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Espíritos do Caribe

2 de Janeiro de 2018

Nessas festas, além da bebida e comida, muitos Puros energizaram as expectativas do ano vindouro. Com eles, alguns espíritos e as inevitáveis comparações e harmonizações.

Cohiba  

Embora não seja uma marca de grande tradição, sua ligação com o comandante Fidel é visceral. Inicialmente criada exclusivamente para o governo cubano após a revolução, a marca foi comercializada em 1982. Rapidamente, o próprio Fidel, embaixador da novidade, fez dos Cohibas, o Puro mais sofisticado e de preços elevados. De fato, a marca alia potência e elegância numa sintonia admirável.

Cohibas de alta gama

O da foto à esquerda, é o clássico Cohiba Lanceros numa edição limitada de 2011. Conhecido como Laguito nº 1, é um charuto de 19 centímetros com um ring de 38, formato esguio e de capa escura. Muito bem construído, podemos começa-lo com um espresso forte, passando por um Madeira Boal ou Malmsey. Do meio pra frente ou no seu terço final, a intensidade da bebida precisa ser elevada mantendo a mesma textura. Neste caso, o guatemalteco Ron Zacapa XO tem força e elegância para um final intenso e macio. O Lanceros de cabo a rabo, mantem uma elegância ímpar, aumentando a potência final sem sobressaltos, mas pleno de sabor.

transição similar de texturas

Na foto à direita dos charutos acima, temos o mais exclusivo dos Cohibas, a linha Behike. Este em questão, é o de maior ring 56, que dá nome ao charuto. Um blend de folhas de maior potência, sempre mantendo a elegância como referência. Neste caso, podemos começar com um Negroni ou um Mojito, um pouco mais refrescante no verão. Em seguida, no terço final, um rum um pouco mais austero e potente, acompanhando a elegância de fundo neste Puro excepcional. O rum em questão é o da foto abaixo, Barceló Imperial Premium Blend, um dominicano com partidas extremamente envelhecidas e muito bem mescladas. Menos untuoso que o Zacapa mencionado, mas com uma força extraordinária.

potência crescente com final amplo

Falar de Montecristo, segunda foto abaixo, é falar da marca cubana mais vendida e de ampla tradição. Nascida a partir da H. Upmann, outra grande marca de Puros, sua linha segue  a receita de uma fortaleza média, agradando uma legião de fãs. Entretanto, Montecristo nº 2 foge do padrão da Casa, com sabores intensos e potentes. Cafés, Portos, Madeiras, e drinks clássicos, podem acompanhar bem o primeiro terço. Daí em diante, os destilados dominam a área. Runs de grande potência com o Barceló, podem cumprir bem o papel. Contudo, para emoções mais fortes, o poderoso Talisker, um Single Malt da ilha de Skye, tem explosão suficiente para encarar este incrível torpedo.   

um time respeitável dos grandes Havanas 

Na primeira foto acima, uma dupla de grandes módulos, mas com propostas extremamente diferentes. O da esquerda, o clássico dos clássicos, Romeo Y Julieta Churchill, imortalizado pelo grande primeiro-ministro inglês. Um show de elegância, jamais cansativo. Sua evolução é lenta e gradual num terço final marcante, mas muito agradável. Pode ser  perfeitamente acompanhado por Porto ou Madeira. Se a ideia for um destilado, cognac ou armagnac maduro na categoria XO. Se a mega-sena ajudar, vá de Louis XIII ou Richard, tudo que um cognac pode oferecer.

Já o Partagas Lusitanias, um double corona de grande fortaleza. Mantem uma relativa acessibilidade, mas não abre mão de fumadores experientes. Não tem a explosão do Montecristo nº 2, porém seus aromas vão num crescendo, pedindo certamente um grande destilado. Novamente, o Ron Barceló mencionado, é um final arrebatador para este Havana dos mais respeitados. Um Puro que pede paciência e reflexão.

Continuando nos potentes da marca Partagas, a primeira foto do artigo, mostra o duplo figurado Partagas Salomones com o incrivle ring 57. Definitivamente, para fumadores experientes. Sua construção é espetacular, exigindo os mais experientes torcedores. Não tem um impacto tão potente de início, mas sua evolução sinaliza sabores e aromas de grande intensidade. Decididamente, no terço final sobretudo, pede destilados de alto calibre. Por exemplo, o Talisker acima mencionado. Exige tempo e ritmo pausado em sua apreciação.

