Archive for the ‘Vinho em Destaque’ Category

Vinhos Antigos: Privilégio para poucos

21 de Maio de 2019

Vinho, quanto mais velho, melhor!. Uma das maiores mentiras no mundo de Bacco. Nem cinco por cento dos vinhos elaborados no mundo são aptos a longo envelhecimento em garrafa. Entretanto, uma pequena parcela de alguns chateaux, domaines, sobretudo franceses, tem esse privilégio. Privilégio maior ainda são aqueles poucos mortais que conseguem com certa regularidade provar destas preciosidades. Estas pessoas, além de desembolsarem milhares de dólares ou euros em leilões, adegas particulares oferecidas, e outras fontes não reveladas, correm grande riscos nas falsificações e no próprio estado de cada garrafa. Lembrando que, em vinhos antigos não existem grandes safras e sim, grandes garrafas.

Vencidos os problemas de grana, e muita grana diga-se de passagem, falsificações, e sorte com as garrafas, degustar esses vinhos é como visitar o céu de vez em quando. A maioria das pessoas só ouvem falar de alguns mitos como Petrus, Romanée-Conti, Latour, Margaux, e muitos outros figurões. Alguns mortais, em situações de rara felicidade conseguem provar uma dessas garrafas através de amigos, degustações especiais, ou presentes inesperados. Nessas situações, fica gravado na memória aquela garrafa, aqueles aromas, aqueles sabores, tudo inesquecível. E aí vem a pergunta: será que esta avaliação foi precisa numa análise fria do vinho, sem isenção, ou a emoção de estar cara a cara com o mito fala mais alto?

Seguindo este raciocínio, em degustação recente publicada neste blog, Bordeaux 82, o Paraíso existe!, tivemos quatro garrafas de Lafite 82 em quatro flights distintos. Uma garrafa diferente da outra. Uma espetacular, uma bouchonnée, uma com aromas estranhos, e uma ainda fechada, de evolução lenta. Se cada pessoa pudesse provar uma destas garrafas, talvez não distinguissem essas diferenças por estarem maravilhadas com o rótulo. Mesmo a garrafa bouchonnée, não é todo mundo que reconhece.

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se acertar a garrafa, beba de joelhos!

A safra 85 foi maravilhosa na Borgonha em particular. Lembro-me de um Romanée-Conti desta safra numa garrafa perfeita. Aromas terciários incríveis e inesquecíveis. Na foto acima, um Mazis-Chambertin do Négociant Leroy do Hospices de Beaune 85. Em três oportunidades tivemos: uma garrafa maravilhosa, e as outras duas muito boas, mas não esplendorosa como a primeira.

Dentro deste universo de vinhos de guarda, há alguns já acessíveis em tenra idade, embora possam envelhecer com propriedade. É o caso dos chateaux Haut Brion e Cheval Blanc que são adoráveis em qualquer momento. Basta uma boa decantação. Isso para ficar nestes dois exemplos. 

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este trio tem muita história

Os chamados La-La-Las, foto acima, dispensam comentários num dos vinhos mais espetaculares em termos de longevidade. A idade parece não chegar para essas crianças com aromas terciários incríveis e um equilíbrio de boca singular. Cada qual pode ter sua preferência, mas não vou fazer distinção entre eles, pois já provei vários de todos eles e sempre espetaculares. Para ficar em apenas três safras: 85, 88 e 90. A elegância e sutileza de aromas destes tintos, elevam a casta Syrah numa outra dimensão.

Por outro lado, os mitos Petrus e Romanée-Conti são vinhos difíceis na juventude, um tanto duros, sem muita conversa. Portanto, diante deles, só mesmo o tempo para lapidar essas joias e revelar todo seu esplendor. Muitas vezes, mais de vinte anos são necessários para todo esse processo. Some-se a isso, características especificas de safra que podem atenuar ou intensificar este período de maturação em garrafa. Lembrando do Mouton 1986, este é um caso clássico de difícil  amadurecimento por ser de uma safra de taninos extremamente potentes e de lenta evolução. 

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talvez o único que possa encarar o Petrus de frente!

Poderia escolhe inúmeros Bordeaux já degustados, mas preferi mostrar o Pomerol acima, o grande Lafleur. Vinho introspectivo como o rei Petrus e de lenta evolução. A destacada participação da Cabernet Franc confere elegância, mas a estrutura da Merlot com taninos poderosos lembra o rival maior. 90 é uma grande safra que está ainda em evolução. Precisa de pelo menos duas horas de decantação. Outras grandes safras brilham para este chateau como a mítica 82, 100 pontos inconteste.

Dentro da família DRC, o caso mais evidente e didático quanto à maturação e acessibilidade dos vinhos são os Grands Crus Echezeaux e Grands-Echezeaux. O primeiro, um tinto acessível, sensual, em qualquer idade que abri-lo, salvo características específicas de safra. Já o Grands-Echezeaux é um vinho duro, viril, completamente oposto à feminilidade de seu parceiro de vinhedo. Aqui, as questões de terroir falam mais alto, já que o produtor e a técnica de vinificação são os mesmos. Domaine de la Romanée-Conti possui as melhores localizações destes dois Grands Crus, onde os vinhedos estão muito próximos. Grands-Echezeaux fica na parte de cima do Grand Cru Clos Vougeot, fazendo divisa. As parcelas DRC de Echezeaux ficam imediatamente a norte de Grands-Echezeaux, praticamente coladas em sua divisa. No entanto, sutilezas de solos, relevo e inclinação do terreno, resultam em relevantes diferenças entre os vinhos. Só a Borgonha propicia este mistério. 

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Madeira: um vinho indestrutível!

De todos os fortificados portugueses, o Madeira impressiona pela extrema longevidade, quase imortalidade. O exemplo são os Madeiras do século XIX, foto acima, parecendo não ligar para o tempo. Aromas e sabores fantásticos e um equilíbrio perfeito em boca. Sobretudo o Terrantez, um dos Madeiras mais raros, é da categoria Frasqueira ou o equivalente a um Vintage. O vinho é de uma só colheita e passa pelo menos vinte anos em canteiros (estrutura de ripas que sustentam as pipas para não encostarem no chão), antes do engarrafamento. Este período extremo de oxidação, fazem destes vinhos algo quase imortal.

Na evolução em garrafa de grandes vinhos, o tempo, o silêncio e a escuridão da adega, fazem a transformação de algo incompleto, com arestas, e certa introspecção. Lentamente, os ácidos e álcoois do vinho em meio aquoso se transformam em ésteres, formando o chamado bouquet. Esta é uma transformação lenta e gradual, onde esses mesmos ésteres se decompõem em ácidos e álcoois, recomeçando o ciclo novamente. A não perturbação da garrafa neste longo período é fundamental para o bom andamento das etapas.

Por outro lado, os taninos conjuntamente iniciam um processo de polimerização, formando longas cadeias moleculares. Num determinado momento, por peso próprio esses taninos começam a precipitar-se formando os famosos depósitos, também chamado de borra. Daí, a necessidade de decantação de vinhos antigos, a fim de separar as partes sólidas do líquido límpido. 

Ficamos na França para elucidar o assunto deste artigo, mas a Europa de um modo geral, permite o mesmo raciocínio para outros vinhos e vinhedos, embora o arsenal francês em quantidade e qualidade dos grandes vinhos de guarda seja incomparável aos demais países.

 

 

Montrachet, Mer et Soleil

31 de Dezembro de 2018

Em meio a um cenário cinematográfico, nossa confraria desembarcou em Angra dos Reis para a última degustação de 2018. Numa organização impecável nas dependências do hotel Fasano, começaram a cintilar nas taças o brilho do melhor Chardonnay do mundo, sua majestade, Montrachet.

77727c88-0b6e-4476-9035-cab5b9be08aataças harmonicamente dispostas

Foram 19 Montrachets numa ampla variação de estilos distribuídos em seis flights às cegas. Os vinhos se dividiram sob as duas metades do vinhedo de aproximadamente oito hectares. Uma parte em Chassagne-Montrachet chamado Le Montrachet, e outra parte em Puligny-Montrachet, de vinhos teoricamente mais sutis. Os mapas abaixo, elucidam o fato.

Montrachet Maptudo gira ao redor dele

Para uma melhor visualização, clique no link abaixo onde aparece a área e a posição de cada produtor em uma das partes do vinhedo. São parcelas muito reduzidas tratadas como um verdadeiro jardim pelo viticultor.

