Posts Tagged ‘chateau pape clement’

Bordeaux 1961: Allegro Moderato

18 de Agosto de 2015

Feitas as apresentações e o início do encontro com o espetacular Dom Pérignon P3 (Plenitude 3) 1973, vamos ao embate dois a dois dos grandes Bordeaux 1961, devidamente abertos e decantados. A ordem que se segue não foi exatamente esta, mas resolvi comentá-los de acordo com o nível de cada confronto num crescente cada vez mais dramático.

Margaux versus Graves

Dois grandes châteaux, representantes autênticos de suas respectivas comunas de margem esquerda. O primeiro, líder inconteste da comuna de Margaux que neste ano deixou a desejar. Por se tratar de um Premier Grand Cru Classé, algo desandou nesta safra. A elegância, a finesse, estavam presentes, mas faltava estrutura para vencer as décadas que se espera de um vinho deste naipe. Este exemplo se enquadra bem nas características da safra 61, ou seja, é preciso pesquisar chateau por chateau para não haver surpresas.

O segundo vinho, Chateau Pape Clement, da apelação Graves (é bom lembrar que a partir de 1987 os chateaux mais bem situados da região assumiram a apelação mais restritiva denominada Pessac-Léognan), foi marcado pela elegância e pelos toques de evolução, pontos em comum para a comparação neste primeiro confronto. Macio em boca, com os típicos aromas de trufas, cogumelos, mineral (terroso) e ervas finas. Bem acabado, equilibrado, muito prazeroso neste momento.

Saint-Juilen x Saint-Estèphe

Acompanhando o andamento Allegro Moderato, adentramos às comunas de Saint-Julien e Saint-Estèphe. Chateau Beychevelle trilhou o mesmo caminho do Margaux acima. Contudo, está mais condizente com sua história. É sempre um vinho que prima muito mais pela elegância do que pela potência e neste caso, cumpriu seu papel. Bem resolvido tanto em boca, como nos aromas de evolução. Final agradável, devendo ser consumido nesta fase. Não há porque esperar mais.

No segundo vinho damos um salto. Estamos diante de um grande Montrose. E este vinho não se curva ao longo do tempo. É viril, é marcante, é insolente. Estrutura tânica fantástica. Precisa ser decantado por pelo menos duas horas. Bom corpo, acidez marcante, aromas minerais, de ervas, especiarias, e um belo equilíbrio. Ainda tem caminho a percorrer. Só mesmo a safra de 1990 para poder supera-lo. O tempo dirá.

Os dois Moutons (pobre e rico)

Aqui começamos a entrar no tabernáculo dos grandes 61. Chateau Lynch-Bages à esquerda, maldosamente chamado de Mouton dos pobres, e o grande Mouton-Rothschild à direita. Ambos, refletindo a força e a nobreza da comuna de Pauillac. Lynch-Bages, cor densa, aromas profundos e de grande intensidade. Aqui o cassis permeia em notas minerais, empireumáticas (notadamente o café), resinosas e toques de couro. Encorpado, envolvente, taninos de rara textura com final de alta costura. Ainda tem muita conversa em adega.

Já o segundo vinho, Mouton-Rothschild, se não é perfeito, está muito próximo. Tem tudo que seu primo pobre tem, mas a vida é feita de detalhes. São esses detalhes que lhe dão as credenciais para um legitimo Premier Grand Cru Classé. Um tanino ainda mais polido, uma elegância difícil de mensurar e situar, entre outros mistérios. De todo modo, um embate de gigantes.

Um detalhe; neste época, Mouton-Rothschild ainda não era um Premier de direito, mas de fato. Essa honraria só seria concedida em 1973 pelo então presidente Valéry Giscard d´Estaing. As legendas do castelo mudaram, mas permanece sua personalidade e sua firme opinião: “Sou primeiro, já fui segundo, Mouton não muda”.

Timo: Textura delicada

Entre um gole e outro, ninguém é de ferro. Então, sempre aparecia um prato como da foto acima. Neste caso, um prato com Timo, pequena glândula localizada na cavidade torácica. Carne delicada, tanto no sabor, como na textura. Pedi vinhos de estirpe e de aromas elegantes. Perfeito para os vinhos aqui comentados. Evidentemente, Montrose e Mouton suplantaram um pouco a harmonização.

Agora os motores estão aquecidos. Que venha o próximo artigo!

