Archive for the ‘França’ Category

Bordeaux e seus anos Dourados

16 de Julho de 2018

Os anos 80 foram ótimos para Bordeaux, especialmente com a mítica safra de 82, uma das melhores do século XX. Tirando 84 e 87, safras de poucas emoções, o restante tem muita coisa boa. Neste almoço, demos atenção à dobradinha 89/90, anos de vinhos gloriosos com bom potencial de guarda. Difícil afirmar taxativamente a superioridade de um desses dois anos, embora a safra 90 desperte maior glamour. Entretanto, 89 pode surpreender e ganhar esta disputa. Tire suas próprias conclusões com os vinhos abaixo.

img_4864la vie en rose …

Como de costume, algumas borbulhas para atiçar as papilas são bem-vindas, ainda mais com um Dom Pérignon Rosé 2003. Neste exemplar, temos 60% de Pinot Noir e 40% de Chardonnay. Nesta porcentagem de Pinot, temos uma parte de vinho tinto, dando a nuance e intensidade do rosé. É o chamado Rosé de Assemblage (5 a 20% de vinho tinto). Estilo elegante, muito frescor, mousse presente e cremosa. Tem um lado gastronômico, capaz de acompanhar muitos pratos à base de peixes, aves, e frutos do mar.

img_4869o terroir explica as diferenças

Voltando aos caldos bordaleses, vamos ao primeiro flight, o mais desigual em evolução e estrutura dos vinhos. Afinal de contas, tínhamos o rei Petrus na parada, um tinto sempre de estrutura e longevidade monumentais. Aqui percebemos de fato a força do terroir. Como é possível obter um Merlot com tamanha estrutura tânica, força, e austeridade. Nesta safra 90, temos um Petrus de 100 pontos com previsão de apogeu para 2054. Um tinto com uma força extraordinária  de frutas escuras, notas de cacau, chocolate, especiarias, e um toque terroso. Taninos massivos e extremamente finos. É imperativo decanta-lo por pelo menos duas horas. O infanticídio do almoço, sem dúvida. 

Vieux Chateau Certan 90 fez um par gracioso ao lado de sua Majestade, mostrando bela evolução ao longo de seus 28 anos. Um tinto pleno de aromas com um toque de margem esquerda, já que seu blend comtempla além da Merlot, Cabernet Franc, e Cabernet Sauvignon, pouco usual nestas paragens, nas seguintes proporções respectivamente: 65 a 70% Merlot, 25% Cabernet Franc, 5 a 10% Cabernet Sauvignon. Encontra-se no auge de sua evolução com toques de tabaco, couro, ervas finas e notas balsâmicas. Muito prazeroso neste momento. Os mesmos proprietários do badaladíssimo Le Pin, outro Pomerol de destaque.

img_4871embate de gigantes!

Este segundo flight só foi decidido no fotochart. Dois dos grandes Montroses lado a lado, safras 89 e 90. Duzentos pontos sobre a mesa e um punhado de dúvidas quanto à identificação. É intrigante como Parker pontua o Montrose 90 com 100 pontos e uma (?) interrogação entre parênteses. De fato, é um vinho bem evoluído no nariz e bem resolvido em boca, mas aquele toque de curral, animal, é mais acentuado que o 89, dando margem à possível presença de Brettanomyces (contaminação desta levedura no vinho, perdendo o poder de fruta, e acentuando toques terciários nos aromas). A sensação é que este exemplar de 90 está pronto, sendo temeroso guarda-lo por muito tempo. Já o 89 mostrou-se superior, pelo menos pessoalmente. A fruta está mais presente, sem perder seus toques terciários. Ele parece um pouco mais encorpado e com maior estrutura tânica. Seu apogeu pode atingir o ano 2060, segundo Parker. Pessoalmente, acho um pouco exagerado. O tempo dirá, mas que é um baita vinho, não tenho dúvidas. 

VCC à esquerda, Petrus à direita

Alguns pratos do restaurante Gero escoltaram essa tropa de tintos. O Capeletti in Brodo fez uma parceria exótica com o Pomerol VCC 90. Seus aromas evoluídos e sua textura mais delicada caiu bem com o brodo.

img_4873as duas margens em confronto

No útimo flight, um embate da safra 89 com dois vinhos de comunas diferentes, Saint-Emilion e Pessac-Léognan. O primeiro vinho, Chateau Tertre Roteboeuf, é um Grand Cru de Saint-Emilion, mas não está no grupo de elite. Localizado próximo aos Chateaux Pavie e Troplong-Mondot, sua primeira safra deu-se em 1978, relativamente recente. Embora seus vinhos partam de um corte clássico para esta apelação (80% Merlot e 20% Cabernet Franc), seu estilo é mais austero, aproximando-se do famoso Ausone. A safra 89 degustada, é uma das melhores de sua história com 95 pontos. Percebe-se em boca um vinho estruturado com riqueza da taninos de textura muito fina. Seus aromas já com boa evolução denota fruta madura, notas de especiarias e chocolate, além de um toque mineral. Bem mais acessivel que seu parceiro no flight, o delicioso La Mission Haut Brion com 100 pontos consistentes.

Com boa proporção de Merlot no Corte, sendo a Cabernet Sauvignon a uva majoritária, é um Pessac-Léognan com toques de estrebaria, ervas finas, chocolate, tabaco, e tantos outros aromas. Embora evoluído e bastante prazeroso, tem muita elegância e vida pela frente. Particularmente, achei esta garrafa um pouco mais evoluída que a média. A despeito de seus 100 pontos, ainda acho seu eterno rival e vizinho Haut Brion, insuperável nesta memorável safra 89.

risoto e a famosa coteletta

Mais alguns pratos entremeando os vinhos. O risoto de parmesão com molho de rabada por cima foi muito bem com a dupla de Montrose. Os toques terciários dos vinhos além da força de sabores, complementaram bem a intensidade e personalidade do prato. Já a Coteletta Milanese foi muito bem com a elegância do La Mission Haut Brion 89.

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Neste embate doce, o grande Yquem brilhou nos dois anos, 89 e 90. Difícil comparar a complexidade e longevidade destes dois exemplares. O da safra 90 parece ser mais equilibrado em acidez e menos opulento. Vai na ala dos Yquems mais elegantes. Sua acidez certamente o levará muito longe em adega. Já o 89 é mais opulento, mais glicerinado, parece ter mais Botrytis. É uma questão de gosto, mas o 89 pessoalmente, é mais persistente em boca.

a competência no salão do mestre Ismael e o jovem sommelier Felipe

O creme de mascarpone com chocolate, foto acima, foi um bom complemento para os dois Sauternes, respeitando a compatibilidade de textura na harmonização. Um final de prova delicioso com mais esta especialidade bordalesa, os divinos brancos de Sauternes e Barsac.

Enfim, mais uma bela oportunidade de provar e confrontar os belos tintos de Bordeaux, onde Chateaux e safras permitem um cem números de experiências e combinações formidáveis. Agradecimento aos confrades por mais este momento, numa prova sempre recorrente de amizade e generosidade. Que Bacco nos proteja sempre!

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DRC e Les Richebourgs

24 de Junho de 2018

É sempre muito bom falar sobre os grandes tintos de Vosne-Romanée, comuna dos melhores Grands Crus da Côte de Nuits. Desta feita, sobre o Grand Cru Richebourg, que desde o fim da Idade Média, encanta com vinhos estruturados e de grande longevidade. A grande modificação no vinhedo que proporcionou sua ampliação foi nos anos 20 do século passado, com a inclusão da parcela Les Verroilles na direção norte do vinhedo com altitudes mais elevadas. Concluindo, a parcela original Les Richebourg (5,05 ha) foi ampliada com Les Verroilles (2,98 ha), totalizando 8,03 hectares de vinhas repartida entre onze proprietários.

richebourg vinhedoterroir ampliado

Não há dúvida que Domaine de La Romanée-Conti possui quase metade das vinhas com parcelas variadas ao longo do vinhedo e de características distintas. Conforme mapa abaixo, o setor Les Verroilles na parte superior tem um clima e solo mais frios, guardando na maioria das safras, uma acidez e elegância mais evidentes. Leroy, Méo-Camuzet e a família Gros, encaixam-se neste perfil.

