Archive for the ‘peixes’ Category

Curnonsky e seus brancos

19 de Junho de 2018

Falando um pouco de menus clássicos e históricos, não podemos deixar de mencionar Maurice Edmond Sailland, prince des gastronomes, escritor célebre do final do século XIX e metade do século XX (1872 a 1956), conhecido mais como Curnonsky, precursor do guia Michelin. Autor de 65 livros com inúmeros exemplares sobre gastronomia.

No que diz respeito a vinhos, decretou os cinco maiores brancos da França, mencionando Chateau d´Yquem, Montrachet, Chateau-Chalon, Chateau-Grillet, e Coulée de Serrant. Nada mau!

Baseado nesses memoráveis vinhos, o restaurante Taillevent elaborou um menu impecável acompanhando essas maravilhas a 1200 euros por pessoa, intitulado “Les cinq de Curnonsky”. Para esta seleção, começou com Lagosta gratinada com trufas para um Chateau-Grillet 2005, seguido por Saint-Pierre com molho de vinho branco e algas, acompanhado por Coulée de Serrant 2004. Continuando, uma Poularde de Bresse desossada com trufas acompanhando Montrachet Marquis de Laguiche 2002. Para finalizar, um Vieux Comté com Chateau-Chalon 2005, e uma Omelete de frutas exóticas flambada com Chateau d´Yquem 2003.

Falando um pouco dos vinhos, seguem fotos abaixo com detalhes de cada um e suas peculiaridades. A despeito dos critérios seleção, são vinhos absolutamente distintos, fiéis a seus respectivos terroirs, e verdadeiros patrimônios franceses.

fb7be498-2c0e-4395-ac48-cd35d0e55adb1um clássico acompanhamento para as trufas

Uma das menores apelações francesas com apenas 3,5 hectares de vinhas antigas, Chateau-Grillet é uma apelação própria dentro do território de Condrieu com uvas 100% Viogner. O vinho amadurece cerca de 18 meses em barricas francesas, sendo 20% novas conforme a safra.

O vinho costuma envelhecer muito bem desabrochando notas florais, de pêssegos, damascos, e um fundo amendoado. Textura macio em boca, acompanhando muito bem pratos com trufas, sobretudo quando devidamente envelhecido.

img_4513o epítome da Chardonnay

Montrachet dispensa comentários, sendo a perfeição nos territórios de Chassagne e Puligny-Montrachet. Vinificação clássica com fermentação em barricas novas com sucessivas bâtonnages. O vinho se funde com perfeição em contato com a madeira, envelhecendo maravilhosamente.

52064f24-4c80-4976-9255-f9e1312a3d37a perfeição do Vin Jaune

Na terra de Louis Pasteur, a uva Savagnin amadurece  com perfeição. O chamado Vin Jaune é considerado o Jerez francês, embora não haja fortificação. O vinho amadurece em barricas de carvalho por cerca de seis anos, desenvolvendo uma levedura na superfície semelhante aos melhores Jerezes. Após esse período é engarrafado, adquirindo notas oxidativas, lembrando nozes e especiarias exóticas. Além do queijo Comté, seu acompanhamente clássico, aves com molho à base de curry são harmonizações sublimes.

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a sublimação da Botrytis

Assim como o Montrachet, Chateau d´Yquem é unanimidade na nobre região de Sauternes. A ação da Botrytis Cinerea é perfeita no vinhedo, além de uma colheita seletiva e paciente, procurando somente as uvas perfeitamente infectadas. A vinificação é precisa, extraindo todos os componentes fundamentais para um vinho equilibrado e profundamente estruturado. A passagem longa em barricas novas francesas só enriquece o conjunto, permitindo um envelhecimento em garrafas por décadas. Lembrando sempre que as uvas são Sémillon majoritariamente, e Sauvignon Blanc.

Serrant decantacaoChenin Blanc em pureza

Atualmente com vinhos biodinâmicos tão em voga, o exemplar acima sintetiza a perfeição nesta filosofia viticultural. Nicolas Joly, proprietário e mentor do estupendo Coulée de Serrant, eleva a casta Chenin Blanc ás alturas, tendo apelação própria dentro da apelação Savennières, o mais célebre terroir para Chenin Blanc no estilo absolutamente seco.

Sua vinificação extremamente natural, trabalha com leveduras nativas. O uso das barricas de dimensões de acordo com a filosofia biodinâmica, visa imprimir uma micro-oxigenação precisa, expressando de forma autêntica aromas e sabores únicos. O vinho tem uma extraordinária capacidade de envelhecimento, sendo obrigatória um ampla decantação de horas, antes do consumo.

Além da harmonização citada no menu acima, truta ao forno com molho de vinho branco, ervas e amêndoas tostadas é pedida certa para um casamento perfeito.


Menu alternativo

Tartar de atum com gergelim 

Coulée de Serrant decantado por horas

Omelete de queijo gruyère e ervas com trufas laminadas

Chateau-Grillet com uma dezena de anos

Camarões grelhados ao molho de ervas e limão com risoto de açafrão

Montrachet Ramonet 2014

Queijo do Serro curado com nozes e damascos

Chateau-Chalon ou Vin Jaune

Malabi com calda de damascos

Chateau d´Yquem jovem (menos de 10 anos)


img_4781Serro bem curado

Neste menu alternativo, eu começaria pelo Coulée de Serrant aproveitando toda sua acidez e frescor com tartar de atum. Um prato de personalidade com o gergelim dando um toque a mais de integração com o vinho. É importante decantar este branco com horas de antecedência.

Em seguida, os sabores e textura da omelete deixam o Chateau-Grillet reinar elegante. O toque de trufa para um branco como este envelhecido é fundamental.

A vibração de um Ramonet jovem é sensacional com seus toques cítricos precisos. Toda a força de um Montrachet entremeando a sutileza de um risoto de açafrão. Uma harmonização para levantar sabores.

Antes da sobremesa, uma taça de Chateau-Chalon ou um bom Vin Jaune. O Club Tastevin traz um bom exemplar (www.tastevin.com.br). Homenageando os queijos brasileiros, um velho queijo do serro com aromas mais potentes, complementado por nozes e damascos, finalizam a refeição sem pressa.

A força de um Yquem jovem, menos de dez anos, complementam bem o delicado manjar árabe onde o damasco e a flor de laranjeira fazem eco ao vinho. A textura untuosa do vinho cai como um manto após uma colherada da sobremesa.

Enfim, mais um exercício de enogastronomia com uma pequena amostra do arsenal francês. Para quem não resiste a um belo champagne, não seria nada mau começar ou terminar o menu com ele. Os brancos da Alsace são outra bela lembrança.

 

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Remadejo: Algoritmo da Felicidade

13 de Maio de 2018

Bem mais perto do que se imagina, nos arredores de São Paulo, um cenário lindo para uma festa bordalesa com certeza. O anfitrião cuidou de todos os detalhes para que os convivas se sentissem no paraíso de Bacco, Fazenda Remadejo.

IMG_4616.jpgvista de acordo com os vinhos

Na chegada para matar a sede, champagne Perrier-Jouet Belle Epoque 2004, cuvée especial da Maison com um ar de “Meio-dia em Paris”. O blend é composto de partes iguais de Chardonnay e Pinot Noir e uma pitada de Pinot Meunier. Com mais de seis anos sur-lies, os aromas de brioche são enfatizados, mas sem exageros. A leveza, o lado floral e de frutas cítricas, fazem deste champagne uma bebida perfeita para aperitivar. 

a chegada e a recepção

Com a chegada de todos, fomos para a adega do anfitrião checar um Petrus 1997 em Magnum, preparando as papilas. Surpreendentemente, este Petrus estava bem abordável. Normalmente em tenra idade, Petrus se mostra duro e sem muita conversa. Contudo, seus taninos estavam afáveis e seus aromas bem agradáveis, mostrando a grandeza deste mito de Pomerol.  Um lado terroso, sugerindo trufas em seu envelhecimento, além de especiarias e frutas negras como ameixas, por exemplo. Não está na elite dos grandes Petrus, mas é delicioso, equilibrado, e com todas as digitais do Chateau. Robert Parker, 91 pontos com apogeu previsto para 2025. Bela pedida!

227feffa-dcd1-4461-a17c-0bfa322225c6.jpgas boas vindas do encontro

Os tintos começaram arrasadores na mítica safra de 82. Dois 100 pontos e Haut Brion com 95, conforme foto abaixo. Começando pelo Latour, é redundante elogiar este vinho. Segundo Parker, Latour 82 vai mais longe que o 61, sendo este último, um monumento a Pauillac. Enfim, o vinho estava maravilhoso. Taninos finíssimos, o toque aromático de couro fino, e uma persistência aromática incrível. Vai longe em adega. Já os outros dois, bem mais prontos e igualmente espetaculares. Começando pelo Le Pin 82, a melhor safra do chateau, e um dos melhores entre todos os 82, estava uma delicia na boca. Macio, licoroso, lembrando cerejas escuras, traços de chocolate, e um fundo mineral. Taninos totalmente polimerizados, estando no esplendor de sua forma. Um Pomerol de livro. Por fim, Haut Brion, outro margem esquerda de consistência incrível. Sempre um prazer bebe-lo, embora ainda não totalmente pronto. Seus aromas de estábulo, ervas finas, caixa de charuto, são de arrepiar. Boca elegante, equilibrada e um final de rara beleza. Vai mais uns dez aninhos fácil em adega.

IMG_4623.jpga santíssima trindade

Em seguida, mais um trio de tirar o fôlego, de outra safra mítica, 1961. Entretanto, por questões de garrafa, não brilhou tanto como no flight anterior. Com exceção do rei Petrus, os outros dois estavam bem cansados. Petrus 61 está na elite dos grandes da história com 99 pontos. Mesmo esta garrafa, estava um pouco cansada, mas longe de qualquer decadência. Seus aromas terciários eram etéreos, lembrando trufas, adega úmida (não confundir com bouchonné), toques minerais e de manteiga de cacau. Boca harmoniosa e ampla. Um Petrus em seu apogeu, o que não é fácil.

Falando agora do Chateau Mouton Baron Philippe, é um vinhedo colado ao grande Mouton Rothschild. Este Cru Classe se chamava Chateau d´Armailhac na época que foi comprado pelo lendário Baron Rothschild. Entre os anos de 1956 e 1988, o Chateau mudou de nome para Mouton Baron Philippe, voltando após esta data, ao nome original que permanece até hoje, Chateau d´Armailhac. Quanto ao vinho degustado, mesmo em Magnum, era o mais cansado de todos. Tinha um interessante toque de funghi porcini, mas a boca já comprometida, secando o palato e faltando fruta. Na única anotação de Parker, ele dá 91 pontos e diz ter atingido o apogeu em 2003. Acho que ele tem razão …

No último vinho, Pichon 61, é um dos grandes do Chateau em safras antigas, juntamente com o 1945. Parker dá 95 pontos com apogeu previsto para o ano 2000. Portanto, nas boas garrafas é um vinho no auge com muita sorte. Este porém, já viveu melhores momentos. Percebe-se que foi um grande vinho pela elegância  e taninos de rara textura. Contudo, a boca já está seca, faltando fruta, e percebe-se uma acidez dominante, sem integração com o conjunto. Em vinhos antigos, o que vale são as grandes garrafas …

IMG_4624.jpgo campeão no centro do podium 

Fora os bordaleses, outros vinhos abrilhantaram o almoço como este excepcional Madeira abaixo, safra 1928 com a uva Sercial. Esta uva elabora os grandes Madeiras secos, para aperitivos, ou para pratos específicos como patês de caça. Neste caso, acompanhou muito bem uma brandade de bacalhau em cama de massa folhada. Seus toques balsâmicos, de jaca madura, especiarias como cardamomo, e frutas secas, são espetaculares. A boca é harmoniosa e com uma persistência sem fim.

Madeira Old School

Outro ponto alto do almoço, foi o cuscuz preparado por um dos confrades com assessoria de Bella Masano (restaurante Amadeus), úmido e saboroso. Foi devidamente escoltado pelo Montrachet 2005 do Domaine Jacques Prieur. O vinho estava no auge de sua evolução com muita fruta, madeira bem integrada, e o corpo dos grandes Montrachets. Para ter uma ideia da exclusividade dos Montrachets, este é de um vinhedo de 0,59 hectares, quase um jardim. O vinho é fermentado em barricas novas e passa cerca de 21 meses em carvalho, antes de ser engarrafado. Enfim, o modelo clássico do feliz casamento de  Chardonnay e barrica.

Montrachet em seu apogeu

Encerrando o almoço, não teria foto melhor do que esta abaixo. Esses dois monstros já são uma sobremesa. Começando pelo Yquem 1976, ano rasgado no rótulo, é um dos melhores para este Chateau lendário. O vinho nem precisa de um  crème brûlée. Ele em si é o próprio creme. Aromas com todos os tons de caramelo, frutas maduras, toques de café, damascos, entre outros. Boca untuosa, perfeitamente equilibrada, e uma persistência tectônica. Um dos melhores que já provei! e não foram poucos, graças a Deus!

1d032a72-83e0-43c3-bd4a-a1b6d6983258.jpga perfeição em branco e tinto

Agora o que dizer de um Taylor Vintage Port 1963, um ano antológico para Portos. Completamente desenvolvido em seus aromas terciários com uma profusão de chocolates, cacau, frutas escuras confitadas, toques balsâmicos, e uma incrível nota de tâmaras medjool (jumbo). Taninos totalmente polimerizados, sedosos, álcool perfeitamente integrado na massa vínica, e mais uma vez reluta em deixar a boca, numa persistência interminável.

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Além de tudo isso, teve ainda uma brincadeira com o Léoville Las Cases 1986. Esta história fica para o próximo artigo, em detalhes jamais revelados.

d84b533c-88ab-4541-8b00-aed2f11eefc5.jpgEsse é o cara!

Agradecimentos a todos os confrades, em especial ao anfitrião e sua linda família, pela recepção calorosa, sofisticada, e sincera. Que Bacco nos proporcione cenários e encontros como esse. Saúde a todos!

Vosne-Montrachet entre Hashis

22 de Abril de 2018

Provar um Montrachet é sempre um momento de contemplação. Afinal, estamos falando de um dos melhores brancos do mundo, se não for o melhor para muitos entendidos. Agora, fazer uma vertical de Montrachet do Domaine Comte Lafon, uma das referências nesta diminuta apelação de aproximadamente oito hectares de vinhas, é um privilégio para poucos.

montrachet lafonbem ao lado das vinhas DRC

Alguns dados traduzem a exclusividade deste momento. Sabe quando o camarada compra aquele lote de 3200 m² para fazer sua casa de lazer. Pois bem, essa é a área das vinhas Montrachet do Comte Lafon. Essas vinhas foram plantadas em 1953 (80%) e 1972 (20%). Seus rendimentos ficam entre 20 e 35 hl/ha. O vinho é fermentado em barricas com bâtonnage (revolvimento das borras) e amadurece entre 18 e 22 meses em barricas também.

187ba657-7a40-4cdb-a249-2652291d2d30.jpgapelação Vosne-Montrachet

Feitas as considerações iniciais, vamos aos vinhos e suas combinações à mesa. Quanto aos três La Tache, serão devidamente comentados em seguida.

IMG_4511.jpgsafras de extremo didatismo

Começando pelo Montrachet 2009, estava num momento ótimo para ser abatido. Cheio de fruta, toques tostados, caramelo, especiarias, e aquela textura macia típica dos Lafons. Sem qualquer sinal de oxidação, este exemplar muito bem conservado, mostra a exuberância da safra 2009 com frutas em profusão. Temo em guarda-lo por mais tempo, pois sua acidez está no limite, sendo este fator de extrema importância para sua longevidade. Foi o preferido para vários dos confrades. Já 2010, outra safra de extremo didatismo. Ela segue o perfil de 2009 no sentido de se mostrar sem rodeios, mas seu equilíbrio é mais harmônico com uma acidez mais vibrante. Evoluiu muito bem na taça, e mostra que pode caminhar por mais tempo em adega. Notas 96 e 97, respectivamente.

um festival de sushis

A fota acima retrata bem os ótimos sushis do restaurante Ryo. Com os Montrachets acima, safras 2009 e 2010, combinaram bem, sobretudo em termos de texturas. O lado adocicado do prato foi de encontro com a riqueza de fruta dos vinhos.

IMG_4512.jpgsafras mais contidas

Num estilo oposto a 2009 e 2010, as safras 2011 e 2013 são mais contidas. Possuem bela acidez e uma mineralidade mais destacada. De início, mostraram-se muito redutivas no aroma onde em seguida, pouco a pouco os mesmos foram se revelando. O grande pecado é que apresentam persistência aromática não muito longa, faltando um pouco de meio de boca. No geral a safra 2013 é levemente superior com deliciosos aromas de pitanga. A longevidade de ambas é um ponto de interrogação, mas aparentemente apresentam acidez para tanto. Notas 93 e 95, respectivamente.

mais hashi em ação

As duas safras acima, 2011 e 2013, de textura mais delgada e acidez mais aguda, foram bem com os pratos de sashimi e sobretudo as vieiras frescas com gelatina de tomate, um dos melhores pratos do menu. Aqui a maresia e frescor dos pescados deram as mãos com a mineralidade e acidez dos vinhos.

IMG_4513.jpgbeirando a perfeição

Pessoalmente, o melhor Montrachet do painel, embora esteja longe de estar pronto. Para beber agora, o 2009 é encantador. Voltando ao 2012, um vinho cheio de mineralidade, bela acidez, toques cítricos no aroma e uma gostosa salinidade em boca. Sua persistência aromática é expansiva e notável. Deve evoluir bem em adega. Sua longevidade pode estender-se até 2040. Talvez um pouco exagerada. Sua nota é 98 pontos.

IMG_4506.jpga escolha de Sofia …

Como se não bastasse essa cascata de Montrachets, entramos em outro terroir sagrado, Vosne-Romanée com sua Majestade, La Tache. O quadro acima revela dois La Taches excepcionais, cada qual em seu estilo e momento de evolução. O de safra 1985 é uma poesia liquida com todos os aromas terciários nobres que um vinho deste naipe pode entregar. Logo ao ser aberto, emergiu um aroma curado de Pata Negra, quase um Joselito, o melhor ramon espanhol. Devidamente decantado, os aromas de trufas, sous-bois, licor de cereja, chá, e flores secas foram perfumando as taças. Boca harmoniosa, precisa em seus componentes bem equilibrados, culminando num final muito bem acabado. Está no momento exato para ser apreciado, embora sem sinais de qualquer indicio de decadência. Deixando a emoção de lado, numa análise técnica isenta, falta um pouco de corpo e persistência para entrar na galeria dos La Taches perfeitos, mas é essa nobreza de aromas que faz deste vinho, independente da safra, um dos melhores vinhedos sobre a terra (Hugh Johnson). Nota 91 Parker. Eu daria entre 93 e 95 …

O La Tache 1991, safra um tanto desdenhada, é um dos La Taches históricos. O próprio Aubert de Villaine o prefere ao mítico 1990. A diferença de idade de seis anos para o La Tache 85 é desproporcional em termos de evolução. Enquanto o 85 está plenamente formado, o 91 ainda é um adolescente. Tem um estrutura monumental de taninos. Os aromas já estão encantadores com notas de cerejas escuras, minerais, alcaçuz e um delicioso chocolate amargo (cacau). Outro aroma que pouca gente entende é o aroma de carne fresca, nítido neste vinho. Da próxima vez que entrar num açougue, sinta este tipo de aroma. Em boca, falta muito a ser lapidado, mas quando o tempo se encarregar desta lenta tarefa, estaremos diante de um vinho grandioso. Previsão para 2040. Nota 97 com louvor.

os pratos de carne

Os pratos de carne, carne de porco ultra macia num caldo de sabor delicado para os aromas terciários dos vinho, e a delicada textura de língua numa farofinha crocante, complementaram muito bem a nobreza destes dois grandes vinhos.

IMG_4532.jpgo infanticídio de dia

Não se deve abrir um La Tache e outros vinhos DRC antes de vinte anos. A prova está na foto acima, deste belo 96. Um vinho que já tem seus encantos, mas tem muito a entregar ainda. Não tem a estrutura e longevidade do excepcional 91, mas tem acidez e taninos finos para evoluir com propriedade. Os aromas de cerejas, alcaçuz e especiarias, se destacam neste momento. Deve ser imperativamente decantado por duas horas, permitindo assim, uma melhor harmonia em boca. Nota entre 94 e 97 pontos num dos estilos mais elegantes de La Tache, se contrapondo ao potente 91.

O que mais dizer depois de um almoço desses, onde brancos e tintos foram exponenciados ao limite. Apenas agradecer a companhia e generosidade dos confrades, desejando-lhes vida longa regada aos sabores de Bacco. Saúde a todos!

Almoço da Terrinha …

9 de Março de 2018

Num agradável almoço no Rancho Português em São Paulo, comida farta com vinhos da Terrinha. Essa é a proposta deste grupo que alia centenas de rótulos portugueses dos mais variados estilos e preços, harmonizando com pratos da cozinha lusitana, sem incorrer em erros e nem aventurar-se em combinações sem sentido. Em suma, vinhos das várias regionais portuguesas com pratos tradicionais deste encantador país.

 frutos do mar muito bem apresentados

Acima, Frigideira de Frutos do Mar e Camarões Porto Santa Maria. Estes foram os pratos do início do almoço, acompanhados por um branco do Dão com as castas Encruzado e Malvasia, sobretudo. 20% do vinho estagia em barricas de carvalho francês, enquanto o restante fica em cubas de aço inox. Branco de muito frescor com toques citrinos e florais. Belo equilíbrio com final fresco e estimulante. Sua acidez e mineralidade combateram bem a gordura e maresia dos pratos. Importadora Zahil.

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Brancos do Dão: sempre elegantes e equilibrados

Continuando o sacrifício, vamos agora ao Bacalhau da Terra da “Mamãe”. Um prato farto com uma linda posta de bacalhau, acompanhando uma polenta cremosa. Delicado, mas ao mesmo tempo com sabores marcantes.

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um molho semelhante à moqueca

Dentre os nove vinhos tintos servidos no almoço, alguns deles abaixo que acompanharam com competência o prato ícone português. O Pedra Cancela Reserva 2013 da região do Dão mostrou seu charme com toques terciários no aroma (couro), de acordo com os sabores do bacalhau e as notas de azeite trufado. O segundo, Dois Terrois da vinícola Corte de Cima, importadora Adega Alentejana, mostrou boa fruta com leves toques amadeirados. O terceiro vinho, Quinta do Penedo do Salto Reserva, tem um estilo bem Novo Mundo. Muita fruta com toques mentolados. Foi o que menos conversou com o prato.

vinhos: Dão, Alentejo, e Douro

Como se já não bastasse, mais um prato de resistência, Bife a Café Lisboa. Como tive o privilégio de sentar ao lado de Dias Lopes, grande escritor da gastronomia, ele me contou que na antiga Lisboa, nos tempos de Fernando Pessoa, a fama de uma série de bifes espalhados pela cidade fazia grande sucesso, inclusive o famoso bife acebolado. Voltando ao prato, o molho farto e bem balanceado lembra um pouco o do Steak au Poivre.  Neste caso, com um sutil toque de café que dá nome ao prato.

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cozinha sem frescuras

Acompanhando a carne, Quinta do Vallado Touriga Nacional. Um vinho de força, presença, e muito bem elaborado. Um verdadeiro pote de geleia de frutas escuras permeado por lindos toques florais. Taninos elegantes, profundidade de sabor, e longa persistência. O Quinta das Marias do Dão, surpreendeu pelo corpo e potência, muito provavelmente pela bela safra 2015. Um vinho denso com toques defumados e minerais, fugindo um pouco da habitual delicadeza. Contudo, um tinto intrigante e de muita personalidade. Já o alentejano, Herdade Grande Gerações, assumiu a delicadeza do Dão para padrões da região. Corpo médio, aromas delicados de licor de frutas e um sutil toque de menta, quase lembrando anis. 

novamente o trio: Alentejo, Dão e Douro

Os três acompanharam bem o prato, mas o Alentejano ficou um pouco abaixo, faltando punch para a intensidade do prato. Como relatado, estava muito delicado para a natureza dos vinhos desta região.

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Pão de Ló de Ovar

A sobremesa foi para chutar o balde, ou como diz o jornalista Sardenberg, enfiar o pé na jaca. Mais uma das tradicionais receitas com ovos, este Pão de Ló de Ovar estava muito bem feito e apresentado. É uma espécie de petit gâteau de ovos onde você parte a massa delicada do bolo e encontra um creme de ovos. A doçura estava na medida certa, sendo uma ótima desculpa para acompanhar um cálice de Moscatel de Setúbal.

Mais uma vez, a dieta foi adiada. Agradecimentos à fidalguia de todo o pessoal do Rancho Português, especialmente do sommelier Araujo, aquele dos bons tempos do Antiquarius. Profissional de larga experiência, praticando uma sommellerie de eficiência e discrição.

Estendendo também os agradecimentos a Fellipe Toledo da Gina Comunicações por promover e proporcionar esta experiência enogastronômica da rica e farta cozinha portuguesa. Agora, só me resta voltar à dieta …

Uma noite com Paul Laurent

5 de Fevereiro de 2018

Lembrando do filme Meia-Noite em Paris, eu e alguns confrades nos sentimos transportados para um três estrelas na França em plena capital paulistana. Estamos falando da escola Laurent Suaudeau, onde o mestre incorporou por alguns momentos a magia de Paul Bocuse numa linda homenagem. Em poucas palavras, deu para perceber sua admiração e seu respeito pelo mito francês que nos deixou recentemente.

eb66f5cf-246d-42f7-a06f-fb481f17e6af.jpgO mestre em ação

A mesa montada classicamente com cadeiras confortáveis e espaço de um metro quadrado por pessoa, mostra de cara os detalhes dos lautos jantares. Pode parecer ousadia, mas somente o mestre Laurent para reproduzir a contento alguns dos pratos servidos no L´Auberge du Pont Collonges, quartel general de Bocuse em Lyon, como Quenelles de Brochet, Poisson en Croute, e Le Poulet de Bresse aux Morilles. Realmente, um sonho.

Até aqui não falamos de vinhos, mas este preâmbulo é absolutamente necessário para contextualizar  uma série de obras-primas que desfilaram ao longo da noite, entre brancos e tintos. Começando pelo brancos, vamos aos comentários e harmonizações.

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Domaine Leroy e suas joias

O início da festa com dois Corton-Charlemagne de Domaine Leroy dá o tom do que vem pela frente. Um abre alas com as safras 2000 e 2009. Este 2009, degustado algumas vezes, mostra o poder dos grandes brancos com uma estrutura monumental. Necessariamente, precisa ser decantado por duas horas. Já o da safra 2000, plenamente evoluído, mostrou ao longo da degustação, inúmeras facetas aromáticas. Embora sem o mesmo brilho do 2009, um Corton deste quilate revela toda a classe de um autêntico Grand Cru.

Clássicos de Paul Bocuse

O peixe em massa folhada e a quenelle com molho de crustáceos foram alguns dos pratos que escoltaram esses belos brancos. A precisão na execução e os sabores de grande delicadeza e profundidade, valorizaram sobremaneira os brancos borgonheses ao longo do jantar.

IMG_4247.jpgnível de Grand Cru

Seguindo a dupla acima, sem se intimidar, entra na avenida o Meursault-Perrières 2001 do Roulot. Premier Cru só no rótulo, porque a classe e profundidade deste branco o eleva a outro patamar. Roulot consegue manter a típica textura cremosa dos grandes Meursaults, mas ao mesmo tempo aflora no vinho uma tensão vibrante e perfeitamente equilibrada. Um dos gênios da apelação.

lagosta e foie gras fresco

O prato da esquerda é o clássico Homard à L´Armoricaine, lagosta tenra no molho do próprio crustáceo. Ao lado, um foie gras fresco, cozido pelo próprio Mestre. Sabores e texturas divinas, escoltando os brancos de exceção.

IMG_4257.jpg 300 pontos na mesa

O dia era mesmo de homenagens. Nada melhor para lembrar de Madame Leflaive do que três safras gloriosas de seu inconfundível Chevalier-Montrachet. O da safra 1989 era o mais pronto e o menos esplendoroso. Chevalier tem sempre o lado elegante dos Montrachets com solo caracteristicamente pedregoso e de maior altitude nesses terrenos sagrados. Madame consegue fazer desta apelação o que alguns não conseguem em seus Montrachets. O da safra 2002 ainda é uma promessa. Um vinho ainda tenso, cheio de vibração, mas com extrato fabuloso. Por fim, a obra-prima da safra 1992, o melhor dela de todos os tempos. Ainda em plena forma, tem a magia dos grandes vinhos. Aromas que vão de frutas exóticas, mel, e especiarias raras, a um laivo tostado sensacional. Boca ampla, persistente, culminando no silêncio total.

390fbbc0-14d1-4096-9772-8113fe1bcbc1.jpgfinalizando com queijos

Por ordem de Louis-Michel Liger-Belair, outro homenageado da noite e felizmente entre nós, essa trilogia “Leflaiviana” acompanhou o final do jantar num serviço impecável de queijos à francesa. Todos vindos da França à base de leite cru, seguiu-se o Comte, Epoisses, e Mont d´Or. Harmonização certeira, mostrando que este cenário é claramente para grandes brancos.

Calma que os tintos estão chegando. No próximo artigo, lendas da Borgonha entrarão em cenas nas mais badaladas safras. Aguardem!

Para aqueles ansiosos por uma prévia, o artigo sobre Liger-Belair já se encontra disponível no link Domaine Liger-Belair: O novo milênio

 

 

 

 

 

Três amigos e quatro brancos

3 de Fevereiro de 2018

O título acima resume três grandes amigos compartilhando brancos de exceção e produção limitadíssima. Tudo aconteceu num agradável almoço no restaurante Amadeus com atendimento quase exclusivo da chef Bella Masano. Entre vários mimos, mini pasteizinhos de camarão, mini lulas chapeadas com cogumelos, ostras frescas of course, e dois pratos para comer de joelhos: mexilhões ao vapor e cuscuz de camarão e sardinha.

Vinotheque: o primeiro da história

Para começar a brincadeira, degustamos o primeiro Vinotheque Cristal 1995, recentemente lançado no mercado. A filosofia é parecida com as plenitudes do champagne Dom Pérignon. Neste caso, pequenos lotes do Cristal 1995 foram deixados em contato sur lies por dez anos. Normalmente, o Cristal Vintage passa de cinco a seis anos sur lies. Após esta dezena de anos e o dégorgement, este Vinotheque descansa mais dez anos em adega, antes de ser lançado no mercado. A ideia é proporcionar ao cliente a experiência de provar um champagne maduro e de alta complexidade. De fato, é uma maravilha. O que mais me encanta neste champagne é sua feminilidade e delicadeza. A mousse é abundante sem ser agressiva, estando perfeitamente integrada na massa vínica. A dosagem final do licor de expedição fica entre 8 e 10 gramas por litro de açúcar, conferindo uma maciez extra ao champagne. A textura é cremosa e os aromas de pralina são marcas registradas com toque de pâtisserie. Um champagne de gourmandise como dizem os franceses. Com os mini pasteis de camarão, sabores e texturas se entrelaçaram.

Neste lançamento, foram elaboradas 60 garrafas em branco e 30 garrafas em rosé, ambas da safra 1995 com preços a partir de 900 euros o exemplar.

Premier Cru Les Gouttes: menos de mil garrafas

Seguindo em frente, passamos aos brancos de Madame Leroy de sua reserva particular, Domaine d´Auvenay. Degustar um Auvenay já é um privilegio imenso, mas poder comparar duas safras distintas lado a lado, é ser “chic no úrtimo”. O vinho em questão era o Meursault Premier Cru Les Gouttes, safras 2009 e 2007. A concentração e finesse desses vinhos são admiráveis. Estamos falando de lotes com menos de mil garrafas por safra. A comparação foi bem didática, mostrando com clareza a característica das safras. No caso de 2009, é uma safra gorda para os brancos. Eles são untuosos, densos, macios, e ricos em sabor. Muito agradáveis para beber já. Falando de 2007, trata-se de safra clássica e também muito prazerosa. Contudo, percebe-se claramente uma textura mais delgada e uma acidez mais altiva, mais cortante, puxando mais para elegância do que potência.

sabores incríveis

Aqui um dos pontos altos do almoço, mexilhões cozidos em seu próprio caldo com vinho branco, ervas e temperos provençais, o clássico Moules à la Vapeur. O frescor, o ponto de cozimento e a delicadeza do tempero, estavam perfeitos. Mexilhões de textura macia, quase doces na boca, uma maravilha. Com os Meursaults, ficou divino. O clássico camarão gigante da casa perfeitamente empanado, servido em ninho de batatas fritas com os três molhos (abacaxi, tamarindo, e vinagrete), foi outra harmonização certeira. A gordura e a crocância do camarão foram contrastadas pela acidez e mineralidade do vinho.

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 o frescor dos ingredientes saltam aos olhos

Finalmente, o prato de resistência, esse maravilhoso cuscuz de camarão, palmito, ervilhas frescas, e sardinhas. Um prato de verão que tem sustância e uma umidade refrescante para esta estação do ano. Aqui, champagne e os brancos do almoço se refastelaram sem cerimônias.

os reverenciados Goldkapsel

Para fechar o trio de exclusividades, partimos para um Auslese alemão do produtor Markus Molitor, um Gold Capsule safra 2014. Na classificação de doçura nos vinhos alemães de predicado (QmP), o termo Auslese apresenta as versões Trocken, halbtrocken e Sweet. Em se tratando de cápsula dourada, a versão é sempre doce, balanceada por uma alta acidez num equilíbrio divino. Outro detalhe do rótulo alemão são as estrelas gravadas no rótulo. No caso, são três depois da palavra Auslese, indicando o mais alto nível de maturação das uvas. Bockstein é um dos vinhedos mais famosos da região do Saar, uma das mais frias da Alemanha, onde a exposição e declividade do terreno são cruciais para um perfeito amadurecimento dos frutos. Markus Molitor é uma das estrelas do Mosel, local dos Rieslings mais elegantes do mundo. Seus terrenos de ardósia possuem inclinação acentuada de 80% de declividade, maximizando a exposição solar.

IMG_4226.jpgSfraciatelli, abacaxi, e coco em versões

Decifrado o rótulo, o vinho tinha uma elegância ímpar, sustentado por uma acidez marcante, sem ser agressiva. O açúcar residual perfeitamente balanceado e um teor de álcool discretíssimo de 7,5° graus. As sobremesas de coco da foto acima, bem como o sfraciatelli (doce siciliano de frutas secas e castanhas), ficaram muito bem acompanhadas pelo vinho com açúcar na medida certa.

hora da fumaça azul

Agora já fora da mesa, o merecido descanso após o sacrifício, jogando conversa fora. A postos, Behike 52 e Hoyo de Monterrey Serie Le Hoyo. O primeiro,  um Petit Robusto topo de gama da linha Cohiba, ring 52. O segundo, um Robusto Extra de ring 54 e ótimo fluxo. É como comparar Bordeaux e Bourgogne. A Casa Hoyo de Monterrey prima pela elegância, delicadeza, aromas etéreos ricos em especiarias. Já o Behike, toda a potência de um cubano com toques terrosos e de couro. Os dois maravilhosos, cada qual em seu estilo.

desce macio e reanima

Nos mesmos moldes dos Puros, os destilados se contrastaram, sendo grandes em seus respectivos estilos. O rum guatemalteco Zacapa é um show de maciez e corpulência com um final quase doce, rico em baunilha. Foi muito bem com o Behike 52, sobretudo no terço final, num final avassalador. Já a elegância, aromas etéreos, deste Armagnac Darroze safrado de 1972, permanecido em pipas de carvalho por 40 anos (engarrafado em 2012), deram as mãos ao Puro Serie Le Hoyo, um respeitando as sutilezas do outro. Vale dizer, que este Armagnac não precisou ser retificado com água para baixar seu teor alcoólico, visto que o longo período de envelhecimento em cascos, cumpriu a missão naturalmente. Os Armagnacs ainda contam com este privilégio de safras antigas, fato muito mais raro  em seu concorrente direto, o nobre Cognac. Vale ressaltar que Bas-Armagnac mencionado no rótulo é o melhor terroir desta apelação. Equivale à melhor porção em Cognac, chamada de Grande Champagne.

Resta apenas agradecer a companhia e generosidade dos amigos em longas horas de puro prazer sensorial no sentido epicurista. O ano 2018 promete!

Mude a cor de seu vinho!

12 de Janeiro de 2018

Por que consumir vinho rosé? Porque ele é versátil, é gastronômico, e é mais uma opção além de tintos e brancos. Mas rosé não é só uma nuance de cor. Precisa saber fazer rosé. Precisa de propostas e terroir adequados ao estilo. Assim como nos espumantes a referência é Champagne, no mundo dos rosés a referência é Provence. Novamente a França nos ensinando o caminho.

vin rose consumação 2015

 consumimos menos de um por cento no ranking mundial

O rosé provençal é leve, fresco, charmoso. Tem balanço, equilíbrio, e personalidade. É líder no setor de rosés franceses, pois regiões como Loire e Rhône também elaboram este tipo de vinho. A uva deve estar suficientemente madura para não transparecer traços herbáceos negativos, e nem um frutado demasiado, perdendo o equilíbrio. Portanto, o ponto de colheita é um dos segredos deste vinho. Para isso, uvas e climas adequados são fundamentais.

vin rosé produção mundial 2015

cerca de 10% dos vinhos tranquilos são rosés

Na cantina, temos basicamente dois caminhos: o rosé de pressurage ou o rosé saignée. Pressurage é o processo mais delicado onde se obtêm os rosés mais elegantes e sutis. É uma leve prensagem antes do inicio da fermentação, deixando as casca em contato por breve tempo. O método saignée pressupõe já um início de fermentação onde a cor é extraída com mais intensidade. Normalmente, perde um pouco a delicadeza, mas pode ser muito gastronômico por possuir mais corpo e estrutura. 

vin rosé exportação volume 2015

a liderança mundial espanhola em termos de volume

Numa ordem de prioridade, os rosés provençais são praticamente imbatíveis e não custam tão caro assim. Atualmente, entre 100 e 150 reais, há ótimos exemplares. Até mesmo por menos de 100 reais, pode-se encontrar algo interessante, pesquisando um pouco. Caso o bolso esteja mais cheio, prove um dos rosés do Domaines Ott. Delicados ao extremo, é importado pela Clarets. Se  quiser continuar na França, o caminho natural segue para os vales do Loire e do Rhône. No primeiro, os vinhos tendem a ser mais leves e delicados, enquanto os do Rhône costumam ser mais encorpados e gastronômicos, sobretudo o famoso Tavel. Uma região pouco difundida, mas que vale a pena provar são os rosés do sudoeste francês, principalmente na região de Gaillac. Alain Brumont tem um belo exemplar na importadora Decanter da região de Ténarèze, região do Armagnac, vizinha a Gaillac. Mesclando Tannat, Merlot, e Syrah, este rosé acompanha muito bem embutidos, jamon serrano, e uma bela pizza de calabresa artesanal com toques de erva-doce.  

vin rose exportação valor 2015

exportação em valores, França e Itália se equilibram

Ainda em território francês, vale a pena provar o rosé bordalês de Denis Dubourdieu, Le Rosé de Floridene, importado pela Casa Flora. Muito mais pelo produtor do que propriamente pela região.

Fora da França, as regiões espanholas de Navarra e Rioja elaboram belos rosés. As duas juntas respondem por cerca de 45% dos vinhos rosados espanhóis. Um belo rosé elaborado por Julián Chivite com a casta Garnacha, o Gran Feudo Rosado sai por menos de 100 reais na Importadora Mistral. As tradicionais bodegas de Rioja costumam fazer rosados bem interessantes. Aqui no Brasil, Viña Tondonia e CVNE são representadas pela importadora Vinci.

Partindo para a Itália, temos a versão rosé do Montepulciano d´Abruzzo chamada Cerasuolo. A importadora Ravin traz o produtor Zaccagnini com vinhos sempre bem equilibrados.  

Voltando aos franceses, os rosés provençais chegam a 42% da produção anual das apelações francesas (AOC) para este tipo de vinho. Eles também respondem por 89% da produção total na região provençal, sendo o restante, 7% de tintos e 4% de brancos.  

Enogastronomia

Uma infinidade de pratos podem acompanha-los. Temperos mais pronunciados, pimentas, ervas, especiarias, alho, são bons parceiros para este tipo de vinho. Bem mesclados em tortas, pizzas, bruschettas, com atum, frango, ou embutidos, é a receita ideal de harmonização.

Nos mais variados buffets espalhados pela cidade como Rascal, por exemplo, uma garrafa de rosé passeia com tranquilidade por várias daquelas entradinhas, presuntos, pimentões com azeite e alho, e assim por diante.

É um vinho de praia, de verão, bem refrescante, acompanhando vários pescados e frutos do mar servidos em restaurantes. Um camarão a provençal é uma combinação ótima. Entradas frias com carnes bem temperadas como carne louca por exemplo, é outra pedida certa. Até um vitello tonnato entra na brincadeira.

Enfim, siga os franceses, maiores produtores, exportadores e consumidores de rosés do mundo. Quem sabe daqui alguns anos, o Brasil passa entrar nas estatísticas, ao menos como consumidor.

Espumantes à mesa

27 de Dezembro de 2017

Na passagem do ano, os espumantes são inevitáveis, nem que seja para brindar. Mas como já dissemos, eles vão muito além do brinde. Se bem escolhidos, acompanham com competência as mais diversas receitas. Para exemplificar, vamos a três pratos que podem perfeitamente encerrar o ano de maneira surpreendente. 

IMG_4123.jpggrand cru tasting 2017 geisse cuvee sofia magnum

Bacalhau de forno e uma cuvée sofisticada

Não importa a receita, é um prato de sabores marcantes que agrada inclusive os carnívoros. Aqui, o espumante precisa ter presença, estrutura. Se você simpatiza com o vinho nacional, vá de Victoria Geisse Cuvée Sofia em garrafa Magnum, o melhor espumante brasileiro. Ele tem frescor, complexidade, estrutura, para acompanhar qualquer receita de bacalhau. São 48 meses de contato sur lies, fornecendo textura e sabores de acordo com o prato. Importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br).

leitao assado restaurante emilianogramona imperial 2010

Leitão assado com um belo Cava 

Os portugueses já sabem o caminho. Nada como um belo espumante para limpar a gordura do prato e harmonizar os sabores crocantes da pele pururucada. Neste caso, vá de Cava Gramona Imperial, um Gran Reserva com 60 mesese sur lies. Complexidade, acidez vibrante, textura magnifica, e um final com aromas tostados, bem de acordo com os sabores do prato. Importadora Casa Flora (www.casaflora.com.br). Se você não abre mão dos portugueses, a pedida é Murganheira, o melhor de Portugal. Importadora Epice (www.epice.com.br). 

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Risoto de Carne Seca com Abóbora

Pode ser o risoto tradicional com a técnica italiana, ou um arroz de forno com carne seca e abóbora. Aqui um vinho laranja ou um Tokaji 3 Puttonyos  de estilo tradicional são parceiros perfeitos. Como estamos falando de espumantes, vamos ser tão exóticos quanto o prato. Vá de champagne Jacques Selosse Exquise Blanc de Blancs Sec, lembrando que o termo Sec quer dizer algo de açúcar residual. Um champagne de Gourmandise, pleno de sabores, aromas, e mineralidade. O lado moelleux do vinho casa perfeitamente com a doçura da abóbora e se contrapõe ao toque salgado da carne seca. A acidez da bebida contrasta com a gordura do prato, enquanto seus sabores marcantes casam-se perfeitamente com a riqueza de sabores do prato. Uma harmonização ousada e inesquecível.     

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belas opções para o risoto

Gravner é simplesmente  o pai  dos vinhos laranjas. São vinhos fermentados em ânforas com as cascas e tudo que tem direito. Passa alguns meses neste contato intenso e posteriormente, estagia cerca de seis anos em botti (grandes toneis eslavônios). Pela cor do decanter, dá pra ter uma ideia da criança. Um vinho mastigável e cheio de aromas.

Como o risoto da foto era relativamente delicado, o Franciacorta Ca´del  Bosco Vintage 2003 deu conta do recado. Com predomínio de Chardonnay, o blend é complementado com Pinot Bianco e Pinot Nero. Passa 48 meses sur lies antes do dégorgement. Já com toques de envelhecimento, o vinho base tem estrutura para encarar o prato. Seus toques tostados e de frutas secas como damascos, casam perfeitamente com os sabores do risoto.

combinação para fechar o almoço

Encerrando o almoço, este chocolate escuro com flor de sal complementou muito bem o Madeira Malmsey 10 anos da Blandy´s. A doçura de ambos foi bem balanceada, mas o ponto alto foi o contraponto da acidez do vinho como o toque salino do chocolate. 

embate de gigantes

Zacapa XO é um rum guatemalteco espetacular. Cheio de aromas e sabores, tem um lado quase doce e um final extremamente agradável e untuoso. Por outro lado, Talisker 10 anos é um Single Malt poderoso e de grande austeridade. Num estilo absolutamente distinto, sua persistência aromática é notável. Mesmo com toda a riqueza  do rum, Talisker ainda consegue supera-lo em potência, tendo um final arrebatador com o trio de cubanos abaixo, sobretudo os potentes Partagas Salomones e Cohiba Behike 56.

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um trio de respeito

O que dizer desta trinca maravilhosa!. Ainda com o restinho de Madeira, iniciamos a fumaça azul com Bolivar Belicosos, Partagas Salomones, e Cohiba Behike 56. Evidentemente em potência, o Belicosos está num nível abaixo, mas de uma elegância ímpar. O Behike mantem esta elegância, ganhando força e potência.  Já o Salomones, um duplo figurado com ring 57 é um verdadeiro canhão de sabores e aromas. O rum de modo geral, acompanhou bem os três charutos, mesmo em seus respectivos terços finais. Contudo, no caso do Salomones, só mesmo o Talisker deu conta do recado.

Bela maneira de encerrar 2017. Feliz Ano Novo a todos!

Final MasterChef: Harmonização

6 de Dezembro de 2017

Como de costume, toda a final MasterChef, Vinho Sem Segredo tenta harmonizar alguns vinhos com os pratos propostos pelos finalistas, desta feita, profissionais.

A diversidade de pratos foi imensa num menu com quatro entradas, quatro pratos principais e quatro sobremesas. Achei um pouco de exagero ter quatro sobremesas e tempo de execução de apenas uma hora para cada finalista. Enfim, vamos às harmonizações.

Imaginando um menu desses para oito pessoas, são mais que suficientes dois vinhos de entrada, dois vinhos para os pratos principais, e duas meias garrafas para os vinhos de sobremesa. Portanto, as sugestões de vinhos serão por duplas de pratos, supondo uma situação real sem exageros.

Entradas

mexilhão à esquerda e linguiça de camarão à direita

Nada melhor que iniciar uma refeição com um Riesling da Alsace, sobretudo se for um Zind-Humbrecht da importadora Clarets (www.clarets.com.br). Esse Riesling costuma ter um off-dry bem balanceado por uma bela acidez, certa textura em boca, além de toques cítricos, minerais, e florais. Os aromas marinhos e a gordura do creme de leite são bem contrastadas pela mineralidade e acidez do vinho. A riqueza de sabores de ambos os pratos encontra eco nos múltiplos sabores e aromas do vinho. O toque de bacon e a fritura nesta linguiça de camarão são bem criativas. Um harmonização que mantem a boca fresca para a sequência de pratos.

foie gras com abóbora e nhoque de calda de ameixa

Nesta sequência de entradas, os sabores se intensificam e se tornam bem exóticos. Aqui precisamos um vinho de caráter e personalidade. Um distinto Amontillado da região de Jerez pode ser uma bela surpresa. Se for da bodega Lustau, melhor ainda. A sugestão é o Amontillado Los Arcos, importado pela Ravin (www.ravin.com.br). Esse vinho apresenta sabores interessantes com o foie gras grelhado e abóbora cabotiá ao forno. A calda de ameixa com temperos e especiarias, quase um consomé, encontra eco nos sabores multifacetados do vinho com frutas secas, especiarias e toques empireumáticos. A preparação do fígado de galinha que é incorporado no nhoque, conta com redução de vinho do Porto e conhaque, o que aumenta a ligação com o vinho em questão.

Pratos Principais – peixes

truta no vapor e robalo grelhado

Os sabores dos dois pratos são delicados, sobretudo no robalo onde as três versões de couve-flor são apresentadas (purê, picles delicado, e assado). Temos ainda o pistache na composição. Na truta ao forno, temos um recheio de pralina com castanha de caju. O peixe é coberto com lâminas de pupunha e folhas de capiçoba, uma planta típica de Minas Gerais. Para todos esses sabores pouco comuns, a sugestão é Hermitage branco, vinho pouco conhecido com as uvas Marsanne e Roussanne. Costuma ser um vinho que valoriza as harmonizações por ser pouco invasivo. Normalmente, não se percebe a madeira, além de envelhecer muito bem. Não tenha medo de compra-lo com alguns anos de garrafa. Seus aromas evocam frutas e flores delicadas, um fundo de mel, e com o tempo, toques minerais e de frutas secas. Certamente, irá realçar os sabores da couve-flor e no caso da truta, um prato de sabores relativamente mais marcantes, tem mineralidade para o peixe e sintonia com a castanha de caju. Existem belos exemplares na importadora Mistral (www.mistral.com.br). Um vinho também da própria mistral como alternativa, é o Domaine Ferret em várias versões de Pouilly-Fuissé. Um vinho delicado e de muita mineralidade.

Pratos Principais – carnes

costeleta de vitela à esquerda e língua à direita

Novamente, carnes delicadas e molhos de alto refinamento. Com essas características, poucas opções fora da Borgonha. Poderia ser até um branco da região, mas vamos colocar um tinto. Aliás, o único do menu. Da principais comunas da Côte d´Or, escolheria um Volnay pela delicadeza e preços não tão abusivos. Num mundo ideal, Domaine Lafarge, não encontrado no Brasil. Voltamos então à Mistral com boas opções. Como sugestão um De Montille 1º Cru Les Champans 2009 na promoção. Esse vinho tem a delicadeza para as carnes propostas, para o morilles, um champignon fino com toques terrosos. Todos os outros sabores de ervas, especiarias e pistache, têm sintonia com o vinho. Harmonização de sutilezas.

Sobremesas – frutas frescas

sorvete de goiaba à esquerda e abacaxi com mascarpone

Aqui o primeiro par de sobremesas com frutas frescas, certa intensidade de sabores e alguma cremosidade. O vinho indicado é um Sainte-Croix-du-Mont, apelação satélite de Sauternes, elaborado com as mesmas uvas botrytisadas. É uma versão mais leve e menos untuosa. Vai bem com as frutas, a cremosidade do mascarpone, os queijo canastra e requeijão, a farofa de castanha, o chocolate branco, e o molho cítrico do abacaxi. Este é um exemplar da importadora Decanter (www.decanter.com.br). Chama-se Chateau de Tours.

Sobremesas – chocolate e café

sorvete de pão com telha de café – mousse de chocolate amargo com caju

Aqui temos sobremesas ricas e de sabores marcantes. A telha de café, o chocolate amargo, o sorvete de pão, leite e manteiga, espuma de caramelo e doce de leite, caju em calda, e espuma de cachaça. Todos esses sabores, texturas, doçuras e gorduras, pedem um belo Madeira Malmsey 10 ou 15 anos, encontrado na Adega Alentejana do produtor H.M. Borges (www.alentejana.com.br). A acidez, a doçura, os toques empireumáticos, cítricos, de especiarias e baunilha, são elementos suficientes para uma boa harmonização. Para quem for mais curioso, tem um raro Carcavelos na mesma importadora. Elaborado nos arredores de Lisboa, é um vinho fortificado quase em extinção. Vale a pena prova-lo como alternativa.

As receitas em detalhes encontram-se no site do MasterChef Profissionais na Uol. Antes que alguém venha comentar sobre a idoneidade do programa, este artigo visa pura e simplesmente um exercício de enogastronomia. Não tenho nenhuma relação com o programa, apenas acompanho como telespectador.

Os finalistas foram os competentes Chefs Francisco Pinheiro e o jovem Pablo Oazen, vencedor da grande final. Em cada foto acima, um duelo entre os dois. Foram testados ao limite. Parabéns!

Petrus x Médoc

31 de Outubro de 2017

Mais um belo jantar preparado pelo Chef Laurent Suaudeau, um dos mais clássicos franceses radicado em nosso país, escoltando cinco bordaleses de primeiro escalão num bom momento de evolução em garrafa de safras não tão badaladas. É nessas horas que vemos toda a categoria desses vinhos e sua capacidade de envelhecer longamente em adega. Antes porém, um Champagne e um Meursault fizeram as honras da casa recepcionando os convivas.

champagne e bottarga

Na foto acima, Louis Roederer Cristal Rosé 2005 em Magnum. Um dos diferenciais deste incrível champagne é ser elaborado com maceração pelicular da Pinot Noir, ou seja, um rosé de saignée. Na grande maioria dos champagnes rosés, o método normalmente usado é de assemblage, misturando um pouco de vinho tinto no mosto incolor apenas para tingi-lo devidamente. Além disso, sua categoria Brut está no limite do açúcar residual permitido, entre 11 e 12 gramas por litro. O blend é feito com 70% Pinot Noir e 30% Chardonnay. O vinho permanece cerca de quatro anos sur lies antes do dégorgement. O resultado é um champagne de estrutura, macio, com a elegância da Maison acima de tudo. Mousse muito delicada e um final harmônico, mesclando frescor e uma sensação off-dry. Acompanhou bem uma das entradas (foto acima), lâminas de bottarga com purê de batata, mostrando personalidade. 

bisque de camarão e Meursault. Hum !!!

Nesta combinação tem um pequeno detalhe. O Meursault é do Roulot e a bisque, do Laurent. Isso pode fazer uma enorme diferença. Este Premier Cru Le Porusot tem uma diminuta área de 0,42 hectare. Seu estilo é muito mineral, um toque alimonado, e uma textura não tão untuosa como um Lafon, por exemplo. A porcentagem de barrica nova no processo é bem pequena, da ordem de 15 a 20%. Muito equilibrado, super bem acabado e complementou divinamente uma das entradas (foto acima), panelinha de vongole e camarão. 

Nessa altura do campeonato, todos já olhando para os decanters na mesa de apoio com os cinco vinhos devidamente livres de seus sedimentos.

carlos lafite e margaux 79

safra que pode surpreender

Abrindo os trabalhos, lado a lado, Lafite e Margaux com quase 40 anos. O Lafite 79 mostrou toda a evolução de um grande Bordeaux. Aromas terciários plenos, taninos polimerizados, um toque de cedro muito elegante. Enfim, o vinho mais pronto no momento e com incrível prazer. É sem dúvida, o mais delicado e elegante entre os grandes Pauillac. Já o Margaux 79, surpreendeu positivamente. Uma safra que muita gente não dá bola, mas no caso de Margaux apresenta grande estrutura. Seus taninos ainda não estão totalmente resolvidos. Os aromas muito elegantes do Margaux lembram um toque floral e de sous-bois, entre outros. Já pode ser bebido, mas evolui por pelo menos cinco anos. Tem 93 pontos Parker.

carlos mouton 87 e latour 94

a força de Pauillac

Neste segundo flight, a maior disparidade. Tanto em evolução, como diferenças de safra. Mouton 87 numa safra com muitos problemas. Por ser uma safra relativamente precoce e sem muita concentração, seu melhor momento certamente passou. Ainda longe de qualquer indicio de oxidação, não foi tão longo em boca. Já o Latour 94, foi o infanticídio da noite. Outra safra não muito badalada, mas com 94 pontos Parker. Cor ainda escura, aromas um pouco fechado, foi se abrindo aos poucos. Uma montanha de taninos para ser trabalhada ao longo do tempo. Aromas clássicos com um toque de cassis, couro fino, mineral, e tabaco. Longo em boca, precisa dormir pelo menos mais dez anos em adega. Latour é Latour.

carlos bouef bourguignon

boeuf bourguignon comme il faut

Acima, um dos pratos do mestre Laurent, o clássico cozido borgonhês para cutucar um pouco os bordaleses. Sem nenhum problema de harmonização, quando já bem evoluídos, os bordaleses pegam um pouco a delicadeza da Borgonha.

carlos petrus 80

um dos mitos de Bordeaux

Abram alas para sua majestade, Rei Petrus. É mais ou menos assim que pensamos quando ele chega à mesa. Para começar, esta safra mostra uma boa estratégia para aqueles que desejam prova-lo  pelo menos uma vez. Não é tão cara como outras safras badaladas e tem a vantagem de estar pronto, sem muitas arestas. Com seus 37 anos, é muito prazeroso de toma-lo. Ainda com muita fruta, toques terrosos e de adega úmida, seus taninos são sedosos, e um final complexo. Pela expectativa da safra, surpreendeu positivamente. Além disso, título do artigo, enfrentou sozinho os quatro da margem esquerda com altivez.

Ainda deu tempo de dar um pulinho na safra 99 com dois grandes chateaux, Haut-Brion de Graves, e Ausone de Saint-Emilion.

carlos ausone e haut brion 99

já chegando nos seus 20 anos!

Outra safra que muitas vezes passa esquecida em Bordeaux. Os dois chateaux acima ainda muito novos, provando mais uma vez a enorme longevidade desses vinhos. Haut-Brion sempre prazeroso com seus toques terrosos e de estrebaria. Segue o perfil elegante, não muito encorpado, mas extremamente equilibrado. Devidamente decantado por duas horas, pode ser muito agradável no momento. Já o Ausone, foi outro infanticídio. Um vinho com 95 pontos Parker de taninos abundantes e muito finos. Fruta escura concentrada, um toque mineral esfumaçado, faltando claramente integração entre seus componentes. Lembra um pouco os aromas do Troplong Mondot, outro grande St-Emilion. Com a devida paciência, será um dos grandes Ausones, fechando o século passado.

carlos yquem 87

o melhor final de festa bordalês

Falar que Yquem é um grande Sauternes, um vinho maravilhoso, é chover no molhado. O que novamente surpreendeu positivamente neste exemplar foi a safra 87, outra vez pouco badalada. Um vinho pronto, não muito untuoso, mas com aromas delicados e muito harmônicos. Um toque sutil de mel, caramelo e marron glacé. Final não muito longo, mas extremamente prazeroso.

carlos noval vintage 1970

Madelaine, Porto e Latour ao fundo

Na foto acima, o brinde final. Quinta do Noval Vintage 1970 devidamente decantado. A cor é bem mais delicada que o decanter da foto, no caso Latour 94. Noval é uma Casa de elegância impar. Notas balsâmicas e de frutas em compota permeiam seus aromas. Boca ampla, de grande equilíbrio, e terrivelmente persistente. As madeleines não são de Proust, mas do mestre Laurent. Um Gran Finale!    


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