álcool fica mais contido e os sabores mais frescos. Como exceção, temos os Vintages, ricos em taninos, sobretudo os mais jovens, e aromas mais densos. Esses vão melhores em temperaturas entre 18 e 20°C com decantação obrigatória.

Quinta dos Murças: Uma joia do Douro

4 de Novembro de 2014

Não é de hoje que os tintos durienses vêm ganhando destaque no cenário internacional num terroir que tradicionalmente foi e ainda é, do Vinho do Porto, um dos mais importantes fortificados do mundo, se não for o mais expressivo entre todos. As tradicionais quintas que até pouco tempo preocupavam-se exclusivamente com seu Vinho do Porto, hoje elaboram naturalmente tintos de grande expressão e que também são aptos a longa guarda. É o caso do vinho abaixo, Quinta dos Murças Reserva 2009.

Propriedade tradicional com vinhas antigas

Situada no Cima Corgo, região nobre do Douro, Quinta dos Murças encontra-se em terrenos íngremes, de declive acentuado, em solos xistosos e de baixa produtividade. Um patrimônio valioso de vinhas antigas plantadas todas juntas com castas típicas da região como Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinta Amarela (Trincadeira no Alentejo), Tinta Barroca, Touriga Francesa ou Franca, e Sousão. Vale a pena ressaltar, a destacada amplitude térmica neste trecho do Douro (Cima Corgo), onde estão situadas as melhores e mais tradicionais Quintas de toda a região. Isso faz com que os níveis de maturação das uvas sejam ideais sem perder o fresco e portanto, proporcionar um notável equilíbrio. A vinificação é feita com pisa a pé, como nos mais tradicionais lagares para a elaboração dos melhores Portos. Em seguida, o amadurecimento do vinho dá-se em barricas de carvalho francês e americano durante aproximadamente doze meses.

Tinto de bom corpo, aromas agradáveis, mesclando bem a madeira com a fruta. Taninos sedosos, macios e com persistência aromática expansiva. Bom parceiro com a enogastronomia , desde  carnes grelhadas até carnes com molhos intensos. Apesar de sua prontidão, vislumbra bons anos de guarda. Importado atualmente pela Qualimpor (www.qualimpor.com.br). Além deste tinto, a importadora traz belos vinhos da Quinta do Crasto e o excepcional Porto Taylor´s.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Vinho do Porto: Parte I

7 de Abril de 2011

Os vinhos fortificados, elaborados em vários países, apresentam nítida superioridade na península ibérica. O trio de ferro imbatível, Jerez, Porto e Madeira, não tem rivais à altura, sem falar no Moscatel de Setúbal, Carcavelos (quase extinto), Pedro Ximenez de Montilla-Moriles, e tantos outros. Especialmente, o Vinho do Porto, destaca-se dos demais em termos de projeção internacional e empatia no mercado globalizado. Oxalá, Jerezes e Madeiras, um dia voltem a ter a projeção que bem merecem!

Dando início ao vasto mundo do Vinho do Porto, é bom esclarecer que Porto é a cidade homônima onde obrigatoriamente, o vinho era amadurecido até 1986. A partir desta data, o vinho continua amadurecendo em Vila Nova de Gaia (município dentro da região metropolitana do Porto), mas pode também, amadurecer na região do Douro, local onde as uvas são cultivadas e vinificadas.

O início da região escura (Douro) dista 80 km do Porto

A região do Douro inicia-se com a aproximação da serra do Marão, aproximadamente 80 km a montante da cidade do Porto. Nesta primeira parte, temos a região do Baixo Corgo (Corgo é um afluente do Douro neste ponto). Em seguida, a nobre região do Cima Corgo, onde estão as principais Casas de Vinho do Porto. No último terço, temos a cálida região do chamado Douro Superior, em constante desenvolvimento. O mapa abaixo, ilustra a explanação.

As três sub-regiões do Douro

À medida que vamos caminhando de oeste para leste, a precipitação pluviométrica vai diminuindo, enquanto as temperaturas extremas e a amplitude térmica, vão aumentando. Portanto, a maioria das uvas do Baixo Corgo, são utilizadas para vinhos do Porto mais corriqueiros e de maior volume. Já as uvas cultivadas no Cima Corgo, são uvas bem mais equilibradas e portanto, utilizadas nos Portos de maior categoria, sobretudo os chamados Vintages. Por fim, o Douro Superior, esquecido até um passado recente, vem ganhando força e está ainda por ser desbravado. Como a região é bastante quente, as uvas dão origem a vinhos potentes. É muito importante nesta área, calibrar a altitude do vinhedo para preservar melhores níveis de acidez nas uvas. Atualmente, tem uma parcela significativa nos melhores Portos, dependendo do cultivo em zonas estratégicas desta sub-região.

O Douro foi oficialmente, a primeira região demarcada do mundo em 1756 pelo então marquês de Pombal. Sem entrar em pormenores históricos, o vinho da região em épocas mais remotas não era fortificado. Para atender o mercado inglês, que em certos períodos manteve relações cortadas com a França, o vinho do Porto tornou-se uma alternativa economicamente viável para este aquecido mercado. Como a viagem era longa, acrescentava-se um pouco de aguardente para manter o vinho em boas condições de consumo. Evidentemente, esta fortificação era aleatória e despadronizada. Contudo, ao longo do tempo, este estilo de vinho foi ganhando força até que no fim do século XIX, a fortificação estava amplamente aceita e com padrões muito próximos dos Vinhos do Porto da atualidade.


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