Archive for the ‘Borgonha’ Category

DRC e Les Richebourgs

24 de Junho de 2018

É sempre muito bom falar sobre os grandes tintos de Vosne-Romanée, comuna dos melhores Grands Crus da Côte de Nuits. Desta feita, sobre o Grand Cru Richebourg, que desde o fim da Idade Média, encanta com vinhos estruturados e de grande longevidade. A grande modificação no vinhedo que proporcionou sua ampliação foi nos anos 20 do século passado, com a inclusão da parcela Les Verroilles na direção norte do vinhedo com altitudes mais elevadas. Concluindo, a parcela original Les Richebourg (5,05 ha) foi ampliada com Les Verroilles (2,98 ha), totalizando 8,03 hectares de vinhas repartida entre onze proprietários.

richebourg vinhedoterroir ampliado

Não há dúvida que Domaine de La Romanée-Conti possui quase metade das vinhas com parcelas variadas ao longo do vinhedo e de características distintas. Conforme mapa abaixo, o setor Les Verroilles na parte superior tem um clima e solo mais frios, guardando na maioria das safras, uma acidez e elegância mais evidentes. Leroy, Méo-Camuzet e a família Gros, encaixam-se neste perfil.

Por outro lado, Domaines como Grivot e DRC no setor original Les Richebourg, apresentam Richebourgs mais encorpados, mais macios e principalmente tânicos, mostrando a força deste Grand Cru que tem como vizinhança os vinhedos Romanée-Conti, La Romanée e Romanée-St-Vivant.

richebourg parcelasRichebourg – parcelas

Feito esse preâmbulo, vamos a uma vertical desses vinhos com diferentes idades e momentos de evolução. Com exceção de um Méo-Camuzet 1990, todos os outros Richebourgs são DRC de várias safras.

img_4814safras altamente pontuadas

Começando já em alto nível, duas safras primorosas e com muita vida pela frente, sobretudo o potente Richebourg 99. Talvez o mais prazeroso dos DRCs provados foi este de safra 1996 com 96 pontos. Aromas ricos de Vosne, misturando juventude com certa evolução. Cerejas escuras, os toques florais, o sous-bois, uma pontinha de café, e as especiarias delicadas. Boca macia, taninos bem moldados, e um final super equilibrado. Momento ótimo para ser provado. Já o 99, um vinho mais musculoso, muito mais taninos, e ainda um pouco tímido nos aromas. Deve ser obrigatoriamente decantado, pois evolui bem na taça. Os aromas de frutas escuras, notas de torrefação e chocolate são evidentes. Um vinho com pelo menos mais uma década de evolução com 97 pontos. Como observação, seus taninos não são tão finos como o monstruoso La Tâche 99 com 100 pontos, provado recentemente.

img_4815um intruso no ninho

Neste segundo flight, o Chambertin no centro da foto destoou dos demais. Deu muito azar de estar junto com dois dos melhores tintos do almoço. Reparem que trata-se de um vinho de negociante de Beaune numa safra fraca de 1976. Seus aromas de caramelo e amadeirados dava impressão de um bom Rioja envelhecido ou de alguns Vegas, bem observado por Manoel Beato. Os aromas eram mais interessante que a boca com nítidos sinais de decadência. Acidez agressiva e secura no final de prova.

Em compensação, os outros dois estavam divinos, sobretudo o Méo-Camuzet. A história do Richebourg Méo-Camuzet se confunde com Henri Jayer, uma lenda na Borgonha. No pós-guerra os vinhedos Richebourg foram replantados e entregues a Henri Jayer para a elaboração de seus vinhos. A amizade de Henri com a família Camuzet sempre foi de muita confiança. A última safra de Richebourg rotulada como Henri Jayer foi a de 1987. Nos anos seguintes, Henri Jayer atuou como consultor dos Richebourgs Méo-Camuzet até quando sua saúde aguentou. Portanto, este Richebourg 1990 tem a mão do mestre e de fato é magnífico. Fiel ao terroir Les Verroilles e a seu estilo elegante de vinificar, o vinho emana um bouquet de rosas impressionante. Seus taninos são delicados e ao mesmo tempo firmes para garantir estrutura e longevidade. Encontra-se num momento sublime, sem sinais de decadência. Pelo contrário, tem um amplo platô de estabilização.

Quanto ao Mazis-Chambertin 85 de Madame Leroy não estava no mesmo esplendor de uma outra garrafa degustada recentemente. Parecia mais evoluída e um pouco cansada. Contudo, percebe-se um vinho fino e com toda a estrutura digna dos grandes Chambertins. Taninos muito finos e um raro equilíbrio em boca. Essas brigas no bom sentido entre Jayer e Madame Leroy são sensacionais, mostrando todo o talento destas lendas da Borgonha.

img_4816os bons velhinhos

Neste flight, uma homenagem aos velhos Borgonhas que conseguem atravessar décadas em sua jornada. Não são grandes safras, mas mostram o talento e a longevidade dos vinhos DRC. Os dois com aqueles toques de Vosne evoluídos onde o sous-bois, cogumelos, toques terrosos, e algumas notas de chá são bem presentes. Levando-se em conta a idade, o 1965 estava bem prazeroso e com extrato superior ao 1981. Este último, bem delicado, sendo melhor apreciado como vinho de meditação, sem interferência de comida. Enfim, uma aula de aromas terciários.

img_48181as promessas

Neste flight, todo o vigor e potência dos Richebourgs DRC. No caso de 2008, os taninos surpreendem pela textura macia e afável com boa evolução de aromas e extremamente prazeroso. Perde um pouco em potência frente ao 96, mas segue o mesmo estilo. Já o 2009, segue a potência da safra 99. Rico em aromas e taninos, sua estrutura é monumental, podendo atravessar décadas de evolução. Seus aromas de alcaçuz, chocolate e cerejas escuras são notáveis. Deve ser obrigatoriamente decantado.

De todo modo, são vinhos para repouso em adega, vislumbrando grande evolução no caminho dos belos vinhos de Vosne-Romanée. Notas 96 e 97 para as safras 2008 e 2009, respectivamente.

bela harmonização

Para selar o almoço, um velho Richebourg 1947 Old School. O prato acima do restaurante Parigi, escoltou bem vinhos como este num belo ravioli de vitela com molho de cogumelos. A mítica safra de 1947 moldou belos vinhos e esse não foge à regra. Poderia estar um pouco cansado, mas mesmo assim, mostra a elegância e delicadeza dos grandes vinhos de Vosne. Seria repetitivo citar novamente seus divinos aromas terciários e toda a maciez em boca de taninos totalmente polimerizados. São vinhos para serem bebidos sozinhos, sem comparações, sem notas. Apenas pelo simples prazer que a pátina do tempo nos proporciona.

img_4811alta costura em Champagne

Além do desfile de Richebourgs, tivemos algumas borbulhas interessantes neste almoço. Como destaque incomparável, o raro Dom Pérignon 1983 P3, não encontrado no mercado nacional. Nosso confrade Camarguinho, homem de finas borbulhas, nos presenteou com o exemplar acima. P3 para quem não sabe, é a chamada terceira plenitude, período relativamente longo onde o champagne descansa sobre as lias (borras) antes do dégorgement. No caso de um P3, estamos falando em mais de vinte anos sur lies. Precisamente neste exemplar, 25 anos com as leveduras.

Este procedimento, mantém um frescor incrível no champagne, além de texturas e sabores únicos. A fineza do perlage é indescritível, tal a delicadeza das borbulhas. Sua textura em boca, o que chamamos de mousse, é super delicada. Some-se a isso tudo, sabores sutis de maçã, cogumelos e fino tostado, e você estará diante da perfeição. Difícil pensar em algo melhor.

Blanc de Noirs artesanal

Na foto acima, um champagne artesanal com apenas 900 garrafas por safra. Neste millésime Blanc de Noirs, temos as uvas Pinot Noir e Pinot Meunier com três anos sur lies. Um champagne mineral, extremamente seco, gastronômico, e de certa adstringência. Muito fresco, equilibrado, ótimo perlage, e mousse vigorosa.

os vinhos tranquilos de Champagne

Os chamados Coteaux Champenois são os vinhos tranquilos na região de Champagne, ou seja, sem borbulhas. Neste caso, temos outra produção artesanal com apenas 500 garrafas por safra. Trata-se de um 100% Pinot Meunier (uva tinta) vinficado em branco e amadurecido 34 meses em toneis. O vinho conserva uma boa acidez sem exageros e notável adstringência. Bastante seco e notável mineralidade. Branco gastronômico para pratos de personalidade como bacalhau, por exemplo. Valeu pela raridade e pela experiência em provar vinhos diferentes numa região de finas borbulhas.

