Archive for the ‘Bordeaux’ Category

Syrah e Merlot: Sublimação de Terroirs

29 de Janeiro de 2017

As apelações francesas procuram espelhar a força de seus respectivos terroirs nos vários produtores que formam cada pequena região. E é exatamente a interpretação magnífica de determinados terroirs  que faz a distinção dos grandes produtores, verdadeiras referências, no sentido de procurarem a perfeição e a essência de uma pequena porção de terreno. Neste contexto, o produtor de Hermitage Paul Joboulet com sua cuvée La Chapelle e Le Pin, um ícone de Pomerol, sublimam as uvas Syrah e Merlot, respectivamente. Foi o que aconteceu numa bela degustação mostrando essas maravilhas.

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a imponente montanha de Hermitage

A paisagem lembra um pouco o Douro, terroir português para o inigualável Vinho do Porto. De fato, o subsolo também é granítico, um monolítico esculpido de forma magistral pela natureza. O esquema abaixo, setoriza as várias parcelas da montanha. Hermitage tem um conceito muito particular de terroir, onde a junção das várias parcelas é capaz de produzir um vinho mais complexo e longevo, ao contrário da noção comumente adotada de parcelas individualizadas, ou seja, os melhores Hermitages não são os de vinhedos, e sim os clássicos.

La Chapelle

O segredo deste grande ícone é o domaine Paul Jaboulet trabalhar com vinhas antigas (entre 40 e 60 anos), gerando mostos com rendimentos baixíssimos (entre 10 e 18 hectolitros por hectare). Além disso, o pulo do gato é a mescla judiciosa de seus vários terroirs, conferindo ao vinho uma complexidade ímpar. No caso, são quatro lieux-dits: Les Bessardes, Les Greffieux, Le Méal, e Les Roucoles.

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as várias parcelas da montanha

Les Bessards: confere estrutura e capacidade de envelhecimento com seu solo granítico

Le Méal: confere elegância e complexidade com solos de traços calcários, pedras e sílica

Les Greffieux: confere corpo e elegância com solos aluviais e argilosos

Les Roucoles: terroir mais para brancos com presença de argila e loess, conferindo graça e suavidade

O vinho repousa entre 15 e 18 meses em madeira para depois envelhecer em garrafas por décadas. Este é um dos poucos casos em que vale a  velha máxima: “quanto mais velho, melhor”.

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20 anos os separam, uma viagem no tempo

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esquerda (70) e direita (90)

Difícil descrever em palavras um La Chapelle maduro, com seus aromas terciários já desenvolvidos e seus massivos taninos devidamente domados. Degustados em taças Zalto, a diferença sutil de cor entre as safras acima mostra bem a lenta evolução deste vinho. A safra 1970 pode não ser perfeita, mas com seus 47 anos de evolução encontra-se deliciosa para ser provada e num platô amplo de estabilização. A cor, embora um pouco clara, menos preenchida no centro da taça, não denota sua idade. Os aromas são de uma elegância e refinamento ímpares, persistentes, sem ser impositivos. Vai das frutas escuras, couro, chocolate, especiarias delicadas e um toque defumado bem sutil. Em boca, aquela montanha de taninos domada, integrando-se perfeitamente ao corpo. O equilíbrio de álcool e acidez são notáveis, culminando numa persistência aromática expansiva. Acho que neste ano não há vinho que possa ofuscar-lhe. Perdão, lembrei agora do grande Vega-Sicília 70 …

Já o 1990 ainda é um “monstrinho”, tal a pujança em boca. Este vai chegar fácil aos 47 anos e com certeza, com mais vigor ainda. Os aromas demoraram um pouco a chegar, já que sabemos que a casta Syrah é extremamente redutiva, necessitando de decantação. O perfil aromático, seu DNA, é muito semelhante ao anterior, mas ainda tímido. Coisas que só o tempo resolve. Potente em boca, taninos em abundância e ultra finos. Enfim, pode-se degustar agora com paciência e decantação, mas ainda tem chão pela frente.

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um Pomerol de garagem

Acima, outro dupla de respeito. Como os grandes Bordeaux se impõem em qualquer situação!. Mesmo diante de um Hermitage do quilate do La Chapelle, mostrou corpo e profundidade para não se intimidar. Le Pin é um dos grandes concorrentes do todo poderoso Petrus, inclusive nos preços. Contudo, normalmente tem a vantagem de ser mais abordável, mesmo na juventude.

Sua história é recente, sendo a primeira safra em 1979. São apenas 2,7 hectares produzindo em torno de 500 caixas por colheita com uvas 100% Merlot. Assim como o Sassicaia foi o pioneiro para os Supertoscanos, Le Pin inaugurou o termo “Vin de Garage”, pequenas partidas de vinho feitas num espaço reduzido de microprodução.

O primeiro ponto que chama atenção nas duas safras provadas é o discreto nível de álcool de 12,5° graus, bem abaixo do que estamos acostumados para tintos de corpo. Aqui, vale mais as características de cada uma das safras, já que a diferença entre ambas é de apenas um ano. A safra 89 é bem pontuada e de características muito mais precoces, sendo acessível mesmo jovem. Fruta deliciosa, macio, taninos bem moldados com final longo e harmônico.

A safra 90 é mais estruturada, com alguns segredos ainda a revelar. Seus taninos são mais presentes e abundantes. Evoluiu muito e bem na taça com o passar do tempo. Além da fruta lembrando ameixas, as notas de chocolate, couro e toques balsâmicos completaram seu leque aromático. Em boca, percebe-se a potência e qualidade da safra. Taninos de fina textura, muito equilibrado, e um final longo e expansivo.


Antes dos tintos, dois brancos para aguçar o paladar. Uma novidade em Champagne de produção minúscula. Não há nada melhor para iniciar uma refeição, se não um cremoso Blanc de Blancs. Em seguida, um Corton-Charlemagne de rara beleza, o exclusivíssimo Coche-Dury.

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o refinamento de uma apelação

Falar de Coche-Dury é falar em refinamento, exclusividade, requinte. Um domaine irrepreensível com vinhos de sonhos. Seus destaques são os disputadíssimos Meursaults, sempre muito bem cotados. Entretanto, ele faz também uma produção minúscula de Grand Cru Corton-Charlemagne, apenas um terço de hectare (0,33 ha) com vinhas plantadas em 1960. Na safra 2012 (foto acima) foram produzidas apenas 1800 garrafas numeradas.

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bela combinação com sushi de papada de porco

O vinho ainda jovem, praticamente um infanticídio, tem um cor linda, brilhante e muito clara. Os aromas são bem minerais, madeira sutil, refinada, um toque floral, indo na linha de um Puligny-Montrachet. Em boca, os Cortons sempre lembram os grandes Chablis, estilo Les Clos, mais encorpados, embora sem a mesma textura da turma lá de baixo da família dos Montrachets. Equilíbrio fantástico. Nada sobra, nada falta. Final longo e muito agradável.

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delicadeza e elegância

O rótulo acima lembra Selosse, mas seu estilo é de um champagne fresco e vibrante. Michel Fallon é um discípulo de Selosse no sentido de engarrafar sua própria e minúscula produção, apenas 850 garrafas por ano. A cuvée Ozanne é uma referência a um antigo nome da comuna de Avize, uma das mais prestigiada da Côte des Blancs.

Trata-se de um Chardonnay fermentado em barricas como vinho-base. O contato sur lies após a segunda fermentação é de pelo menos três anos. Um champagne vívido, perlage abundante e muito fino. Os aromas cítricos predominam entrelaçados com ervas frescas, damasco e um toque de levedura. Jamais a madeira interfere. A mousse é sensacional com a delicadeza de um autêntico Blanc de Blancs.

