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Os Históricos Bordeaux 1982

14 de Novembro de 2016

É muito comum serem mencionadas safras “históricas” em regiões vinícolas europeias de grande prestigio, sobretudo em Bordeaux. As especulações são inevitáveis já que esses vinhos são verdadeiras comódites no mercado financeiro, funcionando de certo modo como uma forma de investimento. Depois de alguns anos com a poeira assentada, fica mais claro separar o joio do trigo.

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Dream Team: Lafleur em Magnum

Dentre essas safras “históricas”, existem aquelas que são mais históricas. Uma delas por exemplo é a de 1982, equiparada a anos como 1945, 1947, 1959 e 1961, para ficarmos no século XX. O abençoado ano de 1990 onde foi praticamente impossível se fazer vinhos ruins na Europa, ainda não emplacou definitivamente neste seleto rol, talvez por não estar totalmente pronta, no auge de sua evolução, principalmente para os grandes Bordeaux.

Dito isso, defrontamos quatro belos Bordeaux 82, dois margem esquerda, e dois margem direita, num embate de gigantes. Falar de vencedores é uma questão muito mais pessoal do que técnica. Cada qual fiel a seu terroir, a seu estilo, mas todos inteiros e impecáveis. Enfim, obras de arte não se comparam …

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o sonho de tomar um grande 82

Testados vários vezes, em várias épocas, e sempre muito consistente. Fico imaginando até quando esse platô de evolução vai se estender, pois ainda não há nenhum sinal de decadência. É muito fácil gostar deste vinho, mesmo para aqueles que tem problemas com taninos. Ele é sedutor nos aromas, macio em boca, muito equilibrado, e um final bastante longo. Sempre na elite dos campeões desta mítica safra.

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apelação Pessac-Léognan só em 1987

Pessoalmente, foi o que menos me impressionou, mas sem dúvida, é uma questão pessoal. Outra razão, foi a cruel comparação com os demais concorrentes ilustres. De todo modo, um perfil brilhante de Pessac-Léognan com seus aromas de estábulo e toques terrosos. Menos encorpado que o Mouton (Pauillac), é também de um equilíbrio notável. Taninos ultrafinos e longa persistência. Em comparação a seu grande rival, Chateau Haut-Brion, é um pouco mais potente e com menos elegância.

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inspiração para o rótulo americano Dominus

Apesar de estarmos falando de um margem direita na sub-região de Pomerol, é de uma austeridade impressionante. Lafleur é o único Pomerol comparável ao astro maior Petrus, não só pela fleuma e estilo mais introvertido, mas também por seu incrível poder de longevidade. Esta safra em particular, uma das mais perfeitas de sua história, foi elaborada por Jean-Claude Berrouet, o famoso enólogo de Petrus, com apenas 10% de barricas novas.

Seu solo é muito particular e multifacetado, mesclando argila, areia e importante pedregosidade. Com isso, seu corte de uvas também é único e bem especifico com Merlot e Cabernet Franc pareando as porcentagens. Talvez a presença importante da Cabernet Franc lhe forneça essa espinha dorsal e estrutura  incomuns para um típico Pomerol, mais calcado na Merlot.

Esta safra de 1982 considerada perfeita, é de uma cor impressionantemente jovem e intensa. Os aromas se desenrolam pouco a pouco na taça com forte presença mineral, frutas escuras, e toques de chocolate amargo, lembrando cacau. Deve ser obrigatoriamente decantado por pelo menos uma hora. O boca é de um pujança extraordinária, vislumbrando ainda bons anos de guarda. Um vinho realmente impressionante. Como conselho, se você tiver uma garrafa deste Chateau com menos de quinze anos, não abra. A paciência irá lhe recompensar, certamente.

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o singelo rótulo num vinho sofisticado

Reparem que no rótulo não está escrito Chateau. Realmente, a simplicidade  e a aparência mal cuidada de sua construção confirmam esta observação. O solo extremamente argiloso faz da Merlot praticamente seu território único com quase 100% do plantio, de vinhas muito antigas. As condições particulares deste terroir dão uma imponência, uma austeridade, e uma introspecção ao vinho, que o diferencia de maneira inconteste de todos os outros Pomerols.

Como curiosidade, a argila azulada de Petrus é rica em ferro, gerando vinhos com intensidade de cor marcante. Além disso, não há como aumentar a densidade de plantio das vinhas que fica em torno de 7000 plantas/hectare. A explicação vem de um subsolo extremamente duro onde a camada de argila para a ramificação e expansão das raízes é de apenas 70 centímetros, ou seja, pouca profundidade para uma competição entre as vinhas mais acirrada.

Além de uma boa conta bancária, você precisa de muita paciência para esperar seu Petrus acordar. Os infanticídios com este vinho mundo afora são rotineiros. Nesta safra em particular, ele não tem a potência de seu concorrente Lafleur, mas sobra elegância e finesse. O grande trunfo de 82 é que Petrus conseguiu se soltar, mostrando aromas terciários muito finos e de rara sutileza. Não é um vinho óbvio, mas sua sedosidade contrasta magnificamente com seu lado cerimonioso. Talvez por não ser uma safra especificamente concentrada, seu desabrochamento chegou mais cedo, concedendo prazer e expectativa esperados. Grande vinho!

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Esta é a cor do Lafleur 1982. Acreditem!

Como se não bastasse esses quatro prazeres em si, tivemos que analisa-los em duas taças não menos espetaculares e bem merecedoras destes grandes caldos. Riedel Sommeliers versus Zalto Bordeaux, num embate de titãs entre duas excepcionais cristalerias  austríacas.

Riedel Sommeliers é uma linha de taças maravilhosas com um bojo de 860 ml de capacidade para o modelo Bordeaux Grand Cru. Aromaticamente, mostra-se muito sutil captando aromas multifacetados dos mais complexos tintos bordaleses. Em boca, procura mostrar a essência de um grande Bordeaux com texturas delicadas, sem perder o frescor.

Zalto Bordeaux, como toda taça Zalto, é de uma leveza incrível, além da ínfima espessura do cristal. Dá medo de tocar na taça, tal a aparente fragilidade que ela transmite. Em relação à Riedel Sommeliers, seus aromas são mais concentrados, perdendo-se um pouco as nuances de vinhos mais sutis. Entretanto na boca, mostra com ênfase, o corpo e estrutura dos grandes Bordeaux, numa percepção ampliada da textura de seus finos taninos.

Qualquer que seja a escolha, você estará bem servido. De todo modo, é sem dúvida um diferencial, um detalhe relevante, quando se trata de vinhos de tamanha complexidade, em períodos de evolução onde as sutilezas devem sempre que possível, ser amplificadas.

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lingua com polenta cremosa

Eis um prato (foto acima) que muitos torcem o nariz, língua. Realmente, não é uma carne fácil de se trabalhar, mas quando bem feita, é digna dos mais finos tintos já com aromas evoluídos e taninos resolvidos. Foi o caso deste prato, do Nino Cucina, escoltado pelos Bordeaux acima comentados. O casamento foi perfeito pela delicadeza de sabores de ambos, prato e vinho. Em particular, Petrus agradeceu a parceria.

Masterchef Final: Harmonização

25 de Agosto de 2016

A grande audiência do Masterchef Brasil, programa exibido pela Bandeirantes, tem sua apoteose na grande final, premiando os dois concorrentes, Leonardo Young e Bruna Chaves. A tarefa é executar um menu autoral com entrada, prato principal e sobremesa. Neste dia, já não há mais aqueles pratos bizarros, muitas vezes mal executados. O nível costuma ser muito bom com receitas surpreendentes. Neste sentido, sempre fica faltando os vinhos que supostamente harmonizariam com os pratos. Então, mãos à obra!

Entrada

carpaccio de vieira e rabanete

Carpaccio de Vieiras e Rabanetes com Vinagrete de Cebolinha

É um prato leve, delicado, com muita maresia e frescor. Os componentes são crus e a sugestão é ter mais molho do que a foto apresenta. Aliás, o molho de cebolinha deve ter acidez para equilibrar o prato. Aqui vai bem um espumante novo com muito frescor. A acidez, borbulhas e leveza da bebida, harmoniza com a estrutura do prato. Pode ser um espumante nacional, um Cava no máximo Reserva, sem muito contato sur lies. Se for champagne, um Blanc de Blancs bem leve e de muita vivacidade. Prefira o estilo Brut tradicional. Os Extra-Brut ou Nature são muito austeros para o prato.

Ingredientes: vinagre, saquê, ovas massago, rabanete roxo e branco, cebolinha, vieira, flor de sal, azeite.

vieiras grelhadas maionese de laranja açafrao

Vieiras Grelhadas com Maionese de Laranja e Açafrão

ingredidentes: vieiras, maionese de açafrão e laranja, limão, chips de abóbora, ovas de peixe, gema de codorna.

Os vinhos de Vouvray, sub-região francesa do Loire, costumam ir bem com vieiras. Ambos tem um toque adocicado no sabor. Podemos continuar com espumantes, já que Vouvray também tem este tipo de vinho. Um Riesling alemão do Mosel, mais leve e elegante, também pode ir bem. Prefira os da denominação kabinett clássico com um toque de doçura na medida certa.

Prato Principal

cordeiro grelhado pure de ervilha

Cordeiro Grelhado com Purê de Ervilhas e Vinagrete de Maçã Verde

Aqui além da costeleta de cordeiro, temos a crosta úmida de ervas com amêndoas e o purê de ervilhas com toque adocicado e textura cremosa. O toque de ervas, a delicadeza da carne, chama um bom Cabernet Franc, mais sutil que seu irmão ilustre, Cabernet Sauvignon. Pode ser bons exemplares do Novo Mundo ou até alguns Saint-Emilion com participação desta uva, além da Merlot. O importante é ter um corpo mediano e ser relativamente novo, combatendo os taninos com a suculência da carne.

ingredientes: cordeiro, cebolinha francesa, amêndoas e salsinha, purê de ervilha e hortelã. maçã em cubinhos, salmoura de vinagre, açúcar e sal.

barriga de porco molho misso

Barriga de Porco ao Molho Missô

Neste caso, temos uma carne gordurosa, de muito sabor, e toques agridoces, além de legumes e hortaliças. A carne é cozida na pressão com legumes formando um caldo e em seguida, é selada  na frigideira. A acidez de um vinho branco sempre é bem-vinda nesta hora, mas tem que ser um branco de presença pela riqueza de sabores do prato. Um Chateauneuf-du-Pape branco com aquele caráter provençal, um Riesling alsaciano de mais riqueza como um Zind-Humbrecht, ou um inovador Marko Fon com seu exótico Malvasia Istriana. Em outra combinação ousada, eu iria de Madeira Verdelho (estilo meio seco).

ingredientes: barriga de porco, cebola, cenoura, salsão, alho poro. misso com dashi, saque, pimenta dedo de moça, açúcar e gengibre. mini cenoura, pétala de cebola e acelga.

Sobremesa

ovos nevados matcha

Ovos Nevados com Creme Inglês de Matchá

É uma sobremesa extremamente clássica se não fosse a presença do matchá, uma espécie de chá verde em pó. Ele deve ser usado com parcimônia, pois seu sabor pode causar amargor desagradável. A textura do vinho é muito importante para não atropelar o prato. O toque do chá dá um sabor exótico que pode cair bem com um Tokaji Aszú 4 ou 5 Puttonyos com algum envelhecimento, oito a dez anos de safra ou mais. Os aromas, sabores e açúcar residual são compatíveis, além da acidez do vinho sempre presente, levantando o prato.

ingredientes: gemas, açúcar e baunilha em fava. incorpore aos poucos leite quente. adicione o matchá. merengue com claras, sal, limão, açúcar. raspas de limão siciliano e castanha ralada.

panna cotta chocolate branco beterraba

Panna Cotta de Chocolate Branco com Suco de Beterraba

Outra sobremesa de textura delicada e sabores bem exóticos. Fugindo de vinhos fortificados como Porto ou Banyuls, um Recioto dela Valpolicella  pode ser uma boa pedida. Com um pouco mais de ousadia, um Icewine com a uva Cabernet Franc, muito comum no Canadá. Por sorte, o Brasil tem um similar na serra catarinense da vinícola Pericó com a uva Cabernet Sauvignon. Esse toque herbáceo e de especiarias do prato vai bem com esta uva. A acidez deste tipo de vinho revigora o prato.

ingredientes: suco de beterraba, chocolate branco derretido, creme de leite e gelatina. cozinhar caule da beterraba com açúcar, canela, anis estrelado, caramelizado. picles com salmoura vinagre, açúcar e sal. mousse com queijo chèvre (cabra), melaço e creme de leite servida no sifão.

Don Melchor 2012

12 de Agosto de 2016

Quando falamos em terroir para Cabernet Sauvignon logo pensamos na margem esquerda de Bordeaux, terra sagrada para os grandes tintos da região. Contudo, há outros locais famosos para esta uva de maturação tardia que necessita de solos pobres, pedregosos, e de excelente drenagem.

Lugares como Napa Valley, Bolgheri (Toscana), Coonawarra (Austrália) e Alto Maipo em Chile, costumam expressar grandes Cabernets, cada qual com suas características específicas, marcando de fato um terroir único.

No caso chileno, muito próximo de Santiago, ao pé da cordilheira dos Andes, cabernets famosos como Casa Real, Almaviva, Domus Aurea, e um dos pioneiros nos anos 80, Cousiño Macul Antiguas Reservas, entre outros, marcaram o Alto Maipo como um dos grandes terroirs do mundo. Em particular, falaremos neste artigo do ícone maior do grupo Concha Y Toro, o famoso Don Melchor. Com a primeira safra lançada em 1987, este tinto vem evoluindo ano após ano, aprimorando sua expressão neste terroir e ao mesmo tempo, se atualizando ao homem contemporâneo, num trabalho brilhante e de muita dedicação do competente enólogo Enrique Tirado.

Para termos uma noção exata do vinhedo, fazendo um paralelo com as sub-regiões de Bordeaux, Puente Alto (local do vinhedo Don Melchor) seria uma espécie de Pauillac dentro do Alto Maipo, e este  por sua vez, uma espécie de Haut-Médoc. As características do solo local são mostradas no vídeo abaixo.

Don_Melchor_Puente_Alto_Vineyard_Parcel_Map

Don_Melchor_Puente_Alto_Vineyard_Parcel_Map

parcelas 4, 5 e 6 em destaque

Na busca pela excelência, o quadro acima mostra sete parcelas distintas do vinhedo Don Melchor com pouco mais de cem hectares. Cada um delas, relacionadas sobretudo a pequenas diferenças de solo e temperatura, fornece uvas distintas quanto ao estilo. Algumas com frutas mais intensas, outras com mais taninos, outras com mais corpo, e assim por diante. Seguindo o modelo clássico bordalês, as parcelas são colhidas e vinificadas separadamente. Após à estabilização dos vinhos, chega o momento de conceber o famoso blend, nascendo assim um novo Don Melchor.

Cabernet Sauvignon: solo pedregoso e excelente drenagem

Safra 2012

Este foi um ano com temperaturas mais altas, acima da média, proporcionando uma colheita mais precoce. Graças ao efeito da amplitude térmica devido à grande proximidade da cordilheira dos Andes, a acidez e o frescor foram preservados. Portanto, espera-se um vinho com taninos perfeitamente maduros, bem equilibrado e sedutor, mesmo em tenra idade.

É difícil precisar uma data ideal para consumo desta safra. De fato, atualmente nesta fase de juventude, encontra-se extremamente prazeroso para o consumo. Entretanto, deve evoluir bem nos próximos dez anos, adquirindo os toques terciários de couro, tabaco, acentuando a mineralidade. É sobretudo uma questão de gosto pessoal.

don melchor 2012

decanta-lo por meia hora: aromas abertos

A colheita deu-se entre 10 de abril e 9 de maio com rendimentos muito baixos de 2,9 toneladas/hectare. O blend foi composto por 93% Cabernet Sauvignon e 7% Cabernet Franc. O vinho amadureceu por 15 meses em barricas francesas, sendo 71% novas.

Em anos onde a porcentagem de Cabernet Franc é mais destacada como em 2012, o vinho ganha em elegância e suavidade, quebrando um pouco a habitual austeridade da majoritária Cabernet Sauvignon. Neste ano de colheita mais precoce, a maturação da Cabernet Franc acaba sendo perfeita, pois seu ciclo é mais curto em relação à Cabernet Sauvignon.

A renovação do vinhedo vem sendo feita com o plantio de pequenas parcelas de Merlot e Petit Verdot, além das tradicionais Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. As vinhas mais antigas plantadas entre 1979 e 1992 foram adensadas com 4000 pés/hectare. Para o vinhedo novo, entre 2004 e 2013, o adensamento dobra chegando a 8000 pés/hectare. Esta mudança acirra a competição entre as vinhas, aprofundando raízes.

O vinho tem importação exclusiva pela própria Concha Y Toro, sendo distribuído nas lojas Ville du Vin, tanto em Alphaville, como no Itaim Bibi em São Paulo. Maiores informações: http://www.villeduvin.com.br

Entre vinhos e destilados

1 de Junho de 2016

Há pratos que nos deixam em dúvida quanto à harmonização. É bem verdade que para um determinado prato, cabe uma série de vinhos bem escolhidos, os quais proporcionarão sensações diferentes. Foi o que ocorreu neste embate com os vinhos abaixo, acompanhando um pappardelle ao molho de funghi porcini, guarnecido com frango ao forno com mostarda em grão e salvia.

vougeot premier cru

localização privilegiada

O exemplar acima trazido pelo especialista e amigo Roberto Rockmann, foi pinçado num vinhedo Premier Cru (Les Petits Vougeots) cercado por alguns astros de primeira grandeza como Musigny, Les Amoureuses e Clos de Vougeot. Delicado, elegante, taninos bem moldados e madeira quase imperceptível, na medida justa. Buscou enaltecer o lado mais sutil do prato com toques de sous-bois e florais.

clo de l´olive 2005Chinon de vinhedo na bela safra 2005

O tinto acima trata-se de um vinhedo específico do produtor Couly-Dutheil chamado Clos de L´Olive na ótima safra 2005. A apelação Chinon trabalha com a temperamental Cabernet Franc em latitudes limites para seu bom amadurecimento. Aqui o corpo do vinho e sua estrutura tânica  privilegiaram mais a textura tanto da massa, como do prato. O sabor do funghi e os toques de mostarda e salvia, também tiveram boa sintonia com o vinho que por sua vez, apresentava aromas terrosos, herbáceos e de especiarias, notadamente a pimenta. Enfim, a preferência é uma questão de gosto. Muito provavelmente, se degustados isoladamente, não deixariam as dúvidas criadas pela situação exposta.

fita ao molho de funghi porcinipappardelle ao molho de funghi porcini

Encerrando a refeição, tivemos uma tábua de queijos nacionais bem frescos, trazidos direto do produtor (Serra das Antas) com destaque para o Camenbert, Pont L´eveque e Taleggio, nesta ordem crescente de sabores. Para acompanhar os queijos, tivemos damascos, figos secos, e o original Vinsanto grego da ilha de Santorini. Este exemplar da safra 2004 é elaborado com a uva autóctone Assyrtiko de grande acidez e mineralidade. As parreiras plantadas em forma de cesto num solo vulcânico têm mais de sessenta anos, gerando vinhos de grande concentração e profundidade. Seus apenas 9º (nove graus) de álcool e ótima acidez foram contrabalançados por quase 300 g/l (trezentos gramas por litro) de açúcar residual. Aromático, denso e persistente.

vinsanto sigalas

Vinsanto: Os italianos o chamavan de Vin Pretto

torta de limão

torta de limão

A sobremesa acima é outra bela combinação com este Vinsanto grego. A acidez do vinho e seu açúcar residual garantem a força do prato, além das texturas, sabores e corpo de ambos estarem sintonizados.

Como ninguém é de ferro, o gran finale já fora da mesa, ficou para os puros abaixo, Partagas Lusitanias, um dos mais cultuados clássicos de Havana. A pegada, força, e potência desta marca é emblemática. No formato double corona, o primeiro terço começa com uma traiçoeira suavidade que vai intensificando-se sem que você perceba, feito uma sucuri que vai lentamente asfixiando a vítima. Pronto, você está enrolado. Um final de terço inesquecível onde só os destilados nobres podem ombreá-lo.

partagas lusitanias

Partagas Lusitanias: double corona de raça

O primeiro destilado foi o ótimo Knockando (em gaélico quer dizer pequena colina negra) 12 anos da safra 2002. Normalmente, essas indicações de idade referem-se a uma mistura de partidas (solera) onde a idade mais jovem do blend tem o numero de anos indicado. Este Malt Whisky de Speyside é macio, de boa presença em boca e o característico fundo de mel e ervas. Como curiosidade, este malt whisky faz parte do conhecido blended Scotch J&B (Justerini & Brooks).

knokando 12 anos

Single Malt de safra

O segundo destilado trata-se de um rum agrícola envelhecido da ilha de Martinica. O termo agrícola refere-se ao rum obtido somente com o calda da cana de açúcar, e não o melaço. Este V.S.O.P. envelhece quatro anos em madeira, sendo um ano em madeira francesa de Limousin (a mesma floresta para madeira do Cognac), e três anos em madeira americana de Bourbon Whiskey (Kentucky). Bebida de bom corpo, marcante, e persistente. Foi bem no terço final.

rum clement

Os velhos runs do Caribe

Vinhos diferentes, saindo do trivial, e destilados distintos cumprindo o mesmo papel no acompanhamento de puros. Tudo no seu devido tempo e sem conflitos entremeando os pratos. A mesa e o copo agradecem.

Grand Cru Tasting: Destaques II

8 de Maio de 2016

Continuando a maratona de vinhos, mais alguns exemplares interessantes entre tintos e vinhos doces (sobremesa) na bela Casa da Fazenda Morumbi, sob o comando da importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br).

shiraz wallace

o clássico Shiraz australiano

Barossa Valley é a cara do autentico Shiraz australiano. Cheio de fruta, macio, envolvente, e muito bom para os dias mais frios onde aquela pitada de álcool acima é bem-vinda. O corte com a Grenache ajuda ainda mais no lado frutado e na maciez. O segredo é o vinho ter um bom balanço de frescor. Ben Glaetzer segue esta linha.

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o Sauternes da América do Sul

A vinícola chilena Morandé além de moldar belos vinhos de mesa, elabora esta joia à base de Sauvginon Blanc com uvas botrytisadas. O cuidado no vinhedo, na colheita, e nas várias fases de elaboração em cantina, faz deste branco dourado um exemplo de equilíbrio notável entre seus componentes (açúcar, álcool, e uma bela acidez). Parceiro para queijos potentes, curados, além dos sempre lembrados queijos azuis.

gorgonzola dolce

la dolce vita!

Falando em queijos azuis, a foto acima mostra um autêntico gorgonzola dolce, um dos melhores queijos não só da Itália, mas do mundo. Cremoso e mais delicado que a versão normal, enriqueceu o farto buffet, além de acompanhar bem os vinhos, sobretudo os dois de sobremesa, acima e abaixo nas fotos.

delas beaumes de venise

o esquecido Beaumes de Venise

Um dos mais injustiçados vinhos do Rhône é o pouco lembrado Muscat Beaumes de Venise. Um vinho fortificado à base de Moscatel, de estilo bem delicado. Um contraponto ao notável Moscatel de Setubal de Portugal. Seus aromas florais e de pêssegos encantam ao primeiro contato. Experiência gastronômica única de contrastes de textura quando combinado com uma mousse de pêssego. Vale a pena prova-lo.

nero d´avola passivento

o Amarone da Sicilia

A típica uva siciliana Nero d´Avola molda tintos agradáveis na ilha. Contudo, este exemplar foge à regra. As uvas são colhidas  passificadas na planta, prolongando o período de colheita. Lembra de certo modo o grande tinto do Veneto, senhor Amarone, onde a passificaçao ocorre em caixas ou esteiras após a colheita. Neste sentido, o vinho ganha corpo, estrutura, e riqueza de frutas em compota. Boa concorrência para outro tinto sulino bem conhecido da Puglia com a uva Primitivo. Bela surpresa do produtor Barone Montalto.

fonterutoli

Mazzei reina em Castellina in Chianti

Há certos produtores que não podemos dissociar e nem deixar de mencionar nas regiões em que atuam. Um destes é a família Mazzei, ícone da sub-região histórica do Chianti Classico de Castellina in Chianti. Tipicidade, equilíbrio e consistência à toda prova. Pedida certa nesta denominação.

chinon serge e bruno

o lado delicado da Cabernet Franc

O vale do Loire é berço de grandes vinhos brancos nos seus mais variados estilos e uvas. Contudo, os tintos da região são conhecidos em apelações famosas como Chinon, elaborados com a casta Cabernet Franc. Vinhos de corpo médio, delicados, equilibrados, e muito gastronômicos. O rótulo acima é um bom exemplar.

pulenta cabernet franc

exemplar diferenciado num mar de Malbecs

Bem diferente do vinho acima, este tinto argentino também é elaborado com Cabernet Franc, uva pouco usual, sobretudo como varietal, na zona alta do rio Mendoza, Lújan de Cuyo, mais especificamente Agrelo, terroir de destaque.  Partindo de vinhedos antigos, perfeitamente adaptados ao solo e ao clima, as uvas são bem trabalhadas na cantina, gerando um vinho de grande personalidade. Mesclado de forma coesa à madeira, este tinto mostra equilíbrio e persistência. As barricas francesas novas respeitam a estrutura do vinho. Tinto para sair da rotina malbequiana.

morande black

sul da França no Maule

Mais um show da Morandé neste corte ousado mesclando uvas do Rhône com a Carignan. São vinhedos plantados nos anos 50 que garantem aquela concentração das chamadas vinhas velhas. Um toque de rusticidade neste tinto de personalidade muito bem integrado com a madeira a qual quase não se percebe. Exemplar fora da curva, fugindo da rotina.

Amigos e Enogastronomia

23 de Julho de 2015

Comida combinando com vinhos e bons amigos é um cenário perfeito e extremamente prazeroso. Sempre que é possível vale a pena. Para isso, é só pensarmos nos pratos e buscar vinhos que teoricamente tenham uma sinergia, componentes com afinidades. Foi o que aconteceu neste final de semana.

Como entrada, foi servido um patê campagne com o vinho abaixo. A textura do vinho casou perfeitamente com a textura do patê, além da força aromática de ambos se contrabalançarem. Num outro patê com trufas, o vinho sobrepujou um pouco o prato, faltando também acidez para equilibrar a gordura mais evidente do que no patê anterior. Detalhes que são devidamente avaliados com a confrontação lado a lado.

Vinho de certa evolução

Independente da boa harmonização, temos que fazer um parêntese para este Condrieu. O produtor Georges Vernay é referência nesta apelação. Embora o Château Grillet seja o “the best”, este exemplar também apresenta grande profundidade. Com uvas 100% Viognier, as mesmas partem de vinhas com mais de 50 anos. São apenas dois hectares desta cuvée exclusiva (Les Chaillées de L´Enfer) produzindo anualmente não mais que oito mil garrafas. O vinho ganha muito com a decantação, desabrochando aromas de mel, flores e marron-glacê. Seus 15° de álcool são perfeitamente equilibrados. A textura macia se faz com fermentação em barricas e amadurecimento sur lies (sobre as leveduras) com bâtonnage entre 12 e 18 meses, dependendo da safra. De modo algum a barrica confere uma presença invasiva. Persistência aromática destacada. Enfim, um belo início.

Clos de L´Olive: Chinon de terroir

Partindo agora para o prato principal, uma bacalhoada de forno. E aí a clássica pergunta: tinto ou branco. Como sabemos que os tintos são mais desafiadores, vamos a eles. O vinho acima é um Cabernet Franc de vinhedo único (Clos de L´Olive) da bela safra de 2005. Neste terroir frio para uvas tintas, a qualidade da safra  no Loire assume papel preponderante, pois a perfeita maturação dessas uvas elimina  toques herbáceos desagradáveis e seu consequente amargor. Com dez aninhos de safra, seus taninos encontraram uma perfeita polimerização com textura extremamente agradável. Aliada a uma bela acidez, esses fatores foram fundamentais na harmonização. Fruta madura com frescor, toques florais e de ervas, além de notas de cogumelos, foram os aromas que permearam este tinto em perfeito equilíbrio. Contudo, mais outra frase clássica: ninguém é insubstituível! Vamos falar da estrela do almoço, o vinho abaixo.

Garrafeira Paulo da Silva

Toda vez que estamos diante de um vinho maduro, de certa idade (45 anos), a dúvida sobre sua correta evolução se faz presente. Este é um Garrafeira 1970 elaborado na região litorânea de Colares, próxima à capital portuguesa. Na garrafa, apenas a safra. Um singelo caderninho é anexado no gargalo da garrafa com um feixe elástico informando algumas notas interessantes, conforme fotos abaixo. Nesta safra foram elaboradas somente 24.500 garrafas. Paulo da Silva é neto do fundador de grande respeito na região, senhor Antônio Bernardino da Silva Chitas.

Colares Chitas: Uva Ramisco

Os vinhos de Colares, assim como o fortificado Carcavelos, praticamente na mesma região, são joias portuguesas em vias de extinção. Infelizmente, a especulação imobiliária fala mais alto. O nosso Garrafeira vem desta região, mas com um blend de uvas especificadas no caderninho abaixo. São elas: Malvasia (uva branca), Tinta Meúda (a mesma Graciano encontrada em Rioja), Santarém (a famosa Castelão) e Trincadeira (uva do Alentejo, mas com o nome de Tinta Amarela no Douro). Todas elas plantadas no famosos chãos de areia, cavados em depressões para fugirem dos fortes ventos. Normalmente, esses vinhos tem na acidez seu grande componente de envelhecimento. Seus taninos precisam ser amansados pela idade onde também, seus aromas de evolução ganham uma riqueza impressionante.

13% de álcool: suficientes para um grande vinho

A harmonização com o bacalhau foi espetacular. A acidez do vinho equilibrando a gordura do prato com a total polimerização dos taninos foram pontos-chaves. Os aromas de evolução, resinosos, balsâmicos e de ervas secas casaram perfeitamente com o sabor do bacalhau, sempre com um toque oxidativo devido a seu preparo. Certamente, prato e vinho juntos ganharam outra dimensão. Voltando ao Chinon, os pimentões e as azeitonas da bacalhoada combinaram mais com seu lado frutado. Experiência válida com os dois tintos, mas o garrafeira talvez tenha sido a melhor combinação de tinto com bacalhau, pessoalmente.

Grande destaque nesta categoria

Como sobremesa, um bolo de maça com passas e nozes, escoltado por um Porto Quinta da Romaneira 10 Year Old. Esta primeira categoria de Porto em idade, alia de forma admirável um lado mais frutado com os devidos toques de oxidação. Portanto, tanto a maça como as frutas secas, são complementos harmônicos com o vinho.

Wild Turkey: Bourbon de personalidade

Encerrando o encontro no terraço, chegamos ao Puros com o Bourbon acima, após um excelente café. Fumaças exaladas pelos ótimos Bolívar Belicosos e o piramidal Partagás P2. A força deste Whiskey com seus toques de baunilha, caramelo e casca de laranja, fechou a refeição em grande estilo.

Aos amigos, restou a saudade e boas lembranças, esperando novas surpresas em encontros futuros. Sáude a todos!

Cheval Blanc x Ausone

7 de Julho de 2015

Os nobres  châteaux, Cheval Blanc e Ausone, desde sempre foram considerados Classe A na tradicional apelação Saint-Émilion, margem direita dos bordaleses. Recentemente, juntaram-se aos mesmos, Château Pavie e Château Ângelus. Voltando aos dois astros, vamos falar um pouco de seu terroir e consequentemente suas respectivas expressões nos vinhos engarrafados com o lento envelhecimento em adega. Só para situarmos os châteaux, segue o mapa abaixo.

Terroirs diferentes

Pelo mapa acima, observamos que Cheval Blanc situa-se nos chamados vinhedos de planalto, bem próximos a Pomerol, e de solos pedregosos, misturados a argila e areia. Já Ausone, encontra-se nas chamadas Côtes, declives relativamente acentuados nos arredores da cidade de Saint-Émilion, de solos com forte presença do calcário, em meio argiloso. Contudo, as proporções entre Cabernet Franc e Merlot são semelhantes, mas com propostas diferentes quanto ao estilo de vinho.

Cheval Blanc

São aproximadamente 37 hectares de vinhas divididas em três tipos de solo. 40% deles são provenientes de pedras em meio à argila. Outros 40% são solos também pedregosos misturados à argila e areira com traços de ferro. Os 20% restantes são solos com predomínio de areia, misturados com argila e ferro. O vinhedo é plantado com 58% de Cabernet Franc e 48% Merlot. A idade média das vinhas alcançam 45 anos, sendo algumas centenárias. A densidade do vinhedo gira em torno de oito mil pés por hectare. Todo o vinhedo é dividido em 45 parcelas com micro-terroir próprio e são colhidas e vinificadas separadamente. O vinho em média é amadurecido em carvalho novo (100%) por dezoito meses.

Graves: solos pedregosos

Muitas das safras são altamente pontuadas, sendo o Cheval Blanc 1947 considerado por críticos e especialistas experimentados, como um dos grandes Bordeaux de todos os tempos. O estilo Cheval costuma ser abordável mesmo quando jovem. Apesar de sua incrível capacidade de envelhecimento, seus aromas primários imersos em madeira elegante agrada em cheio mesmo degustadores principiantes. Em termos de solo, a pedregosidade do terreno e alguns traços arenosos conferem ao vinho uma certa leveza, uma certa elegância. A presença de ferro em boa parte do terreno costuma concentrar e conservar sua cor ao longo do envelhecimento em garrafa. A boa micro-oxigenação com madeira nova aporta aromas elegantes e de grande complexidade.

Château Ausone

Propriedade bem menor que seu rival com apenas sete hectares de vinhas muito antigas. Em média 50 anos, mas com algumas centenárias. Densidade de plantio, de seis a doze mil pés por hectare. O terroir divide-se em duas partes principais: um hectare e meio junto ao château, na parte mais alta, de solo argilo-calcário e com presença de pedras calcárias (à astéries). Os outros 5,5 hectares são argilo-calcários e um pouco de areia, com certa declividade (15 a 20% de declive). O plantio entre as castas segue praticamente o mesmo do Cheval Blanc, 55% Cabernet Franc e 45% Merlot. A vinificação dá-se em seis cubas de madeira, as quais recebem parcelas setorizadas do vinhedo. O vinho amadurece em carvalho novo, praticamente 100%, dependendo da safra. O tempo em barricas pode chegar a 24 meses, de acordo com a potência do vinho.

Ausone: Calcário em destaque

As distintas características de solos e declividades entre os rivais, explica em parte o estilo distinto dos vinhos. Sobretudo a Cabernet Franc em solos com predominância calcária, caso do Ausone, vai gerar vinhos mais austeros e com maior acidez. A parte do vinhedo com predomínio da argila, proporciona solos mais frios, bem ao gosto da Merlot. Portanto, Ausone mostra vinhos mais austeros na juventude, com fruta mais contida e uma destacada mineralidade. Só o longo tempo em garrafa é capaz de revelar todos seus segredos. Em contrapartida, os solos pedregosos e mais secos encontrados no Cheval Blanc favorece na maioria dos anos uma maturação mais adequada para a Cabernet Franc, gerando vinhos mais abertos e prazerosos, com mais poder de fruta. Esses são os principais motivos para uma maior inclinação pelo Cheval Blanc, principalmente em safras mais recentes, mais jovens.

Painel: safras 82, 86, 90, 98 e 2000

Em recente painel, foram degustadas as safras acima com preferência ampla para o Cheval Blanc, por tudo que já foi exposto. 82 e 90 são safras excepcionais do Cheval, onde os vinhos mostram-se opulentos, ricos em fruta e com poder de guarda, sobretudo o 1990, com pelo menos mais dez anos de guarda. A safra 86 foi o ponto fraco do painel. Uma safra de difícil maturação das uvas, gerando vinhos com taninos um pouco agressivos, de difícil polimerização. Já as safras de 1998 e 2000 fecharam a degustação com chave de ouro para ambos os vinhos. Logicamente, pequenos infanticídios, mas os vinhos prometem um grande futuro. Ricos, com taninos bem delineados e muito bem equilibrados. Os aromas mais citados nesses grandes clássicos são os ligados à torrefação (café, chocolate), traços de tabaco, especiarias, grande pureza da fruta, e tal mineralidade (um toque terroso), sobretudo no Ausone.

Chateau Montrose x Sassicaia

13 de Março de 2015

Quer mais uma degustação ousada? A proposta acima é instigante, França versus Itália. Sassicaia, o pioneiro dos Supertoscanos, sacudiu o mundo no início dos anos 70. Um sonho do Marquês Mario Incisa della Rocchetta, apaixonado pelos vinhos bordaleses e com amizades nobres como Barão Éric de Rothschild, proprietário do mítico Château Lafite. O Marquês acreditava piamente que a região de Bolgheri, próxima ao mar Tirreno, e com solo pedregoso (Sassicaia vem de um dialeto local relacionado a pedras), era extremamente propício às castas bordalesas. No início da saga, as primeiras mudas de Cabernet foram trazidas do nobre Château acima. Como todo início, não foi nada fácil. Vinhas novas, métodos de cultivo e vinificação ainda experimentais, não animaram muito nas primeiras colheitas sendo as cobaias, familiares e amigos. Em certa ocasião, Piero Antinori, primo do Marquês, provou o vinho e vislumbrou seu potencial. Chamou então seu enólogo Giacomo Tachis, uma espécie de Émile Peynaud da Itália, para lapidar aquele diamante bruto. O sucesso não tardou a chegar, com críticos ingleses embasbacados diante de um simples Vino da Tavola. O caldo era muito sofisticado para humilde denominação. E assim foi criado o termo Super Tuscans.

O assemblage do Sassicaia é praticamente Cabernet Sauvignon (85%) com uma pequena porcentagem de Cabernet Franc (15%). É amadurecido em barricas de carvalho francês por 24 meses. Um modelo clássico bordalês de margem esquerda. Como todo italiano, seus taninos e sua acidez são firmes e presentes na juventude. Projetado como vinho de guarda, é um tanto difícil sua apreciação quando jovem. Contudo, envelhece maravilhosamente por décadas, de acordo com a potência da safra. O 1985 da foto abaixo, continua esplêndido.

A melhor safra: Nota 100

A descrição e características acima vão bem de encontro com o estilo Montrose, um Saint-Estèphe clássico e austero no juventude. Esta comuna, bem ao norte do Médoc, apresenta uma proporção maior de argila que as demais comunas famosas como Pauillac, Saint-Julien e Margaux. Este solo mais frio faz com que o vinho seja mais duro, com taninos mais firmes, e acidez mais presente. Estes fatores faz de um Montrose um dos vinhos mais longevos e gastronômicos da margem esquerda. A foto abaixo, mostra um dos maiores Montroses da história.

Apesar de jovem, outro nota 100

O Assemblage de Montrose prevê em média, dois terços de Cabernet Sauvignon, quase um terço de Merlot, e uma pitada de Cabernet Franc. O vinho amadurece entre 16 e 18 meses em barricas francesas, sendo em média 40% novas. Montrose faz parte da elite de Saint-Estèphe juntamente com o Château Cos d´Estournel, embora os estilos sejam bem diferentes.

Quanto ao Sassicaia, da famosa Tenuta San Guido, começou humilde como um Vino da Távola até atingir a Denominação de Origem Bolgheri Sassicaia em 1994, diferenciando-se dos demais tintos sofisticados de Bolgheri como por exemplo, o grande Ornellaia.

Para esta degustação às cegas com dois ou três exemplares de cada lado, é imperativo uma decantação de pelo menos duas horas para os vinhos, sobretudo se forem jovens, ou seja, menos de dez anos de safra.

El Enemigo: Argentino de peso

22 de Setembro de 2014

Coincidentemente, mais um argentino em nosso mercado. Eu sei que este assunto está saturado, mas as exceções devem ser destacadas. É o caso da bodega El Enemigo, do competente enólogo Alejandro Vigil, o qual tem uma ligação muito forte com premiadíssima Catena.

O primeiro fato que chama a atenção é que nenhum vinho dos cinco degustados passou desapercebido. Digo isso porque normalmente numa degustação de produtor, um ou mais vinhos podem ser indiferentes ou tecnicamente com algum problema. Portanto, neste caso, o palestrante tem notável talento em seu métier. Os vinhos abaixo são importados pela Mistral (www.mistral.com.br) .

Os vinhos da noite

O primeiro vinho da noite, o único branco da degustação, trata-se de um Chardonnay do Valle de Uco, mais especificamente, Tupungato, num vinhedo de solo calcário entre 1400 e 1500 metros de altitude. Tanto a amplitude térmica (diferença de temperaturas entre o dia e a noite), como o solo calcário, fornecem um belo suporte de acidez ao vinho. A vinificação é feita em barricas francesas parcialmente novas com uma peculiaridade. Há um véu de leveduras sobre a superfície do vinho, protegendo-o da oxidação. Processo semelhante aos vinhos de Jerez nos estilos Fino e Manzanilla. O vinho permanece amadurecendo em barricas por doze meses. Na degustação, mostrou-se muito mais ser um vinho europeu do que do chamado Novo Mundo. Sua cor sem evolução, apresentava-se brilhante num bonito amarelo-palha. Os aromas, muito elegantes, mesclavam como rara maestria, fruta e madeira. Final equilibrado e marcante.

Lembrando em certos aspectos um Côtie-Rôtie

O vinho acima abriu a sessão dos tintos. Novamente, muito elegante, com notas de frutas maduras e um instigante toque floral. Na boca, pessoalmente, poderia ter um pouco mais extrato, embora fosse muito bem equilibrado. O frescor neste e nos demais vinhos foi uma constante. O blend tem Syrah (93%) e Viognier (7%). Esta pequena porcentagem de uva branca procura temperar o vinho, enaltecendo seus aromas e sabores.

O segundo tinto, trata-se de um Bonarda. Como já comentamos, esta uva foi sempre descriminada na Argentina por participar de cortes de vinhos baratos e sem expressão. Neste caso, estamos falando de um Bonarda de vinhedos centenários, onde a concentração e a expressão de seu terroir são destacados. O vinho matura em antigos tonéis de carvalho. Mostrou-se com ótima intensidade de cor, aromas concentrados de frutas, toques defumados e notas animais (estrebaria). Bom corpo, bem equilibrado, taninos presentes e de boa textura. Final longo e bem acabado.

O penúltimo vinho é um Malbec típico do Valle de Uco com uma acidez notável. Além da Malbec, há algumas pitadas de Cabernet Franc (6%) e Petit Verdot (5%). Os vinhedos localizam-se a mais de 1400 metros de altura em solos pedregosos e calcários. Vinificação com longa maceração e amadurecimento em barricas francesas (70% novas) por catorze meses. Vinho de bela coloração, sem qualquer sinal de evolução. Seus aromas remetem a toques florais, de fruta concentrada, e especiarias. Madeira muito bem casada ao conjunto. Taninos firmes, presentes, mas de alta qualidade. Bom corpo, belo equilíbrio e final bem delineado. Na sua faixa de preço (R$ 114 reais), um dos melhores do mercado.

Por fim, a estrela do time. O ícone Gran  Enemigo. O corte é surpreendente. Dependendo da safra, gira em torno de 80% de Cabernet Franc, complementada pelas uvas Petit Verdot, Malbec e às vezes, Cabernet Sauvignon. Os vinhedos em Tupungato atingem 1470 metros de altitude com alta densidade (em torno de onze mil pés por hectare). A exceção é a Petit Verdot plantada em Agrelo (Luján de Cuyo). O vinho amadurece em barricas de carvalho (35% novas) por dezoito meses. Vinho de guarda, grande concentração de cor. Deve ser obrigatoriamente decantado por algumas horas. Seus aromas refletem a pureza de frutas escuras, um toque mineral esfumaçado, ervas e notas balsâmicas. Na boca, encorpado, macio, fresco (ótima acidez) e taninos abundantes de rara textura. Final longo e expansivo.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Rádio Bandeirantes (FM90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Chateau Calon-Ségur

15 de Maio de 2014

Em mais um almoço com o amigo Cesar Pigati, grande companheiro da boa mesa, dividimos uma garrafa de um Grand Cru Classé de Bordeaux. Trata-se do tradicional Troisième Château Calon-Segur safra 1996, uma das melhores das últimas décadas para o tinto em questão. De fato, o vinho estava num bom momento para consumo, embora tenha longa vida pela frente, pelo menos mais dez anos. Seus discretos 12,5 graus alcoólicos foram perfeitamente equilibrados com a habitual acidez de um Saint-Estèphe, de solo mais argiloso, além de uma estrutura tânica invejável. Taninos polidos, ainda não totalmente polimerizados, mas perfeitamente casados com a suculência e gordura de um belo carré de cordeiro.

chateau calon segurImponente como a foto

A história do Château remonta o século XVIII quando o marquês Nicolas-Alexandre de Ségur era proprietário dos Châteaux Lafite, Mouton e Latour, chamado por Luis XV de “Príncipe das vinhas”. Seu casamento unindo-se à família Gasqueton permitiu a posse de mais uma propriedade, denominando-a de Calon-Ségur. Calon era o nome dado a embarcações na idade média para a travessia do Gironde de uma margem à outra. O afeto pelo château era de tal maneira que proferiu a seguinte frase: “Faço os vinhos de Lafite e Latour, mas meu coração está em Calon”. Esta declaração é perpetuada em seu rótulo na forma de um coração envolvendo seu nome. Não confundi-lo com o Château Phelan-Ségur, este um Cru Bourgeois também de prestígio.

calon segur 1996A cor surpreendente de um Bordeaux na maioridade 

A foto acima traduz bem a lenta evolução dos grandes tintos de Bordeaux. Este com seus dezoito anos mal apresenta um leve indício atijolado nas bordas, sugerindo ainda bons anos de guarda. Um grande Saint-Estèphe pede longa guarda, pois na juventude é um tinto de taninos firmes e acidez insolente. Só o tempo é capaz de domar e integrar devidamente estes componentes. Sua composição segue a linha clássica do corte medoquino: 65% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot e 15% Cabernet Franc. As vinhas têm em média quarenta anos de idade e o vinho amdurece em barricas de carvalho por vinte e quatro meses, sendo de 30 a 50% novas.

Na elite desta apelação (comuna de Saint-Estèphe) temos os Châteaux Montrose e Cos d´Estounel. O primeiro de estilo mais tradicional, enquanto o segundo tem seu exotismo, inclusive em sua arquitetura. Mas como disse o Marquês, temos sempre um lugar no coração para um belo Calon-Ségur. Santé!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.


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