Vale ressaltar que existem 18 proprietários e 26 produtores ligados às vinhas do vinhedo Montrachet. Portanto, aqueles que não possuem vinhas pode negociar as uvas ou os vinhos que são vinificados de acordo com rótulos acordados. É o caso de algumas garrafas nesta degustação.

montrachet vignoblehttp://lefrancbuveur.com/chronique-livre/chronique-livre-mes-incontournables-5-de-5/attachment/dscn2439/

4f4bb681-315d-422e-9608-26db097bfb88primeiro flight

Muito equilíbrio entre Henri Boillot e Bouchard Père & Fils, mas Marc Colin é excelente. Por estar menos pronto, não encantou tanto, embora com grande potencial.

Marc Colin 2011 – extremamente mineral – apogeu em 2040 – nota 97 pontos. Sua produção é ridícula num dos mais exclusivos Montrachets. Fica na parte superior do lado esquerdo em Chassagne-Montrachet.

Bouchard Père & Fils 2011 – menos de um hectare de vinhas na parte leste do vinhedo em Puligny-Montrachet. Com 92 pontos, teoricamente parece ser o mais pronto do flight.

Henri Boillot 2011 – com 95 pontos, é um dos grandes destaques da safra num Montrachet elegante, bem ao estilo Puligny-Montrachet. Suas uvas são compradas para uma criteriosa vinificação e produção diminuta.

81362647-435f-4871-8ca2-f7d44f7ef9d2segundo flight

Fontaine-Gagnard 2011 – apogeu em 2035 – 95 pontos. Sua área de vinhas não chega a um décimo de hectare, situada no lado de Chassagne-Montrachet, vizinha às vinhas de Domaine Leflaive. Baixíssima produção.

Louis Jadot 2011 – Com 94 pontos, foi o grande destaque do flight. Um dos grandes negociantes na Borgonha, costuma comprar uvas e educar seus próprios vinhos.

Morey-Nominé 2007 – Pena que este vinho estava oxidado. Não é proprietário de vinhas e as informações sobre seus métodos são escassas.

f8277aa6-a073-455d-a306-b42355784e82terceiro flight

Um trio de titãs de estilos diferentes, mas igualmente deliciosos. Juntamente com o quinto flight, foram vinhos destacados na degustação.

Comtes Lafon 2011 – 93 pontos – com pouco mais de um terço de hectare, Lafon tem vinhas situadas no lado de Chassagne-Montrachet e elabora um estilo cremoso e sedutor.

Ramonet 2011 – 95 pontos – com área de vinhas semelhante a Lafon, sua localização encontra-se em Puligny-Montrachet. Num estilo muito elegante e incisivo, sua acidez refrescante tem um inconfundível toque cítrico.

Etienne Sauzet 2011 – 92 pontos –  Com vinhas na região de Chassagne e Puligny-Montrachet, deve cultivar vinhas no vinhedo Montrachet em parceria. Nesta safra em particular, parece que abusou um pouco da madeira mais evidente.

6383d374-7a32-43b5-9999-55f77149ed48menu variado e preciso

Em meio a tantos vinhos, um menu cheio de surpresas e texturas. Os pratos sutis de entrada aguçaram mais a mineralidade e o frescor dos vinhos, sobretudo os do lado de Puligny-Montrachet. 

O prato de massa e de atum trabalharam mais a textura e força dos vinhos, favorecendo os Montrachet do lado de Chassagne-Montrachet. DRC e Lafon brilharam nesta harmonização.

8034e6e0-4613-4e46-81fb-2adf13a18179quarto flight

Vincent Girardin 2011 – a grafia Le Montrachet sugere o lado oeste do vinhedo, Chassagne-Montrachet. Apesar de não ser proprietário, trabalha com uvas selecionadas, elaborando vários Grands Crus da “família Montrachet”. Foi destaque do flight.

Jean Chartron 2011 – 90 pontos. Poucas informações sobre o produtor, sugerindo uvas compradas ou vinhos que ele próprio educou. Sem grande destaque.

Jacques Prieur 2011 – 94 pontos – Com quase 0,4 hectare de vinhas no lado de Chassagne-Montrachet, mostra-se com boa presença e poder em boca.  Ainda novo, seu apogeu está prevista para 2030.

dab20b4a-b1fb-4b1b-8a88-0d72f653fa27quinto flight

Marques de Laguiche 2011 – 97 pontos – é o grande vinho desta safra num Montrachet com a maior área de vinhas, pouco mais de dois hectares no setor de Puligny-Montrachet. Com um estilo elegante imprimido por Drouhin, tem a personalidade dos Montrachets, já bastante acessível na juventude. 

Louis Latour 2011 – 92 pontos – Partilha vinhas de quatro parcelas do lado de Puligny-Montrachet. Costuma ser um Montrachet elegante. Costuma surpreender aqueles que só acreditam em produtores com vinhedos próprios.

Lucien Le Moine 2011 – 95 pontos – Com vinhas do lado de Chassagne-Montrachet, mostrou-se encorpado e intenso, sendo um grande destaque no flight. É uma pequena Maison situada em Beaune que só trabalha com vinhos Grand Cru e Premier Cru. Tem grande prestígio.

3741478d-fdeb-4fa6-b29c-d9bc1e59d9e6sexto flight. Pintou o campeão!

Baron Thénard 2011 – com pouco mais de 1,8 hectare de vinhas, é o segundo maior em área deste vinhedo. Situado no lado de Chassagne-Montrachet, seu vinho não costuma arrancar suspiros. É considerado o patinho feio da apelação.

Domaine Leflaive 2011 – 93 pontos – com menos de um décimo de hectare de vinhas, é um dos mais exclusivos Montrachets. Embora suas vinhas estejam do lado de Chassagne-Montrachet, a elegância de Madame Leflaive prevalece. Seu Chevalier-Montrachet costuma superá-lo, um vinho que beira a perfeição. 

DRC Montrachet 2011 – 97 pontos – é um dos destaques desta safra com rendimentos baixissimos, 37 hl/ha. Com três parcelas espalhadas no lado de Chassagne-Montrachet, este vinho costuma ser imponente e untuoso. Surpresa não ter ganhado a degustação, pois sua força é extraordinária.

Marc Rougeot-Dupin 2007 – Trata-se de um vinho de négociant numa safra precoce e muito bem pontuada. Essa é a grande explicação para o campeão. Neste momento e para esta garrafa perfeita da degustação, o vinho encontra-se no auge com seus aromas e sabores plenamente desenvolvidos. Numa degustação futura com esses mesmos vinhos, talvez possa ser uma decepção por já estar numa fase decadente. De todo modo, a verdade está na taça!

Parafraseando o autor inglês Hugh Johnson, quando for removido o último estrato geológico e cair a última gota de chuva sobre a Terra, ainda não se saberá porque a França é a grande Mestra dos vinhos. Esta confraria sabe …

Feliz Ano Novo a todos os confrades e a todos os leitores que pacientemente partilham das histórias de Vinho Sem Segredo ao longo do ano. Que venha 2019!

Mission quase Impossível!

19 de Dezembro de 2018

Muito se fala da reclassificação dos Chateaux em Bordeaux. Afinal, muita coisa mudou do fim do século XIX para cá. Um dos chateaux mais reivindicados para ocupar a posição de Premier Grand Cru Classé é o Chateau La Mission Haut Brion. Embora seja um chateau de Graves, mais especificamente de Pessac-Léognan, fica difícil manter só o Haut Brion, seu rival vizinho, como exceção na lista dos grandes do Médoc.

Nesta degustação que iremos comentar a seguir, fica mais uma vez provado, sua extrema qualidade, tradição, e consistência, safra após safra. As semelhanças de solos e da própria composição do corte bordalês, o deixa em pé de igualdade com o grande Haut Brion, embora a diferença de estilo entre os dois seja marcante. Segundo a crítica especializada, inclusive Parker, La Mission Haut Brion tem um estilo mais potente que seu arquirrival Haut Brion com maior estrutura tânica, sobretudo.

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parte do La Mission colada em Haut Brion

Esclarecendo o mapa acima, Chateau La Tour Haut Brion era um chateau independente ligado ao La Mission. E assim, até 2005, sua última safra, foi considerado tradicionalmente como segundo vinho do La Mission. A partir de 2006, deixa de existir La Tour Haut Brion para ser nomeado o Chateau La Chapelle La Mission Haut Brion como segundo vinho do La Mission.

Chateau La Mission Haut Brion

Área de vinhas tintas: 25,44 ha (48% Cabernet Sauvignon, 41% Merlot e 11% Cabernet Franc). 5000 a 5600 caixa por ano. 100% carvalho novo com 22 meses de maturação.

