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Verão na Borgonha

12 de Janeiro de 2019

Começando os trabalhos no Ano Novo, a confraria se reuniu em temperaturas altas no restaurante Bela Sintra, Jardins. Clamando por vinhos mais refrescantes, é dada a largada com três Chablis de estilos diferentes, mostrando uma faceta única da Chardonnay no extremo norte da Borgonha.

tudo que se espera de um Chablis

Chablis não é fácil porque não é óbvio. É como a Gisele Bündchen. Sua beleza não está em traços perfeitos, mas sim num conjunto de olhar e personalidade marcantes. É isso, Chablis é cortante, mineral, agudo, sem rodeios, e um grande parceiro de ostras e frutos do mar in natura. Raveneau e Dauvissat são ortodoxos, personificam este estilo sem concessões. Este Grand Cru da foto acima da estupenda safra 2002 tem 98 pontos com louvor e pelo menos mais dez anos em adega. Uma aula de Chablis.

outros estilos

Continuando na rota dos Grands Crus, mais dois Chablis de estilos diferentes. Billaud-Simon à esquerda, excelente produtor, faz um Chablis puro, floral, com mineralidade, mas sem o impacto de Raveneau. Ele é mais macio, mais condescendente, mais fácil de gostar. Muito equilibrado, tem um público cativo. Já Drouhin à direita, um Chablis bem mais redondo, um toque de barrica, mais aromático, acidez mais atenuada, lembrando um pouco, um branco de Beaune. Tem seus adeptos, mas foge de sua essência.

IMG_5529terroirs distintos, mas fascinantes

Deixando Chablis, vamos ao sul da Côte d´Or, em busca dos brancos de Beaune. Um embate extremamente didático de um grande produtor numa bela safra como 2010. Comtes Lafon faz Meursault à perfeição com um didatismo de livro. Na comparação, já a cor é mais rica que o Montrachet. Seus aromas são mais óbvios e intensos. Em boca, a opulência da comuna, a maciez, os toques amendoados e amanteigados, quase gorduroso. Já o grande Montrachet, muito mais tenso, mais reservado, dono de uma acidez altiva e um equilíbrio dos grandes vinhos. Ainda em evolução, será certamente um dos grandes Montrachets desta safra. Por hora, Meursault-Charmes é realmente um charme e sedução. Não há vencedores.

pratos entre vinhos

Entre uma conversa e outra, alguns pratos do almoço escoltando os vinhos. A salada de bacalhau com grão-de-bico ficou bem apropriada para a dupla de brancos de Comtes Lafon (Montrachet e Meursault), enquanto o ensopado de cordeiro com arroz do próprio molho acompanharam bem os bordadeses (Margaux e Pauillac). Vinhos comentados abaixo.

IMG_5530não é fácil peitar Rousseau!

Sem dúvida, a disputa mais surpreendente do almoço, já entrando nos tintos da Borgonha. A safra 2015 dispensa comentários com praticamente 200 pontos na mesa. O Chambertin estava mais jovem na cor com lindos reflexos violáceos. Um nariz delicado, floral, confirmando na boca taninos sedosos e uma estrutura delicada. Tudo indicava ser um Vosne-Romanée. Enquanto isso, La Romanée à direita, mais evoluído em cor e nariz, já com alguns aromas complexos, algo terroso mais marcante. Boca mais potente que seu oponente com taninos presentes, embora muito finos. Longa persistência e com muito a evoluir, mostrou de fato porque é um nota 100. Desbancou Rousseau quase que por nocaute.

A propósito, La Romanée tem alcançado notas altíssimas nas últimas safras, tentando desbancar o mito Romanée-Conti, literalmente seu vizinho. Sua área de vinhas de menos de um hectare, um verdadeiro jardim, é praticamente a metade de seu oponente. Uma briga de titãs!

IMG_5533hierarquia e safra são importantes!

O fecho do almoço tinha que ser bordalês em outra disputa extremamente didática. Do lado de Pauillac, Duhart-Milon 2001, um Grand Cru Classé fora do primeiro escalão. Tendo em conta uma safra mais precoce, este tinto tinha todo os terciários de Pauillac desenvolvidos com tabaco, ervas, e toques animais no aroma. Boca bem resolvida com taninos totalmente polimerizados. Já o grande Margaux, mostra que a evolução de Premier é bem mais lenta, sobretudo na sisuda safra de 1986. Um tinto que beira a perfeição, mas ainda está longe dela. Precisa de mais tempo em garrafa para desenvolver aromas e amaciar taninos. No momento, sua decantação é obrigatória. 

a complexa rotulagem alemã

Na hora da sobremesa, um Riesling alemão apareceu para compor o quadro. Normalmente, a doçaria portuguesa é bem carregada no açúcar, dificultando um pouco a harmonização. Entretanto, a Sericaia do Alentejo, um pudim delicado à base de leite e ovos, é muito bem executada no Bela Sintra, e seu açúcar residual é bem mais comedido. Foi uma das chaves para uma boa harmonização com o vinho, o qual tem açúcar residual perceptível, mas sem exageros, sobretudo por sua incrível acidez para contrabalançar. 

Markus Molitor é um dos mais respeitados produtores do Mosel com um código próprio na cápsula de seus vinhos. A cápsula branca indica um vinho mais seco ou menos doce, a cápusla esverdeada com um nível acima de açúcar, e finalmente a cápsula dourada, definitivamente doce. Mas as armadilhas não param por aí. Neste rótulo acima de cápsula branca, teoricamente menos doce, existe outra classificação de um a três asteriscos (***), indicando crescente nível de maturação da uva e consequentemente de açúcares. Realmente, é difícil entender os alemães. Para completar, Auslese é um grau de doçura intermediária entre o Kabinett e Trockenbeerenauslese.

IMG_5536uma das grandes eaux-de vies!

Passando a régua, uma linda homenagem de Manoel Beato a mim com este Bas-Armagnac maravilhoso datado com minha safra de 1959. Para completar, depois de longa tempo em madeira, foi engarrafado em 1987, ano de nascimento de minha única filha, para comercialização. Só o lado emocional, já vale a experiência. Contudo, sendo o mais técnico possível, é uma aguardente primorosa em seus aromas, profundidade, e equilíbrio. Coisas que só tempo molda à perfeição. Obrigado amigo!

Enfim, está dada a largada 2019 em busca dos melhores vinhos. Que a frequência dos confrades seja a mais intensa possível, aumentando nossos números ano a ano. Obrigado a todos pelo carinho e generosidade, vislumbrando grandes encontros em breve. Saúde a todos!

Magnânimos à Mesa

24 de Março de 2018

As grandes pessoas que se tornam grandes profissionais, grandes amigos, grandes chefes de família no sentido mais nobre do termo, são talhadas pelo tempo, tempo esse que envelhece, mas sobretudo enobrece, superando todas as expectativas, por mais otimistas e tendenciosas que elas sejam. O berço, a origem, a formação, as boas diretrizes sugeridas, o exemplo daqueles que as orientam nos primeiros passos da vida, formam o esteio desta magnânima caminhada.

Eu sei que o assunto é vinho, mas este preâmbulo tem muito a ver com a pessoa homenageada neste almoço, um grande amigo de todos os confrades e um profissional da Saúde exemplar. Os vinhos do encontro que serão descritos têm na sua concepção os pré-requisitos desta pessoa fundamentados na origem da nobreza e na longa viagem do tempo para eterniza-los.

Toda vez que falamos da ação do tempo sobre o vinho, é sempre um fato cercado de mistérios e dúvidas. Quanto tempo para atingir a plenitude? Essa plenitude tem platô amplo? qual o melhor momento para apreciar um grande vinho?

Neste almoço, tivemos a oportunidade de rever esses conceitos de longevidade, de nobreza, e da ação do tempo moldando e permitindo a magia da vida. Isso posto, dois grandes terroirs incontestáveis à mesa, o branco Grand Cru Chevalier-Montrachet Domaine Leflaive, o melhor dos Chevaliers,  e Chateau Latour, Premier Grand Cru Classé de margem esquerda, o senhor do Médoc.

IMG_4416.jpgreferência absoluta da apelação

Na foto acima, temos duas excelentes safras de Madame Leflaive, 1996 e 2005, quase uma década de evolução. Servidos nas taças, lado a lado, percebemos claramente a ação do tempo em duas safras distintas, mas que têm o mesmo potencial e esplendor para se agigantarem no tempo. Estamos falando de avaliações em torno de 95 pontos.

