Archive for the ‘massas’ Category

Comidinhas e Vinhos

27 de Abril de 2017

Nos últimos goles e garfadas, alguns momentos interessantes na enogastronomia. Em Uberlândia, destacada cidade de Minas Gerais, o restaurante Akkar com ênfase em pratos de acento árabe, propõe esfirras originais tendendo para uma espécie de pizza. A foto abaixo, elucida melhor o fato.

a chamada esfirra / pizza

estilos e texturas diferentes

O branco da esquerda, Roero Arneis, é uma das mais tradicionais denominações do Piemonte. Arneis a uva, Roero o terroir, região a norte de Alba, do outro lado do rio Tanaro que corta as principais denominações. O detalhe deste vinho é seu produtor Bruno Giacosa, um dos pilares da viticultura piemontesa. Vinho de muito frescor, elegância, fruta exóticas e toques florais bastante harmônicos. Embora sem passagem por madeira, mostra certa textura e maciez. Bela pedida com a esfirra margherita, foto acima à esquerda. O manjericão, os tomates, dão leveza ao prato, bem de acordo com o caráter do vinho.

Já o segundo branco, é uma proposta diferente da bodega chilena Undurraga no Vale Limari, bem ao norte de Santiago, aproximadamente 400 quilômetros. A linha T.H. (Terroir Hunter) propõe vinhedos e solos específicos ligados a determinadas uvas no mais puro conceito de terroir. Neste caso, o vinhedo com destacado calcário no solo, se beneficia das brisas frias advindas do Pacifico, devido à sua proximidade. O vinho passa parcialmente por barricas, num eficiente trabalho de bâtonnage (revolvimento das borras). A fruta é bem balanceada com a madeira, apresentando textura interessante, com certa untuosidade, sem perder o frescor. Vai bem com a esfirra da direita (foto acima), onde o frango e palmito cremosos pedem mais textura no vinho. O frescor do palmito fica na medida para a acidez do vinho.

costela de chão

fogo de chão

Mudando a conversa, agora numa festança (casamente de minha filha), costela de boi assada lentamente em fogo de chão. Prato de muito sabor, textura, e gordura condizente com a carne. Os tintos mais robustos, um tanto rústicos conversam bem aqui.

Carignan em ação

O tinto da esquerdo é o segundo vinho da bodega Cims de Porrera, uma das lendas da denominação de origem Priorato, região montanhosa ao sul da Catalunha. Neste blend, temos 70% Cariñena e 30% Garnacha. Apesar de seus quase dez anos de idade, o vinho mostra-se com muito vigor, potente, taninos muito bem delineados, e grande persistência aromática. Agradavelmente quente, é um tinto típico de inverno. Seus aromas concentram fruta, toques minerais e defumados. Muito elegante para castas naturalmente rústicas. Passa cerca de 14 meses em barricas francesas de segundo uso, as quais integram-se perfeitamente na essência do vinho.

No vinho da direita, outra bela expressão de Carignan, no caso italiano, Carignano. Um vinho diferenciado da melhor vinícola da Sardenha em termos de tinto, Santadi, haja vista seu topo de gama, o aclamado Terre Brune, Carignano de parreiras muito antigas. Neste caso, as videiras não são tão antigas, mas o vinho mostra muita personalidade com a típica rusticidade italiana, envolvida num vinho de presença e muito bem balanceado. Sob a denominação Carignano del Sulcis, este tinto passa entre 10 e 12 meses em barricas francesas de segundo uso. Novamente, muito bem balanceado entre fruta e madeira, seus toques defumados, balsâmicos e de ervas secas, resultam num vinho extremamente gastronômico, moldado para pratos substanciosos como rabada, carnes de longo cozimento com molhos bem temperados.

corrientes carmenere e rioja

tintos para churrasco

Para finalizar, dois belos tintos para acompanhar carnes bem grelhadas, evento na casa de carnes Corrientes 348. O Carmenère Winemaker´s Lot é um dos belos Carmenères elaborados pela gigante chilena Concha Y Toro. Seu frescor e taninos potentes são muito bem rechaçados pela suculência de um bife de chorizo devidamente grelhado ao ponto. A fibrosidade deste tipo de carne é um dos melhores contrapontos aos taninos mais presentes. Em contrapartida, o elegante Rioja da direita, Luis Cañas, baseado na casta Tempranillo, apresenta a acidez e frescor necessários para driblar a gordura entremeada de um belo ojo de bife (parte nobre do bife ancho). A delicadeza da carne casa muito bem com os Riojas da sub-região Alavesa, destacada pela elegância de seus Tempranillos. A madeira no caso dos dois vinhos acima é bem proporcionada com a estrutura de seus respectivos vinhos.

Vegetarianos ou ainda mais complicado, veganos, fica para uma próxima. Abraços,

Sutilezas da cozinha italiana

20 de Abril de 2017

Normalmente, quando se pensa em Itália, pensamos em muita fartura, molhos densos, temperos marcantes, e assim por diante. É uma comida que afaga a alma. Entretanto, há exceções como a Osteria del Pettirosso, comandada pelo chefe romano Marco Renzetti. Não que não seja saborosa, pelo contrário, seus sabores são bem definidos, mas de uma delicadeza e precisão pouco usuais. Você termina a refeição de maneira leve, satisfeito, pronto para continuar um trabalho, se for o caso. Vamos então a alguns pratos.

pettirosso carne cruda

entrada instigante

Na foto acima, temos carne cruda com morangos marinados no aceto e tempero de salsão, além de lascas de parmesão. A textura é delicada, o morango perfeitamente integrado no vinagre, onde um complementa o outro aparando as arestas (fruta do morango esmaecida quebrando a acidez do vinagre). O tempero com salsão levanta o sabor do prato.

É uma entrada que admite tantos brancos, como tintos. Um Dolcetto, por exemplo, bem leve, frutado, novo, seria um belo par. Do mesmo modo, um Fiano di Avellino, branco da Campania, acompanharia bem a delicadeza do prato. Um rosé da Toscana como do Castello di Ama é outra opção interessante.

massa e carne de intensidades surpreendentes

Os pratos principais com expectativas contrastantes. O maccheroncini com molho picante de linguiça toscana (foto à esquerda) tinha força para encarar um Barolo, o que é surpreendente para uma massa. Já o Saltimbocca de vitela tinha uma apresentação pra lá de original. A delicadeza do prato era tal, que poderia perfeitamente ser acompanhado por um vinho branco. Por exemplo, um Greco di Tufo (Campania), ou um Soave de bom produtor (Pieropan ou Anselmi).

pettirosso barolo vajra

um Barolo de estilo macio

Um Barolo elaborado na comuna homônima com características semelhantes a La Morra. Estilo mais denso, macio, embora com seus aportes de acidez e taninos. Bricco delle Viole é um terreno de vinhas antigas, plantadas inicialmente em 1949 com replantações em 1963, 1968 e 1985. Amadurce por três anos em botti (grandes toneis) de carvalho eslavônio. Seus aromas de cacau, alcaçuz e os típicos toques defumados permeiam a taça. Ótimo momento para ser tomado, embora possa ser adegado por mais alguns anos.

sobremesas impecáveis

Tanto a Panna Cotta, como o Tiramsu, muito bem executadas e com sabores bem definidos. A Panna Cotta de uma delicadeza incrível, inclusive o mel que a acompanha. Aqui um Belo Recioto di Soave faria um par perfeito. Já o Tiramisu, autêntico, com sabores marcantes de café, biscoito embebidos corretamente, e um mascarpone super delicado. Aqui um Maury (fortificado do sul da França, concorrente do Banyuls) de estilo rancio, mais amadeirado, de certa oxidação, seria um gran finale.