Por outro lado, Domaines como Grivot e DRC no setor original Les Richebourg, apresentam Richebourgs mais encorpados, mais macios e principalmente tânicos, mostrando a força deste Grand Cru que tem como vizinhança os vinhedos Romanée-Conti, La Romanée e Romanée-St-Vivant.

richebourg parcelasRichebourg – parcelas

Feito esse preâmbulo, vamos a uma vertical desses vinhos com diferentes idades e momentos de evolução. Com exceção de um Méo-Camuzet 1990, todos os outros Richebourgs são DRC de várias safras.

img_4814safras altamente pontuadas

Começando já em alto nível, duas safras primorosas e com muita vida pela frente, sobretudo o potente Richebourg 99. Talvez o mais prazeroso dos DRCs provados foi este de safra 1996 com 96 pontos. Aromas ricos de Vosne, misturando juventude com certa evolução. Cerejas escuras, os toques florais, o sous-bois, uma pontinha de café, e as especiarias delicadas. Boca macia, taninos bem moldados, e um final super equilibrado. Momento ótimo para ser provado. Já o 99, um vinho mais musculoso, muito mais taninos, e ainda um pouco tímido nos aromas. Deve ser obrigatoriamente decantado, pois evolui bem na taça. Os aromas de frutas escuras, notas de torrefação e chocolate são evidentes. Um vinho com pelo menos mais uma década de evolução com 97 pontos. Como observação, seus taninos não são tão finos como o monstruoso La Tâche 99 com 100 pontos, provado recentemente.

img_4815um intruso no ninho

Neste segundo flight, o Chambertin no centro da foto destoou dos demais. Deu muito azar de estar junto com dois dos melhores tintos do almoço. Reparem que trata-se de um vinho de negociante de Beaune numa safra fraca de 1976. Seus aromas de caramelo e amadeirados dava impressão de um bom Rioja envelhecido ou de alguns Vegas, bem observado por Manoel Beato. Os aromas eram mais interessante que a boca com nítidos sinais de decadência. Acidez agressiva e secura no final de prova.

Em compensação, os outros dois estavam divinos, sobretudo o Méo-Camuzet. A história do Richebourg Méo-Camuzet se confunde com Henri Jayer, uma lenda na Borgonha. No pós-guerra os vinhedos Richebourg foram replantados e entregues a Henri Jayer para a elaboração de seus vinhos. A amizade de Henri com a família Camuzet sempre foi de muita confiança. A última safra de Richebourg rotulada como Henri Jayer foi a de 1987. Nos anos seguintes, Henri Jayer atuou como consultor dos Richebourgs Méo-Camuzet até quando sua saúde aguentou. Portanto, este Richebourg 1990 tem a mão do mestre e de fato é magnífico. Fiel ao terroir Les Verroilles e a seu estilo elegante de vinificar, o vinho emana um bouquet de rosas impressionante. Seus taninos são delicados e ao mesmo tempo firmes para garantir estrutura e longevidade. Encontra-se num momento sublime, sem sinais de decadência. Pelo contrário, tem um amplo platô de estabilização.

Quanto ao Mazis-Chambertin 85 de Madame Leroy não estava no mesmo esplendor de uma outra garrafa degustada recentemente. Parecia mais evoluída e um pouco cansada. Contudo, percebe-se um vinho fino e com toda a estrutura digna dos grandes Chambertins. Taninos muito finos e um raro equilíbrio em boca. Essas brigas no bom sentido entre Jayer e Madame Leroy são sensacionais, mostrando todo o talento destas lendas da Borgonha.

img_4816os bons velhinhos

Neste flight, uma homenagem aos velhos Borgonhas que conseguem atravessar décadas em sua jornada. Não são grandes safras, mas mostram o talento e a longevidade dos vinhos DRC. Os dois com aqueles toques de Vosne evoluídos onde o sous-bois, cogumelos, toques terrosos, e algumas notas de chá são bem presentes. Levando-se em conta a idade, o 1965 estava bem prazeroso e com extrato superior ao 1981. Este último, bem delicado, sendo melhor apreciado como vinho de meditação, sem interferência de comida. Enfim, uma aula de aromas terciários.

img_48181as promessas

Neste flight, todo o vigor e potência dos Richebourgs DRC. No caso de 2008, os taninos surpreendem pela textura macia e afável com boa evolução de aromas e extremamente prazeroso. Perde um pouco em potência frente ao 96, mas segue o mesmo estilo. Já o 2009, segue a potência da safra 99. Rico em aromas e taninos, sua estrutura é monumental, podendo atravessar décadas de evolução. Seus aromas de alcaçuz, chocolate e cerejas escuras são notáveis. Deve ser obrigatoriamente decantado.

De todo modo, são vinhos para repouso em adega, vislumbrando grande evolução no caminho dos belos vinhos de Vosne-Romanée. Notas 96 e 97 para as safras 2008 e 2009, respectivamente.

bela harmonização

Para selar o almoço, um velho Richebourg 1947 Old School. O prato acima do restaurante Parigi, escoltou bem vinhos como este num belo ravioli de vitela com molho de cogumelos. A mítica safra de 1947 moldou belos vinhos e esse não foge à regra. Poderia estar um pouco cansado, mas mesmo assim, mostra a elegância e delicadeza dos grandes vinhos de Vosne. Seria repetitivo citar novamente seus divinos aromas terciários e toda a maciez em boca de taninos totalmente polimerizados. São vinhos para serem bebidos sozinhos, sem comparações, sem notas. Apenas pelo simples prazer que a pátina do tempo nos proporciona.

img_4811alta costura em Champagne

Além do desfile de Richebourgs, tivemos algumas borbulhas interessantes neste almoço. Como destaque incomparável, o raro Dom Pérignon 1983 P3, não encontrado no mercado nacional. Nosso confrade Camarguinho, homem de finas borbulhas, nos presenteou com o exemplar acima. P3 para quem não sabe, é a chamada terceira plenitude, período relativamente longo onde o champagne descansa sobre as lias (borras) antes do dégorgement. No caso de um P3, estamos falando em mais de vinte anos sur lies. Precisamente neste exemplar, 25 anos com as leveduras.

Este procedimento, mantém um frescor incrível no champagne, além de texturas e sabores únicos. A fineza do perlage é indescritível, tal a delicadeza das borbulhas. Sua textura em boca, o que chamamos de mousse, é super delicada. Some-se a isso tudo, sabores sutis de maçã, cogumelos e fino tostado, e você estará diante da perfeição. Difícil pensar em algo melhor.

Blanc de Noirs artesanal

Na foto acima, um champagne artesanal com apenas 900 garrafas por safra. Neste millésime Blanc de Noirs, temos as uvas Pinot Noir e Pinot Meunier com três anos sur lies. Um champagne mineral, extremamente seco, gastronômico, e de certa adstringência. Muito fresco, equilibrado, ótimo perlage, e mousse vigorosa.

os vinhos tranquilos de Champagne

Os chamados Coteaux Champenois são os vinhos tranquilos na região de Champagne, ou seja, sem borbulhas. Neste caso, temos outra produção artesanal com apenas 500 garrafas por safra. Trata-se de um 100% Pinot Meunier (uva tinta) vinficado em branco e amadurecido 34 meses em toneis. O vinho conserva uma boa acidez sem exageros e notável adstringência. Bastante seco e notável mineralidade. Branco gastronômico para pratos de personalidade como bacalhau, por exemplo. Valeu pela raridade e pela experiência em provar vinhos diferentes numa região de finas borbulhas.

Após longa jornada, ficam os agradecimentos aos confrades e as lembranças de mais um almoço inesquecível onde o bom papo e a imensa generosidade do grupo permearam mais esse encontro. Saúde a todos!

Curnonsky e seus brancos

19 de Junho de 2018

Falando um pouco de menus clássicos e históricos, não podemos deixar de mencionar Maurice Edmond Sailland, prince des gastronomes, escritor célebre do final do século XIX e metade do século XX (1872 a 1956), conhecido mais como Curnonsky, precursor do guia Michelin. Autor de 65 livros com inúmeros exemplares sobre gastronomia.

No que diz respeito a vinhos, decretou os cinco maiores brancos da França, mencionando Chateau d´Yquem, Montrachet, Chateau-Chalon, Chateau-Grillet, e Coulée de Serrant. Nada mau!

Baseado nesses memoráveis vinhos, o restaurante Taillevent elaborou um menu impecável acompanhando essas maravilhas a 1200 euros por pessoa, intitulado “Les cinq de Curnonsky”. Para esta seleção, começou com Lagosta gratinada com trufas para um Chateau-Grillet 2005, seguido por Saint-Pierre com molho de vinho branco e algas, acompanhado por Coulée de Serrant 2004. Continuando, uma Poularde de Bresse desossada com trufas acompanhando Montrachet Marquis de Laguiche 2002. Para finalizar, um Vieux Comté com Chateau-Chalon 2005, e uma Omelete de frutas exóticas flambada com Chateau d´Yquem 2003.