Começamos bem 2017. Abraço aos amigos que compartilharam e proporcionaram esses momentos com vinhos espetaculares e de um didatismo único. Aos que faltaram, atenção! Condução coercitiva para o próximo encontro.

Brancos e Tintos à Mesa

19 de Janeiro de 2017

Continuando na enogastronomia, tema recorrente deste blog, mais algumas harmonizações testadas com vinhos interessantes e pratos ecléticos.

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grande Mosela

Eis um grande Riesling do Mosel do excelente produtor Grans-Fassian. Esse vem do médio Mosel da sub-região de Piesport do vinhedo Goldtröpchen. Terroir escarpado, rico em ardósia. Spätlese é a categoria de açúcar imediatamente acima de kabinett. Leve docura com uma acidez fenomenal. Persistente, rico em flores, cítricos e minerais. Acompanha muito bem patês de porco e de aves. Desta feita, acompanhou uma salada de folhas, aspargos e camarões. Dominou um pouco a cena, sem comprometer a harmonização.

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Vitovska: uva exótica da Eslovênia

Marko Fon é o grande produtor da Eslovênia na região do Carso, terroir montanhoso rico em calcário. Vitovska é uma uva nascida do cruzamento da Malvasia Bianca com a Glera (uva do Prosecco). É um vinho laranja com maceração das cascas não tão intensa. O vinho é muito aromático, rico em damascos e cítricos com incrível mineralidade. Muito equilibrado, acompanhou bem um ravióli de queijos defumados, ervas e presunto parma. Tem corpo e estrutura para prato ainda mais condimentados. Os dois brancos citados são da Decanter (www.decanter.com.br).

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belo par harmonizado

Se você quer um Sauternes relativamente “simples”, Haut-Bergeron é a pedida certa importado pela Cellar (www.cellar-af.com.br). Por um preço muito razoável, temos toda a tipicidade da apelação com muito equilíbrio e complexidade surpreendente. Acompanhou muito bem os dois folhados acima, um de pera, outro de maçã, e um sorvete de mel para refrescar. Grande fecho de refeição.

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outra bela combinação

A safra 2006 em Bordeaux é subestimada, sobretudo este Chateau Bahans Haut-Brion. Parker dá menos de 90 pontos, o que considero muito rigoroso. Trata-se do segundo vinho do grande Haut-Brion com taninos bem moldados, corpo médio, e toda a tipicidade da comuna de Pessac-Léognan. Fez um belo par com o bife ancho acima, acompanhado de batatas ao forno com alecrim. A textura macia da carne estava de acordo com a estrutura tânica do vinho. Delicioso de ser bebido no momento, mas pode evoluir com segurança por mais cinco anos.

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harmonização surpreendente

Raposeira é um dos grandes nomes de Lamego em termos de espumantes, região adjunta ao baixo corgo (Douro) onde pessoalmente, considero o local ideal para espumantes portugueses elaborados pelo método clássico. Este rosé é feito com castas portuguesas típicas do Douro com estágio sur lies (contato com as leveduras) por pelo menos três anos. Bom corpo, rico em frutas, especiarias e toques defumados. Acompanhou muito bem o prato acima, uma espécie de cuscuz paulista com coentro, pimenta e camarões. A harmonização foi muito refrescante e rica aromaticamente, além de sabores bem casados.

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marrote: nome gaúcho do leitãozinho

A carne acima é bem macia e tenra do chamado marrote, nome dado no sul do país para um leitão novo não castrado. Acompanhado com molho do próprio assado, ervas e batatas ao forno.

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Borgonha e Dão em confronto

Não é que este Borgonha da Côte de Beaune foi muito bem com o prato!. Pernand-Vergelesses é uma comuna encrustada entre Savigny-Les-Beaune e Aloxe-Corton. Trata-se de um Premier Cru delicado como muitos desta parte do sul da Côte d´Or. A safra é excelente. Embora já com seis anos de vida, tem muito vigor e vida pela frente. Entretanto, é muito agradável de ser tomado no momento. Rico em frutas, cerejas frescas, especiarias e um leve sous-bois. A delicadeza do vinho casou perfeitamente com a textura da carne e o sabor do assado. Em seguida, chegou o Quinta da Pellada Touriga Nacional da boa safra 2004. Embora com mais de dez anos, o vinho mostrou vivacidade e uma acidez incrível. Um pouco mais robusto que o antecessor, não comprometeu a harmonização.

O Borgonha vem da importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br) e o Dão da importadora Mistral (www.mistral.com.br).

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combinação ousada

Côtes de Blaye é uma apelação bordalesa pouco conhecida e não tem a nobreza dos tintos do Médoc. Fica na margem oposta do rio Gironde, na altura da comuna de Margaux, e é vizinha à outra apelação também sem muita expressão, Côte de Bourg. São tintos de corte bordalês para o dia a dia, sem grande complexidade e que não precisam envelhecer muito. Importado pela Vinissimo (www.vinissimostore.com.br).

Com a informalidade do nosso tradicional virado a paulista, pode ser uma boa combinação, tendo estrutura adequada ao prato, além de fruta, taninos e um sutil toque amadeirado para enfrentar sabores e texturas dos ingredientes. Mesmo que o vinho com a idade ganhe um pouco de aromas terciários, os toques defumados do prato se adequam bem.

O importante aqui é a questão de tipologia do prato, ou seja, pratos frugais com vinhos sem sofisticação. Não adianta querer comer pizza com Sassicaia. Neste caso, vá de Chianti simples. É como se vestir de terno e gravata com chinelos.

Outras sugestões para o prato são Côtes-du-Rhône, Chinon ou Bourgueil do Loire, bons Merlots nacionais ou um Alentejano de média gama.

Enogastronomia na Praia: Parte II

3 de Janeiro de 2017

Prosseguindo neste “sacrifício”, vamos ao terceiro dia com mais um almoço na praia. Olha um outro vinho bom de praia, Sancerre! Esse Sauvignon Blanc aromático e mineral do Alto Loire divide seu prestígio com outra apelação gêmea, Pouilly-Fumé. Por ser um vinho de ótima acidez, boa mineralidade, e jamais invasivo em sabor e aroma, combina muito bem com elementos frescos, desde legumes, hortaliças, molhos mais incisivos, peixes e frutos do mar. Neste sentido, cumpriu bem seu papel ao lado de uma bela salada mediterrânea envolvendo tomates variados, burrata, azeite, ervas e azeitona preta. Aqui seu discreto lado frutado foi enaltecido, mantendo um ótimo frescor.

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mesa impecável em Cheval Blanc restaurant

Mais um pratinho de ostras frescas, pois ninguém é de ferro. E novamente, aquela conjunção maravilhosa! o lado marinho das ostras, instigando toda a mineralidade do Sancerre. Sua acidez combate bem o sal e a maresia, deixando um final limpo e puro. Na foto acima, mesa graciosa do restaurante La Case de l´Isle do hotel Cheval Blanc, St Barth.

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cuvée harmonie: seleção rigorosa de uvas

Os peixes que seguiram no almoço, sempre cozidos no ponto certo guarnecidos com elementos simples, sem rebuscamentos, favoreceram demais o vinho, numa sintonia em que ambos, prato e vinho, só ganharam.

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salada mediterrânea e ostras frescas

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peixe, massa e camarão

Na foto acima, peixe cozido no ponto certo, no estilo menos é mais. O prato de massa de inspiração chinesa, envolve temperos levemente picantes e camarão. Tudo com Sancerre.