Havana e Bourbon: forças equivalentes

Gran finale mesmo foi a dupla acima. Montecristo nº 2, peça de destaque no tabernáculo dos Havanas. De estilo mais potente do que normalmente a casa entrega, este Puro mostra toda a sua força e caráter no terço final, sobretudo acompanhado pelo Bourbon Woodford. A intensidade do Whiskey e suas notas de coco e baunilha, complementam de forma magnifica a potência do charuto. Talvez, pela delicadeza da comida um Hoyo de Monterrey Double Corona fosse mais adequado. Quem sabe, duma próxima vez …

A inesquecível seleção de 82

19 de Março de 2017

Eu também lembro do Zico, Sócrates, Falcão e tantos outros craques. Seleção que marcou época, mas não levou. Entretanto, outro time de estrelas lá da França continua batendo um bolão. São os Bordeaux desta mítica safra em plena forma. Tudo isso para comemorar o aniversário de um grande confrade, que tanto no pessoal, como no profissional, parafraseando o Faustão, merece vinhos deste quilate.

montrachet drc 1989

tudo que um Chardonnay quer ser quando crescer

Sabedor do tema, além de grande conhecedor de vinhos, não deixou por menos. Logo de cara, sem muito alarde como é de seu feitio, serviu de entrada um estupendo Montrachet DRC 1989. Lapsos à parte, não me recordo de provar um DRC tão impressionante  e acima de tudo, tão bem adegado. A cor já de certa evolução lembrava de algum modo Sauternes. Inclusive no aroma, tinha uma pontinha de Botrytis. Multifacetado, notas de damasco, frutas secas, mel, um fundo tostado, marron glaçé, esses aromas permeavam e se entrelaçavam nas taças. O tom do almoço estava dado.

caviar beluga

o brilho do ouro negro

Antes dos tintos porém, outra surpresa. Porções generosas de caviar iraniano Beluga com champagne rosé. De fato, não é uma harmonização fácil. Pessoalmente, acho que nada se compara a uma autêntica vodka gelada (-20°C), cortando com competência o intenso sabor da aguaria. Insistindo no vinho, vale a experiência de defronta-lo com um Riesling extremamente seco e mineral da Maison Trimbach, o fabuloso Clos Ste-Hune. Nosso confrade Ivan, apreciador destes alsacianos, pode se encarregar deste desafio.

ristorantino margaux pichon

quando o segundo escalão se destaca

Feitas as considerações iniciais, vamos ao desfile que foi realizado por algumas duplas. Primeiramente, Chateau Margaux e Pichon Lalande. Este tinto de Pauillac é sério candidato ao status de Premier Grand Cru Classe. Especialmente nesta safra, Pichon Lalande mostra toda sua exuberância, equilíbrio e finesse. Um tinto encorpado, mostrando a força da comuna e de persistência muito longa. É sem dúvida, uma das referências desta safra.

ristorantino polenta com tallegio

polenta, taleggio e trufas

Já o Margaux, tem a desvantagem de não ser um grande ano para a comuna. A safra 83 é a grande pedida. Contudo, sua elegância e personalidade são notáveis. Talvez, a melhor garrafa desta safra que eu já tenha tomado. Foi muito bem com o prato de entrada, uma polenta com queijo taleggio e trufas  negras  complementando.

ristorantino mouton e cheval

destaques da safra 82

Teoricamente, o flight acima é pra ser campeão. Contudo, em safras antigas o que manda mesmo são as grandes garrafas. E essas, não eram das melhores. O que valeu no Mouton foi seu incrível aroma de cacau, chocolate, assim que a taça chegou. No mais, se mostrou um pouco cansado, sem o mesmo brilho de outros exemplares. Já para o Cheval, a conversa foi diferente. Embora aromaticamente outras garrafas degustadas fossem mais exuberantes, em boca estava uma seda. Taninos finíssimos, equilíbrio fantástico e aquela elegância típica dos grandes Chevais.

ristorantino la mission e haut brion

os eternos rivais

Neste embate, infelizmente não houve disputa. A garrafa do La Mission estava levemente bouchonné, e como não existe mulher meio grávida, não vou comentar este vinho. Em compensação, Haut Brion nunca decepciona. Que tipicidade! que personalidade! Sempre equilibrado, sóbrio e marcante, sem ser invasivo. Acompanhou muito bem o risoto de faisão com radicchio, foto abaixo.

ristorantino risoto faisao e radicchio

Neste momento, o auge da expectativa. Sua majestade, rei Petrus entra em cena. Sempre se espera um pouco mais deste mito de Bordeaux. Sempre discreto nos aromas, percebe-se lentamente, um toque mineral, terroso, um pouco de chocolate, não muito intensos. Em boca seus taninos são presentes e de ótima textura. Muito equilibrado, persistente, e com muita vida pela frente. No final ele diz: vamos dar tempo ao tempo.

Quanto ao Ducru, as coisas estavam meio complicadas. Não nos aromas, e sim na boca. Ele apresentava uma acidez um pouco agressiva que inclusive, prejudicava seus taninos. Parece ser um problema de garrafa, pois já provei belos exemplares desta safra. Normalmente, é muito elegante, não muito encorpado, e rico em nuances. Pessoalmente, é o que mais se aproxima dos Lafites.

ristorantino petrus e ducru

Petrus intimidou o elegante Ducru

Como não tinha ninguém para fazer par com ele, Latour fez uma apresentação solo. Ainda bem, pois roubou a cena. É temeroso certas afirmações, mas Latour é o rei do Médoc. A consistência, a concentração, a personalidade, que este tinto entrega safra após safra é impressionante. E este 82, só mesmo o monumental 61 para superá-lo. Os aromas seguem um pouco a discrição do Petrus, mas os toques de cassis, especiarias, chocolate, e seu inconfundível toque de pelica(couro), são notáveis e marcantes. A boca une potência e elegância como poucos, culminando numa persistência de longa duração.

ristorantino latour

Nota 100 com louvor!

Fechou o almoço comme il faut!, acompanhando um tenro cabrito ao forno com ervas, guarnecido por um tagliolini al dente. Os taninos do Latour foram devidamente abrandados pela fibrosidade e suculência da carne.

ristorantino cabrito e massa

carne e massa perfeitos

Encerrando a orgia, o nível se manteve alto. Um Yquem 1990, quase uma criança ao lado de um grande Madeira do século XIX. Falar de Yquem é retórica, é o rei dos vinhos botrytisados, decantado em prosa e verso. Este da safra 90 tem 99 pontos. A própria classificação de 1855 já segure sua superioridade, separando-o dos demais chateaux.

ristorantino vinhos doces

vinhos que atravessam décadas …

Madeira sim, esse precisamos falar. Um dos vinhos mais injustiçados e esquecidos pela maioria dos consumidores. Se existe um vinho capaz de atravessar séculos, este vinho é o autêntico Madeira. Existem quatro tipos nobres relacionados com suas respectivas uvas e em grau de doçura crescente: Sercial, Verdelho, Boal e Malmsey. Os dois primeiros vão muito bem com sopas exóticas e patês de caça. Já Boal e Malmsey acompanham bem os doces, sobretudo bolos e tortas de frutas secas como nozes e tâmaras.