Mudança de Adega: Entre um gole e outro

3 de Maio de 2015

Um dos trabalhos do sommelier é também montar adegas novas ou transferi-las para um novo local. Este foi o caso de um grande amigo que mudou recentemente de endereço. Possuidor de um arsenal de mais de três mil garrafas cuidadosamente selecionadas ao longo dos anos. E que arsenal! Pode não ser das maiores do Brasil em quantidade, mas a qualidade e o garimpo de seus vinhos são irrepreensíveis. Apaixonado pelos bordaleses, os melhores chateaux e as melhores safras de ambas as margens estão lá. Outro fascínio, são os DRCs de Vosne-Romanée. Uma coleção completa destes borgonheses fantásticos com algumas safras memoráveis. A prateleira de recepção da adega é repleta de Imperiais (seis litros) destes mitos citados acima. Sem contar com a bela coleção de Vegas (espanhóis), Yquem, e Domaine Leflaive.

Painel Romanée-Conti

O painel acima está no centro, em destaque, da prateleira de DRCs. Mas antes desta montagem, muito trabalho. Com a chegada dos vinhos na nova residência foi preciso um trabalho árduo, de muita paciência, para separar e classificar os vários Chateaux, Domaines, separando por safra, vinhedos ou cuvées especiais, se for o caso, para poder planilha-los de forma cartesiana e lança-los no computador, ou seja, a adega virtual. A foto abaixo, nos dá uma ideia do tamanho do problema.

A bagunça sendo organizada

Evidentemente, nem tudo é trabalho. Em determinados momentos a generosidade do proprietário brindava-nos com alguns mimos, conforme a sequência abaixo:

Referência na apelação Volnay

Quando pensamos em alto nível na comuna de Volnay (Borgonha), imediatamente nos vêm Domaine Lafarge e Domaine Maquis d´Angerville. O primeiro já foi descrito em artigo neste mesmo blog. Este acima da safra 97 ainda é uma criança. Podemos dizer que foge até um pouco da tipicidade da apelação, pois Volnay elabora tintos elegantes, sedosos, acessíveis, mesmo na juventude. Este porém, tem caráter masculino, estrutura tânica portentosa. A cor mostra-se jovem, aromas um tanto fechados, sugerindo cerejas negras, alcaçuz, especiarias e uma nota tostada. A boca impressiona por sua estrutura. Taninos bem delineados, mas em quantidade suficientes para mais uma década, pelo menos. E olha que estamos falando de uma safra acessiivel (97). Realmente, é vinho de longa guarda.

Um Pomerol de livro

Já tive o privilégio de participar de uma extensa vertical de Le Pin, e este 85 é encantador. Com seus trintas anos, continua sedutor, macio, equilibrado e sem sinais de decadência. As ameixas em calda, as flores, o toque terroso e de especiarias, confirmam os descritores clássicos desta pequena apelação. Aliás, a safra 85 é encantadora para a maioria dos grandes bordaleses.

Um Lafleur parrudo

Este exemplar da safra de 1990 mostra um Lafleur quase indestrutível. Cor muito pouco evoluída, aromas não completamente desabrochados e uma estrutura tânica impressionante para um margem direita. Talvez a alta proporção de Cabernet Franc e a potência da safra expliquem esta estrutura. Os aromas de frutas escuras, tabaco, minerais e especiarias, foram se mostrando lentamente com algum tempo nas taças. Deve ser obrigatoriamente decantado por pelo menos duas horas. É páreo para um bom Confit de Pato.

Yquem 75 : para ficar na memória

Já tomei alguns Yquems de peso como as safras de 83, 86 e 2001, mas este 75 em formato Magnum, mesmo com o problema acima, foi memorável. Algo absolutamente  inédito nesta garrafa com a rolha soltando-se dentro do liquido e apenas a capsula, segurando todo o conteúdo, sem nenhum vazamento. O vinho com uma cor âmbar brilhante estava adequada para a idade (40 anos). Os aromas de caramelo escuro, notas de coco, marron-glacê, doces mineiros cristalizados, curry, entre outros, eram deslumbrantes. E a boca? Esplendorosa! Uma harmonia entre os componentes de álcool, acidez e açúcar, em perfeito equilíbrio. Tudo isso era transportado por uma viscosidade única, devido a altas taxas de glicerol que neste caso, é perfeitamente perceptível. Uma persistência interminável, expansiva, como se houvesse compassadamente lufadas deste liquido indescritível. O melhor Yquem tomado até hoje. Nunca se sabe o dia de amanhã…

Continuando a bagunça

Mais alguns dias de trabalho e algumas paradas sedentas. Numa delas dois exemplares dos injustiçados Bordeaux brancos. Dois Châteaux de peso na comuna de Pessac-Léognan, zona norte de Graves, bem próximo à cidade de Bordeaux. Vamos a eles!