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Negroni, um clássico do coquetelaria 

Um dos charutos ainda não mencionado e presente nas fotos acima, é o torpedo Bolivar Belicosos. De construção impecável, foge totalmente da fortaleza da marca. Extremamente elegante, mostra-se ao longo de sua evolução, sabores e aromas sedutores sem perder em nenhum momento sua notável elegância. Pode ser acompanhado por Portos e Madeiras, ou drinks clássicos como Negroni, foto acima. Bebida e fumaça em grande sintonia. Um Puro de módulo versátil, jamais cansativo, perfeito para fazer parte do seu time para o dia a dia.

 

 

Os Grandes Portos: Vintage ou Colheita?

4 de Agosto de 2014

Essa questão mais uma vez ficou sem resposta após bela degustação de Portos na ABS-SP (Associação Brasileira de Sommeliers). Na apresentação foi mostrado os dois lados da moeda, ou seja, o caminho da preservação da cor, o pouco contato do oxigênio na sua elaboração e o envelhecimento em garrafa, em meio redutivo. Do outro lado, a intensa micro-oxigenação  dos vários anos em madeira, culminando em cores e aromas fascinantes.

O painel completo era composto somente de Portos de categoria especial, de produção extremamente reduzida em relação ao volume total anual. O LBV (Late Bottled Vintage) 2007 da Burmester abriu os trabalhos com cores e sabores jovens, vislumbrando muita vida pela frente. Em seguida, começou a série de Tawnies com um belo 10 anos da casa Ramos Pintos da distinta Quinta da Ervamoira, muito bem elaborado e equilibrado. Logo após, o Porto 20 anos da jovem casa Churchill com aromas um pouco tímidos de início que foram se mostrando numa bela evolução na taça. O ponto culminante encerrando a série, foi o excepcional Porto Krohn Colheita 1983. A safra por si só já é muito boa, mas o longo período em barricas (27 anos) lapidou de forma brilhante este não tão admirado estilo de Porto. Para encerrar a festa, um Porto Vintage de Quinta da mais antiga casa inglesa de Portos, a tradicional Warre´s do grupo Symington,  fundada em 1670, bem antes da famosa demarcação da região em 1756. Veja os exemplares na foto abaixo:

Os dois estilos perfilados

O estilo Tawny ou aloirado é bem aceito e conhecido dos apreciadores de Porto. Entretanto, o Porto Colheita, ícone maior desta categoria é pouco conhecido e compreendido. Apesar deste assunto já ter sido explanado em outros artigos deste mesmo blog, vamos enfatizar os pontos principais. Como o próprio nome diz, este Porto nasce de uma única safra expressa no rótulo. Ele deve permanecer em madeira, geralmente pipas de 550 litros, por pelo menos sete anos, conforme legislação vigente. Evidentemente, as grandes casas especializadas nesta categoria obedecem a lei com folga, deixando o vinho por longos anos em madeira, antes de engarrafa-lo. E a grande transformação ocorre neste longo período, onde a lenta e progressiva micro-oxigenação promove mudanças de cores, aromas e texturas, culminando num grande equilíbrio e complexidade. Sua cor torna-se esmaecida, seus aromas etéreos e uma textura sedosa. O pulo do gato neste estilo é a destacada acidez, componente essencial para transmitir frescor, e manter o equilíbrio perfeito frente ao elevado teor alcoólico e de açúcar deste tipo de vinho fortificado. Portanto, além da declaração da safra no rótulo, é obrigatória a declaração da data de engarrafamento do Colheita, o qual pode ter várias partidas engarrafadas ao longo de sua vida, ganhando cada vez mais complexidade com os anos em madeira. Após o engarrafamento, esta categoria de vinho cessa seu período de evolução, podendo ser consumido imediatamente ou guardado para um momento propício. No exemplar abaixo, os vinte e sete anos em madeira fizeram muito bem ao belo Krohn Colheita 1983, engarrafada somente em 2010.

Cor topázio, típica dos grandes Colheitas

Já no outro lado da moeda, o grande rival Vintage da casa Warre´s, Quinta da Cavadinha 1996. Os Vintages bem elaborados, de grandes safras e de grandes casas, parecem ser quase imortais. Reparem a pouca evolução de cor deste exemplar, conforme foto abaixo:

Cavadinha 1996: Vintage de Quinta

Os aromas também não estavam totalmente evoluídos. Com muita fruta escura macerada em álcool, lembrando belos licores, os aromas de fumo, especiarias e chocolate vinham logo em seguida. Em boca, taninos ainda muito presentes, equilibrados com os demais componentes de acidez, açúcar e álcool. Persistente e marcante, vislumbra pelo menos algumas décadas pela frente. Enfrentou muito bem seu companheiro de mesa, o clássico Stilton, queijo azul de origem inglesa.

Lembrete: Vinho Sem  Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

 


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