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Bordeaux 82, o Paraíso existe!

12 de Maio de 2019

O ano de 1982 só não foi perfeito porque nossa seleção do saudoso Telê Santana lamentavelmente não levou o título mundial. Em compensação, Bordeaux teve sua safra gloriosa, generosa, em ambas as margens com uma das colheitas mais fartas de todo o século XX. Podemos pensar em safras como 53, 55, 59 (minha safra), 90, 95, 96, e as minúsculas mas espetaculares safras 45 e 61. Entretanto, os prazeres de provar um 82 são notáveis com vinhos no auge de seu apogeu, sendo que alguns ainda chegando em seu momento perfeito.

As perspectivas desta safra na época não eram muito animadoras pela crítica especializada, dizendo ser uma safra de acidez discreta, não apta a longo envelhecimento. Eis que surge a opinião de um jovem advogado americano contrariando os papas da época, afirmando ser uma safra de fruta esplendorosa, taninos abundantes, de textura sedosa, e com um extrato fabuloso para décadas de envelhecimento. Surge a partir daí, o mito Robert Parker, um americano ditando regras em meio à soberba francesa. Sua influência chegou a tal ponto, que a precificação de cada safra em Bordeaux dependia diretamente de sua avaliação e comentários.

Após este prefácio, tudo isso foi confirmado num memorável jantar no restaurante Fasano com um menu coordenado para quatro grandes flights.

as preliminares do jantar

À espera dos convivas, mesa posta e alguns drinks estimulando os sentidos como o clássico Dry Martini. Na recepção, ainda fora da mesa, uma trilogia de champagnes dando o tom do evento, foto abaixo. Salon 97 ainda uma criança. Cheio de tensão e mineralidade, suas borbulhas exibiam a delicadeza de um dos mais longevos champagnes. Como contraste, mas igualmente brilhante, um Cristal 82 maduro de uma bela safra. Champagne gastronômico, frutas maduras, cheio de brioche e pâtisserie. Borbulhas um tanto discretas, mas com uma textura inigualável. No meio do caminho, um Dom Perignon 2000, sempre elegante, delicado e estimulante. Nada melhor para esquentar os motores!

trilogia em Champagne

Sem mais delongas, vamos ao desfile bordalês com muitas surpresas e algumas decepções, fatos inerentes, sobretudo em degustações às cegas. As garrafas foram abertas e checadas pelo competente sommelier Fábio Lima, sob a batuta do mestre Beato. O maître Almir, patrimônio da Casa, coordenou a sequência de pratos à mesa.

img_6068-1vizinhos num desempenho brilhante

Neste primeiro flight, a primeira baixa. Montrose estava prejudicado com um “elegante ” bouchonné. Já os dois vizinhos brilharam, pois estão lado a lado na divisa de comunas entre St Estèphe e Pauillac. Lafite 82 talvez em sua melhor garrafa na noite, pois tivemos quatro delas, manteve a hierarquia num vinho elegante e aristocrático. Cos d´Estournel ratificou sua nobreza numa das melhores safras de toda sua história. Vinho de uma riqueza impressionante, bem estruturado, e longe de qualquer sinal de decadência. A primeira grande surpresa do jantar.

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o carneiro saltitante brilhou!

Neste segundo flight, mais uma baixa. O La Mission, um dos notas 100 de 82 estava um tanto estranho. Na verdade, seus aromas estavam muito redutivo, necessitando intensa oxigenação. Depois de um bom tempo na taça, mostrou sua elegância. Já o Mouton 82 quando a garrafa é perfeita, é um vinho quase imbatível. Exuberante, rico em aromas e uma textura extremamente sedosa. Outro grande que brilhou foi o Gruaud Larose que só não levou o flight, porque o Mouton estava perfeito. No entanto, este St Julien nesta safra especificamente, é um dos grandes destaques com uma consistência impressionante.

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aqui a hierarquia não foi respeitada

Embora os dois Premiers, Lafite e Mouton, sejam magníficos, estas duas garrafas não estavam em sua melhor forma, provando que em vinhos antigos, a garrafa é que manda e não a safra. Neste contexto, o Pichon nadou de braçadas numa garrafa magnífica. Realmente Pichon Lalande 82 é seguramente um dos cinco melhores  chateaux desta safra com uma elegância, equilíbrio e distinção, notáveis. É de fato, um super Deuxième. 

dois pratos de um menu em quatro atos

Num menu para vinhos desta estirpe, a delicadeza, sutileza e sintonia de sabores, devem andar em sincronismo. Para o primeiro prato, foi pensado algo que aguçasse os sabores terciários dos vinhos com uma Textura de Cogumelo. No segundo flight, para estimular e reavivar as papilas, um tartar de atum entrou em cena com vinhos mais frutados e de taninos mais dóceis. O terceiro prato, foto acima, era um risoto de pato com foie gras, valorizando os bordeaux de textura mais rica. Por fim, cordeiro em crosta de ervas e pistache, foto acima, dando suculência aos vinhos de taninos mais firmes e estruturados.

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St Estèphe brilhou novamente

Novamente uma baixa da degustação. Lafite 82 em sua terceira garrafa, com toques de oxidação e evolução estranha de aromas, algo resinoso. Leoville Las Cases 82, sempre um dos vinhos mais austero da safra, mas de muita sofisticação e sobriedade. Por fim, a segunda garrafa do Cos d´Estournel, magnífica. Levou o flight e se revelou de longe, a maior pechincha da noite. Um vinho que se encontra no seu esplendor com amplo platô de estabilização. Deve ainda dar muitas alegrias. 

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flight arrebatador 

Neste último flight, no apagar das luzes, eis que surge o único 86 da brincadeira. O grande Le Pin numa garrafa esplêndida. Só de peitar o grande Pichon, novamente numa garrafa perfeita, percebe-se a distinção deste grande Pomerol. O único margem direita e o único não 82, levou o prêmio da noite como melhor vinho, na opinião de muitos presentes. O Lafite também foi bem, embora de uma garrafa ainda meio tímida, frente ao desempenho perfeito de seus concorrentes de páreo. Pichon despediu-se glorioso nesta segunda garrafa, já deixando saudades de uma noite de sonhos.

A conversa continuou um pouco mais à mesa em meio a cafés, petits-fours, champagne, e grappas. Agradecimentos a todos os confrades, em especial ao Camarguinho, que com muita classe e fidalguia, proporcionou um encontro descontraído e bastante animado. Que o entusiasmo, generosidade, e cumplicidade, continuem reinando nesta confraria!

Bordeaux em quatro atos

27 de Abril de 2019

Neste cenário paradisíaco  aconteceu um belo almoço envolvendo Grand Cru Classés de Bordeaux, tanto da  margem direita, como da margem esquerda, em flights às cegas. A despeito da colocação  e preferência de cada um, não houve vencedores e perdedores. Todos os tintos mostraram seu valor, tipicidade de terroir, e porque são considerados ícones nas mais rigorosas avaliações da crítica especializada.

 

exclusividade para doze convidados

 

abrindo e encerrando o evento

Antes dos flights propriamente dito, a recepção foi regada a Dom Perignon 2006, uma safra generosa em aromas com certo toque de tropicalidade em seu estilo, geralmente mais austero. Champagne de 96 pontos já muito prazeroso no momento, mas com bom potencial de guarda.

Passando a régua, já com as sobremesas e charutos, um bebezinho em magnum foi servido para deleite dos convivas, Taylor´s Port Vintage 2003. Outra safra generosa em aromas, de grande corpo e concentração, mas ainda em tenra idade. Deve evoluir por décadas em garrafa, entrando na galeria dos grandes Vintages da Casa, a qual é uma de suas especialidades.

algumas das delicias do Chef Magaldi

O Chef Magaldi do buffet Fasano abrilhantou o almoço numa sucessão de pratos muitos bem executados. Alguns dos destaques que combinaram muito bem com os vinhos servidos foram o ravióli de zampone com ossobuco, e um corte de Wagyu ultra maturado e marmorizado de uma maciez e sabores impressionantes. Grande Magaldi!

img_6016confronto de margens

Sem mais delongas, vamos ao primeiro flight, num par de Moutons, ladeado por um Pomerol, Chateau L´Evangile. Na preferência dos convivas, L´Evangile ganhou com folga. Pudera, com 95 pontos Parker numa das melhores safras de Pomerol, o vinho esbanja fruta, certa maciez em boca, embora possa envelhecer com propriedade por longos anos. Com 72% Merlot e 28% Cabernet Franc, seu balanço entre graciosidade dada pela Merlot e uma certa estrutura e elegância advinda da Cabernet Franc, garantiram o primeiro lugar. 

Quanto aos Moutons, são muito parecidos em notas, 97 pontos para o 98, e 94 pontos para o de safra 96. A safra 98 para a margem esquerda, proporcionou vinhos um pouco mais duros, de taninos de longa guarda, razão pela qual o 96 mostrou-se mais gracioso, mais abordável no momento. Dois belos Moutons que devem envelhecer com muita dignidade.

img_6017sua Majestade, Chateau Latour

Um trio de Latours deu um ar de imponência à degustação. O Latour 88 já apresenta boa maturidade, embora possa envelhecer com tranquilidade por longos anos. Sua estrutura tânica e seu toque aromático de couro fino são notáveis. Foi o mais pronto do trio. A grande surpresa do flight foi a diferença de garrafas entre os dois 90 acima, provando mais uma vez que em vinhos antigos não existem grandes safras e sim, grandes garrafas. Uma delas estava divina, vinho elegante, taninos de rara textura, e longo em boca. Já o outro exemplar de mesmo ano, parecia um pouco cansado, com aromas evoluídos para esta idade de garrafa. Davam a impressão de dois vinhos de safras diferentes, bastante didático.

img_6018Destaque para o Chateau Margaux

No terceiro flight, aparece um vinho de 100 pontos, Chateau Margaux 1990. Em todas as avaliações de Parker, consistentemente 100 pontos com apogeu previsto para 2040. Uma das grandes safras deste Chateau com taninos de veludo. Boca perfeita, aromas elegantes envolvendo cedar box, especiarias, e um toque de sous-bois. Longa persistência aromática e um final arrebatador.

Os outros dois do páreo não eram do mesmo nível de perfeição. O Haut Brion 86 que alguns acharam um pouco cansado, estava delicioso mesmo assim. Talvez pela safra, potente em taninos, o vinho ainda apresenta um estrutura impressionante com mais de trinta anos. Os aromas de cacau, couro e incenso, ratificam a elegância deste Chateau. Quanto ao Latour 93, o infanticídio do almoço. Muito novo para um Latour num dos melhores vinhos da difícil safra 1993. Um tinto ainda com taninos potentes, aromas um tanto fechados, embora muito elegante. Vinho de longa decantação para ser apreciado no momento.

img_6023Pavie, o único em Magnum do painel

Chateau Pavie 2004 degustado em Magnum, mostrou a sensualidade da margem direita. Fruta deliciosa com toques florais e uma boca firme, embora sedutora, num blend que além da majoritária Merlot, conta com as duas Cabernets, Franc e Sauvignon, proporcionando mais estrutura. Deve envelhecer bem em adega.

Chateau Haut Brion 2000, outro infanticídio com apogeu prevista para 2050. Um vinho praticamente perfeito com 99+ pontos Parker. Gostaria de saber de onde ele tirou um ponto deste vinho. Boca grandiosa, equilíbrio perfeito, e longa persistência final. Os aromas ainda são tímidos, mas com muita tipicidade. Ervas, estrebaria e um toque de tabaco. Um grande vinho, ainda muito longe do que pode oferecer de pleno prazer. 

Por fim, a grande injustiça do almoço, ficando na lanterna deste flight. É bem verdade que 95 não é uma grande safra deste Chateau. Contudo, Cheval Blanc é um dos vinhos mais elegantes entre todos os Bordeaux. Um bouquet fino, ricos em ervas e especiarias. Em boca, taninos delicados, bem integrados, e um equilíbrio dos grandes vinhos. Talvez, pelo nível alcoólico do pessoal nesta altura do campeonato, esses detalhes passaram desapercebidos.

img_6026mais um embate entre margens

Deu tempo ainda para mais uma dupla poderosa com 95 pontos cada um. No caso do Mouton, a safra 95 proporciona vinhos muito macios, elegantes e de taninos suaves. É um vinho muito gostoso de ser tomado com as notas de cassis, café e um leve toque de tabaco que será amplificado com o tempo em garrafa. No caso do Valandraud 2000, a maciez e sensualidade continuam por uma questão de terroir, onde a Merlot confere maciez e elegância, enquanto a Cabernet Franc aporta estrutura e firmeza ao conjunto. 

De todo modo, foram flights diversificados, curiosos em certos aspectos, mostrando a grandeza e pluralidade da mais fina região de tintos do mundo. Agradecimentos a todos os confrades, que proporcionaram momentos de alegria e descontração.

a hora da fumaça!

Já fora da mesa, cafés, fortificados e destilados entraram em ação. Cohibas das mais variadas bitolas, inclusive Behikes estavam à disposição. Grappas Poli, das mais refinadas da Itália estavam presentes nas versões com e sem madeira. Um pouco mais de conversas, piadas e risadas. Essa é a essência da vida.

img_6030para aqueles que ainda tinham sede!

No apagar das luzes, para os que tinham sede e alguns amigos de última hora, foram abertas mais duas garrafas dos rivais, Bordeaux e Bourgogne. Maison Leroy e seu elegante Volnay, um tinto  de Beaune dos mais delicados, convivendo com os vinhos de Meursault. Safra precoce e já bastante abordável. No lado bordalês, um dos destaques da safra 2003. Um vinho cheio de vida, rico em frutas e toques empireumáticos, lembrando café e notas tostadas. Boca ampla, cheia de taninos finos, e final expansivo.

Hora de ir pra casa e sonhar com os anjos. Agradecimentos especiais ao anfitrião pela imensa generosidade e simpatia em nos agradar sem limites. Que Bacco nos proteja e nos proporcione mais encontros memoráveis. Abraços a todos!

Uma Seleção de Bordeaux

13 de Abril de 2019

A proposta foi a seguinte: trazer sua melhor garrafa de Bordeaux dos anos 80 e 90 para uma degustação às cegas. Foram onze garrafas abertas, formando uma verdadeira seleção onde o menos cotado pelos confrades, ainda assim, era craque frente aos inúmeros chateaux que desfilaram nestas duas décadas. Vamos então à escalação: Goleiro (Mouton 99), zaga (Leoville Las Cases 86, Mouton 83, Mouton 89), volantes (Vieux-Chateau-Certan 90, Beychevelle 82), meio de campo (Cheval Blanc 86, Chateau Certan de May 82), atacantes (Haut Brion 86, La Mission Haut Brion 89, Angelus 95). Um esquema com três zagueiros, dois volantes, sendo um de contenção e outro de ligação, um meio de campo criativo, e um ataque com centroavante goleador e pontas que voltam para marcar.

img_5972Mouton acessível, embora possa ser guardado

Como todo bom goleiro, foi degustado isoladamente. Um Mouton acessível, bem de acordo com a característica da safra. Taninos bem moldados, os toques de café e chocolate que caracterizam o chateau, além de um belo equilíbrio em boca. Um goleiro ainda em formação, mas com belo potencial pela frente. Nota 92 (RP).

img_5968uma zaga segura

Leoville Las Cases, zagueiro consagrado, mas vindo de contusão (bouchonée), ainda assim mostrou sua classe. De fato, era para ser o vinho da almoço com uma estrutura e cor extraordinárias, 100 pontos Parker. Infelizmente, uma garrafa comprometida. Em compensação, a dupla de Moutons supriu a deficiência do ilustre zagueiro. O Mouton 83 no nariz tinha lindos toques de cogumelos, mais precisamente funghi porcini seco. Já o Mouton 89 tinha uma boca deliciosa, de acordo com a sensual safra 89. Taninos sedosos e textura glicerinada. Notas 90 e 93 de Parker para os Moutons 83 e 89, respectivamente.

img_5965grandes safras em Bordeaux

Nesta dupla de volantes, Vieux-Chateau-Certan estava mais contido, cobrindo a zaga. Este vinho costuma ser surpreendente nesta safra de 90, mas não era das melhores garrafas. É um margem direita diferente, lembrando a estrutura tânica dos vinhos do Médoc pela presença de certo destaque das uvas Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. Já o Beychevelle 82 é aquele volante que sai para o jogo. A safra 82 é o grande ano deste chateau de Saint-Julien. Especialmente esta garrafa estava muito bem adegada. O vinho tinha uma força extraordinária com frutas escuras presentes, notadamente o cassis. Um vinho de muito vigor e com vida pela frente.

img_5966outras grandes safras em Bordeaux

Neste meio de campo, Chateau Certan dá seus passes corretos, mas o Cheval Blanc bate um bolão. É o camisa 10 do time com imensa criatividade. Mesmo numa safra dura como 86, o vinho é de uma elegância ímpar. Em boca, esbanja equilíbrio e suavidade. Persistência aromática longa e expansiva. Voltando ao Chateau Certan, é um vinho que tem o charme de Pomerol numa bela safra. Tem uma boa estrutura tânica, embora seus taninos sejam um tanto rústicos para esta categoria de vinho. Notas: Cheval Blanc 86 (RP 93) e Chateau Certan 82 (RP 93).

img_5970ataque incisivo

Neste ataque de peso, os atacantes Haut-Brion e La Mission não estavam num grande dia. Opinião de muitos confrades com a qual não concordo. Haut Brion 86 tinha notas marcantes de chocolate amargo, cacau, e um toque terroso. Já o La Mission, 100 pontos Parker, é um vinho suntuoso, de grande poder aromático, boca ampla, e longa persistência aromática. De certo que as garrafas poderiam não ser as melhores, mas estavam longe de serem defeituosas. Enfim, são duas grandes safras de chateaux fora de série. Em compensação, em dias de atacantes pouco inspirados, eis que surge o goleador de quem menos se esperava, Angelus 95. Um vinho ainda novo, mas com uma bela estrutura. Taninos potentes e finos, bom corpo, e muito bem equilibrado. Tem muito poder de fruta, toques tostados e minerais de grande classe. Goleou de lavada seus dois companheiros de flight, supostamente superiores. Notas: Haut Brion (RP 93) e (RP 94). 

Para acompanhar esta seleção, o conceituado restaurante Picchi preparou um menu com pratos criativos e bem apropriados aos vinhos envelhecidos de Bordeaux.

sabores surpreendentes

Os pratos acima, lâminas de funghi porcini fresco grelhadas com pinoli, parecendo lâminas de berinjelas, estavam ótimas. Já a polenta cremosa com escargots no molho rôti, tinha muitas ligações de sabores com os tintos envelhecidos. Belos pratos!

Na foto abaixo, a massa Picchi, tradicional da Casa com molho de linguiça, e um dos melhores tiramisus na qual a foto, dispensa comentários.

tradicionais da Casa

final surpreendente

Finalizando o evento, uma bela Grappa di Sassicaia envelhecida em toneis de carvalho francês, acompanhando alguns mimos do restaurante no serviço de café. Uma Grappa sedosa, grande classe, e longa persistência.

Agradecimentos finais a todos os confrades pela companhia, boa conversa, e imensa generosidade de todos. Que Bacco nos proteja e nos guie sempre nos melhores caminhos dos grandes vinhos! Abraços a todos!

 

 

Comida Brasileira com Requinte

5 de Abril de 2019

Por uma questão cultural, muitos pratos brasileiros ficam à margem do vinho, preferindo outras bebidas como cerveja ou cachaça. Entretanto, Chefs como Rodrigo Oliveira do Mocotó e Mara Salles do Tordesilhas, elevam o patamar de certos pratos tradicionais com muita técnica e conhecimento profundo da gastronomia regional brasileira. Foi o caso de um belo jantar privado, onde Mara Salles desfilou alguns de seus pratos como a tradicional moqueca e o típico barreado de Morretes, estado do Paraná.

delicadas borbulhas e exóticos decanters

Iniciando os trabalhos com alguns pasteizinhos, dadinhos de tapioca e casquinha de siri, o Dom Pérignon 2000 em sua maioridade fez bela parceria, mantendo aguçado o paladar dos convivas. Muito fresco, bela acidez, e a elegância de sempre, sem jamais parecer pesado. 

sutilezas nos sabores de ambos

Na combinação acima, é preciso aliar texturas para o alto grau de refinamento tanto do prato, como do vinho. O vinho embora já com seus 20 anos, apresenta um frescor incrível, mesclando algumas notas terciárias de frutas secas. A delicadeza do vinho permite ressaltar as notas aromáticas do prato como especiarias (pimenta) e ervas (coentro). No rótulo acima, a menção Corton-Vergennes refere-se  a um Grand Cru branco de Corton do lieu-dit chamado Les Vergennes, pertencente à comuna de Ladoix-Serrigny. Em linhas gerais, trata-se de um Corton com um pouco mais de corpo que o clássico Corton-Charlemagne, devido a uma proporção um pouco maior de argila sobre o calcário. Para entender melhor estes detalhes de terroir e legislação, o mapa abaixo tenta elucidar o fato.

Corton Grand Cru vignobleso intrincado mosaico bourguignon

A apelação Corton é um tanto complicada. Primeiramente, existe a apelação Corton-Charlemagne somente para brancos. Já a apelação Corton, predominantemente para tintos está dividida entre três comunas: Aloxe-Corton, Ladoix-Serrigny, e Pernand-Vergelesses. Uma pequena porcentagem de brancos pode ser feita sob a apelação Corton. No caso da garrafa acima, Les Vergennes é um lieu-dit da comuna de Ladoix-Serrigny, bem à direita em vermelho no mapa acima.

o tradicional Barreado de Morretes 

Para o prato principal, o clássico Barreado de Morretes, Paraná, onde carnes de boi mais duras são submetidas a longo cozimento em panelas com vedação de barro  por várias horas até o ponto em que as carnes começam a desmanchar. O prato é rico em temperos, acompanhado de banana-da-terra e arroz.

Para acompanhar um prato tão substancioso e ao mesmo tempo, agregando o talento e técnica de Mara Salles, foi escolhido um Vega-Sicilia Reserva Especial, normalmente um blend de três safras antigas do maior tinto espanhol. Neste caso, trata-se de uma partida de pouco mais de treze mil garrafas das safras 1965, 1967 e 1972, formando 45 barricas. Esses Vegas Reserva Especial são realmente espetaculares, pois todos aqueles aromas terciários do vinho estão presentes com lindos toques balsâmicos e de especiarias. Um tinto com força e elegância para acompanhar o prato.

um dos grandes Yquems da história

Encerrando o jantar, um Yquem histórico da grande safra 2001. Untuoso, cheio de Botrytis, e um equilíbrio perfeito. Ainda em tenra idade, mostra toda sua suntuosidade numa evolução lenta e progressiva. Seu apogeu está previsto para 2100. Acompanhou muito bem um sorvete de tapioca com cocada e calda de tamarindo. A untuosidade do vinho caiu como uma calda com o sorvete. Além disso, a doçura da cocada e a acidez do tamarindo foram bem confrontados pelo açúcar e frescor deste Yquem. Um fecho de ouro.

Porto Vintage e toda a turma reunida

Foram quatro garrafas de Vega regando o jantar com o prato principal. No finalzinho do encontro, eis que surge um Vintage Port da tradicional Casa Grahams numa das mais belas safras de Porto, 1977. Um Vintage com quase 50 anos entra naquela fase balsâmica, onde a textura e o tipo de fruta tornam-se um licor. Equilíbrio perfeito e um persistência final dos grandes vinhos. Não há forma melhor de encerrar um grande encontro.

Triunvirato em Vosne-Romanée

30 de Março de 2019

Quando falamos dos grandes vinhos da Borgonha, nomes como Montrachet, Chambertin, Musigny ou Vosne-Romanée soam como a sinfonia perfeita. Indo um pouco mais a fundo, dentro da comuna de Vosne-Romanée existem muitos astros, mas nada se compara à Santíssima Trindade formada por DRC, Leroy e Henri Jayer. Foram exatamente esses vinhos que nos fizeram sonhar num belo jantar no restaurante Gero.

 

Oenothèque: agora P2 ou P3

Alguma coisa fora do Triunvirato acima, só mesmo um Dom Perignon Oenothèque da maravilhosa safra 1996 para abrir os trabalhos. O degorgement foi feito em 2008, portanto, 12 anos sur lies. Champagne de grande frescor, mineralidade, leveza, parecendo um Blanc de Blancs, embora em sua composição entre pelo menos 40% de Pinot Noir. Acompanhou muito bem um delicado carpaccio de atum.

img_5885garrafa muito bem conservada

Passando aos brancos, começamos com um “intruso” muito bem-vindo, Domaine Etienne Sauzet Chevalier-Montrachet 1992. Safra de destaque para esta apelação, o vinho mostrou-se integro, sem sinais de decadência. Pelo contrário, aromas já evoluído, mas com frescor e muita elegância. Um toque de caramelo e de botrytis permeavam seus aromas.

img_5876embate de gigantes

Encarar um Montrachet DRC é tarefa para poucos, mesmo se tratando de outros Montrachets. Entretanto, estamos falando de Domaine d´Auvenay, uma reserva particular de Madame Leroy do que ela tem de melhor. A produção desses vinhos quando muito, chega a poucas centenas de garrafas. No caso deste Chevalier-Montrachet 2009, é um vinho com grande concentração de aromas e enorme presença em boca. Deixou o DRC até um pouco tímido, tratando-se de um vinho também de certa potência. Sua persistência aromática é bastante longa e expansiva. Para completar o mérito deste Chevalier, a garrafa do Montrachet DRC estava muito boa com uns aromas de umami, lembrando shitake fresco, toques minerais delicados e um fundo de mel. Bela comparação, mostrando a grandeza e a força do terroir nestas apelações tão exclusivas.

 

pratos do menu exclusivo

O carpaccio de atum com Dom Perignon e a sopa de lentilhas e bacalhau com o Montrachet foram harmonizações bem agradáveis. O champagne com seu frescor e mineralidade formou um belo par com os sabores de maresia e o toque cítrico do molho do carpaccio. Já a sopa de lentilhas com o bacalhau tinha intensidade e textura para acompanhar os Montrachets, sobretudo o DRC, calibrando bem a harmonia de sabores.

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A fidalguia do maître Ismael sempre nos confortando, e o serviço de vinhos eficiente do sommelier Felipe Ferragone, preservando todas as rolhas, faz do restaurante Gero um porto seguro.

 

acredite, é um Richebourg DRC

Os tintos começaram em alto nível com um Richebourg DRC 1961. O estado do rótulo, foto acima, é inversamente proporcional ao nível do vinho. Uma garrafa muito bem conservada e íntegra. O vinho tanto na cor, como na força de seus taninos não revelava a idade de quase 60 anos. Seus aromas terciários e de grande mineralidade revelavam sous-bois, toques terrosos, e frutas escuras. Equilíbrio perfeito em boca com longa persistência final. Acompanhou bem o risoto de ervas com guisado de cordeiro.

img_5881um dos vinhos mais raros e disputados

Com 94 pontos, este Richebourg do mestre Henri Jayer esbanjou elegância num estilo oposto ao DRC acima. Muito delicado, com aromas florais, especiarias, e um fundo mineral, o estilo Jayer prima pelas nuances e sutilezas. Um vinho para meditar num equilíbrio perfeito em boca. Já totalmente pronto, num belo platô de evolução. O mítico Richebourg 1978 é um dos tintos mais disputados em leiloes mundo afora. O próprio Henri Jayer declarou certa vez que o Richebourg 78 foi seu grande vinho de todas suas vinificações.

img_5880quase 200 pontos na mesa

Ponto alto do jantar, dois Cros-Parantoux de grandes safras. Para um Premier Cru, o vinho é de uma elegância que poucos Grands Crus possuem. O 93 é a safra mais bem pontuada, ainda com uma força extraordinária. O vinho não está totalmente pronto com taninos muito finos, mas ainda a resolver. Os toques terrosos e as especiarias são muito bem mesclados à fruta. Já o 85, é puro devaneio. Um tinto gracioso, cheio de feminilidade, boca sedosa, e um final harmonioso. Uma grande safra nas maões de um grande Mestre. Salve Henri Jayer!

img_5886o infanticídio da noite

No final do jantar, avaliamos duas promessas da safra 2004 para os DRCs. Um Romanée-St-Vivant delicado, floral, taninos suaves, já bem agradável pela idade. Por outro lado, um La Tache austero, com taninos ainda ferozes, precisando ser domado pelo tempo. Um estilo bem masculino que deve evoluir bem pelos próximos dez anos.

Enfim, uma noite memorável com belos vinhos e a boa conversa pra lá de animada. Agradecimento a todos os confrades pela generosidade e companhia. Um adendo especial ao nosso Presidente pela alta competência na análise dos vinhos, acertando às cegas de maneira categórica todos as ampolas do jantar. Sem nenhuma arrogância, ele nunca acha, sempre tem certeza, provando mais uma vez, que degustação técnica é treino e atenção aos detalhes. Contra fatos, não há argumentos. Parabéns Presidente!

Saúde a todos e que Bacco sempre nos proteja!

Sommellerie: O Podium 2019 é da Juventude

20 de Março de 2019

Neste último mundial realizado na Bélgica pela ASI (Association de la Sommellerie Internacionale), os dezenove finalistas são extremamente jovens com raras exceções. Para a grande final, foram escolhidos os três melhores com  dois deles, abaixo de trinta anos. O sommelier campeão de 2019, o alemão Marc Almert de 27 anos, repetiu o feito de Enrico Bernardo. Um jovem sommelier que pela primeira vez participando de um mundial, levou a taça sem contestações. Isso vem provar que só a experiência não basta, é preciso conhecimento e atualização neste mundo extremamente dinâmico.

ASI sommelier 2019site: http://www.starwinelist.com

Os outros dois concorrentes, a dinamarquesa Nina Hojgaard Jensen e o letão Raimonds Tomsons, competiram de igual para igual. Muitos acharam que Nina pudesse ser perfeitamente a campeã mundial, a primeira mulher  nesta competição. Marc Almert, ao centro da foto.

Para não alongarmos a história, vamos detalhar os passos do campeão. A grande final começa com o serviço de um suposto Sauternes para um casal de amigos e uma cerveja belga para um  outro amigo em comum. O jovem campeão tira a cerveja com extrema técnica, preservando a mousse na hora do serviço em copo adequado, fato esperado para um autêntico alemão. O serviço do Sauternes tem um inconveniente, no qual o único vinho doce encontrado no balde de gelo é o famoso Late Harvest Vin de Constantia, África do Sul, normalmente vedado com cera. A regra manda que o vinho seja aberto sem a retirada da cera, o que facilita o serviço. A mulher do casal, prefere o serviço com um pouco de gelo, onde o sommelier executa sem contestação.

ASI semifinalistas 2019os dezenove semifinalistas

Na foto acima, David Biraud, o segundo da segunda linha, sommelier francês de larga experiência, ficou fora da grande final. Outro destaque, foram dois japoneses entre os semifinalistas. Martin Bruno da Argentina, foi o único representante sul-americano nas semifinais. 

Continuando a saga, o sommelier Marc Almert é chamado para uma degustação às cegas de um vinho tinto. O vinho é um australiano Henschke, um dos mais afamados do país dos cangurus com parreiras pré-filoxera. Este exemplar trata-se do Mount Edelstone, um 100% Shiraz de parreiras com mais de 85 anos de vida. O vinho é confundido com um grande Bordeaux de  margem direita, citando o Chateau Canon-Gaffelière safra 1997, provando mais uma vez que degustação às cegas não é fácil.

Continuando o trajeto, Marc é solicitado para decantar um Vega-Sicilia Reserva Especial para oito pessoas. Ele explica que normalmente os Reservas Especiais são fruto de uma mistura de três safras altamente cotadas. O serviço é feito com cesto à luz de vela, como manda o ritual no tempo solicitado. O Vega-Sicilia decantado é um lançamento de 2016 onde foram mescladas as safras 96, 98 e 2002. O primeiro lançamento na história do Reserva Especial deu-se no ano de 1965, uma das perguntas de um dos componentes na mesa.

rheingau pinot noir beerenauslese

um raro Pinot Noir doce

Na sequência, uma bateria com quatro vinhos às cegas. Um Mouchão, tinto alentejano, um Malvasia da Croácia, um Chateau Chalon (Jura), e um raro Pinot Noir alemão doce do produtor Assmannshauser, vinhedo Holleberg, Spatburgunder categoria Beerensauslese do Rheingau, safra 1989. O da foto acima não é da degustação por ser safra 1977. Mesmo o melhor do mundo, não acertou nenhum, provando mais uma vez que degustação às cegas é um ato de humildade. Na sua avaliação, o Mouchão passou por um belo Rioja Reserva, Chaton Chalon passou por Jerez, fato unanime entre os três finalistas, Malvasia passou por um Riesling austríaco do Wachau, e finalmente, o Pinot Noir doce passou por um Madeira Boal, mesma opinião de Nina Jensen. Já Raimonds Tomsons optou por um Tokaji 6 Puttonyos.

Continuando a trilha, é proposta uma harmonização com um menu de quatro pratos, a seguir:

  • Carpaccio of lighty seared Norwegian scallops with mango, avocado e coriander
  • Médallion of monkfish in a mushroom and chicken broth with périgord truffle and pata negra crisp
  • Beef cheeks braised in red wine with a celeriac and truffle purée
  • Belgian chocolate and walnult soufflé with roquefort sorbet

Marc Almert propõe os seguintes vinhos:

  • um branco alemão da casta Sylvaner bem fresco com a entrada
  • um Chateau Haut-Brion branco 2008 com o Tamboril
  • um Chardonnay americano de Carneros pela imposição de um dos componentes da mesa em tomar vinho branco com beef cheeks
  • um Porto Quinta de la Rosa LBV para a sobremesa de chocolate

As indicações foram boas, não fugindo muito dos clássicos. O Sylvaner alemão é bastante revigorante para a entrada de vieiras, proporcionando sabores delicados do prato, frente a discreta aromaticidade do vinho. O Haut-Brion branco tem estrutura para o Tamboril, peixe de carne firme e rico em sabores. Os cogumelos e as trufas casam bem com um certo envelhecimento do vinho, sendo a safra sugerida 2008. O Chardonnay americano de Carneros com passagem por barrica, tem estrutura para o prato de bochechas com pure de trufas. A escolha de um vinho branco foi imposição de um dos convivas da mesa. Por fim, uma escolha segura pelo Porto LBV, combinando tanto com o chocolate, como com o sorvete de queijo gorgonzola (similaridade com o Stilton inglês). 

Seguindo as tarefas, é proposto dois quadros com oito uvas, as quais têm correspondência com 24 vinhos de grande fama mundial. Portanto, um quadro com varietais brancas (Sauvignon Blanc, Chardonnay, Riesling, Aligotè), e outro com varietais tintas (Sangiovese, Merlot, Pinot Noir, Syrah). Alguns dos 24 vinhos famosos foram: Soldera Pegasus (Sangiovese), Chacra 55 (Pinot Noir), Isole e Olena Cepparello (Sangiovese), Chave Cuvée Cathelin (Syrah), A&P de Villaine Bouzeron (Aligoté), entre outros. 

Por fim, a sétima tarefa na tensa competição foi degustar às cegas dez tipos de bebidas das mais variadas origens, tipos e estilos. Achei um pouco exagerado o número de bebidas. Poderia ser perfeitamente seis bebidas, no máximo. Enfim, o campeão não se deu muito bem nesta última prova, confessando ao final que foi o teste mais complicado para ele. Das dez bebidas, ele respondeu apenas sete, acertando apenas duas. Chegou a confundir nossa cachaça com vodka polonesa. Neste teste em particular, o letão Raimonds Tomsons saiu-se melhor.

marc almert bellavista rose magnumASI – Association de la Sommellerie Internacionale

Antes da divulgação das colocações, os três finalistas serviram um Magnum de espumante Bellavista Franciacorta Rosé em dezesseis taças (foto acima), tomando o cuidado de servir a mesma quantidade por taça, sem sobrar espumante na garrafa. O campeão fez o serviço com eficiência e em menos tempo.

Passar por todos esses percalços numa prova de sete etapas diante de uma plateia lotada, vários campeões mundiais à mesa, num cenário de restaurante, e com tempo contado sem muita margem de folga, exige nervos de aço dos sommeliers. Neste sentido, o alemão levou vantagem, mantendo a frieza alemã na medida do possível. Além disso, por ser sua primeira vez num mundial, o mérito fica ainda maior. Agora com este título e uma carreira inteira pela frente, o caminho fica mais fácil para o estrelato. Parabéns Marc Almert!

 

Latour e algumas preciosidades

17 de Março de 2019

Quando um Latour está sobre a mesa, os demais vinhos o reverenciam, independente de seus pedigrees. Entre champagnes, Domaine Leflaive, e outros margens esquerdas de prestígio, ele reinou absoluto. Antes de falarmos dele, algumas borbulhas, e brancos da Borgonha, deram início a um belo almoço no Ristorantino, Jardins.

estilos de champagne

Neste primeiro embate, grandes surpresas. Sempre tive em mente um estilo delicado e elegante para a cuvée de luxo Dom Pérignon, mas não pensei que fosse tanto. No confronto acima, Dom Pérignon conseguiu ser mais delicado que o Blanc de Blancs Robert Moncuit, um Grand Cru de Le Mesnil sur Oger, terroir de prestígio da Côte de Blancs, mesmas terras do Champagne Salon. Embora fosse 100% Chardonnay, o champagne Robert Moncuit tinha uma estrutura invejável com uma bela acidez. Seu estilo mais gastronômico pede pratos como ostras gratinadas, por exemplo. Encarou com galhardia o todo poderoso champagne da Maison Moët & Chandon.

frutos do mar num caldo com fregolas 

Dando sequência, uma dupla de brancos da Côte de Beaune, dois Premiers Crus. Um de Meursault, do vinhedo Genevrières do Hospices de Beaune 2001, e o grande Puligny-Montrachet Les Pucelles 2002 de Madame Leflaive, seu melhor Premier Cru. Aqui a disputa foi meio desigual. Primeiro pela questão de safras, agravado pela garrafa de Meursault fora de sua melhor forma, ou seja, um vinho um pouco cansado. O Les Pucelles em ótima forma, deu um banho de equilíbrio e elegância numa safra de grande destaque. Embora um Meursault com problemas, ficou notória a diferença de texturas entre os vinhos com o Puligny-Montrachet mais leve e elegante. O prato acima de frutos do mar deu eco aos sabores dos vinhos.

img_5823embate de gigantes

Nesta altura, o ponto marcante do almoço, dois belos Premiers Grands Crus Classés da mítica safra 1959. Latour neste ano foi um dos destaques com 96 pontos, um vinho quase perfeito. É impressionante seu vigor, sem nenhum sinal de decadência. Pelo contrário, esbanja juventude com taninos finíssimos. Bela expansão de boca com aromas multifacetados. Uma garrafa perfeita, assim como o Chateau Margaux a seu lado. Este, talvez tenha sido a melhor garrafa de Margaux 59 que já provei. O vinho estava divino com aromas plenamente desenvolvido, além de perfeitamente macio e envolvente no palato. Mesmo assim, não foi páreo para o Senhor do Médoc, sua majestade Latour.

alguns dos pratos do Ristorantino

Na foto acima, massa com ragu de pato e costela assada com lentilhas, acompanharam bem a força e elegância dos vinhos. Taninos mais polimerizados e aromas terciários pedem pratos com este tipo de perfil. Agradecimentos especiais a toda brigada do Ristorantino pelo serviço dos vinhos e atenção aos detalhes e taças.

img_58221982 na berlinda

Começando pelo Beychevelle 82, talvez a maior safra de toda a história do Chateau, é um vinho encantador, com a complexidade esperada de um Bordeaux envelhecido, sobretudo se tomado sozinho. Entretanto, deu um azar danado de estar ao lado deste gigante, inclusive na garrafa, uma double magnum magnífica, perfeitamente conservada do grande Latour. Pode ser considerado o vinho mais perfeito entre os grandes de 82. Uma cor inacreditavelmente jovem, taninos polidos, o fino aroma de pelica dos grandes Latour, e uma boca perfeita em equilíbrio e expansão. Embora ainda com muita vida pela frente, me pareceu mais acessível que o grande 59 comentado a pouco.

l´Enclos: a essência de Latour

A genialidade do terroir

Os vinhas em torno do Chateau, a construção principal propriamente dita, somam algo com 47 hectares denominado l´Enclos, foto acima. Um terroir único com quinze metros de profundidade de pedras, argila e areia, proporcionando uma drenagem excelente no terreno, e ao mesmo tempo, retendo um mínimo de reserva hídrica para os anos mais secos. Neste sentido, é o melhor solo do mundo para o cultivo da Cabernet Sauvignon que no caso do vinhedo l´Enclos, perfaz cerca de 80% da área. A alta porcentagem de pedras (50 a 80%) está entremeada entre areia e argila, formando as chamadas “croupes graveleuses”, leves ondulações no terreno, semelhante a campos de golfe. Esta maravilha esculpida ao longo de dois milhões de anos, tem pedras originárias dos Pirineus (divisa com a Espanha) e do maciço central ( terras francesas onde se cultiva o melhor carvalho do mundo), devido a cataclismos de outras eras geológicas.

Para alguns especialistas em solos de viticultura, l´Enclos é o melhor terroir de todo o Médoc, considerando  que o fator drenagem do terreno é o mais relevante na escolha dos melhores terrenos de margem esquerda. Lembrando o velho ditado médocain: “o solo do Médoc muda a cada passo”.

 e aquele Yquem para finalizar …

Embora 1946 não tenha sido uma grande safra em Sauternes, Yquem é sempre soberano. Sem aquela untuosidade dada pelos anos onde a Botrytis é mais intensa, é um Yquem elegante com perfeito equilíbrio entre acidez e açúcar. Uma garrafa muito bem conservada acompanhando uma seleção de queijos e sobremesas diversas. Doçuras e contrastes  em perfeita harmonia.

Enfim, mais um encontro memorável com amigos generosos, partilhando experiências e laços de amizade em torno do vinho e da boa mesa. Abraços a todos e que Bacco continue com suas bênçãos!

Liger-Belair: Renasce uma Estrela

9 de Março de 2019

Neste novo milênio, iniciando o século XXI, renasce uma estrela na mais mítica das comunas da Côte de Nuits, Vosne-Romanée, com os vinhos do Domaine Liger-Belair. A começar pelo La Romanée, vinhedo com menos da metade da área do astro maior Romanée-Conti, convivendo lado a lado no centro gravitacional de Vosne-Romanée.

liger belair vinhedosvinhedos Liger-Belair em torno de La Romanée

Além do La Romanée, o Domaine possui vários outros vinhedos muito bem localizados na nobre vizinhança com vinhas  de idade avançadas, superando 60 anos de idade. A destacar, Clos du Chateau, um monopole, e Aux Reignots com produções ínfimas de 2100 garrafas por safra. Os outros vinhedos, muitos deles, com menos de mil garrafas por safra.

Voltando ao La Romanée, sua primeira safra data de 1827 quando o Domaine tinha muitas propriedades na região e gozava de grande prestígio. Nesta época, o vinhedo La Tache original, de área bem menor que o atual, era tido como o grande vinho de Vosne-Romanée. Com a chegada do século XX e a primeira guerra mundial, a família Liger-Belair estava em dificuldades financeiras, desfazendo-se de vários vinhedos, inclusive o mítico La Tache, o qual em 1933 passa às mãos do Domaine de La Romanée-Conti, ampliando sua área com os vinhedos Les Gaudichots vizinhos, e oficializando a apelação de origem La Tache, de acordo com as novas leis francesas.

Daí em diante, os vinhos da família Liger-Belair eram vinificados e entregues a negociantes da região, fato comum à época, inclusive a Maison Leroy. Evidentemente, a qualidade e a regularidade  foram abaladas, de acordo com critérios adotados pelo negociantes na educação e engarrafamento dos vinhos. Em 1976, numa união matrimonial, as famílias Liger-Belair e Bouchard Père & Fils seguem juntas na elaboração do vinho La Romanée, imprimindo no rótulo o nome do negociante famoso Bouchard Père & Fils até o ano 2001, sua última safra exclusiva.

É nesta data que surge a nova estrela do Domaine com a presença marcante de Louis-Michel Liger-Belair, sétima geração da família. Com novos métodos de cultivo e vinificação, Louis-Michel imprime uma filosofia menos intervencionista e uma extração mais delicada na vinificação. Seus vinhos ganham finesse e elegância, marcando um novo estilo no Domaine. 

Esta transição com Bouchard Père & Fils acontece entre 2002 e 2005, onde os dois rótulos e vinificações diferentes ocorrem lado a lado. É notório a diferença de estilos entre os dois 2005, último ano de ambos, onde percebemos claramente o fator humano na concepção do terroir. O Bouchard 2005 é um La Romanée mais extraído, mais potente, de acordo com a velha escola. Já o Liger-Belair 2005 é um La Romanée bem mais delicado, elegante e cheio de sutilezas.

A partir de 2006, segue a linha do novo Liger-Belair com vinhos sempre elegantes, delicados, galgando posições importantes na crítica especializada com notas altíssimas. As safras La Romanée 2009 e 2010 alcançam cifras impressionantes com valores em torno de seis mil dólares por garrafa.

Foi neste contexto que provamos algumas garrafas de La Romanée no restaurante Nino Cucina, iniciando com um branco à altura do evento, o majestoso Montrachet 2014 do Domaine des Comtes Lafon, um dos melhores exemplares desta safra com 98 pontos. O vinho é uma maravilha com textura rica, acidez refrescante, equilíbrio cirúrgico entre os componentes, e longa persistência aromática. Nada melhor para aguçar as papilas.

acompanhando carpaccio de atum

O carpaccio de atum com azeite de trufas estava divino, combinando perfeitamente com a textura e elegância do vinho. Um combinação de pureza de sabores e mineralidade de rara felicidade.

2001: safra que marca o final de uma era

Começando os La Romanée com uma safra histórica, 2001. Safra esta que marca o final da rotulagem exclusiva Bouchard Père & Fils, mostrando uma extração vigorosa, com engaço, bem ao estilo old school. A cor e concentração do vinho impressionam com seus dezoito anos de vida. Bem mais intensa que os três exemplares Liger-Belair que vamos comentar a seguir de safras mais recentes. O vinho tem aromas terrosos, sous-bois, cogumelos e notas de frutas em licor. A combinação com o ravioli de vitela com molho de funghi e parmesão (foto acima) ficou divina, equiparando bem a intensidade e similaridade de sabores,  bem como a  força de ambos.

img_5771vinhos que refletem as safras

Finalmente, as estrelas do almoço, três safras sucessivas de La Romanée Liger-Belair. Estamos falando de um monopole de 0,8452 ha de vinhas, cujas as idades variam entre 22 e 102 anos, sendo boa parte com média de 60 anos. São produzidas apenas 3600 garrafas por safra, aproximadamente metade do seu rival Romanée-Conti. O vinhedo fica imediatamente acima, fazendo divisa com o Romanée-Conti.

Das safras acima, 2011 mostra-se um pouco menos concentrada, lembrando que a comparação é sempre cruel. Tomado individualmente, La Romanée 2011 é um tinto elegante, com uma pureza de frutas extraordinária, toques de especiarias e alcaçuz. Um vinho delicado, muito equilibrado e de final com muitas sutilezas.

Já a briga entre os La Romanée 2009 e 2010 foi de titãs. Os dois com uma força, um extrato, e uma riqueza impressionantes, sem jamais serem pesados. O que marca realmente a diferença são os estilos de safras. No ano 2009, temos um vinho um pouco mais cheio, maior maciez, e muita sedução nos aromas e texturas. Embora com longa vida pela frente, é mais prazeroso no momento que seu rival 2010.

O ano 2010 marca uma acidez mais presente, a qual provavelmente dará grande longevidade aos vinhos. Eles possuem um frescor próprio, na medida certa. Além disso, frutas muito bem delineadas, toques florais,  e taninos muito bem polidos. Numa degustação mais à frente, digamos daqui a dez anos, o 2010 pode estar mais interessante com uma estrutura mais desenvolvida. De todo modo, um belo fecho de prova, marcando definitivamente a volta da família Liger-Belair como uma das estrelas da Borgonha.

Outros pratos marcantes

Agradecimentos aos companheiros de mesa e copo, sempre muito gentis, divertidos e generosos em mais esta jornada. Mais alguns pratos (foto acima) muito bem executados como o carpaccio de robalo, extremamente delicado, e as costeletas de cordeiro empanadas com batatas gratinadas, um prato reconfortante, finalizando muito bem este grande almoço. Menção especial ao maître Ivan do Nino Cucina, sempre atencioso nos detalhes.

Acabadas as desculpas de Carnaval, o ano começa pra valer e as degustações prometem grandes momentos em 2019. Que Bacco sempre nos proteja e no guarde!

Soldera, só em taça de Borgonha

23 de Fevereiro de 2019

Brunello di Montalcino, nos dizeres de Hugh Johnson, um vinho para heróis, para momentos épicos. Desde sua criação com Biondi-Santi, seus inúmeros seguidores propunham um vinho austero, imponente, para longo envelhecimento. Em seguida, num tempo bem mais recente, os chamados modernistas propuseram um Brunello mais macio, mais frutado, mais acessível na juventude. A casta é chamada de Sangiovese Grosso, um clone somente utilizado na região de Montalcino, pois sua maturação não ocorre perfeitamente na região do Chianti Classico, onde ali é cultivada a Sangiovese Piccolo.

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momento de descontração

Pois bem, Gianfranco Soldera, propos um Brunello diferente, delicado, sutil, um verdadeiro Borgonha dentro da Toscana, sem perder a autenticidade do terroir. Seus vinhos super valorizados, são disputados em leilões, sobretudo em safras mais antigas. Com seu recente falecimento, esses vinhos se tornarão históricos, e seus preços …

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a taça sempre Borgonha e os tonéis eslavônios 

Sempre a taça borgonhesa e os tonéis de carvalho eslavônio ao fundo num dia frio em Montalcino. Seus taninos delicados e seus sutis aromas se adequam perfeitamente à taça, sobretudo com o envelhecimento.

História

Case Basse é uma vinícola de 23 hectares, localizada na parte central da denominação de origem Brunello di Montalcino, a 320 metros de altitude num solo de origem vulcânica. 

Podemos dizer que é uma vinícola de história recente, já que as primeiras safras foram de 1972 e 1973. O cultivo e a vinificação é totalmente natural, e o amadurecimento dos vinhos se dá em grandes tonéis da Eslavônia, madeira tradicional utilizada na região, por pelo menos quatro anos.

A produção anual é em média 15 mil garrafas  que podem chegar ao preço unitário de 500 euros. Das trinta safras já produzidas, todas de altissimo nível, Gianfranco cita a safra 1979 como safra de emoção.

soldera 79 e 90

Grandes safras: 79 e 90

O Símbolo no rótulo em forma de S vem da mitologia grega. Há um chafariz na propriedade com esta escultura. Para se ter uma ideia da pureza e naturalidade deste vinho, a Universidade de Enologia de Firenze participa da análise dos vinhos, relatando toda a microbiologia do processo. No início da fermentação participam vários tipos de leveduras naturais sem a presença ainda da Saccharomyces Cerevisiae, a qual só atua efetivamente no mosto a partir do terceiro dia de fermentação. O processo é lento e totalmente espontâneo, durando cerca de 60 dias. Toda a fermentação e amadurecimento é feito em madeira. A levedura natural dominante que atua após o processo fermentativo nos tonéis é a Oenoccocus Oeni. O amadurecimento em grandes Botti eslavônios pode chegar a cinco anos. O vinho é engarrafado sem filtração. 

Além do grande Soldera, sobretudo o Riserva, Case Basse elabora outros vinhos no portfolio, tais como: Soldera Pegasos, Soldera Intistieti e Rosso di Montalcino, este último um vinho mais simples, para consumo imediato. Quanto aos dois primeiros, são vinhos que passaram menos tempo em madeira, devido a características de safras específicas.

A novidade a partir de 2006, é que o grande Soldera abriu mão da denominação Brunello di Montalcino para uma denominação mais genérica chamada Toscana IGT com a menção 100% Sangiovese. O design do rótulo é idêntico ao Brunello tradicional da Casa. Só mesmo o prestígio do nome Soldera para dispensar uma denominação como Brunello, uma das mais prestigiadas da Itália. É quando a marca adquire terroir e diferenciais únicos. Angelo Gaja também fez isso com seus Barbarescos. Privilégio de poucos …

b6a89309-0eac-42e3-8fcb-5320fe8ef4b0vertical de Soldera

Com a devida introdução, vamos a uma bela vertical de Soldera realizada no restaurante Gero, Jardins. Foram sete safras, sendo a mais antiga 94, e a mais recente 2006. Todos os vinhos com mais dez anos, tempo suficiente para uma boa evolução em garrafa.

img_5699Leflaive brindando Soldera!

Para aguçar as papilas, uma dupla de brancos de respeito com a assinatura Domaine Leflaive. Começando com o raro Bienvenues Batard-Montrachet safra 2002. Um vinhedo que parece mais um jardim com 1,15 hectare de vinhas datadas de 1958 e 1959. Toda a elegância de Madame Leflaive num branco harmônico, em sua plenitude, com frescor e complexidade. O vinho é profundo sem ser pesado. Notas de flores, mel, pêssegos, e um fino tostado, permeiam a taça. Já seu oponente, o maravilhoso Chevalier-Montrachet, especialidade da Casa, estava um pouco cansado. Mesmo assim, era notável sua estrutura e sua riqueza aromática. Em sua melhor forma atinge 97 pontos como uma das melhores safras já elaboradas. 

img_5700um trio de respeito

Quase o mais antigo com o mais novo, as safras 1994 e 2003 se confrontaram. Mas quem se saiu muito bem foi o vinho da esquerda, o envolvente Soldera Riserva 2000. Um Brunello na sua plenitude, ótimo momento evolutivo, e com a marca Soldera de pura elegância. Tem 93 pontos Parker e bem o merece. Tinto macio, taninos finos, belo meio de boca, aromas de cerejas escuras, alcaçuz, e finas especiarias. Pessoalmente, o mais prazeroso da degustação.

Já o Soldera Riserva 1994 impressionou por sua estrutura e longevidade com taninos firmes e presentes. Um lado mais viril dentro da delicadeza Soldera. É bom lembrar que neste ano tivemos as duas versões, Riserva e não Riserva. O que difere esses vinhos é um ano a mais nos tonéis para o Riserva, antes da comercialização. Neste exemplar, podemos notar frutas em licor, especiarias como cardamomo, e algumas notas de chá, ou seja, aromas terciários em profusão. Por fim, o Riserva 2003 não emocionou tanto como os demais, embora ainda muito jovem. De qualquer modo, parece não ter o mesmo extrato que seus parceiros.

0016b4bd-417a-45a6-beeb-afc384aad9c2grandes safras em momentos distintos

Neste flight, temos vinhos semelhantes em estrutura, mas momentos distintos de evolução. As safras 2005 e 97 têm 92 e 93 pontos, respectivamente. Neste exemplar 2005, ainda muito vigor, vinho em evolução, mas com muita fruta, especiarias, notas defumadas, e um belo equilíbrio. Já o 97, um vinho maduro, com notas terciárias de tabaco, algo cítrico que lembra laranjas sanguíneas, de polpa vermelha, e um mineral terroso. Neste ponto do almoço, alguns pratos que acompanharam bem os vinhos, conforme foto abaixo.

pratos do Piemonte

Embora os Brunellos remetam a pratos de carne mais estruturados como a Bistecca alla  Fiorentina, por exemplo, os vinhos de Gianfranco Soldera são mais delicados e femininos, buscando uma cozinha mais requintada como a do norte da Itália. O risoto de funghi porcini fresco com os vinhos mais evoluídos ficou perfeito, enquanto o rico Bollito Misto teve mais presença com os vinhos jovens, mais vigorosos. Tudo bem executado pelo restaurante Gero, sob o comando impecável do maître Ismael.

img_5705embate de gigantes

Enfim, o gran finale, dois Solderas Riservas altamente pontuados das belas safras 2004 e 2006 com 97+ e 95+ pontos, respectivamente. Foi muito difícil julga-los, tal a semelhança de estrutura de ambos. Devem ser decantados com pelo menos duas horas de antecedência, pois ainda estão em evolução para pelo menos mais uma década. Todo o vigor das grandes safras, mas sempre com a elegância de um autêntico Soldera. Bom corpo de ambos, muita fruta madura e fresca, rico em especiarias, alcaçuz, e um fundo defumado. Taninos muito presentes e extremamente finos. No fotochart, o 2004 justifica seus dois pontos a mais com uma expansão de boca um pouco mais ampla. Contudo, dois belos Solderas fechando o almoço com promessas certeiras para as próximas décadas. 

clássicos italianos

As sobremesas com os clássicos do norte e sul da Itália, Tiramisu e Cannoli de Pistache, respectivamente, muito bem executadas, gentilezas de Rogerio Fasano.

De todo modo, uma bela homenagem a um dos grandes mestres da enologia italiana, Gianfranco Soldera, colocando seu talento acima do terroir de Brunello di Montalcino. Nos dizeres do próprio mestre, suas safras eram como filhos, sem distinção: “Non ce n´è annata meglio o peggio, sono diverse”. Descanse em paz Mestre, o céu tem muito a comemorar!

A família Montrachet e um pouco mais

17 de Fevereiro de 2019

Quando falamos do melhor vinho branco do mundo, estamos na Côte de Beaune, sul da Côte d´Or. O vinhedo Montrachet é cercado por outros quatro Grands Crus de primeira grandeza, dividindo terras entre as comunas de Chassagne-Montrachet e Puligny-Montrachet, conforme mapa abaixo:

montrachet vinhedos

berço espiritual da Chardonnay

Deixando de lado os Grands Crus Les Criots e Bienvenues Batard Montrachet, de produções diminutas, sobretudo Criots, o vinhedo Montrachet é cercado por Chevalier-Montrachet ao norte, e Batard-Montrachet ao sul.

Diferenças de altitude mas principalmente de solo, refletem características distintas aos três Grands Crus. Batard-Montrachet, de altitudes mais baixas e solos com maior proporção de argila em relação ao calcário do que os demais Grands Crus, gera vinhos de maior densidade, maior textura, sem serem pesados.

Ao contrário, Chevalier-Montrachet, com solos de maior altitude, mais pedregosos, e boa proporção de calcário, gera vinhos elegantes, com maior tensão, e de textura mais delgada em relação aos outros Grands Crus.

Finalmente, Montrachet, o vinhedo de altitude e solos intermediários, parece unir as virtudes dos dois Grands Crus que o cercam, mesclando com maestria, força, delicadeza, profundidade, e sutileza. Um espécie de Romanée-Conti dos brancos, sendo o centro gravitacional de todos aqueles que o cercam.

Neste contexto, testamos algumas garrafas destes Grands Crus com um dos domaines referência neste distinto terroir, Domaine Leflaive. Especialista na comuna de Puligny-Montrachet, seus vinhos são de pureza absoluta e de uma elegância ímpar.

Domaine Leflaive possui 4,7677 hectares de vinhas Grands Crus divididas entre os Grands Crus Montrachet, Batard-Montrachet, Chevalier-Montrachet, e Bienvenues-Batard-Montrachet. O número acima pode ser lido como: 4 hectares, 76 ares, e 77 centiares. Número bastante preciso em termos de agrimensura. 

img_5676batalha de gigantes

Teoricamente no confronto acima, Chevalier-Montrachet deveria sagrar-se vencedor, uma especialidade do Domaine. Contudo, o vinho estava prejudicado com ligeira oxidação. Para complicar mais a disputa, a garrafa do Batard-Montrachet estava perfeita. Conclusão, o Chevalier meio cansado e de evolução adiantada, pareceu mais pesado que seu oponente. Reforçando o fato, Madame Leflaive consegue se impor no terroir de Batard, gerando vinhos com uma delicadeza e elegância surpreendentes. Degustados às cegas, pelas razões acima expostas, nos enganamos nos palpites, fazendo-nos quase jurar que o Batard era sem dúvida o Chevalier-Montrachet. Uma grata surpresa!

img_5678a comparação é cruel

Até então, o Batard 95 estava quase perfeito num vinho de grande equilíbrio e complexidade. Neste segundo flight, surge o estupendo Batard 96 para desbanca-lo, colocando-o nas cordas, mas sem nocaute. Trata-se de um dos melhores de todas as safras deste Grand Cru, rememorando aos míticos anos 1985 e 1992. O vinho era tão espetacular, que parecia pelo menos dez anos mais jovem que seu desafiante, o ótimo Batard 95. Enquanto temos frutas secas, mel, e especiarias no Batard 95, encontramos um frescor extraordinário no Batard 96 com notas de flores, fino tostado, e um intrigante cítrico com toques de limão. Bastante tenso em boca. Só mesmo Leflaive para dar esta leveza no terroir de Batard-Montrachet, embora não nos esqueçamos de Ramonet, um gênio deste Grand Cru. Notas para o Batard 95 e 96, respectivamente. 93 e 97 pontos, distância justa que os separam.

Domaine Leflaive Batard-Montrachet Grand Cru – Ficha Técnica

Quatro parcelas de vinhedos, sendo duas localizadas na comuna de Chassagne-Montrachet, e duas na comuna de Puligny-Montrachet. A idade das vinhas varia entre 1962 e 1989, perfazendo um total de 1,91 ha, ou seja, menos de dois hectares.

A vinificação segue o padrão clássico com fermentação do vinho em barricas de carvalho. As barricas são de idades variadas com 25% de carvalho novo. A procedência da madeira de acordo com a exata granulometria exigida, tem no mínimo metade provinda da floresta de Allier, e no máximo, metade provinda da floresta dos Vosges.

O vinho estagia doze meses em barricas após a fermentação, e em seguida, mais seis meses em cubas inertes, antes do engarrafamento para perfeita estabilização.

algumas iguarias de acompanhamento

Entre um gole e outro, alguns mimos do restaurante Nino Cucina para conter a salivação: Burrata Caprese, Presunto de Parma, e Polvo grelhado na frigideira. Em especial, este polvo com algumas gotinhas de limão deu as mãos ao incrível Batard 96.

na sequência …

Antes do prato principal, almôndegas afogadas num delicioso e concentrado molho pomodoro e um gnocchi muito bem executado com molho de tomate e queijo taleggio. Pratos reconfortantes.

o indestrutível Syrah!

Agora o grande tinto do almoço em magnum, Chapoutier Ermitage Le Pavillon 1990, um tinto indestrutível. Com quase 30 anos, sua cor ainda é um rubi carregado e intenso. Após três horas de decantação, lembrando que Syrah é um dos vinhos mais redutivos, os aromas se mostram austeros, arredios, sugerindo frutas negras, azeitonas, um toque de alcaçuz, cacau,  e um fundo defumado. Em boca, seus taninos são firmes, mas bem polimerizados, finalizando com belo equilíbrio. 

A pergunta é: quanto vale este vinho?. Para Parker, um apaixonado pelo Rhône, 100 pontos inconteste. Já para seu assistente, Neal Martin, 89 pontos. Pessoalmente, acho que esse é um caso clássico onde Parker se emociona demais e acaba não sendo tão rigoroso e imparcial como nos Bordeaux. Eu ficaria numa faixa entre 92 e 95 pontos. Não mais que isso, o que não é pouco.

Apenas para ressaltar a exclusividade deste tinto, Le Pavillon é o que Chapoutier chama de Sélection Parcellaire. São apenas quatro hectares de vinhas centenárias, entre 90 e 100 anos. Seus rendimentos são baixíssimos, ao redor de 15 hl/ha. A vinificação dá-se em cubas de cimento com longa maceração das cascas. O vinho amadurece em barricas de carvalho entre 18 e 20 meses, sendo apenas 30% novas. Chapoutier diz ser um vinho para durar 60 anos, podendo chegar em safras espetaculares como 1990 a 75 anos, se bem adegado.

batatas assadas como molho cremoso

Pelas fotos acima, costeletas de cordeiro grelhadas, empanada em farinha com ervas. Como acompanhamento, batatas assadas com molho cremoso de queijo. Todos esses sabores e texturas foram tirados de letra pelo Ermitage com sua incrível estrutura.

um Yquem histórico!

Se existe um Yquem mítico no século XXI, por enquanto é o Yquem 2001. Uma força e estrutura extraordinária. Ele é denso, grandioso, harmônico, longo, longo, muito longo. Seu apogeu está previsto para 2100. Talvez já esteja reencarnado para prova-lo novamente.

Como sobremesas, a panna cotta com frutas vermelhas não comprometeu e nem emocionou na harmonização, mas o arroz doce com doce de leite fez um casamento interessante com o vinho. As texturas se complementaram e o nível de açúcar de ambos se respeitaram. Um belo fecho de refeição …


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