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Franceses no Top Ten

21 de Novembro de 2017

A lista de vinhos mais esperada no final de ano são os premiados da revista Wine Spectator, a despeito de toda a polêmica que envolve seus critérios. Seja o Top 100 ou Top 10, assunto é que não falta.

Neste ano, como de costume, um pelotão de americanos nos dez mais. Sem entrar no mérito do ranking e suas pontuações, são vinhos muito bem feitos, de ótima concentração, e dentro do estilo Novo Mundo, o que há de melhor.

a bela safra 2014 em Bordeaux

Falando agora dos franceses, tema do nosso artigo, vale destacar a ótima safra 2014 em Bordeaux. Se por um lado a safra 2015 mostra-se superior e com preços nas alturas, 2014 pode ser uma boa alternativa, sobretudo na margem direita. É o caso do Chateau Canon La Gaffelière no sétimo lugar com 95 pontos. Um St-Emilion de corte clássico com 55% Merlot, 37% Cabernet Franc, e 8% Cabernet Sauvignon. A boa participação da Cabernet Franc confere finesse e uma certa delicadeza ao vinho.

Outro destaque da safra 2014 foram os vinhos doces na região Sauternes-Barsac. O número três da lista é o tradicional Chateau Coutet,  o mais delicado nos já delicados vinhos de Barsac. Com 75% Sémillon, 23% Sauvignon Blanc e 2% Muscadelle, esse vinho alcançou 96 pontos. É um corte clássico na região com predomínio amplo da Sémillon, uva suscetível ao ataque da Botrytis e ao mesmo tempo, fornecendo estrutura ao conjunto. Os vinhos de Barsac costumam ser mais delicados e elegantes se comparados aos ilustres vizinhos de Sauternes. A maior porporção de calcário no solo explica em parte as características. Chateau Coutet personifica bem este estilo. Ótima referência, independente de safra.

wine spectator domaine huet

Domaine Huet: referência absoluta em Vouvray

Mais um branco francês e mais uma figurinha carimbada na Wine Spectator, o estupendo Domaine Huet. Qualquer vinho deste domaine é sempre muito bem feito, sendo referência absoluta na apelação Vouvray, uma das mais nobres do Loire com a casta Chenin Blanc. Vouvray tem a capacidade de moldar brancos de vários teores de açúcar residual, além de grandes espumantes. É o que há de mais alemão dentro da França. Este Vouvray Demi-Sec 2016, sexto lugar com 95 pontos, tem 20 gramas de açúcar residual por litro, se aproximamdo de um Spätlese alemão. Apesar de sua aparente fragilidade, são vinhos delicados, elegantes, minerais, e com uma capacidade de evoluir por décadas em adega. Sempre uma grande pedida.

wine spectator gigondas

Gigondas: apelação negligenciada por muitos

Agora mais um tinto francês da excelente safra 2015 em toda a França, inclusive no vale do Rhône. Gigondas é uma bela opção de compra aos badalados, caros, e inconstantes Chateauneuf-du-Pape. Este Chateau de Saint Cosme é um blend de 70% Grenache, 14% Syrah, 15% Mourvèdre, e 1% Cinsault. O famoso corte GSM maturado num bom balanço de barricas novas, usadas, e tanques de concreto. Vinho que privilegia a fruta, a maciez, e a concentração de sabores, ricos em ervas e especiarias. Chateau de muita consistência. Alcançou o quinto lugar com 95 pontos para um tinto de pouco mais de quarenta dólares no mercado internacional.

Esses quatro franceses descritos acima estão entre os Top Ten de 2017. Temos ainda um Brunello e cinco americanos fechando o ranking. Pensando agora num Top Ten pessoal, só de franceses, seguem abaixo os seis restantes, incluídos na lista dos Top 100 de 2017.

Completando a lista da bela safra 2014 em Bordeaux, temos mais dois tintos de peso. Um margem direita Saint-Émilion, e outro margem esquerda Saint-Julien.

Clos Fourtet St Emilion 2014 

Este é um Premier Grand Cru Classe de St-Emilion com predominância de Merlot no corte, cerca de 89%. Tinto de muita fruta escura, maciez e profundidade. Bem balanceado com a madeira (40% de barricas novas). 62º lugar com 95 pontos.

Chateau Léoville Las Cases 2014 

Este autêntico margem esquerda tem predomínio amplo da Cabernet Sauvignon com 75% no corte. Referência na comuna de St-Julien, o melhor dos Léoville é vizinho do grande Latour. Tinto de muita consistência, rica estrutura tânica, e enorme longevidade. 91º lugar com 95 pontos.   

Domaine des Baumard Savennières 2015 

Voltando ao Loire, outro Domaine de peso, Baumard. Especializado em Savennières, a melhor apelação para Chenin Blanc seco, a bela safra 2015 brilhou com o sol necessário para a tardia Chenin Blanc. Frutas exóticas como marmelo, toques minerais e de cera, além de uma acidez que garante muitos anos em adega. 15º lugar com 94 pontos.

Agora vamos à Borgonha que não podia ficar de fora. Contudo, fugindo um pouco das regiões badaladas. Portanto, mais ao sul da região, chegando até Beaujolais.

J.A. Ferret Pouilly-Fuissé 2015 

Referência da apelação Pouilly-Fuissé, Domaine Ferret molda vinhos de grande personalidade. Seus Crus especiais apresentam uma complexidade sem igual. Este em questão é a cuvée básica. Sua vinificação é parcialmente feita em barricas, nunca novas. O resultado é vinho cheio de frutas, toques florais, e incrível mineralidade. Sempre, uma compra certeira. 43º lugar com 92 pontos.

Dominique Piron Morgon La Chanaise 2015 

Para quem gosta de Beaujolais, Morgon é meu Cru predileto. Com certo envelhecimento, ele adquire alguns toques minerais de um autêntico Borgonha. Dominique Piron é um especialista desta comuna com vinhos sempre muito equilibrados. 56º lugar com 91 pontos. É o máximo que um Beaujolais pode atingir. Envelhece bem por pelo menos cinco anos.

wine spectator faiveley

Domaine Faiveley Mercurey  1º Cru Monopole Clos des Myglands 2015    

Embora não seja meu estilo preferido de Borgonha, devo admitir de Faiveley é um produtor cheio de tradição e de fãs inveterados. Sempre procura fazer uma vinificação junto com o engaço, o que gera vinhos robustos e de muita força. Este monopólio de pouco mais de seis hectares trabalha com vinhas antigas, entre 63 e 82 (idade de plantação). De todo modo, Faiveley é referência absoluta na pouco badalada apelação Mercurey (Côte Chalonnaise). 83º lugar com 93 pontos.

