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Champagnes para 2018

7 de Dezembro de 2018

Nesta época do ano precisamos falar algumas palavras sobre Champagnes, o vinho das Festas e Comemorações. Disparadamente, o melhor espumante do planeta, Champagne também tem uma das maiores produções e estoques mundiais. Estamos falando em mais de 300 milhões de garrafas por ano e estoques em torno de 1,5 bilhão de garrafas. Metade deste negócio é exportado todos os anos. A outra metade faz a festa dos franceses.

Sempre é bom lembrar os desavisados sobre a nomenclatura confusa dos espumantes quando o assunto é açúcar residual, ou seja, o grau de doçura dos espumantes. Segue abaixo a nomenclatura em Champagne, geralmente copiada para outras regiões de espumantes mundo afora. Esses termos, não as dosagens, vêm escritos nos rótulos.

  • 0 a 3 gramas por litro = Pas Dosé, Dosage Zéro, ou Brut Nature
  • 0 a 6 gramas por litro = Extra-Brut
  • 0 a 12 gramas por litro = Brut
  • 12 a 17 gramas por litro = Extra Dry ou Extra Sec
  • 17 a 32 gramas por litro = Sec ou Dry
  • 32 a 50 gramas por litro = Demi-Sec
  • mais de 50 gramas por litro = Doux

Nas três primeiras categorias, o champagne é seco. Cuidado com os Extra-Brut e Pas Dosé. Apesar de estarem na moda, são extremamente secos. Não é todo mundo que gosta. Alguns chegam a ter uma certa adstringência em boca.

Os Extra-Dry  e Sec têm doçuras perceptíveis e podem combinar muito bem com pratos agridoces ou com algumas sobremesas delicadas com muito pouco açúcar. O famoso bolo de casamento, se inclui nestas categorias. Já o termo Doux está quase em desuso, além de ser extremamente doce.

Feitas as devidas considerações, vamos a algumas sugestões levando em conta originalidade, tipos e estilos diferentes, e lógico, a qualidade em si dos champagnes. Não são bebidas baratas, mas para quem está disposto a adquiri-las, são preços comparativamente interessantes. Encontrados no mercado brasileiro.

champagne deutz brutChampagne Deutz Brut Classic

Se você procura por um champagne de bom preço sem abrir mão da qualidade, esta é uma boa pedida. Embora seja importada pela Casa Flora, a Maison Deutz pode ser encontrada em várias lojas de bebidas finas por preços até abaixo de 300 reais, evidentemente esta cuvée básica sugerida. Casa de origem alemã, tem uma precisão incrível na elaboração de champagnes. Nesta cuvée, mescla com harmonia as três uvas (Chardonnay, Pinot Noir, e Pinot Meunier). Champagne elegante, bem balanceado em açúcar, ou seja, é agradavelmente seco. Desde os brindes até à mesa, tem competência para fazer a festa dos convivas.

champagne pierre peters

Champagne Pierre Péters Cuvée Extra Brut

Se você procura um champagne diferente, artesanal, a Maison Pierre Péters pode ser a solução. Sua produção não chega a 200 mil garrafas por ano com menos de 20 hectares na região da Côte des Blancs. Portanto, estamos falando exclusivamente de Chardonnay de vinhas antigas. Esta cuvée é composta só de vinhedos Grand Cru nos melhores anos. Sua dosagem de 2g/l de açúcar residual aguça sua mineralidade, revelando notável elegância. Champagne delicado para conhecedores. Importado pela Vinci com estoques reduzidos. http://www.vinci.com.br

champagne pierre gimonnet special club

Champagne Pierre Gimonnet Special Club 2005

Outro champagne artesanal e outro Blanc de Blancs. As vinhas são antigas e provenientes de vinhedos Grand Cru. 57% Cramant Grand Cru, 30% Chouilly Grand Cru e 13% Cuits Premier Cru. Algumas dessas vinhas foram plantadas em 1911. O vinho passa pelo menos cinco anos sur lies, antes do dégorgement. A dosagem final é de 6g/l de açúcar residual. Foram elaboradas apenas 25 mil garrafas desta cuvée. Além de ser um champagne safrado, é possível perceber o poder de envelhecimento destes champagnes especiais com mais de dez anos de evolução. Importadora Premium. http://www.premiumwines.com

champagne louis roederer rose

Champagne Louis Roederer Rosé Brut 2010

Para quem não abre mão dos rosés, eis um rosé confiável da excelente Maison Louis Roederer, famosa por sua cuvée de luxo, Cristal. Esta é a safra disponível no mercado, mas pode ser outras, pois sua consistência é notável. Este é um Rosé que trabalha com dois terços de Pinot noir e um terço Chardonnay. Um terço do vinho-base é vinificado em madeira inerte e não há fermentação malolática, preservando máximo frescor. A vinho passa quatro anos sur lies, antes do dégorgement e sua dosagem final é de 9 g/l de açúcar residual. A obtenção deste rosé é feita de uma maneira especial chamada “infusão”, ou seja, o Chardonnay é vinificado com uma maceração de Pinot Noir com as cascas para uma perfeita integração de cor e sabores. Não há uma importação exclusiva. Portanto, é encontrado nas boas casas de bebidas finas.

champagne drappier charles de gaulle

Champagne Drappier Charles de Gaulle

Para quem quer experimentar uma cuvée de luxo sem pagar uma fortuna, este é um champagne clássico, gastronômico, com alta porcentagem de Pinot Noir (80%) e Chardonnay (20%). O vinho passa pelo menos três anos sur lies antes do dégorgement e tem açúcar residual baixo de 7,5 g/l. Não é um champagne para bebericar e sim para ir à mesa, acompanhando aves assadas com molho de champignons, por exemplo. Importadora Zahil. http://www.zahil.com.br 

Com essas sugestões, não deve faltar champagne nas festa de final de ano para todos os gostos e bolsos. No mais, é aproveitar esses momentos de alegria e comemorações onde essas borbulhas mágicas nos fazem sonhar com dias melhores. 

 

 

Minha Seleção 2018 ABS-SP

28 de Novembro de 2018

Como um dos Diretores de Degustação da ABS-SP, neste artigo faço uma seleção dos dez melhores vinhos degustados na entidade ao longo de 2018. Alguns dos critérios escolhidos foram preço acessível, disponibilidade do produto, originalidade, e uma seleção com vários tipos de vinhos. É evidente que se trata de uma escolha pessoal onde alguns outros vinhos também interessantes ficaram de fora. Enfim, os dez escolhidos seguem abaixo.

1. Huet Vouvray Pétillant Brut 2007

Este é o único espumante da lista, e ainda assim um Pétillant (pouquíssimo gás dissolvido no vinho). Essa era a maneira tradicional de se elaborar Vouvray na chamada Old School. Apelação importante do Loire onde reina a casta Chenin Blanc. O produtor dispensa comentários, Domaine Huet. Esse vinho, a princípio um branco tranquilo, é engarrafado com algum açúcar residual natural, muito comum na região. Com o passar do anos em adega, ele adquire uma pequena quantidade de gás dissolvida, resultado de lenta fermentação daquele açúcar residual pelas leveduras naturais presentes no vinho. O resultado é um vinho extremamente gastronômico, de rica textura, e leve efervescência das borbulhas. Aromas elegantes e complexos denotando mel de flor de laranjeira, maracujá, amêndoas, e notas de pâtisserie. Pode ser uma bela opção para entradas com foie gras ou patês de caça, especialmente aves. Um vinho que vale no mínimo, pela curiosidade. Importadora Premium (www.premiumwines.com.br). 