Chegando ao nosso Madeira, Terrantez é a quinta uva nem relacionada atualmente. Encontra-se praticamente extinta na ilha. Seus vinhos são de uma acidez notável e seus aromas etéreos se proliferam na taça. Sua doçura fica entre o Verdelho e Boal. É o grande Madeira a ser desvendado. A raridade deste vinho e o respeito que o cerca, provocam alguns ditados como este: “Se tiveres uvas Terrantez, não as comas nem as dês, pois para o vinho Deus as fez”. Como se vê, terminamos no céu …

Abraços a todos os confrades, sobretudo ao aniversariante, que reflete vivamente a qualidade e longevidade dos vinhos desfilados. Vida longa a todos!

Um italiano na tropa de elite

11 de Março de 2017

Quando se trata do alto escalão francês, é sempre um problema mostrarmos belos vinhos de outros países, de outras regiões. Embora eles possam ser bastante atrativos, em muitos casos a comparação torna-se cruel. Não foi o caso deste Soldera Riserva 2005 em garrafa Magnum que não se intimidou frente a grandes bordaleses, sobretudo à mesa acompanhando os pratos.

soldera riserva 2005

elegância em Montalcino

Apesar de jovem, o estilo tradicionalista Soldera agrada sempre pela elegância e sutileza de aromas. Envelhecido por até cinco anos em botti (toneis grandes de madeira) da Eslavônia, o vinho se clarifica naturalmente, além da devida micro-oxigenação dada pela madeira. A cor é de pouca concentração, lembrando alguns Nebbiolos do Piemonte. Os aromas são etéreos, balsâmicos, rico em especiarias sutis. Embora aparente uma certa fragilidade, esses vinhos são capazes de evoluírem por décadas, pois possuem grande acidez e uma bela estrutura tânica. Aliás, falando em taninos, estes são de uma finesse notável, fruto da boa polimerização advinda do processo de envelhecimento. Além disso, como todo bom italiano, enfrentou bem os diversos pratos do almoço, especialmente um ragu de linguiça toscana acompanhado de polenta cremosa, foto abaixo.

gero ragu de linguiça toscana

textura e sabores sintonizados com o vinho

gero tropa francesa

elite francesa para intimidar

O ataque francês já começa arrasador, Batard-Montrachet Domaine Leflaive da ótima safra 2005. Apesar deste Grand Cru ter um estilo mais encorpado, comparado ao Chevalier-Montrachet por exemplo, Madame consegue um refinamento e uma delicadeza quase inacreditáveis. A área de vinhas para este Batard não chega a dois hectares. As parcelas variam as idades desde 1962, 1974, 1979, até 1989. Além das vinhas antigas, o trabalho de vinificação é primoroso. Vinificado e amadurecido em barricas de carvalho, sendo 25% em barricas novas. O vinho passa cerca de doze meses nessas barricas cujo o carvalho provem de Vosges (Alsace) e Allier (florestas do Centro). A comunhão da fruta e madeira é de perfeita integração. Os toques tostados e amanteigados são sutis, harmônicos, sustentados por uma acidez refrescante na justa medida. Um primor da Terra Santa.

chateau certan pomerol 99trotanoy pomerol 2005

a hierarquia de um terroir

Embora não haja uma classificação oficial para os vinhos de Pomerol, existe de fato uma hierarquia em sua elite muito clara. O primeiro tinto à esquerda, Chateau Certan de May, não confundir com Vieux-Chateau-Certan, outro grande Pomerol, é uma propriedade antiga na região com vinhas em terrenos argilosos e em parte, rico em pedras. Daí, 70% das vinhas serem Merlot, 25% Cabernet Franc e 5% Cabernet Sauvignon, sendo os Cabernets para os solos pedregosos. O vinho passa de 12 a 14 meses em barricas de carvalho, sendo entre 60 e 80% novas, conforme a safra.

A safra de 1999 não está entre as grandes, mas é bastante agradável, além de encontrar-se num bom ponto de evolução. Neste caso, os aromas de cacau, tabaco, cogumelos e toques terrosos estão bem presentes. Vinho de bom corpo, taninos presentes e talvez, extraídos demais. Precisa de decantação (aeração) e pratos substanciosos como o cordeiro abaixo.

gero jarret de cordeiro

massa e cordeiro para o Pomerol

Este Jarret de cordeiro guarnecido pelo Tagliolini com manteiga e sálvia escoltou muito bem os dois Pomerols. A textura macia da carne, o molho cheio de sabor, mas ao mesmo tempo delicado, enriqueceram os vinhos, além da sálvia alinhar-se com os toques de ervas dados pelos Cabernets. 

Quanto ao Trotanoy 2005, está no pelotão de frente dos grandes Pomerols. Com maior porporção de Merlot (90%) e o restante de Cabernet Franc, os solos são em parte argilosos com um subsolo rico em ferro (crasse de fer), e parte pedregosos num solo mais quente. De fato, a localização do vinhedo é excelente em termos de terroir. Em média, o vinho passa cerca de 18 meses em barricas de carvalho, sendo no máximo 50% novas.

Neste exemplar, o vinho encontra-se num período difícil que chamamos de latência. Os aromas ficam meio tímidos, relutando a surgirem. Mesmo assim, a fruta bem colocada, a mineralidade, são perceptíveis e de grande finesse. Percebe-se que a boca é de um grande tinto, com taninos finíssimos, muito bem equilibrado, e final bem acabado. Deve-se abrir nos próximos anos, podendo e devendo evoluir por décadas.

Mais uma vez, fica provado que os grandes Pomerols são vinhos difíceis na juventude, contrariando aqueles que pensam que a Merlot sempre gera vinhos fáceis de beber e bem acessíveis em tenra idade. A longevidade e lenta evolução destes tintos são impressionantes.

haut brion 88

a felicidade é palpável

Encerramos o almoço como começamos, vinhos extremamente prazerosos, independente da idade. Neste caso, estamos falando de um margem esquerda com quase 30 anos de uma safra que não está entre as excepcionais. Mas tratando-se de Haut Brion, o prazer é sempre garantido. Mesmo quando novo, abaixo de dez anos, é um tinto sempre abordável. Contudo, é capaz de evoluir por décadas. Os aromas além de complexos, são de uma tipicidade invejável. Os toques terrosos, de húmus, estrebaria, cogumelos, ervas, são marcantes e envolventes. Em boca, sempre harmonioso, não muito encorpado, mas com um equilíbrio fantástico. O fim de boca é preciso e intenso. Nem precisa da sobremesa.

