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Malbec: Altitude x Atitude

17 de Julho de 2016

Os Malbecs argentinos estão tão presentes em nosso dia a dia que muitas pessoas não sabem ou esquecem que a origem desta uva é francesa. Menos divulgado ainda é a região de sua terra natal, o sudoeste francês. Dentre as várias apelações deste pedaço da França, Cahors (pronuncia-se caór) é seu centro nevrálgico. Ao longo do rio Lot, cheio de meandros, os vinhedos se espalham formando em altitudes escalonadas níveis de terraços. De toda a forma, não há comparação com o terroir argentino, de altitudes bem maiores.

Numa degustação recente na ABS-SP, exploramos estes dois terroirs (francês e argentino), percebendo nas taças suas diferenças, virtudes e diversidades. Vamos a eles, então.

terroir cahors

Terroir – Cahors

Apelação do sudoeste francês com pouco mais de três mil hectares de vinhas distribuídas ao longo do rio Lot, um tributário do Garonne, formando um terroir único e de características específicas. Na Idade Média era conhecido como “vinho negro” e muito apreciado pelos ingleses. Com a decadência da região pela ascensão dos vinhos bordaleses, culminando com a chegada da filoxera no final do século XIX, Cahors só conseguiu reerguer-se novamente na metade do século XX com um replantio consciente das vinhas numa espécie de renascimento.

Voltando ao terroir, junto ao rio, temos os primeiros terraços com solos aluviais de areia e limo, gerando vinhos mais ligeiros e de fácil abordagem. Subindo as encostas temos mais dois níveis de terraços onde o sílex se incorpora à argila e ao calcário em forma de pedras, chamado localmente de “éboulis du causse”. Aqui temos vinhos mais estruturados, ricos em taninos, e mais encorpados. Finalmente, os vinhos de planalto onde o sub-solo calcário domina a cena, promovendo vinhos um tanto duros na juventude, ricos em taninos e de alta acidez, e por conseguinte, vinhos de guarda. O esquema acima retrata bem este terroir. De toda a forma, as altitudes estão limitadas a trezentos metros.

terroir argentina x chile

Terroir – Mendoza

Na região argentina de Mendoza, esta uva adaptou-se muito bem e com enorme sucesso mundo afora. Trata-se de um terroir de altitude, ou seja, o clima quente aliado a uma bela insolação, sobretudo na época de maturação das uvas, não apresenta dificuldades para amadurecer as uvas Malbec. Pelo contrário, se quisermos obter vinhos mais finos e mais estruturados devemos buscar altitudes mais elevadas onde a chamada amplitude térmica preservar com muito equilíbrio a acidez das uvas, além de prolongar o ciclo de maturação fenólica. Dentro deste raciocínio, as zonas altas do rio Mendoza e o chamado Valle de Uco são as sub-regiões mais propícias para este sucesso.

Em Maipú e Lujan de Cuyo, setores de grande prestígio na zona alta de Mendoza, as altitudes giram em torno de mil metros. Essas alturas aliadas a solos pobres e bem drenados, criam um ambiente espetacular para uvas de alta qualidade. Somando-se a esses fatores as chamadas vinhas antigas, muitas com mais de 50 anos,  a equação fica perfeita. Vários Malbecs e também Cabernets fazem muito sucesso nessas áreas.

Um outro terroir mendocino relativamente mais recente é o Valle de Uco, setor de grandes altitudes na área de Mendoza. Aqui estamos falando acima de mil metros, chegando até números em torno de mil e quatrocentos metros de altitude. A insolação é espetacular, mas as uvas correm mais riscos no processo de amadurecimento, devido às intempéries, sobretudo os fortes ventos. No entanto, seus vinhos são muito equilibrados em termos de acidez, destacando-se pelo notável frescor. O esquema acima, mostra a influência da altitude.

don nicanor malbecmauricio lorca poetico

os destaques argentinos

Na degustação, os dois vinhos acima mostram bem a origem de seus respectivos terroirs. O da esquerda, Don Nicanor Barrel Select provem de Lujan de Cuyo, mostrando um Malbec mais encorpado, musculoso, e de notável maciez, envolvido pelos aromas da barrica. Já o da direta, o Lorca Poético, vem do Valle de Uco onde as maiores altitudes conferem um pouco mais de delicadeza, promovendo Malbecs mais equilibrados. Uma questão acima de tudo, de gosto pessoal. Os vinhos acima são importados pela Casa flora e Vinissimo, respectivamente da esquerda para direita. http://www.casaflora.com.br e http://www.vinissimostore.com.br

cahors chateau du cedre

grande capacidade de guarda

Os dois vinhos de Cahors mostram comportamentos diferentes. O vinho acima, Chateau du Cèdre, embora com seus praticamente oito anos, não mostra sinais de evolução. Pelo contrário, seus aromas são relativamente fechados, a boca marcada pelos taninos e acidez, sugerindo ainda um bom tempo de guarda. Percebe-se de maneira sutil, alguns toques de aromas terciários com notas defumadas e animais. De toda forma, muito equilibrado em boca. Importadora World Wine (www.worldwine.com.br).

lagrezette malbec

Safra 2004 com mais de dez anos

O outro Cahors, foto acima, trata-se do Chateau Lagrezette, chateau histórico da região, restaurado pelo bilionário Alain Dominique Perrin, executivo de alto escalão de várias marcas de luxo no Europa. Apesar de seus mais de dez anos, o vinho ainda pode ser guardado, embora já possa dar muito prazer. Taninos de boa presença e de grande qualidade. Os aromas terciários estão bem presentes, sugerindo algo de embutidos. Muito equilibrado, sua persistência aromática é expansiva com frutas, especiarias e notas defumadas. Grande final de prova. Importadora Decanter (www.decanter.com.br).

Na gastronomia, pratos típicos do sudoeste francês como Cassoulet e Confit de Canard são parceiros típicos destes Malbecs estruturados sob a apelação Cahors. Sua força, corpo, taninos e acidez, são componentes decisivos na harmonização, combatendo sobretudo a gordura e suculência destes clássicos.

Do lado argentino, o lado sedutor do vinho aliado aos aromas da barrica são grandes companheiros da rica tradição do país em carnes grelhadas e assadas. Para os Malbecs mais jovens e frutados, as típicas empanadas costumam ser um bom casamento também.

Decanter Wine Show 2012: Destaques

28 de Junho de 2012

Com um portfólio cada vez mais recheado de boas novidades, a importadora Decanter ano a ano vem se destacando no cenário nacional de vinhos importados. Os proprietários Adolar e Edson Hermann, pai e filho, respectivamente, cercados de grandes profissionais como Guilherme Corrêa e Cezar França, formam um time invejável neste mercado repleto de aventureiros.

Dos inúmeros vinhos apresentados, de produtores, países e regiões bastante diversas, três chamam a atenção quer pela boa relação preço/qualidade, quer pela originalidade e pouca difusão em nosso mercado.

Château Lagrézette 2004

A origem da uva Malbec na tradicional apelação francesa Cahors. Com 85% de Malbec e algumas pitadas de Merlot e Tannat, este tinto mostra classe e taninos bem trabalhados. Seus dezoito meses de barrica estão bem integrados ao conjunto, lembrando bons tintos de Bordeaux pelos aromas de torrefação e tabaco. Diametralmente oposto ao modelo argentino.

Nicodemi Notàri Montepulciano d´Abruzzo 2007

Nicodemi é um dos mais notáveis produtores da região italiana de Abruzzo. Seus vinhedos de altitude destacada, conduzidos organicamente, apresentam uvas de grande concentração e equilíbrio. A cuvée Notàri agrega as melhores partidas de vinho 100% montepulciano (uma das uvas tintas mais plantadas na Itália).  Com madeira criteriosamente dosada, consegue exprimir a força de seu terroir, denotando mineralidade, toques defumados, ervas e de chocolate amargo.

1583 Albariño De Fefiñanes 2010

O lado espanhol da uva Alvarinho (grafia portuguesa).No terroir de Rias Baixas, este 100% Albariño fermentado em barricas de carvalho de primeiro, segundo e terceiro usos, com seis meses de bâtonnage (movimentação da leveduras mortas na massa vínica), tem o mérito de manter grande frescor e mineralidade, aliando com sabedoria os benefícios da barrica (micro-oxigenação) e a riqueza de textura (contato sur lies).  


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