Da lista acima, alguns produtores que podem ser encontrados no Brasil através das seguintes importadoras abaixo. Os Bordeaux mencionados podem ser encontrados em algumas importadoras, já que não há exclusividade na comercialização.

http://www.mistral.com.br (Faiveley, Ferret, Coutet, Baumard, Ferret)

http://www.decanter.com.br (Dominique Piron)

http://www.premiumwines.com.br (Domaine Huet)

http://www.winebrands.com.br (Chateau de Saint Cosme)

 

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La Tâche Gaudichottée

29 de Julho de 2017

O mosaico bourguignon em termos de vinhedos e parcelas não é nada fácil de entender e memorizar. O conceito de terroir aqui é levado às últimas consequências, delimitando parcela por parcela. E já para complicar, há uma diferença conceitual entre Climat e Lieu-Dit, gerando enormes polêmicas no que diz respeito ao rigor filosófico da ideia de terroir.

Segundo o site oficial de vinhos da Borgonha (www.vins-bourgogne.fr), Climats são parcelas devidamente delimitadas pelo INAO, Instituto Francês que rege as apelações de origem (AOC), oficializadas em 1935. Portanto, algo oficial e com força de lei. Na Borgonha, segundo o site (www.climats-bourgogne.com), existem 1247 Climats em toda a apelação, sendo 635 exclusivamente a vinhas Premier Cru.

Já o termo Lieu-Dit, refere-se a locais consagrados pelo tempo, pela tradição, independente de leis que posteriormente possam ser criadas. Para alguns mais ortodoxos, a própria essência e origem de determinados terrenos.

Num raciocínio lógico e coerente, as duas definições se confundem, não havendo a principio distorções. Contudo, alguns casos particulares merecem uma reflexão mais profunda, sobretudo quando se trata de um dos maiores Grands Crus não só de Vosne-Romanée, mas de toda a Borgonha. No caso, o esplendoroso La Tâche, monopole da reputada Domaine de La Romanée-Conti. O quadro abaixo, ajuda elucidar o fato.

les gaudichots

Les Gaudichots: repartição complexa

No final do século XIX, em 1855, Les Gaudichots pertencia a quatro proprietários: Lausseure, Ragonneau, Confuron, e Bergeret. Nesta época, La Tâche já tinha reputação semelhante ao vinhedo Romanée-Conti e sua área era de apenas 1,40 hectare. Já Les Gaudichots possuía 5.95 hectares.

Em negociações um tanto obscuras, a maioria das parcelas de Les Gaudichots foram adquiridas por Duvault-Blochet, então proprietário DRC, entre final do século XIX e inicio do século XX, conservando em seus rótulos o nome Les Gaudichots. Tanto é verdade, que o Les Gaudichots 1929 Domaine de La Romanée-Conti é um vinho legendário.

Aproveitando o gancho, segue link do site Académie des Vins Anciens num almoço memorável com a presença de Aubert de Villaine no restaurante Taillevent, regado a grandes caldos, inclusive Henri Jayer Cros-Parantoux 1991 e 1995. http://www.academiedesvinsanciens.org/dejeuner-les-gaudichots-1929-au-restaurant-taillevent/

les gaudichots 1929

menção “grand premier cru”

Em 1933, o vinhedo original La Tâche, então propriedade da família Liger-Belair, é vendido ao Domaine de La Romanée-Conti. Baseado numa antiga prática de muitos Les Gaudichots serem comercializados na época com a menção La Tâche, ganhando assim prestígio, Domaine de La Romanée-Conti resolveu unificar os dois vinhedos, já que tinha quase a totalidade dos Les Gaudichots. Portanto, a área original de 1,43 hectare foi acrescida de 4,63 hectares, totalizando 6.06 hectares, área que comumente conhecemos dos La Tâches atuais.

Em 1936 com a criação das AOCs, La Tâche com a área ja unificada, foi declarado Grand Cru. Restou apenas um hectare de Les Gaudichots não pertencente ao Domaine. Essa pequena área é atualmente fragmentada nas categorias Village e Premier Cru, ou seja, Vosne-Romanée menção Les Gaudichots (Lieu-Dit) e Vosne-Romanée Premier Cru Les Gaudichots. Complicado, mas é verdade.

les gaudichots (2)

Forey: um dos proprietários atuais

Velho La Tâche versus Novo La Tâche

Muita discussão para pouca conclusão. De acordo com relatos da velha Borgonha, o La Tâche original possuia um terroir diferenciado com vinhos mais ricos. Com a mistura dos vinhedos, provavelmente houve uma certa diluição. De qualquer modo, o vinho é extraordinário e certamente mais prazeroso em muitos momentos, do que o astro maior Romanée-Conti, de evolução mais lenta em garrafa.

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perfil geológico

No perfil geológico acima num corte da comuna de Vosne-Romanée, o extenso vinhedo La Tâche já unificado, tem um declive de 50 metros do ponto mais baixo na mesma latitude de Romanée-Saint-Vivant, perto de 250 metros de altitude, até acima de La Romanée, passando por Romanée-Conti, na cota de 300 metros de altitude.

Desta forma, ele passa por três diferentes tipos de solo, fornecendo várias expressões nos diversos setores do vinhedo. Na parte mais baixa, coincidindo com o vinhedo original, o solo mais nobre e raro de Vosne-Romanée chamado Marnes à Ostrea Acuminata, uma mistura judiciosa de argila e pequenos fragmentos de fosseis marinhos, transmitindo grande mineralidade ao vinho. No meio da subida, o calcário fragmentado começa ter mais volume relativo à argila num solo menos profundo. O vinho perde força, mas ganha elegância. Por fim, na parte mais alta do vinhedo, o chamado Calcaire de Premeaux ganha volume, resultando num solo raso, fruto da erosão da rocha-mãe com pouca proporção de argila. Portanto, vinhos mais leves.

Isso pode explicar em parte o esplendor dos La Tâches antigos no final do século XIX, baseado na análise geológica acima. Segundo Jules Lavalle, estudioso e crítico de alto gabarito neste período na Borgonha, classificou o antigo La Tâche no mesmo nível do Romanée-Conti como Tête de Cuvée, enquanto o vinhedo Les Gaudichots numa classificação imediatamente abaixo, como Premier Cuvée.

Concluindo, mesmo na França, país de grande tradição vinícola e de leis bem estabelecidas e definidas, pode passar a falsa impressão de imutabilidade de grandes terroirs como visto acima. Percebemos no entanto, que leis, costumes e a própria evolução do homem, modifica e ajusta caminhos traçados pela história. 

Bourgogne e Bordeaux em Harmonia

20 de Julho de 2017

Bordeaux e Bourgogne  são incomparáveis, mas podem conviver juntos, cada qual com seu brilho próprio. Foi o que aconteceu num agradável almoço entre amigos, onde a França falou alto, mostrando a excelência de seus vinhos.