Área de vinhas brancas: 3,74 ha (63% Sémillon e 37% Sauvignon Blanc). 550 a 650 caixas por ano. 100% carvalho novo de 13 a 16 meses de maturação. Vale lembrar que a partir de 2009 passamos a ter o La Mission Haut Brion Blanc, até então conhecido como Laville Haut Brion.

Feitas as devidas considerações, vamos aos flights degustados, mostrando características de safra e sua evolução em garrafa, principalmente em anos mais antigos. De modo geral, os vinhos surpreenderam muito em termos de conservação e longevidade. A década de 70 por exemplo, apresentou vários anos abaixo da média com notas desanimadores para a maioria dos chateaux. Com exceção da safra 69 com problemas de rolha afundada e entrada de ar na garrafa, além da oxidação do grande 75, os demais apresentaram um desempenho bastante satisfatório.

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La Mission 68, plenamente evoluído, mas sem sinais de oxidação. As safras 72 e 80 apresentaram um pouco mais de extrato e meio de boca, embora também já plenamente evoluídas. O 69 apresentou problemas nesta garrafa, conforme descrito acima. Começo animador!

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Um flight que poderia ser catastrófico, mostrou-se com muita consistência, embora com vinhos plenamente evoluídos. O La Mission 73 abaixo da média, mas o 74 surpreendeu pela elegância. O 77 e 84 se portaram muito bem, de acordo com as expectativas das safras. O 74 não aparece na foto.

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No flight acima, muito equilíbrio. Embora sem nenhum grande vinho, eles estavam corretos e plenamente evoluídos. 67 e 70, um pouco abaixo em termos de concentração. O 76 surpreendeu positivamente numa safra crítica. Por fim, o 81 um pouco acima dos outros, mais estruturado e vigoroso.

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É lógico que neste flight, a superioridade da dupla 78 e 85 foi marcante. La Mission 66 ainda com aromas deliciosos, embora bastante frágil nesta altura da vida. La Mission 78 tem uma estrutura impressionante. Parece não sentir o peso da idade com taninos poderosos. Já o 85, mais prazeroso, com menos arestas e aromas de grande finesse com toques terrosos e de estrabaria. Um salto considerável na degustação.

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Este flight só não se equiparou com o anterior porque o La Mission 75 estava oxidado, uma pena. A safra 79 bastante agradável, mas a dupla 82 e 83 se destacaram para encerrar a degustação. O La Mission 82 foi o mais próximo do monstruoso 78 com muita estrutura e vigor. Seus taninos são de uma textura incrível. O La Mission 83 embora delicioso e muito bem equilibrado, foi eclipsado pelo 82 bem a seu lado. De todo modo, um belo vinho.

IMG_5434o rival chegou para o almoço

Para enfrentar 20 safras de La Mission, o rival Haut Brion precisou apresentar-se no formato Imperial com a safra inquestionável de 1998. Apesar de mais jovem do que a média degustada dos La Mission, o vinho estava esplendoroso com 99 pontos Parker. No momento, tem muita fruta, muitos taninos finíssimos, e todo o perfil aromático dos grandes Haut Brion. Mesmo com 20 anos de idade, tem vigor de sobra para mais 20 anos em adega. Sem dúvida, será um dos grandes Haut Brion da história deste belíssimo Chateau.

recordando Babette …

No preâmbulo do almoço, foi servido um autêntico Caviar Beluga, impecavelmente fresco, fazendo par e à altura do champagne Cristal 2009, nota 95+ Parker. Aromas e texturas se fundiram perfeitamente, num final limpo e de grande frescor. Não sei o caviar, mas o champagne melhorou muito em relação ao filme …

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Acima e abaixo, fotos da turma. Muito interessante esta experiência de uma vertical longa, passando pelas décadas de 60 ,70, e 85. Os vinhos foram decantados perto do momento da degustação, exceto safras como 75, 78, 82 e 85, abertas com mais antecedência, devido ao vigor das mesmas.

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Fechamos o ano em alto estilo, confirmando o viés francófilo desta turma. Safras garimpadas com muita dedicação e conhecimento, procurando garrafas de ótimo estado e procedência segura. O nível de vinho nas garrafas surpreendeu positivamente e não tivemos nenhum bouchonné. 

um fantasma apareceu!

No apagar das luzes, eis que surge um Madeira 1880. Que elegância, que equilíbrio, que profundidade. Um Terrantez, uva praticamente extinta na ilha, provando que esses vinhos são realmente imortais. Eu não acredito em bruxas, mas elas existem …

Agradecimentos sinceros pela presença e generosidade de todos ao longo do ano, e em especial ao anfitrião, que nos recebeu com muito carinho, cuidando de todos os detalhes. Que venha 2019 com muita força, capaz de superar um ano tão intenso como 2018. Boas Festas a todos!

Minha Seleção 2018 ABS-SP

28 de Novembro de 2018

Como um dos Diretores de Degustação da ABS-SP, neste artigo faço uma seleção dos dez melhores vinhos degustados na entidade ao longo de 2018. Alguns dos critérios escolhidos foram preço acessível, disponibilidade do produto, originalidade, e uma seleção com vários tipos de vinhos. É evidente que se trata de uma escolha pessoal onde alguns outros vinhos também interessantes ficaram de fora. Enfim, os dez escolhidos seguem abaixo.

1. Huet Vouvray Pétillant Brut 2007

Este é o único espumante da lista, e ainda assim um Pétillant (pouquíssimo gás dissolvido no vinho). Essa era a maneira tradicional de se elaborar Vouvray na chamada Old School. Apelação importante do Loire onde reina a casta Chenin Blanc. O produtor dispensa comentários, Domaine Huet. Esse vinho, a princípio um branco tranquilo, é engarrafado com algum açúcar residual natural, muito comum na região. Com o passar do anos em adega, ele adquire uma pequena quantidade de gás dissolvida, resultado de lenta fermentação daquele açúcar residual pelas leveduras naturais presentes no vinho. O resultado é um vinho extremamente gastronômico, de rica textura, e leve efervescência das borbulhas. Aromas elegantes e complexos denotando mel de flor de laranjeira, maracujá, amêndoas, e notas de pâtisserie. Pode ser uma bela opção para entradas com foie gras ou patês de caça, especialmente aves. Um vinho que vale no mínimo, pela curiosidade. Importadora Premium (www.premiumwines.com.br). 

2. Viña Aquitania Sol de Sol Chardonnay 2009

Se não for o melhor, está entre os melhores Chardonnays chilenos. Mais do que ser muito bom, provou que pode envelhecer bem, pois este exemplar com quase dez anos, estava em seu esplendor. Ainda muito rico em frutas tropicais, madeira bem integrada, e um equilíbrio notável. Tem um estilo europeu, bem diferente do que se espera de um vinho chileno. Já um clássico do Chile, é elaborado com uvas do frio Valle de Malleco, bem ao sul do país. Importadora Zahil.

ABS 2018 RICCITELLI SEMILLON

Descorchados: 92 pontos

3. Matias Riccitelli Old Vines Sémillon 2017

Um branco que foge totalmente dos padrões argentinos, velhas vinhas de Sémillon plantadas no anos 70 na fria região da Patagônia, bem ao sul do país. O vinho é amadurecido por seis meses em barricas  (60%) e tanques de concreto (40%). O contato com as leveduras após a fermentação por algumas semanas, confere textura e complexidade ao conjunto. Bela riqueza aromática, mesclando ervas, mel, baunilha, e pêssegos. Sempre macio, sem perder o fresco. Notável persistência aromática. Importadora Winebrands.

 

números 4 e 6

4. Travaglini Gattinara DOCG 2012

Travaglini é a grande referência quando falamos de Nebbiolo da DOCG Gattinara. Localizada bem ao norte da denominação Barolo, seus vinhos primam muito mais pela elegância e sutileza, do que pela potência. Com toques florais e de alcaçuz, este tinto é muito equilibrado e elegante. Seus taninos são delicados para a casta em questão, além de expansivo em boca. Preço bem razoável para Nebbiolos deste porte. Importadora World Wine.

5. Cantina Cellaro Due Lune IGT 2013

Com a Sicilia em voga, este é o segundo de uma série de italianos da lista. Um corte clássico da ilha com Nerello Mascalese predominando (70%) e Nero d´Avola como coadjuvante (30%). O vinho passa cerca de oito meses em barricas francesas. Um tinto moderno, mas de muita tipicidade, com bom poder de fruta, toques tostados elegantes, florais, e chocolate escuro. Bem balanceado em boca, taninos de boa textura, e final bem acabado. Preço bem honesto para o que oferece. Importadora Casa Flora.

