Archive for Julho, 2016

Terrunyo: Terroir, Identidade, Tipicidade

31 de Julho de 2016

Do ponto de vista técnico aliado a um preço justo, a linha Terrunyo do grupo chileno Concha Y Toro é um dos projetos mais interessantes para quem busca vinhos com alma e identidade. No vasto portfólio da vinícola, esta linha tem a designação ultra premium ou Fine Wine Collection, ficando abaixo somente de ícones como Don Melchor, Carmin de Peumo e Gravas del Maipo.

Como o próprio nome diz, Terrunyo busca a essência de um vinho visando conjugar de maneira harmônica: solo, clima, cepa e homem. Embora a linha conte com cinco vinhos varietais, os mais conhecidos são: Sauvignon Blanc, Carmenère, e Cabernet Sauvignon. Em cada um deles, um terroir específico, baseado no novo conceito chileno, conforme esquema abaixo:

terroir chileno

terroir: três zonas distintas

No mapa acima, percebemos zonas distintas, conforme a influência do oceano pacífico e das cordilheiras da costa e dos andes. As zonas mais frias em azul, mostra os vinhedos sob influência direta do pacífico com ventos e águas muito geladas. As zonas em verde, são chamada entre cordilheiras, onde a cordilheira da costa, mais baixa, impede a influência direta do pacífico nos vinhedos, criando uma zona mais temperada. Por fim, as zonas dos andes em laranja, com influência direta da cordilheira homônima, onde a amplitude térmica (diferença de temperaturas entre dia e noite) é muito destacada. O esquema abaixo, ajuda a entendermos melhor estas situações.

terroir chile

esquema dinâmico com as latitudes

O quadro acima é dinâmico conforme nos deslocamos de norte a sul no terroir chileno. Em determinadas latitudes, a influência da cordilheira da costa é mais presente, rechaçando o ar frio vindo de oeste do pacífico. Em outras latitudes, esta proteção da cordilheira da costa é menos eficiente e portanto, o ar do pacifico encontra mais penetração continental. Já os vinhedos nas encostas da cordilheira dos andes, um paredão de quatro mil metros, absorve o ar frio à noite que desce pelas montanhas, contrastando com os dias ensolarados durante o período de maturação da uvas. É a chamada amplitude térmica.

terrunyo sauvignon blanc

Terrunyo Sauvignon Blanc

Já no rótulo, percebemos as especificações do produto. A menção Costa indica um sub-região de vale frio, no caso, Casablanca. Em seguida, a localização do vinhedo, Cuartel 5 – Los Boldos. O solo é composto de argila escura e logo abaixo rocha decomposta em granito. A influência climática do pacífico é decisiva para o amadurecimento lento das uvas. A colheita é toda setorizada sendo feita em três etapas distintas.

A vinificação procura além da tipicidade, todo o frescor das uvas, sem qualquer interferência da madeira. Elaborado em aço inox com posterior contato sur lies (sobre as leveduras). O vinho mostra-se elegante e de muita personalidade com notas cítricas, herbáceas e minerais. Em boca, apresenta bom volume de incrível frescor. A maciez complementa o conjunto, onde novamente nas sensações finais o frescor aparece num final limpo e estimulante. Destaca-se também a mineralidade com um sutil toque de salinidade. O equilíbrio entre álcool e acidez é notável.

terrunyo cabernet sauvignon

Terrunyo Cabernet Sauvignon

Menção no rótulo: Andes. Vinhedo: Pirque (Cuartel Las Terrazas) e uma pequena parcela em Puente Alto, ambos no alto vale do Maipo. Solo aluvial rochoso de excelente drenagem. Clima influenciado pela cordilheira dos andes com grande amplitude térmica. Zona excelente para Cabernet Sauvignon. Colheita entre final de abril e começo de maio para perfeita maturação das uvas.

Vinificação com longa maceração e amadurecimento por catorze meses em barricas francesas. Tinto de cor intensa, aromas de frutas negras, notas minerais, de ervas, e toques tostados. Encorpado, taninos firmes, equilibrando bem o álcool. Bom potencial de guarda.

terrunyo carmenere

Terrunyo Carmenère

Menção no rótulo: Entre Cordilleras. Vinhedo Peumo, cuartel 27, localizado no vale Cachapoal. Aqui o solo é argilo-limoso, retendo uma certa umidade. O clima ameno prolonga ao máximo a maturação tardia da Carmenère, sendo as uvas colhidas no mês de maio. Há uma pequena porcentagem de Cabernet Sauvignon no corte, fornecendo mais estrutura ao conjunto. A vinificação cuidadosa é complementada por um amadurecimento de doze meses em barricas francesas.

Tinto de cor profunda com reflexos violáceos. Os aromas transmitem grande frescor lembrando cerejas negras, toques florais, chocolate escuro, e sobretudo de especiarias como a pimenta negra. Em boca, mostra-se encorpado, equilibrado e com grande frescor. Persistente, taninos presentes e notas minerais.

Trata-se de um dos grandes Carmenères do Chile, principalmente por dois fatores. Primeiramente, pela vinhas serem plantadas em terroir adequado para um perfeito amadurecimento dos frutos. Em segundo lugar, a atenção em colher as uvas no momento certo, conferindo taninos de grande qualidade.

Os vinhos são distribuídos no Brasil pela própria Concha Y Toro com especial canal de vendas nas lojas Ville du Vin, tanto em Alphaville, como na loja do Itaim, São Paulo. Para maiores informações: http://www.villeduvin.com.br

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Grandes: vinhos e harmonizações

28 de Julho de 2016

jacquesson rose

Champagne Jacquesson Dizy Terres Rouges Rosé Extra-brut 2008

São apenas 8700 garrafas deste champagne rosé de alto refinamento. Dizy é um vinhedo Premier Cru situado no Vallée de la Marne, sendo Terres Rouges (lieu-dit) uma área de somente 1,35 hectares exclusivamente de Pinot Noir, plantada em alta densidade, 11500 pés por hectare. O solo é escuro e pedregoso misturando argila e calcário. O vinhedo fica junto à Montagne de Reims em seu setor sul.

O vinho-base é vinificado em madeira inerte (foudres de chêne). Trata-se de um rosé de saignée e não de assemblage, este último, mais comum em Champagne. Na verdade, este saignée é muito delicado, quase um pressurage direct. O dégorgement leva normalmente cinco anos (neste caso, fevereiro de 2014), mantendo um longo contato sur lies. Extremamente seco com apenas 3,5 gramas/litro de açúcar residual, dentro do padrão extra-brut.

Apesar de 100% Pinot Noir, é um champagne delicado, elegante e muito vivaz tanto em fruta, como no próprio frescor. As notas de frutas vermelhas (groselhas, framboesas) e de alcaçuz estão bem presentes.

porco com legumes

porco com legumes e arroz basmati

O prato acima da cozinha chinesa é uma bela opção para este champagne. A textura crocante e a delicada oleosidade do molho em pratos chineses são elementos que combinam muito bem com champagnes de um modo geral. A crocância vai bem com as borbulhas e a acidez combate com eficiência a gordura do prato. No caso desta receita, a riqueza de sabores, as especiarias, a aromaticidade, pedem um champagne de mais presença como é o caso dos rosés. Além disso, este champagne rico em frutas, complementou bem o frescor dos legumes.

Esta receita leva carne de porco com o corte copa-lombo (lombo na altura do pescoço do animal), mais saborosa e macia que o lombo normal. Além disso, temos pimentão vermelho, abobrinha, vagem torta, broto de feijão, e condimentos como shoyu, molho de ostra, gergelim, gengibre, entre outros.

donnhoff spatlese

Dönnhoff Oberhäuser Brücke Riesling Spätlese 2010

O produtor Dönnhoff é uma referência na região alemã do Nahe. Oberhäuser é um vilarejo com quatro vinhedos, sendo um deles Brücke, indicado no rótulo. Trata-se de um monopólio minúsculo de 1,1 hectares plantado em solo de ardósia com vinhas Riesling entre 25 e 35 anos. Nesta categoria Spätlese temos 72 gramas/litro de açúcar residual.

O grande trunfo deste vinho está em seu equilíbrio perfeito. Açúcar e acidez muito bem balanceados com somente 8° (oito graus) de álcool. A pureza de aromas calcada nos cítricos, maracujá, mel, flores, e uma nota mineral (petrolato) de grande tipicidade, marcam seu perfil olfativo. A textura dada em boca pelo açúcar residual é notável, sem ser exagerada. Aliás, os vinhos do Nahe numa sintonia fina, ficam entre a delicadeza do Mosel e a robustez do Rheingau.

creme brulee salmao defumado

crème brûlée au saumon fumé

A entrada acima, um crème brûlée com salmão defumado, ficou muito interessante com o branco alemão. Primeiramente, o açúcar residual do vinho complementou bem o lado adocicado do prato, sem distorções. Tanto a textura, como intensidade de sabor de ambos, prato e vinho, foram muito bem sincronizadas, deixando uma sensação final leve, sem carregar muito o paladar. É importante este lado da harmonização, pois devemos nos lembrar que a refeição está só começando e portanto, outros sabores certamente virão.

Enfim, dois vinhos diferentes, mas igualmente distintos, elegantes, e de grande complexidade. Da mesma forma, pratos incomuns, delicados, pedindo propostas exóticas e ao mesmo tempo, proporcionando horizontes para vinhos a princípio, difíceis de serem harmonizados.

Taças: Champagne e Espumantes

26 de Julho de 2016

Até a década de setenta do século passado, as taças de champagne abertas, conhecidas como Maria Antonieta, eram comuns nas mesas de restaurantes, eventos e filmes de Hollywood. De certo modo, havia coerência neste modelo, visto que os champagnes não eram totalmente secos. O estilo Brut como conhecemos hoje e amplamente consumido foi criado nos anos 30. Portanto, esta secura e alta acidez evidenciadas não eram apreciadas em outras épocas. Atualmente, este modelo de taça é indicado pela marca Riedel para o consumo de Moscato d´Asti ou champagnes e espumantes doces. De fato, a borda mais aberta favorece a apreciação da acidez, do frescor, contrastando com a evidente doçura da bebida, e portanto, promovendo um ótimo equilíbrio em boca.

A flute de certo modo, revolucionou um novo estilo de taça, muito mais de acordo com o estilo Brut. A área de contato com o ar  é bem menor, preservando o perlage, e a borda mais fechada, favorece os sabores frutados e mais delicados da bebida, frente a uma acidez extremamente presente. Com isso, a apreciação da acidez é mais comedida, dando equilíbrio ao conjunto. Para espumantes elaborados pelo método Charmat, onde os aromas de frutas e flores são mais evidentes e ao mesmo tempo, sem grande complexidade, a flute parece ser a taça ideal.

taça champagne

taças: belle époque e tulipe

No caso de champagnes e espumantes elaborados pelo método Tradicional (champenoise), as taças tulipas sempre foram as opções mais corretas. Inclusive, a Riedel oferece modelos bem apropriados. Contudo, há forte tendência para uma nova mudança. Utilizar taças a princípio para vinhos brancos na apreciação de champagnes, principalmente nas cuvées especiais. No caso do Dom Pérignon, o próprio chef de cave Richard Geoffroy, sugere a taça Spiegelau linha Authentis para vinhos brancos bordaleses na apreciação de seu champagne, sobretudo para o P2, champagne de envelhecimento prolongado e de grande complexidade aromática.

Para esta nova tendência, é importante que a escolha de taças seja para vinhos brancos de estilo bordalês, Sauvignon Blanc, Riesling, entre outros, onde a boca mais fechada restrinja a percepção exacerbada da acidez. Afinal, o champagne principalmente, tem neste componente sua mais importante característica. Taças muito abertas como as dos borgonhas brancos, evidenciariam demais a acidez, tornado seu equilíbrio em boca comprometido. Como exceção, champagnes muito antigos, onde o perlage é bastante deficiente e quase inexistente, a acidez normalmente está bem mais contida, restando apenas a eventual qualidade do chamado vinho-base. Neste caso, para levantar um pouco mais o frescor da bebida, essa taças borgonhesas mais abertas, podem funcionar a contento.

taças espumantes

prosecco, champagnes, cuvée de luxo, respectivamente

Em resumo, sugiro a flute para o Prosecco e todos os espumantes elaborados pelo método Charmat. Para os champagnes e outros espumantes elaborados pelo mesmo método, tradicional ou clássico (champenoise), a taça tulipa é pessoalmente minha melhor opção. Entretanto, é bom atentar para o tamanho do bojo. Estou falando em tulipas com capacidade em torno de 300 ml, similares à linha Sommelier da Riedel.

Em casos excepcionais de grandes cuvées de champagne envelhecidas, a taça estilo bordalês proposta por Richard Geoffroy podem ser muito interessantes. De fato, nestes casos, a qualidade do vinho-base é tão superior, que vale a pena uma câmara de expansão de aromas mais ampla, sobretudo se as borbulhas já estiverem um tanto comprometidas.

No caso dos cavas, por definição, método clássico, aqueles de menor contato sur lies com a designação reserva, as flutes ainda são aceitáveis. Já para a categoria gran reserva, a tulipa é primordial. Voltando aos champagnes, se a ideia é servi-los em taças do tipo bordalês, atentem para a complexidade dos mesmos. À medida em que o champagne torna-se mais complexo, é preciso aumentar o bojo da taça paulatinamente.

É sempre bom lembrar, que o serviço de vinhos de uma maneira geral depende muito da escolha da taça adequada, além da correta temperatura de serviço. Esta por sinal, nunca muito baixa quando o corpo, a estrutura, e a distinção de um grande espumante está presente.

Porco e Cabernet Sauvignon

21 de Julho de 2016

Normalmente, quando falamos em harmonização com carne de porco, lembramos logo de Riesling, sobretudo quando temos algo defumado para fazer a ligação com os toques minerais do vinho. Entretanto, há outras possibilidades com alguns pratos específicos. Neste sentido, vamos falar de duas sugestões dadas pelo sommelier Philippe Faure-Brac, campeão mundial em 1992 aqui mesmo no Brasil. Ele tem o restaurante Bistrot du Sommelier em Paris, propondo algumas harmonizações ousadas. As receitas fazem parte de um livro  do sommelier intitulado “Vins et Mets du Monde” com os respectivos títulos que serão detalhados: Porc et Legumes sautés à la Sauce d´Huître, e a última receita, Travers de Porc Grillé Sauce Barbecue avec Épis de Maïs Grillés.

Nestas propostas, a indicação é um tinto à base de Cabernet Sauvignon, gerando vinhos sabidamente tânicos. No entanto, algumas peculiaridades fazem a ligação com aromas e sabores destes vinhos, promovendo combinações inusitadas, como veremos a seguir.

porco ao molho de ostra

porco ao molho de ostra

O prato da foto acima tem inspiração chinesa, elaborado na wok (panela em forma de meia esfera). Esta panela tem a propriedade de grelhar o alimento e mantê-lo crocante. A receita pede inicialmente para fritar a carne de porco (lombo de porco em cubos pequenos) em óleo de amendoim por cinco minutos. Reserve a carne e em seguida, doure os legumes tais como; ervilha torta, pimentão vermelho, abobrinha, gengibre, cebolinha, alho, broto de feijão, deixando-os crocantes. Reserve-os juntamente com a carne de porco. Voltando à wok, junte o molho de ostra, shoyu e vinagre de arroz, fervendo um pouco a mistura. Em seguida, junte o molho aos legumes e à carne de porco. Finalize com pimenta e óleo de gergelim.

O vinho deve ser um Cabernet Sauvignon ou se preferir, um corte bordalês. Na indicação de Philippe, o vinho é um corte bordalês com notável predominância da Cabernet Sauvignon de Hawkes Bay, ilha norte da Nova Zelândia. Para a devida harmonização precisamos ter um vinho com fruta presente, madeira elegante, toques minerais e taninos relativamente resolvidos, ou seja, um vinho com alguns anos de adega, mas com fruta ainda vivaz. Nessas condições, a textura da carne, dos legumes, e de certa untuosidade do molho, casarão perfeitamente com o vinho. Os toques picantes e o leve herbáceo do pimentão vermelho realçaram os sabores do vinho. Ainda segundo Philippe, é uma harmonização de refinamento, à altura da cozinha chinesa. Reforçando esta tese, um outro campeão mundial francês, o sommelier Olivier Poussier, colaborador de La Revue du Vin de France, afirma a sinergia entre a mineralidade do vinho e o molho de soja.

chateau giscours

ousadia bordalesa

O tinto acima poderia funcionar nesta primeira receita de origem chinesa. Já para a receita abaixo, os tintos do Novo Mundo têm mais chances, pois os toques de madeira, tostados e resinosos, são mais evidentes. Só para informação, este Giscours 2004 da comuna de Margaux, margem esquerda, tem em sua composição 60% Cabernet Sauvignon, 30% Merlot, 5% Cabernet Franc e 5% Petit Verdot. Amadurece de 15 a 18 meses em barricas francesas, sendo 50% novas. Nesta idade, 12 anos, os taninos estão razoavelmente domados.

porco grelhado ao molho barbacue (2)

costelinhas de porco ao molho barbacue

O segundo prato, foto acima, são costelinhas de porco grelhadas no molho barbacue acompanhadas de milho cozido e grelhado em manteiga. O segredo é fazer este molho barbecue que servirá de marinada para a carne. Ferva as costelinhas em água com sal e em seguida, escorra-as. Em seguida, tempere a carne com óleo e cebola. Para o molho, junte alho, mostarda, ketchup, curry, páprica, pimenta, vinagre de maçã, e açúcar mascavo. Junte este molho à carne em forma de marinada e deixe na geladeira por uma hora. Em seguida, grelhas as costelinhas, versando o molho periodicamente. Sirva então a carne com as espigas grelhadas em mateiga.

Neste caso, o Cabernet Sauvignon deve ter toques resinosos de menta, eucalipto, madeira presente, notas de baunilha, especiarias e uma certa mineralidade. Philippe sugere um Cabernet de Margaret River, costa oeste da Austrália. Contudo, pode ser um chileno ou mesmo um Rioja. A textura da carne grelhada incorporada ao molho casa bem com a textura e tanicidade do vinho. Os aromas da grelha e as especiarias do molho vão de encontro ao lado tostado do vinho, enquanto os toques agridoces do molho e do milho combinam com o lado frutado. Vinhos relativamente novos, com presença mais marcante da fruta funcionam melhor. São características bem presentes nos Cabernets de classe do Novo Mundo.

Enfim, experiências e tentativas novas no exercício da enogastronomia, fugindo um pouco do habitual classicismo. São nestas aventuras que muitas vezes temos as surpresas mais agradáveis e marcantes.

Malbec: Altitude x Atitude

17 de Julho de 2016

Os Malbecs argentinos estão tão presentes em nosso dia a dia que muitas pessoas não sabem ou esquecem que a origem desta uva é francesa. Menos divulgado ainda é a região de sua terra natal, o sudoeste francês. Dentre as várias apelações deste pedaço da França, Cahors (pronuncia-se caór) é seu centro nevrálgico. Ao longo do rio Lot, cheio de meandros, os vinhedos se espalham formando em altitudes escalonadas níveis de terraços. De toda a forma, não há comparação com o terroir argentino, de altitudes bem maiores.

Numa degustação recente na ABS-SP, exploramos estes dois terroirs (francês e argentino), percebendo nas taças suas diferenças, virtudes e diversidades. Vamos a eles, então.

terroir cahors

Terroir – Cahors

Apelação do sudoeste francês com pouco mais de três mil hectares de vinhas distribuídas ao longo do rio Lot, um tributário do Garonne, formando um terroir único e de características específicas. Na Idade Média era conhecido como “vinho negro” e muito apreciado pelos ingleses. Com a decadência da região pela ascensão dos vinhos bordaleses, culminando com a chegada da filoxera no final do século XIX, Cahors só conseguiu reerguer-se novamente na metade do século XX com um replantio consciente das vinhas numa espécie de renascimento.

Voltando ao terroir, junto ao rio, temos os primeiros terraços com solos aluviais de areia e limo, gerando vinhos mais ligeiros e de fácil abordagem. Subindo as encostas temos mais dois níveis de terraços onde o sílex se incorpora à argila e ao calcário em forma de pedras, chamado localmente de “éboulis du causse”. Aqui temos vinhos mais estruturados, ricos em taninos, e mais encorpados. Finalmente, os vinhos de planalto onde o sub-solo calcário domina a cena, promovendo vinhos um tanto duros na juventude, ricos em taninos e de alta acidez, e por conseguinte, vinhos de guarda. O esquema acima retrata bem este terroir. De toda a forma, as altitudes estão limitadas a trezentos metros.

terroir argentina x chile

Terroir – Mendoza

Na região argentina de Mendoza, esta uva adaptou-se muito bem e com enorme sucesso mundo afora. Trata-se de um terroir de altitude, ou seja, o clima quente aliado a uma bela insolação, sobretudo na época de maturação das uvas, não apresenta dificuldades para amadurecer as uvas Malbec. Pelo contrário, se quisermos obter vinhos mais finos e mais estruturados devemos buscar altitudes mais elevadas onde a chamada amplitude térmica preservar com muito equilíbrio a acidez das uvas, além de prolongar o ciclo de maturação fenólica. Dentro deste raciocínio, as zonas altas do rio Mendoza e o chamado Valle de Uco são as sub-regiões mais propícias para este sucesso.

Em Maipú e Lujan de Cuyo, setores de grande prestígio na zona alta de Mendoza, as altitudes giram em torno de mil metros. Essas alturas aliadas a solos pobres e bem drenados, criam um ambiente espetacular para uvas de alta qualidade. Somando-se a esses fatores as chamadas vinhas antigas, muitas com mais de 50 anos,  a equação fica perfeita. Vários Malbecs e também Cabernets fazem muito sucesso nessas áreas.

Um outro terroir mendocino relativamente mais recente é o Valle de Uco, setor de grandes altitudes na área de Mendoza. Aqui estamos falando acima de mil metros, chegando até números em torno de mil e quatrocentos metros de altitude. A insolação é espetacular, mas as uvas correm mais riscos no processo de amadurecimento, devido às intempéries, sobretudo os fortes ventos. No entanto, seus vinhos são muito equilibrados em termos de acidez, destacando-se pelo notável frescor. O esquema acima, mostra a influência da altitude.

don nicanor malbecmauricio lorca poetico

os destaques argentinos

Na degustação, os dois vinhos acima mostram bem a origem de seus respectivos terroirs. O da esquerda, Don Nicanor Barrel Select provem de Lujan de Cuyo, mostrando um Malbec mais encorpado, musculoso, e de notável maciez, envolvido pelos aromas da barrica. Já o da direta, o Lorca Poético, vem do Valle de Uco onde as maiores altitudes conferem um pouco mais de delicadeza, promovendo Malbecs mais equilibrados. Uma questão acima de tudo, de gosto pessoal. Os vinhos acima são importados pela Casa flora e Vinissimo, respectivamente da esquerda para direita. http://www.casaflora.com.br e http://www.vinissimostore.com.br

cahors chateau du cedre

grande capacidade de guarda

Os dois vinhos de Cahors mostram comportamentos diferentes. O vinho acima, Chateau du Cèdre, embora com seus praticamente oito anos, não mostra sinais de evolução. Pelo contrário, seus aromas são relativamente fechados, a boca marcada pelos taninos e acidez, sugerindo ainda um bom tempo de guarda. Percebe-se de maneira sutil, alguns toques de aromas terciários com notas defumadas e animais. De toda forma, muito equilibrado em boca. Importadora World Wine (www.worldwine.com.br).

lagrezette malbec

Safra 2004 com mais de dez anos

O outro Cahors, foto acima, trata-se do Chateau Lagrezette, chateau histórico da região, restaurado pelo bilionário Alain Dominique Perrin, executivo de alto escalão de várias marcas de luxo no Europa. Apesar de seus mais de dez anos, o vinho ainda pode ser guardado, embora já possa dar muito prazer. Taninos de boa presença e de grande qualidade. Os aromas terciários estão bem presentes, sugerindo algo de embutidos. Muito equilibrado, sua persistência aromática é expansiva com frutas, especiarias e notas defumadas. Grande final de prova. Importadora Decanter (www.decanter.com.br).

Na gastronomia, pratos típicos do sudoeste francês como Cassoulet e Confit de Canard são parceiros típicos destes Malbecs estruturados sob a apelação Cahors. Sua força, corpo, taninos e acidez, são componentes decisivos na harmonização, combatendo sobretudo a gordura e suculência destes clássicos.

Do lado argentino, o lado sedutor do vinho aliado aos aromas da barrica são grandes companheiros da rica tradição do país em carnes grelhadas e assadas. Para os Malbecs mais jovens e frutados, as típicas empanadas costumam ser um bom casamento também.

Viña Cobos: Excelência em Terroir

13 de Julho de 2016

No mar de Malbecs em que estamos mergulhados é preciso separar o joio do trigo. Viña Cobos é um bom exemplo disso com vinhos bem trabalhados em terroirs de grande prestígio. Neste belo evento da importadora Grand Cru, tendo sempre à frente  a simpatia e competência de Camila Dezutti Perossi, pudemos avaliar vinhos de alta gama desta bodega referência em vinhos mendocinos. Por trás deste projeto, está o premiado enólogo americano Paul Hobbs, com passagens importantes pelas vinícolas Catena e Opus One (Napa Valley), além de consultorias na região de Tokaj, Hungria.

paul hobbs e camila dezutti

Paul Hobbs e Camila Dezutti

Para entendermos os vinhos a seguir, é preciso nos conscientizar dos melhores terroirs de Mendoza. Aqui, solos e altitudes bem escolhidos fazem a diferença. Neste sentido, a zona alta do rio Mendoza nas sub-regiões de Maipú e Lujan de Cuyo são as mais importantes e prestigiadas. As altitudes em torno de mil metros, além de solos adequados e bem drenados, conferem condições ideais para o cultivo da Malbec e também, belos Cabernets. Some-se a isso, um patrimônio importante de vinhas antigas, fechando a equação.

Outro terroir importante, relativamente recente e de grande desafio, é o chamado Valle de Uco, com altitudes ainda maiores. Aqui, a amplitude térmica e um clima mais fresco, produzem uvas equilibradas com ótimos níveis de acidez. É bem verdade que as intempéries  e o correto ponto de amadurecimento do fruto são fatores de risco. Contudo, são Malbecs vibrantes, aromas frescos e de grande pureza.

Os vinhos deste painel são calcados nestes dois grandes terroirs, partindo de vinhedos muito bem selecionados e portanto, expressando tintos de grande categoria. A idade dos vinhedos traduz bem as diferenças nas taças, mas as promessas devem ser construídas aos poucos, ao longo do tempo. O importante é perceber o grande potencial das vinhas novas envolvidas no projeto. Esses tintos são topo de gama da vinícola intitulados linha Bramare Vineyard.

bramare zingaretti

Cobos Bramare Vineyard Zingaretti Malbec 2012

Um dos destaques do painel, esse tinto esbanja classe, delicadeza e todo o frescor deste terroir de altitude. O vinhedo Zingaretti trabalha com vinhas de idade superior a 80 anos em altitudes de 1150 metros, localizadas em Villa Bastías, Valle de Uco. Nesta safra, as uvas foram colhidas no meio de abril. A textura do solo é argilo-arenosa com certa pedregosidade no terreno. O baixo rendimento de 5,5 toneladas por hectare reflete-se no vinho. Seu amadurecimento dá-se em barricas de carvalho por 17 meses, sendo 60% francesas novas, 5% americanas novas, e 35% segundo uso.

O que chama a atenção neste vinho é sua elegância. Seus toques de violeta e alcaçuz são finos e delicados. Boa presença de fruta fresca, bela acidez, e taninos muito finos. Equilibrado, bom volume em boca, mas sem nunca perder a delicadeza. As vinhas antigas fazem esta magia.

bramare rebon

Cobos Bramare Rebon Vineyard Malbec 2012

Aqui a diferença para o vinho anterior é bastante clara. Apesar de ambos estarem no Valle de Uco, em altitudes próximas, os vinhedos diferem substancialmente em idade. Neste caso do Rebon, as vinhas com apenas nove anos, localizam-se entre Altamira e La Consulta a 1015 metros de altitude. Os rendimentos são superiores, em torno de 8,5 toneladas por hectare, devido ao vigor das jovens plantas. Esses fatores refletem-se no vinho, proporcionando sensações diferentes.

O aroma neste caso é um pouco mais potente, lembrando notas de café, tostado e um fundo de tabaco. Em boca, os taninos estão muito mais presentes, embora haja um belo equilíbrio de álcool e acidez. A madeira fica mais evidente também, mesmo tendo o aporte idêntico do vinho anterior. Este precisa de mais tempo em garrafa para uma maior integração e deve ser decantado por pelo menos uma hora antes do consumo. O importante é que o vinhedo mostra-se promissor e só o tempo é capaz de adapta-lo perfeitamente ao terroir.

bramare marchiori

Cobos Bramare Marchiori Vineyard Malbec 2010

 O vinhedo Marchiori localiza-se em Perdriel, Lujan de Cuyo, a 995 metros de altitude, com vinhas acima de 50 anos. O rendimento é de seis toneladas por hectare. O solo franco-argiloso é de excelente drenagem. O vinho passa 18 meses em barricas de carvalho francês e americano (70% novas).

Neste tinto, percebemos o terroir de Lujan de Cuyo, com vinhos mais potentes e intensos. Encorpado, rico em taninos de alta qualidade. A fruta mescla-se muito bem à madeira que por sua vez, promove deliciosos traços de baunilha, café e caramelo. Macio e longo em boca. Embora já extremamente prazeroso, pode evoluir bem em adega.

bramare cabernet sauvignon

Cobos Bramare Marchiori Vineyard Cabernet Sauvignon 2012

Proveniente do mesmo vinhedo anterior, mas setores ligeiramente diferentes. Neste caso, as vinhas são relativamente jovens com apenas 17 anos. O sub-solo é relativamente mais pedregoso. Os rendimentos são destacadamente baixos com 5,5 toneladas por hectare. Aqui temos 17 meses de barricas francesas, sendo 65% novas.

A personalidade da Cabernet se expressa bem, com aromas mais fechados e taninos mais evidentes. No nariz, as frutas escuras, ervas e um toque mentolado são mais percebidos. Em boca, além da tanicidade maior da cepa, as vinhas jovens promovem taninos mais marcantes, necessitando de uma maior integração ao conjunto. A madeira não é invasiva e o equilíbrio entre seus componentes é destacado. Vinho de boa guarda.

cobos malbec

Cobos Malbec 2013

Trata-se da joia da Coroa. Um Malbec do vinhedo Marchiori com suas vinhas mais antigas e de rendimentos bem baixos (4,5 toneladas por hectare). O vinho amadurece por 17 meses em barricas francesas novas da tonelaria Taransaud, o Rolls-Royce das barricas.

Os aromas são muito elegantes com fruta em geleia, toques florais, alcaçuz, e madeira fina lembrando cedro. Bom volume em boca, mas sem exageros. Muito equilibrado, taninos de rara textura, e madeira muito bem casada. A potencia dá lugar à elegância. Belo fecho de degustação.

Enfim, uma degustação de alto nível onde pormenores foram percebidos nas taças. Uma aula de terroir e a demonstração de todo potencial mendocino na elaboração de grandes vinhos. Agradecimentos a todo  pessoal da Grand Cru, desde a recepção até todo o desenrolar do evento, caprichando nos detalhes.

Clássicos e Enogastronomia

11 de Julho de 2016

Mais um almoço entre amigos e sempre boas surpresas. Estilos de vinhos variados, novas experiências enogastronômicas e aprendizado constante no assunto. De início, um Pouilly-Fuissé de livro do Domaine Ferret. Mais uma de suas cuvées espetaculares num terroir discreto em relação aos grandes brancos da Borgonha. Desta feita, a cuvée Tête de Cru “Les Perrières”. Vinhedo de um hectare no meio da encosta em solo argilo-calcário com presença de pedras (sílex) e idade média de 35 anos. Fermentação e amadurecimento sobre as borras (sur lies) em madeira por dez meses. Vinte a trinta por cento de madeira nova, imperceptível ao nariz e em boca. Os aromas remetem a notas minerais, de mel, resinosos e toques florais. A boca é o ponto forte com uma textura untuosa sensacional, quase igual a de um Sauternes. Contudo, seu suporte de acidez permite um bom equilíbrio com o álcool, relativamente discreto de apenas treze graus. Amplo, persistente e expansivo. Tudo o que você pode esperar de um Pouilly-Fuissé em grande estilo. Detalhe importante, safra 2004. Portanto, doze anos de vida e esplendor. Sem sinais de decadência.  Mais um tesouro da Terra Santa.

pouilly fuisse les perrieres

textura deliciosa em boca

Acompanhou muito bem a quiche abaixo com escarola, nozes e gruyère, bem cremosa. Aliás, o acordo de texturas foi o ponto alto da harmonização. Os aromas de mel e acidez do vinho complementaram bem a gordura e sabores da torta. A valorização de ambos, comida e vinho, foi de fato ressaltada. Um começo arrasador.

quiche de escarola

quiche de escarola e nozes

Abaixo, outro grande vinho do almoço. Um Barbaresco de gente grande. Potente, macio, equilibrado e taninos de grande categoria. Estamos falando de La Spinetta, vinhedo Gallina, safra 2005. O rinoceronte mostra bem a estrutura do vinho. Gallina é um vinhedo de cinco hectares localizado em Neive, uma das famosas comunas da denominação. As vinhas com mais de trinta anos trabalham com rendimentos baixos. O vinho é amadurecido entre 20 e 22 meses em barricas de carvalho francês novas. E aonde está a barrica? Realmente a resposta só pode ser esta: o vinho está à altura da barrica. Discretamente evoluído, tem muita vida pela frente. Aromas de frutas escuras (cereja), toques de especiarias, alcatrão, alcaçuz e fumo. A boca é de um equilíbrio fantástico com tudo lá em cima. Acidez agradável e taninos de rara textura, embora ainda bem presentes. Em termos de corpo e estrutura, não é qualquer Barolo que o enfrenta de igual para igual. Ele é mais ou menos o que um Dal Forno Romano é para a denominação Valpolicella.

la spinetta barbaresco

Se fosse Bordeaux, seria um Barbaresco de margem esquerda

Entretanto, nem tudo é perfeito. A combinação com a bacalhoada abaixo ficou a desejar. Esperávamos num Barbaresco de dez anos, algo mais evoluído, taninos polimerizados, e não foi isso que aconteceu. Além dos taninos ainda muito presentes, embora finíssimos, destoarem do prato, sua potência aromática dominou a cena. Contudo, uma agradável surpresa apareceu na mesa, um champagne Pol Roger cuvée básica bem envelhecido, quase sem perlage. A cor extremamente dourada dava sinais evidentes desta evolução, mas a boca além de agradável, caiu como uma luva na harmonização com o bacalhau. Sua acidez marcante, mousse surpreendente ainda com boa presença, combateram de maneira brilhante a gordura do prato. Os aromas de evolução do champagne com seus toques empireumáticos, de mel, e certa oxidação, foram de encontro aos sabores e aromas do bacalhau. Conclusão: champagnes envelhecidos e de certa oxidação, já têm uma função enogastronômica segura.

bacalhoada

bacalhoada tradicional

Mais uma estrela abaixo, completando este triunvirato, um Porto Vintage 1985 da excelente casa inglesa Warre´s. Esta é uma safra até certo ponto injustiçada, sem o glamour que verdadeiramente ela merece. Com seus trinta anos, este Porto esbanjou complexidade, classe, exotismo e ainda, muita longevidade. Inteiro, integro, e muito equilibrado. Um toque floral encantador lembrando de certo modo alguns Novais Nacionais. Desceu macio e de repente, desapareceu no decanter. De tão bom, mereceu uma degustação solo.

porto warre 85

elegância sobrepujando a potência

A sobremesa abaixo, finalizou em grande estilo o almoço. Flambada momentos antes do serviço com um belo Calvados envelhecido, esta tarte tatin acarinhou nossas papilas com grande suavidade. Merecia um bom branco de sobremesa do Loire. Um Quarts de Chaume ou um Bonnezeaux, talvez.

tarte tatin

tarte tatin de grande sutileza

calvados vieux

Calvados Vieux ou Réserve

Elaborado na Normandia, Calvados é um destilado de cidra (fermentado de maçãs). O termo Vieux é o equivalente ao Réserve que prevê um envelhecimento em madeira por pelo menos três anos. A menção “Pays d´Auge” é destinada a uma área restrita dentro da apelação Calvados. Não é o caso desta bela garrafa.

bolivar, partagas, montecristo

trio de ferro cubano

Finalizando a tarde, um trio de Puros de primeira linha. Bolivar Belicosos, Partagás E2 e Montecristo n° 2. Elegância, potência e exclusividade, respectivamente adjetivam os Puros citados. Expressos, chás e o Calvados Vieux, acompanharam a fumaça azul. Abraços e vida longa aos amigos!

Sua Excelência, Cognac Louis XIII

8 de Julho de 2016

Dando prosseguimento ao artigo anterior, continuamos com Louis XIII, um Cognac de exceção da Maison Rémy Martin. Após todo o longo e intrincado processo de elaboração, o engarrafamento desta bebida precisa de alguma forma ser impactante, mostrar implicitamente todo o cuidado e sofisticação envolvidos nesta trajetória. Assim nasce o decanter Louis XIII, uma garrafa de cristal de Baccarat confeccionada por onze artesãos com uma tampa reproduzindo a flor-de-lis e o gargalo decorado com ouro 24 quilates. Não existem duas garrafas perfeitamente iguais de Louis XIII. A garrafa em si, já é uma joia.

cognac tampa louis xiii

detalhes minuciosos

As variações da bebida

Será que só existe um Louis XIII? um único tamanho? um único tipo? claro que não. Vamos a eles.

Além da tradicional garrafa de 700 ml, existe uma miniatura com 50 ml, um verdadeiro perfume. Uma réplica fiel do tamanho original, elaborada com o mesmo artesanato, inclusive numerada também.

Para tamanhos maiores, existe Louis XIII Le Jeroboam com capacidade quatro vezes maior  que o tamanho original. É confeccionado na Cristallerie de Sèvres, acompanhado com quatro taças devidamente lapidadas e uma pipeta de metal para o serviço da bebida. Tudo isso acondicionado em um caixa de madeira exclusiva com o brasão Louis XIII.

cognac louis xiii pipeta

sofisticação não tem limites

Aqui começa a exclusividade dentro da exclusividade, se é possível. Um tierçon (casco) perdido na adega da família Grollet escondia um Cognac envelhecido de rara complexidade. Pois bem, este casco foi engarrafado totalmente sem misturas adicionais, perfazendo somente 786 garrafas numeradas e confeccionadas num exclusivo cristal negro de Baccarat, batizado como Louis XIII Black Pearl, conforme foto abaixo.

cognac louis xiii black pearl

Baccarat: cristal negro

Existem mais dois exclusivos Louis XIII denominados Rare Cask com teores alcoólicos parecidos, mas ligeiramente diferentes. O primeiro trata-se do Rare Cask 43,8 Louis XIII, um tierçon (casco) especialmente pinçado na adega, o qual apresentou características especiais. Observado por mais quatro anos, veio então a decisão de engarrafa-lo separadamente numa partida especial. Evidentemente, num decanter de cristal negro especialmente confeccionado por artesãos que trabalham contra uma negritude perfeitamente opaca. O gargalo é revestido de paládio, um metal tão nobre quanto o ouro ou a platina.

cognac louis xiii cask 42,6

decanter impecável

O outro Rare Cask é o 42,6. Nos mesmos moldes e critérios do Cask 43,8 seu engarrafamento também é numerado e especial. O decanter em cristal negro e o gargalo revestido em ouro-rosa produzem um efeito divino sob a luz. Seus aromas são destacados pelas tâmaras, folhas de tabaco e gengibre.

Temperatura de serviço

Diferentemente do vinho, a temperatura de serviço de um Cognac não é muito esclarecedora e tão pouco divulgada. Diz-se em temperatura ambiente, termo altamente subjetivo. Contudo, algumas referências sobre o assunto falam entre 15 e 18°C, como intervalo de temperatura correto. Pessoalmente, ainda acho alto, levando-se em conta que um vinho do Porto de estilo Tawny com seus 20° de álcool, recomenda-se servir-lo por volta de 14°C. Um conhecedor de Cognac da região, serviu para a surpresa de seus convidados, um Cognac mantido no congelador a menos 20°C onde nesta temperatura, a bebida cria uma textura oleosa, bastante untuosa, a despeito de algumas camadas de aromas mais pesadas tornarem-se desapercebidas. Enfim, o assunto é polêmico.

Como dica pessoal, em épocas mais frias e em ambientes convenientemente refrigerados, temperaturas até 20°C podem ser aceitas para sua devida apreciação. Já em épocas mais quentes, bem recorrentes em nosso país, somadas a ambientes sem a devida refrigeração, mergulhar a garrafa de cognac em um decanter com algumas pedras de gelo é uma atitude sensata. A sensação excessiva do álcool fica sensivelmente rechaçada e por conseguinte, seus aromas mais agradáveis.

Taças adequadas

Outra discussão polêmica. Os tradicionalistas preferem a taça balão (ballon ou ballonn), enquanto os mais inovadores, a taça tulipa (tulipe ou tulip). Tecnicamente, a taça tulipa é a indicada para uma degustação técnica  e avaliação da bebida pelos mestres de adega. De fato, o formato tulipa minimiza os aromas excessivos do álcool, privilegiando aromas mais frutados e sutis da bebida. Por outro lado, a taça balão sobretudo no inverno, deixa a sensação alcoólica mais aconchegante. Além disso, em boca, o ângulo de borda da taça balão privilegia a sensação de acidez, promovendo um melhor equilíbrio gustativo.

cognac e charuto

verre ballon et cigar

Novamente, opinião pessoal. No inverno, buscando algo mais aconchegante, minha preferência é pela taça balão. Já em pleno verão, buscando aromas mais sutis e frutados, além de uma bebida mais refrescada, a taça tulipa é mais adequada. Enfim, cada qual com sua decisão.

Acompanhamentos

Quando se trata de um Louis XIII, a bebida em si não necessita de companhia obrigatória. Contudo, há sempre as preferências e indicações. Em sua ampla paleta aromática, este Cognac admite várias opções.

cognac e chocolate

cognac et chocolat

Bebendo-o isoladamente, pode-se acompanha-lo com frutas secas, tanto as oleaginosas (amêndoas ou nozes), como as passificadas (tâmaras ou figos). Como entrada exótica, pode acompanhar muito bem patês de caça, patê campagne, inclusive foie gras trufado. Na sobremesa, acompanhando uma Tarte Tatin, pode ser divino. Chocolate amargo (alto teor de cacau) preferencialmente, é outra combinação que vale a pena. E por fim, os grandes Havanas podem ser ótimos parceiros, sempre respeitando a tipologia. Charutos diferenciados para um Cognac fora de série. Exemplos: Hoyo de Monterrey Double Corona, Cohiba Esplendidos, Bolibar Belicosos, Partagás Lusitanias, entre outros.

Louis XIII: Excelência em Cognac

5 de Julho de 2016

Pessoalmente, reputo o Cognac como o destilado mais fino que conheço. Já falamos do assunto diversas vezes neste mesmo blog sob várias perspectivas. No entanto, este artigo trata de uma joia neste universo de sofisticação, o famoso Cognac Louis XIII, obra-prima da Maison Rémy-Martin. Quem quiser provar uma dose desta preciosidade, deve desembolsar cerca de oitocentos reais no restaurante Emiliano por um preço super honesto, por incrível que pareça.

cognac louis xiii

decanter de confecção artesanal

Mas o que é realmente um Louis XIII? Quais os detalhes? Qual seu nível de exclusividade? É o que tentaremos esclarecer no artigo abaixo. Para começar, em sua composição temos a mistura (blend) de aproximadamente 1200 (mil e duzentas) aguardentes com idades entre 40 e 100 anos. Mesmo nos melhores Cognacs, esses números descritos são bem mais modestos.

O terreno

No exótico terroir de Cognac, as melhores áreas de vinhas se distribuem de maneira concêntrica de dentro para fora como se fossem polígonos, conforme figura abaixo:

cognac regiões

Grande Champagne: o Suprassumo

Embora nos grandes Cognac tenha a menção Fine Champagne, que por si só, já é um privilégio, a expressão significa que as uvas do respectivo blend provem da mistura entre Grande Champagne e Petite Champagne, dois dos melhores terroirs. Entretanto, Louis XIII parte de vinhas totalmente (100%) e exclusivamente localizadas em Grande Champagne.

Neste solo de Grande Champagne de base calcária, uma espécie de giz, a drenagem é excelente, proporcionando um estável armazenamento de água para as vinhas em grandes profundidades, deixando a superfície seca. Com um clima marítimo ameno, é a melhor área de Cognac.

A destilação

Após a colheita das uvas exclusivamente de Grande Champagne, é elaborado o chamado vinho-base para posterior destilação. Esse vinho deve ser pobre em álcool e de grande acidez, condições “sine qua non” para um grande Cognac.

O rendimento na destilação é bem baixo, outro fator de encarecimento da bebida. São necessários dez litros de vinho-base para a elaboração de um litro de Cognac.

No momento da destilação, começa já uma seleção rigorosa para o nascimento de um Louis XIII. Embora todo o vinho-base parta de vinhas da região de Grande Champagne, após a destilação, as várias partidas não são as mesmas e portanto, darão produtos sutilmente diferentes. Nesta hora, o Mestre de Adega com seu nariz Absoluto, deve separar o joio do trigo com um detalhismo extremo, pois trata-se de aguardentes ainda não lapidadas com 70% de álcool. Em média, de mil amostras testadas, apenas uma dúzia será destinada à elaboração de um Louis XIII. Pode parecer bobagem ou exagero, mas dentro da colheita de uvas, setores do vinhedo possuem qualidades e características especiais, além do adequado grau de maturação das uvas que não é uniforme, exigido para este fim.

A mistura

Se você achou difícil até aqui, agora vem o “pulo do gato”, o segredo da mistura, do blend. Na definição do Louis XIII no começo do artigo, falamos em cerca de 1200 aguardentes misturadas, mas não todas de uma vez só. Demora um século para completar a magia. É um trabalho de paciência, disciplina e devoção. Aquela aguardente saída do alambique e minuciosamente pinçada dentre milhares de amostras, é apenas um feto que será ao longo do tempo muito bem lapidado até transformar-se numa verdadeira joia.

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assemblage: trabalho de perfumista

Portanto, faz-se uma primeira mistura de várias aguardentes, de várias partidas, de várias safras, sempre com o padrão altissimo de um Louis XIII. Esta primeira mistura vai compor mais um barril a ser envelhecido.

O envelhecimento

Etapa importantíssima em todo o processo que diz respeito à lapidação propriamente dita deste magnifico Cognac. Eles são envelhecidos em toneis de madeira chamados “Tierçons” com capacidade de 560 litros. Três toneis destes era a capacidade de transporte numa carruagem da época. A madeira provem da floresta de Limousin, caracterizada por apresentar carvalho de alta porosidade e rico em taninos.

cognac tierçon

tierçon: lento repouso da bebida

Esses toneis são monitorados ano após ano pelo mestre da adega para sua perfeita evolução. De tempos em tempos, as misturas são feitas com muito critério mantendo o padrão de perfeição, ou seja, selecionando todos os lotes com o que há de melhor. Aos 50 anos, cerca de 300 aguardentes foram misturadas e provavelmente já deve ter ocorrido alguma transição entre os mestres de adega, passando seu legado. Após 75 anos, essas misturas podem chegar a 700 aguardentes e novamente, talvez mais uma transmissão entre os mestres. Por fim, com 100 anos, a obra está terminada. O mestre atual é responsável pela decisão final de engarrafamento, mas com a certeza que este trabalhou começou lá atrás, antes de seu próprio nascimento.

Próximo artigo, mais detalhes, mais sofisticação, mais Louis XIII!


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