Dando as boas vindas, um  Pessac-Léognan Blanc, terroir inconteste para brancos bordaleses fermentados em barrica. No caso, Chateau Pape Clément da bela safra 2009. O corte bordalês para este chateau privilegia um pouco mais a Sauvignon Blanc (50%), seguida de perto pela Sémillon (40%). Embora possa haver uma pitada de Muscadelle, o chateau dá preferência para outra branca pouco comum, chamada Sauvignon Gris. O vinho é fermentado em barricas de carvalho com bâtonnage, além de mais 16 meses de amadurecimento nas mesmas. A integração com a madeira é excelente, além de maciez notável sem perder o frescor. Foi muito bem com alcachofras marinadas, de entrada.

São 100  pontos Parker num vinho de incrível densidade e frescor ao mesmo tempo. Os toques de frutas exóticas como carambola, mel e ervas finas, permeiam o complexo aroma.

nino cucina pape clement 2009

corte bordalês em perfeita harmonia

Para mante o nível, tivemos que chamar Batman e Robin com um estupendo trio DRC pela ordem: Romanée-Saint-Vivant 2004, Romanée-Saint-Vivant 1985, e o majestoso La Tâche 1989. Nada mau!

nino cucina rsv 2004

Hoje é dia de maldade!. Matamos uma criança nascida em 2004. Este primeiro Romanée-Saint-Vivant com seus 13 anos de idade só foi começar a se mostrar depois de mais de uma hora de decantação com notas florais muito puras. A boca poderosa, quase agressiva, dando indicio de longos anos para domar seus finos taninos. Bela acidez e um equilíbrio fantástico.

nino cucina trio DRC

não tá fácil pra ninguém!

Aí chega sua versão: eu sou você amanhã. DRC Romanée-Saint-Vivant 1985. Silêncio para se observar os finos aromas terciários de um Borgonha deste naipe. Sous-bois, toques minerais divinos, fruta completamente integrada ao conjunto, especiarias delicadas, e um floral de fundo. Taninos absolutamente polimerizados, fornecendo uma textura sedosa e um final arrebatador. Já valeu o almoço!

nino cucina la tache 89

alguém já disse: um dos maiores vinhedos sobre a terra!

Só que um DRC sempre pode se superar, e aí chega sua majestade, La Tâche 1989. Bom, é hora de ligar o turbo e colocar a sexta marcha. Por incrível que pareça, ainda não está totalmente pronto, fruto de uma garrafa extremamente bem conservada. Taninos ainda presentes, mas de rara textura. Boca ampla, multifacetada, vai do Alfa ao Ômega, final expansivo, muito longo. Obrigado super Mário!

Você deve estar se perguntando, como é possível um Pinot Noir ainda não estar pronto com quase trinta anos?. Embora seja uma uva delicada, na Borgonha o ciclo de maturação da Pinot Noir é alongado ao extremo, permitindo um aporte de taninos acima do esperado. Some-se a isso, o fato dos DRCs serem vinificados com engaço, aumentando sobremaneira a estrutura de seus vinhos. Para isso ter sucesso, as uvas devem estar perfeitamente maduras, inclusive fenolicamente (taninos) falando.

iguarias para os DRCs

Não é fácil escolher comida para esses DRCs, sobretudo os dois mais antigos e complexos. Graças a Deus tinham algumas trufas para salvar a situação. Na fota acima, o restaurante Nino Cucina elaborou dois pratos com muita competência. O da esquerda, servido lindamente na frigideira, tratava-se de um Gnocchi maravilhoso com molho Taleggio, um dos melhores queijos do norte da Itália. Lascas de trufas negras por cima, completaram o quadro. Com o St Vivant 85, ficou uma maravilha. A textura de ambos se completavam, além das trufas darem campo para os divinos aromas terciários do vinho.

Já no prato à direita, um clássico do restaurante, talvez a melhor Língua de São Paulo. No caso, Língua ao molho de Mostarda em grãos (senape) com cebolas e batatas ao forno. O sabor e a textura desta língua são uma delicadeza sem fim. Precisão cirúrgica para envolver aqueles taninos ainda presentes no La Tâche 89 e deixa-lo desfilar à vontade, protagonizando a harmonização. Um gran finale!

alguns mimos para o Yquem 1998

Adoçando um pouco a vida, algumas especialidades da casa para escoltar o rei sol de Sauternes, Chateau d´Yquem. Com quase 20 aninhos, é uma boa fase desses vinhos capazes de atravessar décadas. A fruta ainda intensa, o mel perfumado, e os toques de Botrytis, se fundem bem na transição de aromas mais terciários. O belo Cannoli com raspas de laranja incita o lado cítrico e de juventude do vinho. Por outro lado, o Cucciolone, um biscoito de difícil elaboração com vários ingredientes na receita, envolvendo baunilha, cacau, malte, entre outros, complementado por uma calda de caramelo, instiga o lado mais doce e complexo do vinho. Enfim, este Yquem foi acariciado por todos os lados.

No final do almoço, um pessoal da Ficofi, da mesa ao lado, veio conferir e se surpreender com as maravilhas degustadas. Esta entidade de luxo reúne os melhores Chateaux e Domaines do mundo com ênfase evidentemente na França.

Um pouco mais de conversa e vários cafés encerraram este belo almoço, unindo de forma brilhante, Bordeaux e Bourgogne, além de França e Itália à mesa. Vida longa aos amigos de mesa e copo! Que Bacco nos abençoe sempre!

Domaine D´Auvenay

14 de Janeiro de 2017

O que é exclusividade na Borgonha?: Romanée-Conti?, La Tâche?, Montrachet?, Chambertin?. De fato, são nomes mágicos, para poucos privilegiados, e de preços nas alturas!

Contudo, exclusividade pode ser algo relativo e quase imensurável dentro de certos parâmetros. Voltando ao mito Romanée-Conti, estamos falando de aproximadamente seis mil garrafas por ano, dependendo da safra. Que tal falarmos agora em números com menos de mil garrafas, ou seja, algumas centenas?. Pois bem, isso é Domaine D´Auvenay, o lote mais exclusivo dos já exclusivíssimos vinhos com a marca Leroy.

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uma barrica de vinho

O contra rótulo acima é o cúmulo da exclusividade. Criots-Bâtard-Montrachet é por si só o Grand Cru de brancos mais diminuto da Borgonha, pouco mais de um hectare e meio. O vinhedo deste Domaine é tão pequeno e aliado aos baixos rendimentos, que só é possível fazer uma barrica de vinho, ou seja, em torno de 300 garrafas por ano.

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Madame Leroy e Paul Bocuse em outros tempos

Domaine d´Auvenay localiza-se em Saint-Romain, residência de Madame Leroy (nome de registro: Marcelle). A propriedade foi palco de inúmeras degustações desde Henri Leroy, pai de Lalou Bize-Leroy  falecido em 1980, onde no pós-guerra já fazia degustações memoráveis com seus vinhos, tendo como personalidades da enogastronomia, Paul Bocuse, por exemplo.