6. Castellare di Castellina Chianti Classico 2014

Dos vários toscanos degustados ao longo de 2018, este Chianti Classico chamou a atenção pela elegância e por seu preço honesto. Madeira bem colocada, aromas típicos da Sangiovese, e taninos muito bem moldados. Seu belo frescor o torna muito gastronômico. Vinícola tradicional da região histórica de Castellina in Chianti. Importadora Mistral.

 

números 5 e 7

7. Chateau Fayau Bordeaux Superieur 2015

Premiando a bela safra 2015 de tintos bordaleses, este Chateau relativamente simples, mostrou tipicidade, equilíbrio, elegância, e sobretudo bom preço. Neste típico corte bordalês, uma expressiva porcentagem de Cabernet Franc presente, dá um toque a mais de elegância ao conjunto. Pronto para ser tomado. Importadora Mistral.

8. Vinhas da Ciderma Grande Reserva 2007

Nas últimas degustações do ano, apareceu este belo tinto do Douro com castas locais, esbanjando classe e vivacidade. Embora já com dez anos de evolução, não denuncia a idade. Muita fruta no aroma, toques resinosos e de alcaçuz com taninos de ótima textura. Madeira bem equilibrada e bela expansão em boca. Ótimo momento para ser apreciado. Importadora Premium.

 

números 9 e 10

9. Quinta do Noval Porto LBV Unfiltered 2009

Podemos considera-lo como um mini-vintage, tal a concentração e qualidade deste Porto. Cor retinta, aromas de frutas escuras, toques florais, de torrefação e algo mineral. Seus taninos são densos e muito bem construídos. Doçura e equilíbrio notáveis, além de uma bela persistência aromática. Convém decanta-lo para aeração e também na separação dos sedimentos, já que não é filtrado. Dentro da categoria LBV é dos mais distintos. Importadora Adega Alentejana (www.alentejana.com.br).

10. Alois Kracher Noble Reserve Trockenbeerenauslese 

Finalizando a lista, um belo vinho botrytisado da Áustria. O produtor Alois Kracher é referência na região de Burgenland, famosa pela regularidade em propiciar o fenômeno da “podridão nobre”. Num corte inusitado de Welschriesling (Riesling Itálico), Chardonnay, e Traminer, o vinho é maturado em grandes toneis de madeira inerte. Com 195 g/l de açúcar residual, sua doçura é perfeitamente equilibrada por uma revigorante acidez. Os aromas marcantes de Botrytis, mel, flores, e pêssegos, são notáveis. Untuoso em boca e de grande persistência aromática. Pela complexidade e estilo de vinho, tem um preço bem convidativo na importadora Mistral. Vale lembrar, neste tipo de vinho estamos falando em meia-garrafa.

Passando por vários tipos, estilos, preços, e regiões de vinhos, espero que esta lista possa ajuda-los nas compras e presentes no fim de ano com a aproximação das festas e comemorações. As safras e preços podem ter sido alteradas ao longo do ano, mas nada que prejudiquem a qualidade e indicação destes vinhos. A maioria varia entre 150 e 300 reais. Aproveitem!

Wine Spectator e mais Top Ten

20 de Novembro de 2018

Os cem melhores vinhos do ano de 2018, segundo a revista Wine Spectator. Relação sempre polêmica envolvendo a qualidade do vinho em si (nota), disponibilidade no mercado (número de caixas) e preço por garrafa, ou seja, o difícil é ter nota alta, grande produção e preço baixo. Poucos conseguem esta proeza. (www.winespectator.com).

De toda a relação, temos 30 americanos (a revista é americana), 20 italianos, 18 franceses, 8 espanhóis, 3 portugueses, 5 australianos, 4 neozelandeses, e o restante entre chilenos, argentinos, alemães, austríacos, sul-africanos, um de Israel, e um grego.

Dos americanos, sempre vinhos caros e praticamente indisponíveis no Brasil, a relação ratifica que as regiões da Califórnia (Napa, Sonoma, e Costa Sul), Oregon e Washington, sempre fornecem grandes vinhos que devem ser provados e comprados no exterior.

Dos italianos, a região da Toscana sobretudo, foi grande destaque com Chianti Classico e Brunello, embora um siciliano dentre os Top Ten.

Dos franceses, grande destaque para os bordaleses da safra 2015, uma das melhores dos últimos anos na Europa, e para os tintos do Rhône, especialmente Chateauneuf-du-Pape.

Da península ibérica, Espanha sempre com tintos instigantes e do lado português, destaque para a ótima safra 2016 no Douro com Vintages clássicos e de grande longevidade. Temos dois grandes Portos na lista.

De resto, a Oceania (Australia e Nova Zelândia) garfou nove exemplares, além dos outros países citados acima com participações pontuais.

Diante da lista completa, Vinho Sem Segredo seleciona seus Top Ten sem maiores pretensões, e de maneira nenhuma, subestimando a lista oficial. São também grandes vinhos, envolvendo além das notas, gosto pessoal.

1. Warre Vintage Port 2016

14° colocado na lista oficial com 98 pontos, Warre é a casa inglesa mais antiga em Vinho de Porto desde 1760. É logico que abri-lo agora é um imperdoável sacrilégio. Um vinho cheio de energia com taninos massivos e muita coisa a se desenvolver. Para os que estarão aqui em 2050, será um dos grandes Portos a atingirem o apogeu. Importadora Decanter.

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2. San Felice Chianti Classico 2016

19° colocado na lista oficial com 94 pontos, este Chianti Classico custa somente 17 dólares no exterior. San Felice é um dos mais tradicionais produtores de Chianti Classico localizado em Castelnuovo Berardenga, próximo a Siena. Foi o pioneiro dos supertoscanos com o tinto Vigorello, lançado no mesmo ano do Sassicaia em 1968. Seus toques minerais e de tabaco são clássicos neste distinto terroir. Importadora Via Vini.

3. Roederer Estate Brut Anderson Valley

27° colocado na lista oficial com 93 pontos, este espumante é dos melhores da América com a chancela da Maison Louis Roederer. Com vinhedos localizados em Anderson Valley, próximo a Mendocino, região costeira bem ao norte da Califórnia, o vale absorve a tradicional neblina do Pacifico, provocando grande amplitude térmica. Neste blend clássico, temos Chardonnay (60%) e Pinot Noir (40%) com pelo menos dois anos sur lies (contato com as leveduras) antes do dégorgement.

wine spectator chateau-branaire-ducru 2015

4. Chateau Branaire-Ducru St Julien 2015

33° colocado na lista oficial com 94 pontos, este é um dos belos Grand Cru Classe da safra 2015. Nada a ver com o Chateau Ducru-Beaucaillou, outro ótimo Saint-Julien, Branaire-Ducru é um quatrième classificado de 1855. Blend composto por Cabernet Sauvignon (dois terços), Merlot (praticamente um terço), e pequenas porcentagens de Cabernet Franc e Petit Verdot. O vinho estagia entre 16 e 20 meses em barricas francesas (65% novas). Uma boa compra no exterior frente a outros chateaux mais famosos.

5. Descendientes de J. Palacios Bierzo Pétalos 2016

35° colocado na lista oficial com 92 pontos, este é um clássico da notável região de Bierzo, a noroeste da Espanha. Com seu relevo montanhoso e solo de pizarras (espécie de ardósia fragmentada), Bierzo molda tintos instigantes com a casta Mencia, cheio de pureza e mineralidade. Um dos grandes terroirs da Espanha. Importadora Mistral a bons preços.

wine spectator henri bourgeois les baronnes

6. Henri Bourgeois Sancerre Les Baronnes 2017

46° colocado na lista oficial com 92 pontos. Um dos melhores produtores da apelação Sancerre, Henri Bourgeois molda Sauvignon Blanc  típicos do Vale do Loire. Les Baronnes é um de seus vinhedos, gerando brancos de ótimo frescor para nosso verão. Sem passagem por madeira. Importadora Grand Cru.

7. Domaine des Baumard Quarts de Chaume 2015

52° colocado na lista oficial com 98 pontos, este é um clássico botrytisado do Vale do Loire. Para quem está cansado de Sauternes, Quarts de Chaume é uma apelação clássica de Anjou com a casta Chenin Blanc. Vinho de grande delicadeza, complexidade, e longevidade. Importadora Mistral.

wine spectator hamilton russell chardonnay

8. Hamilton Russell Chardonnay Hemel-en-Aarde Valley 2017

57° colocado na lista oficial com 93 pontos, Hamilton Russell é sinônimo de Borgonha na África do Sul. Com vinhedos situados na fria região litorânea de Walker Bay, banhada pela corrente de Benguela, seus Chardonnays fermentados e amadurecidos em barricas francesas, são complexos, equilibrados e expansivos. Importadora Mistral. 

wine spectator auguste clape cornas

9. Auguste Clape Cornas 2015

77° colocado na lista oficial com 98 pontos, Auguste Clape é referência absoluta na apelação Cornas, maldosamente mencionada como “Hermitage dos pobres”. Tinto de grande força, personalidade, e longevidade. Seus vinhedos ficam num anfiteatro localizados a sul da apelação Hermitage com uma exposição solar fora de série para o perfeito amadurecimento das uvas Syrah. Para quem tem muita paciência em adegar. Importadora Mistral.

10. Henri Gouges Nuits-St-Georges Clos des Porrets 2015

79° colocado na lista oficial com 95 pontos, Henri Gouges personifica o lado mais masculino de Nuits-St-Georges, vasta comuna com muitas expressões de terroir. Clos des Porrets é um monopólio de pouco mais de três hectares. Tinto musculoso, tânico, e de grande longevidade. O lado mais viril da Pinot Noir. Importadora Zahil.

Enfim, uma lista com cinco franceses de diferentes procedências. A outra metade com vinhos pouco conhecidos do grande público, de preços variados, e muitos deles encontrados no Brasil, embora a preços nem sempre convidativos. Para aqueles que têm a oportunidade  de irem ao exterior, uma bela chance de prova-los a preços honestos.

 

 

 

Top Ten WS

16 de Novembro de 2018

Nesta época do ano, temos a famosa lista dos Top 100 da revista Wine Spectator. Dentro dos 100 melhores há os chamados Top Ten, revelados dias antes. Nesta edição 2018 temos três americanos, três franceses, três italianos, e um espanhol. Independente dos critérios e supostas preferências, trata-se de grandes vinhos muito bem pontuados. Alguns mais clássicos como o vinho do Ano, outros como novidades, e sempre alguns americanos. 

Embora as polêmicas sejam inevitáveis em torno dos americanos, devemos lembrar que a revista é americana. Portanto, nada mais natural que promover as pratas da casa. De todo modo, é bom não nos esquecermos que os Estados Unidos são a quarta potência no mundo do vinho e que seus Cult Wines são de fato maravilhosos, competindo em qualquer degustação com os melhores do mundo. Feita as devidas considerações, vamos a eles!

wine spectator bedrock heritage 2016vinhas plantadas em 1888!

10. Bedrock Heritage Sonoma Valley 2016

Tinto de vinhas muito antigas com 27 varietais, destacando-se Zinfandel (50%), Carignan (20%) e Mataro (4%). Vinho de grande concentração, sugerindo decantação de 12 a 24 horas. Bedrock vineyard é um vinhedo plantado em 1888 na região costeira de Sonoma.

9. Tenuta delle Terre Nere Etna San Lorenzo 2016

A Sicilia é talvez a região mais vibrante da Italia em termos de novidades e renovação, especialmente ao redor do monte Etna, no setor leste da ilha. Nerello Mascalese é a grande estrela como uva autóctone. Neste exemplar, San Lorenzo é um vinhedo especial de quatro hectares da vinícola tratado como Grand Cru com vinhas entre 50 e 100 anos plantadas em alberello ou vaso (modo antigo de plantio junto ao chão) numa altitude entre 700 e 750 metros. Após 16 a 18 meses de afinamento em diversos tipos de madeira francesa (apenas 20% de madeira nova), o vinho é engarrafado.

8. Le Vieux Donjon Chateauneuf-du-Pape 2016

Domaine localizada quase dentro de Chateauneuf-du-Pape, próximo ao mítico Henri Bonneau. Com a mesma filosofia, trabalha com vinhas antigas, sobretudo Grenache de vinhas centenárias, juntando uvas de vários vinhedos de diferentes terroirs. O blend para o tinto é composto de Grenache (75%), Mourvèdre (10%), Syrah (10%) e Cinsault (5%). A média de idade das vinhas ultrapassa 50 anos. A vinificação é tradicional e o vinho amadurece por 18 meses numa combinação de grandes toneis com uma pequena parte em cimento.

7. Colene Clemens Pinot Noir Chehalem Mountains Dopp Creek 2015

Elaborado com quatro clones especiais de Pinot Noir, as uvas são 100% desengaçadas com longa fermentação sob ação de leveduras naturais. Há uma pós-fermentação de 5 a 7 dias para maior extração. O vinho estagio 11 meses em barricas francesas de diferentes idades, sendo 28% novas. Chehalem Mountains é uma das AVAs de prestígio no extremo norte de Willamette Valley, próxima à cidade de Portland. Seu solo complexo e pedregoso é uma mistura de basalto (origem vulcânica) com sedimentos marinhos em colinas voltadas para o sul.

6. Aubert Chardonnay Carneros Larry Hide & Sons 2016

Terroir frio na entrada de Napa Valley, Carneros está sob a influência da baía de San Pablo. Chardonnay elaborado com mínima intervenção, fermentado em barricas francesas, predominantemente novas. Intenso e cremoso.

wine spectator dom perignon 2008a passagem do bastão

5. Moët & Chandon Dom Pérignon Legacy Edition 2008

Cuvée de grande prestígio, marca fundamentalmente a passagem de bastão do Chef de Cave Richard Geoffroy desde 1990, para Vincent Chaperon a partir da safra 2009. Com longo trabalho sur lies, um Dom Pérignon costuma demorar dez anos para ser lançado. Consistente safra após safra. Que a sucessão seja um sucessão!

4. La Rioja Alta 890 Gran Reserva Selección Especial 2005

O clássico dos clássicos em Rioja, talvez a denominação mais importante para tintos em toda a Espanha. Tempranillo (95%), Mazuelo (2%), e Graciano (3% dentre outras castas), formam o blend deste estupendo tinto que passa seis anos em diversas barricas com dez trasfegas ao longo deste período. Um vinho super elegante com uma profundidade e equilíbrio monumentais. Estará eternamente entre os melhores vinhos do planeta.

3. Castello di Volpaia Chianti Classico Riserva 2015

Vinhedos localizados em Radda in Chianti, região histórica do Chianti Classico. 100% Sangiovese cultivado em altitudes entre 400 e 500 metros de solo pedregoso de natureza argilo/arenosa. Passa cerca de 24 meses em botti da Eslavônia e parte em barricas francesas. Pode ombrear-se aos melhores Brunellos.

2. Chateau Canon-La-Gaffelière 2015

Saint-Emilion de ponta na classificação Premier Grand Cru Classe B. Situado a sul do Chateau Ausone e a oeste do Chateau Pavie em solo argilo/arenoso. A média de idade das vinhas é de 50 anos, com alguns lotes chegando perto de 100 anos. O blend é composto de Merlot (55%), Cabernet Franc (38%) e Cabernet Sauvignon (7%). O vinho amadurece com as lias entre 15 e 18 meses em carvalho francês, 100% novo. A safra 2015 dispensa comentários.

wine spectator sassicaia 2015Bolgheri Sassicaia: denominação de origem própria

O Vinho do Ano

Depois de 50 anos da primeira safra em 1968, o pai dos “supertoscanos” é o Vinho do Ano da Wine Spectator com a safra 2015. Oxalá ela tenha o mesmo êxito do mítico Sassicaia 1985, o melhor Sassicaia da história.

1. Tenuta San Guido Bolgheri Sassicaia 2015

O sonho da marquês Mario Incisa dela Rocchetta, um italiano apaixonado pelos bordaleses, tornou-se realidade. Elaborar o melhor corte bordalês na Italia, e seguramente entre os melhores do mundo.

Quando a imprensa inglesa provou as primeiras safras de Sassicaia, um mero Vino da Tavola, exclamou: “não pode ser um vino de mesa, é um supertoscano”. E assim nasceu o termo que revolucionou os tintos toscanos a partir dos anos 70. Localizada em Bolgheri, área marítima da Toscana, Tenuta San Guido com seu solo pedregoso (sasso), deu origem ao mítico vinho. Um corte onde a Cabernet Sauvignon é majoritária com pequena porcentagem de Cabernet Franc. Um tinto sempre elegante com o toque preciso das barricas bordalesas. 

Outros supertoscanos vieram pouco a pouco e continuam aparecendo, mas Sassicaia tornou-se um mito na enologia italiana, fazendo parte da elite mundial. 

Seria um belo painel para uma degustação de fim de ano. Próximo artigo, a análise completa dos Top 100 da Wine Spectator.

Adega Revista no Sábado

14 de Novembro de 2018

Em evento comemorativo da Revista Adega, foram escolhidos alguns painéis temáticos para degustação de vinhos pouco comuns em nosso dia a dia. O evento realizado no charmoso Hotel Unique foi muito bem montado com serviço dos vinhos preciso a cargo das sommelières Gabriela Monteleone e Gabriele Frizon.

img_5298abrindo os trabalhos

Nesta primeira degustação, foi escolhido o ícone da Familia Torres, um dos grupos vinícolas mais importantes no cenário internacional, o tinto Mas La Plana Cabernet Sauvignon, cuja primeira safra de 1970, mais conhecido como Gran Coronas Etiqueta Negra, ganhou o importante concurso francês Gault-Millau em 1979, frente a notáveis tintos bordaleses.

As primeiras vinhas datam de 1966, plantadas na Catalunha, nordeste da Espanha, mais precisamente na região de Penedès. Com o passar do tempo, as vinhas criaram raízes, refletindo nos vinhos um terroir mais preciso. Conforme foto acima, a vertical começou com o ano 1977, terminando com o exemplar de 2013. Os vinhos são importados pela Devinum (www.devinum.com.br).

img_5300perfis em evolução

A garrafa em magnum do ano 1977 estava perfeita com total evolução do vinho. Neste exemplar, percebemos um caráter notadamente espanhol nos aromas, denotando notas de coco referente ao carvalho americano. Lembra muitos os Riojas Gran Reservas. Seus toques balsâmicos, de frutas secas e em compota, bala de cevada, mostravam aromas sedutores. Em boca, embora ainda prazeroso, percebia-se o peso da idade, com um final de boca mais seco, mostrando que a fruta está indo embora. As garrafas remanescentes devem ser tomadas rapidamente, aproveitando ainda a exuberância de seus aromas, confirmando a distinção deste tinto.

Já o 1989, mostra o auge deste estilo mais tradicional, embora não seja tão marcadamente espanhol. A cor já com borda atijolada pela idade, mostra a evolução de seus aromas terciários com notas de ervas secas, café, tabaco, e algo defumado. Em boca, apresenta mais vigor que o vinho anterior, mas segue na linha de elegância com perfeito equilíbrio. Um vinho que se encontra num ótimo momento para ser tomado com todos os seus aromas e taninos plenamente desenvolvidos.

img_5301safra em double magnum

Aqui chegamos no ponto alto da degustação nesta bela safra de 1999. É bem verdade que o formato double magnum ajudou no perfeito estado da garrafa. Além disso, nesta fase da bodega, percebe-se um vinho claramente de padrão internacional, elaborado integralmente com barricas francesas. O vinho encontra-se já muito prazeroso se devidamente decantado. Contudo, ainda há segredos a serem revelados. A cor tem um tendência discretamente atijolada de borda. Os aromas são intensos de fruta concentrada, notas de café, chocolate, um tostado fino, e um toque mineral. Apresenta-se com bom corpo, bela estrutura tânica, e muito boa persistência aromática. Seus taninos são finos e muito bem equilibrados com demais componentes. Talvez algo perto de dez anos para atingir o apogeu. Belo exemplar.

img_5302belas promessas

Duas safras em evolução, mas com diferenças marcantes. O 2006 não mostra ser um grande ano. Ao longo da degustação seus aromas sempre muito tímidos. Fruta discreta, toques de especiarias  e um tostado fino, apenas. Em boca, mostrou-se ser o menos encorpado e o menos persistente entre todos. Seus taninos não eram tão finos como os demais. Falta um pouco de meio de boca. Embora ainda novo, não deve ser muito longevo.

Já o 2013 é outra história. Tinto de muito vigor, cor compacta, e uma montanha de taninos. Deve ser decantado por pelo menos duas horas. Um pouco fechado de inicio, mas seus aromas foram abrindo progressivamente com frutas escuras, toques minerais e de alcaçuz, além de uma nota de charcutaria (embutidos). Belo corpo, macio, taninos de ótima textura, e persistência aromática expansiva. Este sim, vai longe em adega.

pausa para o almoço

Uma pausa paro o almoço na cobertura do hotel Unique. Tomate confitado com creme de burrata de entrada, tartar de angus com salada, fritas e mostarda como prato principal, e crème brûlée de chá mate como sobremesa. O espumante rosé Desirée da Bueno Vinhos acompanhou adequadamente o refrescante almoço.

img_53081grandes promessas

Continuando o dia, partimos para a degustação de tintos argentinos da família Zuccardi. Trata-se de um inovador projeto no Valle de Uco, mais precisamente em Altamira num local extremamente pedregoso de solo aluvial com presença de carbonato de cálcio. O engenheiro Alberto Zuccardi está à frente da vinícola intitulada Piedra Infinita. São vinhas ainda muito jovens, mas com ótimo potencial. Na foto acima, os exemplares que mais me agradaram.

São vinhos de cores muito concentradas, praticamente sem nenhuma evolução de borda. As duas safras apresentaram aromas de frutas escuras intensas e bastante frescas, toques florais, minerais e de café. Encorpados, macios, e de muito frescor em boca. Os taninos são abundantes e finos. Bem equilibrados em álcool e de muito boa persistência aromática. A diferença básica das safras 2013 e 2015 são as porcentagens invertidas entre madeira e concreto. Na safra 2013 predomina a madeira, enquanto na safra 2015, o concreto. Aromaticamente, há um sutil predomínio das notas de café em 2013, enquanto a mineralidade é mais presente na safra 2015. Tintos ainda muito jovens em franca evolução. Esses tintos são importados pela Grand Cru (www.grandcru.com.br).

Tendências e Descobertas

Neste último painel, foram apresentados alguns vinhos mais distintos, diferentes, e de padrão pouco usual. Comento dois dos que gostei mais, de uvas e estilos totalmente diferentes entre si.

img_5313mineralidade de Limari

Aparentemente, mais um Sauvignon Blanc de vale frio do Chile. O que diferencia este vinho é sua presença em boca, calcada numa acidez marcante, refrescante, acompanhada por uma salinidade muito revigorante. Os fortes aromas herbáceos até incomodam um pouco, embora seja acompanhado de fruta bastante fresca, além de um intrigante toque esfumaçado (algo mineral, já que não passa em madeira). Bela persistência aromática. Importado pela World Wine.

img_5314biodinâmica na veia

Este teria que ser o Gran Finale, o majestoso Coulée de Serrant de Nicolas Joly. Este é um branco que deve ser decantado com horas de antecedência, tal a profundidade de seus aromas. Por ser de fato tão jovem, safra 2014, pessoas que não estão acostumadas a ele podem não entender completamente todo seu potencial. Trata-se de um vinhedo exclusivo, um verdadeiro patrimônio viticultural francês. O vinho é elaborado à base de Chenin Blanc dentro dos mais rígidos preceitos biodinâmicos. A cor é muito intensa, já começando pelo dourado. Com a evolução do vinho em garrafa, torna-se alaranjado, até podendo ser confundido com os famosos Laranjas, tão em voga. Seus aromas vão se revelando aos poucos, a medida que o vinho vai sendo aerado. Notas de marmelo, damascos, ameixa amarela, fruta em caroço, e outras frutas exóticas vão aparecendo. Toques florais e de especiarias, notadamente o curry, vão se intensificando. Em boca, lembra um vinho tinto por sua estrutura portentosa. Macio e ao mesmo tempo com incrível frescor num equilíbrio harmônico. Sua persistência aromática reverbera por minutos. Um lição para quem quer saber o que é um grande vinho branco. Sensacional. Nota 95+ de Parker. Importadora Clarets (www.clarets.com.br).

Meus agradecimentos à Revista Adega por mais esta iniciativa, sempre procurando mostrar painéis de vinhos criativos e educativos, ampliando cada vez mais a cultura do vinho em nosso país. Os anfitriões Christian Burgos e Eduardo Milan sempre muitos gentis e solícitos com todos os convidados. Abraços a todos!

Números Globais do Vinho

6 de Novembro de 2018

De tempos em tempos, Vinho Sem Segredo atualiza os números mundiais do vinho. São dados relativamente recentes da OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho).

Superfície mundial de vinhas

Metade da área de vinhas no mundo concentra-se em cinco países pela ordem: Espanha, China, França, Itália e Turquia. O trio de ferro europeu concentra sua produção na elaboração de vinhos, maioires produtores mundiais. A China é muito expressiva na produção de uvas de mesa, enquanto a Turquia é um dos gigantes na produção de uvas-passas.

