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Tres Bonds e um Trem chamado Montrose

7 de Abril de 2018

Nem sempre temos oportunidades de provar bons californianos no Brasil. A maioria disponível no mercado está bem longe da elite de Napa Valley, quer seja por preços muito elevados, quer seja por produções extremamente baixas. Na verdade, uma coisa está atrelada à outra. Neste contexto, num belo almoço no Varanda Grill, degustamos algumas feras dos diferenciados tintos americanos.

varanda salon 2002

o epítome em Blanc de Blancs

Para começar os trabalhos, nada melhor que um belo champagne. Se for um Blanc de Blancs, c´est parfait, com muito frescor e mineralidade. Toda vez que provo Salon, vem aquela dúvida cruel imediatamente: Salon ou Clos du Mesnil da Krug?. As duas são realmente a perfeição neste estilo tão elegante e delicado, onde a força do calcário no solo, imprime uma mineralidade sem igual. São champagnes que envelhecem muito bem, haja vista esta da safra 2002. Ainda um bebê na garrafa com cores vibrantes, extremamente brilhante e reflexos verdeais. Seguramente pela qualidade da safra, tem pelo menos mais quinze anos de boa evolução. Salon costuma ficar dez anos sur lies, antes do dégorgement.

IMG_4460.jpgtinto de grande maciez

Se você quer ter uma ideia de um grande californiano, o vinho acima cumpre bem o papel. Com seus vinte anos de evolução da excepcional safra 1997, o vinho mostra-se ainda jovem, vigoroso, sem nenhum sinal de evolução na cor. É seguramente a mistura de Cabernets mais macia já provada, lembrando textura de grandes Pomerols, terroir onde a Merlot predomina. A força da Cabernet Sauvignon fornece a espinha dorsal deste tinto, enquanto a Cabernet Franc entrega toda a suavidade e elegância. Um vinho cheio de fruta, opulento, com traços de chocolate, defumado, ervas e temperos, como salsão, por exemplo. Longo em boca e extremamente sedutor. Tem 99 pontos com previsão de apogeu em 2030. Apenas 500 caixas por ano.

IMG_4462.jpgoutra bela safra em Napa Valley

A foto acima resume o tema da degustação. Degustar três vinhos de diferentes vinhedos muito próximos, percebendo as sutilezas de terroir em termos de altitude e composição do solo, tendo como uva principal, a Cabernet Sauvignon.

Bond Estates, sediada em Oakville, tem por trás uma das mais sofisticadas vinícolas de Napa, Harlan Estate. Seus vinhos ultra premiados, é um dos melhores cortes bordaleses do mundo. Pessoalmente, um dos meus preferidos de todo o Napa. Voltando a Bond Estates, eles trabalham com cinco vinhedos, dentre os quais, degustamos na mesma safra (2001), os vinhedos Vecina, St Eden, e Melbury. Todos são vinhedos de áreas diminutas menos de 11 acres (cinco hectares).

Resumindo a história, o St Eden com 100 pontos Parker ficou em terceiro lugar. Comparativamente, mostrou-se com menor corpo, faltando um pouco de meio de boca. Embora delicioso, muito bem equilibrado nos seus 14,5° de álcool, taninos bem trabalhados, não conseguiu mostrar a força de seus concorrentes.

Em segundo lugar, ficou o Melbury com 98 pontos Parker. Um vinho musculoso, de um estrutura tânica marcante. Talvez, o de menor evolução em garrafa. Um verdadeiro margem esquerda, por sua virilidade. Também com seus 14,5° de álcool perfeitamente balanceados.

Em primeiro lugar, o belo Vecina 2001 com 96 pontos Parker. Um Cabernet Sauvignon sedutor, de muita maciez e aromas encantadores, lembrando cassis, toques balsâmicos e de caramelo, além de florais. Equilibrado, denso, e persistente. Ficou muito próximo do Maya 1997 acima comentado, sobretudo pela similaridade de maciez.

Chateau Montrose em Double Magnum

Para por ordem no galinheiro, só mesmo um Bordeaux de 100 pontos, Chateau Montrose 1990, uma obra-prima. Olha a cor deste vinho com seus 28 anos de idade. O equilíbrio, a finesse, e a persistência em boca, são excepcionais. Pessoalmente, talvez seja o grande vinho da bela safra de 1990. Embora longe de seu auge, seus taninos são finos, agradavelmente adstringentes, além de seus aromas balsâmicos, de tabaco, e de notas animais. A comparação com os demais californianos presentes mostra toda a superioridade dos grandes bordaleses, principalmente nas safras ditas perfeitas.

Voltando ao Parker, temos que admitir que suas avaliações para os vinhos americanos são um tanto exageradas e de cunho emocional. Por outro lado, seu rigor com os bordaleses, faz dele o mais justo, frio e calculista, juiz desta apelação glamorosa. O que mais chamou a atenção em suas avaliações, foi o fato dele comparar o estilo do Bond Vecina com o Chateau Montrose. Dada a feliz coincidência de poder prova-lo lado a lado com o Montrose, a similaridade sobretudo de aromas foi notável e marcante, digna de um degustador brilhante e altamente experimentado.

IMG_4461.jpgVaranda Grill e seus cortes especiais

Acompanhando tintos de grande estrutura, as carnes especiais do Varanda Grill caem como uma luva para amalgamar os poderosos taninos destes grandes Cabernets. No caso acima, além dos acompanhamentos, temos um corte especial do T-bone sem osso, no seu lado mais suculento. Nada mau!

Mais uma vez, meus agradecimentos aos amigos e confrades presentes, sempre em busca de experiências inéditas no mundo de Bacco, com muita conversa, animação e generosidade. Vida longa a todos!


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