Resta somente agradecer aos amigos, confrades de grandes jornadas, compartilhando companheirismo, alegria, boas conversas, tudo em torno da boa mesa e boa bebida. Aos ausentes, fica o puxão de orelha dos presentes. Abraço a todos!

Brancos e Tintos à Mesa

19 de Janeiro de 2017

Continuando na enogastronomia, tema recorrente deste blog, mais algumas harmonizações testadas com vinhos interessantes e pratos ecléticos.

roberto-grans-fassian-spatlese

grande Mosela

Eis um grande Riesling do Mosel do excelente produtor Grans-Fassian. Esse vem do médio Mosel da sub-região de Piesport do vinhedo Goldtröpchen. Terroir escarpado, rico em ardósia. Spätlese é a categoria de açúcar imediatamente acima de kabinett. Leve docura com uma acidez fenomenal. Persistente, rico em flores, cítricos e minerais. Acompanha muito bem patês de porco e de aves. Desta feita, acompanhou uma salada de folhas, aspargos e camarões. Dominou um pouco a cena, sem comprometer a harmonização.

roberto-vinogradi-fonroberto-vitovska

Vitovska: uva exótica da Eslovênia

Marko Fon é o grande produtor da Eslovênia na região do Carso, terroir montanhoso rico em calcário. Vitovska é uma uva nascida do cruzamento da Malvasia Bianca com a Glera (uva do Prosecco). É um vinho laranja com maceração das cascas não tão intensa. O vinho é muito aromático, rico em damascos e cítricos com incrível mineralidade. Muito equilibrado, acompanhou bem um ravióli de queijos defumados, ervas e presunto parma. Tem corpo e estrutura para prato ainda mais condimentados. Os dois brancos citados são da Decanter (www.decanter.com.br).

roberto-haut-bergeronroberto-torta-de-maca-e-de-pera

belo par harmonizado

Se você quer um Sauternes relativamente “simples”, Haut-Bergeron é a pedida certa importado pela Cellar (www.cellar-af.com.br). Por um preço muito razoável, temos toda a tipicidade da apelação com muito equilíbrio e complexidade surpreendente. Acompanhou muito bem os dois folhados acima, um de pera, outro de maçã, e um sorvete de mel para refrescar. Grande fecho de refeição.

cesar-bahans-haut-brioncesar-bife-ancho

outra bela combinação

A safra 2006 em Bordeaux é subestimada, sobretudo este Chateau Bahans Haut-Brion. Parker dá menos de 90 pontos, o que considero muito rigoroso. Trata-se do segundo vinho do grande Haut-Brion com taninos bem moldados, corpo médio, e toda a tipicidade da comuna de Pessac-Léognan. Fez um belo par com o bife ancho acima, acompanhado de batatas ao forno com alecrim. A textura macia da carne estava de acordo com a estrutura tânica do vinho. Delicioso de ser bebido no momento, mas pode evoluir com segurança por mais cinco anos.

cesar-raposeira-rosecesaar-cuscuz-paulista

harmonização surpreendente

Raposeira é um dos grandes nomes de Lamego em termos de espumantes, região adjunta ao baixo corgo (Douro) onde pessoalmente, considero o local ideal para espumantes portugueses elaborados pelo método clássico. Este rosé é feito com castas portuguesas típicas do Douro com estágio sur lies (contato com as leveduras) por pelo menos três anos. Bom corpo, rico em frutas, especiarias e toques defumados. Acompanhou muito bem o prato acima, uma espécie de cuscuz paulista com coentro, pimenta e camarões. A harmonização foi muito refrescante e rica aromaticamente, além de sabores bem casados.

cesar-marrote-com-batatas

marrote: nome gaúcho do leitãozinho

A carne acima é bem macia e tenra do chamado marrote, nome dado no sul do país para um leitão novo não castrado. Acompanhado com molho do próprio assado, ervas e batatas ao forno.

cesar-pernand-versselegescesar-quinta-da-pellada

Borgonha e Dão em confronto

Não é que este Borgonha da Côte de Beaune foi muito bem com o prato!. Pernand-Vergelesses é uma comuna encrustada entre Savigny-Les-Beaune e Aloxe-Corton. Trata-se de um Premier Cru delicado como muitos desta parte do sul da Côte d´Or. A safra é excelente. Embora já com seis anos de vida, tem muito vigor e vida pela frente. Entretanto, é muito agradável de ser tomado no momento. Rico em frutas, cerejas frescas, especiarias e um leve sous-bois. A delicadeza do vinho casou perfeitamente com a textura da carne e o sabor do assado. Em seguida, chegou o Quinta da Pellada Touriga Nacional da boa safra 2004. Embora com mais de dez anos, o vinho mostrou vivacidade e uma acidez incrível. Um pouco mais robusto que o antecessor, não comprometeu a harmonização.

O Borgonha vem da importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br) e o Dão da importadora Mistral (www.mistral.com.br).

cote-de-blayevirado-paulista-itamarati

combinação ousada

Côtes de Blaye é uma apelação bordalesa pouco conhecida e não tem a nobreza dos tintos do Médoc. Fica na margem oposta do rio Gironde, na altura da comuna de Margaux, e é vizinha à outra apelação também sem muita expressão, Côte de Bourg. São tintos de corte bordalês para o dia a dia, sem grande complexidade e que não precisam envelhecer muito. Importado pela Vinissimo (www.vinissimostore.com.br).

Com a informalidade do nosso tradicional virado a paulista, pode ser uma boa combinação, tendo estrutura adequada ao prato, além de fruta, taninos e um sutil toque amadeirado para enfrentar sabores e texturas dos ingredientes. Mesmo que o vinho com a idade ganhe um pouco de aromas terciários, os toques defumados do prato se adequam bem.

O importante aqui é a questão de tipologia do prato, ou seja, pratos frugais com vinhos sem sofisticação. Não adianta querer comer pizza com Sassicaia. Neste caso, vá de Chianti simples. É como se vestir de terno e gravata com chinelos.

Outras sugestões para o prato são Côtes-du-Rhône, Chinon ou Bourgueil do Loire, bons Merlots nacionais ou um Alentejano de média gama.

Pratos e Vinhos: Parte I

5 de Janeiro de 2017

A comida sempre ligada ao vinho é uma busca constante dos enófilos que dão importância à enogastronomia, posto que comer é uma necessidade física, mas ter prazer à mesa é outra conversa. Fora isso, como dividir algumas garrafas com amigos sem ter nada no estômago?. Daí, a necessidade de por a cabeça para funcionar e tentar nos surpreender neste desafio difícil, de opiniões diversas, mas sempre prazeroso. Mesmo para aquelas harmonizações mais óbvias, o ponto certo da comida e o estágio de evolução de um determinado vinho a principio correto, pode não dar certo na prática.