2. Viña Aquitania Sol de Sol Chardonnay 2009

Se não for o melhor, está entre os melhores Chardonnays chilenos. Mais do que ser muito bom, provou que pode envelhecer bem, pois este exemplar com quase dez anos, estava em seu esplendor. Ainda muito rico em frutas tropicais, madeira bem integrada, e um equilíbrio notável. Tem um estilo europeu, bem diferente do que se espera de um vinho chileno. Já um clássico do Chile, é elaborado com uvas do frio Valle de Malleco, bem ao sul do país. Importadora Zahil.

ABS 2018 RICCITELLI SEMILLON

Descorchados: 92 pontos

3. Matias Riccitelli Old Vines Sémillon 2017

Um branco que foge totalmente dos padrões argentinos, velhas vinhas de Sémillon plantadas no anos 70 na fria região da Patagônia, bem ao sul do país. O vinho é amadurecido por seis meses em barricas  (60%) e tanques de concreto (40%). O contato com as leveduras após a fermentação por algumas semanas, confere textura e complexidade ao conjunto. Bela riqueza aromática, mesclando ervas, mel, baunilha, e pêssegos. Sempre macio, sem perder o fresco. Notável persistência aromática. Importadora Winebrands.

 

números 4 e 6

4. Travaglini Gattinara DOCG 2012

Travaglini é a grande referência quando falamos de Nebbiolo da DOCG Gattinara. Localizada bem ao norte da denominação Barolo, seus vinhos primam muito mais pela elegância e sutileza, do que pela potência. Com toques florais e de alcaçuz, este tinto é muito equilibrado e elegante. Seus taninos são delicados para a casta em questão, além de expansivo em boca. Preço bem razoável para Nebbiolos deste porte. Importadora World Wine.

5. Cantina Cellaro Due Lune IGT 2013

Com a Sicilia em voga, este é o segundo de uma série de italianos da lista. Um corte clássico da ilha com Nerello Mascalese predominando (70%) e Nero d´Avola como coadjuvante (30%). O vinho passa cerca de oito meses em barricas francesas. Um tinto moderno, mas de muita tipicidade, com bom poder de fruta, toques tostados elegantes, florais, e chocolate escuro. Bem balanceado em boca, taninos de boa textura, e final bem acabado. Preço bem honesto para o que oferece. Importadora Casa Flora.

6. Castellare di Castellina Chianti Classico 2014

Dos vários toscanos degustados ao longo de 2018, este Chianti Classico chamou a atenção pela elegância e por seu preço honesto. Madeira bem colocada, aromas típicos da Sangiovese, e taninos muito bem moldados. Seu belo frescor o torna muito gastronômico. Vinícola tradicional da região histórica de Castellina in Chianti. Importadora Mistral.

 

números 5 e 7

7. Chateau Fayau Bordeaux Superieur 2015

Premiando a bela safra 2015 de tintos bordaleses, este Chateau relativamente simples, mostrou tipicidade, equilíbrio, elegância, e sobretudo bom preço. Neste típico corte bordalês, uma expressiva porcentagem de Cabernet Franc presente, dá um toque a mais de elegância ao conjunto. Pronto para ser tomado. Importadora Mistral.

8. Vinhas da Ciderma Grande Reserva 2007

Nas últimas degustações do ano, apareceu este belo tinto do Douro com castas locais, esbanjando classe e vivacidade. Embora já com dez anos de evolução, não denuncia a idade. Muita fruta no aroma, toques resinosos e de alcaçuz com taninos de ótima textura. Madeira bem equilibrada e bela expansão em boca. Ótimo momento para ser apreciado. Importadora Premium.

 

números 9 e 10

9. Quinta do Noval Porto LBV Unfiltered 2009

Podemos considera-lo como um mini-vintage, tal a concentração e qualidade deste Porto. Cor retinta, aromas de frutas escuras, toques florais, de torrefação e algo mineral. Seus taninos são densos e muito bem construídos. Doçura e equilíbrio notáveis, além de uma bela persistência aromática. Convém decanta-lo para aeração e também na separação dos sedimentos, já que não é filtrado. Dentro da categoria LBV é dos mais distintos. Importadora Adega Alentejana (www.alentejana.com.br).

10. Alois Kracher Noble Reserve Trockenbeerenauslese 

Finalizando a lista, um belo vinho botrytisado da Áustria. O produtor Alois Kracher é referência na região de Burgenland, famosa pela regularidade em propiciar o fenômeno da “podridão nobre”. Num corte inusitado de Welschriesling (Riesling Itálico), Chardonnay, e Traminer, o vinho é maturado em grandes toneis de madeira inerte. Com 195 g/l de açúcar residual, sua doçura é perfeitamente equilibrada por uma revigorante acidez. Os aromas marcantes de Botrytis, mel, flores, e pêssegos, são notáveis. Untuoso em boca e de grande persistência aromática. Pela complexidade e estilo de vinho, tem um preço bem convidativo na importadora Mistral. Vale lembrar, neste tipo de vinho estamos falando em meia-garrafa.

Passando por vários tipos, estilos, preços, e regiões de vinhos, espero que esta lista possa ajuda-los nas compras e presentes no fim de ano com a aproximação das festas e comemorações. As safras e preços podem ter sido alteradas ao longo do ano, mas nada que prejudiquem a qualidade e indicação destes vinhos. A maioria varia entre 150 e 300 reais. Aproveitem!

Final Masterchef 2018: Harmonização

2 de Agosto de 2018

Como de costume, Vinho Sem Segredo harmoniza o menu da prova final do programa Masterchef da Band. E mais uma vez esclareço, é apenas um exercício de enogastronomia. Aqui não há defesa ou ataque ao programa, criando polêmicas. A despeito das críticas, as quais concordo com muitas delas, o programa é um sucesso. A sucessão de temporadas ininterruptas fala por si.

Considerações feitas, vamos aos pratos. O candidato Hugo optou por um menu mais ousado e criativo, trilhando um caminho mais arriscado. Já Maria Antonia, não saiu dos clássicos, ficando numa zona de maior conforto. Mesmo assim, esqueceu ingredientes importantes para as receitas e houve falhas notáveis na execução dos pratos. A justificativa do prêmio foi o sabor. Enfim, questão de ponto de vista.