Domaine d´Auvenay trabalha com vinhedos exclusivos que somam algo perto de quatro hectares entre brancos e tintos, totalizando aproximadamente oito mil garrafas. Os rótulos estão distribuídos em apelações de prestígio nas categorias Grand Cru, Premier Cru e alguns comunais.

Na distribuição das uvas, temos: 13% Pinot Noir, 77% Chardonnay, e 10% Aligoté.

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um tinto para poucos

Os vinhedos são conduzidos de forma biodinâmica com todo rigor que Madame exige. Os rendimentos são baixíssimos, em torno de 20 hl/ha. A vinificação pouco intervencionista, trabalha com leveduras naturais, sem desengaçe,  pigeages programadas e posteriormente, amadurecimento em barricas novas. Os vinhos são engarrafados sem filtração.

O domaine foi criado em 1988 após algumas aquisições de pequenas parcelas de vinhedos nos mais famosos climats. Recentemente, só para ter ideia de algumas cifras, foi adquirido 0,3 hectare em Bãtard-Montrachet, Grand Cru de enorme prestígio, por 25 milhões de euros o hectare. Negócio de gente grande.

Os vinhos do Domaine tem forte penetração no mercado japonês com alguns rótulos de parcelas exclusivas só para este país. O grupo de luxo Takashimaya é acionista dos vinhos Leroy, contando evidentemente com alguns privilégios.

Se fosse possível encomendar uma caixa de doze garrafas sortidas (assortment), a tabela abaixo pode ser uma sugestão com alguns dados técnicos de cada vinhedo.

vinhedos Área (ha) rendimento  vinhas Nº gf Preço/gf
Mazis-chambertin Grand Cru 0,26 18 hl/ha 78 anos 550 3500 €
Bonnes Mares Grand Cru 0,26 23 hl/ha 50 anos 780 3500 €
Chevalier montrachet Grand Cru 0,15 25 hl/ha 40 anos 500 3500 €
Criots Batard Montrachet Grand Cru 0,11 20 hl/ha 67 anos 300 ( ?) 4000 €
Puligny Montrachet Premier Cru Folatieres 0,26 23 hl/ha 62 anos 800 900 €
Puligny Montrachet en La Richarde 0,21 23 hl/ha 62 anos 650 900 €
Meursault Premier Cru Les Gouttes 0.19 27 hl/ha 47 anos 700 1000 €
Meursault Les Narvaux 0,67 20 hl/ha 72 anos 1800 800 €
Auxey Duresses Les Clous 0,29 29 hl/ha 24 anos 1100 520 €
Auxey Duresses Les Boutonniers 0,25 21 hl/ha 82 anos 700 490 €
Auxey Duresses La Macabrée 0,62 20 hl/ha 62 anos 1650 400 €
Bourgogne Aligoté 0,30 27 hl/ha

50 anos

1100

210 €

Os preços podem variar substancialmente, de acordo com a safra, o local de venda, as ofertas lançadas em cada leilão, e assim por diante. Além dos vinhos desta tabela, existem outras pequenas parcelas sendo algumas delas, lançadas só em determinados anos e outros rótulos para mercados exclusivos.

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Domaine d´Auvenay

Residência escondida em Saint-Romain, vilarejo próximo a Auxey-Duresses, palco do 60º aniversário da Maison Leroy onde foram provados vários rótulos da safra 1955, ano em que Lalou Bize-Leroy tomou frente do negócio. Entre outras preciosidades, estavam Musigny, Clos de Vougeot, Chambertin, Grands-Échezeaux.

 

Bordeaux e outros grandes 85 – Parte I

22 de Dezembro de 2016

A ideia de reunir grandes tintos da safra 1985 surgiu em muitas comparações quando foram confrontados lado a lado alguns belos bordaleses safras 82 e 85 em degustações verticais memoráveis ao longo do ano. É claro que os míticos 1982 têm seu lugar cativo, pois trata-se de uma das maiores safras do século passado. Entretanto, embora os 85 não tendo a mesma potência dos gloriosos 82, guardam um equilíbrio fantástico, são sedutores, e continuam em grande forma.

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as joias da safra 1985

Nesta última degustação do ano, resolvemos perfila-los numa seleção do que há de melhor na elite dos Bordeaux. Mais que isso, foram pinçados outros grandes 85 de regiões diversas, pois esta safra brilhou em várias denominações de origem prestigiadas. Assim, participaram Bourgogne, Piemonte, Toscana e Douro.

Divididos em grupos, vamos a seguir lembra-los, já começando com um trio arrasador. Num flight sem comparativos entre si, valeu a individualidade e a tipicidade confirmada por cada um. Afinal, trata-se de grandes produtores, referências em suas respectivas denominações de origem.

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italianos abraçando um português

Difícil começar por um, mas vamos lá. Sassicaia 85 é algo diferente já entre os demais Sassicaias. O rei dos supertoscanos nesta safra tornou-se imortal. Encorpado, equilíbrio fantástico, aromas que vão do chocolate, tabaco, até uma profusão de ervas como tomilho e sálvia, marcando a tipicidade italiana. Seu concorrente piemontês, Aldo Conterno Granbussia, numa elegância impar. Um Barolo de grande refinamento, mostrando que a Nebbiolo pode moldar vinhos tão elegantes quanto os mais finos borgonhas. Delicadeza e equilíbrio fantásticos. Barca Velha, a obra-prima de Fernando Nicolau de Almeida, colocando o Douro no mapa-múndi dos grandes vinhos. Cheio de vida, taninos presentes e muito finos. Os toques balsâmicos, ervas, e frutas em compota, permearam seus aromas. Ainda com bons anos pela frente.

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Guigal iniciando os bordaleses

Como tínhamos somente dois tintos do Rhône, resolvemos juntá-los a um par de bordaleses que respeitassem sua elegância. Os La-La-La, como são conhecidas as joias do produtor Guigal, trata-se de um triunvirato do mais alto nível da apelação Côte-Rôtie, norte do Rhône. La Landonne, mostra toda a elegância da Syrah neste solo granítico e escarpado. Muito sedoso, aromas balsâmicos com toques de incenso. Extremamente longo e harmonioso. La Turque, o macho da dupla, é cheio de virilidade, taninos mais presentes, uma certa austeridade, mas igualmente delicioso. Difícil pontua-los e compara-los em preferencia. Com toda essa delicadeza, entra em cena o Borgonha de Pauillac, o majestoso Lafite. Notas balsâmicas, especiarias delicadas, ervas finas, e o toque de tabaco característico da comuna. Bela evolução, mas com muita vida pela frente. Finalizando, o exclusivíssimo Le Pin, Pomerol de alto coturno. Mais denso que os demais, porém mantendo a suavidade do flight. Os toques de ameixa escura, chocolate, e um certo terroso, marcam seus aromas. Persistente e em plena forma.

Em meio aos flights, vários pratos preparados pelo assador Renzo Garibaldi, especialista em carnes dry aged, longamente maturadas, como da foto abaixo. 

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maturação de um ano

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Clos de Tart ladeado por DRC

Chegando ao terceiro flight, temos um “intruso” no meio dos DRCs. Não é fácil colocar um vinho nesta situação, sem humilha-lo, pois a comparação é cruel. Contudo, Clos de Tart se portou altivo, respeitando sua vizinhança, mas impondo-se como um dos maiores entre os tintos da Côte de Nuits. De história tão antiga quanto o ilustre Romanée-Conti, Clos de Tart é o maior monopólio individual entre os Grands Crus da Borgonha. Extremamente longevo, nesta safra já se mostra acessível com seus lindos toques de cerejas escuras, violetas, especiarias e um mineral impressionante. O primeiro DRC, Romanée-St-Vivant, estava gracioso com seus toques florais, ervas, especiarias, muito macio e resolvido em boca. Safra prazerosa e num ótimo momento para ser apreciado. Por fim, a estrela do flight, o suntuoso La Tâche. Que imponência, que estrutura, que equilíbrio! O que é isso? Hugh Johnson já disse: “um dos maiores vinhedos sobre a Terra”.

Próximo artigo, os grandes Bordeaux, razão maior desta degustação, e outras preciosidades after dinner. Aguardem!

Cuidado com o nível do vinho!

29 de Fevereiro de 2016

Os vinhos comprados em nosso dia a dia passam desapercebidos quanto ao nível do liquido dentro da garrafa. Por serem via de regra muito jovens, este nível não apresenta problemas, geralmente próximo à rolha em sua extremidade interna. Embora sejam situações de exceção, pode ocorrer um nível baixo dentro da garrafa fechada dando indícios de vazamentos decorrentes por exemplo, de mau arrolhamento, qualidade da rolha, refermentações por ações de bactérias, geometria defeituosa do gargalo, entre outros fatores. Não é o caso deste artigo. Aqui vamos falar do assunto quando se refere a vinhos antigos, de colecionadores, de grandes adegas, e evidentemente vinhos de alta qualidade e reputação no mercado, sobretudo internacional.

ullage

bordeaux antigos: níveis variados nas garrafas

O termo técnico para este parâmetro chama-se ullage (inglês) ou ouillage (francês). É o espaço de ar entre a superfície líquida e os limites aonde o líquido está contido. No caso, líquido (vinho) e o limite de espaço (rolha). Esse termo também é muito utilizado no caso das barricas de carvalho. Voltando ao assunto, com o passar do tempo, esse espaço tende a aumentar no envelhecimento dos vinhos, mesmo que as condições de conservação sejam ideais. Os motivos aceitáveis são absorção do vinho na rolha e discreta evaporação do líquido através de trocas gasosas pela porosidade da mesma, ou seja, o vinho de certa modo respira pela rolha no que chamamos de micro-oxigenação. Contudo, há limites bem definidos para a evolução desta diminuição do líquido. No esquema abaixo, elaborado por Michael Broadbent, Master of Wine consagrado e durante muito tempo, homem forte da conceituada Casa de Leilões Christie´s, fica mais fácil entendermos o assunto.

ullage bordeaux

esquema para garrafa bordalesa

Até os dois primeiros níveis partindo da base da rolha (entre 3 e 5 milímetros), não há problemas com o vinho para qualquer idade do mesmo. No terceiro nível (top shoulder), até 1,5 centímetros, é aceitável para vinhos antigos até 15 anos de idade. Num quarto nível, até 2,5 centímetros, é aceitável para vinhos acima de 20 anos de idade. Entre 3 e 3,5 centímetros, no final do ombro da garrafa, já poder haver possibilidade de oxidação e portanto, o preço deve levar em conta um certo risco. Níveis entre 6 e 7 centímetros ou valores maiores, o risco é extremamente grande e a “potabilidade” do vinho é bastante questionável.

comparativo: bourgogne x Bordeaux

No caso das garrafas borgonhesas, podemos definir alguns parâmetros: até 2 centímetros, aceitável para qualquer idade. Entre dois e três centímetros, vinhos até dez anos. De três a quatro centímetros, vinhos entre 20 e 30 anos de idade. Até 5 centímetros, vinhos em torno de 30 anos. Entre 6 e 7 centímetros, vinhos entre 35 e 50 anos. Acima de 7 centímetros, o risco pode ser grande. De todo modo, são apenas referências. As exceções são verificadas caso a caso.

Outras considerações em vinhos antigos diz respeito ao estado dos rótulos, cápsulas, e a própria cor do líquido, conforme parâmetros abaixo:

Rótulo

Dados ilegíveis como safra, produtor, vinhedo, graduação alcoólica, e cortes no rótulo com mais de meia polegada, são problemas para comercialização e leilões. É aceitável uma ligeira descoloração para vinhos acima de 15 anos. Rótulos ligeiramente manchados. Rótulos com inscrições e dedicatórias, ou cópias coladas no lugar dos mesmos, também são objetos de rejeição.

rótulos e cápsulas

Rolha

Situações em que a rolha está abaixo do topo da garrafa (mais de um milímetro), pode denunciar exposição do vinho a extremos de temperatura (freezer ou aquecimento). Também pode ocorrer certa oxidação. Pode haver rolhas com sinais de penetração por algum tipo de objeto.

rolha afundada

Cápsulas

Corrosão excessiva ou perfuração da cápsula causa desproteção para a rolha. Ausência da cápsula ou parte da mesma recortada é outro sinal de preocupação. Cápsulas de cera podem estar parcialmente inteiras ou até mesmo, totalmente removidas. Neste último caso, devem ser rejeitadas para compra. Cápsulas não originais podem ser indício de falsificação.

ullage e cor compatíveis para a idade

Cor do líquido

A cor do vinho dentro da garrafa trata-se de uma avaliação com certa margem de erro. De todo modo, alguns parâmetros devem ser considerados. Para vinhos brancos, especialmente borgonhas, a cor dourada é aceitável de acordo com a idade do vinho. Cores ambares ou amarronzadas devem ser rejeitadas. Para vinhos doces, especialmente Sauternes, são aceitas cores douradas até 15 anos de idade. Para vinhos mais velhos, a cor âmbar é aceitável. Uma cor muito escura, os riscos são grandes. Para os vinhos tintos até 15 anos de idade, a cor amarronzada é totalmente rejeitada. Vinhos mais envelhecidos devem ser avaliados caso a caso, pois há um clareamento na cor provocada pela precipitação de polifenóis.

taylor´s 1970

sedimentos do vinho

Numa garrafa de Porto Vintage envelhecido como da foto acima, podemos encontrar sedimentos bastante presentes no líquido. Basicamente são polimerizações de polifenóis, sobretudo dos taninos, inclusive impregnando a rolha.

Enfim, são muitos os parâmetros para avaliação de vinhos antigos. O conhecimento exato do histórico do vinho em termos de conservação é fundamental para a credibilidade e segurança nos critérios de avaliação acima mencionados.

Franceses em tempos de crise

1 de Fevereiro de 2016

Se você não abre mão de um bom vinho francês, ainda há solução sem desembolsar uma fortuna. O que a gente ve de porcaria nas prateleiras de supermercados é qualquer coisa de assombroso e ainda por cima, caro !!!. Portanto, vamos nortear uma das saídas, conforme sugestões abaixo:

  • Albert Mann Riesling Tradition 2014 – R$ 80,00

Belo produtor alsaciano com vinhos bem moldados e muita tradição. Este Riesling é para você não esquecer o charme desta uva onde as inúmeras tentativas mundo afora é geralmente frustrante.

  • Frédéric Magnier Crémant de Bourgogne Extra-Brut Blanc de Noirs – R$ 90,00

Bela alternativa para um champenoise autêntico. Elaborado com Pinot Noir, tem boa estrutura para ir à mesa com pratos leves de verão.

puligny boillot

Um de seus Premier Cru

  • Jean-Marc Boillot Bourgogne Blanc 2013/14 – R$ 60,00 (1/2 gf) e R$ 135,00 (750 ml)

Este produtor sabe os segredos de um belo Puligny-Montrachet. Portanto, seu Borgonha branco básico está garantido nas opções de meia garrafa ou garrafa inteira. Elegante, bem elaborado e sem sustos.

  • Gay-Coperet Moulin-à-Vent Vieilles Vignes 2013 – R$ 90,00

A primeira dica para se comprar um bom Beaujolais, típico tinto de verão, é não estar escrito Beaujolais no rótulo. Moulin-à-Vent é a comuna de maior expressão desta apelação. As vinhas antigas garantem autenticidade e concentração.

champagne arlaux

Cuvée Especial

  • Arlaux Champagne 1º Cru Brut Grande Cuvée – R$ 220,00

Aonde você encontra hoje em dia um champagne por R$ 220,00? Já tem espumante nacional neste preço! Além do mais, trata-se de um champagne artesanal com vinhas Premier Cru. Na versão rosé, basta mais quarenta reais. Para os amantes da bebida, não há desculpa.

  • Yann Chave Crozes-Hermitage Rouge 2013/2014 – R$ 105,00 e R$ 115,00

Está cansado daqueles Shiraz pesados do Novo Mundo? Crozes-Hermitage é uma apelação onde o produtor faz a diferença. Esté Syrah é equilibrado, autêntico, e muito adequado nesta época do ano onde vinhos musculosos são enfadonhos.

Fleurie chignard

Outra bela opção em Cru du Beaujolais

Agora para os amantes de Bordeaux, sempre de boas safras.

  • Château Potensac 2005 – R$ 360,00

Tinto sempre confiável da excelente safra 2005. Já passando de seus primeiros dez anos, mostra o que um Bordeaux oferece a quem tem paciência. Tinto para pratos estruturados com excelente equilíbrio e classe.

  • Château Sociando-Mallet 2009 – R$ 400,00

Um dos mais confiáveis tintos do Médoc com jeitão de “Grand Cru Classe”. Outra bela safra com bons anos em adega pela frente. Taninos polidos, equilíbrio perfeito e longo em boca.

  • Château Meyney 2010 – R$ 240,00

Outra bela safra na região com ótimo potencial de guarda. Se for toma-lo agora, pelo menos uma hora e meia de decantação. A comuna de Saint-Estèphe costuma gerar vinhos de destacada acidez e certa austeridade quando jovens. Contudo, o tempo devolve tudo em dobro.

  • Château Haut-Bergeron Sauternes 2010/11 – R$ 120,00 (1/2 gf) e R$ 220,00 (750 ml)

Esta é por anos a fio a maior pechincha em Sauternes. Sempre muito consistente, independente da safra, traz toda a tipicidade de um Sauternes. E ainda, na opção de meia garrafa. Não corra riscos por aí.

Enfim, essas são dicas de compra neste feriado de carnaval que se aproxima. Passando por todos os tipos: espumante, champagne, brancos, tintos e vinho de sobremesa, temos franceses confiáveis. Muitos deles, com preços girando em torno de cem reais. Notem que não se trata de saldões, desovas ou coisa do gênero, tão comum nesta época.

Sem nenhum interesse e para sua facilidade, todos esses vinhos num só lugar, importadora Cellar. O expert Amauri de Faria seleciona com carinho e conhecimento há anos, opções sempre interessantes a preços justos. http://www.cellar-af.com.br

Champagne e Bourgogne à mesa

7 de Janeiro de 2016

Champagne talvez seja o vinho mais gastronômico por seu ecletismo. Tem boa acidez, álcool comedido, e não se sobrepõe aos pratos, mantendo revigorado o paladar. Os dois senões são: carnes vermelhas e comidas rústicas, pesadas, já que trata-se de um vinho com certa aristocracia. Num almoço oferecido por um grande amigo, pudemos comprovar mais uma vez esta versatilidade.

jacquesson

Cuvées numeradas

É bem verdade, que tratava-se de um champagne acima da média, o espetacular Jacquesson Extra-Brut Cuvée 738. Esta cuvée baseia-se no ano de 2010, sendo que 33% do blend são vinhos de reserva. Na sua composição, temos 61% de Chardonnay, fornecendo elegância, 39% entre Pinot Noir e Pinot Meunier, proporcionando estrutura ao conjunto. O resultado é um champagne de grande frescor, cremoso, profundo e muito persistente. Acompanhou muito bem as entradas de funghi e patinhas de caranguejo com molho tártaro. E se quiséssemos, podia ir mais longe à mesa.

clos des lambrays

vinho com muita história

O vinho acima apesar de muita tradição, só foi promovido a Grand Cru em 1981. Sua história começa no século quatorze onde monges beneditinos cultivavam vinhas numa parcela chamada “Cloux des Lambrey”. Durante a revolução francesa as terras foram divididas em 74 proprietários. Com o tempo, a propriedade volta a um domínio familiar sendo que em 1996, o casal Günter e Ruth Freund assume o domaine com muitos investimentos no vinhedo.

Clos des Lambrays é constituído de 8,7 hectares, propriedade grande para padrões borgonheses. Suas vinhas têm em média 40 anos com alta densidade de 10 a 12 mil pés/hectare e rendimento de 30 hectolitros/hectare. Nessas dimensões, o terroir é dividido em três partes: meix rentier, les larrets e les bouchots. O primeiro são terras mais argilosas e pesadas. O segundo tem excelente exposição solar e drenagem, enquanto que o terceiro é bem protegido dos ventos do norte. Neste contexto, combina-se finesse, elegância, com estrutura e corpo.

A produção é grande para um Grand Cru, entre 30 e 40 mil garrafas por safra. A vinificação envolve uma boa extração com trabalho constante de pigeage. O amadurecimento dá-se em barricas de carvalho por dezoito meses, sendo metade novas.

codorna assada

Codorna: um clássico para borgonhas

Babette já mostrava o caminho: codorna com Clos de Vougeot. Quem sou eu para contraria-la! Esta da foto acima preparada no forno, acompanhada de arroz puxado no próprio molho é um clássico do restaurante Tatini, fundado em 1954. Continua em plena atividade como os tradicionais “concorrentes” La Casserole e Freddy. Seu atendimento com os réchauds pelo salão é um espetáculo à parte. Fruto do trabalho sem tréguas de Mário Tatini, patriarca e alma deste restaurante, moldou uma geração de garçons à sua maneira, ampliando muito seus conhecimentos à mesa e não apenas, em servir e retirar pratos. Seu filho Frabizio, dá prosseguimento à saga com conhecimento e elegância.

Voltando ao tinto, a harmonização comprovou-se muito boa. A delicadeza da codorna com ervas casou perfeitamente com a elegância do vinho. Seus aromas terciários, além das especiarias, alcaçuz e sous-bois foram de encontro aos sabores do prato. Tinto de bom corpo, taninos macios e final persistente. Bom momento para ser apreciado.

Outros tintos do domaine são um Premier Cru Les Loups e um comunal Morey-St-Denis, perfazendo em média quinze mil garrafas por safra. Evidentemente, são cuvées que não estão à altura de um Grand Cru. Além disso, o domaine elabora um Fine des Lambrays no mesmo processo feito em Cognac. “Fine” é o brandy mais sofisticado da Borgonha. Envelhece por sete anos em carvalho da floresta de Tronçais. É engarrafado sem redução de álcool com graduação de 49° graus. São pequenas partidas de vinho, próprias para destilação. Os vinhos são trazidos pela importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br).

Enfim, quando Champagne e Bourgogne estão à mesa, a companhia e a comida devem estar à altura. E estavam …

Cellar, França e Itália: 20 Anos

4 de Agosto de 2015

Vinho Sem Segredo não tem o perfil de badalação, de envolvimentos comerciais com importadoras, lojas de vinhos ou qualquer outro meio de merchandise. Simplesmente, queremos liberdade total para falarmos do que quisermos, da forma que quisermos e quando quisermos. Contudo, sempre há uma ou outra exceção, faz parte da vida. E esta exceção hoje, vai para a importadora Cellar que completa 20 anos de atividade com um catálogo muito bem elaborado pelo seu mentor, Amauri de Faria.

Amauri de Faria pode lá ter uma personalidade um tanto difícil, quase um Barolo em tenra idade, mas absolutamente sincero e preciso em suas opiniões. Profundo conhecedor de vinhos há décadas, formado em arquitetura, já projetou muitas adegas residenciais. Conhece a enogastronomia europeia como poucos e tomou uma decisão ousada e desafiadora, trabalhar somente com vinhos franceses e italianos. Para isso, escolheu e escolhe a dedo seus parceiros, produtores de altíssimo nível. A outra ponta do negócio é formar uma clientela fiel e seleta para seus produtos. E aqui entra a verdadeira fidelização. À medida que uma pessoa torna-se cliente da Cellar, pouco a pouco, a critério do próprio Amauri, vai tendo acesso a alguns mimos que só os mais antigos conhecem. Bem ao contrário da fidelização moderna de vários produtos e serviços, onde as vantagens estão só no começo da relação como armadilhas, para mais tarde apunhalar-nos com seus verdadeiros preços extorsivos.

Uma das falsas críticas que se faz à esta importadora é  sua rigidez em fornecer descontos. O brasileiro geralmente está acostumado a ser extorquido com preços inflados de muitas importadoras que para fechar as vendas costumam fornecer descontos generosos e assim, fazer um “agrado” ao cliente. Em inúmeras pesquisas de preços praticados por importadoras de vinhos ao longo de vários anos, a importadora Cellar sempre se destacou por praticar preços justos levando em conta a situação tributária de nosso país. Portanto, o que vale é o preço final pago pela garrafa, e não certos descontos “generosos” praticados no comercio selvagem.

Quanto aos produtos trazidos pela Cellar, fica difícil destacar um ou outro. Porém, quem trabalha com Aldo Conterno (Barolos de alta costura), Jermann (brancos de grande personalidade), Anne Gros (os grandes tintos de Vosne-Romanée), Clos de Tart (borgonha enigmático), Domaine Mugnier (a delicadeza de Chambolle-Musigny), Domaine Courcel (referência em Pommard), Yann Chave (Hermitages profundos) e tantos outros, não está brincando em serviço. Em suma, qualquer vinho desta importadora é no mínimo uma escolha segura, de produtores realmente sérios. Em termos de preços, nada de sustos. Naturalmente, cada vinho tem seu preço numa escala hierárquica, mas têm vários exemplares também abaixo de cem reais numa compra extremamente confiável.

Aldo Conterno: Barolos irretocáveis

Mugnier: Expressão Máxima em Chambolle-Musigny

Este texto é ao mesmo tempo uma homenagem, nem o próprio Amauri ainda sabe. Entretanto, fiz questão de mostrar aos seguidores deste blog, que ainda existem pessoas confiáveis e altamente capacitadas neste mundo dos vinhos, infelizmente recheado de aventureiros. Amauri de Faria é uma pessoa muito reservada, avesso a badalações, redes sociais e eventos de fachada. Colaborou muito com seus conhecimentos nas década de 80 e 90 para a divulgação do vinho e enogastronomia em nosso país, sendo um dos pioneiros em participações na antiga revista Gula, com ótimos conteúdos na época.

Quatro sugestões pessoais, sendo duas de cada país (França e Itália):

  • Paolo Avezza Barbera d´Asti Superiore Nizza “Sotto la Muda” DOCG 2009 – R$ 130,00

Vinho macio, de bom corpo, bem casado com a madeira. Boa sugestão para o Inverno

  • Salcheto Vino Nobile di Montepulciano 2010 (Tre Bicchieri) – R$ 135,00

          Prugnolo Gentile (nome local da Sangiovese) vinificada num estilo mais tradicional. Bela tipicidade.

  • Thibault Liger-Belair Moulin-à-Vent Vieilles Vignes 2012 – R$ 120,00

           O mais reputado Cru de Beaujolais. Um Gamay com elegância e profundidade.

  • Yann Chave Hermitage 2011 – R$ 370,00

           Um vinho de guarda para quem tem paciência. Profundidade, corpo e grande mineralidade.

http://www.cellar-af.com.br

Parabéns à Cellar, e que venham pelo menos mais 20 anos com esta mesma filosofia!

Filosofias: Bourgogne e Bordeaux

3 de Julho de 2015

Numa garrafa de Bourgogne ou Bordeaux há muito mais filosofia do que se pensa. Evidentemente, estamos falando dos grandes vinhos destes míticos terroirs. A despeito da enorme diferença do solos, climas e uvas envolvidas, o fator humano me parece ser mais decisivo e mais apaixonante. Um dos encantos da França é classificar, selecionar e individualizar certas filosofias sobre seus vinhos.

No caso da Bourgogne, Deus presenteou um terroir abençoado, sobretudo no que chamamos de Côte d´Or (não é costa dourado e sim, costa do oriente). As duas colinas (Côte de Beaune e Côte de Nuits) foram concebidas em plena harmonia na composição de seus solos, drenagem e insolação perfeitas e clones criteriosamente adequados ao plantio. Couberam aos monges cistercienses o devido tempo e paciência para formar perfeitamente o intrincado mosaico de vinhedos com classificações hierárquicas muito bem definidas.

Já no caso bordalês, a natureza não foi tão privilegiada a principio, sobretudo na sub-região do Médoc, a chamada margem esquerda de Bordeaux. No final da idade média, tínhamos sérios problemas de drenagem na região que sofria com cheias periódicas do Gironde. A solução foi contratar engenheiros holandeses, especialistas em represamento de águas, para drenarem toda a região. Assim o presente divino começa a ser desvendado. Encontrou-se então um solo e subsolo de destacada pedregosidade  e com grande capacidade de escoamento de águas. Nessas condições aliadas ao clima moderado com a influência do Gironde, a Cabernet Sauvignon encontrou seu lar ideal. Mas não foi só isso. Do lado do Atlântico, o avanço das grandes dunas de areia, mais a umidade e salinidade dos ventos marinhos tiveram que ser barradas. A solução foi uma enorme floresta de pinheiros com mais de um milhão de hectares, chegando até os Pirineus, divisa com a Espanha. Portanto, podemos dizer que Bordeaux, ao contrário da Bourgogne, foi um terroir forjado pelo homem.

Agora vem a parte filosófica, talvez a mais interessante. No Médoc sempre reinou a aristocracia, os imponentes châteaux e uma polêmica classificação exclusiva e imutável (classificação de 1855). Contudo, a concepção do vinho bordalês parte de uma visão socialista. Em propriedades que chegam perto de cem hectares, às vezes um pouco mais, o vinhedo é dividido em inúmeras parcelas, mesmo em se tratando de uma das uvas, ou seja, parcelas de Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e uma pitada de Petit Verdot, quando muito. Após vinificação individual das parcelas, opta-se pelo famoso Assemblage, o chamado corte bordalês. É aí que entra o socialismo: “a união das parcelas para um todo melhor”. Normalmente faz-se dois assemblages. Um para o “Grand Vin”, com as melhores parcelas degustadas e o restante, para o chamado “segundo vinho do château”.

clos de tart 1996

Dois belos monopólios

Já na concepção da Borgonha, as propriedades dos melhores domaines não passam de cinco hectares de vinhas. Números acima destes são verdadeiras exceções. Curiosamente, sua filosofia de vinho muda completamente. Após a Revolução Francesa, os vinhedos borgonheses foram todos fragmentados e repartido entre as famílias. Porém, a concepção do vinho continuou a mesma. Parcelas pequenas de vinhedos com uma só uva para tintos (Pinot noir) e uma só uva para brancos (Chardonnay). Com isso, temos uma visão aristocrática do vinho. Embora a fragmentação dos vinhedos tivesse uma ideia mais igualitária entre os viticultores, cada parcela sempre foi individualizada e hierarquizada no rígido sistema de classificação (Grand Cru, Premier Cru, Villages, …). Portanto, os melhores vinhos não se misturam com os plebeus, uma divisão de castas em todos os sentidos. São vinhos extremamente elitizados onde a procura pelos melhores produtores é uma constante, além das complicações de safras.

clos de tart

Clos de Trat: Concepção curiosa

Sou suspeito para falar do vinho acima, o belíssimo Clos de Tart. Provei uma garrafa safra 1988 ano passado e ainda estava longe de estar pronto. Talvez o mais enigmático dos borgonhas, tanto quanto o imaculado Romanée-Conti. Entretanto, bem mais em conta, naturalmente neste padrão de qualidade e relativismo. Mas vamos à sua concepção. Trata-se de uma propriedade extensa para padrões borgonheses. É um monopólio de 7,5 hectares repartidos em várias parcelas ao longo da colina. As zonas no alto da colina com solos de marga (mistura judiciosa de argila e calcário), bem como as zonas carbonatadas contando com vinhas antigas agregam parcelas privilegiadas. Reparem na diferença de altitudes entre a parte baixa e alta da colina. Exatamente, na faixa dos Grands Crus (entre 250 e 300 metros).

O assemblage das parcelas juntamente com a ideia de se conceber um “Grand Vin” e um “segundo vinho” tem de certo modo uma vertente bordalesa. O primeiro está classificado como Grand Cru e o segundo vinho  etiquetado como Premier Cru. Que o doutor Roberto, borgonhês juramentado, me perdoe a ousadia. Os vinhos são respectivamente Clos de Tart Grand Cru Monopole, e La Forge de Tart Morey-Saint-Denis Premier Cru.

A taça não corresponde ao vinho

Há também paradoxos no lado bordalês, sobretudo em Pomerol, com uma área total de 800 hectares de vinhas. Um lado borgonhês na chamada margen direita, com propriedades pequenas e sem a imponência do Médoc. Se compararmos com o total de área para brancos e tintos da Borgonha de primeira linha (Grand Cru e Premier Cru), temos algo como 3.500 hectares de vinhas. Separando ainda o joio do trigo, podemos reduzir seguramente para metade desta área. Os números começam a ficar próximos.

Só para destacar um dos grandes vinhos de Pomerol, acima temos o Château Le Pin com 2,7 hectares de vinhas, não produzindo mais do que 5.000 garrafas por safra. A base do vinho é praticamente Merlot com pitadas de Cabernet Franc. É elaborado apenas o “Grand Vin” numa concepção bastante borgonhesa.

Um fator altamente decisivo na opção destas filosofias é o tamanho das propriedades. Tanto de um lado, como de outro, Bordeaux e Borgonha se confundem em aspectos de concepção dos vinhos, conforme exemplos acima. Pondo um pouco mais de lenha na fogueira, a famosa frase de Friedrich Engels, uma marxista convicto. “Um momento de felicidade: Margaux 1848”. Um vinho aristocrático, mas com concepções socialista, onde o conjunto das partes forma um todo melhor.


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