Entradas

roberto-salada-frutos-do-marroberto-ravioli-de-queijo

frutos do mar e massa recheada

Nestes dois exemplos, um mesmo vinho branco irá escolta-los. Trata-se de um Meursault do produtor Michel Bouzereau. Apesar de comunal, trata-se de um Lieu-dit chamado Le Limozin, ou seja, um Meursault de vinhedo. São apenas quatro mil metros de vinhas plantadas nos anos 60 e 80. O vinho passa um ano em barricas, sendo 25% novas. A fruta é vibrante, bem casada com a madeira quase imperceptível. A textura não é tão densa como de outros Meursaults, o que ajuda na harmonização. Muito equilibrado, ótimo meio de boca, e final bem acabado. Importadora Cellar (www.cellar-af.com.br).

roberto-meursault

Meursault para conhecedores

A combinação com a salada de frutos do mar ficou muito interessante, pois a textura mais delgada deste Meursault especificamente, promovia um respeito ao corpo do prato. Além disso, os frutos do mar e o molho levemente picante, aguçava no vinho sua mineralidade e seu lado mais delicado. Já com a massa, recheada de queijo e ricota, mostrava textura ainda compatível com o vinho. Tanto a gordura do queijo, como do azeite, eram contrapostas pela bela acidez do vinho. Uma certa neutralidade do prato em termos de sabor, mostrava todo o lado frutado do vinho, inclusive um sutil toque amanteigado. Em suma, vinho e pratos em harmonia.

nelson-salmao-defumado

salmão defumado

Salmão defumado, um prato ótimo para o verão, mas com muita personalidade, ou seja, apesar de leve, seu sabor é marcante, capaz de dizimar muito mais vinhos do que se imagina. A dupla de vinhos abaixo, fez o duelo com o prato. O australiano de Adelaide Hills é famoso por seu Sauvignon Blanc num país dominado pelas Chardonnay e Sémillon. Com leve passagem por madeira, seu corpo estava um pouco acima do prato, embora sem comprometimento. O maior problema foi a falta de acidez que o prato exigia, e um excesso de fruta que não tinha sintonia com o salmão defumado. Já o Sauvignon Blanc do sudoeste francês, região de Gaillac, mostrou uma certa neutralidade de fruta com um cítrico mais austero. Além disso, sua bela acidez e mineralidade combateram bem o lado de maresia do prato.

nelson-sauvignons

Austrália x Sudoeste Francês

Estilos diferentes de Sauvignon Blanc. O primeiro (australiano) com mais textura, mais macio em boca, e bem equilibrado. O segundo (francês), mais delgado, mais incisivo, mais cítrico e mineral nos aromas. Propostas diferentes e ambos interessantes.

Pratos de Resistência

nelson-steak-au-poivre

steak au poivre vert

Um clássico francês com várias versões e alternativas. Particularmente, gosto com pimenta verde e flambado no Cognac ou brandy. O filé mignon ao ponto e textura macia. A pimenta dá o sabor e intensidade ao prato, enquanto o creme de leite fresco fornece textura e um certo abrandamento ao ardor da pimenta. Aqui, precisamos de um vinho tinto com sabores intensos e sintonizados com a pimenta. Uma dose de acidez é fundamental para combater a ardência do prato. Os taninos podem ser relativamente dóceis, já que a textura da carne é macia. Um bom Syrah é uma das melhores opções. De clima frio, seria o ideal.

nelson-syrah-jonata

Screaming Eagle está por trás

A vinícola Jonata ligada à sofisticada e consagrada Screaming Eagle, uma das boutiques mais famosas do Napa Valley, faz este Syrah no frio vale de Santa Ynez (Central Coast), região costeira e montanhosa ao sul da Califórnia. O clima guarda um frescor importante para uvas, proporcionando vinhos frescos e de acidez agradável. Este da safra 2006 tem uma pitada de 2% de Viognier no corte, lembrando o mesmo critério de alguns Côte-Rôtie. Passa em madeira francesa, sendo 50% nova.

nelson-lindt-99

chocolate ao extremo

O vinho exibe uma cor intensa, jovem, apesar de seus dez anos de vida. Os aromas concentrados de frutas escuras em geleia são notáveis, além de especiarias, chocolate, e toques defumados. Belo corpo, equilíbrio perfeito e taninos ultra polidos. Persistente e intenso. Além de acompanhar bem o steak au poivre, foi muito bem com o chocolate acima, 99% cacau. Nesta porcentagem, a presença de cacau e a total falta de açúcar crescem em escala exponencial. O chocolate além de manter toda a fruta do vinho, ressalta em muito sua mineralidade. Combinação que vale a pena fazer.

Próximo artigo, mais pratos e vinhos …

Enogastronomia na Praia: Parte I

28 de Dezembro de 2016

O cenário praiano é sempre convidativo, havendo uma conjunção de descontração, belas paisagens, clima de alto astral, e total entrega ao prazer e relaxamento. Quando se pensa em bebidas, e digo, bebidas alcoólicas; cervejas, batidas, drinks, e tudo que possa refrescar com boas doses de gelo, são as mais lembradas. Para aqueles que não abrem mão dos vinhos, certos cuidados devem ser tomados. A melhor dica é acompanhar as comidas típicas à beira mar, que são à base de peixe e frutos do mar, com vinhos bem sintonizados. Neste cenário, brancos, espumantes e rosés, roubam a cena. Neste artigo, trataremos em detalhes do assunto, mostrando vinhos degustados em águas caribenhas.

saint-barth-chablis-raveneau-2002

Raveneau: excelência em Chablis

No primeiro almoço em Saint Barth, ilha pertencente à França cuja a capital é Gustavia, já nos deparamos com um Raveneau, referência absoluta em Chablis. Na foto acima, trata-se de um Premier Cru Vaillons da ótima safra 2002. Apesar de seus mais de dez anos, veja a cor deste Chablis com seu inconfundível esverdeado. Jovem ainda, fresco, cheio de vitalidade, e seus toques minerais e cítricos marcantes. É vinho para pelo menos mais dez anos. Concentração e persistência notáveis.

asaint-barth-camarao-e-alga

Camarões cozidos e salada de algas

saint-barth-peixes-e-legumes

peixes no vapor e legumes variados

Os dois pratos acima foram um deleite para este Chablis. Pureza de aromas e sabores, toques marinhos e cítricos destacados, texturas delicadas, todos componentes perfeitamente compatíveis com as características do vinho. O vinho desfilou entre os pratos, ora mostrando seu lado mais cítrico, mais incisivo; ora mostrando seu lado mineral, mais complexo. E sempre deixando um final limpo e fresco. Em suma, é a comida simples valorizando um grande vinho.

saint-barth-porto-30-anos

devidamente refrescado com os queijos

Terminando a refeição com um pouco mais de intensidade e reconfortando o paladar com algo mais macio, uma tábua de queijos variados e um estupendo Porto Graham´s 30 anos, uma categoria especial de Tawny. Servido refrescado, seus aromas elegantes de frutas secas, toques empireumáticos, especiarias, ervas, e notas balsâmicas, inundaram o palato, combatendo a gordura e cremosidade dos queijos. Um final marcante, mas sem exageros.

saint-barth-tabua-de-queijos

queijos intensos e gordurosos

Embora possa parecer exagerado, uma tábua de queijos mais intensos (livarot, taleggio, saint paulin, …) pode finalizar bem uma refeição que primou pela delicadeza e uma cadência sempre com sensações estimulantes. É bom no final quebrarmos esta sequência com algo mais macio e reconfortante.

saint-barth-restaurante-cheval-blanc

cenário ideal para o descanso

saint-barth-perrier-jouet

quebrando regras

À noite, num ambiente mais festivo, Champagne. Perrier Jouet Cuvée Belle Époque em garrafa Double Magnum, regando os vários pratos e entradas à base de peixes e frutos do mar. Taça de festa, também.



Já no segundo dia da viagem, almoço na praia. O ambiente descontraído e comidas variadas pedem um vinho eclético. Nada melhor que um bom rosé da Provence. Neste caso, Domaines Ott, um clássico provençal em sua bela garrafa lembrando uma ânfora.

saint-barth-mar-caribe

mar de Saint Barth

saint-barth-domaines-ott

Chateau Romassan em Double Magnum

Este chateau situado em Bandol, é um dos três do Domaines Ott com vinhedos na Côtes de Provence.  Um rosé um pouco mais estruturado com predominância da casta Mourvèdre, complementada por Cinsault, Grenache e Syrah. A safra 2015 é bastante fresca com toques florais, cítricos e de especiarias perfumadas.

saint-barth-sashimisaint-barth-camarao-empanadosaint-barth-lulas

comidinhas variadas para um rosé

Nas fotos acima, percebemos a versatilidade do rosé enfrentando pratos de propostas diferentes. O sashimi como elemento in natura e forte mineralidade, a fritura do camarão empanado, e a textura delicada de anéis de lula gigante. Todos esses elementos encontram eco neste rosé onde temos acidez, textura adequada, e sabor suficiente para os pratos, sem ser invasivo.

saint-barth-sushi

barca completa direta do mar

Já na mesa do restaurante, uma barca com tudo que tem direito, sushi e sashimi dos mais variados, saladas, picles, e toda sorte de temperos frescos e estimulantes. Uma festa para os sabores do rosé, o qual acompanhou inclusive, todos os aperitivos envolvendo atum fresco.

saint-barth-beaucastel-2001

bela safra 2001

À noite, em temperatura mais amena, fomos para um tinto quase provençal, Chateau de Beaucastel 2001, acompanhando um tagliatelle com molho branco à base de morilles e ervas. Os toques de evolução do vinho com notas balsâmicas, defumadas, pimenta e ervas, casaram muito bem com os aromas e sabores do prato. Boa pedida, fugindo um pouco dos peixes e frutos do mar.

saint-barth-tagliatelle-morilles-e-trufas

tagliatelle com morilles e ervas

Beaucastel é referência quando se fala na apelação Chateauneuf-du-Pape, sul do Rhône. Ele trabalha com as treze cepas permitidas, dando prioridade às uvas Grenache e Mourvèdre. Em seguida, a Syrah, finalizando com pequenas proporções das demais uvas. Costuma ser acessivel mesmo jovem, mas envelhece muito bem.

Hora de dormir com o remanso do mar …

Fazenda Sertão: Enogastronomia

26 de Dezembro de 2016

Num evento empresarial, interior de São Paulo, pratos e vinhos desfilaram em harmonia, comemorando o final do ano. A recepção não poderia ser melhor, Dom Pérignon 2000 em Magnum. Com seus dezesseis aninhos, parece que o tempo não passou. Vibrante, fresco, muito equilíbrio, e a elegância de sempre com seus toques de brioche.

fazenda-sertao-dom-perignon

dando o tom do evento

Enquanto o pessoal chegava, o champagne ia refazendo paladares em meio a amuse-bouches diversos. Um pequeno grupo dentre os participantes, desceram à adega para degustar alguns vinhos. Um deles, o grande nome da apelação Hermitage, Paul Jaboulet La Chapelle da estupenda safra 1990, com 100 pontos Parker. Pode até não ter cem pontos, mas é uma maravilha. Depois de duas horas de decantação, começou a se abrir com toques de chocolate, cacau, defumados, geleia de frutas escuras, entre outros aromas. A boca é grandiosa com taninos em abundância, mas extremamente finos. Muito equilibrado e uma persistência monumental. Pelo seu atual vigor, podemos dizer que trata-se de um vinho imortal.

fazenda-sertao-hermitage

grande safra em garrafa magnum

Para os primeiros pratos do jantar, uma Double Magnum (três litros) de Corton Charlemagne Grand Cru Bouchard Père & Fils safra 2004. Esplendoroso, lembra um pouco outro Grand Cru magnifico Chevalier-Montrachet, por sua elegância e delicadeza. Fruta expressiva, frescor estimulante, balanço incrível com os toques de barrica, e muito equilibrado. Com seus 12 anos, continua integro e com muita vida pela frente.

fazenda-sertao-corton-charlemagne

Corton, a montanha dos Grands Crus

Abaixo, um dos pratos iniciais, acompanhado pelo branco acima. Ravioli de queijos com Brie ao molho de manteiga, trufa e pinolis sobre leito de couve. A gordura do queijo e da manteiga foi compensada pela acidez do vinho, enquanto os sabores delicados das trufas e pinolis casaram com a complexidade do mesmo.

fazenda-sertao-ravioli-queijo

delicadeza e simplicidade

Já nos pratos mais robustos, sobretudo carnes, entra em cena uma Jeroboam (quatro litros e meio) de Chateau Haut Brion 1975. A safra é polêmica, mas o vinho beira a perfeição. Seus mais de 40 anos deram a maturidade que se espera de um grande Bordeaux. Os aromas terciários reinam em harmonia com toques de couro, tabaco, especiarias e um lado terroso de grande mineralidade. A boca é perfeita, equilibrada, taninos ultrafinos e agradavelmente persistente. Uma maravilha!

fazenda-sertao-haut-brion

a apelação nesta época ainda é Graves

Um dos pratos mais emblemáticos com esse vinho foram as costeletas de cordeiro (foto abaixo) com risoto de açafrão, molho do assado e trufas. A textura delicada do prato casou muito bem com a maciez do vinho e seus taninos totalmente polimerizados. Os aromas e sabores finos do prato arrematou toda a complexidade aromática do tinto. Enfim, prato e vinho se valorizando.

fazenda-sertao-costeletas

costeletas tenras e saborosas

fazenda-sertao-cavaletes

cavaletes posicionados

No serviço de garrafas grandes, de tamanhos especiais, o uso do cavalete é muito útil, além de charmoso. Com esse mecanismo, sobretudo para os tintos, vamos abastecendo os decanters, de acordo com o consumo do vinho. Os sedimentos vão se assentando pouco a pouco no eixo da garrafa. No decanter final, tomamos o cuidado para desprezar (deixar na garrafa) uma pequena quantidade de vinho  com a borra.

fazenda-sertao-romanee-st-vivant

um Borgonha de sonhos

Nos últimos pratos do jantar, foi servido um dos maiores tintos da Borgonha de todos os tempos, DRC Romanée-St-Vivant 1978. A safra na verdade é estupenda, mas este vinho é tudo que se espera de um Borgonha envelhecido. Este Grand Cru de vizinhança nobre, faz valer a frase: “Em Vosne-Romanée não existem vinhos comuns”.  Os aromas de trufas, terra, rosas, licor de cerejas negras, especiarias, incenso, e vai por aí afora, são encantadores. Os taninos, se é que existem, são de outro mundo. Equilibrado, harmônico, e de final encantador. Um devaneio!