Entradas 

HugoCamarão ao molho de tucupi

O camarão é cozido no vapor, preservando a delicadeza do crustáceo. O sabor  e a presença do tucupi é que vai nortear a harmonização. O prato de Hugo é rico em ervas e especiarias. O único senão do prato foi a falta de um elemento crocante para acompanhar o caldo. Para harmonizar, escolhemos um vinho também inovador e contemporâneo de origem eslovena do produtor Simcic Marjan da importadora Decanter. É um branco elaborado com a uva Sauvignonasse, sinônimo da antiga Tocai Friulano, envolvendo maceração e contato sur lies. Um vinho de rica textura, muito aromático, e destacada mineralidade, sem nenhum contato com madeira. Este vinho levanta os sabores do prato, preservando a sutileza e personalidade do mesmo.

Maria Antoniaragu de cogumelos, ovo mollet e trufas

Na entrada acima de Maria Antonia, nada de novidade, absolutamente clássico. O prato foi bem executado com cogumelos bem temperados, ovo no ponto correto, e as trufas dando um charme final. O óbvio e clássico na harmonização é um Bourgogne Blanc com certo grau de evolução, enfatizando seus aromas terciários. Outro clássico já não tão comum, seria um Chateau Grillet, o melhor da apelação Condrieu com a uva Viognier, de alguns anos de adega. As trufas agradecem …

Pratos Principais

HugoRagu de coelho com pirão de leite

Mais um prato moderno do finalista Hugo, mostrando boa técnica na execução. Um ragu clássico com ervas e especiarias no molho, mas com inovação no pirão de leite. Pirão este onde a farinha de mandioca vai engrossando o leite aos poucos. Um prato saboroso e delicado ao mesmo tempo. O vinho para a harmonização deve acompanhar esses aromas e delicadeza. Nada melhor que o Chianti Classico Castello di Ama da importadora Mistral. Um tinto super equilibrado que só vai valorizar o prato.

Maria Antoniapappardelle com ragu de ossobuco de vitela

Outro clássico italiano proposto por Maria Antonia com algumas ressalvas. Ela esqueceu de acrescentar tomates ao molho e perdeu a mão na confecção da massa caseira. O que a salvou foi o sabor do molho e a farofa de tutano com pão ralado. Um prato rico de sabores, pedindo um tinto de personalidade. Saindo um pouco das regiões clássicas italianas, um tinto da Sicilia do lado do Etna com seu solo vulcânico, pode ser uma boa pedida. A uva Nerello Mascalese molda belos exemplares na região. A importadora Casa Flora tem um exemplar chamado Due Lune, mesclando as uvas Nerello Mascalese e Nero d´Avola. Um vinho marcante, saboroso e de madeira elegante.

Sobremesas

Hugotorta de maça e sorvete de cumaru

Mais um prato inovador do finalista Hugo, uma torta de maçã desconstruída com sorvete de cumaru. É uma sobremesa com muito pouco açúcar e um sorvete relativamente neutro. Seguindo a modernidade de seu menu, vamos de Icewine para esta sobremesa. É uma especialidade canadense, dificilmente encontrada no Brasil. É um vinho doce que vai bem com sobremesas leves, com frutas frescas, e com sorvetes de um modo geral. Geralmente, eles usam uma uva híbrida chamada Vidal. Um vinho não muito doce, muito boa acidez, e de sabor delicado. Eventualmente, pode ser encontrado no empório Santa Luzia.

Maria Antoniasorvete de mascarpone, biscuit, e calda de chocolate

Na sobremesa proposta por Maria Antonia outro clássico, Tiramisu,  mas desta vez desconstruído, dando um toque de modernidade. Pena que o sorvete desandou e a calda que deveria ter café, foi mais um esquecimento da finalista. De todo modo, os sabores estavam corretos, e foram primordiais para sua vitória. Continuando no classicismo, a harmonização pensando no lado italiano fica com o Recioto della Valpolicella. É a versão doce do grande tinto do Veneto, Amarone. Com sobremesas à base de chocolate é um vinho certeiro, sem ser muito doce. Outra opção italiana interessante seria um Marsala dolce, o mais famoso fortificado siciliano.

Em resumo, pratos de sabores e texturas variadas, ora num estilo mais moderno, ora num estilo clássico. Seja como for, há sempre vinhos para escolta-los adequadamente, enriquecendo a refeição e dando sentido à enogastronomia.

Mude a cor de seu vinho!

12 de Janeiro de 2018

Por que consumir vinho rosé? Porque ele é versátil, é gastronômico, e é mais uma opção além de tintos e brancos. Mas rosé não é só uma nuance de cor. Precisa saber fazer rosé. Precisa de propostas e terroir adequados ao estilo. Assim como nos espumantes a referência é Champagne, no mundo dos rosés a referência é Provence. Novamente a França nos ensinando o caminho.

vin rose consumação 2015

 consumimos menos de um por cento no ranking mundial

O rosé provençal é leve, fresco, charmoso. Tem balanço, equilíbrio, e personalidade. É líder no setor de rosés franceses, pois regiões como Loire e Rhône também elaboram este tipo de vinho. A uva deve estar suficientemente madura para não transparecer traços herbáceos negativos, e nem um frutado demasiado, perdendo o equilíbrio. Portanto, o ponto de colheita é um dos segredos deste vinho. Para isso, uvas e climas adequados são fundamentais.

vin rosé produção mundial 2015

cerca de 10% dos vinhos tranquilos são rosés

Na cantina, temos basicamente dois caminhos: o rosé de pressurage ou o rosé saignée. Pressurage é o processo mais delicado onde se obtêm os rosés mais elegantes e sutis. É uma leve prensagem antes do inicio da fermentação, deixando as casca em contato por breve tempo. O método saignée pressupõe já um início de fermentação onde a cor é extraída com mais intensidade. Normalmente, perde um pouco a delicadeza, mas pode ser muito gastronômico por possuir mais corpo e estrutura. 

vin rosé exportação volume 2015

a liderança mundial espanhola em termos de volume

Numa ordem de prioridade, os rosés provençais são praticamente imbatíveis e não custam tão caro assim. Atualmente, entre 100 e 150 reais, há ótimos exemplares. Até mesmo por menos de 100 reais, pode-se encontrar algo interessante, pesquisando um pouco. Caso o bolso esteja mais cheio, prove um dos rosés do Domaines Ott. Delicados ao extremo, é importado pela Clarets. Se  quiser continuar na França, o caminho natural segue para os vales do Loire e do Rhône. No primeiro, os vinhos tendem a ser mais leves e delicados, enquanto os do Rhône costumam ser mais encorpados e gastronômicos, sobretudo o famoso Tavel. Uma região pouco difundida, mas que vale a pena provar são os rosés do sudoeste francês, principalmente na região de Gaillac. Alain Brumont tem um belo exemplar na importadora Decanter da região de Ténarèze, região do Armagnac, vizinha a Gaillac. Mesclando Tannat, Merlot, e Syrah, este rosé acompanha muito bem embutidos, jamon serrano, e uma bela pizza de calabresa artesanal com toques de erva-doce.  

vin rose exportação valor 2015

exportação em valores, França e Itália se equilibram

Ainda em território francês, vale a pena provar o rosé bordalês de Denis Dubourdieu, Le Rosé de Floridene, importado pela Casa Flora. Muito mais pelo produtor do que propriamente pela região.

