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Comidinhas e Vinhos

27 de Abril de 2017

Nos últimos goles e garfadas, alguns momentos interessantes na enogastronomia. Em Uberlândia, destacada cidade de Minas Gerais, o restaurante Akkar com ênfase em pratos de acento árabe, propõe esfirras originais tendendo para uma espécie de pizza. A foto abaixo, elucida melhor o fato.

a chamada esfirra / pizza

estilos e texturas diferentes

O branco da esquerda, Roero Arneis, é uma das mais tradicionais denominações do Piemonte. Arneis a uva, Roero o terroir, região a norte de Alba, do outro lado do rio Tanaro que corta as principais denominações. O detalhe deste vinho é seu produtor Bruno Giacosa, um dos pilares da viticultura piemontesa. Vinho de muito frescor, elegância, fruta exóticas e toques florais bastante harmônicos. Embora sem passagem por madeira, mostra certa textura e maciez. Bela pedida com a esfirra margherita, foto acima à esquerda. O manjericão, os tomates, dão leveza ao prato, bem de acordo com o caráter do vinho.

Já o segundo branco, é uma proposta diferente da bodega chilena Undurraga no Vale Limari, bem ao norte de Santiago, aproximadamente 400 quilômetros. A linha T.H. (Terroir Hunter) propõe vinhedos e solos específicos ligados a determinadas uvas no mais puro conceito de terroir. Neste caso, o vinhedo com destacado calcário no solo, se beneficia das brisas frias advindas do Pacifico, devido à sua proximidade. O vinho passa parcialmente por barricas, num eficiente trabalho de bâtonnage (revolvimento das borras). A fruta é bem balanceada com a madeira, apresentando textura interessante, com certa untuosidade, sem perder o frescor. Vai bem com a esfirra da direita (foto acima), onde o frango e palmito cremosos pedem mais textura no vinho. O frescor do palmito fica na medida para a acidez do vinho.

costela de chão

fogo de chão

Mudando a conversa, agora numa festança (casamente de minha filha), costela de boi assada lentamente em fogo de chão. Prato de muito sabor, textura, e gordura condizente com a carne. Os tintos mais robustos, um tanto rústicos conversam bem aqui.

Carignan em ação

O tinto da esquerdo é o segundo vinho da bodega Cims de Porrera, uma das lendas da denominação de origem Priorato, região montanhosa ao sul da Catalunha. Neste blend, temos 70% Cariñena e 30% Garnacha. Apesar de seus quase dez anos de idade, o vinho mostra-se com muito vigor, potente, taninos muito bem delineados, e grande persistência aromática. Agradavelmente quente, é um tinto típico de inverno. Seus aromas concentram fruta, toques minerais e defumados. Muito elegante para castas naturalmente rústicas. Passa cerca de 14 meses em barricas francesas de segundo uso, as quais integram-se perfeitamente na essência do vinho.

No vinho da direita, outra bela expressão de Carignan, no caso italiano, Carignano. Um vinho diferenciado da melhor vinícola da Sardenha em termos de tinto, Santadi, haja vista seu topo de gama, o aclamado Terre Brune, Carignano de parreiras muito antigas. Neste caso, as videiras não são tão antigas, mas o vinho mostra muita personalidade com a típica rusticidade italiana, envolvida num vinho de presença e muito bem balanceado. Sob a denominação Carignano del Sulcis, este tinto passa entre 10 e 12 meses em barricas francesas de segundo uso. Novamente, muito bem balanceado entre fruta e madeira, seus toques defumados, balsâmicos e de ervas secas, resultam num vinho extremamente gastronômico, moldado para pratos substanciosos como rabada, carnes de longo cozimento com molhos bem temperados.

corrientes carmenere e rioja

tintos para churrasco

Para finalizar, dois belos tintos para acompanhar carnes bem grelhadas, evento na casa de carnes Corrientes 348. O Carmenère Winemaker´s Lot é um dos belos Carmenères elaborados pela gigante chilena Concha Y Toro. Seu frescor e taninos potentes são muito bem rechaçados pela suculência de um bife de chorizo devidamente grelhado ao ponto. A fibrosidade deste tipo de carne é um dos melhores contrapontos aos taninos mais presentes. Em contrapartida, o elegante Rioja da direita, Luis Cañas, baseado na casta Tempranillo, apresenta a acidez e frescor necessários para driblar a gordura entremeada de um belo ojo de bife (parte nobre do bife ancho). A delicadeza da carne casa muito bem com os Riojas da sub-região Alavesa, destacada pela elegância de seus Tempranillos. A madeira no caso dos dois vinhos acima é bem proporcionada com a estrutura de seus respectivos vinhos.