Após longa jornada, ficam os agradecimentos aos confrades e as lembranças de mais um almoço inesquecível onde o bom papo e a imensa generosidade do grupo permearam mais esse encontro. Saúde a todos!

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Curnonsky e seus brancos

19 de Junho de 2018

Falando um pouco de menus clássicos e históricos, não podemos deixar de mencionar Maurice Edmond Sailland, prince des gastronomes, escritor célebre do final do século XIX e metade do século XX (1872 a 1956), conhecido mais como Curnonsky, precursor do guia Michelin. Autor de 65 livros com inúmeros exemplares sobre gastronomia.

No que diz respeito a vinhos, decretou os cinco maiores brancos da França, mencionando Chateau d´Yquem, Montrachet, Chateau-Chalon, Chateau-Grillet, e Coulée de Serrant. Nada mau!

Baseado nesses memoráveis vinhos, o restaurante Taillevent elaborou um menu impecável acompanhando essas maravilhas a 1200 euros por pessoa, intitulado “Les cinq de Curnonsky”. Para esta seleção, começou com Lagosta gratinada com trufas para um Chateau-Grillet 2005, seguido por Saint-Pierre com molho de vinho branco e algas, acompanhado por Coulée de Serrant 2004. Continuando, uma Poularde de Bresse desossada com trufas acompanhando Montrachet Marquis de Laguiche 2002. Para finalizar, um Vieux Comté com Chateau-Chalon 2005, e uma Omelete de frutas exóticas flambada com Chateau d´Yquem 2003.

Falando um pouco dos vinhos, seguem fotos abaixo com detalhes de cada um e suas peculiaridades. A despeito dos critérios seleção, são vinhos absolutamente distintos, fiéis a seus respectivos terroirs, e verdadeiros patrimônios franceses.

fb7be498-2c0e-4395-ac48-cd35d0e55adb1um clássico acompanhamento para as trufas

Uma das menores apelações francesas com apenas 3,5 hectares de vinhas antigas, Chateau-Grillet é uma apelação própria dentro do território de Condrieu com uvas 100% Viogner. O vinho amadurece cerca de 18 meses em barricas francesas, sendo 20% novas conforme a safra.

O vinho costuma envelhecer muito bem desabrochando notas florais, de pêssegos, damascos, e um fundo amendoado. Textura macio em boca, acompanhando muito bem pratos com trufas, sobretudo quando devidamente envelhecido.

img_4513o epítome da Chardonnay

Montrachet dispensa comentários, sendo a perfeição nos territórios de Chassagne e Puligny-Montrachet. Vinificação clássica com fermentação em barricas novas com sucessivas bâtonnages. O vinho se funde com perfeição em contato com a madeira, envelhecendo maravilhosamente.

52064f24-4c80-4976-9255-f9e1312a3d37a perfeição do Vin Jaune

Na terra de Louis Pasteur, a uva Savagnin amadurece  com perfeição. O chamado Vin Jaune é considerado o Jerez francês, embora não haja fortificação. O vinho amadurece em barricas de carvalho por cerca de seis anos, desenvolvendo uma levedura na superfície semelhante aos melhores Jerezes. Após esse período é engarrafado, adquirindo notas oxidativas, lembrando nozes e especiarias exóticas. Além do queijo Comté, seu acompanhamente clássico, aves com molho à base de curry são harmonizações sublimes.

gero yquem 76

a sublimação da Botrytis

Assim como o Montrachet, Chateau d´Yquem é unanimidade na nobre região de Sauternes. A ação da Botrytis Cinerea é perfeita no vinhedo, além de uma colheita seletiva e paciente, procurando somente as uvas perfeitamente infectadas. A vinificação é precisa, extraindo todos os componentes fundamentais para um vinho equilibrado e profundamente estruturado. A passagem longa em barricas novas francesas só enriquece o conjunto, permitindo um envelhecimento em garrafas por décadas. Lembrando sempre que as uvas são Sémillon majoritariamente, e Sauvignon Blanc.

Serrant decantacaoChenin Blanc em pureza

Atualmente com vinhos biodinâmicos tão em voga, o exemplar acima sintetiza a perfeição nesta filosofia viticultural. Nicolas Joly, proprietário e mentor do estupendo Coulée de Serrant, eleva a casta Chenin Blanc ás alturas, tendo apelação própria dentro da apelação Savennières, o mais célebre terroir para Chenin Blanc no estilo absolutamente seco.

Sua vinificação extremamente natural, trabalha com leveduras nativas. O uso das barricas de dimensões de acordo com a filosofia biodinâmica, visa imprimir uma micro-oxigenação precisa, expressando de forma autêntica aromas e sabores únicos. O vinho tem uma extraordinária capacidade de envelhecimento, sendo obrigatória um ampla decantação de horas, antes do consumo.

Além da harmonização citada no menu acima, truta ao forno com molho de vinho branco, ervas e amêndoas tostadas é pedida certa para um casamento perfeito.


Menu alternativo

Tartar de atum com gergelim 

Coulée de Serrant decantado por horas

Omelete de queijo gruyère e ervas com trufas laminadas

Chateau-Grillet com uma dezena de anos

Camarões grelhados ao molho de ervas e limão com risoto de açafrão

Montrachet Ramonet 2014

Queijo do Serro curado com nozes e damascos

Chateau-Chalon ou Vin Jaune

Malabi com calda de damascos

Chateau d´Yquem jovem (menos de 10 anos)


img_4781Serro bem curado

Neste menu alternativo, eu começaria pelo Coulée de Serrant aproveitando toda sua acidez e frescor com tartar de atum. Um prato de personalidade com o gergelim dando um toque a mais de integração com o vinho. É importante decantar este branco com horas de antecedência.

Em seguida, os sabores e textura da omelete deixam o Chateau-Grillet reinar elegante. O toque de trufa para um branco como este envelhecido é fundamental.

A vibração de um Ramonet jovem é sensacional com seus toques cítricos precisos. Toda a força de um Montrachet entremeando a sutileza de um risoto de açafrão. Uma harmonização para levantar sabores.

Antes da sobremesa, uma taça de Chateau-Chalon ou um bom Vin Jaune. O Club Tastevin traz um bom exemplar (www.tastevin.com.br). Homenageando os queijos brasileiros, um velho queijo do serro com aromas mais potentes, complementado por nozes e damascos, finalizam a refeição sem pressa.

A força de um Yquem jovem, menos de dez anos, complementam bem o delicado manjar árabe onde o damasco e a flor de laranjeira fazem eco ao vinho. A textura untuosa do vinho cai como um manto após uma colherada da sobremesa.

Enfim, mais um exercício de enogastronomia com uma pequena amostra do arsenal francês. Para quem não resiste a um belo champagne, não seria nada mau começar ou terminar o menu com ele. Os brancos da Alsace são outra bela lembrança.

 

Vosne-Romanée brilha em Saint-Vivant

10 de Junho de 2018

Como em Vosne-Romanée não existem vinhos comuns, nada mau uma vertical de Romanée-Saint-Vivant (RSV) com vinhos dos prestigiadíssimos Domaine Leroy e Domaine de La Romanée-Conti. De quebra, um La Tâche 1990, um Petrus 1955 e um Vintage Port Graham 1966, para emoldurar ainda mais um brilhante almoço no restaurante Gero em São Paulo.

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vosne-romanee grand cruRomanée-St-Vivant: nobre vizinhança

Para começar os trabalhos, dois brancos de Beaune de safras e apelações diferentes, conforme foto abaixo. O da esquerda, um Meursault Perrières 2011 de Maison Leroy, não Domaine. Embora Meursault tenha vinhos de rica textura, nesta safra mostra-se um branco mais delgado, elegante, e mineral. Não é um vinho de grande persistência, mas muito bem construído, e com incrível frescor.

O da direita, estamos no terroir de Chassagne-Montrachet num Premier Cru de vinhedo único, La Romanée. Percebe-se os toques de madeira elegante e uma rica textura em boca.  A safra 2015 é poderosa, rica em aromas, e expansiva em boca. Nesta comuna, já temos os indícios dos grandes brancos Montrachet.

img_4740terroirs de texturas cremosas

Para começar a brincadeira, um trio do final dos anos 80 em safras de respeito: 88, 89 e 90, conforme foto abaixo. Nas duas pontas, Domaine Leroy e seu RSV com menos de três mil garrafas por safra. Ao centro, um RSV do DRC safra 89. O mais prazeroso, o mais pronto, com belos toques florais e de especiarias. Boca sedosa, um final longo e muito bem equilibrado. Já o 88 Leroy, ainda um tinto arredio, taninos presentes, e aromas um pouco fechado, embora com notas de manteiga de cacau deliciosas. É realmente um safra dura com muitas dúvidas se ela abrirá totalmente algum dia. Um vinho para ser decantado e altamente gastronômico.

Por fim, o Leroy RSV 1990. Um tinto majestoso, embora ainda não totalmente pronto. Portentosa estrutura tânica, mas de textura primorosa. Precisa de tempo na taça para se expressar, mas seus toques de especiarias, flores e de café, são notáveis. Mais alguns anos, e tudo estará em perfeita harmonia. O mais completo do trio. 

img_47431uma trinca de 30 anos

Seguindo a vertical, mais um trio, agora do meio dos anos 2000, todos DRC. O didatismo deste trio é de livro. A safra 2004 é uma safra de clima frio com alta acidez. Percebe-se claramente estes fatores neste tinto, embora com uma elegância e delicadeza ímpares. Já o 2007, uma safra mais quente, a maciez, a generosidade dos aromas, os taninos macios e resolvidos, o tornam um vinho envolvente. Muito prazeroso no momento. Por fim, o monumental RSV 2005 com uma riqueza e estrutura invejáveis. Um tinto ainda saindo da juventude, mas com um futuro brilhante. Seus ricos aromas de cerejas, florais, e de especiarias, o credenciam a uma complexidade terciária de grande distinção. Precisa de pelo menos mais dez anos para se tornar um dos grandes RSV da família DRC.

img_4748juventude de elegância

entre um gole e outro …

Entre as sequências de flights, alguns pratos fizeram sucesso com os vinhos. A massa da esquerda (paccheri, uma espécie de rigatoni mais largo), foto acima, com molho de vitela, e a galinha d´angola com molho de seu próprio assado, acompanharam bem os tintos envelhecidos de Vosne-Romanée.

Não exatamente na sequência, mas uma dupla a mais de Saint-Vivants DRC, foto abaixo. A pronta e acessível safra 2000 com seus toques de especiarias, chocolate e sous-bois. Talvez o mais pronto entre todos provados, já com seus 18 anos. Em compensação, RSV 1996 vai no estilo do 2005, robusto e cheio de vida. Embora com quase dez anos, dá para perceber claramente como é lenta a evolução em garrafa de um DRC. O 96 está um pouco mais aberto em relação ao 2005, mas ainda tem muito a evoluir. Seus toques terrosos, de tabaco, e finas especiarias, são muito harmoniosos.

Concluindo, os RSV Domaine Leroy 1990 e este DRC 1996 foram os melhores do almoço. Logicamente, o RSV 2005 é uma grande promessa!

img_4753potenciais diferentes de safras

A foto abaixo lembra bem duas grandes seleções de futebol como Brasil e Alemanha. Grandes títulos, passados gloriosos, e tradição de longa data. Contudo, em alguns embates na história, acontece um 7×1 da forma mais surpreendente possível. Foi o que aconteceu com este Petrus 1955 que estava perfeito. Não que o La Tâche 1990 não seja um grande vinho e com certeza, tomado isoladamente, arranque suspiros dos mais exigentes amantes do vinho. Mas o fato é que o Petrus fez 5×0 em vinte minutos. Não dava mais para alcançar, acabou o jogo. Que vinho fantástico! com seus aromas de adega úmida, cogumelos, trufas, chocolate, café, e vai por aí  afora. Mais um vinho de curriculum. 

img_4751aqui foi mais ou menos os 7×1, lembram?

O vinho de encerramento depois deste Petrus não poderia ser apenas ótimo. Tinha que ser algo impactante. Eis que chega à mesa um Vintage Port 1966 da tradicionalíssima Casa de Porto Graham, outra maravilha. Como é bom provar um Vintage em sua plenitude com todas as vicissitudes do tempo!

Sabe aquele Porto onde o álcool está totalmente integrado à massa vínica em perfeito equilíbrio!. Pois bem, este vinho tinha tudo isso com taninos totalmente polimerizados e em harmonia com seus outros componentes. Um licor de frutas negras sensacional, especiarias, toques de torrefação lembrando café, chocolate e notas balsâmicas. Acompanhou muito bem o bolo de aniversário com chocolate amargo de um querido confrade de humor peculiar. Vida longa a você meu amigo!

img_4739o auge de um Vintage Port!

Para esticar um pouco mais o papo, Panna Cotta de saída, cafés, e alguns Cohibas de estirpe, o belo Talismán Edición Limitada 2017 Ring 54. Um charuto super elegante do começo ao fim, mantendo como poucos, potência e elegância no mais alto nível.

Alguns Negronis para refrescar porque ninguém é de ferro!

O barquinho vai, a noitinha cai …

E assim mais um encontro memorável com amigos de generosidade extrema, alto astral, desfrutando os prazeres da mesa e vinhos que nos fazem pensar. Agradecimentos a nosso grande Maestro que sempre turbina nossos encontros. Saúde a todos e que Bacco nos proteja!

Remadejo: Algoritmo da Felicidade

13 de Maio de 2018

Bem mais perto do que se imagina, nos arredores de São Paulo, um cenário lindo para uma festa bordalesa com certeza. O anfitrião cuidou de todos os detalhes para que os convivas se sentissem no paraíso de Bacco, Fazenda Remadejo.

IMG_4616.jpgvista de acordo com os vinhos

Na chegada para matar a sede, champagne Perrier-Jouet Belle Epoque 2004, cuvée especial da Maison com um ar de “Meio-dia em Paris”. O blend é composto de partes iguais de Chardonnay e Pinot Noir e uma pitada de Pinot Meunier. Com mais de seis anos sur-lies, os aromas de brioche são enfatizados, mas sem exageros. A leveza, o lado floral e de frutas cítricas, fazem deste champagne uma bebida perfeita para aperitivar. 

a chegada e a recepção

Com a chegada de todos, fomos para a adega do anfitrião checar um Petrus 1997 em Magnum, preparando as papilas. Surpreendentemente, este Petrus estava bem abordável. Normalmente em tenra idade, Petrus se mostra duro e sem muita conversa. Contudo, seus taninos estavam afáveis e seus aromas bem agradáveis, mostrando a grandeza deste mito de Pomerol.  Um lado terroso, sugerindo trufas em seu envelhecimento, além de especiarias e frutas negras como ameixas, por exemplo. Não está na elite dos grandes Petrus, mas é delicioso, equilibrado, e com todas as digitais do Chateau. Robert Parker, 91 pontos com apogeu previsto para 2025. Bela pedida!

227feffa-dcd1-4461-a17c-0bfa322225c6.jpgas boas vindas do encontro

Os tintos começaram arrasadores na mítica safra de 82. Dois 100 pontos e Haut Brion com 95, conforme foto abaixo. Começando pelo Latour, é redundante elogiar este vinho. Segundo Parker, Latour 82 vai mais longe que o 61, sendo este último, um monumento a Pauillac. Enfim, o vinho estava maravilhoso. Taninos finíssimos, o toque aromático de couro fino, e uma persistência aromática incrível. Vai longe em adega. Já os outros dois, bem mais prontos e igualmente espetaculares. Começando pelo Le Pin 82, a melhor safra do chateau, e um dos melhores entre todos os 82, estava uma delicia na boca. Macio, licoroso, lembrando cerejas escuras, traços de chocolate, e um fundo mineral. Taninos totalmente polimerizados, estando no esplendor de sua forma. Um Pomerol de livro. Por fim, Haut Brion, outro margem esquerda de consistência incrível. Sempre um prazer bebe-lo, embora ainda não totalmente pronto. Seus aromas de estábulo, ervas finas, caixa de charuto, são de arrepiar. Boca elegante, equilibrada e um final de rara beleza. Vai mais uns dez aninhos fácil em adega.

IMG_4623.jpga santíssima trindade

Em seguida, mais um trio de tirar o fôlego, de outra safra mítica, 1961. Entretanto, por questões de garrafa, não brilhou tanto como no flight anterior. Com exceção do rei Petrus, os outros dois estavam bem cansados. Petrus 61 está na elite dos grandes da história com 99 pontos. Mesmo esta garrafa, estava um pouco cansada, mas longe de qualquer decadência. Seus aromas terciários eram etéreos, lembrando trufas, adega úmida (não confundir com bouchonné), toques minerais e de manteiga de cacau. Boca harmoniosa e ampla. Um Petrus em seu apogeu, o que não é fácil.

Falando agora do Chateau Mouton Baron Philippe, é um vinhedo colado ao grande Mouton Rothschild. Este Cru Classe se chamava Chateau d´Armailhac na época que foi comprado pelo lendário Baron Rothschild. Entre os anos de 1956 e 1988, o Chateau mudou de nome para Mouton Baron Philippe, voltando após esta data, ao nome original que permanece até hoje, Chateau d´Armailhac. Quanto ao vinho degustado, mesmo em Magnum, era o mais cansado de todos. Tinha um interessante toque de funghi porcini, mas a boca já comprometida, secando o palato e faltando fruta. Na única anotação de Parker, ele dá 91 pontos e diz ter atingido o apogeu em 2003. Acho que ele tem razão …

No último vinho, Pichon 61, é um dos grandes do Chateau em safras antigas, juntamente com o 1945. Parker dá 95 pontos com apogeu previsto para o ano 2000. Portanto, nas boas garrafas é um vinho no auge com muita sorte. Este porém, já viveu melhores momentos. Percebe-se que foi um grande vinho pela elegância  e taninos de rara textura. Contudo, a boca já está seca, faltando fruta, e percebe-se uma acidez dominante, sem integração com o conjunto. Em vinhos antigos, o que vale são as grandes garrafas …

IMG_4624.jpgo campeão no centro do podium 

Fora os bordaleses, outros vinhos abrilhantaram o almoço como este excepcional Madeira abaixo, safra 1928 com a uva Sercial. Esta uva elabora os grandes Madeiras secos, para aperitivos, ou para pratos específicos como patês de caça. Neste caso, acompanhou muito bem uma brandade de bacalhau em cama de massa folhada. Seus toques balsâmicos, de jaca madura, especiarias como cardamomo, e frutas secas, são espetaculares. A boca é harmoniosa e com uma persistência sem fim.

Madeira Old School

Outro ponto alto do almoço, foi o cuscuz preparado por um dos confrades com assessoria de Bella Masano (restaurante Amadeus), úmido e saboroso. Foi devidamente escoltado pelo Montrachet 2005 do Domaine Jacques Prieur. O vinho estava no auge de sua evolução com muita fruta, madeira bem integrada, e o corpo dos grandes Montrachets. Para ter uma ideia da exclusividade dos Montrachets, este é de um vinhedo de 0,59 hectares, quase um jardim. O vinho é fermentado em barricas novas e passa cerca de 21 meses em carvalho, antes de ser engarrafado. Enfim, o modelo clássico do feliz casamento de  Chardonnay e barrica.

Montrachet em seu apogeu

Encerrando o almoço, não teria foto melhor do que esta abaixo. Esses dois monstros já são uma sobremesa. Começando pelo Yquem 1976, ano rasgado no rótulo, é um dos melhores para este Chateau lendário. O vinho nem precisa de um  crème brûlée. Ele em si é o próprio creme. Aromas com todos os tons de caramelo, frutas maduras, toques de café, damascos, entre outros. Boca untuosa, perfeitamente equilibrada, e uma persistência tectônica. Um dos melhores que já provei! e não foram poucos, graças a Deus!

1d032a72-83e0-43c3-bd4a-a1b6d6983258.jpga perfeição em branco e tinto

Agora o que dizer de um Taylor Vintage Port 1963, um ano antológico para Portos. Completamente desenvolvido em seus aromas terciários com uma profusão de chocolates, cacau, frutas escuras confitadas, toques balsâmicos, e uma incrível nota de tâmaras medjool (jumbo). Taninos totalmente polimerizados, sedosos, álcool perfeitamente integrado na massa vínica, e mais uma vez reluta em deixar a boca, numa persistência interminável.

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Além de tudo isso, teve ainda uma brincadeira com o Léoville Las Cases 1986. Esta história fica para o próximo artigo, em detalhes jamais revelados.

d84b533c-88ab-4541-8b00-aed2f11eefc5.jpgEsse é o cara!

Agradecimentos a todos os confrades, em especial ao anfitrião e sua linda família, pela recepção calorosa, sofisticada, e sincera. Que Bacco nos proporcione cenários e encontros como esse. Saúde a todos!

Trinca francesa e um blefe espanhol

6 de Maio de 2018

Como num jogo de cartas, a jogada final ou o blefe faz parte do cenário. Num almoço aparentemente despretensioso, a ideia do Maestro, nome dado carinhosamente a um dos confrades, era lançar 500 pontos na mesa com cinco vinhos irrepreensíveis. Embora tenha havido um acidente de percurso, um Mazis-Chambertin valeu por dois, um vinho de ilha deserta. Nesse jogo de paciência, vamos revelar os segredos pouco a pouco.

1845 garrafas: isso que é exclusividade!

Felizmente, já provei algumas garrafas deste branco maravilhoso de Madame Leroy. Esta garrafa, neste momento com quase 10 anos, está no auge de seu vigor. Bem de acordo com a safra 2009, carente de uma acidez mais presente, o vinho tem uma maciez incrível com final de boca bastante longo. Seus aromas de caju, frutas secas, e lascas de madeira tostada, são absolutamente divinos. Um Corton-Charlemagne de estilo corpulento, batendo de frente com os mais potentes Montrachets.

IMG_4591.jpgmassa recheada com vitela

Para acompanhar esta maravilha, um prato de massa com vitela envolta num molho cremoso e delicado do restaurante Nino Cucina. Na foto acima, dá para perceber que a textura cremosa do molho e seus sabores bem balanceados deram as mãos para este branco fantástico.

adquirido por Maison Leroy

Lembra da ilha deserta!. Pois bem, esse foi o vinho do almoço. Os vinhos do Hospices de Beaune são leiloados anualmente em novembro numa tradição de décadas. Ao longo da história, este hospital secular foi recebendo doações de terras em vinhedos muito bem localizados na Côte d´Or. O Hospices de Beaune tem uma equipe de vignerons e de vinificação que coordena com muita eficiência todo o trabalho artesanal na elaboração dos vinhos.

Este vinho em particular, Mazis-Chambertin Grand Cru Cuvée Madeleine Collignon, é um vinhedo de 1,74 hectare, localizado junto ao Grand Cru Clos de Bèze. Foi um donativo de Jean Collignon em 1976, sendo o nome da cuvée, uma homenagem à sua mãe. As vinhas foram plantadas em 1947 e os rendimentos baixíssimos.

Falar desta garrafa da excepcional safra de 1985 é complicado, mas o vinho estava divino. Madame Leroy não colocaria seu nome em vão. Com seus mais de 30 anos de vida, o vinho está esplendoroso. Uma cor linda de Borgonha envelhecido, sem sinais de decadência. Os aromas terciários de sous-bois, manteiga de cacau, alcaçuz, adega úmida, são de livro. Contudo, seu ponto alto é a boca, a qual normalmente num vinho neste estágio é mais delicada. Ao contrário, o vinho tem um vigor extraordinário, uma densidade sedutora, taninos de longa polimerização, e um final que ecoa em ondas, de grande expansão aromática. Esta começando a faltar dedos na minha mão para eleger os melhores vinhos da minha vida …

Um pouco do Hospices de Beaune

Ao todo, são 60 hectares de vinhas doadas ao longo do tempo, sendo 50 hectares de Pinot Noir. As vinhas têm em média, 34 anos. A maioria dos vinhos, tintos e brancos, são das categorias Premier Cru e Grand Cru. O objetivo é limitar os rendimentos em 30 hl/ha. São produzidas 50 cuvées por ano, sendo 33 para tintos, e 17 para brancos. No ano de 2017, foram vendidas 787 pièces (barricas de 228 litros), sendo 630 de vinho tinto, e 157 de vinho branco.

O blefe

Voltando à história das cartas, eis que surge o mítico Vega-Sicilia 1962, para muitos, o melhor Vega de todos, quase um Borgonha. Contudo, a rolha dava indícios que alguma coisa estava errada. Tanto o rótulo, como sobretudo a rolha, eram muito novos para um vinho desta idade. O re-cork se fosse o caso, não estava mencionado na rolha. E realmente na taça, o vinho decepcionou. Era até um belo vinho, poderia ser um Vega, mas longe de um verdadeiro 62, um tinto de sonhos. Coisas que acontecem …

poderia ser divino …

belo acordo

Mais uma vez, um prato de vitela cozida lentamente acompanhando legumes e batatas, criou sinergia com os tintos mais evoluídos, principalmente o grande Chambertin.

IMG_4596.jpgo mito Jean-Louis Chave

Continuando a saga dos 100 pontos na mesa, a foto acima mostra a cuvée especial do mestre Jean-Louis Chave, senhor dos melhores Hermitages na região escarpada do Rhône-Norte. Sabemos que os Hermitages de Chave primam pela união dos vários lieux-dits da apelação, formando um mosaico complexo e de grande longevidade. No caso da Cuvée Cathelin, a seleção de uvas privilegia o lieu-dit Les Bessards, o mais prestigiado e o que confere mais longevidade ao vinho. Portanto, é um vinho mais encorpado e mais potente, exigindo maiores doses de carvalho novo, o que na Cuvée clássica de Chave é limitada a 20%, no máximo. Esta Cuvée Cathelin começou com safra de 90, a qual provamos mais uma vez, e é so produzida em anos realmente especiais.

Quanto ao vinho, estava maravilhoso e evidentemente ainda muito novo. Os Hermitages têm uma capacidade de envelhecimento em garrafa fora de série. Normalmente, vinte anos eles levam brincando em adega. A cor deste exemplar ainda era escura e de grande vigor. Os aromas entremeavam geleia de frutas como framboesas, lindos toques de alcaçuz, e uma profusão de especiarias. Os toques terciários ainda eram tímidos, confirmando sua enorme longevidade. Enfim, uma Maravilha!

IMG_4599.jpgQual escolher: 89 ou 90?

A pergunta acima é fácil responder: fique com os dois. Esses Montroses de safras seguidas (89 e 90) são perfeitos e merecem os 200 pontos. Por incrível que pareça, este 89 tem mais estrutura e longevidade que o 90, uma safra teoricamente mais longeva. A cor ainda negra deste 89, bem mais escura que a do Cuvée Cathein comentado, vislumbra ainda longos anos de guarda em adega. Seu perfil de frutas escuras (cassis), tabaco, especiarias, cedro, e uma extensa cavalaria (toques animais e de couro), são precisos, intensos, e de uma tipicidade impar. A boca é densa, uma estrutura descomunal de taninos ultra finos, belo equilíbrio, e um final de boca arrasador. Depois dele, só o café e a conta …

Passando a régua, neste jogo de cartas não houve perdedores. Ao contrário, amizades fortalecidas, cumplicidade, generosidade, cada vez mais sedimentadas pela magia do vinho. Saúde a todos !

Clos de Vougeot: a escolha de Babette

3 de Maio de 2018

No inesquecível filme “A festa de Babette”, o tinto escolhido para o lauto banquete foi Clos de Vougeot 1845, acompanhando codorna assada com foie gras e trufas. Vide artigo neste mesmo blog: Menu Harmonizado: A Festa de Babette 

Embora a escolha deste Grand Cru fosse extremamente arriscada, no contexto do filme serviu para marcar e homenagear um dos mais antigos e emblemáticos terroirs da Borgonha. Neste sentido, vamos tentar esmiuçar este vasto território de vinhas com 50 hectares, um verdadeira latifúndio em termos de Borgonha.

clos vougeot carte

parcelas do vinhedo

A história do Clos de Vougeot se confunde com a criação da Abadia de Cîteaux, criada em 1098. O início dos vinhedos datam entre os anos de 1109 e 1115. O vinhedo foi aumentando pouco a pouco e terminado em 1336 com suas divisas muradas. Em 1818, a propriedade foi comprada pelo banqueiro Julien-Jules Ouvrard, dono do Domaine de La Romanée-Conti. O próprio mítico Romanée-Conti foi vinficado em Clos de Vougeot entre os anos de 1819 e 1869. Com a morte de Ouvrard, o vinhedo passou a três herdeiros que posteriormente venderam a propriedade a seis novos donos e daí em diante, a subdivisão em famílias continuou, chegando a cerca de 80 proprietários.

Em 1934 foi criada a La Confrèrie des Chevaliers du Tastevin que anualmente entroniza novos membros no Castelo Clos de Vougeot com um lauto jantar. São cerca de 12000 membros em todo mundo. Seu lema: “Jamais en vain, toujours en vin”, ou seja, jamais em vão, sempre no vinho.

A primeira divisão de parcelas neste vasto Chateau foi feita pelos Monges Cistercienses na Idade Média com três sub-zonas principais:

  • La Partie Haut (parte alta) em torno de 260 metros de altitude, englobando os climats: Musigni, Chioures, Garenne, Grand Maupertius, Plante Labbé, Plante Chamel, Montiottes Hautes, Marei Haut, Petit Maupertuis, Baudes Hautes e Montiotes Hautes. São solos argilo-calcários de natureza pedregosa e escura. Vinhos finos, bem equilibrados e de aromas elegantes. Esta blend foi chamado “Cuvée du Pape”.
  • La Partie Centrale (altura mediana) em torno de 250 metros de altitude, englobando os climats: Dix Journaux, Baudes Saint Martin, Baudes Basses. O solo é pedregoso, mas extremamente argiloso em relação ao calcário. Os vinhos são fortes e muito tânicos. Esse blend foi chamado de “Cuvée du Roi”. 
  • La Partie Basse (parte baixa), abaixo de 250 metros de altitude, englobando os climats: Marei Bas, Montiottes Basses, Quatorze Journaux, Baudes Basses (parte inferior), Baudes Saint Martin (parte inferior). Os solos são aluvionais e de argila densa. Os vinhos são pesados, tânicos, faltando elegância. Este blend foi chamado de “Cuvée des Moines”.

clos vougeot parcellesa divisão atual

Nos dias atuais, quando se fala de Clos de Vougeot, mesmo sendo um vinhedo Grand Cru, perde-se um pouco do rigor borgonhês, no sentido de separar micro parcelas, especificando ao máximo um terroir preciso.

Pelo exposto acima, fica claro que os proprietários da chamada parte alta do vinhedo, com vizinhanças ilustres como Grands-Echezeaux e Musigny, levam vantagem nos fatores solos e exposição do terreno (drenagem e insolação). Mas só isso, não resolve a questão. Existem o estilo e talento do vigneron em procurar expressar o terroir da forma mais fiel possível, sem esquecer do fator safra, que pode ir contra à filosofia do produtor, dependendo das características de cada ano. É sem dúvida, uma equação complexa, mas para minimizar o erro, vamos  a alguns nomes de referência desta zona mais alta do vinhedo:

Domaine Leroy, foto abaixo, com um dos melhores Clos de Vougeot na safra 2002. Com pouco mais um hectare de vinhas, Madame imprime seu estilo ultra elegante, taninos de seda, e um final rico e complexo. O vinho ainda pode ser guardado, mas está delicioso para os mais impacientes. 94 pontos pela média da crítica especializada.

gero clos vougeot 02 e la romanee 00

Leroy atropelou seu concorrente ao lado

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esse estava delicioso e no ponto

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Méo-Camuzet: outra grande referência

Méo-Camuzet, sempre respeitando os ensinamentos do mestre Henri Jayer, faz vinhos divinos além destes, como o espetacular Richebourg. Vinhedos perto do Castelo.

Outros no mesmo nível, Domaine Anne Gros, Engel, Domaine de La Vougeraie, Domaine Gros Frère & Souer, todos na parte superior do vinhedo.

Chateau de La Tour é o maior produtor (5,48 ha), localizado no setor mediano do vinhedo. O que vale realmente a pena é sua Cuvée Vieilles Vignes. Maison Joseph Drouhin é sempre confiável também.

Nos setores mais baixos, Domaine Grivot e Domaine Jacques Prieur, fazem a diferença na condução das vinhas e vinificação precisa.

Enfim, algumas referências precisas, de acordo com os maiores especialistas no assunto. É claro que gosto pessoal também conta. Por isso, a omissão de mais alguns Domaines fica a cargo da preferência e experiência de cada um.

Além deste vasto Grand Cru, Vougeot possui outras apelações Premier Cru e Village. Olhando no mapa, todas elas ficam adjacentes no muro a Leste, à direita, do Grand Cru. Os Premiers Crus estão nos Lieux-Dits: Clos de La Perrière, Le Cras, Les Petites Vougeots, para tintos, principalmente. Clos Blanc e Le Clos Blanc, para os brancos. E o Vougeot Village tintos e brancos.

Vosne-Montrachet entre Hashis

22 de Abril de 2018

Provar um Montrachet é sempre um momento de contemplação. Afinal, estamos falando de um dos melhores brancos do mundo, se não for o melhor para muitos entendidos. Agora, fazer uma vertical de Montrachet do Domaine Comte Lafon, uma das referências nesta diminuta apelação de aproximadamente oito hectares de vinhas, é um privilégio para poucos.

montrachet lafonbem ao lado das vinhas DRC

Alguns dados traduzem a exclusividade deste momento. Sabe quando o camarada compra aquele lote de 3200 m² para fazer sua casa de lazer. Pois bem, essa é a área das vinhas Montrachet do Comte Lafon. Essas vinhas foram plantadas em 1953 (80%) e 1972 (20%). Seus rendimentos ficam entre 20 e 35 hl/ha. O vinho é fermentado em barricas com bâtonnage (revolvimento das borras) e amadurece entre 18 e 22 meses em barricas também.

187ba657-7a40-4cdb-a249-2652291d2d30.jpgapelação Vosne-Montrachet

Feitas as considerações iniciais, vamos aos vinhos e suas combinações à mesa. Quanto aos três La Tache, serão devidamente comentados em seguida.

IMG_4511.jpgsafras de extremo didatismo

Começando pelo Montrachet 2009, estava num momento ótimo para ser abatido. Cheio de fruta, toques tostados, caramelo, especiarias, e aquela textura macia típica dos Lafons. Sem qualquer sinal de oxidação, este exemplar muito bem conservado, mostra a exuberância da safra 2009 com frutas em profusão. Temo em guarda-lo por mais tempo, pois sua acidez está no limite, sendo este fator de extrema importância para sua longevidade. Foi o preferido para vários dos confrades. Já 2010, outra safra de extremo didatismo. Ela segue o perfil de 2009 no sentido de se mostrar sem rodeios, mas seu equilíbrio é mais harmônico com uma acidez mais vibrante. Evoluiu muito bem na taça, e mostra que pode caminhar por mais tempo em adega. Notas 96 e 97, respectivamente.

um festival de sushis

A fota acima retrata bem os ótimos sushis do restaurante Ryo. Com os Montrachets acima, safras 2009 e 2010, combinaram bem, sobretudo em termos de texturas. O lado adocicado do prato foi de encontro com a riqueza de fruta dos vinhos.

IMG_4512.jpgsafras mais contidas

Num estilo oposto a 2009 e 2010, as safras 2011 e 2013 são mais contidas. Possuem bela acidez e uma mineralidade mais destacada. De início, mostraram-se muito redutivas no aroma onde em seguida, pouco a pouco os mesmos foram se revelando. O grande pecado é que apresentam persistência aromática não muito longa, faltando um pouco de meio de boca. No geral a safra 2013 é levemente superior com deliciosos aromas de pitanga. A longevidade de ambas é um ponto de interrogação, mas aparentemente apresentam acidez para tanto. Notas 93 e 95, respectivamente.

mais hashi em ação

As duas safras acima, 2011 e 2013, de textura mais delgada e acidez mais aguda, foram bem com os pratos de sashimi e sobretudo as vieiras frescas com gelatina de tomate, um dos melhores pratos do menu. Aqui a maresia e frescor dos pescados deram as mãos com a mineralidade e acidez dos vinhos.

IMG_4513.jpgbeirando a perfeição

Pessoalmente, o melhor Montrachet do painel, embora esteja longe de estar pronto. Para beber agora, o 2009 é encantador. Voltando ao 2012, um vinho cheio de mineralidade, bela acidez, toques cítricos no aroma e uma gostosa salinidade em boca. Sua persistência aromática é expansiva e notável. Deve evoluir bem em adega. Sua longevidade pode estender-se até 2040. Talvez um pouco exagerada. Sua nota é 98 pontos.

IMG_4506.jpga escolha de Sofia …

Como se não bastasse essa cascata de Montrachets, entramos em outro terroir sagrado, Vosne-Romanée com sua Majestade, La Tache. O quadro acima revela dois La Taches excepcionais, cada qual em seu estilo e momento de evolução. O de safra 1985 é uma poesia liquida com todos os aromas terciários nobres que um vinho deste naipe pode entregar. Logo ao ser aberto, emergiu um aroma curado de Pata Negra, quase um Joselito, o melhor ramon espanhol. Devidamente decantado, os aromas de trufas, sous-bois, licor de cereja, chá, e flores secas foram perfumando as taças. Boca harmoniosa, precisa em seus componentes bem equilibrados, culminando num final muito bem acabado. Está no momento exato para ser apreciado, embora sem sinais de qualquer indicio de decadência. Deixando a emoção de lado, numa análise técnica isenta, falta um pouco de corpo e persistência para entrar na galeria dos La Taches perfeitos, mas é essa nobreza de aromas que faz deste vinho, independente da safra, um dos melhores vinhedos sobre a terra (Hugh Johnson). Nota 91 Parker. Eu daria entre 93 e 95 …

O La Tache 1991, safra um tanto desdenhada, é um dos La Taches históricos. O próprio Aubert de Villaine o prefere ao mítico 1990. A diferença de idade de seis anos para o La Tache 85 é desproporcional em termos de evolução. Enquanto o 85 está plenamente formado, o 91 ainda é um adolescente. Tem um estrutura monumental de taninos. Os aromas já estão encantadores com notas de cerejas escuras, minerais, alcaçuz e um delicioso chocolate amargo (cacau). Outro aroma que pouca gente entende é o aroma de carne fresca, nítido neste vinho. Da próxima vez que entrar num açougue, sinta este tipo de aroma. Em boca, falta muito a ser lapidado, mas quando o tempo se encarregar desta lenta tarefa, estaremos diante de um vinho grandioso. Previsão para 2040. Nota 97 com louvor.

os pratos de carne

Os pratos de carne, carne de porco ultra macia num caldo de sabor delicado para os aromas terciários dos vinho, e a delicada textura de língua numa farofinha crocante, complementaram muito bem a nobreza destes dois grandes vinhos.

IMG_4532.jpgo infanticídio de dia

Não se deve abrir um La Tache e outros vinhos DRC antes de vinte anos. A prova está na foto acima, deste belo 96. Um vinho que já tem seus encantos, mas tem muito a entregar ainda. Não tem a estrutura e longevidade do excepcional 91, mas tem acidez e taninos finos para evoluir com propriedade. Os aromas de cerejas, alcaçuz e especiarias, se destacam neste momento. Deve ser imperativamente decantado por duas horas, permitindo assim, uma melhor harmonia em boca. Nota entre 94 e 97 pontos num dos estilos mais elegantes de La Tache, se contrapondo ao potente 91.

O que mais dizer depois de um almoço desses, onde brancos e tintos foram exponenciados ao limite. Apenas agradecer a companhia e generosidade dos confrades, desejando-lhes vida longa regada aos sabores de Bacco. Saúde a todos!

Echezeaux em parcelas

19 de Abril de 2018

A extensão de vinhedos na Borgonha é sempre minimalista, sobretudo quando se trata de vinhedos na categoria Grand Cru. Duas exceções clássicas e de conformação semelhante são Clos de Vougeot e Echezeaux com vinhedos quase contíguos.

A palavra Echezeaux significa conjunto de vilas, de comunas. Na verdade, são onze climats que compõem este vinhedo com mais de 35 hectares de vinhas. Tudo gira em torno de outro Grand Cru de características semelhantes, mas de maior prestígio e menor área, Grands-Echezeaux. Em torno deste Grand Cru, as onze parcelas se acomodam a oeste, e sobretudo a norte subindo a colina dos Grands Crus.

flagey echezeaux 2

comuna espremida na Côte de Nuits

Os Grands Crus Echezeaux e Grands-Echezeaux pertencem a comuna de Flagey-Echezeaux, espremida entre as comunas de Vosne-Romanée, Vougeot, e Chambolle-Musigny, conforme mapa acima. Na prática, Flagey-Echezeaux é absorvida pela badalada comuna de Vosne-Romanée, ganhando assim esta última, mais dois Grands Crus.

Feitas as considerações iniciais, Echezeaux apresenta um terroir complexo e sobretudo heterogêneo. Some-se a isso, cerca de 80 produtores, cada qual com seu estilo e conceito de vinho, e a solução desta equação torna-se de difícil conclusão. Partindo do Echezeaux do Domaine de La Romanée-Conti (DRC), teoricamente o mais reputado e de maior concentração, vê-se claramente numa degustação horizontal DRC com seus seis maravilhosos Grands Crus, que Echezeaux está um degrau abaixo em termos de concentração e complexidade. E olha que estamos falando no que há de melhor em Echezeaux e Grands-Echezeaux. No caso do Echezeaux DRC, trata-se de uma das melhores parcelas deste vasto vinhedo (parcela 2), bem próximo da face norte de Grands-Echezeaux. O mapa abaixo, elucida as considerações acima.

flagey echezeaux parcelas11 parcelas do Grand Cru Echezeaux

  1. Echezeaux du Dessus
  2. Les Poulailléres
  3. En Orveau
  4. Les Champs Traversins
  5. Les Rouges du Bas
  6. Les Beaux Monts Bas
  7. Les Loächausses
  8. Les Cruots ou Vignes Blanches
  9. Clos St Denis
  10. Les Treux
  11. Les Quartieres de Nuits

Teoricamente, a parcela 1 de nome Echezeaux du Dessus, é a parcela original do vinhedo Grand Cru Echezeaux e de grande reputação. Esta parcela 1 é atualmente dividida em sete proprietários entre os quais, a família Jayer, Cecile Tremblay e Michel Noellat, são os mais importantes.

Na parcela 2, Les Poulailléres, praticamente um monopole do DRC, é outra comuna de grande prestígio. Nessas parcelas 1 e 2, o solo de marga tem uma proporção maior de argila, gerando vinhos mais encorpados e de grande concentração.

A parcela 7, Les Loächausses, é também de ótima reputação tendo como proprietários Anne Gros e Gros Frères. Já na parcela 8, Vignes Blanches, o solo mais calcário e arenoso, tendem a elaborar vinhos mais sutis, bem aos moldes do mestre Henry Jayer. Neste caso, o homem se sobrepõe aos outros elementos do terroir.

Atualmente, Domaine Liger-Belair está em ascensão, tornando-se a bola da vez. Suas vinhas em Echezeaux com pouco mais de meio hectare, é dividida entre as parcelas 4 e 8, Vignes Blanches e Champs Traversins, respectivamente. Apesar de solos com boa proporção de calcário, dando elegância ao conjunto, o grande trunfo do produtor são vinhas muito antigas, ao redor de 65 anos.

ad4038c9-7ccc-4c5a-bf97-112f6247f771.jpgHenri Jayer: a pefeição na apelação

Aqui na foto acima, a conjunção é perfeita. Grande produtor numa bela safra. Toda a delicadeza de um grande Echezeaux com enorme profundidade. Já no seu Cros Parantoux, um Premier Cru de rara delicadeza, Henri Jayer mostra todo seu talento num tinto excepcional. Pena que Madame Leroy em seu Domaine não possua uma parcelinha neste terroir. Certamente, faria um estrago …

o que há de melhor nestas apelações

A diferença de um Echezeaux para um Grands-Echezeaux nos vinhos DRC é marcante. Com o mesmo estilo de vinificação, o Grands-Echezeaux mostra-se duro na juventude, vislumbrando uma lenta e gradual evolução. Por outro lado, Echezeaux é o vinho mais acessível. Sedutor mesmo jovem, é um vinho de grande profundidade.

IMG_4487.jpgos indícios de uma grande promessa

Liger-Belair aposta no time de Jayer ou mais “terrenamente” em tintos de Leroy. Cabe ao tempo dizer se esta promessa revelará a profundidade e delicadeza deste nobre terroir. Importadora Mistral.

echezeaux confuron cotetidot

Por fim, os vinhos do Domaine Confuron-Cotetidot trazidos pela importadora Decanter com algumas garrafas ainda na importadora Cellar, especialmente Echezeaux, objeto de nosso artigo, mostra o estilo tradicional e concentrado com vinificação entiére (uvas com engaço). Vinhos de grande concentração e profundidade. São 0,45 hectares de vinhas localizadas na parcela 10 (Les Treuxs), vide mapa acima, colada a oeste de Grands-Echezeaux.

Na Borgonha, produtor, vinhedo e safra, são fundamentais para o sucesso de uma garrafa. Nos Grands Crus Clos de Vougeot e Echezeaux, os cuidados são redobrados. Na verdade são muitos vinhedos individuais que não poderiam ser padronizados numa única apelação. Exceções que fogem aos conceitos habituais deste terroir tão complexo como a Borgonha.

 

Hits da Borgonha

16 de Abril de 2018

Vez por outra, é bom dar um passeio pela Borgonha buscando comunas distintas em épocas onde o glamour do vinho tinha um sentido mais romântico e filosófico do que os atuais dias onde o marketing e a especulação imperam num dos terroirs mais fascinantes da França. Foi com esses propósito, que um grupo de amigos reuniu-se na Trattoria Fasano num belo almoço outonal. 

Old School

Diferentemente de champagne ou vinho branco, iniciamos os trabalhos com um aperitivo distinto, um Charmes-Chambertin 1964 da velha guarda da Borgonha. Notem no rótulo abaixo, que não há menção Grand Cru. Nesta época, Charmes-Chambertin como Lieu-Dit (território consagrado) era mais relevante para os conhecedores. É um vinho muito mais de alma que de corpo. Seus aromas etéreos com notas de chá, manteiga de cacau e sous-bois, além das sutilezas em boca, nos leva a outros tempos …

IMG_4478.jpgsafra 1964: sabor nostálgico

Descendo mais um pouquinho no tempo, chegamos a mítica safra de 1959, minha safra também, para nos deliciarmos com toda a energia deste Pommard Village sem identificação do vinhedo. Aparentemente sem pedigree, o vinho é de uma força extraordinária, justificando sua fama de Barolo da Borgonha. Com seus quase 60 anos, tem sua rusticidade domada pelo tempo com aromas terciários fantásticos. Sem sinais de declínio. 

1959, uma das safras históricas

Deixando de lado a nostalgia, vamos para 1997 na comuna de Volnay, sabidamente de tintos delicados, exceto por este produtor, Domaine Marquis d´Angerville. Sobretudo em seu grande tinto, o monopole Clos des Ducs do século XVI de pouco mais de dois hectares, mostra extrema virilidade, taninos bastante firmes, aromas recatados, dando indícios de sua longa guarda. Este provado da safra 1997, mostra-se ainda muito jovem, necessitando de decantação. Seus aromas um tanto tímidos mostra um lado sanguíneo, notas de alcatrão, e frutas escuras. Sua incrível acidez e estrutura tânica o permitirão vencer décadas de lenta polimerização, liberando seu bouquet.

IMG_4482.jpgum tinto para envelhecer

O outro grande nome da comuna de Volnay é Domaine Lafarge, de estilo mais feminino e elegante, mas igualmente complexo e sedutor. Seu monopole Clos des Chenes 1999 provado há anos, ainda está na memória …

DRC Romanée-St-Vivant em dois tempos

Entrando no terroir sagrado de Vosne-Romanée, um dos meus DRCs preferidos, Romanée-St-Vivant. É sempre um vinho vibrante, gracioso, sem muita timidez. A safra 1995 da foto abaixo, mostra já um vinho delicioso em sua maioridade, mas com muita vida pela frente. Taninos firmes e polidos, aromas de cerejas negras, especiarias, toques balsâmicos, e uma boca harmoniosa. Aqui não há vinhos comuns …

diferentes momentos de evolução

Agora para tudo, sua majestade Romanée-St-Vivant DRC 1978 entra em cena. Um dos cinco melhores Borgonhas que já provei numa safra mítica da região. Esta garrafa estava incrivelmente jovem comparada a outras degustadas. Um vinho praticamente imortal, com uma energia e vivacidade ímpares. Suas notas de cerejas negras, rosas, especiarias delicadas, toques balsâmicos, são de um riqueza e harmonia absolutas. Impossível não ser seduzido por todo este encantamento. Aquela garrafa da ilha deserta …

IMG_4487.jpgum bebê engatinhando

Ainda em Vosne-Romanée, um pequeno infanticídio com a criança acima, um Echezeaux Liger-Belair da ótima safra 2015. Um vinho elegante, muito bem equilibrado e com ótima riqueza de fruta. Vide, foto acima.

flagey echezeaux

uma comuna que se confunde com Vosne-Romanée

O mapa acima tenta ilustrar a complexidade deste terroir chamado Echezeaux com área em torno de 37 hectares. É um pouco menor do que Clos de Vougeot, Grand Cru com 50 hectares de vinhas. Nos dois casos, cerca de 80 produtores disputam espaço e imprimem por conseguinte seu estilo de vinho. Portanto, uma comuna com vinhos bastante heterogêneos. 

A rigor, os Grands Crus Echezeaux e Grands-Echezeaux pertencem à comuna de Flagey-Echezeaux conforme mapa acima, e frequentemente confundida e englobada na badalada comuna de Vosne-Romanée. Em termos de terroir, existem 11 diferentes Climats em torno de Grands-Echezeaux formando o mosaico chamado Echezeaux. Em linhas gerais, os climats adjacentes a Grands-Echezeaux de solo mais argiloso, mostram vinhos mais robustos e concentrados. Não é por acaso, que as vinhas DRC para esta apelação estão concentradas nesta porção de terreno, sobretudo no climat Les Poulaillères. Já Liger-Belair, objeto de nosso tinto degustado, possui vinhas nos climats Les Crouts e Les Champs Traversins, de solo mais arenoso e menos argiloso. Isso proporciona vinhos mais leves e elegantes. Seu grande diferencial, são vinhas muito antigas, em torno de 65 anos. Daí se explica a delicadeza de seus vinhos.

IMG_4484.jpgfettuccini com cogumelos e molho rôti

Um dos pratos de grande sucesso do almoço na Trattoria Fasano foi o Fettuccini com cogumelos e molho rôti. A textura da massa estava perfeita para a densidade dos borgonhas, além dos aromas e sabores do prato instigarem o aspecto de evolução desses vinhos baseados em sous-bois e algo terroso.

IMG_4490.jpgum vinho enigmático

Por fim, um dos tintos mais enigmáticos da Côte de Nuits, Clos de Tart, monopole histórico da comuna de Morey-St-Denis. Seu rótulo sóbrio traz o peso de sua história e tradição. Um vinho sempre muito difícil de se mostrar, pedindo tempo ao tempo, mas de uma riqueza impressionante, incitando o degustador a tentar revelar seus segredos. O vinho é muito equilibrado, muito estruturado em todos seus componentes, mas ainda a ser lapidado. Esse seu mistério e relutância em não se revelar por completo me remete de alguma forma ao mítico Romanée-Conti. Sempre um privilégio prova-lo. 

bolivarianos em ação

Finalizando a conversa, nada como uma sessão espiritual, Puros e Cognacs. A seleção ficou a cargo da Casa Bolivar, uma das mais tradicionais marcas cubanas conhecida por sua destacada fortaleza em aromas e sabores. No caso, um duplo figurado lembrando um concorrente à altura, Partagas Salomones. Além disso, uma bitola exclusiva de nome Geniales com ring 54 de ótimo fluxo completou o deleite.

IMG_4493.jpgencontro espiritual

Essa garrafinha dentilhada de  Baccarat quando entra em cena, não há espaço para a concorrência. Cognac Louis XIII, a excelência desta apelação francesa, primando pelo extremo cuidado na seleção e envelhecimento dos melhores cognacs da Maison Remy Martin. Personalidade, força, em perfeita harmonia com a elegância e delicadeza de um verdadeiro néctar.

O que mais dizer, senão agradecer aos amigos pela companhia, bom papo, e alto astral. Que Bacco nos proteja em busca de novas orgias. Abraço a todos!

 

 

Magnânimos à Mesa

24 de Março de 2018

As grandes pessoas que se tornam grandes profissionais, grandes amigos, grandes chefes de família no sentido mais nobre do termo, são talhadas pelo tempo, tempo esse que envelhece, mas sobretudo enobrece, superando todas as expectativas, por mais otimistas e tendenciosas que elas sejam. O berço, a origem, a formação, as boas diretrizes sugeridas, o exemplo daqueles que as orientam nos primeiros passos da vida, formam o esteio desta magnânima caminhada.

Eu sei que o assunto é vinho, mas este preâmbulo tem muito a ver com a pessoa homenageada neste almoço, um grande amigo de todos os confrades e um profissional da Saúde exemplar. Os vinhos do encontro que serão descritos têm na sua concepção os pré-requisitos desta pessoa fundamentados na origem da nobreza e na longa viagem do tempo para eterniza-los.

Toda vez que falamos da ação do tempo sobre o vinho, é sempre um fato cercado de mistérios e dúvidas. Quanto tempo para atingir a plenitude? Essa plenitude tem platô amplo? qual o melhor momento para apreciar um grande vinho?

Neste almoço, tivemos a oportunidade de rever esses conceitos de longevidade, de nobreza, e da ação do tempo moldando e permitindo a magia da vida. Isso posto, dois grandes terroirs incontestáveis à mesa, o branco Grand Cru Chevalier-Montrachet Domaine Leflaive, o melhor dos Chevaliers,  e Chateau Latour, Premier Grand Cru Classé de margem esquerda, o senhor do Médoc.

IMG_4416.jpgreferência absoluta da apelação

Na foto acima, temos duas excelentes safras de Madame Leflaive, 1996 e 2005, quase uma década de evolução. Servidos nas taças, lado a lado, percebemos claramente a ação do tempo em duas safras distintas, mas que têm o mesmo potencial e esplendor para se agigantarem no tempo. Estamos falando de avaliações em torno de 95 pontos.

O Chevalier-Montrachet 96 encontra-se esplendoroso, aromas complexos e multifacetados. Boca harmoniosa, acidez presente apenas para manter a vivacidade do conjunto, dando campo para a maciez, e reverberando sabores e aromas de grande expansão. Pode ser que ainda evolua, mas certamente já está delicioso e com amplo platô de estabilização, sem nenhum sinal de fragilidade. Já o 2005, tem uma acidez vibrante, própria dos grandes vinhos jovens. Percebe-se claramente seu extrato, seu imenso potencial, mas falta-lhe ainda integração, amadurecimento, encaixe de peças, que  só o tempo é capaz de molda-lo à perfeição. É bom enfatizar, que o 96 trata-se de uma garrafa magnum, sabidamente um formato que privilegia os bons anos em adega. Aliás, está garrafa estava impecável. 

IMG_4417.jpgnobreza da margem esquerda

Passando agora aos tintos, a ação do tempo fica mais emocionante ainda. Provar um Chateau Margaux 1959, felizmente minha safra, é sempre algo emocionante, independente de análises técnicas, geralmente muito frias. O ano de 1959 foi  grande em Bordeaux com muitos chateaux ratificando a bela safra. Particularmente para o Chateau Margaux, não foi uma safra histórica. Contudo, o vinho estava magnânimo e sobretudo íntegro, uma grande garrafa. Uma poesia liquida, aromas etéreos recordando tabaco, torrefação, notas de sous-bois, e uma fruta delicada mostrando sua vivacidade. Boca macia, de médio corpo, mas muito bem resolvida com taninos absolutamente polimerizados. Certamente, o melhor Margaux 1959 já provado. Nas palavras do filósofo Friedrich Engels, um momento de felicidade!

Por fim, um duplamente magnânimo, Chateau Latour 1982 em double magnum. Pensa num vinho perfeito, que ainda assim não está pronto, mas é delicioso. Evidentemente, o formato da garrafa tem seu peso na integridade e pouca evolução deste monstro do Médoc chamado Latour. É incrível como um vinho com 36 anos de vida encontra-se jovem, vibrante, com uma estrutura de taninos portentosa, e um equilíbrio sem igual. As cores abaixo falam por si.

a lenta ação do tempo

A foto à esquerda, trata-se do Margaux 59, um vinho apaixonante, pronto e pleno. A foto à direita, é o incrível Latour 82, quase sem sinais de evolução. Escolher o melhor do todos os Latours ao longo de sua rica história é uma tarefa insana, tal a regularidade deste chateau e os vários anos em que foi sempre esplendoroso. Deixando esta missão para Parker, o mais rigoroso crítico de Bordeaux, na sua lista de prioridade, aparece o 1982 no topo da relação, superando inclusive o majestoso Latour 1961. Na última previsão de Parker, o Latour 82 atingirá o apogeu em 2059. Sem querer contradize-lo, pelo que foi provado neste double magnum, a data sugerida tem toda a coerência.

O vinho tem a força de um trapezista com a delicadeza de um bailarino. Potência e elegância se integram numa forma sublime, onde todos os componentes estão perfeitamente integrados. O que realmente garante esta incrível longevidade são seus taninos absolutamente perfeitos, numerosos, de uma textura ímpar. Seus aromas terciários são divinos com as notas de cassis, couro do mais fino acabamento, uma torrefação maravilhosa, e outros mistérios a serem revelados. Para ser apreciado no momento, este Latour 82 deve ser decantado por três horas antes do serviço. Um vinho para heróis!

IMG_4413.jpgBela Sintra: o clássico arroz de pato

Encerrando as considerações, o clássico arroz de pato do restaurante Bela Sintra, acompanhou bem os tintos bordaleses. Numa harmonização mais regional, os tintos durienses fazem boa parceria. Barca Velha ou Reserva Ferreirinha devidamente envelhecidos são pedidas excelentes.

Vida longa aos confrades, especialmente ao homenageado, que certamente terá seu apogeu na mesma previsão do Latour 82. Afinal, nobreza e longevidade são para poucos. Abraço a todos!


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