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serviço de praia completo

Um pouco mais de conversa, mais um solzinho, mais uma brisa, mais um pouco de silêncio marinho, e chega a noite. Com ela, o jantar. Para acordar as papilas, que tal um blinis de caviar e champagne Blanc de Blancs? nada mau, principalmente um Blanc de Blancs da Maison Ruinart, a mais antiga casa desta apelação cheia de charme da França. Novamente, a leveza e a mineralidade deste estilo de champagne, amoldaram-se perfeitamente ao sabor marcante e marinho das ovas de esturjão. Como tratava-se de uma garrafa Magnum, tínhamos champagne para continuar com o caviar, agora compondo um primeiro prato de massa com molho branco.

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blanc de blancs e caviar

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blinis: bela recepção

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Léovilles: o astro maior 1982

Matando a saudade dos tintos, aqui a brincadeira era comparar duas safras distantes e distintas de um dos maiores deuxièmes da margem esquerda de Bordeaux, Chateau Léoville Las Cases, safras 2007 e a mítica 1982, acompanhando um belo corte de entrecote de Wagyu. É evidente que  a suculência desta incrível carne fez muito bem aos taninos deste tinto viril. A safra 2007 é marcada pela precocidade, ou seja, pode ser apreciada em idade menos avançada com seus aromas e sabores mais abertos. Muito equilibrado e muito integro em seus quase dez anos de vida. Já o 1982, é um caso à parte. Numa das grandes safras do século passado, é um Léoville de rara elegância, de aromas terciários bem delineados, e taninos bastante resolvidos. É multifacetado em aromas que vão do cassis, ervas, ao couro e tabaco. Bem acabado e de final persistente. Grande fecho de noite! amanhã tinha mais …



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passeios náuticos

Quarto e última dia. Passou muito rápido e precisávamos fechar a viagem em grande estilo. Entra em campo, um trio de atacantes arrasador, à la Neymar, Messi e Soares: Chablis Raveneau, Puligny-Montrachet Domaine Leflaive, e o astro maior, Montrachet Marquis de Laguiche.

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combinação consagrada

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mais Chablis Raveneau

Evidentemente, o Chablis com seu estilo único, é incomparável. Neste caso, um Premier Cru Monts Mains safra 2000. É impressionante como esse vinho envelhece bem, mantendo frescor e uma pureza de aromas absolutos. Acompanhou muito bem uma bisque com mexilhões pequenos, mais se aproximando de vôngoles. Harmonização, mantendo o paladar em alerta. Além da bisque, mais ostras frescas para não sair da rotina. E ainda uma terrine de peixes variados. Fotos, acima.

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safras 2013 e 2005, respectivamente

Em seguida, uma aula entre duas feras da família Montrachet. Puligny-Montrachet é a comuna que faz os brancos mais elegantes fermentados em barrica na Borgonha. Este Premier Cru 2013 Le Clavoillon Domaine Leflaive fica próximo da perfeição neste estilo de vinho. Só mesmo, o Grand Cru Chevalier-Montrachet para sublimar este terroir. Por fim, o rei dos brancos da Borgonha, quiçá do mundo, o todo poderoso Le Montrachet. Um vinho grandioso, unindo potência e elegância no mais alto nível. Denso, complexo em aromas, sabores que inundam o palato numa harmonia sem fim. Temos que terminar com ele. Nada pode suplanta-lo.

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devidamente refrigerados

O prato para acompanhar esta dupla foi composto de camarões tigre, cauda de lagosta, salmão e badejo. Os camarões e a lagosta pela delicadeza da sabores e texturas combinaram melhor com o Puligny elegante e cheio de nuances. Já os peixes cozidos de textura mais firme, foram bem com o Montrachet de corpo e densidade marcantes, mais próximo de um vinho tinto.

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Were Dreams: recordação inesquecível

Uma viagem incrível, de belas paisagens, lazer variado e bem programado, amigos em perfeita sintonia, e enogastronomia eclética, sem complicações, nem exageros. Que outros brindes como estes não tardem! Feliz Ano Novo a todos!

Fazenda Sertão: Enogastronomia

26 de Dezembro de 2016

Num evento empresarial, interior de São Paulo, pratos e vinhos desfilaram em harmonia, comemorando o final do ano. A recepção não poderia ser melhor, Dom Pérignon 2000 em Magnum. Com seus dezesseis aninhos, parece que o tempo não passou. Vibrante, fresco, muito equilíbrio, e a elegância de sempre com seus toques de brioche.

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dando o tom do evento

Enquanto o pessoal chegava, o champagne ia refazendo paladares em meio a amuse-bouches diversos. Um pequeno grupo dentre os participantes, desceram à adega para degustar alguns vinhos. Um deles, o grande nome da apelação Hermitage, Paul Jaboulet La Chapelle da estupenda safra 1990, com 100 pontos Parker. Pode até não ter cem pontos, mas é uma maravilha. Depois de duas horas de decantação, começou a se abrir com toques de chocolate, cacau, defumados, geleia de frutas escuras, entre outros aromas. A boca é grandiosa com taninos em abundância, mas extremamente finos. Muito equilibrado e uma persistência monumental. Pelo seu atual vigor, podemos dizer que trata-se de um vinho imortal.

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grande safra em garrafa magnum

Para os primeiros pratos do jantar, uma Double Magnum (três litros) de Corton Charlemagne Grand Cru Bouchard Père & Fils safra 2004. Esplendoroso, lembra um pouco outro Grand Cru magnifico Chevalier-Montrachet, por sua elegância e delicadeza. Fruta expressiva, frescor estimulante, balanço incrível com os toques de barrica, e muito equilibrado. Com seus 12 anos, continua integro e com muita vida pela frente.

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Corton, a montanha dos Grands Crus

Abaixo, um dos pratos iniciais, acompanhado pelo branco acima. Ravioli de queijos com Brie ao molho de manteiga, trufa e pinolis sobre leito de couve. A gordura do queijo e da manteiga foi compensada pela acidez do vinho, enquanto os sabores delicados das trufas e pinolis casaram com a complexidade do mesmo.

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delicadeza e simplicidade

Já nos pratos mais robustos, sobretudo carnes, entra em cena uma Jeroboam (quatro litros e meio) de Chateau Haut Brion 1975. A safra é polêmica, mas o vinho beira a perfeição. Seus mais de 40 anos deram a maturidade que se espera de um grande Bordeaux. Os aromas terciários reinam em harmonia com toques de couro, tabaco, especiarias e um lado terroso de grande mineralidade. A boca é perfeita, equilibrada, taninos ultrafinos e agradavelmente persistente. Uma maravilha!

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a apelação nesta época ainda é Graves

Um dos pratos mais emblemáticos com esse vinho foram as costeletas de cordeiro (foto abaixo) com risoto de açafrão, molho do assado e trufas. A textura delicada do prato casou muito bem com a maciez do vinho e seus taninos totalmente polimerizados. Os aromas e sabores finos do prato arrematou toda a complexidade aromática do tinto. Enfim, prato e vinho se valorizando.

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costeletas tenras e saborosas

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cavaletes posicionados

No serviço de garrafas grandes, de tamanhos especiais, o uso do cavalete é muito útil, além de charmoso. Com esse mecanismo, sobretudo para os tintos, vamos abastecendo os decanters, de acordo com o consumo do vinho. Os sedimentos vão se assentando pouco a pouco no eixo da garrafa. No decanter final, tomamos o cuidado para desprezar (deixar na garrafa) uma pequena quantidade de vinho  com a borra.