Vegetarianos ou ainda mais complicado, veganos, fica para uma próxima. Abraços,

Encontro Mistral: Parte II

12 de Junho de 2016

Continuando o desfile de vinhos, o Encontro Mistral proporcionou muitas surpresas, confirmações, e diversidade nos vinhos. Segue mais uma série deles.

mas de daumas gassac

Mas de Daumas Gassac

Quem não se lembra do filme Mondovino quando o senhor Aimé Guibert torceu o nariz para a invasão de fortes grupos vinícolas no Languedoc com a missão única e exclusivamente de ganhar dinheiro sem se preocupar com o contexto da região. Pois bem, é em sua propriedade que nasceu o grande tinto do sul da França, mesclando novos conceitos, mas sem abrir mão de suas raízes. O chamado “Grand Cru” Mas de Daumas Gassac fez fama rápida na crítica especializada sob a batuta do mítico enólogo bordalês, Émile Peynaud. Não tardou muito, para a versão em branco trilhar o mesmo caminho.

Este 2011 provado no encontro, confirma a classe, elegância e complexidade esperadas. Baseado fundamentalmente na casta Cabernet Sauvignon, e uma pequena porcentagem de inúmeras outras castas, o vinho apresenta estrutura e firmeza para vários anos em adega. Deve ser obrigatoriamente decantado.

felsina chianti classico rancia

Fattoria di Fèlsina

Dentro do Chianti Classico, há várias sub-regiões de destaque. Especialmente a sul, perto de Siena, temos a sub-região de Castelnuovo Berardenga, moldando Chiantis elegantes e de característica mineralidade. Indiscutivelmente, Fattoria di Fèlsina personifica esta região com grande tradição. Todos seus tintos de modo geral são marcantes, típicos e originais. O grande destaque para muitos é o notável Chianti Classico Riserva Rancia, extremamente consistente, ano após ano.

Este 2008 degustado no encontro, mostra muita estrutura, taninos bem moldados e um frescor notável. O termo Rancia, trata-se de um vinhedo especial da propriedade de parreiras antigas, criteriosamente replantadas ao longo do tempo. Para ser ter uma ideia, não é qualquer Brunello que pode ombreá-lo. Um verdadeiro clássico da Toscana.

santadi terre brune

Santadi: Terre Brune

Quando falamos em Sardegna, sul da Italia, pensamos nos tintos baseados na uva Cannonau, também conhecida como Garnacha (Espanha) ou Grenache (França). De fato, são tintos emblemáticos com alguns muitos bons e típicos da ilha. Entretanto, há um superstar elaborado com a uva Carignano (Carignan na França). Estamos falando de Terre Brune da vinícola Santadi, um Carignano del Sulcis, plantado em Sulcis, noroeste da ilha. Tinto de grande força, raça, e taninos poderosos.

O provado no encontro, safra 2007, é ainda uma criança. Bela estrutura, taninos em profusão, e muito longo em boca. Tinto que certamente vai evoluir, mostrando grande complexidade. Para quem ainda não provou, a surpresa é sempre impactante.

Porto Graham´s

Uma das cinco melhores casas do Porto, Graham´s esbanja concentração e elegância em seus vinhos. Seus Vintages são notáveis, embora toda a linha mantenha uma consistência impressionante. Dois destaques nesta prova: Quinta do Vesúvio Vintage 2007 e Porto Graham´s 20 anos. Estilos diferentes, mas igualmente ótimos.

quinta do vesuvio vintage

destacado aroma de violetas

Embora Quinta do Vesúvio seja outra propriedade, está ligada ao mesmo grupo da Graham´s. Este Vintage safra 2007 é super concentrado, potente, mas ao mesmo tempo, macio e convidativo. Seus aromas incríveis de violetas remetem à comparação com o destacado Quinta de Vargellas, propriedade da Taylor´s de muito prestígio. Vai evoluir certamente por décadas.

graham´s 20 anos

belos aromas e equilíbrio

Por fim, um Graham´s com indicação de idade, no caso, 20 anos. É uma bela fase dos chamados Tawnies, onde temos uma fruta madura, quase passa, ainda vibrante, mas com forte presença das frutas secas e seus toques empireumáticos.  O equilíbrio de açúcares e acidez é fundamental nesta categoria de vinho. E é exatamente isso, que faz a diferença nas grandes casas.

vale do meão vintage port

Porto mantendo o nível da casa

Quinta do Vale Meão sempre foi um dos redutos que o saudoso Fernando Nicolau de Almeida usufruía para uvas de alta qualidade na composição do mítico Barca Velha. Com a independência da Quinta a partir dos anos 90, o principal vinho da casa de nome homônimo mostrou toda sua qualidade, ratificando sua importância e participação no pioneiro dos vinhos de mesa do Douro de alta estirpe. Seu segundo vinho, Meandro, também confirma seu pedigree.

Na foto acima, falamos de uma outra estrela da casa, seu Porto Vintage. O vinho provado mostrou além de elegância e profundidade, um frescor pouco habitual, principalmente tratando-se de um terroir de clima quente, como é o Douro Superior. Outro fator importante, é a predominância no corte da nobre casta Touriga Nacional (60%), fornecendo classe e estrutura ao conjunto. É um Porto que impressiona pela elegância, equilíbrio e poder de longevidade.

Novidades da Itália

5 de Maio de 2014

O evento Gambero Rosso realizado recentemente em São Paulo mostrou uma ampla variedade de vinhos da Bota com algumas figurinhas carimbadas e também algumas surpresas. Pessoalmente, três vinícolas chamaram a atenção: Vigne Surrau (Sardenha), Tenuta Carretta (Piemonte) e Azienda Malgrà (Piemonte). 

Vigne Surrau

Importado por Rossoterra Wine (fone: 11-96350-2100 – Fábio), seus vinhos são bastante típicos. Foram dois Vermentinos di Gallura 2012 bem frescos. O primeiro chamado Branu é mais simples, equilibrado e com boa fruta. Já o segundo, denominado Sciala tem contato sur lies (sobre as leveduras) por alguns meses. É mais denso, perfumado e de sabor persistente. Como curiosidade, Vermentino di Gallura é a única DOCG da ilha.

A textura lembra um Chardonnay sem madeira

Os tintos começam com o emblemático Cannonau di Sardegna chamado Sincaru. A uva Cannonau é a mesma Garnacha (Espanha) ou Grenache (França). Vinho macio, de bom corpo e muito fruta em geleia. Tem um toque defumado que faz lembrar alguma passagem por madeira. Entretanto, é uma típica nota mineral, pois o vinho passa apenas por aço inox e tanques de concreto.

Quanto ao segundo tinto Barriu, é um famoso IGT da ilha sob a denominação Isola dei Nuraghi. É um vinho de estilo moderno, porém preservando uvas locais como Cannonau, Carignano (Carignan na França) e Muristellu (Bovale da Sardenha). Complementa o corte a internacional Cabernet Sauvignon com doze meses de passagem por barricas francesas. Encorpado, persistente e taninos muito presentes, mas integrados ao conjunto. Pode envelhecer alguns anos e deve ser decantado antes do serviço.

Tenuta Carretta

Os vinhos são importados por Italian  Wines Selection (fone: 11-97381-0414 – Giovanni). Para aqueles que gostam de Barolos e Barbarescos mais macios e perfumados, estas são boas opções. O Barbaresco Cascina Bordino 2010 apresenta boa fruta, notas de especiarias, cedro e chocolate. Bordino é o nome do vinhedo. O vinho passa pelo menos vinte e quatro meses em pequenos tonéis (botti) de carvalho. Tem estilo moderno e muito agradável.

Taninos firmes, mas abordável

Na mesma linha, temos o Barolo Vigneti in Cannubi 2009. Passa pelo menos trinta e seis meses em botti. É um pouco mais austero, com taninos mais firmes. Mesmo assim, muito abordável. Novamente, frutas, especiarias, alcaçuz e chocolate. Aliás, Cannubi em italiano quer dizer união, casamento. De fato, os vinhedos em Cannubi unem propriedades dos dois grandes solos em Barolo: Tortoniano que gera vinhos frutados e abordáveis na juventude, e o solo Helvético que gera vinhos austeros e fechados quando jovens. Evidentemente, esses dois tintos são baseados na uva Nebbiolo. Embora possam ser guardados, já transmitem prazer ao serem degustados.

Azienda Malgrà

Estilo moderno de Barbera

Aqui temos um emblemático Barbera d´Asti barricato. Trata-se do Barbera d´Asti Superiore Nizza Mora di Sassi 2011. Nizza é uma zona de produção em Monferrato. Mora di Sassi é um muro de pedras junto ao vinhedo. O mosto é fermentado em barricas e posteriormente o vinho permanece em tonéis por um ano. Cor intensa, muita fruta, toques defumados e de especiarias. A madeira é apenas coadjuvante. Em boca, macio e persistente. Este vinho também é trazido pela mesma importadora da Tenuta Carretta.

Sardegna: Produção de Vinho 2011/2012

17 de Outubro de 2013

Já comentamos algumas vezes neste blog  a evolução das regiões sulinas na Itália em termos de qualidade de vinho. Outrora, eram regiões de grande produção, mas de vinhos toscos, mal elaborados, para satisfazer um mercado ávido por quantidade e baixo preço. Isso tem mudado substancialmente ao longo do tempo com mais cuidado tanto no campo, como na cantina. Os chamados Vino da Távola estão dando lugar os IGTs (Indicazione Geografica Tipica) e aos DOCs (Denominazione di Origine Controllata), conforme mapa abaixo:

A qualidade aumentando em números

Atualmente, a Sardenha conta com uma produção de 673 mil hectolitros em 2012, a qual já chegou perto de um milhão de hectolitros em outros tempos. Tendo em vista os vinhos de Denominação de Origem (DOCG e DOC), o quadro abaixo atualiza os números de denominações de toda a Itália até janeiro de 2013. Estamos cansados de saber que sempre existem  novas denominações a serem publicadas, mas ainda no forno.

DOCG-DOC-IGT-2013Quadro atualizado (janeiro/2013)

Voltando á Sardenha, o quadro abaixo mostra as principais denominações de origem em produção. Algumas muito tradicionais, outras nem tanto. Veremos em seguida, detalhes dessas denominações importantes da ilha.

Brancos e tintos com muito equilíbrio na produção

Principais denominações da ilha

Vermentino di Sardegna

A denominação de origem mais produtiva da ilha elaborada com a uva branca Vermentino nas versão seco, amabile, frizzante e spumante. Vinho fresco, frutado, delicado, com ligeiro final de boca amendoado. Pode ser elaborado em toda a ilha. Comumente, é elaborado na versão seco, mas podemos ter as versões rosado, passito e licoroso (uma espécie de Porto local).

Cannonau di Sardegna

É o tinto mais conhecido na ilha e pode ser elaborado em toda a parte da mesma. A uva Cannonau é a mesma uva internacional conhecida como Grenache ou Garnacha (mínimo de 85% no corte, de acordo com a legislação vigente). A menção ¨Classico¨ no rótulo implica em pelo menos 90% de Cannonau no corte. É um vinho de bom corpo, quente, frutado, macio, como todo bom Grenache.

Vermentino di Gallura

Este vinho branco elaborado com a uva homônima é o único da ilha a ter a menção DOCG (Denominazione di Origine Controllata e Garantita). É elaborado nas versões seco, amabile, frizzante, spumante, passito e Vendemmia Tardiva. Pode eventualmente ter alguma passagem por madeira. A versão passito implica num grau de maturação da uva superior à versão Vendemmia Tardiva. Sua produção concentra-se no extremo nordeste da ilha.

Alghero

Denominação ampla para brancos e tintos nas mais diversas versões. A região de produção concentra-se na província de Sassari, ao norte da ilha. As uvas são as mais diversas possíveis com alguns exemplares varietais, além dos cortes. Só para citar algumas, temos Pinot Grigio, Moscato, Malvasia, Garganega, Pinot Bianco, Primitivo, Pinot Nero, Montepulciano, Marzemino, entre outras. Nesta imensidão de uvas temos as versões seco, frizzante, spumante, passito, licoroso, e outras mais específicas. Neste tipo de denominação de muitas variações, a escolha de produtores de destaque é fundamental.

Carignano del Sulcis

Uma denominação relativamente recente, mas de muito respeito. A versão seco é a mais respeitada, embora haja o rosato e o passito. Deve conter pelo menos 85% de Carignano ou Grenache no corte. Sua zona de produção encontra-se no sul da ilha. É um tinto encorpado, aveludado e apto ao envelhecimento. Produtores como Santadi e seu vinho Terre Brune, além do belo Barrua (em parceria com os donos do Sassicaia, Toscana), são vinhos ícones desta denominação. Ver foto acima.


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