OIV grapes worldcomo cada país explora seus vinhedos

Uvas de Mesa

Três países concentram a produção mundial de uvas de mesa pela ordem: China, Turquia e India, sendo que só a China responde por um terço da produção mundial. 

Produção mundial de uvas-passas

Praticamente metade da produção de uvas-passas estão nas mãos da Turquia e Estados Unidos, pela ordem. Irã e China ficam com 25% do total, seguidos pelo Chile com 6% da produção.

Produção mundial de vinhos

Sem grandes sustos, os quatro primeiros do mundo continuam mantendo a seguinte hierarquia: França e Italia se revesam, Espanha em terceiro cada vez mais perto do podium, enquanto os Estados Unidos é o mais consistente quarto colocado. Daí para frente, a Argentina nos últimos tempos tem tido uma concorrência ferrenha, sobretudo da China.

OIV consumo mundial vinhoEstados Unidos: uma potência em todos os sentidos

Consumo mundial de vinhos

Quase 50% do consumo mundial está concentrado em cinco países pela ordem: Estados Unidos, França, Itália, Alemanha e China, lembrando que França e Itália são grandes produtores e o restante do grupo, grandes importadores. Os Estados Unidos jogam nos dois lados.

Portugal proporcionalmente, consume muito vinho com um índice de 54 litros per capita anual, seguido de perto pela França.

OIV exportação mundialEstados Unidos surpreendem nas exportações

Países exportadores

França, Italia e Espanha são os três maiores em valores exportados nesta ordem. Quando falamos de volumes, França e Espanha trocam de posição. Num patamar mais abaixo, Chile e Austrália travam uma briga ferrenha ano a ano.

OIV paises importadoresChina entra com tudo neste mercado

Países importadores

Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha são os três maiores em valores importados nesta ordem. Quando o assunto é volume, Alemanha e Estados Unidos trocam de posição. A China nos últimos anos vem forte para assumir a quarta posição, sobretudo em valores.

OIV paises e uvasuvas de grande destaque em produção

OIV uvas mais plantadasdestaque óbvio para as castas francesas

Uvas mais plantadas

Das tintas internacionais, Cabernet Sauvignon e Merlot estão entre as treze uvas mais plantadas que representam um terço da área de vinhas mundial. A Chardonnay é a uva branca internacional mais plantada com folga, chegando perto da Airén, ainda a uva branca espanhola mais plantada no mundo. Como curiosidade, a Kyoho é a uva de mesa oriental mais plantada no mundo entre todas (tintas e brancas).

Considerações finais

Embora Portugal participe modestamente dos números globais pela pequena dimensão do país, proporcionalmente é um dos gigantes do vinho, sobretudo em tradição com suas castas únicas. A renovação de sua indústria vinícola é notável com regiões como Douro e Vinho Verde em franco desenvolvimento, entre outras.

A Espanha, a despeito da sensível redução de suas áreas de vinhas, tem aumentado sua produtividade e qualidade de seus vinhos de uma maneira notável. A região da Galicia sem dúvida nenhuma caminha a passos largos, se destacando frente a outras já historicamente consagradas como Rioja e Ribera del Duero.

A China como país global, aumenta ano a ano significativamente sua área de vinhedos, e sua participação como país importador, sobretudo de vinhos europeus. O Chile como país exportador, pode ter grande êxito se cair nas graças dos chineses.

 

Chateauneuf-du-Pape e Arredores

1 de Novembro de 2018

Em recente degustação na ABS-SP,  tivemos vinhos do Rhône-Sul, em especial, Chateauneuf-du-Pape, uma das mais famosas apelações da França. No quadro abaixo, informações importantes sobre terroir e dados estatísticos.

terroir da apelação

http://www.europeancellars.com/more-than-just-la-crau/

O link acima permite ampliar bem o mapa proposto para melhor visualização. Em primeiro lugar, as treze cepas autorizadas da apelação com amplo domínio de vinhos tintos que por sua vez, é protagonizado em seu famoso corte pela uva Grenache (quase 75% de participação). São 3200 hectares de vinhas repartidas em cinco comunas. Mais de 90% da produção são de vinhos tintos. A França exporta dois terços desta produção. Um dos vinhos franceses mais conhecidos internacionalmente. Os solos são muito variados e podem ser representados por quatro tipos principais: galets roulés (ovos de pata), típicos da região, arenosos, calcários, e grés rouges, uma espécie de arenito. Vamos então, às cinco principais comunas deste complexo terroir.

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Chateauneuf-du-Pape

É a maior área com solos de grande diversidade, mas em sua maioria com as famosas pedras que caracterizam a região. Isso transfere muito calor às vinhas, permitindo uma completa maturação das uvas. Nos setores mais periféricos da comuna há mais ênfase em areia e argila, dependendo de localizações mais específicas. 

Courthézon

Região nordeste da apelação com maior área, depois de Chateauneuf-du-Pape descrita acima. Aqui predomina solos arenosos e de arenito sobretudo, onde o Chateau Rayas reina absoluto. Em meio a um terroir único cercado de bosques, é considerado o Borgonha da apelação com vinhas antigas exclusivamente de Grenache.

Orange

Região norte da apelação com seus solos aluviais vermelhos misturando argila, areia e pedras em proporções variáveis. Terroir do Chateau de Beaucastel, um dos mais emblemáticos da apelação.

Bédarrides

Região a leste da apelação, imediatamente ao sul de Courthézon. Solos parecidos com Orange, de tendência mais arenosa. Tem como chateau emblemático o Domaine du Vieux Telégraphe.

Sourgues

Região sul da apelação com solo parecido a Orange, rico em ferro. Clos des Papes e Chateau Fortia ficam no limite deste terroir.

Quanto aos Chateauneufs degustados, foto acima, o da esquerda apresenta um estilo clássico já com perfil evoluído, no ponto de ser bebido. Esses vinhos baseados em Grenache costumam evoluir relativamente rápido em garrafa, sobretudo quando de uma safra não tão boa como 2012. São vinhos que não devem ser decantados para aeração.

Quanto ao vinho da direita, Domaine Lafond, tem um estilo mais extraído e moderno, com uma aporte mais evidente de madeira. Seu equilíbrio é feito por cima, destacando-se uma boa estrutura tânica, além do nível alcoólico de 15 graus. Um vinho potente, um tanto fechado, necessitando de alguns anos em adega. Deve evoluir bem nesta ótima safra 2015 por pelo menos dez anos.

Apesar da fama da apelação, é bom frisar que Chateauneuf du Pape tem vinhos muito irregulares e muitas vezes de negociantes. Portanto, o prestigio e idoneidade do produtor tem um peso enorme na qualidade dos vinhos, justificando integralmente o glamour entre seus aficionados.

Outras apelações próximas a Chateauneuf-du-Pape podem ser belas alternativas ao astro maior, sobretudo se o preço estiver em jogo. Seguem algumas delas com certas particularidades.

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Gigondas e Vacqueyras

Antigas comunas da apelação Côtes-du-Rhône Villages, adquiriram apelações próprias com o tempo. Gigondas conquistou a apelação em 1971 num terroir único em torno de Dentelles de Montmirail com 1200 hectares de vinhas. Solos com base calcária permeados por argila e areia. A Grenache é amplamente dominante no corte, seguida pelas uvas Syrah e Mourvèdre. Bela alternativa a Chateauneuf-du-Pape, numa ótima relação qualidade/preço.

No caso de Vacqueyras, ganhou status de apelação em 1990 num terroir próximo a Gigondas com 1400 hectares de vinhas. São terrenos mais arenosos e menos acidentados em relação a Gigondas. Continuando a comparação, as uvas amadurecem mais cedo e os vinhos são mais acessíveis na juventude, sem grande estrutura como Gigondas, na maioria dos casos.

Os dois tintos degustados acima, vide foto, demonstram as características de cada uma das apelações. No caso da esquerda, Gigondas 2013, mostra um vinho com taninos evidentes e marcantes. Tem um estilo mais viril, mais masculino, vislumbrando mais alguns anos de guarda para desenvolver aromas e polimerizar taninos.

No caso do Vacqueyras 2015, vinho à direita, mostra muita concentração de frutas escuras, toques florais, evidenciando toda sua juventude. Delicado em boca, mostra taninos sedosos, boa maciez, e álcool relativamente equilibrado. É evidente que merece alguns anos de guarda, embora possa evoluir relativamente rápido em garrafa. Um belo exemplar de boa tipicidade.

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Rasteau

Uma apelação um tanto confusa, pois nasceu como um dos VDN (Vin Doux Naturel) da região com as uvas Grenache de parreiras antigas, gerando um vinho tinto fortificado semelhante ao Banyuls da região de Roussillon. Atualmente, são apenas 22 hectares de vinhas com rendimentos muito baixos.

Mais recentemente, em 2010, esta apelação adquiriu nome próprio dentro da apelação Côtes-du-Rhône Villages, elaborando vinhos tintos secos à base de Grenache, complementada pelas uvas Syrah e Mouvèdre, principalmente.

O vinho acima degustado abriu o painel, mostrando o equilíbrio e franqueza de aromas da bela safra 2015. É um vinho relativamente simples, longe de ser complexo, mas muito equilibrado. Esta vivacidade e juventude são fatores extremamente agradáveis para seu consumo imediato.

Segue abaixo a relação de vinhos degustados com seus respectivos preços e importadoras, essas destacadas em parênteses.

  • Châteauneuf-Du-Pape Clos de L’ Oratoire des Papes 2012 – (Vinci) = R$ 548,02
  • Domaine Raspail-AY Gigondas 2013 – (Premium) = R$363,84
  • Châteauneuf-Du-Pape Roc Epine 2015 – Domaine Lafond – (Tahaa) = R$ 348,50
  • Delas Frères Vacqueyras 2015 – importadora (Grand Cru) = R$ 229,90
  • Rasteau AOC 2015 – M. Chapoutieur – (Mistral) = R$219,97

Jerez e seus Tesouros

11 de Outubro de 2018

Quando falamos de Jerez no mundo do vinho, falamos quase de um fóssil, algo em extinção, sobretudo no Brasil. De fato, em dados recentes, a Andaluzia região que inclui o Jerez, é a oitava região espanhola em produção com algo em torno de 1.200.000 hectolitros anuais, ou seja, 120 milhões de litros. Destes, 32 milhões são de Jerez (consumo interno e exportação), 12 milhões na Espanha e 20 milhões exportados para diversos países. Reino Unido, Holanda, Alemanha, e Estados Unidos, são os principais países importadores da bebida. O Brasil nem aparece na lista como país importador. Uma pena, pois os Jerezes, sobretudo o Fino e a Manzanilla são um dos melhores aperitivos do mundo.

Fino e Manzanilla

Essa foi uma das questões numa prova de certificação realizada recentemente na ABS-SP, qual da diferença entre os dois. Numa comparação simplória, é mais ou menos a diferença do chopp para cerveja. O primeiro é mais leve, mais frágil, pois não é pasteurizado. Já o segundo, não tem o mesmo frescor, mas aguenta bem mais a estocagem. Exatamente por isso, a Manzanilla é quase toda consumida na própria Espanha com as tradicionais tapas. Menos de 10% da produção é exportada.

Para o Fino, a situação se inverte. Quase o dobro do que é consumido na Espanha é exportado. Na verdade, Fino e Manzanilla se desenvolvem sob a flor, uma camada de leveduras que protegem o vinho da ação do oxigênio. Por uma questão de terroir, Manzanilla é elaborada na região litorânea de Sanlúcar de Barrameda, tendo um aspecto salino em seu sabor.

Jerez estatisticas 2017todos os tipos de Jerez

(favor ampliar a visualização)

Nos chamados Jerezes secos, pouco manipulados, a exportação é mais tímida. Em compensação, os Jerezes adocicados no processo como Pale Cream, Medium, e Cream, têm alta aceitação nos mercados externos, sobretudo e inglês. Já os Jerezes naturalmente doces como Moscatel e Pedro Ximenez, suas exportações são equilibradas com o mercado interno espanhol.

jerez VORS e VOS

números em litros (2017)

V.O.R.S e V.O.S

Da produção total de Amontillados, Olorosos, e Pedro Ximenez, uma parcela ínfima dessas categorias são destinadas aos Jerezes especiais com as denominações VOS e VORS com grande tempo de solera.

No caso do VOS (Vino Optimo Seleccionado) ou (Very Old Sherry) são soleras com mais de 20 anos (idade média dos vinhos) onde o caráter evidentemente oxidativo se faz presente. São partidas de vinhos especiais, altamente selecionados, que irão sempre revigorar a solera, mediante sacas criteriosamente programadas. Para cada  litro de solera sacada, deve haver 20 litros de vinho reposto nas criadeiras.

No caso do VORS (Vinum Optimum Rare Signatum) ou (Very Old Rare Sherry) são soleras com mais de 30 anos (idade média dos vinhos) com os mesmos critérios de qualidade do VOS. Apenas aumenta em 10 anos o tempo de solera. Para cada litro sacado da solera, 30 litros de vinho deve ser reposto nas criadeiras, garantindo assim a continuidade do sistema.

Para se ter uma ideia da exclusividade destas categorias, sua produção somadas (VOS + VORS) não chega a meio por cento da produção total das categorias envolvidas (Amontillado, Oloroso, Pedro Ximenez, Palo Cortado, Medium, e Cream). Esta ínfima porcentagem ainda cai pela metade se considerarmos a produção total de Jerez por ano. Vide quadro acima.

Numa degustação exclusiva, degustamos alguns exemplares raros destas categorias de uma das mais reputadas bodegas jerezanas, Bodegas Tradicion. Vamos a eles.

Fino Tradicion (solera  de 10 a 12 anos – acidez 4,01 g/l)

Um Fino totalmente fora da curva com Solera extremamente prolongada de 10 a 12 anos. Uma cor suavemente mais carregada em relação a um Fino padrão. Seus aromas são de grande complexidade denotando frutas exóticas como carambola e notas de maracujá, cogumelos, toques medicinais e de amêndoas. Com a evolução na taça, apareceram notas florais (jasmim) e de maças cozidas. Em boca, apresentou corpo médio, bem seco, embora macio, e com incrível frescor. Muito equilibrado em relação ao álcool e de uma persistência aromática bastante expansiva. Lembra bem o estilo Manzanilla Pasada, um clássico de Sanlúcar de Barrameda. Bela harmonização com um prato de massa com botarga. 

Amontillado Tradicion VORS 30 Años ( solera de 45 anos – acidez 7,93 g/l)

Um âmbar claro luminoso com alguns sedimentos já surpreende neste Amontillado com 45 anos de Solera, bem acima dos rígidos padrões para a categoria VORS. Novamente, alta complexidade aromática com notas de fino caramelo, torrefação, frutas secas, toques medicinais e evolução aromática para patisserie. Aqui encontramos resquícios de uma crianza biológica, seguida de longo estágio oxidativo. Em boca, é mais encorpado que o vinho anterior, mais untuoso e macio, embora com belo frescor. Novamente, o equilíbrio se faz presente com agradável calor do álcool e uma discreta nota salgada. Muito persistente em boca, prolongando todas as sensações descritas por via retronasal. Difícil descreve-lo por completo. Convidado de honra para a Festa de Babette.

Olorosos Tradicion VORS 30 Años (solera de 45 anos – acidez 8,17 g/l)

Vejam que a cor acima é levemente mais acentuada em relação ao Amontillado. Para um Oloroso de longa Solera oxidativa por 45 anos, sua cor é surpreendentemente nova e muito pouco evoluída. Os aromas de caramelo, torrefação e frutas secas, se intensificam ainda mais em relação ao Amontillado, acrescidos com notas de fumo e tâmaras. O mais encorpado do painel, notável untuosidade, mas com belo frescor. Agradavelmente quente e com persistência aromática sem fim. Um Oloroso de rara elegância, lembrando em muito um Palo Cortado, um dos Jerezes mais distintos e raros nos vários tipos deste fortificado milenar. Grande pedida para patês de caça ou terrine de campagne.

Pedro Ximenez Tradicion VOS 20 Años (solera de 22 anos – acidez 4,57 g/l)

Outro vinho de extrema distinção para os padrões comuns de Pedro Ximenez. A cor é densa parecendo um óleo velho de motor. Os aromas são intensos recordando compota de figo, bananada, rapadura, alcaçuz e mel de engenho. Em boca, muito encorpado, xaroposo, e extremamente persistente. Seu ponto alto é o incrível frescor, dada sua alcoolicidade e notável quantidade de açúcar residual. Grande pedida para harmonizar com chocolate amargo e sorvetes cremosos como baunilha e de ameixas. Queijos cremosos e curados também dão um belo contraste.

Enfim, todos vinhos de exceção, fugindo dos padrões normais para seus respectivos tipos e estilos. Reservados a momentos especiais onde as pessoas e pratos devem ser escolhidos a dedo. Todos os vinhos são importados com exclusividade pela importadora Vinissimo (www.vinissimostore.com.br). 


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