fazenda-sertao-file-rossini

filé Rossini: releitura

O prato acima coincidiu com a chegada do Romanée-St-Vivant 78. A textura da massa, e do próprio filé mignon se adequaram ao vinho. Os sabores do molho, das trufas, do foie gras, se entrelaçaram com todos os componentes terciários do vinho, numa rara harmonia. Um final de jantar glorioso.

fazenda-sertao-mil-folhas-baunilha

mil-folhas e crème pâtissière

Nas sobremesas que eram várias, a da foto acima acompanhou com competência o Chateau d´ Yquem 1999. Os sabores do prato casam bem com os toques de fruta e caramelo do vinho, além da textura cremosa de ambos. Num bom momento para consumo, mas Yquem evolui com tranquilidade por muitos anos em adega.

fazenda-sertao-yquem

o rei dos Sauternes

fazenda-sertao-pudim-chocolate

pudim e bolo de chocolate caseiros

A sobremesa acima sintetiza a harmonização com os dois vinhos doces servidos. O pudim de leite com Yquem, fazendo a vez do crème brûlée, e o bolo de chocolate com Vinho do Porto. Neste caso, um Taylor´s Vintage 1985. Uma bela safra completando pouco mais de trinta anos. Em pleno vigor, seus aromas terciários começam a prevalecer, vislumbrando um futuro brilhante. Cor ainda escura, taninos presentes, mas bem moldados, e muita riqueza em boca. Os aromas primários de frutas escuras em geleia se fundem aos toques de especiarias, tabaco, chocolate e um fundo mineral, compondo o lado mais evolutivo do vinho.

fazenda-sertao-taylors-vintage

Taylor Fladgate: especializada em Vintages

O Porto ainda acompanhou os Puros na varanda com Cohibas de várias bitolas, incluindo os Behikes. Que o ano novo comece tão bem quanto o término deste. Feliz 2017!

Grandes Bordeaux à mesa

11 de Setembro de 2016

Num belo almoço entre amigos fica a pergunta: até que ponto vale a pena confrontar certos vinhos, mesmo que sejam grandes em si?. Conforme o grau de conhecimento de cada um, as ponderações devem se fazer presentes, pois a comparação é cruel. Nesta degustação às cegas, a dupla bordalesa atropelou um par de vinhos de grande categoria, par este formado por um notável Chateauneuf-du-Pape, Chateau Rayas 1990, e um super Napa Valley, Dominus 1994. Vinhos que com certeza, tomados isoladamente, provocariam suspiros dos mais exigentes amantes de Baco.

Quando se tem à mesa tintos do calibre de um La Mission Haut Brion 1955 e o espetacular Haut Brion 1989, tirem as crianças da sala!. O primeiro em seu auge com tudo que um Bordeaux envelhecido pode entregar. O segundo, é candidato seríssimo ao melhor Haut Brion das últimas décadas. Uma legenda da apelação Pessac-Léognan. Como esta apelação passou a vigorar somente em 1987, não há nada mais grandioso até o momento. Falaremos os detalhes mais adiante.

chevalier-leflaive-99

os mágicos brancos da Borgonha

Para abrir os trabalhos, um Magnum Domaine Leflaive Chevalier-Montrachet Grand Cru 1999 deu o tom do almoço. Um branco que beira a perfeição num momento ótimo de sua evolução. Aromas deliciosos mesclando especiarias, frutas exóticas, fino tostado lembrando cedro, incenso, um verdadeiro perfume. Na boca, surpreendentemente volumoso para um Chevalier, mas um equilíbrio fantástico e uma persistência aromática extremamente longa. Dava para parar por aqui.

zalto-haut-brion-89-la-mission-55

Taças Zalto: Bordeaux 27 e 61 anos

Aí sim, em seguida, a dupla bordalesa de ouro servida em taças Zalto, de bordas extremamente finas. O nariz do La Mission é de livro. Toques terciários misturando curral, tabaco, especiarias, couro, e ervas secas. A boca denuncia o peso da idade, mas de um equilíbrio e elegância fantásticos. Um vinho altamente sedutor que por estar em seu auge, conquistou o primeiro lugar.

la-mission-55

61 anos de esplendor

haut-brion-89

Esse é nota 100!

O nobre vice-campeão não deve ter ficado triste, pois sabe que ainda tem muito a entregar. Haut Brion 89 é um monumento de vinho. Nariz impecável, embora ainda um pouco tímido. A boca é seu ponto alto com um corpo de Latour, envolvente, denso, grandioso. Tudo no lugar, acidez, álcool, e taninos indescritíveis. Se bem adegado, é vinho para pelo menos mais vinte anos, embora seja um deslumbre desfruta-lo agora. Pode fazer parte de qualquer ranking top five.

ristorantino-massa-com-rabada

massa recheada com rabada, textura delicada

costela-em-crosta-de-pistache-e-fregola

costela, crosta de pistache e fregola

Os pratos do Ristorantino acompanharam bem a categoria dos vinhos servidos, tanto na execução, como na sequencia e porções bem administradas, chegando a um final feliz, sem exageros. Um dos destaques foi a massa acima recheada de rabada, guarnecida com seu próprio molho. Os aromas terciários dos vinhos agradeceram num equilíbrio perfeito de texturas.

rayas-90

uma aula de Grenache

Voltando às ponderações do inicio do artigo, Chateau Rayas 1990 é uma das maiores perfeições em Grenache, já que parte de vinhas antigas desta nobre cepa do Rhône, especialmente na apelação Chateauneuf-du-Pape. Intensamente aromático, as notas de chocolate escuro, especiarias e frutas em geleia, explodem da taça. Agradavelmente quente num equilíbrio perfeito. O alto grau de maturação das uvas e seus rendimentos absurdamente baixos (em torno de 15 hectolitros por hectare) explicam uma sensação de quase doçura em boca. Tinto espetacular.

dominus-94

lembra o rótulo do grande Lafleur

Finalizando a bateria, o lanterninha do embate esteve longe de decepcionar, pois está entre os grandes. Talvez o mais bordalês entre os belos tintos “Napaleses”, Dominus Napanook 1994. Sob a batuta de Christian Moueix, dono do lendário Petrus, seu rótulo lembra um outro grande Pomerol, Chateau Lafleur, de fundo branco e dizeres em negro. Nem de longe denuncia sua idade. Íntegro, um pouco discreto nos aromas, mas em boca um equilíbrio perfeito, elegante, sóbrio. Uma das melhores réplicas de grandes Bordeaux.

chateau-caillou-1947

raridade em Sauternes

Finalizando a tarde, num momento mais nostálgico, o Chateau Caillou 1947 acompanhou um zabaione bem delicado. Este Sauternes faz parte da famosa classificação bordalesa de 1855. De cor âmbar,  aromas etéreos, de notável evolução, bem de acordo com seus longos anos.

Resta agora agradecer aos amigos, à boa prosa, e como sempre, grandes vinhos. Que os nota 100 continuem desfilando em nossas mesas!. Abraço a todos!

