Um italiano na tropa de elite


Quando se trata do alto escalão francês, é sempre um problema mostrarmos belos vinhos de outros países, de outras regiões. Embora eles possam ser bastante atrativos, em muitos casos a comparação torna-se cruel. Não foi o caso deste Soldera Riserva 2005 em garrafa Magnum que não se intimidou frente a grandes bordaleses, sobretudo à mesa acompanhando os pratos.

soldera riserva 2005

elegância em Montalcino

Apesar de jovem, o estilo tradicionalista Soldera agrada sempre pela elegância e sutileza de aromas. Envelhecido por até cinco anos em botti (toneis grandes de madeira) da Eslavônia, o vinho se clarifica naturalmente, além da devida micro-oxigenação dada pela madeira. A cor é de pouca concentração, lembrando alguns Nebbiolos do Piemonte. Os aromas são etéreos, balsâmicos, rico em especiarias sutis. Embora aparente uma certa fragilidade, esses vinhos são capazes de evoluírem por décadas, pois possuem grande acidez e uma bela estrutura tânica. Aliás, falando em taninos, estes são de uma finesse notável, fruto da boa polimerização advinda do processo de envelhecimento. Além disso, como todo bom italiano, enfrentou bem os diversos pratos do almoço, especialmente um ragu de linguiça toscana acompanhado de polenta cremosa, foto abaixo.

gero ragu de linguiça toscana

textura e sabores sintonizados com o vinho

gero tropa francesa

elite francesa para intimidar

O ataque francês já começa arrasador, Batard-Montrachet Domaine Leflaive da ótima safra 2005. Apesar deste Grand Cru ter um estilo mais encorpado, comparado ao Chevalier-Montrachet por exemplo, Madame consegue um refinamento e uma delicadeza quase inacreditáveis. A área de vinhas para este Batard não chega a dois hectares. As parcelas variam as idades desde 1962, 1974, 1979, até 1989. Além das vinhas antigas, o trabalho de vinificação é primoroso. Vinificado e amadurecido em barricas de carvalho, sendo 25% em barricas novas. O vinho passa cerca de doze meses nessas barricas cujo o carvalho provem de Vosges (Alsace) e Allier (florestas do Centro). A comunhão da fruta e madeira é de perfeita integração. Os toques tostados e amanteigados são sutis, harmônicos, sustentados por uma acidez refrescante na justa medida. Um primor da Terra Santa.

chateau certan pomerol 99trotanoy pomerol 2005

a hierarquia de um terroir

Embora não haja uma classificação oficial para os vinhos de Pomerol, existe de fato uma hierarquia em sua elite muito clara. O primeiro tinto à esquerda, Chateau Certan de May, não confundir com Vieux-Chateau-Certan, outro grande Pomerol, é uma propriedade antiga na região com vinhas em terrenos argilosos e em parte, rico em pedras. Daí, 70% das vinhas serem Merlot, 25% Cabernet Franc e 5% Cabernet Sauvignon, sendo os Cabernets para os solos pedregosos. O vinho passa de 12 a 14 meses em barricas de carvalho, sendo entre 60 e 80% novas, conforme a safra.

A safra de 1999 não está entre as grandes, mas é bastante agradável, além de encontrar-se num bom ponto de evolução. Neste caso, os aromas de cacau, tabaco, cogumelos e toques terrosos estão bem presentes. Vinho de bom corpo, taninos presentes e talvez, extraídos demais. Precisa de decantação (aeração) e pratos substanciosos como o cordeiro abaixo.

gero jarret de cordeiro

massa e cordeiro para o Pomerol

Este Jarret de cordeiro guarnecido pelo Tagliolini com manteiga e sálvia escoltou muito bem os dois Pomerols. A textura macia da carne, o molho cheio de sabor, mas ao mesmo tempo delicado, enriqueceram os vinhos, além da sálvia alinhar-se com os toques de ervas dados pelos Cabernets. 

Quanto ao Trotanoy 2005, está no pelotão de frente dos grandes Pomerols. Com maior porporção de Merlot (90%) e o restante de Cabernet Franc, os solos são em parte argilosos com um subsolo rico em ferro (crasse de fer), e parte pedregosos num solo mais quente. De fato, a localização do vinhedo é excelente em termos de terroir. Em média, o vinho passa cerca de 18 meses em barricas de carvalho, sendo no máximo 50% novas.

Neste exemplar, o vinho encontra-se num período difícil que chamamos de latência. Os aromas ficam meio tímidos, relutando a surgirem. Mesmo assim, a fruta bem colocada, a mineralidade, são perceptíveis e de grande finesse. Percebe-se que a boca é de um grande tinto, com taninos finíssimos, muito bem equilibrado, e final bem acabado. Deve-se abrir nos próximos anos, podendo e devendo evoluir por décadas.

Mais uma vez, fica provado que os grandes Pomerols são vinhos difíceis na juventude, contrariando aqueles que pensam que a Merlot sempre gera vinhos fáceis de beber e bem acessíveis em tenra idade. A longevidade e lenta evolução destes tintos são impressionantes.

haut brion 88

a felicidade é palpável

Encerramos o almoço como começamos, vinhos extremamente prazerosos, independente da idade. Neste caso, estamos falando de um margem esquerda com quase 30 anos de uma safra que não está entre as excepcionais. Mas tratando-se de Haut Brion, o prazer é sempre garantido. Mesmo quando novo, abaixo de dez anos, é um tinto sempre abordável. Contudo, é capaz de evoluir por décadas. Os aromas além de complexos, são de uma tipicidade invejável. Os toques terrosos, de húmus, estrebaria, cogumelos, ervas, são marcantes e envolventes. Em boca, sempre harmonioso, não muito encorpado, mas com um equilíbrio fantástico. O fim de boca é preciso e intenso. Nem precisa da sobremesa.

Resta somente agradecer aos amigos, confrades de grandes jornadas, compartilhando companheirismo, alegria, boas conversas, tudo em torno da boa mesa e boa bebida. Aos ausentes, fica o puxão de orelha dos presentes. Abraço a todos!

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