Fora da França, as regiões espanholas de Navarra e Rioja elaboram belos rosés. As duas juntas respondem por cerca de 45% dos vinhos rosados espanhóis. Um belo rosé elaborado por Julián Chivite com a casta Garnacha, o Gran Feudo Rosado sai por menos de 100 reais na Importadora Mistral. As tradicionais bodegas de Rioja costumam fazer rosados bem interessantes. Aqui no Brasil, Viña Tondonia e CVNE são representadas pela importadora Vinci.

Partindo para a Itália, temos a versão rosé do Montepulciano d´Abruzzo chamada Cerasuolo. A importadora Ravin traz o produtor Zaccagnini com vinhos sempre bem equilibrados.  

Voltando aos franceses, os rosés provençais chegam a 42% da produção anual das apelações francesas (AOC) para este tipo de vinho. Eles também respondem por 89% da produção total na região provençal, sendo o restante, 7% de tintos e 4% de brancos.  

Enogastronomia

Uma infinidade de pratos podem acompanha-los. Temperos mais pronunciados, pimentas, ervas, especiarias, alho, são bons parceiros para este tipo de vinho. Bem mesclados em tortas, pizzas, bruschettas, com atum, frango, ou embutidos, é a receita ideal de harmonização.

Nos mais variados buffets espalhados pela cidade como Rascal, por exemplo, uma garrafa de rosé passeia com tranquilidade por várias daquelas entradinhas, presuntos, pimentões com azeite e alho, e assim por diante.

É um vinho de praia, de verão, bem refrescante, acompanhando vários pescados e frutos do mar servidos em restaurantes. Um camarão a provençal é uma combinação ótima. Entradas frias com carnes bem temperadas como carne louca por exemplo, é outra pedida certa. Até um vitello tonnato entra na brincadeira.

Enfim, siga os franceses, maiores produtores, exportadores e consumidores de rosés do mundo. Quem sabe daqui alguns anos, o Brasil passa entrar nas estatísticas, ao menos como consumidor.

Os vinhos de 2017

1 de Dezembro de 2017

Fazendo um apanhado das várias degustações realizadas na ABS-SP em 2017, seguem algumas dicas e lembranças de vinhos nos seus mais variados estilos e preços, até já pensando nas festas de fim de ano que se aproximam. São avaliações estritamente pessoais que seguem abaixo, separadas por estilos e tipos de vinhos.

Espumantes     

Esse é o tipo de vinho que não pode faltar nesta época do ano, embora em várias oportunidades, lembramos sempre de sua versatilidade e compatibilidade gastronômica nas mais variadas situações.    

grand cru tasting 2017 geisse cuvee sofia magnum

Dos nacionais: Cave Geisse com larga vantagem. Não importa qual, um espumante de alta qualidade com informações úteis de safra e data de dégorgement. Importadora Grand Cru.

Dos Internacionais: num preço intermediário, os Cavas apresentam boas ofertas em várias importadoras. Menção especial aos Gramonas, importados pela Casa Flora.

Dos Champagnes: as opções são imensas, sobretudo se preço não for problema. Em todo caso, Deutz da Casa Flora, Jacquesson da Franco Suissa, e  Pierre Gimonnet para quem não abre mão de um delicado Blanc de Blancs, são belas opções. Este último, da importadora Premium.

Brancos leves

Aqui, fugindo totalmente daquele tipo de branco do “inho”. Levinho, gostosinho, equilibradinho, e assim vai. São brancos que possuem leveza, elegância, mas com profundidade e equilíbrio. 

Henri Bourgeois Sancerre Le MD de Bourgeois 2014 – Grand Cru

Fritz Haag Riesling Trocken 2015 – Grand Cru 

Brancos estruturados

abs tondonia blanco 2000

Lopez de Heredia Viña Tondonia Reserva 2000 – Vinci

Baseado na casta Viura ou Macabeo, este branco passa por um trabalho de barrica excepcional. Embora longamente amadurecido, a madeira se funde completamente ao vinho, protegendo-o da oxidação e enaltecendo a fruta e riqueza aromática. Pessoalmente, esta bodega elabora os melhores brancos de longa guarda de toda a Espanha. O melhor branco degustado em 2017.

Rosés

Quando se fala em rosés, fala-se em Provence. Não há nada que se compare à elegância e tipicidade desses vinhos. Portanto, qualquer compra desses rosés entre 100 e 150 reais, dificilmente não satisfará. 

antinori scalabrone

Antinori Scalabrone Rosé 2015 – Winebrands

Aqui temos uma das poucas exceções de rosés que valem a pena. Belo trabalho da Tenuta Guado al Tasso mesclando Cabernet Sauvignon, Merlot e Syrah, sem interferência da madeira. Um rosé de presença em boca, muito gastronômico, um pouco mais encorpado que os provençais, mas muito bem feito. Um salada de polvo com toques de ervas e especiarias é uma bela harmonização.

Tintos leves

Novamente aqui, aquela conotação de profundidade, meio de boca, embora com graça e delicadeza.

Marziano Abbona Dolcetto di Dogliani Superiore Papà Celso 2013 – Mistral

Não é um Dolcetto barato, mas está longe de ser comum. Parreiras antigas, rendimentos baixos, são fatores determinantes para um tinto de grande concentração de sabor. Tanicidade moderada, muito macio, mas com ótimo frescor. É perfeitamente comparável ao Dolcetto do Roberto Voerzio, outro grande produtor piemontês.

Antonio Saramago Risco tinto 2013 – Vinissimo

Um vinho relativamente barato e sem grande sofisticação, mas extremamente bem feito. Equilibrado, fruta bem colocada, frescor na medida certa. Vinho de destaque para o dia a dia e muito gastronômico.

Tintos estruturados

Cantine Cellaro Due Lune IGT 2013 – Casa Flora

Um italiano da Sicilia que mescla as uvas Nero d´Avola e Nerello Mascalese com muita fruta, taninos bem moldados, e bom contraponto de acidez. Bom corpo, persistente, e bem equilibrado.

Rupert & Rothschild Classique 2012 – Zahil

Para quem gosta do estilo bordalês clássico, este sul-africano tem elegância e equilíbrio. De corpo médio, é um vinho normalmente pronto para o consumo e muito gastronômico.

Clarendon Hills Bakers Gully Syrah 2009 – Vinissimo

Eta australiano bom!. Sempre com vinhos muito equilibrados, este Syrah não foge à regra. Bela fruta, taninos polidos, e muito frescor. Vinho com profundidade e persistência.

Quinta Vale Dona Maria VVV Valleys 2013 – World Wine

Um exemplo de elegância e robustez no Douro. Taninos abundantes, mas muito bem trabalhados, além do belo frescor. Bom corpo, sem ser cansativo. Um belo tinto para os assados de fim de ano.