Falando um pouco dos vinhos, seguem fotos abaixo com detalhes de cada um e suas peculiaridades. A despeito dos critérios seleção, são vinhos absolutamente distintos, fiéis a seus respectivos terroirs, e verdadeiros patrimônios franceses.

fb7be498-2c0e-4395-ac48-cd35d0e55adb1um clássico acompanhamento para as trufas

Uma das menores apelações francesas com apenas 3,5 hectares de vinhas antigas, Chateau-Grillet é uma apelação própria dentro do território de Condrieu com uvas 100% Viogner. O vinho amadurece cerca de 18 meses em barricas francesas, sendo 20% novas conforme a safra.

O vinho costuma envelhecer muito bem desabrochando notas florais, de pêssegos, damascos, e um fundo amendoado. Textura macio em boca, acompanhando muito bem pratos com trufas, sobretudo quando devidamente envelhecido.

img_4513o epítome da Chardonnay

Montrachet dispensa comentários, sendo a perfeição nos territórios de Chassagne e Puligny-Montrachet. Vinificação clássica com fermentação em barricas novas com sucessivas bâtonnages. O vinho se funde com perfeição em contato com a madeira, envelhecendo maravilhosamente.

52064f24-4c80-4976-9255-f9e1312a3d37a perfeição do Vin Jaune

Na terra de Louis Pasteur, a uva Savagnin amadurece  com perfeição. O chamado Vin Jaune é considerado o Jerez francês, embora não haja fortificação. O vinho amadurece em barricas de carvalho por cerca de seis anos, desenvolvendo uma levedura na superfície semelhante aos melhores Jerezes. Após esse período é engarrafado, adquirindo notas oxidativas, lembrando nozes e especiarias exóticas. Além do queijo Comté, seu acompanhamente clássico, aves com molho à base de curry são harmonizações sublimes.

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a sublimação da Botrytis

Assim como o Montrachet, Chateau d´Yquem é unanimidade na nobre região de Sauternes. A ação da Botrytis Cinerea é perfeita no vinhedo, além de uma colheita seletiva e paciente, procurando somente as uvas perfeitamente infectadas. A vinificação é precisa, extraindo todos os componentes fundamentais para um vinho equilibrado e profundamente estruturado. A passagem longa em barricas novas francesas só enriquece o conjunto, permitindo um envelhecimento em garrafas por décadas. Lembrando sempre que as uvas são Sémillon majoritariamente, e Sauvignon Blanc.

Serrant decantacaoChenin Blanc em pureza

Atualmente com vinhos biodinâmicos tão em voga, o exemplar acima sintetiza a perfeição nesta filosofia viticultural. Nicolas Joly, proprietário e mentor do estupendo Coulée de Serrant, eleva a casta Chenin Blanc ás alturas, tendo apelação própria dentro da apelação Savennières, o mais célebre terroir para Chenin Blanc no estilo absolutamente seco.

Sua vinificação extremamente natural, trabalha com leveduras nativas. O uso das barricas de dimensões de acordo com a filosofia biodinâmica, visa imprimir uma micro-oxigenação precisa, expressando de forma autêntica aromas e sabores únicos. O vinho tem uma extraordinária capacidade de envelhecimento, sendo obrigatória um ampla decantação de horas, antes do consumo.

Além da harmonização citada no menu acima, truta ao forno com molho de vinho branco, ervas e amêndoas tostadas é pedida certa para um casamento perfeito.


Menu alternativo

Tartar de atum com gergelim 

Coulée de Serrant decantado por horas

Omelete de queijo gruyère e ervas com trufas laminadas

Chateau-Grillet com uma dezena de anos

Camarões grelhados ao molho de ervas e limão com risoto de açafrão

Montrachet Ramonet 2014

Queijo do Serro curado com nozes e damascos

Chateau-Chalon ou Vin Jaune

Malabi com calda de damascos

Chateau d´Yquem jovem (menos de 10 anos)


img_4781Serro bem curado

Neste menu alternativo, eu começaria pelo Coulée de Serrant aproveitando toda sua acidez e frescor com tartar de atum. Um prato de personalidade com o gergelim dando um toque a mais de integração com o vinho. É importante decantar este branco com horas de antecedência.

Em seguida, os sabores e textura da omelete deixam o Chateau-Grillet reinar elegante. O toque de trufa para um branco como este envelhecido é fundamental.

A vibração de um Ramonet jovem é sensacional com seus toques cítricos precisos. Toda a força de um Montrachet entremeando a sutileza de um risoto de açafrão. Uma harmonização para levantar sabores.

Antes da sobremesa, uma taça de Chateau-Chalon ou um bom Vin Jaune. O Club Tastevin traz um bom exemplar (www.tastevin.com.br). Homenageando os queijos brasileiros, um velho queijo do serro com aromas mais potentes, complementado por nozes e damascos, finalizam a refeição sem pressa.

A força de um Yquem jovem, menos de dez anos, complementam bem o delicado manjar árabe onde o damasco e a flor de laranjeira fazem eco ao vinho. A textura untuosa do vinho cai como um manto após uma colherada da sobremesa.

Enfim, mais um exercício de enogastronomia com uma pequena amostra do arsenal francês. Para quem não resiste a um belo champagne, não seria nada mau começar ou terminar o menu com ele. Os brancos da Alsace são outra bela lembrança.

 

Vosne-Romanée brilha em Saint-Vivant

10 de Junho de 2018

Como em Vosne-Romanée não existem vinhos comuns, nada mau uma vertical de Romanée-Saint-Vivant (RSV) com vinhos dos prestigiadíssimos Domaine Leroy e Domaine de La Romanée-Conti. De quebra, um La Tâche 1990, um Petrus 1955 e um Vintage Port Graham 1966, para emoldurar ainda mais um brilhante almoço no restaurante Gero em São Paulo.

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vosne-romanee grand cruRomanée-St-Vivant: nobre vizinhança

Para começar os trabalhos, dois brancos de Beaune de safras e apelações diferentes, conforme foto abaixo. O da esquerda, um Meursault Perrières 2011 de Maison Leroy, não Domaine. Embora Meursault tenha vinhos de rica textura, nesta safra mostra-se um branco mais delgado, elegante, e mineral. Não é um vinho de grande persistência, mas muito bem construído, e com incrível frescor.

O da direita, estamos no terroir de Chassagne-Montrachet num Premier Cru de vinhedo único, La Romanée. Percebe-se os toques de madeira elegante e uma rica textura em boca.  A safra 2015 é poderosa, rica em aromas, e expansiva em boca. Nesta comuna, já temos os indícios dos grandes brancos Montrachet.

img_4740terroirs de texturas cremosas

Para começar a brincadeira, um trio do final dos anos 80 em safras de respeito: 88, 89 e 90, conforme foto abaixo. Nas duas pontas, Domaine Leroy e seu RSV com menos de três mil garrafas por safra. Ao centro, um RSV do DRC safra 89. O mais prazeroso, o mais pronto, com belos toques florais e de especiarias. Boca sedosa, um final longo e muito bem equilibrado. Já o 88 Leroy, ainda um tinto arredio, taninos presentes, e aromas um pouco fechado, embora com notas de manteiga de cacau deliciosas. É realmente um safra dura com muitas dúvidas se ela abrirá totalmente algum dia. Um vinho para ser decantado e altamente gastronômico.

Por fim, o Leroy RSV 1990. Um tinto majestoso, embora ainda não totalmente pronto. Portentosa estrutura tânica, mas de textura primorosa. Precisa de tempo na taça para se expressar, mas seus toques de especiarias, flores e de café, são notáveis. Mais alguns anos, e tudo estará em perfeita harmonia. O mais completo do trio. 

img_47431uma trinca de 30 anos

Seguindo a vertical, mais um trio, agora do meio dos anos 2000, todos DRC. O didatismo deste trio é de livro. A safra 2004 é uma safra de clima frio com alta acidez. Percebe-se claramente estes fatores neste tinto, embora com uma elegância e delicadeza ímpares. Já o 2007, uma safra mais quente, a maciez, a generosidade dos aromas, os taninos macios e resolvidos, o tornam um vinho envolvente. Muito prazeroso no momento. Por fim, o monumental RSV 2005 com uma riqueza e estrutura invejáveis. Um tinto ainda saindo da juventude, mas com um futuro brilhante. Seus ricos aromas de cerejas, florais, e de especiarias, o credenciam a uma complexidade terciária de grande distinção. Precisa de pelo menos mais dez anos para se tornar um dos grandes RSV da família DRC.

img_4748juventude de elegância

entre um gole e outro …

Entre as sequências de flights, alguns pratos fizeram sucesso com os vinhos. A massa da esquerda (paccheri, uma espécie de rigatoni mais largo), foto acima, com molho de vitela, e a galinha d´angola com molho de seu próprio assado, acompanharam bem os tintos envelhecidos de Vosne-Romanée.

Não exatamente na sequência, mas uma dupla a mais de Saint-Vivants DRC, foto abaixo. A pronta e acessível safra 2000 com seus toques de especiarias, chocolate e sous-bois. Talvez o mais pronto entre todos provados, já com seus 18 anos. Em compensação, RSV 1996 vai no estilo do 2005, robusto e cheio de vida. Embora com quase dez anos, dá para perceber claramente como é lenta a evolução em garrafa de um DRC. O 96 está um pouco mais aberto em relação ao 2005, mas ainda tem muito a evoluir. Seus toques terrosos, de tabaco, e finas especiarias, são muito harmoniosos.

Concluindo, os RSV Domaine Leroy 1990 e este DRC 1996 foram os melhores do almoço. Logicamente, o RSV 2005 é uma grande promessa!

img_4753potenciais diferentes de safras

A foto abaixo lembra bem duas grandes seleções de futebol como Brasil e Alemanha. Grandes títulos, passados gloriosos, e tradição de longa data. Contudo, em alguns embates na história, acontece um 7×1 da forma mais surpreendente possível. Foi o que aconteceu com este Petrus 1955 que estava perfeito. Não que o La Tâche 1990 não seja um grande vinho e com certeza, tomado isoladamente, arranque suspiros dos mais exigentes amantes do vinho. Mas o fato é que o Petrus fez 5×0 em vinte minutos. Não dava mais para alcançar, acabou o jogo. Que vinho fantástico! com seus aromas de adega úmida, cogumelos, trufas, chocolate, café, e vai por aí  afora. Mais um vinho de curriculum. 

img_4751aqui foi mais ou menos os 7×1, lembram?

O vinho de encerramento depois deste Petrus não poderia ser apenas ótimo. Tinha que ser algo impactante. Eis que chega à mesa um Vintage Port 1966 da tradicionalíssima Casa de Porto Graham, outra maravilha. Como é bom provar um Vintage em sua plenitude com todas as vicissitudes do tempo!

Sabe aquele Porto onde o álcool está totalmente integrado à massa vínica em perfeito equilíbrio!. Pois bem, este vinho tinha tudo isso com taninos totalmente polimerizados e em harmonia com seus outros componentes. Um licor de frutas negras sensacional, especiarias, toques de torrefação lembrando café, chocolate e notas balsâmicas. Acompanhou muito bem o bolo de aniversário com chocolate amargo de um querido confrade de humor peculiar. Vida longa a você meu amigo!

img_4739o auge de um Vintage Port!

Para esticar um pouco mais o papo, Panna Cotta de saída, cafés, e alguns Cohibas de estirpe, o belo Talismán Edición Limitada 2017 Ring 54. Um charuto super elegante do começo ao fim, mantendo como poucos, potência e elegância no mais alto nível.

Alguns Negronis para refrescar porque ninguém é de ferro!

O barquinho vai, a noitinha cai …

E assim mais um encontro memorável com amigos de generosidade extrema, alto astral, desfrutando os prazeres da mesa e vinhos que nos fazem pensar. Agradecimentos a nosso grande Maestro que sempre turbina nossos encontros. Saúde a todos e que Bacco nos proteja!

A DOCG Aldo Conterno

1 de Junho de 2018

No reputado terroir de Barolo, um clássico DOCG (Denominazione di Origine Controllata e Garantita) do Piemonte, existe um Barolo à parte de nome Aldo Conterno, especialmente sua cuvée especial, Granbussia. Com vinhas localizadas em Monforte d´Alba, Granbussia nasce da mescla das vinhas Romirasco (70%), Cicala (15%) e Colonnello (15%), somente nas grandes safras.

e9959437-0890-4434-8296-db257fb448aca cúpula reunida em Magnum 

As vinhas Romirasco, espinha dorsal do blend, são plantadas em solo argilo-calcário rico em ferro, um dos terroirs mais austeros para Barolos de grande longevidade. A idade das vinhas gira entre 50 e 55 anos.

As vinhas Cicala e Colonnello complementam o blend, onde Cicala confere mais músculo, mais potência ao vinho, enquando Colonnello fornece certa delicadeza, finesse ao conjunto.

Normalmente, um Granbussia passa cerca de três anos em botti (toneis grandes) e mais seis anos em garrafa, antes de ser liberado ao mercado. A herança de Aldo Conterno é de manter a tradição dos grandes Barolos sem perder de vista a dosada modernidade que o tempo exige. Percebe-se em seus vinhos, a austeridade e estrutura de seus grandes Barolos, mas ao mesmo tempo, uma fruta bem presente, taninos bem trabalhados, e um equilíbrio somente encontrado nos grandes vinhos.

onze anos sur lies

Num belo almoço realizado na Fazenda Sertão, o champagne acima, um Dom Pérignon Oenothéque 1995, abriu os trabalhos. Ele equivale atualmente à nomenclatura P2, conhecida também como segunda plenitude. Trata-se de um envelhecimento prolongado sobre as borras (sur lies) antes do dégorgement. Um champagne complexo, muito fresco, mesclando aromas de brioche, frutas tropicais, e fino tostado. O contato sur lies conserva as borbulhas e uma intensa mousse de maneira admirável, além de conferir uma textura macia ao conjunto. Acompanhou bem ovos levemente cozidos com gema mole e caviar.

harmonização de delicadeza

Para manter o alto nível das borbulhas, em seguida foi servido um champagne Cristal safra 2005. Já com toques envelhecidos, mas com incrível frescor, a maciez e as notas adocicadas do Cristal deram as mãos para um prato de vieiras levemente chapeadas com manteiga e ervas. Aí sim, já estávamos prontos para os Barolos …

img_4703Angelo Gaja não podia faltar

Já estava esquecendo de Angelo Gaja, imperdoável. Um dos melhores brancos italianos, se não for o melhor. De estilo francês e extrema elegância, esse Chardonnay prima pelo equilíbrio e acabamento fantásticos. Embora já com mais de dez anos, seu frescor é incrível. As vinhas de Gaia & Rey localizam-se em Treiso, região do Barbaresco, em solo calcário com 3,6 hectares de área, plantadas em 1979. A fermentação ocorre com leveduras naturais e o vinho amadurece num mix de barricas francesas por seis a oito meses. O resultado é um branco de fruta delicada com perfeita conjunção com a madeira. Esta no nível dos bons Puligny-Montrachet da Borgonha. 

img_4711diferentes momentos de evolução

O trio acima deu o pontapé inicial. O mais antigo, safra 1985, já estava no seu limite de evolução. Não foi das grandes safras deste ícone, mas manteve a classe de sempre. Seus aromas alcatroados e de chocolate escuro (cacau) imperavam num conjunto harmonioso. Não tinha grande persistência, mas seu equilíbrio e final de boca bem acabado eram notáveis.

Agora o 99 e 2005 eram vinhos de grande estrutura em momentos diferentes de evolução. O 99 tinha taninos extremamente finos e lindos toques de alcaçuz. Um Barolo de alta costura. Já o 2005, um tanto arredio, inquieto, próprio de sua juventude. Melhorou muito na taça, necessitando de decantação. Será certamente, um dos grandes Granbussia nas próximas décadas.

img_4712o ponto alto da degustação

Aqui, o ponto alto da degustação. O Granbussia 1989 é considerado pelo Gambero Rosso, o melhor Granbussia de toda a história. De fato, quando fizeram este vinho, jogaram a fórmula fora. Sua juventude se equipara ao 99 degustado acima. Um fresco, uma riqueza de fruta, taninos de rara textura para um Barolo. Enfim, uma maravilha. 

Já o 1990, outro grande vinho, ficou um pouco prejudicado com a comparação, além de uma garrafa de evolução um pouco avançada. De todo modo, outro Barolo de destaque. Taninos finos, aromas terciários bem delineados, e um final marcante e etéreo. Estávamos neste momento, no auge dos pratos e dos vinhos.

img_4713irmãos de estilos diferentes

Briga de titãs e dois gênios do Piemonte, os dois irmãos Aldo e Giacomo Conterno. O Granbussia 1988 é um monstro de vinho ainda não totalmente pronto. Muita estrutura, camadas de taninos, mas uma finesse que só Angelo Gaja consegue nessas terras. Monfortino é a personificação da mais austera tradição piemontese, cheio de virilidade, tensão, uma acidez incrível, e uma montanha de taninos. Seu processo de construção passa por longa maceração na vinificação e longo envelhecimento em botti (grandes toneis). O resultado é um Barolo indestrutível. Embate sem vencedores, a despeito do gosto pessoal que deve ser sempre respeitado.

pratos de resistência

Para enfrentas essas feras, um menu reforçado se fez necessário. Entre vários pratos como Rabada, cabrito, polenta, lasanha, a foto acima, ilustra uma polenta com molho de calabresa e um cabrito com batatas. Aqui se separam os homens dos meninos …

img_4714Alsace em alto nível

Para celar este magnifico almoço, somente um vinho exótico, de presença marcante, como o Vendange Tardive do excepcional produtor alsaciano Zind-Humbrecht. No caso, um Pinot Gris do vinhedo Heimbourg safra 1994. Este é um dos melhores vinhedos de Zind-Humbrecht com ótima exposição solar e grande declividade. Na parte alta do vinhedo de solo pedregoso e de natureza argilo-calcária são somente 1,6 hectare de vinhas da cepa Pinot Gris com baixíssimos rendimentos (menos de 20 hl/ha). O amadurecimento das uvas é lento e de grande concentração. Um vinho de ótima textura em boca e um equilíbrio fantástico entre açúcar e acidez. As notas delicadas de frutas brancas maduras, de flores e de mel, são notáveis. Um final de tarde delicioso!

Mais uma vez, os agradecimentos a todos os confrades, em especial ao nosso Maestro, que proporcionaram esse encontro com vinhos tão distintos e de safras maiúsculas. Depois deste banquete nababesco, é hora de temperança, já pensando nas próximas orgias. Saúde a todos!

Pauillac e o caminho das pedras

29 de Maio de 2018

De todos os fatores de terroir para explicar a excelência dos tintos de Bordeaux, o fator drenagem do terreno parece ser o mais determinante a ponto de persistir o ditado na chamada margem esquerda: “o solo do Médoc muda a cada passo”. Nesse sentido, as profundas camadas de cascalho fazem da comuna de Pauillac, o terroir perfeito para o cultivo da Cabernet Sauvignon, cepa protagonista no tradicional corte bordalês. Não nos esqueçamos que nesta comuna saem três dos cinco Premier Grand Cru Classé de 1855.

pauillac terroirhavia uma pedra no caminho …

Com esse intuito, nos reunimos no simpático Ristorantino, sempre no comando do dinâmico Ricardo Trevisani. Sete garrafas devidamente escolhidas se defrontaram em interessantes flights com grandes surpresas. Antes porém, algumas borbulhas para animar a festa. Afinal, ninguém é de ferro …

baixíssimas produções

O produtora acima, Marie-Courtin elabora apenas algumas milhares de garrafas na Côtes des Bar, região sul de Champagne, a meio caminho de Chablis. Trata-se de um Blanc de Noirs (100% Pinot Noir)  de um vinhedo de apenas 2,5 hectares com vinhas entre 35 e 40 anos. É um solo de caráter argiloso, muito propício ao cultivo da Pinot Noir. Um champagne fresco, gastronômico, e de boa complexidade, já que foram três anos de contato sur lies antes do dégorgement. Esta cuvée 2013 chama-se Concordance. Belo início!

bela harmonização

Todas as atenções estavam voltadas para este champagne curioso e surpreendente até a chegada de um Krug. Só que não era simplesmente um Krug, o que já é motivo de êxtase, mas um vintage, ainda por cima da safra de 1990 com 95 pontos. Aí para tudo! Que Champagne maravilhoso!

Equilíbrio perfeito, bom corpo sem ser pesado. Ao contrário, sua incrível acidez lhe dá uma leveza ímpar. Os aromas cítricos, de especiarias, de gengibre, dão um toque oriental inconfundível. O final de boca e a longa persistência é digna dos grandes champagnes sem denotar qualquer sinal de idade. Perlage e mousse perfeitos. E olha que estamos falando de mais de 25 anos …

A harmonização da foto acima, um tartar de atum com limão-caviar ficou divina. Este limão-caviar, mais uma das descobertas do inquieto Ricardo, é uma planta de origem australiana parecida com um quiabo. Cortado nas extremidades, após certa pressão no mesmo, começa a sair as bolinhas verdes em cima do tartar com um sabor marcante e delicado de limão. A acidez e os toques cítricos do champagne ecoaram no sabor do prato.

img_4688a enigmática safra 2000

Foi então dada a largada com o trio acima às cegas da safra de 2000. As notas, muito parelhas: Mouton 96+ pontos, Pichon Lalande 96 pontos, e Pichon Baron 97 pontos. Pelas notas, pode-se imaginar a dificuldade da degustação. Aí começaram as surpresas. 

O mais pronto, o mais sedutor, de aromas terciários mais presentes, foi o Mouton Rothschild, o único Premier Grand Cru Classe deste flight. Os dois Pichons, bem mais fechados, vislumbrando grande guarda em adega. Evidentemente, Pichon Lalande é bem mais abordável, agrada muito mais. Não é à toa, que em degustações às cegas com a presença dos Premiers, ele costuma aprontar. Taninos macios, aromas doces, é difícil resistir a seus encantos. Tem um ótima estrutura para evoluir em adega. Por fim, Pichon Baron 2000, um vinho sempre um tanto duro, de personalidade distinta de seu eterno concorrente. Apresenta uma acidez que me incomodou um pouco e taninos de textura um pouco rústica para o nível do painel. Contudo, as opiniões foram bem variadas. Afinal, a unanimidade é burra …

img_4691as aparências enganam …

Trata-se de uma safra precoce, onde os 89 costumam abrir com facilidade. No caso do Lynch Bages, é uma das grandes safras de sua história, comparável ao mítico ano de 1961. É bem verdade que Parker exagerou em sua última nota para este 89 com 99+ pontos. Sua média sempre girou em 95 pontos, já um ótimo nível. De fato, é um vinho tecnicamente superior ao Lafite nesta safra, embora de estilo totalmente diferente. É um Pauillac de livro com toques de cassis, fino tostado, e notas terciárias típicas. Ainda pode evoluir em adega. Já o Lafite, mesmo não sendo de suas melhores safras, é de uma elegância ímpar, um verdadeiro Borgonha dentro de Pauillac. Os aromas etéreos, de cedro, de incenso, são elegantes e marcantes. Boca equilibrada, embora não muito longa. Um vinho de enorme prazer para ser tomado neste momento.

pratos de sabor e elegância

Entre tapas e beijos, além dos vinhos, as comidinhas brilharam com sabores e aromas sutis. O risoto de linguiça com vinho tinto e radicchio foi muito bem com a dupla de 89, enquanto o cordeiro em seu próprio molho de redução com polenta, brilhou ao acompanhar a dupla de ouro abaixo da emblemática safra de 1982.

img_4695a grandeza de Pauillac

A foto acima vale mais que mil palavras. 200 pontos é muito pouco para a grandeza desses vinhos. Felizmente, tenho provado esta dupla lado a lado de vez em quando. E cada vez mais, o Latour mostra sua grandiosidade. Eu não sei exatamente onde esse vinho ainda pode chegar, mas trata-se de um monstro engarrafado. Uma estrutura de taninos monumental e uma persistência aromática sem fim. Do outro lado, Mouton sempre sedutor, macio, com seus toques terciários bem desenvolvidos, e cada vez mais, em seu apogeu. Dá pra tirar foto juntos, mas o Latour está o constrangendo cada vez mais.

Sauternes exótico

Realmente uma tarde especial para um Sauternes especial, Chateau Gilette Crème de Tête 1975. Este Chateau pertence à sub-região de Preignac, pouco conhecida em Sauternes. O mais curioso é que este vinho não tem nenhum contato com madeira, ao contrário do grande Yquem. Nesta safra, o vinho ficou em tanques de cimento até 1991, quando foi engarrafado. Portanto, seus aromas terciários não têm interferência da barrica. O lado mineral, salino, e de castanhas portuguesas, são marcantes e muito bem fundidos. O combinação com o pudim de pistache deu um toque de exotismo, acompanhando o estilo do vinho. Sensacional!

Dry Martini: a excelência dos Drinks

O almoço se encerrou em alto estilo. Algumas baforadas com e essência de Vuelta Abajo, uma caixa exclusiva de Montecristo Vitola Especial 80 Aniversario. Trata-se de um Puro com 55 de ring e fortaleza média/alta, acima do habitual para a linha Montecristo. Entre Porto Graham´s 10 anos, Grappa Nonino, e cafés, um Dry Martini “comme il faut” deu uma ar de sofisticação à mesa.

Agradecimentos quase sem palavras aos confrades, numa tarde de grandes vinhos, conversa animada, e amizades cada vez mais consolidadas. Que Bacco sempre nos proteja com a bebida dos Deuses. Saúde a todos!

Importadora Clarets e Domaines Delon

27 de Maio de 2018

São pouquíssimas as importadoras que a pessoa pode comprar um vinho qualquer do portfólio sem conhecer muito sobre o mesmo. Uma delas é a Clarets com vinhos muito bem selecionados pelo sommelier Manoel Beato, o mais ativo e experiente no ramo da restauração, origem clássica da profissão. No comando da Clarets está à frente dos negócios o belo casal, Guilherme Lemes e Keren Marchioro. Maiores informações, http://www.clarets.com.br 

Em mais um convite da importadora, conhecemos as novidades trazidas pela família Delon, onde seu mais famoso ícone é o Chateau Léoville Las Cases, um super Deuxième da comuna de Saint-Julien. Antes porém, um belo início com três Cavas da família Juvé & Camps, numa ordem crescente de tempo em contato sur lies (sobre as leveduras). Intermediando a degustação, partimos para alguns tintos da Puglia da nobre Tenute Rubino. 

img_4681Familia Juvé & Camps

Situada em Sant Sadurní d´Anoia, a melhor região de Cavas, Juvé & Camps controla todo o processo de elaboração, desde vinhedos próprios, até todas as fases de vinificação.

Começamos a degustação com um Cava de entrada por R$ 132 reais, já um Reserva, chamado Cinta Púrpura em versão Brut. Elaborado com as castas brancas tradicionais em iguais proporções, temos a Xarel-lo, Macabeo (conhecida também como Viura em Rioja) e Parellada. Esta última, dando um toque gracioso ao conjunto, enquanto a Xarel-lo aporta estrutura. O vinho passa cerca de 24 meses em contato sur lies antes do dégorgement. 

Em seguida, passamos a um Cava mais estruturado, gastronômico, chamado Reserva de Familia Gran Reserva na versão Brut Nature safra 2014. A alta proporção de Xarel-lo fornece mais corpo e estrutura ao vinho. Além disso, uma certa austeridade pela secura elegante deste Cava completa o conjunto. O vinho passa cerca de 36 meses sur lies, aportando maior complexidade. Este exemplar, na faixa de R$ 183 reais.

Finalizando as borbulhas, mais um Gran Reserva, desta vez Brut, chamado Gran Juvé & Camps safra 2013. A novidade é que aqui temos 25% de Chardonnay no blend tradicional, além  das três uvas já citadas. Esse fator, confere mais elegância ao conjunto. Conferindo ainda mais complexidade, o vinho passa cerca de 42 meses sur lies, antes do dégorgement. Seu preço fica na faixa de R$ 332 reais.

img_4679Tenute Rubino

Partindo agora para Puglia, região sul da Italia, temos três exemplares da Tenute Rubino, todos tintos. Começando pelo Oltremé IGT Salente 2016, elaborado pela uva autóctone 100% Susumaniello de baixa produtividade, sem passagem por madeira. Um vinho de entrada por R$ 115 reais com notas de frutas maduras, especiarias, e um traço de mineralidade.

Em seguida, temos o Jaddico DOC Brindisi Riserva 2013 saindo por R$ 199 reais. Um vinho já mais estruturado com um blend de 80% Negroamaro e 20% Susumaniello. Vinificação com maceração mais longa e afinamento de 8 a 9 meses em barricas francesas de primeiro uso. Tinto bem equilibrado, madeira bem dosada, e muito gastronômico.

Finalizando o trio italiano, temos o Cru Torre Testa IGT Salento 2015 por 299 reais. Voltamos agora à uva 100% Susumaniello de baixíssimos rendimentos de videiras antigas. Vinho de longa maceração com amadurecimento em barricas francesas de primeiro uso por 12 meses. Um vinho potente de álcool, bela estrutura tânica, e notas marcantes de licor de frutas (cerejas, amoras). De certo modo, lembra um Amarone. Vinho bom para uma lareira.

Domaines Delon

O gran finale ficou para os vinhos do grupo Delon que entre outros, elabora o grande Léoville Las Cases, um dos mais reputados tintos bordaleses da comuna de Saint-Julien. Começando pelo Chateau Potensac, uma das referências em Cru Bourgeois de tradição, foi servido inicialmente seus segundo vinho, Chapelle de Potensac 2014. Um vinho de R$ 165 reais que já entrega muito prazer para quem aprecia os aromas e sabores de um Bordeaux. Taninos macios, toques terciários elegantes, e muito bem equilibrado. Uma bela compra para o dia a dia.

img_4677prazer sem ferir o bolso

Já o Potensac 2012, um tinto mais estruturado, mais fechado em aromas, mas com bom potencial de guarda. Deve ser obrigatoriamente decantado, onde as notas de cassis, ervas, e tostados, vão se abrindo pouco a pouco. Sai por R$ 325 reais na importadora.

img_4678elite do Haut-Médoc

A última dupla fica por conta do Chateau Léoville Las Cases, começando pelo seu segundo vinho, Le Petit Lion 2012, saindo por R$ 570 reais. Um vinho ainda em evolução, mas menos estruturado que o Grand Vin. Devidamente decantado, já pode ser apreciado, sobretudo acompanhando pratos de carnes vermelha, notadamente o cordeiro. Pode ser adegado por alguns anos ainda, sem problemas.

A apoteose ficou reservada mesmo para o grande Léoville Las Cases safra 2013, uma safra bem problemática. Mesmo assim, este exemplar tem 92 pontos de Parker com apogeu previsto para 2030. Um tinto super elegante com taninos finíssimos de rolimã. Muito equilibrado, percebe-se o cassis, a madeira nobre, e os traços de tabaco que ainda estão por vir. Um vinho que vai evoluir bem em adega mas que neste momento, pode ser prazeroso pelos aromas primários ainda muito presentes. Sai por R$ 1930 reais na importadora com a vantagem de ficar pronto mais cedo para o consumo.

Agradecimentos à importadora Clarets por mais esta oportunidade, pela bela recepção e apresentação dos vinhos. Sempre no aguardo de mais novidades. Abraço a todos!

Léoville Las Cases em parcelas

17 de Maio de 2018

Vizinho ao grande Latour, Chateau Léoville Las Cases é o mais prestigiado e consistente entre os Léovilles (Barton e Poyferré). Na época da revolução francesa, a propriedade foi dividida formando os três Léovilles, sendo a maior parte, 3/5 da área, destinada ao Las Cases. O mapa abaixo, mostra o perfil geológico do vinhedo num terroir complexo, entre pedras (graves), areia, argila, e limo. Até 2007, Clos du Marquis era considerado seu segundo vinho, embora já fosse um vinhedo separado. Atualmente, seu segundo vinho é chamado de Petit Lion. Pela ótima consistência, ano após ano, Clos de Marquis merece um status independente, fazendo parte desta nobre propriedade.

leoville las cases mapa

colado ao Chateau Latour

No vídeo abaixo, num determinado momento, aparece a distribuição das vinhas do Chateau. A maioria das parcelas de Cabernet Sauvignon ficam na parte mais alta onde a camada de cascalho é mais espessa. Já as vinhas de Merlot ficam mais próximas ao rio num solo um pouco mais frio com boa presença de argila. No caso das pequenas porções de Cabernet Franc, o solo arenoso com pedras é o mais indicado.

A separação da propriedade com o Chateau Latour se dá através de uma das valas de drenagem do Médoc, Ruisseau de Juillac, onde há um modificação na espessura do cascalho. Léoville Las Cases juntamente com Ducru-Beucaillou são os dois mais reputados vinhos da comuna de Saint-Julien, embora de estilos diferentes.

distribuição das vinhas no terreno

Após esta introdução, vamos ao objetivo do artigo, baseado numa degustação sui generis da ótima safra de 1986. Numa caixa exclusiva do Chateau nesta safra, foram dispostas além do Grand Vin, garrafas separadas de todas as uvas que compõem o blend. São elas: Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, e uma pitada de Petit Verdot.

d99aa670-51dd-4118-ae07-92ea3a18827f.jpgKit completo com proveta graduada

Começando pelo Grand Vin, Léoville Las Cases 1986, é uma safra de 100 pontos Robert Parker com apogeu previsto entre 2030 e 2035. Pela potência de taninos desta safra tão dura, haja vista, o grande Mouton com 100 pontos que parece  não  abrir nunca, este Léoville está bem abordável. Tem um estrutura densa de taninos, mas de ótima textura. Os aromas começam a se abrir pouco a pouco, denotando as notas de tabaco, chocolate, e cassis. Muito equilibrado e uma expansão de boca notável.

varietais e duas garrafas do Grand Vin

Quanto aos varietais degustados separadamente, percebemos claramente que o Cabernet Sauvignon é a espinha dorsal do Grand Vin, fato previsto, já que se trata de vinhos de margem esquerda. A Merlot tem aquele lado macio, afável, que complementa muito bem as arestas masculinas do Cabernet Sauvignon. Já o Cabernet Franc, é um vinho muito mais de aroma que textura e peso em boca. Ele participa sobretudo no blend, dando um toque de elegância. Por fim, a Petit Verdot fornece o tempero do blend. É uma uva tão potente como a Cabernet Sauvignon, porém falta-lhe classe, denotando uma certa rusticidade. Ela funciona mais ou menos como a pimenta em termos de tempero. Na medida certa, levanta o sabor. Contudo, no exagero, pode estragar o prato.

Feitas essas considerações, o blend do Grand Vin fica assim: 66% Cabernet Sauvignon, 19% Merlot, 11% Cabernet Franc, e 4% Petit Verdot. Após a degustação em separado dos varietais, começou a brincadeira de composição de blends individuais em proporções variadas. Teve gente que excluiu uma ou outra uva do blend, outros optaram por proporções altas de Cabernet Sauvignon. Enfim, uma experiência divertida.

Dentre as experiências, a mais didática foi compor o blend do Grand Vin na proveta nas proporções indicadas acima, e comparar com o vinho original elaborado no Chateau. Embora a proporção de uvas seja a mesma, ficou claro que faltava uma integração melhor dos componentes do vinho quando mesclamos as uvas na proveta. A explicação é mais que óbvia. Na composição do Grand Vin, os blends são formados logo após a fermentação  que é realizada separadamente das uvas. Passado um período de descanso nos tanques, é realizado o blend e o vinho vai para as barricas. Neste período, há uma integração total do vinho, aparando arestas, enriquecendo texturas e aromas.

No caso de misturar os varietais na proveta que envelheceram separadamente nas barricas e na garrafa, esta integração não fica perfeita. Melhora-se o conjunto, mas a perfeição, a amalgamação total, não acontece.

Notas Robert Parker para os varietais

  • Cabernet Sauvignon – RP 93 pontos (o rei da margem esquerda)
  • Merlot – RP 87 pontos (útil no blend, fraco no individual)
  • Cabernet Franc – RP 90 pontos (a elegância do blend)
  • Petit Verdot – RP 91 pontos (a pitada de tempero para realçar o blend)

Enfim, uma experiência inesquecível, e extremamente didática. Agradecimentos especiais ao nosso Maestro por mais esta prova de generosidade entre amigos. Saúde a todos! 

Remadejo: Algoritmo da Felicidade

13 de Maio de 2018

Bem mais perto do que se imagina, nos arredores de São Paulo, um cenário lindo para uma festa bordalesa com certeza. O anfitrião cuidou de todos os detalhes para que os convivas se sentissem no paraíso de Bacco, Fazenda Remadejo.

IMG_4616.jpgvista de acordo com os vinhos

Na chegada para matar a sede, champagne Perrier-Jouet Belle Epoque 2004, cuvée especial da Maison com um ar de “Meio-dia em Paris”. O blend é composto de partes iguais de Chardonnay e Pinot Noir e uma pitada de Pinot Meunier. Com mais de seis anos sur-lies, os aromas de brioche são enfatizados, mas sem exageros. A leveza, o lado floral e de frutas cítricas, fazem deste champagne uma bebida perfeita para aperitivar. 

a chegada e a recepção

Com a chegada de todos, fomos para a adega do anfitrião checar um Petrus 1997 em Magnum, preparando as papilas. Surpreendentemente, este Petrus estava bem abordável. Normalmente em tenra idade, Petrus se mostra duro e sem muita conversa. Contudo, seus taninos estavam afáveis e seus aromas bem agradáveis, mostrando a grandeza deste mito de Pomerol.  Um lado terroso, sugerindo trufas em seu envelhecimento, além de especiarias e frutas negras como ameixas, por exemplo. Não está na elite dos grandes Petrus, mas é delicioso, equilibrado, e com todas as digitais do Chateau. Robert Parker, 91 pontos com apogeu previsto para 2025. Bela pedida!

227feffa-dcd1-4461-a17c-0bfa322225c6.jpgas boas vindas do encontro

Os tintos começaram arrasadores na mítica safra de 82. Dois 100 pontos e Haut Brion com 95, conforme foto abaixo. Começando pelo Latour, é redundante elogiar este vinho. Segundo Parker, Latour 82 vai mais longe que o 61, sendo este último, um monumento a Pauillac. Enfim, o vinho estava maravilhoso. Taninos finíssimos, o toque aromático de couro fino, e uma persistência aromática incrível. Vai longe em adega. Já os outros dois, bem mais prontos e igualmente espetaculares. Começando pelo Le Pin 82, a melhor safra do chateau, e um dos melhores entre todos os 82, estava uma delicia na boca. Macio, licoroso, lembrando cerejas escuras, traços de chocolate, e um fundo mineral. Taninos totalmente polimerizados, estando no esplendor de sua forma. Um Pomerol de livro. Por fim, Haut Brion, outro margem esquerda de consistência incrível. Sempre um prazer bebe-lo, embora ainda não totalmente pronto. Seus aromas de estábulo, ervas finas, caixa de charuto, são de arrepiar. Boca elegante, equilibrada e um final de rara beleza. Vai mais uns dez aninhos fácil em adega.

IMG_4623.jpga santíssima trindade

Em seguida, mais um trio de tirar o fôlego, de outra safra mítica, 1961. Entretanto, por questões de garrafa, não brilhou tanto como no flight anterior. Com exceção do rei Petrus, os outros dois estavam bem cansados. Petrus 61 está na elite dos grandes da história com 99 pontos. Mesmo esta garrafa, estava um pouco cansada, mas longe de qualquer decadência. Seus aromas terciários eram etéreos, lembrando trufas, adega úmida (não confundir com bouchonné), toques minerais e de manteiga de cacau. Boca harmoniosa e ampla. Um Petrus em seu apogeu, o que não é fácil.

Falando agora do Chateau Mouton Baron Philippe, é um vinhedo colado ao grande Mouton Rothschild. Este Cru Classe se chamava Chateau d´Armailhac na época que foi comprado pelo lendário Baron Rothschild. Entre os anos de 1956 e 1988, o Chateau mudou de nome para Mouton Baron Philippe, voltando após esta data, ao nome original que permanece até hoje, Chateau d´Armailhac. Quanto ao vinho degustado, mesmo em Magnum, era o mais cansado de todos. Tinha um interessante toque de funghi porcini, mas a boca já comprometida, secando o palato e faltando fruta. Na única anotação de Parker, ele dá 91 pontos e diz ter atingido o apogeu em 2003. Acho que ele tem razão …

No último vinho, Pichon 61, é um dos grandes do Chateau em safras antigas, juntamente com o 1945. Parker dá 95 pontos com apogeu previsto para o ano 2000. Portanto, nas boas garrafas é um vinho no auge com muita sorte. Este porém, já viveu melhores momentos. Percebe-se que foi um grande vinho pela elegância  e taninos de rara textura. Contudo, a boca já está seca, faltando fruta, e percebe-se uma acidez dominante, sem integração com o conjunto. Em vinhos antigos, o que vale são as grandes garrafas …

IMG_4624.jpgo campeão no centro do podium 

Fora os bordaleses, outros vinhos abrilhantaram o almoço como este excepcional Madeira abaixo, safra 1928 com a uva Sercial. Esta uva elabora os grandes Madeiras secos, para aperitivos, ou para pratos específicos como patês de caça. Neste caso, acompanhou muito bem uma brandade de bacalhau em cama de massa folhada. Seus toques balsâmicos, de jaca madura, especiarias como cardamomo, e frutas secas, são espetaculares. A boca é harmoniosa e com uma persistência sem fim.

Madeira Old School

Outro ponto alto do almoço, foi o cuscuz preparado por um dos confrades com assessoria de Bella Masano (restaurante Amadeus), úmido e saboroso. Foi devidamente escoltado pelo Montrachet 2005 do Domaine Jacques Prieur. O vinho estava no auge de sua evolução com muita fruta, madeira bem integrada, e o corpo dos grandes Montrachets. Para ter uma ideia da exclusividade dos Montrachets, este é de um vinhedo de 0,59 hectares, quase um jardim. O vinho é fermentado em barricas novas e passa cerca de 21 meses em carvalho, antes de ser engarrafado. Enfim, o modelo clássico do feliz casamento de  Chardonnay e barrica.

Montrachet em seu apogeu

Encerrando o almoço, não teria foto melhor do que esta abaixo. Esses dois monstros já são uma sobremesa. Começando pelo Yquem 1976, ano rasgado no rótulo, é um dos melhores para este Chateau lendário. O vinho nem precisa de um  crème brûlée. Ele em si é o próprio creme. Aromas com todos os tons de caramelo, frutas maduras, toques de café, damascos, entre outros. Boca untuosa, perfeitamente equilibrada, e uma persistência tectônica. Um dos melhores que já provei! e não foram poucos, graças a Deus!

1d032a72-83e0-43c3-bd4a-a1b6d6983258.jpga perfeição em branco e tinto

Agora o que dizer de um Taylor Vintage Port 1963, um ano antológico para Portos. Completamente desenvolvido em seus aromas terciários com uma profusão de chocolates, cacau, frutas escuras confitadas, toques balsâmicos, e uma incrível nota de tâmaras medjool (jumbo). Taninos totalmente polimerizados, sedosos, álcool perfeitamente integrado na massa vínica, e mais uma vez reluta em deixar a boca, numa persistência interminável.

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Além de tudo isso, teve ainda uma brincadeira com o Léoville Las Cases 1986. Esta história fica para o próximo artigo, em detalhes jamais revelados.

d84b533c-88ab-4541-8b00-aed2f11eefc5.jpgEsse é o cara!

Agradecimentos a todos os confrades, em especial ao anfitrião e sua linda família, pela recepção calorosa, sofisticada, e sincera. Que Bacco nos proporcione cenários e encontros como esse. Saúde a todos!

Trinca francesa e um blefe espanhol

6 de Maio de 2018

Como num jogo de cartas, a jogada final ou o blefe faz parte do cenário. Num almoço aparentemente despretensioso, a ideia do Maestro, nome dado carinhosamente a um dos confrades, era lançar 500 pontos na mesa com cinco vinhos irrepreensíveis. Embora tenha havido um acidente de percurso, um Mazis-Chambertin valeu por dois, um vinho de ilha deserta. Nesse jogo de paciência, vamos revelar os segredos pouco a pouco.

1845 garrafas: isso que é exclusividade!

Felizmente, já provei algumas garrafas deste branco maravilhoso de Madame Leroy. Esta garrafa, neste momento com quase 10 anos, está no auge de seu vigor. Bem de acordo com a safra 2009, carente de uma acidez mais presente, o vinho tem uma maciez incrível com final de boca bastante longo. Seus aromas de caju, frutas secas, e lascas de madeira tostada, são absolutamente divinos. Um Corton-Charlemagne de estilo corpulento, batendo de frente com os mais potentes Montrachets.

IMG_4591.jpgmassa recheada com vitela

Para acompanhar esta maravilha, um prato de massa com vitela envolta num molho cremoso e delicado do restaurante Nino Cucina. Na foto acima, dá para perceber que a textura cremosa do molho e seus sabores bem balanceados deram as mãos para este branco fantástico.

adquirido por Maison Leroy

Lembra da ilha deserta!. Pois bem, esse foi o vinho do almoço. Os vinhos do Hospices de Beaune são leiloados anualmente em novembro numa tradição de décadas. Ao longo da história, este hospital secular foi recebendo doações de terras em vinhedos muito bem localizados na Côte d´Or. O Hospices de Beaune tem uma equipe de vignerons e de vinificação que coordena com muita eficiência todo o trabalho artesanal na elaboração dos vinhos.

Este vinho em particular, Mazis-Chambertin Grand Cru Cuvée Madeleine Collignon, é um vinhedo de 1,74 hectare, localizado junto ao Grand Cru Clos de Bèze. Foi um donativo de Jean Collignon em 1976, sendo o nome da cuvée, uma homenagem à sua mãe. As vinhas foram plantadas em 1947 e os rendimentos baixíssimos.

Falar desta garrafa da excepcional safra de 1985 é complicado, mas o vinho estava divino. Madame Leroy não colocaria seu nome em vão. Com seus mais de 30 anos de vida, o vinho está esplendoroso. Uma cor linda de Borgonha envelhecido, sem sinais de decadência. Os aromas terciários de sous-bois, manteiga de cacau, alcaçuz, adega úmida, são de livro. Contudo, seu ponto alto é a boca, a qual normalmente num vinho neste estágio é mais delicada. Ao contrário, o vinho tem um vigor extraordinário, uma densidade sedutora, taninos de longa polimerização, e um final que ecoa em ondas, de grande expansão aromática. Esta começando a faltar dedos na minha mão para eleger os melhores vinhos da minha vida …

Um pouco do Hospices de Beaune

Ao todo, são 60 hectares de vinhas doadas ao longo do tempo, sendo 50 hectares de Pinot Noir. As vinhas têm em média, 34 anos. A maioria dos vinhos, tintos e brancos, são das categorias Premier Cru e Grand Cru. O objetivo é limitar os rendimentos em 30 hl/ha. São produzidas 50 cuvées por ano, sendo 33 para tintos, e 17 para brancos. No ano de 2017, foram vendidas 787 pièces (barricas de 228 litros), sendo 630 de vinho tinto, e 157 de vinho branco.

O blefe

Voltando à história das cartas, eis que surge o mítico Vega-Sicilia 1962, para muitos, o melhor Vega de todos, quase um Borgonha. Contudo, a rolha dava indícios que alguma coisa estava errada. Tanto o rótulo, como sobretudo a rolha, eram muito novos para um vinho desta idade. O re-cork se fosse o caso, não estava mencionado na rolha. E realmente na taça, o vinho decepcionou. Era até um belo vinho, poderia ser um Vega, mas longe de um verdadeiro 62, um tinto de sonhos. Coisas que acontecem …

poderia ser divino …

belo acordo

Mais uma vez, um prato de vitela cozida lentamente acompanhando legumes e batatas, criou sinergia com os tintos mais evoluídos, principalmente o grande Chambertin.

IMG_4596.jpgo mito Jean-Louis Chave

Continuando a saga dos 100 pontos na mesa, a foto acima mostra a cuvée especial do mestre Jean-Louis Chave, senhor dos melhores Hermitages na região escarpada do Rhône-Norte. Sabemos que os Hermitages de Chave primam pela união dos vários lieux-dits da apelação, formando um mosaico complexo e de grande longevidade. No caso da Cuvée Cathelin, a seleção de uvas privilegia o lieu-dit Les Bessards, o mais prestigiado e o que confere mais longevidade ao vinho. Portanto, é um vinho mais encorpado e mais potente, exigindo maiores doses de carvalho novo, o que na Cuvée clássica de Chave é limitada a 20%, no máximo. Esta Cuvée Cathelin começou com safra de 90, a qual provamos mais uma vez, e é so produzida em anos realmente especiais.

Quanto ao vinho, estava maravilhoso e evidentemente ainda muito novo. Os Hermitages têm uma capacidade de envelhecimento em garrafa fora de série. Normalmente, vinte anos eles levam brincando em adega. A cor deste exemplar ainda era escura e de grande vigor. Os aromas entremeavam geleia de frutas como framboesas, lindos toques de alcaçuz, e uma profusão de especiarias. Os toques terciários ainda eram tímidos, confirmando sua enorme longevidade. Enfim, uma Maravilha!

IMG_4599.jpgQual escolher: 89 ou 90?

A pergunta acima é fácil responder: fique com os dois. Esses Montroses de safras seguidas (89 e 90) são perfeitos e merecem os 200 pontos. Por incrível que pareça, este 89 tem mais estrutura e longevidade que o 90, uma safra teoricamente mais longeva. A cor ainda negra deste 89, bem mais escura que a do Cuvée Cathein comentado, vislumbra ainda longos anos de guarda em adega. Seu perfil de frutas escuras (cassis), tabaco, especiarias, cedro, e uma extensa cavalaria (toques animais e de couro), são precisos, intensos, e de uma tipicidade impar. A boca é densa, uma estrutura descomunal de taninos ultra finos, belo equilíbrio, e um final de boca arrasador. Depois dele, só o café e a conta …

Passando a régua, neste jogo de cartas não houve perdedores. Ao contrário, amizades fortalecidas, cumplicidade, generosidade, cada vez mais sedimentadas pela magia do vinho. Saúde a todos !


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