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um Borgonha de sonhos

Nos últimos pratos do jantar, foi servido um dos maiores tintos da Borgonha de todos os tempos, DRC Romanée-St-Vivant 1978. A safra na verdade é estupenda, mas este vinho é tudo que se espera de um Borgonha envelhecido. Este Grand Cru de vizinhança nobre, faz valer a frase: “Em Vosne-Romanée não existem vinhos comuns”.  Os aromas de trufas, terra, rosas, licor de cerejas negras, especiarias, incenso, e vai por aí afora, são encantadores. Os taninos, se é que existem, são de outro mundo. Equilibrado, harmônico, e de final encantador. Um devaneio!

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filé Rossini: releitura

O prato acima coincidiu com a chegada do Romanée-St-Vivant 78. A textura da massa, e do próprio filé mignon se adequaram ao vinho. Os sabores do molho, das trufas, do foie gras, se entrelaçaram com todos os componentes terciários do vinho, numa rara harmonia. Um final de jantar glorioso.

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mil-folhas e crème pâtissière

Nas sobremesas que eram várias, a da foto acima acompanhou com competência o Chateau d´ Yquem 1999. Os sabores do prato casam bem com os toques de fruta e caramelo do vinho, além da textura cremosa de ambos. Num bom momento para consumo, mas Yquem evolui com tranquilidade por muitos anos em adega.

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o rei dos Sauternes

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pudim e bolo de chocolate caseiros

A sobremesa acima sintetiza a harmonização com os dois vinhos doces servidos. O pudim de leite com Yquem, fazendo a vez do crème brûlée, e o bolo de chocolate com Vinho do Porto. Neste caso, um Taylor´s Vintage 1985. Uma bela safra completando pouco mais de trinta anos. Em pleno vigor, seus aromas terciários começam a prevalecer, vislumbrando um futuro brilhante. Cor ainda escura, taninos presentes, mas bem moldados, e muita riqueza em boca. Os aromas primários de frutas escuras em geleia se fundem aos toques de especiarias, tabaco, chocolate e um fundo mineral, compondo o lado mais evolutivo do vinho.

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Taylor Fladgate: especializada em Vintages

O Porto ainda acompanhou os Puros na varanda com Cohibas de várias bitolas, incluindo os Behikes. Que o ano novo comece tão bem quanto o término deste. Feliz 2017!

Bordeaux e outros grandes 85 – Parte II

24 de Dezembro de 2016

Continuando a saga dos grandes tintos de 1985, vamos agora aos dois belos flights de Bordeaux, sempre acompanhados de cortes de carne exclusivo do mestre Renzo Garibaldi.

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o grande assador do momento

Tentamos separar os flights entre elegância e potência, além colocar lado a lado vinhos que possam competir em termos de estilo.

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Comunas de elegância

Neste flight houve uma disputa linda entre Haut Brion e Cheval Blanc. Muito bem pontuados nesta safra, um esbanjava mais elegância que o outro. Haut Brion sempre consistente com seus toques terrosos, couro, ervas finas e um tabaco de Vuelta Abajo. Cheval Blanc, uma delicadeza encantadora com seus toques florais, especiarias delicadas, algo de incenso. Enfim, espetacular. Chateau Margaux, o rei de sua comuna, não tem um desempenho espetacular nesta safra, embora estivesse muito elegante, integro, e bem equilibrado. É que sempre esperamos deste ícone, sensações superlativas. O pomo da discórdia de toda a degustação foi o Pomerol deste flight, Chateau L´Eglise Clinet. Parker confere uma das maiores notas da safra a ele com 95 pontos. Particularmente, achei-o destoando do painel. Pode ser problema desta garrafa específica. Apesar de potente, seus aromas e taninos guardavam uma certa rusticidade. Que me perdoem, meus queridos confrades, se alguém discordar desta avaliação. Volta a dizer, é uma impressão pessoal.

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disputas de hierarquia

Neste último flight, tivemos duas duplas rivalizando-se entre si. De um lado, Pichon Lalande e Mouton Rothschild numa briga acirrada. Pichon, com uma lado mais elegante e uma proporção maior de Merlot em seu corte. Mouton, puxa um pouco mais para a potência, tendo mais Cabernet Sauvignon na mistura. Uma questão de gosto, mas o Premier Mouton respeitou muito seu concorrente Deuxième Cru. Do outro lado, uma briga de vizinhança entre comunas. Léoville Las Cases (Saint-Julien) e Latour (Pauillac). Não é fácil ser vizinho de um monstro chamado Latour, mas Léoville brigou bonito sendo nesta safra, até mais potente que seu oponente. Latour estava brando, delicado, mas com seus toques de couro, pelica, e cassis profundo, inconfundíveis. Grande Final!

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taças Riedel Sommelier à mesa

Durante toda a degustação e jantar, tivemos taças Riedel Sommeliers à mesa e dupla decantação de todos os vinhos, ou seja, passar ao decanter e voltar para a garrafa, depois de devidamente lavada, eliminando os sedimentos. Afinal, os vinhos tinham mais de 30 anos, naturalmente com depósito. Além disso, a dupla decantação imediata não permitiu um arejamento em demasia, evitando qualquer risco de aeração exagerada.

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parreiras pré-filoxera

Esta escrito no rótulo, parreiras pré-filoxera. Num pedacinho da Quinta do Noval, existe um solo intocável onde a filoxera não chegou. Portanto, estamos falando de parreiras do século dezenove que produzem muito pouco a cada ano, devido à sua idade avançada. Disto, resulta um néctar fabuloso que se transforma quase num Borgonha, tal a delicadeza e toques florais que permeiam seus aromas e sabores. Magnifico! Imortal!

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Madeiras de outros tempos …

Por falar em imortais, olha eles aí em cima. Madeiras do século XIX encerraram brilhantemente a última degustação do ano, acompanhando Puros do mais alto nível com os Behikes de várias bitolas. Confesso que não deu tempo de provar O Terrantez 1870, tal as preocupações com o serviço e o desenrolar do evento. Confio plenamente que meus confrades se deliciaram com ele e seus aromas etéreos e quase medicinais. Entretanto, namorei bastante o Malvazia 1895. Quel vitalidade! Que equilíbrio! Seu balanço entre acidez, açúcar e álcool era perfeito. As frutas secas, os toques balsâmicos, de incenso, cogumelos, flores secas, e outros tantos indescritíveis eram extasiantes. A persistência aromática, interminável.

Terminável mesmo foi a noite, passando como um vendaval neste desfile de vinhos magníficos e inesquecíveis. Vida longa aos confrades, na certeza de que muito mais dessas virão em 2017. Grande Ano a todos!

Bordeaux e outros grandes 85 – Parte I

22 de Dezembro de 2016

A ideia de reunir grandes tintos da safra 1985 surgiu em muitas comparações quando foram confrontados lado a lado alguns belos bordaleses safras 82 e 85 em degustações verticais memoráveis ao longo do ano. É claro que os míticos 1982 têm seu lugar cativo, pois trata-se de uma das maiores safras do século passado. Entretanto, embora os 85 não tendo a mesma potência dos gloriosos 82, guardam um equilíbrio fantástico, são sedutores, e continuam em grande forma.

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as joias da safra 1985

Nesta última degustação do ano, resolvemos perfila-los numa seleção do que há de melhor na elite dos Bordeaux. Mais que isso, foram pinçados outros grandes 85 de regiões diversas, pois esta safra brilhou em várias denominações de origem prestigiadas. Assim, participaram Bourgogne, Piemonte, Toscana e Douro.

Divididos em grupos, vamos a seguir lembra-los, já começando com um trio arrasador. Num flight sem comparativos entre si, valeu a individualidade e a tipicidade confirmada por cada um. Afinal, trata-se de grandes produtores, referências em suas respectivas denominações de origem.

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italianos abraçando um português

Difícil começar por um, mas vamos lá. Sassicaia 85 é algo diferente já entre os demais Sassicaias. O rei dos supertoscanos nesta safra tornou-se imortal. Encorpado, equilíbrio fantástico, aromas que vão do chocolate, tabaco, até uma profusão de ervas como tomilho e sálvia, marcando a tipicidade italiana. Seu concorrente piemontês, Aldo Conterno Granbussia, numa elegância impar. Um Barolo de grande refinamento, mostrando que a Nebbiolo pode moldar vinhos tão elegantes quanto os mais finos borgonhas. Delicadeza e equilíbrio fantásticos. Barca Velha, a obra-prima de Fernando Nicolau de Almeida, colocando o Douro no mapa-múndi dos grandes vinhos. Cheio de vida, taninos presentes e muito finos. Os toques balsâmicos, ervas, e frutas em compota, permearam seus aromas. Ainda com bons anos pela frente.

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Guigal iniciando os bordaleses

Como tínhamos somente dois tintos do Rhône, resolvemos juntá-los a um par de bordaleses que respeitassem sua elegância. Os La-La-La, como são conhecidas as joias do produtor Guigal, trata-se de um triunvirato do mais alto nível da apelação Côte-Rôtie, norte do Rhône. La Landonne, mostra toda a elegância da Syrah neste solo granítico e escarpado. Muito sedoso, aromas balsâmicos com toques de incenso. Extremamente longo e harmonioso. La Turque, o macho da dupla, é cheio de virilidade, taninos mais presentes, uma certa austeridade, mas igualmente delicioso. Difícil pontua-los e compara-los em preferencia. Com toda essa delicadeza, entra em cena o Borgonha de Pauillac, o majestoso Lafite. Notas balsâmicas, especiarias delicadas, ervas finas, e o toque de tabaco característico da comuna. Bela evolução, mas com muita vida pela frente. Finalizando, o exclusivíssimo Le Pin, Pomerol de alto coturno. Mais denso que os demais, porém mantendo a suavidade do flight. Os toques de ameixa escura, chocolate, e um certo terroso, marcam seus aromas. Persistente e em plena forma.

Em meio aos flights, vários pratos preparados pelo assador Renzo Garibaldi, especialista em carnes dry aged, longamente maturadas, como da foto abaixo. 

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maturação de um ano

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Clos de Tart ladeado por DRC

Chegando ao terceiro flight, temos um “intruso” no meio dos DRCs. Não é fácil colocar um vinho nesta situação, sem humilha-lo, pois a comparação é cruel. Contudo, Clos de Tart se portou altivo, respeitando sua vizinhança, mas impondo-se como um dos maiores entre os tintos da Côte de Nuits. De história tão antiga quanto o ilustre Romanée-Conti, Clos de Tart é o maior monopólio individual entre os Grands Crus da Borgonha. Extremamente longevo, nesta safra já se mostra acessível com seus lindos toques de cerejas escuras, violetas, especiarias e um mineral impressionante. O primeiro DRC, Romanée-St-Vivant, estava gracioso com seus toques florais, ervas, especiarias, muito macio e resolvido em boca. Safra prazerosa e num ótimo momento para ser apreciado. Por fim, a estrela do flight, o suntuoso La Tâche. Que imponência, que estrutura, que equilíbrio! O que é isso? Hugh Johnson já disse: “um dos maiores vinhedos sobre a Terra”.

Próximo artigo, os grandes Bordeaux, razão maior desta degustação, e outras preciosidades after dinner. Aguardem!

Top Ten Wine Spectator 2016

2 de Dezembro de 2016

A lista sempre provoca polêmica, mas é uma das mais esperadas no final de ano, Top 100 Wine Spectator. E aqui vamos falar dos dez primeiros que dia a dia vão sendo anunciados, até chegar ao vinho do ano.

A lista dos Top Ten é mais ou menos como seleção brasileira, cada um tem seu time. Eu sei que a pontuação pode ser manipulada, que pode ter um favorecimento para os americanos, que pode haver interesses comerciais, e assim por diante. O importante já que ela existe, é falar um pouco de cada um desses vinhos e sua reputação. Afinal, seja como for, não há dúvida que os vinhos têm qualidade. Então, vamos a eles!

top-ten-2016

amplo domínio americano

10 – Hartford Zinfandel Old Vine Russian River Valley 2014

O grande diferencial deste tinto é o clima refrescante de Russian River, famoso por belos Pinot Noir. Normalmente, os vinhos com Zinfandel (a Primitivo da Puglia) são alcoólicos, enjoativos e pesados. Neste caso, além do clima com destacada amplitude térmica, as vinhas têm média de idade bastante alta com muitas chegando a cem anos. Apenas nove meses em madeira, sendo somente 40% barricas novas, faz deste vinho uma bela expressão de fruta, toques defumados e uma acidez vibrante, compensando seus 15,7° de álcool num final intenso. 93 pontos – 38 dólares – 2200 caixas

9 – Château Smith Haut Lafitte Pessac-Léognan White 2013

A safra 2013 não foi das melhores em Bordeaux, sobretudo para tintos. Uma safra fria e muita dificuldade em maturar as uvas. Em compensação, apareceu uma acidez refrescante para os brancos, num bom balanço de fruta e madeira. Neste caso, o blend pouco usual é composto por Sauvignon Blanc (90%), Sémillon (5%) e Sauvignon Gris (5%). A fermentação dá-se em barricas (metade novas) com posterior bâtonnage (revolvimento das lias). O resultado é um vinho vibrante pelo amplo domínio da Sauvignon Blanc, mas ao mesmo tempo, complementado por uma maciez justa, dando equilíbrio ao mesmo. A pitada de Sauvignon Gris fornece um exotismo ao conjunto com notas minerais e de especiarias. Este Chateau tem sido grande destaque entre os brancos de Bordeaux nos últimos anos com safras muito consistentes. 96 pontos – 106 dólares – 2500 caixas

chianti-classicopiemonte

vinhos: 8 (toscana) e 5 (piemonte)

8 – Antinori Tignanello Toscana 2013

Tignanello é um ícone da Toscana que mostra como se deve trabalhar um Sangiovese com o complemento exato de uvas internacionais sem tirar sua essência, mas ao mesmo tempo, fornecendo-lhe elegância e complexidade. Aqui temos Sangiovese (80%), Cabernet Sauvignon (15%) e Cabernet Franc (5%), cultivadas em altitudes ideais (350 a 400 metros) dentro da região do Chianti Classico. O trabalho de cantina de Renzo Cotarella é preciso no sentido de extrair taninos (estrutura) na medida certa, complementando um estágio bem dosado em barricas de carvalho por 12 a 14 meses. O resultado é um vinho de acidez vibrante, taninos bem moldados, e todo o potencial para bons anos em adega. 94 pontos – 105 dólares – 2500 caixas

7 – Ridge Monte Bello Santa Cruz Mountains 2012

Aqui temos um clássico corte bordalês de margem esquerda com predomínio da Cabernet Sauvignon, além de Merlot, Cabernet Franc, e Petit Verdot. O famoso vinhedo Monte Bello localizado em Santa Cruz Mountains, zona de altitude perto da costa ao Sul de San Francisco, conta com solo argilo-calcário, dando elegância ao vinho. De fato, lembra um Bordeaux bem equilibrado com seus toques minerais de grafite. A Cabernet Sauvignon neste clima ameno, tem seu amadurecimento  com maturação prolongada, fornecendo estrutura para um consistente envelhecimento em garrafa. Ótima pedida, fugindo um pouco de Napa Valley. 94 pontos – 175 dólares – 5243 caixas

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Sonoma (Russian River), Santa Cruz

vinhos americanos (10), (7) e (6)

6 – Orin Swift Machete Califórnia 2014

O rótulo e o vinho são tão polêmicos, quanto ousados. Sem dúvida, é o vinho que você se pergunta: como ele está no Top Ten 2016? Resposta também polêmica: 94 pontos- 48 dólares – 15500 caixas produzidas. O critério da revista levando em conta além da pontuação, seu preço de mercado, e a capacidade de produção, muitas vezes abrem brechas para esses vinhos bizarros. O blend tenta lembrar algo do Rhône, envolvendo as uvas Syrah e Grenache. Contudo, o ator principal trata-se da uva Petite Sirah, também conhecida como Duriff (cruzamento da Syrah com Peloursin). Não é um vinho de vinhedo. Na verdade, é um mix de vinhedos da vasta região de Northern Califórnia. O vinho amadurece cerca de dez meses em barricas francesas (40% novas). Vinho potente (15,7° de álcool), cheio de fruta, e aromas tostados e de baunilha. Há quem goste … 94 pontos – 48 dólares – 15500 caixas

5 – Produttori del Barbaresco Asili Riserva 2011

Fazer Barbaresco de prestigio com pequenos produtores em vinhedos exclusivos é normal. Agora, fazer esta denominação reputada do Piemonte numa cooperativa local é algo louvável. É o que vem acontecendo com Produttori del Barbaresco de algum tempo pra cá. Neste caso, trata-se de um Riserva do vinhedo Asili de pouco mais de dois hectares. O vinho estagiou por 36 meses em botti (toneis de grandes dimensões) e 12 meses em garrafa, antes da comercialização. Alia complexidade, elegância e longevidade. 96 pontos – 59 dólares – 1100 caixas

bordeaux

vinhos: 9 (pessac-leognan) e 4 (barsac)

4 – Château Climens Barsac 2013 1° Cru 

Climens na verdade é o grande rival de Yquem num estilo mais delicado, mais sutil. Elaborado exclusivamente com Sémillon, uva propícia ao ataque da Botrytis, o grande diferencial é seu solo calcário que fornece acidez e elegância ao vinho. Os rendimentos giram em torno de nove hectolitros por hectare e o amadurecimento dá-se em barricas de carvalho (30 a 40% novas) por 20 a 22 meses. Esta safra ressaltou as qualidades de Climens fornecendo-lhe uma elegância impar. 97 pontos – 68 dólares – 1417 caixas

3 – Pinot Noir Ribbon Ridge The Beaux Frères Vineyard 2014

O clima frio de Oregon (estado acima da Califórnia) é um aliado para Pinot Noir mais frescos. A preocupação da vinícola em preservar o vinho em suas várias fases de elaboração do oxigênio é primordial. O vinho permanece com as lias até seu engarrafamento sem filtração. A despeito de amadurecer em barricas francesas (50% novas), a expressão de fruta é notável. 95 pontos – 90 dólares – 2405 caixas

oregon-wines

willamette valley

(principal sub-região do Oregon)

vinhos americanos (3) e (2)

2 – Domaine Serene Chardonnay Dundee Hills Evenstad Reserve 2014

Linha de luxo desta vinícola de Oregon (Willamette Valley), Evenstad é uma seleção dos melhores vinhedos dentro da AVA Dundee Hills. Chardonnay fermentado à moda da Borgonha com 13 meses em barricas de carvalho (31% novas). Belo balanço entre fruta, acidez e madeira. A seleção clonal, de barricas, e a melhor mescla da vinificação de cada safra, resultam em vinhos elegantes e de muito sabor. 95 pontos – 55 dólares – 2000 caixas

Vamos deixar o Vinho do Ano para o próximo artigo, complementando com mais algumas sugestões pessoais entre os Top 100 da lista completa.

Cult Wines

27 de Novembro de 2016

Existem belos vinhos no Novo Mundo, mas com o nível de sofisticação dos Cult Wines americanos, é difícil confronta-los. Sobretudo, quando falamos de Cabernet Sauvignon ou também, o chamado corte bordalês com predominância da Cabernet, o que em Bordeaux chamamos de Margem Esquerda. Foi neste contexto, que a degustação abaixo de grandes tintos de Napa Valley rolou com quatro safras históricas: 1990, 1994 e 1997.

marcassin-chardonnay-2002

Chardonnay de Gladiadores

Inicialmente, um branco de Sonoma, região com influência costeira, elaborado com Chardonnay. Estamos falando de uma fera chamado Marcassin, safra 2002. A figura do javali no rótulo demonstra bem a força deste vinho. Encorpado, intenso, amanteigado, e bastante persistente. Dentro de seu estilo é muito bem feito, mas passa longe de qualquer comparação com similares da Borgonha.

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Grace: 100% Cabernet

30 meses de barricas francesas

                                                 Dominus: Cabernets, Merlot, Petit Verdot

30% barricas novas

Neste primeiro embate da safra 1990, pessoalmente, foi o duelo mais díspar da degustação. Embora, o Grace Family estivesse mais pronto, e de fato estava, sua acidez um pouco exagerada e taninos não tão finos como os demais vinhos, incomodaram numa avaliação geral. É certamente, um vinho que deve ser tomado, e não adega-lo por mais tempo. De todo modo, o pessoal gostou bastante por sua prontidão.

Bem diferente estava seu oponente, Dominus 1990. Certamente, foi a garrafa com mais depósito (borras), tal a opacidade apresentada na taça. De estilo bem bordalês, este tinto passa facilmente num painel de grandes Bordeaux de Margem Esquerda. Denso,  terciário nos aromas, uma montanha de taninos ultrafinos, e de grande persistência. Já muito prazeroso, embora tenha estrutura para mais uns bons anos. De novo, pessoalmente, o grande vinho da degustação, lembrando belos bordaleses.

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Bife de Chorizo Varanda Grill

Entre um gole e outro, um bifinho para incrementar. Para esse perfil de vinhos, potentes, com muitos taninos, nada mau a suculência de uma carne vermelha nobre. Não há melhor alimento para doma-los (taninos). Realmente, uma combinação clássica.

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Aqui, 100% Cabernet Sauvignon em carvalho francês

O embate acima envolve dois 100% Cabernets elaborados pela mesma winemarker nesta bela safra 1994, Helen Turley. Aqui, foi cabeça a cabeça. Tanto é verdade, que Parker concedeu notas 98 e 96 respectivamente, a Bryant Family e Colgin. Concordo com Parker, dando a Bryant Family uma pontinha a mais de elegância. De todo modo, são vinhos de muita estrutura que ainda devem ser adegados por pelo menos mais cinco anos. Mesmo assim, devem ser decantados ao menos, por uma hora antes do consumo.

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Foto de 200 pontos

Acima, briga de gigantes, 100 pontos cada um. Pontuação é sempre algo polêmico, mas claramente, este ultimo flight da safra 1997 é superior ao anterior. Mais concentração, mais estrutura, mais complexidade. É sobretudo uma questão de gosto. O curioso é que a meu ver, o Harlan pareceu mais potente, dando a impressão de ser o Screaming Eagle. E este último, vice-versa. Foi o mais elegante Screaming Eagle que provei. Concentrado, macio, e muito longo. Este é um dos poucos exemplos em que um 100% Cabernet (Screaming Eagle) consegue ombrear-se a um corte bordalês (Harlan Estate). O Cabernet Sauvignon sozinho sempre deixa algumas arestas pela potência e rusticidade da cepa. Sabiamente, os bordaleses tem esse feeling, mesclando outras uvas.

quilceda-creek-2005

potência e maciez incriveis

No final, apareceu uma carta fora do baralho, Quilceda Creek 2005, um belo Cabernet de Washington (Columbia Valley), extremo noroeste do país. Com toda sua juventude e 14,9° de álcool, esbanjou volume, maciez e vivacidade em fruta. Muito bem balanceado por cima, o vinho apresenta estrutura e taninos muito macios, apesar de seus 22 meses em barricas francesas novas. Talvez essa maciez, seja o ponto que marque a diferença para os Cabernets de Napa, um pouco mais austeros. Um vinho hedonista, difícil de não gostar.