Hommage a Henri Bonneau

29 de Agosto de 2016

O título do artigo mistura dois grandes nomes da apelação Chateauneuf-du-Pape, Chateau de Beaucastel e Henri Bonneau. A homenagem (hommage) tem duplo sentido. Hommage é uma cuvée especial do Chateau Beaucastel, elaborada somente em seus melhores anos. Além disso, o almoço abaixo foi num certo sentido uma deferência ao grande Henri Bonneau, falecido recentemente em março deste ano 2016. Assim como Henri Jayer, vai virar lenda, e seus vinhos serão disputados acirradamente nos melhores leilões e adegas do mundo. Esses Henris são um caso sério!

Henri-Bonneau

o mestre e seus velhos barris

Henri Bonneau

Numa ruela de Chateauneuf du Pape, uma porta sem atrativos em meio a tantas casas, fica a adega de Henri Bonneau. De família de vinhateiros, Henri Bonneau cumpria o papel em sua 12º geração. Respeitadíssimo na região, seus vinhos fogem ao padrão normal de excelência da apelação, mesmo dentre os mais reputados produtores.

Um papel branco pregado na porta acima da campainha após sua morte, diz mais ou menos assim: “não entra aqui quem quer, mas aqueles que tiveram o privilégio de passar alguns momentos não esquecerão”.

Voltando à adega, seus sub-solos escuros, enegrecidos, recheados de velhos tonéis, mais parece uma catacumba, contrariando todos os princípios modernos de higiene em adegas. O tonel mais novo não tem menos que dez anos de uso. Contudo, ali aconteciam milagres. Após bons anos de envelhecimento, Henri sob seus critérios pessoais decidia engarrafar algumas cuvées. Uma delas, celestial, de nome bem apropriado, Réserve des Célestins. Neste almoço, tivemos o privilégio de provar três safras famosas (1978, 1989 e 1990), de pontuação perfeita, se é que se pode dar nota a esses vinhos. Detalhe importante, apesar da descrição acima, nenhum sinal de Brett. Pelo contrário, aromas maravilhosos com fruta bem presente.

henri bonneau 78 89 90

as estrelas do almoço

Os vinhedos de Henri Bonneau de seis hectares encontram-se nas melhores parcelas da apelação, inclusive La Crau, um lieu-dit de alta reputação por seu distinto terroir. Basicamente só Grenache, com algumas pitadas de Mourvèdre, Counoise, Syrah, e Vaccarèse. Aliás, ele detestava Syrah, sempre dizendo que é uma uva imprópria para esta apelação. Suas vinhas são antigas, mas com certos limites. Para ele, o ideal, o esplendor de uma planta, é quando atinge 30 anos. Outro segredo, era sua colheita tardia, amadurecendo ao máximo os cachos. O resultado era estupendo, pois a vinificação costumeiramente entière (com engaço), produzia taninos sedosos, de textura impar.

Por todos esses detalhes, pelo seu carisma, talento e bom humor, o mestre Henri Bonneau vai deixar saudades e fazer história com um dos melhores tintos da França de todos os tempos.

Voltando ao almoço, sabiamente começamos pelo melhor, Henri Bonneau Réserve des Celéstins 1990. A cor levemente atijolada, mostrava um brilho e limpidez impressionantes, já que seus vinhos não são filtrados. Os aromas provocavam silêncio, reverência, tal a complexidade e delicadeza dos mesmos. Tabaco, sous-bois, chocolate, alcaçuz, flores como rosas, além da fruta madura vibrante, permeavam as taças numa sinfonia. A boca era um caso à parte. que equilíbrio! que taninos são esses! que final longo e suave! me recuso a dar nota. Uma maravilha!

linguine ao ragu de coelho

linguine ao ragu de coelho e pinoli

Para não ser repetitivo, este padrão manteve-se nas safras 89 e 78 com algumas ressalvas. A safra 1989 estava um pouco fechada por incrível que pareça, mas os aromas ressaltavam o chocolate e alcaçuz. A garrafa 1978 tinha uma cor inacreditável comprovando para muitos, ser a safra mítica desta cuvée. Era a cor mais intensa e mais escura do painel. Os aromas eram concentrados e o volume em boca, surpreendente. Para alguns dos presentes, o vinho tinha uma ponta oxidativa, certamente um problema de garrafa. Contudo, ficava claro o potencial desta safra de se tornar imortal, pois o tempo parece não passar ao longo dos anos.

Dentre os ótimos prato do almoço, a massa acima na foto casou muito bem com os tintos de Henri Bonneau, sobretudo pela delicadeza e profundidade de sabores, além da similaridade de texturas.

beaucastel hommage

um clássico da apelação

Justificando nosso artigo, o Chateau de Beaucastel Cuvée Hommage a Jacques Perrin 2001 fez bonito. Nem de longe mostra a idade com seus quinze anos de vida. Cor saudável, aromas complexos com a marca registrada  de um Brett de terroir, denotando um toque animal sempre presente em seus vinhos. Em boca, muito equilibrado, taninos presentes e muito agradáveis. Final longo e promissor. Um verdadeiro clássico da apelação.

Talvez o mais surpreendente dos Chateauneufs foi o Clos du Mont-Olivet La Cuvée du Papet 1990, pouco conhecido entre os presentes. Uma cor inacreditável para um vinho de 26 anos, rubi escuro e concentrado. Além da magnifica safra 90, as vinhas são muitos antigas em vinhedos de localização privilegiada, verdadeiros lieux-dits (terroir consagrados). Algumas das plantas datam de 1901, isso mesmo. A vinificação e envelhecimento são tradicionais, sem presença de madeira nova. Nesta cuvée top, praticamente só temos Grenache com uma pitada de Syrah. Aromas multifacetados, belo corpo, super equilibrado, e um final longo e harmônico. Mais um grande da apelação.

morlet vineyards

Morlet entre a surpresa do almoço

Para aguçar as papilas antes do almoço, dois brancos americanos de Sonoma da vinícola Morlet Family Vineyards. Um Chardonnay de Russian River e um corte bordalês de Sonoma County, ambos da safra 2012. Embora longe de seus originais, Bourgogne e Bordeaux topos de gama, os vinhos americanos de modo geral apresentam ótimos níveis de qualidade, sendo com folga o melhor que podemos encontrar no chamado Novo Mundo.

O Chardonnay Ma Princesse (nome de vinhedo) de Russian River mostrou-se equilibrado, num bom balanço entre acidez/maciez, e agradavelmente amadeirado. O processo de elaboração segue os padrões borgonheses com fermentação em barricas, seguida de bâtonnage (revolvimento das borras). O vinho é engarrafado sem filtração.

O corte bordalês La Proportion Dorée mescla dois terços de Sémillon, um terço de Sauvignon Blanc e uma pitada de Muscadelle. São sete vinhedos em Sonoma com idade entre 25 e 60 anos. Fermentação em barris, mais 10 meses de amadurecimento em madeira. O vinho apresenta bom corpo e maciez dados pela Sémillon, e um belo frescor vindo da Sauvignon Blanc. Os aromas de mel, ervas e flores, são bem harmônicos, num final prolongado e bem equilibrado.

Por fim, resta agradecer a companhia de todos em torno de grandes vinhos, ótimos pratos, e a conversa animada de sempre. Vida longa aos amigos!


%d bloggers like this: