Archive for the ‘Áustria’ Category

Ensaios Enogastronômicos

8 de Setembro de 2016

Almoço entre amigos que gostam de vinhos e se arriscam em aventurar-se nas combinações à mesa, sempre podem descobrir novas alternativas. O sucesso ou fracasso está ligado ao conhecimento e bom senso na hora de assumir certas atitudes. Foi o caso de confrontar com vinho, belas alcachofras cozidas inteiras e servidas numa espécie de molho vinagrete como entrada. A alcachofra é um daqueles ingredientes ditos ardilosos, ou seja, com certa dificuldade em conviver com vinhos. Ela possui uma substância chamada cinarina que costuma metalizar sobretudo o sabor dos vinhos tintos ou então, provocar algum tipo de amargor e até mesmo, um sabor estranhamente doce. Para combater este inconveniente, a acidez de um vinho branco ajuda bastante.

alcachofra

toques provençais

Embora a opção por brancos com a uva Sauvignon Blanc seja segura e bastante indicada, arriscamos desta vez confrontar um Grüner Veltliner (uva autóctone) austríaco do excelente produtor Bründlmayer. Para quem não conhece o estilo de vinho austríaco, fica num meio termo entre a delicadeza de um alemão clássico e de um alsaciano, normalmente mais encorpado, quando falamos de Riesling, por exemplo. Este provado, apresentava corpo médio, toques cítricos e de frutas brancas delicadas, além da pimenta branca, típica da casta. Com acidez suficiente, a harmonização revelou um agradável toque vegetal, lembrando legumes, quase uma berinjela.

gruner veltliner

Bründlmayer: referência em vinhos austríacos

Como à mesa ainda havia um pouco de champagne Pol Roger envelhecido  com toques de evolução, mas sem sinais de oxidação, valeu a experiência de testa-lo também. Apesar de sua incrível acidez, a intensidade aromática e de sabores bem presentes, acabaram dominando a cena e passado por cima do prato. Testando e aprendendo …

Fazendo um parêntese no vinho acima, Weingut quer dizer produtor, sempre importante no rótulo. Bründlmayer é uma referência dentre os produtores austríacos. Kamptaler quer dizer vem de Kamptal, um dos melhores terroirs. Terrassen sugere que este vinhedo vem de terraços. No caso, dois. Um mais alto de terreno pedregoso, responsável pela elegância e mineralidade no vinho. Outro mais baixo, num terreno de loess (solo argilo-calcário formado pela ação dos ventos), fornecendo volume e estrutura ao vinho. De fato, vinhos alemães e austríacos trazem uma nomenclatura complicada no rótulo, embora sempre muito detalhada.

Outra agradável surpresa foi o Bordeaux 2004 que acompanhou o carré de cordeiro assado com purê de mandioquinha. A combinação em si é mais que clássica. O que surpreendeu foi o desempenho do Chateau Léoville-Poyferré 2004, um dos ícones de Saint-Julien, margem esquerda de Bordeaux. Pessoalmente, dos três Léovilles é o que menos me encanta na média. Contudo, na difícil safra de 2004 ele se superou. O corte de uvas neste exemplar foi de 2/3 Cabernet Sauvignon, majoritária no Médoc, e 1/3 Merlot com pitadas de Cabernet Franc e Petit Verdot.

poyferre 2004

destaque da safra 2004

Começando pela cor, magnifica, rubi escuro sem sinais de evolução. Fechado de início, a decantação por duas horas lhe fez muito bem. Extremamente mineral, as frutas escuras típicas de um margem esquerda, toques de ervas, chocolate, e uma ponta de tabaco e couro. Agradavelmente tânico e muito bem equilibrado. Os taninos relativamente duros desta safra estavam bem acima do esperado, de textura surpreendente. É vinho para pelo menos mais dez anos de boa evolução em adega. Uma das melhores pedidas para esta safra um tanto difícil na região.

carre-de-cordeiro

cordeiro e alecrim, um clássico

O carré acima com purê de mandioquinha (batata-barôa) escoltou bem o grande Bordeaux de margem esquerda. A textura da carne, os toques de ervas, e o sabor do assado, estavam no ponto para os taninos e aromas do vinho.

mil-folhas-torta-de-maca-e-tamara

trio de sabores

As minis-porções de sobremesa (foto acima) foram acompanhadas de Quinta da Romaneira Porto Tawny 10 anos. Com o mil-folhas, faltou textura ao vinho, além de sabores um tanto paralelos. Com a torta de maçã ficaria melhor um Tawny 20 anos, de traços caramelados e mais especiarias. Já com a tâmara medjoul, a combinação foi divina. Tanto a textura, intensidade de sabores e o grau de doçura de ambos tiveram sintonia perfeita. É importante frisar que as tâmaras devem ser deste tipo (medjoul ou medjool), pois são bem grandes, macias e agradavelmente saborosas.

bolivar-e-romeu-julieta

sabores marcantes e delicado

Para finalizar, dois cubanos de casas tradicionais, e ambos delicados. Romeu & Julieta Cedros de Luxe nº2 de bom fluxo, notas de especiarias e de chá. Já o Bolivar Belicosos, um velho conhecido, fugindo um pouco à habitual potência da marca. Praticamente imbatível em seu módulo.

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Encontro Mistral: Parte I

9 de Junho de 2016

Atualmente, é muito comum as grandes importadoras de vinho promoverem encontros entre suas principais marcas e seus clientes ou potenciais consumidores. Quem começou tudo isso, bem lá atrás, foi a importadora Mistral, referência em grandes rótulos no cenário mundial.

Sempre com grande público, é difícil pinçar um grupo de vinhos em meio a tantos expoentes. Em todo caso, sob alguns critérios como novidade, curiosidade, bom preço, além da qualidade do produto, separamos alguns rótulos em destaque.

Gaía

Não confundir com Gaja, o grande nome do Piemonte também importado pela Mistral. Neste caso, estamo falando da Grécia, terra dos vinhos lá na Antiguidade. Quem já leu o livro do grande sommelier italiano, Enrico Bernardo, campeão mundial em Atenas na Grécia, pode verificar sua menção ao belo Vinsanto da ilha de Santorini. Elaborado com a uva autóctone Assyrtiko, é um vinho que deve ser conhecido. Original, concentrado, muito equilibrado, e longo em boca. Precisa ser um toscano muito bom para poder ombreá-lo. E digo mais, em termos de qualidade e com preço bem menor, é o que mais se assemelha aos Vinsantos do consagrado produtor toscano de Montepulciano (não a uva e sim, o vilarejo), o excepcional Avignonesi, também trazido pela Mistral.

vinsanto gaia

Ilha de Santorini (Santa Irene)

Não deixe de provar o exótico branco Thalassitis, 100% Assyrtiko, totalmente seco. Proveniente de parreiras antigas cultivadas num sistema peculiar em forma de cesto, é um branco extremamente seco, mineral, e de grande frescor. Lembra por esta mineralidade, os brancos de Chablis e alguns Rieslings. Ótimo com peixe in natura (sashimi) e caviar.

anima negra

Ànima Negra

O nome é estranho, exótico e misterioso, como os vinhos deste produtor espanhol da ilha de Mallorca. Trabalhando com várias uvas autóctones, os vinhos têm distinção e caráter. Em especial, o vinho Àn, isso mesmo, Àn, é elaborado com a tinta Callet de parreiras muito antigas. Com rendimentos baixíssimos (300 gramas por planta), o vinho apresenta grande concentração, força, mineralidade, além de muito equilíbrio. Quem diz que passa 18 meses em barricas francesas novas? Uma beleza! e na adega, vai longe … Prove, arrisque, saia da casinha.

quarts de chaume

Domaine des Baurmard

Baumard é um dos grandes nomes do Loire na sub-região de Anjou, elaborando brancos da casta Chenin Blanc, tanto secos como doces. Secos, na apelação Savennières e doces botrytisados, especialmente na apelação Quarts de Chaume. Vinho de bom corpo, mas não tão invasivo como Sauternes. Bela acidez, muito equilibrado e delicado. Pode envelhecer por décadas. Seus Savennières também são confiáveis.

brundlmayer

Weingut Bründlmayer

Produtor austríaco de exceção com brancos muito bem cotados. A casta típica do país é a agradável Grüner Veltliner, além de Rieslings surpreendentes. Os dois brancos provados com Grüner Veltliner provêm da mesma região, em torno da cidade de Langelois a 70 km de Viena. O primeiro denominado Berg Vogelsang, tem os vinhedos situados em baixas altitudes, proporcionando vinhos mais macios. Já o segundo, sob a DAC Kamptal, parte de vinhedos em terraços com maior altitude, gerando vinhos mais frescos, mais agudos. É bem perceptível esta diferença. A propósito, DAC é uma espécie de denominação de origem austríaca.

O terceiro branco é um Riesling de Kamptal. Com aromas bem típicos da casta (toque mineral), sua textura fica entre os rieslings alemães, um pouco mais magros, e os alsacianos, mais encorpados. Pode ser uma boa descoberta para quem gosta de Riesling. Foto acima dos três vinhos.

brundlmayer riesling

Riesling com doçura peculiar

Agora falando em vinhos doces, o da foto acima, é um Riesling de vinhedo (Heiligenstein) cujo solo é de origem vulcânica. Trata-se de um Beerenauslese (uvas botrytisadas) com 11º de álcool e pouco mais de 160 gramas de açúcar residual. Elegante, delicado e super equilibrado. Divino com torta de maçã.

kracher eiswein

Eiswein: vinho do gelo

Fechando os vinhos doces, temos o rótulo acima, um Eiswein do produtor Kracher, referência em vinhos botrytisados austríacos na região de Burgenland. Esta região é a maior concentração de Botrytis do planeta devido a um lago raso e de grandes dimensões (área de exposição) que aliado a condições climáticas especificas, proporcionam o bom desenvolvimento da Botrytis com uma consistência invejável, ano após ano. Este exemplar mescla as uvas Grüner Veltliner e Welschriesling (riesling itálico) num vinho de ótima acidez e álcool equilibrado, combatendo bem o destacado açúcar residual. Especificamente no Eiswein, não há botrytis. As uvas são colhidas congeladas com alta concentração de açúcar. Na prensagem das mesmas, o gelo fica na prensa e temos um mosto intensamente doce e ácido para a fermentação.

pesquera reserva

Pesquera Reserva

Durante muito tempo, os vinhos de Alejandro Fernandez ficaram à sombra do mito Vega-Sicilia, também importado pela Mistral. Ribera del Duero de grande categoria, a bodega Pesquera molda tintos elegantes, bem equilibrados em todas as categorias; Crianza, Reserva e Gran Reserva. A uva é a onipresente Tempranillo, conhecida localmente como Tinto Fino. Este Reserva Especial provado esbanja classe e equilíbrio. Um verdadeiro clássico da “Milla do Oro” (região nobre de Ribera).

pesquera dehesa

grande pedida em Tempranillo

Saindo um pouco da badalação, o grupo Pesquera é proprietário da bodega Dehesa La Granja, situada fora da zona de Ribera del Duero, sob a denominação Vinos de la Tierra de Castilla y León. Este Cosecha 2006 provado no encontro, mostrou-se com muita fruta, madeira equilibrada e final persistente. 100% Tempranillo com 24 meses de roble americano, e mais 12 meses em repouso na bodega. Praticamente, as exigências de um Reserva. Bela compra.

Queijos Azuis: A sublimação das texturas

4 de Setembro de 2014

Não é a primeira, nem a última vez, que a ABS-SP aborda o tema: Queijos Azuis x Vinhos Botrytisados. Também não é primeira vez que o assunto é comentado neste blog. O fato é que trata-se de umas das mais perfeitas harmonizações clássicas. Os contrates entre doce e salgado, além da acidez do vinho combatendo a gordura do queijo, a similaridade de texturas tem papel crucial e pouco abordado nos inúmeros comentários de eventos enogastronômicos.

Queijos azuis: sabores marcantes

Pela foto, é possível notar a textura de cada um dos queijos. Por ordem crescente de cremosidade, temos o Gorgonzola (número 3, o queijo da frente), o Roquefort (queijo número 1) e por fim, o Saint Agur (número 2), ao lado do Roquefort.

É bom esclarecermos que os chamados vinhos botrytisados são elaborados a partir do ataque benéfico do fungo Botrytis Cinerea ainda com as uvas na parreira. Esse ataque entre outras consequências, produz um aumento considerável do glicerol, proporcionando uma untuosidade e maciez extremamente particulares nesta categoria de vinho. Os exemplos mais clássicos e citados são os Sauternes (região bordalesa) e os Tokajis (região famosa da Hungria). Este ponto ficou  bastante claro  nesta degustação, conforme vinhos abaixo:

Painel diversificado

Os vinhos botrytisados de famosas regiões como Loire na França com as apelações Quarts de Chaume e Bonnezeaux, ou alguns da Alsace sob a apelação Seléction de Grains Nobles com as uvas Riesling e Pinot Gris principalmente, não apresentam normalmente textura compatível para enfrentar queijos azuis muito cremosos com Roquefort ou Saint Agur. Da mesma forma, os destacados austríacos da específica região de Burgenland ou distintos Trockenbeerenauslese alemães, apresentam as mesmas características mencionadas acima.

Quanto à degustação propriamente dita, o primeiro vinho na sequência da foto acima, o austríaco do ótimo produtor Alois Kracher (importadora Mistral – http://www.mistral.com.br), foi o que mais sofreu diante dos queijos. Embora as compatibilizações entre todos os queijos e os vinhos degustados estejam longe de serem desagradáveis, numa sintonia fina as afinidades ficam mais abaladas. O grande problema do primeiro vinho é sua delicadeza perante aos queijos. Em resumo, faltou textura e potência de aromas e sabores frente aos queijos. Já o segundo vinho, o sul-africano Nederburg (importado pela Casa Flora- http://www.casaflora.com.br), foi o que mais agradou no cômputo geral. Principalmente com os queijos Roquefort e Gorgonzola, sua potência e presença de açúcar foram componentes essenciais na harmonização. Já com o queijo Saint Agur, de sabor mais suave, a textura de ambos foi o ponto de união entre ambos.

Continuando na sequência, o terceiro vinho, Tokaji 5 Puttonyos (importadora Casa Flora), é bem diferente dos clássicos Tokajis antes da modernização na região. Embora seu equilíbrio fosse perfeito, com acidez refrescante, açúcar e álcool comedidos, tornou-se um tanto delicado para a harmonização. Com o Saint Agur saiu-se melhor, enfatizando a falta de textura para a cremosidade do queijo.

Por último, o quarto vinho, o Sauternes Château Les Justices do mesmo produtor do mítico Château Gilette (importadora Decanter – http://www.decanter.com.br), mostrou-se com relativa untuosidade e com o álcool dominando o equilíbrio frente a seus componentes de acidez e açúcar. A combinação com o Roquefort é clássica. Sua untuosidade e doçura foram fundamentais na harmonização. Já a textura cremosa do Saint Agur e sua delicadeza de sabor ficaram um ponto abaixo. Com o Gorgonzola, a potência do queijo ficou um pouco acima, só sendo perfeitamente combatida pelo sul-africano acima mencionado.

É evidente que essas considerações são pessoais, dando margem a inúmeros argumentos e discussões. Entretanto, queijos de uma maneira geral, costumam impor uma série de dificuldades para a perfeita harmonizações com vinhos, sobretudo queijos potentes como esses que foram testados.

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Vinhos da Áustria: Parte V

16 de Julho de 2014

Dando prosseguimento às famosas denominações DAC (Districtus Austriae Controllatus), deixamos as três últimas mais emblemáticas para este artigo (Kremstal DAC, Kamptal DAC e Neusiedlersee DAC), as quais serão esplanadas abaixo:

DAC Gebiete

Kamptal e Kremstal: Reino da Gruner Veltliner

Kremstal DAC

Os 2243 hectares de vinhas desta nobre área dividem-se em dois tipos de solos: um solo sedimentar com a formação de loess (solo formado sob a ação do vento) de boa capacidade hídrica, ideal para o cultivo da Gruner Veltliner, além de solos rochosos, propícios para o bom desenvolvimento da Riesling. Os profundos vales são bem protegidos dos gélidos ventos do norte, enquanto a leste, o clima quente da Panônia facilita a maturação das uvas.

As duas uvas são apresentadas nas versões Classic e Reserve, sendo a primeira para vinhos aromáticos, frescos, sem notas de madeira. A versão Reserve apresenta vinhos mais encorpados, ricos, com alguma presença de madeira e eventuais toques de Botrytis.

Kamptal: vinhedos em terraços

Kamptal DAC

Região imediatamente a norte de Kremstal com 3.800 hectares de vinhas. As estrelas também são as mesmas de Kremstal, as uvas Gruner Veltliner e Riesling nos estilos Classic e Reserve.

Muitos dos vinhedos desenvolvem-se em terraços combinando solos de gneisse (origem vulcânica), sandstone (origem sedimentar), loess e gravel, de origem vulcânica e sedimentar. O clima mescla os ventos frios do norte com o clima quente da Panônia, proporcionando notável amplitude térmica. Com esses fatores, temos rieslings potentes, minerais e de grande longevidade. Da mesma forma, a Gruner Veltliner mostrar vinhos encorpados e de bom impacto. Essas características ficam potencializadas no estilo Reserve.

Neusiedlersee: Lago raso rodeado de juncos

Neusiedlersee DAC

Finalmente, temos o lar da outra grande uva tinta austríaca, Zweigelt. Como varietal ou blend (mistura), desde que tenha pelo menos sessenta por cento no corte juntamente com outras uvas nativas. Fruto do cruzamento das cepas Blaufränkisch e St Laurent, a Zweigelt gera vinhos coloridos, taninos suaves e aromas intensos de frutas, notadamente as cerejas. O estilo Classic preserva o lado frutado e de especiarias destes tintos maturados em aço inox, ou eventualmente, com alguma passagem por madeira. Já o estilo Reserve, mostra vinhos mais potentes, estruturados com madeira mais evidente (grandes tonéis ou barricas).

Dos 7.649 hectares de vinhas, 1.812 hectares são destinados ao cultivo da uva tinta acima (Zweigelt). O restante é destinado sobretudo a uvas brancas como Chardonnay, Pinot Blanc e Welschriesling (Riesling Itálico). Esta última, é a uva branca mais plantada na Áustria, depois da emblemática Gruner Veltliner. Os solos franco-arenosos, calcários e eventualmente pedregosos, aliados a um clima relativamente quente oriundo da Panônia (vale), produz uvas bastante aromáticas. A pouca profundidade do lago Neusiedl e sua grande extensão propiciam a necessária evaporação para o bom desenvolvimento do fungo Botrytis Cinerea (podridão nobre). Neste particular, esse lago é reduto do local mais certeiro para vinhos botrytrisados. Vale lembrar que a ocorrência e intensidade da infecção do fungo em regiões clássicas como Sauternes, Tokaj, alguns lugares do Loire e da Alemanha, é sempre incerta e motivo de grande preocupação. Portanto, Neusiedlersee ainda é fonte segura e presente em todas as safras de ótimos vinhos botrytisados a preços ainda atrativos. As versões Beerenauslese e Trockenbeerenauslese respondem por este tipo de vinho.

Com este artigo, chegamos ao fim desta série. Oportunamente, voltaremos ao assunto sempre que esses vinhos, uvas ou harmonizações específicas fizerem-se necessários. Os artigos desta série específica foram baseados no site http://www.austrianwine.com

Apesar da pouca oferta de vinhos austríacos no Brasil, a importadora Mistral traz alguns exemplares (www.mistral.com.br) e também uma importadora pouco conhecida chamada Vinhos da Áustria (www.vinhosdaaustria.com.br).

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Vinhos da Áustria: Parte IV

11 de Julho de 2014

Após alguns artigos esmiuçando as principais regiões e leis dos vinhos austríacos, vamos explorar agora as denominações mais nobres do país com as chamadas DACs (Districtus Austriae Controllatus), conforme mapa abaixo:

DAC Gebiete

Nove regiões no leste do país

Weinviertel DAC

Começando no extremo norte do mapa, Weinviertel conta com uma área de 13.356 hectares. Aqui cultiva-se Grüner Veltliner no estilo Classic e Reserve. O primeiro mais leve, fresco e sem madeira. O segundo mais encorpado e eventualmente com notas amadeiradas. Vale a pena salientar que a área cultivada com a uva acima de 6.200 hectares representa mais da metade produzida em toda Áustria desta nobre cepa.

Weinviertel, área relativamente extensa, pode ser dividida em três partes. A primeira, mais a noroeste, apresenta um solo mais rochoso. Já o setor nordeste, mostra um solo mais calcário, responsável pela mineralidade dos vinhos. Por último, a parte sudeste, próximo ao vale da Panônia, mostra um clima mais quente, propício a vinhos mais encorpados.

Traisental DAC

Região de 790 hectares de vinhas, sobretudo Gruner Veltliner e uma pequena porcentagem de Riesling. Situa-se ao sul do rio Danúbio, abaixo de regiões famosas como Kamptal, Kremstal e Wachau. Os vinhedos basicamente situam-se em terraços misturando solos calcários, argilosos, arenosos e pedregosos, com grande amplitude térmica (diferença de temperaturas entre dia e noite). Os vinhos à base de Grüner Veltliner são frescos e aromáticos (toques apimentados). Já os Rieslings, são intensos, encorpados e com toques minerais.

Viena: Vinhedos ao redor da cidade

Wiener Gemischter Satz DAC

A cidade de Viena com suas zonas de vinhedos (612 hectares) protagoniza esta DAC com um blend (mistura) de uvas que remonta a idade média denominado Gemischter Satz. Uvas como Chardonnay, Riesling e Weissburgunder (Pinot Blanc) fazem parte deste blend. A proporção da uva principal não deve estar acima de 50% e a de menor proporção com pelo menos 10%.

Regras como a indicação de um single vineyard (cru) não precisam necessariamente ser designado como Trocken (dry). Já sem a menção single vineyard, a designação Trocken (dry) é obrigatória.

Em termos de sub-regiões, na parte oeste de Viena os solos são predominantemente calcários. Bom para o cultivo das uvas Grüner Veltliner e Riesling. No setor sul da cidade, solos também calcários são complementados por terras escuras (argilas), gerando vinhos mais ricos e encorpados.

Leithaberg DAC

Com 3576 hectares de vinhas, Leithaberg é uma das regiões mais antigas da Áustria. Há influência do clima quente do lago Neusiedl favorecendo a maturação das uvas. Por outro lado, as montanhas amenizam estas temperaturas, sobretudo à noite, proporcionando acidez e finesse aos vinhos. Os solos são compostos basicamente de calcário e ardósia.

Os vinhos podem ser varietais ou blends, entre tintos e brancos. As uvas brancas são Weissburgunder (Pinot Blanc), Chardonnay, Neuburger e Grüner Veltliner. Com relação às tintas, temos Blaufränkisch (85% no mínimo) e no máximo 15% das uvas (St, Laurent, Zweigelt e Pinot Noir). Os vinhos brancos devem ser delicados , aromáticos e minerais com pouca madeira e preferencialmente nenhuma. Já os tintos, devem passar em madeira. Costumam ser estruturados e tânicos.

Mittelburgenland DAC

Região ao lado da Hungria (2.117 hectares de vinhas) e com forte influência da planície da Panônia, o clima é ideal para a maturação da tardia uva clássica austríaca Blaufränkisch. Este clima relativamente quente é garantido pela proteção das cadeias de montanhas ao norte, sul e oeste. O solo mistura argila, areia e pedras com bancos importantes de coral.

As versões rotuladas como clássicas apresentam vinhos encorpados, frutados e com aromas de especiarias. A maturação pode ser aço inox, ou madeira usada, e portanto inerte. Já a versão Reserve, admite tonéis ou barricas de madeira, consoante à estrutura dos vinhos desta categoria.

Eisenberg DAC

Outra região ao sul de Mittelburgenland com 498 hectares de vinhas baseada na uva tinta Blaunfränkisch. Não tem a mesma notoriedade de Mittelburgenland, mas seus tintos apresentam estilo semelhante. Há toques de tipicidade nesses tintos como mineralidade (nuances terrosas) e notas de especiarias. Muitos apontam os solos de ardósia e silte com presença de ferro os principais fatores para as características citadas.

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Vinhos da Áustria: Parte III

30 de Junho de 2014

Continuando a decifração dos vinhos austríacos, vamos abordar mais alguns aspectos de suas designações que têm em sua essência as leis alemães. No que diz respeito ao açúcar residual, podemos nos deparar com quatro termos: Trocken (dry ou seco), Halbtrocken (off-dry ou meio-seco), Lieblich (doçura comedida, até 45 gramas de açúcar por litro) e por último, Sweet (doce, acima de 45 gramas de açúcar por litro).

Um pouco mais complicado é o termo KMW (Klosterneuburg Must Weight Scale), ou seja, a quantidade de açúcar em cem gramas de mosto (líquido resultante da espremedura das uvas). Numa escala de dez a trinta, este número em KMW confere as seguintes denominações em ordem crescente de açúcar no mosto que lembra muito as denominações alemães: Kabinett, Spätlese, Auslese, Beerenauslese, Ausbruch, Trockenbeerenauslese, Eiswein e Strohwein/Schilfwein. É importante saiientar que a partir da categoria Kabinett não poder haver chaptalização (adição de açúcar no mosto).

Os termos Ausbruch e Strohwein são exclusivamente austríacos. Ausbruch é simplesmente uma designação intermediária entre Beerenauslese e Trockenbeerenauslese. Já o termo Strohwein significa que as uvas maduras são secadas geralmente em esteiras por um tempo mínimo de três meses. Processo semelhante à elaboração do vinho santo italiano (Toscana).

Generic wine growing regions

Geologia bastante diversificada nas principais regiões

Na chamada Baixa Áustria (Niederösterreich) quase um terço dos vinhedos são solos formados por marga (mistura de calcário e argila) e pedras calcárias e de origem arenosa. Outra formação geológica importante são os solos chamados de loess (depósitos de solos formados pela ação do vento). Uma pequena parcela dos vinhedos são provenientes de solos de origem vulcânica com pedras de granito, xisto e gnaisse, sendo as duas últimas de origem metamórfica.

Na chamada Burgenland, as bacias da Panônia e Estíria são formadas por solos pedregosos de origem calcária e arenosa. As colinas desta área têm solos diversificados com argila, calcário, gnaisse e mica.

Na região da Estíria (Steiermark), três quartos de seus vinhedos têm origem em solos provenientes de depósitos aluviais na bacia da Estíria. Uma pequena parte é formada por solos de origem vulcânica como basalto e tufo. Eventualmente, em solos pedregosos temos gnaisse, xisto, mica e filito.

Por último, a região de Viena (Wien) é formada em parte por solos calcários, e parte por solos pedregosos formados por areia, argila e marga. Há presença também de solos chamados de loam (mistura de areia, silte e argila).

Principais uvas

Grüner Veltliner

Principal uva branca austríaca (praticamente 50% do plantio de uvas brancas), moldando vinhos bastante frescos, de acidez destacada, e principalmente com notas de especiarias, notadamente a pimenta verde. Seus vinhos são boas alternativas para acompanhar aspargos.

Zweigelt

Uma das duas principais uvas tintas da Áustria, gera vinhos de muita cor com taninos suaves. São vinhos de bom corpo lembrando aromas de cerejas. Os lotes de melhor qualidade passam por barricas.

Zweigelt: Cor marcante

Blaufränkisch

A outra grande uva austríaca. De maturação tardia, gera vinhos austeros, de boa acidez e taninos marcantes. A maturação perfeita da uva é um ponto crucial para o sucesso. Seus vinhos costumam ter boa longevidade.

As duas uvas tintas acima respondem por cerca de 60% do plantio de uvas tintas. As uvas ditas internacionais, tanto brancas como tintas, apresentam porcentagens discretas de plantio.

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Vinhos da Áustria: Parte II

23 de Junho de 2014

Dando prosseguimento aos vinhos austríacos, vamos abordar algumas particularidades sobre as leis e designações dos mesmos. Como em todo país, há sempre a base da pirâmide com os chamados vinhos de mesa, bastantes genéricos, irregulares e sem grandes interesses, salvo casos pontuais. Em seguida, temos os chamados vinhos da terra (land wine), um degrau acima designando três grandes sub-regiões, conforme mapa abaixo:

Austria Land wineWeinland e Steireland destacam-se

Genericamente, podemos falar em trinta e cinco uvas (varietais) distribuídas em nove regiões, desmembrando um pouco mais o mapa acima. Abaixo, temos essas áreas demarcadas e com seus respectivos números.

Generic wine growing regions ha

Áreas pouco produtivas (centro e oeste)

Contudo, ainda não estamos falando dos melhores vinhos austríacos. Os chamados vinhos de qualidade têm inspiração alemã (Qualitätswein). E aí sim, estamos falando da famosa parte leste do país. Atualmente, são dezesseis regiões de qualidade repartida em dois grandes grupos: sete regiões específicas focadas em varietais; e nove regiões especiais denominadas DAC (Districtus Austriae Controllatus, em latim), uma espécie de denominação de origem, conforme mapas abaixo:

austria sete regiões

Sete regiões focadas em varietais

Cada uma das sete regiões foca seus vinhos em varietais específicos objetivando qualidade. Wachau, por exemplo, segue a linha dos brancos com as uvas Grüner Veltliner e Riesling. Já Weststeiermark destaca-se pelo rosé com a uva Blauer Wildbacher. Veja quadro abaixo das sete regiões:

Wachau

Grüner Veltliner, Riesling

Wagram

Wagram: Grüner Veltliner, (and possibly Roter Veltliner)

Carnuntum

Zweigelt, Blaufränkisch

Thermenregion

Zierfandler, Rotgipfler, St. Laurent, Pinot Noir

Südoststeiermark

Südoststeiermark: Weißburgunder (Pinot blanc), Morillon, Sauvignon, Traminer

Südsteiermark

Sauvignon, Muskateller, Weißburgunder, Morillon

Weststeiermark

Schilcher (Rosé wine from Blauer Wildbacher grape variety)

Com leis ainda mais rígidas, entramos agora nas nove DACs (denominação de origem austríaca) com regiões específicas e varietais na versão Classic e Reserve, conforme mapa abaixo:

DAC Gebiete

Áreas nobres austríacas

Seguindo o mesmo raciocínio anterior, as nove DACs priorizam varietais nas versões Classic e Reserve entre tintas e brancas, de acordo com cada região, conforme quadro abaixo:

Weinviertel DAC
Classic: as of the 2002 vintage
Reserve: as of the 2009 vintage

Grüner Veltliner
Classic and Reserve

Mittelburgenland DAC
as of the 2005 vintage

Blaufränkisch
Classic and Reserve

Traisental DAC
as of the 2006 vintage

Grüner Veltliner, Riesling
Classic and Reserve

Kremstal DAC
as of the 2007 vintage

Grüner Veltliner, Riesling
Classic and Reserve

Kamptal DAC
as of the 2008 vintage

Grüner Veltliner, Riesling
Classic and Reserve

Leithaberg DAC
White: as of the 2009 vintage
Red: as of the 2008 vintage

Weißwein (PB/WB, CH, GV, NB)
Red wine (Blaufränkisch)
All wines with Reserve status

Eisenberg DAC
Classic: as of the 2009 vintage
Reserve: as of the 2008 vintage

Blaufränkisch
Classic and Reserve

Neusiedlersee DAC
as of the 2011 vintage

Zweigelt (single varietal or Zweigelt-dominated cuvée)
Classic and Reserve

Wiener Gemischter Satz DAC
as of the 2013 vintage

Gemischter Satz and Gemischter Satz with a single vineyard designation

Grüner Veltliner domina as uvas brancas

O termo Classic para vinhos austríacos significa frescor, acidez, e caráter, atrelados a um terroir diferenciado. Já o termo Reserve é atribuído a um potencial alcoólico maior (mínimo de treze graus), acompanhando um melhor grau de maturação das uvas.

O selo para vinhos de qualidade exposto abaixo em branco e vermelho segue o padrão alemão com controle numérico semelhante, de acordo com análises para cada região específica e respectivas safras.

 

Selo de qualidade: topo do gargalo

Resumindo, os vinhos de qualidade austríacos mencionam uma das dezesseis regiões apresentadas (Burgenland, por exemplo) com suas respectivas uvas autorizadas. Além disso, expressões como Trocken (seco) indicando açúcar residual,  Reserve (se for o caso), e Weingut (engarrafado na propriedade), podem ser mencionadas no rótulo.

Bründlmayer: Produtor de destaque

No rótulo acima, percebemos a DAC Kamptal, a uva autorizada Riesling, o termos Reserve para maturação diferenciada das uvas, e a expressão Weingut (elaborado e engarrafado na propriedade).

Próximo artigo, mais leis e designações.

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Vinhos da Áustria: Parte I

16 de Junho de 2014

Os vinhos austríacos são pouco difundidos e pouco consumidos no Brasil. É bem verdade que a produção é relativamente pequena, mas o desconhecimento é a maior barreira. O estilo e legislação vinícola têm inspiração alemã, embora a textura de seus brancos lembrem mais os caldos alsacianos. O mapa abaixo, situa a Áustria no centro da Europa com divisas importantes, tais como, Húngria, Eslovênia e Eslováquia. A porção leste do país é efetivamente onde estão as principais regiões vinícolas.

A picture shows a map of Austria with the climate influences

Fatores de terroir: Correntes eólicas

Pelo esquema acima, podemos perceber um dos importantes fatores de terroir, esquematizado pelas três principais correntes eólicas. A primeira em azul, refere-se aos ventos frios vindos do norte. Já as outras duas, são correntes quentes vindas da planície húngara e em menor grau de influência, os ventos do Mediterrâneo. 

As quatro zonas climáticas

A Áustria apresenta quatro grandes zonas climáticas expostas no mapa acima. A primeira, zona do Danúbio, beneficia-se de grande amplitude térmica (diferença entre as temperaturas diurnas e noturnas), além do fator moderador do rio, amenizando os extremos de temperatura nas várias estações do ano. É sem dúvida, a zona mais nobre da Áustria, como veremos em artigos subsequentes. 

A zona de Weinviertel é a mais setentrional e bastante fria. O grande destaque para os vinhos brancos parte da uva autóctone e mais famosa da Áustria, Grüner Veltliner, com seus toques apimentados. Ja a zona da Panônia é relativamente mais quente, englobando regiões para cultivo das uvas tintas locais como Zweigelt, St Laurent e Blaufränkisch. Os vinhos brancos doces botrytisados também ganham destaque ao redor do famoso lago Neusiedl. Por último, a zona da Estíria (Steirmark ou Styria), pouco produtiva, apresenta vinhos bastante aromáticos num clima relativamente quente. Seus solos de origem vulcânica e também com presença de calcário são fatores relevantes.

Generic wine growing regions ha

Distribuição da área de vinhas

Em aproximadamente quarenta e seis mil hectares de vinhas, a Áustria concentra todo seus vinhedos na porção leste do país. Regiões a oeste como o Tirol, divisa com a Itália, tem produção praticamente desprezível. Dois terços da área plantada são destinados a uvas brancas e um terço às tintas. Só a Gruner Veltliner, uva branca emblemática, responde por quase trinta por cento do plantio. Quanto às uvas tintas, a Zweigelt, uva local fruto do cruzamento das uvas St Laurent e Blaufränkisch, também autóctones da Áustria, responde por cerca de quatorze por cento do plantio austríaco.

Uvas da Asutria

A despeito de algumas uvas internacionais, a Áustria prima por elaborar vinhos autênticos com uvas locais, principalmente as tintas. Quanto a mais emblemática uva austríaca, Grüner Veltliner, há regiões onde seu cultivo gira em torno de cinquenta por cento da área de vinhas.

O consumo de vinho na Áustria gira em torno de dois milhões e seiscentos mil hectolitros (dados de 2010). Em termos de consumo per capita anual, estamos falando algo de trinta litros/habitante, enquanto a cerveja passa dos cem litros/ habitante.

Austria importação e exportação

As importações e exportações austríacas são niveladas em quantidade com números próximos de setecentos mil hectolitros para cada lado da balança. A Alemanha é disparada seu maior mercado exportador, enquanto a Itália é o país preferido com folga na importação de vinhos.

Continuamos com a Áustria no próximos artigos explorando regiões, leis, uvas, e muito mais.

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