Chateau Haura Graves 2014 – Casa Flora

Uma homenagem acima de tudo a Denis Dubourdieu, grande enologista bordalês, falecido recentemente. Muita tipicidade de Graves com seus toques terrosos e balsâmicos. Belos taninos, elegante, e muito equilibrado. Tudo que um bom cordeiro espera.

abs zambujeiro

Terra do Zambujeiro 2012 – Casa Flora

Um dos grandes tintos do Alentejo sem ter que pagar uma fortuna por isso. Blend bem balanceado com Alicante Bouschet, Trincadeira, Aragonês, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon. Tem o toque na medida de barricas francesas. Grande concentração, maciez, e persistência aromática. 

Pesquera Crianza 2013 – Mistral

Para aqueles que não podem ter um Vega-Sicilia, Pesquera é muito mais que um consolo. Tempranillo elegante de escola tradicional de Ribera del Duero. Toques balsâmicos com a maestria exata da barrica. Fino, elegante, e muito consistente a qualquer safra.

grand cru tasting 2017 bodegas mauro

Bodegas Mauro 2014 – Grand Cru 

Mariano Garcia sabe dar o toque exato de modernidade num vinho que está fora da nobre denominação de Ribera del Duero, sem perder suas raízes. Longe da rusticidade taxada para este tipo de vinho, seu Tempranillo é pura elegância, profundidade, e muita personalidade. Sempre um porto seguro.

Pulenta Estate XI Gran Cabernet Franc 2013 – Grand Cru 

Este produtor argentino apresenta uma consistência impressionante em seus vinhos, desde os mais simples, até seus ícones, como este belo Cabernet Franc. Embora seus Malbecs sejam dignos de nota, uma homenagem a esta cepa sempre relegada a segundo plano. Vinho elegante, equilibrado, fugindo do lugar comum.

abs stonyridge 2008

Stonyridge Larose 2008 – Premium 662 reais

Não é um vinho barato, mas vale cada centavo. Em termos de Brasil, é difícil um autêntico Bordeaux de margem esquerda batê-lo nesta faixa de preço (seiscentos reais). Um nariz complexo, taninos muito finos, e longa persistência. Apesar da idade, tem muita vida pela frente. É imperativo decanta-lo para uma boa apreciação. Um neozelandês de peso. Sem dúvida, o vinho do ano.

Vinhos doces

abs carcavelos

Villa Oeiras Carcavelos Branco Blend 10 anos – Adega Alentejana      

Carcavelos é uma denominação nos arredores de Lisboa quase extinta. Graças a alguns visionários como Villa Oeiras, temos uma faísca de esperança em sua manutenção. O fortificado preferido de Marques de Pombal, embora sua contribuição para o Vinho do Porto seja imensa. Este 10 anos apresenta concentração, frescor, e longa persistência aromática. Lembra de certo modo alguns Madeiras.

Domaine Paul Mas Maury Mas des Mas 2011 – Decanter

Os fortificados franceses se apegam muito ao Banyuls, esquecendo de um concorrente ilustre chamado Maury, de localização mais interiorana na área de Roussillon. Também elaborado com Grenache, segue o mesmo padrão de vinificação do famoso vinho do chocolate. Com certa passagem por madeira, lembra os típicos Tawnies portugueses da linha Reserva. Bela alternativa às opções cotidianas.

Quando se vê já se passou um ano, quando se vê já se foram vinte e sete anos de ABS-SP. Agora é tarde demais para ser reprovado. Mário Quintana estava certo …

Alentejo para os portugueses

14 de Setembro de 2017

Não é de hoje que os portugueses dão ampla preferência aos vinhos alentejanos em suas mesas. A agradabilidade, o bom preço pela qualidade oferecida, e boa disponibilidade no mercado, são fatores mais do que suficientes para justificar o fato. É bem verdade que os chamados vinhos ex-mesa, vinhos sem denominações específicas, ou os antigos vinhos de mesa, ainda tem muita penetração, sobretudo pelo preço praticamente sem concorrência.

portugal consumo interno vinhos 2016

Só para falarmos em números, o consumo português em 2016 dos alentejanos foi de mais de 44 milhões de litros, cerca de 18% do mercado interno. Regiões mais famosas e tradicionais como Douro e Dão, foram de 11 e 4 milhões de litros, respectivamente. É bom frisar que quando falamos em Douro, estamos excluindo o Vinho do Porto. Neste contexto mais formal, o Alentejo responde por 45% do mercado português, sem as estatísticas dos vinhos ex-mesa.

O preço médio por litro do vinho alentejano em Portugal é cerca de quatro euros, não muito abaixo do Douro e do Dão. Curiosamente, os vinhos do Algarve por ser uma região turística, fica em torno de catorze euros o litro. Convenhamos que para vinhos desta qualidade duvidosa, é coisa de turista mesmo.

A produção do vinho alentejano é bastante expressiva, perdendo apenas para o Douro que neste caso, inclui o Vinho do Porto. Dos seis milhões de hectolitros produzidos em 2016 em Portugal, 22% ficou com o Douro e 17% com o Alentejo.

Quanto às exportações, os vinhos alentejanos respondem por cerca de 20% mercado externo, sendo dois terços dentro da Europa e um terço para o restante. Dentre este restante, curiosamente Angola é o primeiro mercado, seguido pelo Brasil e Estados Unidos, respectivamente.

rocim mariana tinto 2014

tinto agradável de bom preço

O vinho acima da importadora World Wine (www.worldwine.com.br) mostra-se bastante agradável, macio, e de boa persistência aromática. É o tinto de entrada da Herdade do Rocim por menos de oitenta reais aqui no Brasil. Um vinho que sobretudo, privilegia a fruta em relação aos toques de barrica.

O quadro abaixo, mostra que praticamente todo vinho alentejano é certificado, ou seja, DOC ou IG, vinhos com garantia de origem e controle. Podemos perceber também que a maciça maioria dos vinhos são tranquilos com tintos e brancos.

alentejo dop igp 2014praticamente todo vinho alentejano é certificado

Oitenta por cento do vinho alentejano são de vinhos tintos, geralmente muito frutados, macios e de boa alcoolicidade. Embora os mais estruturados possam ser guardados, mesmo em tenra idade, é um vinho bastante prazeroso. Seu corte clássico e que dá a tão esperada tipicidade é baseado nas uvas Aragonês e Trincadeira, sendo Tinta Roriz e Tinta Amarela na região do Douro, respectivamente. Outras castas típicas são Alfrocheiro e Alicante Bouschet, normalmente em proporções menores. Castas que conferem um ar de modernidade são Cabernet Sauvignon, Syrah, e Touriga Nacional. Esta última, muito em moda em Portugal.

Em termos de terroir, sete sub-regiões estão muito próximas umas das outras, ficando apenas Portalegre mais isolada ao norte. Granja-Amareleja, Vidigueira e Moura, mais ao sul, desfrutam de um clima mais quente, normalmente faltando um pouco de frescor a seus vinhos. Borba, Évora, Redondo e Reguengos, no centro da região, possuem um clima menos dramático, resultando a princípio, num melhor equilíbrio. Já Portalegre, num clima mais ameno a norte, desfruta também de um solo diferenciado, mais xistoso. Seus vinhos costumam ter mais frescor. O ícone maior desta região diferenciada é a tradicional Herdade do Mouchão com vinhos complexos e longevos. Importados no Brasil pela Adega Alentejana. http://www.alentejana.com.br

Como sugestão de vinhos da região, dois exemplares degustados recentemente e de estilos bem opostos, mostrando o potencial da região.

alentejo monte da ravasqueira

discrição e elegância

O vinho acima mostra um corte de Syrah e Touriga Franca que passa cerca de 20 meses em carvalho francês novo. O primeiro ponto positivo é a perfeita integração com a madeira, mostrando uma fruta delicada sem ser excessivamente presente. A acidez é o ponto alto de equilíbrio do vinho com um frescor inesperado para a região. De fato, por questões de terroir, esta vinha mostra boa amplitude térmica, justificando todo este frescor. É um tinto muito gastronômico, sobretudo por não ser dominante na harmonização. Importadora Tahaa Vinhos (www.tahaavinhos.com.br).     

alentejo terra de zambujeiro

Zambujeiro: referência na região

Quando pensamos nos grandes vinhos alentejanos, lembramos logo do Pera Manca, Cartucha Reserva, além do Mouchão já citado. Porém, não devemos nos esquecer da Quinta do Zambujeiro. Vinhos de grande estrutura e longevidade. O principal ponto para este sucesso é trabalhar com baixos rendimentos por vinha, concentrando sobremaneira os sabores. Na média, o rendimento de suas vinhas é da ordem de 23 hl/ha, ou seja, extremamente baixo.

O vinho acima degustado, reflete bem este perfil. Embora seja o segundo na hierarquia da vinícola, mostra uma concentração e estrutura impressionantes. Muita fruta, nenhum excesso de barrica, apesar de passar 24 meses em madeira. Seus taninos são possantes e finos. Meio de boca bem preenchido e longa persistência. Fica uma pontinha de álcool no final, mas agradavelmente quente. Afinal, são 15º de álcool bem domados para um tinto deste porte. Importado por Casa Flora (www.casaflora.com.br). 

Malbec: Altitude x Atitude

17 de Julho de 2016

Os Malbecs argentinos estão tão presentes em nosso dia a dia que muitas pessoas não sabem ou esquecem que a origem desta uva é francesa. Menos divulgado ainda é a região de sua terra natal, o sudoeste francês. Dentre as várias apelações deste pedaço da França, Cahors (pronuncia-se caór) é seu centro nevrálgico. Ao longo do rio Lot, cheio de meandros, os vinhedos se espalham formando em altitudes escalonadas níveis de terraços. De toda a forma, não há comparação com o terroir argentino, de altitudes bem maiores.

Numa degustação recente na ABS-SP, exploramos estes dois terroirs (francês e argentino), percebendo nas taças suas diferenças, virtudes e diversidades. Vamos a eles, então.

terroir cahors

Terroir – Cahors

Apelação do sudoeste francês com pouco mais de três mil hectares de vinhas distribuídas ao longo do rio Lot, um tributário do Garonne, formando um terroir único e de características específicas. Na Idade Média era conhecido como “vinho negro” e muito apreciado pelos ingleses. Com a decadência da região pela ascensão dos vinhos bordaleses, culminando com a chegada da filoxera no final do século XIX, Cahors só conseguiu reerguer-se novamente na metade do século XX com um replantio consciente das vinhas numa espécie de renascimento.

Voltando ao terroir, junto ao rio, temos os primeiros terraços com solos aluviais de areia e limo, gerando vinhos mais ligeiros e de fácil abordagem. Subindo as encostas temos mais dois níveis de terraços onde o sílex se incorpora à argila e ao calcário em forma de pedras, chamado localmente de “éboulis du causse”. Aqui temos vinhos mais estruturados, ricos em taninos, e mais encorpados. Finalmente, os vinhos de planalto onde o sub-solo calcário domina a cena, promovendo vinhos um tanto duros na juventude, ricos em taninos e de alta acidez, e por conseguinte, vinhos de guarda. O esquema acima retrata bem este terroir. De toda a forma, as altitudes estão limitadas a trezentos metros.

terroir argentina x chile

Terroir – Mendoza

Na região argentina de Mendoza, esta uva adaptou-se muito bem e com enorme sucesso mundo afora. Trata-se de um terroir de altitude, ou seja, o clima quente aliado a uma bela insolação, sobretudo na época de maturação das uvas, não apresenta dificuldades para amadurecer as uvas Malbec. Pelo contrário, se quisermos obter vinhos mais finos e mais estruturados devemos buscar altitudes mais elevadas onde a chamada amplitude térmica preservar com muito equilíbrio a acidez das uvas, além de prolongar o ciclo de maturação fenólica. Dentro deste raciocínio, as zonas altas do rio Mendoza e o chamado Valle de Uco são as sub-regiões mais propícias para este sucesso.

Em Maipú e Lujan de Cuyo, setores de grande prestígio na zona alta de Mendoza, as altitudes giram em torno de mil metros. Essas alturas aliadas a solos pobres e bem drenados, criam um ambiente espetacular para uvas de alta qualidade. Somando-se a esses fatores as chamadas vinhas antigas, muitas com mais de 50 anos,  a equação fica perfeita. Vários Malbecs e também Cabernets fazem muito sucesso nessas áreas.

Um outro terroir mendocino relativamente mais recente é o Valle de Uco, setor de grandes altitudes na área de Mendoza. Aqui estamos falando acima de mil metros, chegando até números em torno de mil e quatrocentos metros de altitude. A insolação é espetacular, mas as uvas correm mais riscos no processo de amadurecimento, devido às intempéries, sobretudo os fortes ventos. No entanto, seus vinhos são muito equilibrados em termos de acidez, destacando-se pelo notável frescor. O esquema acima, mostra a influência da altitude.

don nicanor malbecmauricio lorca poetico

os destaques argentinos

Na degustação, os dois vinhos acima mostram bem a origem de seus respectivos terroirs. O da esquerda, Don Nicanor Barrel Select provem de Lujan de Cuyo, mostrando um Malbec mais encorpado, musculoso, e de notável maciez, envolvido pelos aromas da barrica. Já o da direta, o Lorca Poético, vem do Valle de Uco onde as maiores altitudes conferem um pouco mais de delicadeza, promovendo Malbecs mais equilibrados. Uma questão acima de tudo, de gosto pessoal. Os vinhos acima são importados pela Casa flora e Vinissimo, respectivamente da esquerda para direita. http://www.casaflora.com.br e http://www.vinissimostore.com.br

cahors chateau du cedre

grande capacidade de guarda

Os dois vinhos de Cahors mostram comportamentos diferentes. O vinho acima, Chateau du Cèdre, embora com seus praticamente oito anos, não mostra sinais de evolução. Pelo contrário, seus aromas são relativamente fechados, a boca marcada pelos taninos e acidez, sugerindo ainda um bom tempo de guarda. Percebe-se de maneira sutil, alguns toques de aromas terciários com notas defumadas e animais. De toda forma, muito equilibrado em boca. Importadora World Wine (www.worldwine.com.br).

lagrezette malbec

Safra 2004 com mais de dez anos

O outro Cahors, foto acima, trata-se do Chateau Lagrezette, chateau histórico da região, restaurado pelo bilionário Alain Dominique Perrin, executivo de alto escalão de várias marcas de luxo no Europa. Apesar de seus mais de dez anos, o vinho ainda pode ser guardado, embora já possa dar muito prazer. Taninos de boa presença e de grande qualidade. Os aromas terciários estão bem presentes, sugerindo algo de embutidos. Muito equilibrado, sua persistência aromática é expansiva com frutas, especiarias e notas defumadas. Grande final de prova. Importadora Decanter (www.decanter.com.br).

Na gastronomia, pratos típicos do sudoeste francês como Cassoulet e Confit de Canard são parceiros típicos destes Malbecs estruturados sob a apelação Cahors. Sua força, corpo, taninos e acidez, são componentes decisivos na harmonização, combatendo sobretudo a gordura e suculência destes clássicos.

Do lado argentino, o lado sedutor do vinho aliado aos aromas da barrica são grandes companheiros da rica tradição do país em carnes grelhadas e assadas. Para os Malbecs mais jovens e frutados, as típicas empanadas costumam ser um bom casamento também.

MasterChef: Harmonizações

25 de Dezembro de 2015

Nesta época do ano todo mundo fica ligado num menu especial para o Natal e Réveillon. Aproveitando o sucesso do programa MasterChef, resolvi harmonizar alguns vinhos com os pratos testados e mostrados nesta edição. Havia na verdade dois menus, mas achei melhor mesclar alguns pratos de ambos, priorizando a facilidade tanto na execução dos mesmos, como nos preços e dificuldade de encontrar alguns ingredientes. Portanto, segue menu abaixo com duas entradas, dois pratos e uma sobremesa.

  • Cuscus Marroquino
  • Salada de Bacalhau com Grão de Bico
  • Ravioli de Lagostim e Damasco
  • Pernil de Cordeiro com Figos Glaceados
  • Bolo de Nozes

Vamos imaginar para este menu uma mesa com oito pessoas onde cada um pode escolher a dedo seus convidados. Neste contexto, podemos pensar em quatro garrafas de vinhos com uma média de meia garrafa por pessoa. Acho prudente esta medida, equilibrando bem a quantidade de comida e bebida.

sempre consistente

  • Cuscus Marroquino
  • Cava Brut Reserva

Este espumante espanhol pode perfeitamente ser servido na recepção dos convidados, com alguns canapés, e passar à mesa com a primeira entrada. Para isso, ele tem o frescor e leveza fora da mesa e ao mesmo tempo, faz um belo par com o cuscus e uma série de frutas secas e temperos que dão crocância ao prato.

Cava Raventós ou Gramona. Respectivamente, importadora Decanter e Casa Flora.

http://www.decanter.com.br e http://www.casaflora.com.br

  • Salada de Bacalhau com Grão de Bico
  • Alvarinho Palacio da Brejoeira

Os sabores do bacalhau e a textura do grão de bico casam perfeitamente com as características deste branco. Casta nobre da região do Minho, norte de Portugal, seus aromas são frescos e cítricos. Em boca, sua textura delicada e sua bela acidez combatem bem a gordura do peixe e o lado cremoso do prato, além de manter o paladar aguçado para os pratos subsequentes.

Alvarinho da importadora Vinci. http://www.vinci.com.br

Rosé de referência

  • Ravioli de Lagostim e Damasco
  • Chateau de Pibarnon Rosé

Um rosé provençal da apelação Bandol com as uvas Mourvèdre (2/3)  e Cinsault (1/3).  O método de elaboração de rosé para a Cinsault é de pressurage direct, mais delicado, enquanto para a Mourvèdre temos o método Saignée, com mais extração. As uvas são vinificadas  juntas e mantidas em cubas por seis meses após a vinificação. O resultado é um rosé gastronômico com toda a estrutura da Mourvèdre, mas mantendo o frescor e poder de fruta da Cinsault. Os sabores cítricos, minerais e de especiarias do vinho formam um conjunto harmonioso com o prato. Outro ponto importante é o crescimento escalonado de estrutura e textura dos vinhos para chegar enfim ao último prato principal.

Rosé da importadora Zahil. http://www.zahil.com.br

  • Pernil de Cordeiro com Figos Glaceados
  • Rioja Luis Cañas Reserva Seleccion de la Familia

Tinto baseado na Tempranillo com vinhas de pelo menos 45 anos. Passa dezoito meses em barricas novas de carvalho francês e americano. Taninos polidos, frutas maduras, toques defumados e de especiarias. Elementos importantes para harmonização com um bom assado. Tem maciez e poder de fruta para os legumes e figos glaceados de acompanhamento. Neste tinto temos a elegância do terroir de Rioja Alavesa.

Tinto da importadora Decanter

  • Bolo de Nozes
  • Porto Tawny Quinta da Romaneira 10 Year Old

Casa do Porto distinta com Tawnies bem elaborados. Muito equilibrado e elegante, tem estrutura e sabores compatíveis com a sobremesa. Seus aromas a frutas secas, especiarias e toques balsâmicos são típicos e envolventes. Assim como o espumante de entrada, ele pode perfeitamente sair da mesa e acompanhar belos Puros com uma boa conversa. Boas Festas!

Quinta da Romaneira é importado pela Casa Santa Luzia. http://www.santaluzia.com.br

Festas: sugestões de vinhos

10 de Dezembro de 2015

Nesta época do ano é normal as pessoas procurarem dicas, conselhos, informações sobre vinhos. Seja para consumo próprio ou presentear, as opções são inúmeras. Infelizmente, os preços não ajudam. Com a alta do dólar e também de impostos, a equação está cada vez mais difícil de ser resolvida. Portanto, vinhos que realmente valem a pena indicar estão na faixa entre R$ 100,00 e 200,00 reais.  E olha que não estou falando em sofisticação, pois nesta área o céu é o limite.

Segue abaixo uma relação para vários tipos da bebida, desde entrada até sobremesas, cafés, charutos, etc …

Cave Geisse: bela surpresa

Espumantes e champagnes

  • Cave Geisse (espumante nacional entre os melhores, se não for o melhor). veja site abaixo, na própria vinícola, ou na Ville du Vin.
  • Chandon Brasil (sempre consistente, fácil de encontrar e preços razoáveis). Várias lojas de bebidas em São Paulo.
  • Cava (tradicional espumante espanhol). Raventós da Decanter e Gramona da Casa Flora, sempre confiáveis.
  • Champagnes (é uma questão de gosto e estilo. Louis Roederer, Gosset, Deutz e Larmandier têm preços honestos. Evidentemente, acima da faixa de preço no início do artigo). Importadoras Franco-Suissa, Grand Cru, Casa Flora e Cellar, respectivamente.