Bela estrutura

Os tintos do chateau acima são encantadores. Este branco da safra 2009 é altamente pontuado pela crítica especializada. Uma bela cor, aromas ainda tímidos lembrando minerais e cogumelos. Em boca, um belo corpo, muito macio e com uma certa untuosidade. Consequência da boa proporção de Sémillon no corte e um longo período sur lies (contato com as leveduras) e bâtonnages frequentes. Deve evoluir com o tempo, tornando-se um branco bastante gastronômico.

Haut-Brion: O Ícone da região

Num estilo totalmente diferente do branco anterior, este exemplar prima por seu frescor, vivacidade e elegância. Sem dúvida, disputa a primazia dos brancos bordaleses com seu grande rival, Château Laville Haut-Brion, o grande branco do Château La Mission Haut-Brion. Curiosamente, a partir da safra 2009 passou a ser chamado Château La Mission Haut-Brion Blanc. Voltando ao Haut-Brion,  seus aromas cítricos, alimonados e até lembrando a carambola destacam-se com as notas de madeira elegante. Alta proporção de Sémillon também, mas a fermentação dá-se em barricas de carvalho parcialmente novas. Embora haja bâtonnages, a maciez é mais discreta, prevalecendo a vivacidade. Um clássico a ser provado entre os amantes de Bordeaux.

Felicidades ao amigo, e que seu novo lar proporcione momentos de paz, felicidade, alegria e muitos brindes, aliados a seu bom gosto e enorme generosidade. Santé pour tous!

As Peculiaridades Bordalesas

29 de Dezembro de 2014

Almoço entre amigos e vinhos bordaleses. Que bela combinação! Foram dois margem esquerda das comunas de Pessac-Léognan e Margaux, respectivamente. E fieis representantes desses terroirs. O tinto da foto abaixo mostra ainda no rótulo a antiga apelação Graves, a qual foi em seu setor mais nobre detalhada como Pessac-Léognan em 1987. Trata-se da porção norte de Graves entre as cidades homônimas da apelação (Pessac, cidade colada a Bordeaux e Léognan, um pouco mais ao sul). Na hierarquia deste terroir temos os Châteaux Haut-Brion e La Mission Haut-Brion na frente do pelotão. Logo em seguida, Château Pape Clément na versão tinto em minha modesta opinião.

Safra 1985: Antiga apelação Graves

Aliada à predileção por este château, vem a safra de 1985, safra esta que também sou suspeito em falar. Não tirando o posto de 1982 que foi monumental, o ano 85 normalmente mostra vinhos sedutores, equilibrados e de uma sutileza impar. Este 85 provado, mostra com propriedade os aromas terciários de um grande Bordeaux com uma evolução bem trabalhada. Os toques minerais com uma faceta terrosa, a famosa caixa de charutos (cedar box), além de frutas e nuances de caça, estavam presentes em seus aromas e sabores. O equilíbrio em boca é notável com todos os elementos integrados, ou seja, álcool na medida certa, acidez refrescante e taninos totalmente polimerizados e de grande qualidade. Neste nível é impossível não gostar de Bordeaux.

Alguns dados técnicos

51% Cabernet Sauvignon, 46% Merlot, 2% Petit Verdot e 1% Cabernet Franc. A alta porcentagem de Merlot no corte fornece maciez ao conjunto e uma certa precocidade em sua evolução.

São 53 hectares de vinhas com idade média de 27 anos e densidade de plantio em torno de 7300 pés/hectare. O vinho é fermentado em cubas de madeira com maceração de 30 a 40 dias. Posteriormente, é amadurecido por 18 meses em barricas de carvalho. Evidentemente, não são todas novas e por conseguinte a harmonia entre madeira e fruta é total.

Château Pape Clément pertence à classificação de Graves desde 1959 (daí a inscrição Grand Cru Classe)  e sua história começa no século catorze com o Papa Clément V. A recente safra de 2010 tem cem pontos de Robert Parker, prometendo ser uma das grandes de toda a história do château.

Château Palmer: à sombra do grande Margaux

A segunda parte do almoço coube ao impecável Château Palmer 1995, um Troisième Grand Cru Classé de 1855. Não fosse o espetacular Château Margaux, Palmer seria com folga o primeiro na hierarquia deste terroir. Apesar de seus 94 pontos de Parker, está longe de seu apogeu, vislumbrando o ano de 2030. Com certeza, esta garrafa provada pode esperar tranquilamente o ano de 2020. A cor é densa, nem de longe denunciando seus quase vinte anos. Os aromas após quase duas horas de decantação ainda eram tímidos, mas mostrando grande categoria. Fruta escura concentrada, toques delicados de couro (pelica) e nuances de sous-bois, misturando terra e cogumelos. Bom corpo, elegante, taninos de rara textura, equilibrado e persistência aromática expansiva. Naturalmente, falta ainda desabrochar mais aromas e uma perfeita integração de seus elementos. Muita paciência e tudo se resolverá. É o preço da perfeição.