É sempre bom lembrar que o grupo degusta com duas taças premium, Zalto e Riedel Sommeliers. Embora magnificas em si, proporcionam sensações diferentes. Os aromas na Riedel são mais sutis, enquanto o paladar na Zalto, é mais concentrado. Em resumo, se você encontrar algum defeito no vinho, é só trocar de taça …

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Fine e Marc: apelações regulamentadas na Borgonha

Por fim, tive a difícil missão de confrontar  dois destilados exclusivos, de grandes Domaines da Borgonha, Fine de Bourgogne Domaine de La Romanée-Conti e Marc de Bourgogne Hor d´age Domaine Dujac. Nos dois casos, trata-se de transformar materiais residuais advindos do processo de vinificação destes dois grandes Domaines.

Explicando melhor, vamos começar pelo Marc de Bourgogne. Após o processo de fermentação dos grandes vinhos Dujac, as cascas, engaços (eventualmente) e sementes que sobram nos tanques, são destilados e posteriormente envelhecidos em madeira. Este produto equivale a boas Grappas (Itália). O termo Hors d´Age prevê um envelhecimento mínimo em madeira por dez anos. Este, especificamente não tem safra. No caso, é uma mistura de destilados dos anos 1978 a 1991, a qual foi engarrafada em 2012.

Já este Fine de Bourgogne é a destilação de tudo que sobra nas barricas dos grandes vinhos do Domaine de La Romanée-Conti. No processo de engarrafamento, é comum sobrar no fundo das barricas um pouco de vinho junto com as borras e lias (leveduras mortas). Pois bem, a junção destas sobras são destiladas, dando origem ao produto. Este por sua vez, deve ser envelhecido por lei em madeira. Neste caso, estamos falando da safra 1991, engarrafada em 2008. Em resumo, é algo similar a um brandy (cognac).

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belo fecho de refeição

O confronto das duas eau-de-vie foi mediado por um Puro H. Upmann Magnum 50. É um charuto de fortaleza média para dar neutralidade ao embate. Evidentemente, o primeiro terço foi dominado amplamente pelos destilados, dada a potência de ambos. Já no segundo terço, o lado mais macio, mais cremoso do Fine Bourgogne, casou melhor com a evolução do charuto. Em compensação, no terço final, com toda a potência imprimida pelo Puro, os aromas terciários e refinados do Marc Dujac foram providenciais. Final dramático!

Mais uma vez, só tenho a agradecer a companhia de todos os presentes, os grandes vinhos, e as grandes lições aprendidas. Na expectativa de muitas surpresas ainda este ano! Abraços,

Os Históricos Bordeaux 1982

14 de Novembro de 2016

É muito comum serem mencionadas safras “históricas” em regiões vinícolas europeias de grande prestigio, sobretudo em Bordeaux. As especulações são inevitáveis já que esses vinhos são verdadeiras comódites no mercado financeiro, funcionando de certo modo como uma forma de investimento. Depois de alguns anos com a poeira assentada, fica mais claro separar o joio do trigo.

bordeaux-82

Dream Team: Lafleur em Magnum

Dentre essas safras “históricas”, existem aquelas que são mais históricas. Uma delas por exemplo é a de 1982, equiparada a anos como 1945, 1947, 1959 e 1961, para ficarmos no século XX. O abençoado ano de 1990 onde foi praticamente impossível se fazer vinhos ruins na Europa, ainda não emplacou definitivamente neste seleto rol, talvez por não estar totalmente pronta, no auge de sua evolução, principalmente para os grandes Bordeaux.

Dito isso, defrontamos quatro belos Bordeaux 82, dois margem esquerda, e dois margem direita, num embate de gigantes. Falar de vencedores é uma questão muito mais pessoal do que técnica. Cada qual fiel a seu terroir, a seu estilo, mas todos inteiros e impecáveis. Enfim, obras de arte não se comparam …

mouton-rothschild-82

o sonho de tomar um grande 82

Testados vários vezes, em várias épocas, e sempre muito consistente. Fico imaginando até quando esse platô de evolução vai se estender, pois ainda não há nenhum sinal de decadência. É muito fácil gostar deste vinho, mesmo para aqueles que tem problemas com taninos. Ele é sedutor nos aromas, macio em boca, muito equilibrado, e um final bastante longo. Sempre na elite dos campeões desta mítica safra.

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apelação Pessac-Léognan só em 1987

Pessoalmente, foi o que menos me impressionou, mas sem dúvida, é uma questão pessoal. Outra razão, foi a cruel comparação com os demais concorrentes ilustres. De todo modo, um perfil brilhante de Pessac-Léognan com seus aromas de estábulo e toques terrosos. Menos encorpado que o Mouton (Pauillac), é também de um equilíbrio notável. Taninos ultrafinos e longa persistência. Em comparação a seu grande rival, Chateau Haut-Brion, é um pouco mais potente e com menos elegância.

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inspiração para o rótulo americano Dominus

Apesar de estarmos falando de um margem direita na sub-região de Pomerol, é de uma austeridade impressionante. Lafleur é o único Pomerol comparável ao astro maior Petrus, não só pela fleuma e estilo mais introvertido, mas também por seu incrível poder de longevidade. Esta safra em particular, uma das mais perfeitas de sua história, foi elaborada por Jean-Claude Berrouet, o famoso enólogo de Petrus, com apenas 10% de barricas novas.

Seu solo é muito particular e multifacetado, mesclando argila, areia e importante pedregosidade. Com isso, seu corte de uvas também é único e bem especifico com Merlot e Cabernet Franc pareando as porcentagens. Talvez a presença importante da Cabernet Franc lhe forneça essa espinha dorsal e estrutura  incomuns para um típico Pomerol, mais calcado na Merlot.

Esta safra de 1982 considerada perfeita, é de uma cor impressionantemente jovem e intensa. Os aromas se desenrolam pouco a pouco na taça com forte presença mineral, frutas escuras, e toques de chocolate amargo, lembrando cacau. Deve ser obrigatoriamente decantado por pelo menos uma hora. O boca é de um pujança extraordinária, vislumbrando ainda bons anos de guarda. Um vinho realmente impressionante. Como conselho, se você tiver uma garrafa deste Chateau com menos de quinze anos, não abra. A paciência irá lhe recompensar, certamente.

petrus-1982

o singelo rótulo num vinho sofisticado

Reparem que no rótulo não está escrito Chateau. Realmente, a simplicidade  e a aparência mal cuidada de sua construção confirmam esta observação. O solo extremamente argiloso faz da Merlot praticamente seu território único com quase 100% do plantio, de vinhas muito antigas. As condições particulares deste terroir dão uma imponência, uma austeridade, e uma introspecção ao vinho, que o diferencia de maneira inconteste de todos os outros Pomerols.

Como curiosidade, a argila azulada de Petrus é rica em ferro, gerando vinhos com intensidade de cor marcante. Além disso, não há como aumentar a densidade de plantio das vinhas que fica em torno de 7000 plantas/hectare. A explicação vem de um subsolo extremamente duro onde a camada de argila para a ramificação e expansão das raízes é de apenas 70 centímetros, ou seja, pouca profundidade para uma competição entre as vinhas mais acirrada.

Além de uma boa conta bancária, você precisa de muita paciência para esperar seu Petrus acordar. Os infanticídios com este vinho mundo afora são rotineiros. Nesta safra em particular, ele não tem a potência de seu concorrente Lafleur, mas sobra elegância e finesse. O grande trunfo de 82 é que Petrus conseguiu se soltar, mostrando aromas terciários muito finos e de rara sutileza. Não é um vinho óbvio, mas sua sedosidade contrasta magnificamente com seu lado cerimonioso. Talvez por não ser uma safra especificamente concentrada, seu desabrochamento chegou mais cedo, concedendo prazer e expectativa esperados. Grande vinho!

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Esta é a cor do Lafleur 1982. Acreditem!

Como se não bastasse esses quatro prazeres em si, tivemos que analisa-los em duas taças não menos espetaculares e bem merecedoras destes grandes caldos. Riedel Sommeliers versus Zalto Bordeaux, num embate de titãs entre duas excepcionais cristalerias  austríacas.

Riedel Sommeliers é uma linha de taças maravilhosas com um bojo de 860 ml de capacidade para o modelo Bordeaux Grand Cru. Aromaticamente, mostra-se muito sutil captando aromas multifacetados dos mais complexos tintos bordaleses. Em boca, procura mostrar a essência de um grande Bordeaux com texturas delicadas, sem perder o frescor.

Zalto Bordeaux, como toda taça Zalto, é de uma leveza incrível, além da ínfima espessura do cristal. Dá medo de tocar na taça, tal a aparente fragilidade que ela transmite. Em relação à Riedel Sommeliers, seus aromas são mais concentrados, perdendo-se um pouco as nuances de vinhos mais sutis. Entretanto na boca, mostra com ênfase, o corpo e estrutura dos grandes Bordeaux, numa percepção ampliada da textura de seus finos taninos.

Qualquer que seja a escolha, você estará bem servido. De todo modo, é sem dúvida um diferencial, um detalhe relevante, quando se trata de vinhos de tamanha complexidade, em períodos de evolução onde as sutilezas devem sempre que possível, ser amplificadas.

lingua-nino-cucina

lingua com polenta cremosa

Eis um prato (foto acima) que muitos torcem o nariz, língua. Realmente, não é uma carne fácil de se trabalhar, mas quando bem feita, é digna dos mais finos tintos já com aromas evoluídos e taninos resolvidos. Foi o caso deste prato, do Nino Cucina, escoltado pelos Bordeaux acima comentados. O casamento foi perfeito pela delicadeza de sabores de ambos, prato e vinho. Em particular, Petrus agradeceu a parceria.

Sommelier: ser ou não ser?

8 de Outubro de 2016

Esta é uma profissão glamorosa em seu conceito, mas que requer dedicação e sacrifício em seu exercício. E aqui estou falando do verdadeiro sommelier de salão, dedicado a um restaurante. No Brasil, tornar-se um sommelier para exercer a profissão no mercado é relativamente simples. Basta por exemplo, fazer o curso na ABS-SP, passar pelas provas e com pouco mais de um ano, você está apto a ingressar no mercado de trabalho. Um pouco de dedicação e interesse são ingredientes suficientes para alcançar o objetivo.

Ocorre que este é apenas o começo do que deve ser uma longa estrada. O mundo dos vinhos, bebidas, gastronomia, e toda a arte em torno da mesa, é extenso, dinâmico, exigindo permanentes estudos, aperfeiçoamentos, e atualizações. E é exatamente neste ponto que mora o problema. A maioria das pessoas contentam-se com o mínimo necessário, apenas para executar com relativa eficiência os trabalhos corriqueiros do dia a dia.

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Exótico Moscatel seco

(sem passagem por madeira, aromas intensos de frutas e flores, textura macia e final persistente)

A ABS-SP periodicamente, realiza certificações a candidatos que tenham interesse e competência na realização dessas provas, outorgando um pin diferenciado que poucos sommeliers possuem no país. É sem dúvida, uma maneira de motiva-los e incentiva-los em busca permanente de novos conhecimentos e aperfeiçoamentos na profissão.

Nesta última certificação ficou bem claro o nível dos sommeliers disponíveis em nosso mercado, que longe de ser ruim, ao mesmo tempo, está longe da excelência. Dos cincos candidatos, pelo menos dois estouraram o tempo de trinta minutos para a realização total da prova. Falaremos a seguir, das várias etapas.

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margem direira em frente ao Médoc

(excelente safra, mostra-se jovem, taninos presentes e bem equilibrado)

A primeira etapa tratava-se da análise de vinhos e bebidas. Inicialmente, três vinhos às cegas. Um branco da Alsace (Muscat d´Alsace), um Bordeaux tinto (Côte de Blaye) e um IGP (Indicazione Geografica Protetta) da Puglia. Independentemente dos detalhes, os candidatos pecaram numa análise extremamente prolongada, mostrando claramente a falta de objetividade na questão, sobretudo se levarmos em conta que esta primeira etapa tem uma participação bastante modesta no cômputo geral das notas. Disso, certamente resultou a principal razão de estourar o tempo ou faze-lo em seu limite.

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frutado exuberante da Puglia

(cor intensa, muita fruta, maciez, e agradavelmente quente)

Sequencialmente aos três vinhos, foram apresentados às cegas, em taças negras, quatro destilados absolutamente corriqueiros no principais bares de restaurantes, e de conhecimento da imensa maioria das pessoas acostumadas com este tipo de bebida. Gim, tequila, cachaça, e rum, respectivamente. Bastava somente identificar a bebida. Tanto a tequila, como o rum, foram as bebidas suscetíveis de maior erro.

destilados-abs

presentes nas boas casas do ramo

Já à mesa, os candidatos deveriam atender um grupo de quatro amigos que gostariam de provar um menu completo da cozinha árabe (libanesa) com entrada, dois pratos e sobremesa, acompanhado por vinhos brasileiros. As opções de harmonização foram mais variadas para o prato de kafta (espeto de carne moída) com diversos tintos, mudando o tipo de uva. Na sobremesa que envolvia massa folhada, frutas secas e calda de flor de laranjeira, a sugestão recaiu sobre um espumante Moscatel pela similaridade de toques cítricos e florais, embora faltasse textura e talvez até mesmo açúcar para confrontar o doce. O mais correto seria um Moscatel de Setúbal, pois as opções de vinhos de sobremesa brasileiros são limitadas.

Como itens obrigatórios neste tipo de prova, tivemos o serviço de um espumante como cortesia da casa, e a decantação de um tinto envelhecido com claras evidências de sedimentos na garrafa (Chateau Latour 1966). O serviço do espumante, fato corriqueiro no dia a dia dos sommeliers de salão, foi relativamente bem executado por todos. Já a decantação à vela, fato na prática, extremamente raro em mesas brasileiras, decepcionou de modo geral. O mais incrível é que ninguém tirou o vinho do cesto para proceder a decantação, operação costumeiramente vista em vários vídeos demonstrando a operação.

As perguntas sobre o queijo espanhol Manchego, sobre a uva Boal, e sobre a uva Muscat, foram respondidas de forma extremamente sucinta, sem maiores considerações. Isso quando respondidas corretamente. Por fim, uma correção de carta de vinhos com erros relativamente simples, respondida adequadamente por alguns de forma parcial.

Em resumo, fica o alerta para aqueles que pretendem destacar-se na profissão e que principalmente, desejem participar de concursos internacionais; mais afinco e objetividade no conhecimento teórico, e traquejo no serviço de salão com rapidez e eficiência.


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