Um dos grandes alemães da Decanter

Vinhos brancos

  • Rieslings alemães (importadora Decanter tem boas opções).
  • Chablis William Fèvre (importadora Grand Cru).
  • Sauvignon Blanc (Terrunyo da Concha Y Toro, vinícola Pericó de Santa Catarina e Jackson Estate da Nova Zelândia, importadora Premium). A linha Concha Y Toro é encontrada na Ville du Vin.
  • Chateau Reynon e Clos Floridene (dois bordeaux da Casa Flora)
  • Chardonnay (Catena Alta da Mistral  e De Martino Quebrada Seca da Decanter)

Bierzo e a uva Méncia

Vinhos tintos

  • Rioja de vários tipos (Crianza, Reserva e Gran Reserva). Rioja Alta da importadora Zahil, CVNE da Vinci e Luis Cañas da Decanter).
  • Tintos de Bierzo (região espanhola pouco conhecida. Boas opções na Decanter e Grand Cru).
  • Chianti Classico (Castello di Ama da Mistral, Fontodi da Vinci, e Felsina Berardenga da Mistral).
  • Tintos do Douro (Quinta do Crasto, Quinta do Noval, Niepport).
  • Malbecs da Argentina (Catena da Mistral, Viña Cobos da Grand Cru, Noemia da Vinci e Achaval Ferrer da Inovini).
  • Merlots nacionais (Miolo Terroir, Pizzato DNA 99 e Desejo da Salton). Encontrados em boas lojas de bebidas.
  • Chateau Giscours 2009 Margaux – Grand Cru Classe – importadora Cellar
  • Chateau Sociando-Mallet 2009 – Haut-Médoc – importadora Cellar
  • Vinícola Rippon (grande Pinot Noir da Nova Zelândia). Importadora Premium.

Tawnies e Charutos

Portos, fortificados e colheita tardia

  • Porto Fonseca Bin 27 (Mistral ou Casa Santa Luzia)
  • Burmester Tawny Jockey Club (Adega Alentejana)
  • Quinta do Noval LBV Unfiltered (Grand Cru)
  • Jerez: Emilio Lustau da Ravin e Hidalgo da Mistral
  • Morandé Late Harvest da Grand Cru
  • Chateau Haut-Bergeron Sauternes da Cellar

Se você pensar em vinhos franceses ou italianos, a escolha natural é a importadora Cellar. A seleção é ótima e os preços não são abusivos. Responsável: Amauri de Faria.

Porto Fonseca e champagne Louis Roederer são encontrados na Casa Santa Luzia. Os nacionais acima mencionados, também.

Importadoras

Dicas: Espumantes e Champagnes

18 de Dezembro de 2014

Nesta época do ano, a procura pelo vinho das comemorações, festas e datas especiais, é o espumante de uma maneira geral, dentro de uma vasta gama de denominações, culminando no maior de todos, o reverenciado champagne. Dos vinhos nacionais, nosso melhor embaixador é o espumante com expressivo consumo interno quando se trata de vinhos finos. Neste contexto, seguem algumas dicas deste tipo de vinho tão procurado para a ocasião.

Nacionais

Para aqueles que não querem complicações e nem perder tempo com experiências, o Chandon nacional é tiro certo. Pode ser o básico ou o Excellence. Este último, mais gastronômico. Tecnicamente, o mais conceituado na atualidade é o espumante da Cave Geisse. Não são baratos para padrões nacionais e nem são tão fáceis de encontrar, mas vale a pena prova-los. Em qualquer um de sua linha, a qualidade e a personalidade são notáveis. Outro espumante que foge dos rótulos mais óbvios é o Pizzato, conforme foto abaixo. Apesar da vinícola ter a merecida fama por seus Merlots, seus espumantes são bastante versáteis, equilibrados e até surpreendentes.

Versão Clara e Rosé

Proseccos

Esta é uma denominação de origem italiana do Veneto. A uva não se chama mais Prosecco e sim, Glera. Procure pelas palavrinhas no rótulo: Conegliano-Valdobbiadene. É a região de origem onde a tipicidade é mais fiel e autêntica. Esses não são baratos. Costumam competir em preço com os melhores nacionais e alguns Cavas (Espanha). Bisol, Nino Franco e Ruggeri costumam ser apostas seguras. Esses três são encontrados nas importadoras Mistral, Inovini do grupo Aurora de bebidas, e importadora Grand Cru, respectivamente. O destaque abaixo vai para a importadora Decanter (www.decanter.com.br) com seus Proseccos da Case Bianche. Bem equilibrados e confiáveis, conforme foto abaixo:

Vigna del Cuc: Vinhedo especifico

Cavas

Esta é a grande denominação de origem espanhola com espumantes elaborados pelo Método Tradicional (Champenoise). São na sua maioria compostos de três uvas brancas (Xarel-lo, Macabeo e Parellada). Portanto, um Blanc de Blancs. Os com menor tempo sur lies (contato com as leveduras) são indicados para os aperitivos e entradas leves. Já o tipo Reserva e Gran Reserva são mais gastronômicos e complexos. Existem inúmeros Cavas no mercado, mas dois se destacam. São eles: Gramona da Casa Flora (www.casaflora.com.br) e Raventós da importadora Decanter, conforme foto abaixo:

Um Grand Reserva de safra

Champagnes

Se você está podendo, o céu é o limite. Saindo um pouco do binômio Moët e Veuve Clicquot, os tipos e estilos são bastante versáteis com uma gama enorme de preços. Mesmo as melhores ofertas, não são vinhos baratos. Para as cuvées básicas, maisons tradicionais como Louis Roederer (www.francosuissa.com.br), Deutz (www.casaflora.com.br) e Tattinger (www.adegaexpand.com.br) são as minhas preferidas e relativamente fáceis de encontrar. São champagnes delicados, elegantes e altamente confiáveis. Além das respectivas importadoras, são encontrados em lojas de bebidas finas.

Grande Réserve: Personalidade e profundidade

Champagnes mais exóticos, para paladares mais específicos e de certo modo, gerando opiniões variadas, temos o champagne Gosset, indicado mais à mesa, para a gastronomia. Outro champagne pouco conhecido, de paladar diferenciado, é Egly-Ouriet, importado pela World Wine (www.worldwine.com.br).

Ferrari Perlé: linha safrada

Fazendo um parêntese, apesar de conceitualmente não ser champagne, o italiano Ferrari, da vinícola homônima de Trento, norte do país, apresenta padrões altíssimos em refinamento. Trata-se de um Blanc de Blancs na maioria de seu rico portfólio. Elegante, delicado e muito consistente (www.decanter.com.br).

Finalmente, champagnes de sonho, onde o valor é o que menos importa. Krug, Bollinger, Salon e as principais cuvées de luxo, estão incluídos neste restrito nicho. São sofisticados, para paladares exigentes, sendo os datados (vintages), de longo envelhecimento em adega. Mesmo no exterior não são baratos, mas são mais acessíveis, visto que em nosso mercado os preços são estratosféricos.

Seja como for, qualquer um dos espumantes ou champagnes escolhidos darão um toque especial em seu evento, sempre dentro de um contexto apropriado. A linha entre o esnobismo, falta de bom senso; e o bom gosto, o cuidado em receber, é sempre muito tênue. Saúde a todos!


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