O Chevalier-Montrachet 96 encontra-se esplendoroso, aromas complexos e multifacetados. Boca harmoniosa, acidez presente apenas para manter a vivacidade do conjunto, dando campo para a maciez, e reverberando sabores e aromas de grande expansão. Pode ser que ainda evolua, mas certamente já está delicioso e com amplo platô de estabilização, sem nenhum sinal de fragilidade. Já o 2005, tem uma acidez vibrante, própria dos grandes vinhos jovens. Percebe-se claramente seu extrato, seu imenso potencial, mas falta-lhe ainda integração, amadurecimento, encaixe de peças, que  só o tempo é capaz de molda-lo à perfeição. É bom enfatizar, que o 96 trata-se de uma garrafa magnum, sabidamente um formato que privilegia os bons anos em adega. Aliás, está garrafa estava impecável. 

IMG_4417.jpgnobreza da margem esquerda

Passando agora aos tintos, a ação do tempo fica mais emocionante ainda. Provar um Chateau Margaux 1959, felizmente minha safra, é sempre algo emocionante, independente de análises técnicas, geralmente muito frias. O ano de 1959 foi  grande em Bordeaux com muitos chateaux ratificando a bela safra. Particularmente para o Chateau Margaux, não foi uma safra histórica. Contudo, o vinho estava magnânimo e sobretudo íntegro, uma grande garrafa. Uma poesia liquida, aromas etéreos recordando tabaco, torrefação, notas de sous-bois, e uma fruta delicada mostrando sua vivacidade. Boca macia, de médio corpo, mas muito bem resolvida com taninos absolutamente polimerizados. Certamente, o melhor Margaux 1959 já provado. Nas palavras do filósofo Friedrich Engels, um momento de felicidade!

Por fim, um duplamente magnânimo, Chateau Latour 1982 em double magnum. Pensa num vinho perfeito, que ainda assim não está pronto, mas é delicioso. Evidentemente, o formato da garrafa tem seu peso na integridade e pouca evolução deste monstro do Médoc chamado Latour. É incrível como um vinho com 36 anos de vida encontra-se jovem, vibrante, com uma estrutura de taninos portentosa, e um equilíbrio sem igual. As cores abaixo falam por si.

a lenta ação do tempo

A foto à esquerda, trata-se do Margaux 59, um vinho apaixonante, pronto e pleno. A foto à direita, é o incrível Latour 82, quase sem sinais de evolução. Escolher o melhor do todos os Latours ao longo de sua rica história é uma tarefa insana, tal a regularidade deste chateau e os vários anos em que foi sempre esplendoroso. Deixando esta missão para Parker, o mais rigoroso crítico de Bordeaux, na sua lista de prioridade, aparece o 1982 no topo da relação, superando inclusive o majestoso Latour 1961. Na última previsão de Parker, o Latour 82 atingirá o apogeu em 2059. Sem querer contradize-lo, pelo que foi provado neste double magnum, a data sugerida tem toda a coerência.

O vinho tem a força de um trapezista com a delicadeza de um bailarino. Potência e elegância se integram numa forma sublime, onde todos os componentes estão perfeitamente integrados. O que realmente garante esta incrível longevidade são seus taninos absolutamente perfeitos, numerosos, de uma textura ímpar. Seus aromas terciários são divinos com as notas de cassis, couro do mais fino acabamento, uma torrefação maravilhosa, e outros mistérios a serem revelados. Para ser apreciado no momento, este Latour 82 deve ser decantado por três horas antes do serviço. Um vinho para heróis!

IMG_4413.jpgBela Sintra: o clássico arroz de pato

Encerrando as considerações, o clássico arroz de pato do restaurante Bela Sintra, acompanhou bem os tintos bordaleses. Numa harmonização mais regional, os tintos durienses fazem boa parceria. Barca Velha ou Reserva Ferreirinha devidamente envelhecidos são pedidas excelentes.

Vida longa aos confrades, especialmente ao homenageado, que certamente terá seu apogeu na mesma previsão do Latour 82. Afinal, nobreza e longevidade são para poucos. Abraço a todos!

Arroz de Pato e Harmonização

17 de Fevereiro de 2016

Dentre os artigos mais pesquisados neste blog, arroz de pato ganha disparado. Já fizemos um artigo sobre o assunto, mas talvez devêssemos fazer uma nova abordagem. Não fica claro se a pesquisa é sobre a receita, ou sobre a harmonização. Em todo caso, vamos tentar esclarecer os dois itens. Esta receita tem origem ao Norte de Portugal, na cidade de Braga, região dos vinhos verdes. Atualmente, há muitas versões e repaginações da mesma. Para não correr grandes erros, vamos ficar com a receita do restaurante Bela Sintra, referência em comida portuguesa em São Paulo.

RECEITA

1 Tempere o pato com o vinho branco, 2 cebolas, o louro, a pimenta-do-reino, o salsão e as cenouras picadas.
2 Deixe marinar por 12 horas, coloque o pato em uma panela de pressão com os legumes, cubra com água, tempere com sal e cozinhe por 15 a 20 minutos.
3 Desfie a carne e reserve.
4 Refogue no azeite a cebola restante com o alho e o bacon, acrescente o arroz e junte 1 litro do caldo do cozimento do pato.
5 Quando o caldo estiver fervendo, acerte o sal e deixe o arroz cozinhar.
6 Depois de cozido, misture o pato desfiado com o arroz em uma travessa.
7 Finalize com as rodelas de cenoura e chouriço sobre o arroz e leve ao forno por aproximadamente 20 minutos.

Para a harmonização, temos que pensar num vinho tinto, pois o prato é rico em temperos e a carne da ave tem sabor acentuado. Esse é um dos casos de exceção, onde o vinho local não é o mais indicado. O vinho verde, mesmo o tinto, vai ser atropelado pelo prato. Precisamos de algo com mais presença. Contudo, na região contigua aos Vinhos Verdes, temos o Douro e seus tintos de grande estrutura. Com as mesmas uvas utilizados no Vinho do Porto, os tintos do Douro apresentam bom corpo, boa acidez e riqueza em taninos. Esses atributos dão enorme longevidade aos mesmos.

O mais importante na harmonização é que o vinho tenha um certo grau de envelhecimento. Não é aconselhável um vinho muito jovem. Neste caso, os sabores da carne cozida e posteriormente assada, juntamente com os embutidos não necessitam de taninos tão presentes. A acidez talvez seja mais importante para combater a gordura do prato. Os taninos já pelo menos parcialmente polimerizados nos vinhos de certa evolução são suficientes para a suculência do prato. Além disso, os aromas terciários do vinho vão muito melhor com os sabores assados e defumados do prato. Um Reserva Ferreirinha com dez anos de idade por exemplo, seria maravilhoso.

Outras alternativas portuguesas poderiam ser vinhos do Dão, de preferência os mais modernos com um pouco mais de potência, ou um belo Buçaco, naturalmente envelhecido, onde os sabores do Dão e Bairrada se fundem.

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bela apresentação na umidade certa

Saindo de Portugal, podemos ir para os italianos. Um belo Brunello di Montalcino seria minha primeira escolha. Um Taurasi envelhecido com a uva Aglianico é outra bela pedida. Do lado espanhol, um Ribera del Duero, um Rioja Reserva ou Gran Reserva mais moderno, mais encorpado, também podem dar certo.

Quanto aos franceses, penso que o Rhône é a melhor opção. Um Cornas ou um bom Crozes-Hermitage com alguns anos de garrafa tem o perfil deste prato com as características da Syrah. Com um pouco mais de sofisticação, podemos tentar um Côte-Rôtie ou o grande Hermitage. No caso deste último, deve ser bem envelhecido para amansar sua potência.

Barca Velha e seu segundo vinho

neste caso, a receita tem que ser caprichada

Para os vinhos do Novo Mundo, somente os grandes tintos que possuem capacidade para envelhecimento. Um Malbec da Bodega Achaval Ferrer, um Cabernet chileno de estirpe como o Casa Real Santa Rita, ou um Shiraz com toques de evolução como o sul-africano  da vinícola Neil Ellis.

Como a receita sugere um pato inteiro, uma travessa de arroz de pato serve de seis a oito pessoas, dependendo do apetite de cada um. Apesar de não ser mencionada na receita, o foto mostra azeitonas verdes, o que é muito usual neste prato. De todo modo, não influencia na escolha do tinto.

Caso na época da Páscoa o tempo contribua, é uma bela ideia para o almoço de domingo, depois de um tradicional bacalhau na sexta-feira. Bom apetite!


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