Alguns dados técnicos

51% Merlot, 40% Cabernet Sauvignon e 9% Cabernet Franc. A leve predominância da Merlot aporta a tal feminilidade atribuída à comuna de Margaux. São 55 hectares de vinhas em solos pedregosos (graves) plantadas em alta densidade, cerca de dez mil pés/hectare. O tempo de amadurecimento em barricas de carvalho não é exato e nem divulgado. Contudo, a porcentagem de barricas novas fica no máximo entre 45 e 60%.

Palmer localiza-se em Cantenac, setor diferenciado da comuna de Margaux, a menos de um quilômetro do grande Château Margaux. Esses dois belos châteaux mantêm a mesma distância em relação ao Gironde, onde as camadas de cascalho são mais espessas.

Concluindo, um belo fecho de 2014. Dois tintos com presença marcante de Merlot, mas com propostas, terroirs e fases de evolução bem diferentes. O primeiro, uma obra acabada com uma marca fiel de sua origem. O segundo, uma promessa muito bem encaminhada, desenhada num lindo caminho que os grandes Margaux sempre trilham.

Boas Festas! e que 2014 não deixe saudades.

Bordeaux: Château Pape Clément

31 de Outubro de 2013

pape clement2003: Safra atípica

O mais antigo vinhedo de Bordeaux, com mais de setecentas colheitas, uma história que começou em 1305. Seu mais ilustre proprietário, Pape Clément, dá o nome ao château. Atualmente, seu dono é Bernard Magrez, apaixonado por vinhos e proprietário de vários châteaux espalhados pelo mundo.

Este artigo foi inspirado num almoço com meu grande amigo, doutor César Pigati, bordalês de carteirinha, onde dividimos o vinho abaixo (foto) na polêmica safra de 2003. Este château tem evoluído muito desde a ótima safra de 1998, colecionando com facilidade notas acima de 90 pontos. Nesta safra degustada, Parker julgá-o com notas entre 93 e 94 pontos. Concordo com esses números e não daria menos que 92 pontos.

pape clement livro

Almoço seguido de Porto e o incenso dos “Puros”

O vinho realmente é macio, dado sua baixa acidez com relação à média de outros anos em Bordeaux. Taninos densos, bem delineados, muita fruta, o característico toque terroso (mineral), cogumelos, especiarias e ervas finas. Realmente, apesar de estar na margem esquerda, Pessac-Léognan apresenta um terroir diferenciado, tendo algo de Saint-Émilion, margem direita. Daí a necessidade de uma classificação específica, a famosa classificação de Graves em 1959, separada dos Grans Crus Classés do Médoc.

pape clementVizinhança de grandes châteaux

Pessoalmente, considero Pape Clément como terceiro vinho na hierarquia de Graves, atrás somente das feras Haut-Brion e La Mission Haut-Brion. O grande enólogo do século XX em Bordeaux, professor Émile Peynaud, tinha especial carinho por este chãteau e foi seu consultor após a segunda grande guerra mundial. O vídeo abaixo conta um pouco da hístória do chateau.

http://youtu.be/_JY3wGU0tfw

O vinhedo possui área de 53 hectares, sendo 51% Cabernet Sauvignon, 46% Merlot, 2% Petit Verdot e 1% Cabernet Franc. As vinhas têm idade média de 27 anos e a densidade do vinhedo é de 7300 pés por hectare. O solo mescla as famosas graves (pedras), argila e areia. A filosofia de trabalho é orgânica com tração animal (cavalos) nos vinhedos. A vinficação tem longa maceração (30 a 40 dias) com redimentos de 37 hectolitros por hectare. O amadurecimento dá-se em barricas de carvalho novas por dezoito meses.

Safras como 1998, 2005 e 2010, estão entre as mais destacadas. Curiosamente, um 2002 acima da média com 92 de Parker. Talvez, o melhor de Graves neste ano.

Château Pape Clément possui um segundo e terceiro vinhos, Le Clémentin du Château Pape Clément e Le Prélat du Château Pape clément, respectivamente. Da mesma forma acontece com os brancos, sendo o Grand Vin de qualidade destacada. Um assemblage de Sauvignon Blanc e Sémillon em parte iguais com fermentação em barricas e posterior bâtonnage (movimentação das borras períodicas na massa vínica). 

Enfim, um vinho abençoado pelo Papa e uma das pedidas certas quando falamos em grandes châteaux em Bordeaux.


%d bloggers like this: