Archive for Março, 2016

Cores do vinho: As aparências enganam

31 de Março de 2016

Qual a cor correta de um vinho branco? A princípio, todas. Depende de vários fatores, entre os quais, tipo de uva, vinificação, região, amadurecimento em madeira, idade, estilo do produtor, tipo de vinho, e vai por aí afora. Para ilustrar o assunto, a foto abaixo fala por si.

semillon e laranja

Vinho à esquerda, oito anos mais velho

Evidentemente, temos um exemplo extremo, mas vale a pena elucidar o caso. O vinho à esquerda trata-se de um Sémillon australiano do Hunter Valley, estilo particular e único deste varietal 100% Sémillon. Neste terroir, a chuva chega cedo no período de maturação das uvas. Portanto, as mesmas são colhidas precocemente com acidez bastante elevada, gerando vinhos de baixa alcoolicidade. Para enfatizar esta acidez, a vinificação é feita em aço inox, evitando a fermentação malolática. Porém, o mais interessante, é que este branco fica muito mais atrativo quando envelhece e aí, estou dizendo 10, 15, 20 anos. Neste estágio, seus aromas lembram frutas secas e um tostado sugerindo madeira. Como disse, é um estilo único de Sémillon.

semillon hunter valley

ILR Reserve: Top da vinícola

O vinho acima é um dos ícones da vinícola australiana Brokenwood, o ILR Reserva Sémillon. Por incrível que pareça, com seus treze anos, estava novo, com muito pouca evolução. Prevejo pelo menos, mais dez anos em adega. Ainda tinha muito cítrico no aroma (limão), notas herbáceas, e um exótico e típico aroma de lanolina, algo parecido com shampoo, coisa rara em vinhos. Pela acidez, acompanhou bem o prato de bacalhau. Importadora KMM (www.kmmvinhos.com.br).

vinho laranja

Jakot (Friulano)

A foto acima refere-se ao vinho à direita na foto inicial. Trata-se de um vinho laranja da região do Friuli, nordeste da Itália. Como a influência eslovena é bastante grande, temos o nome Jakot (esloveno) para a uva Friulano (italiana). Esta uva é a antiga Tocai Friulano, onde o nome Tocai não pode ser mais mencionado em razão do grande vinho Tokaji húngaro, mais antigo e detentor deste nome.

Outra explicação, é sobre os vinhos laranjas, tão em moda atualmente. Na verdade, de novidade não tem nada. Esses vinhos são na realidade a origem da vinificação em brancos. Antigamente na Georgia, berço da vitivinicultura mundial, as uvas brancas eram fermentadas junto com as cascas, gerando vinhos rústicos e de certa tanicidade. Modernamente, sabemos que os brancos são vinificados sem o contato das cascas, gerando vinhos mais finos e delicados. Como a moda é cíclica em todos os sentidos, resolveram reinventar esses vinhos antigos com o nome “laranja” devido à sua cor no processo final de vinificação. Evidentemente, são vinhos exóticos para nossa geração, tendo seus méritos e suas indicações enogastronômicas.

bacalhau semana santa

bacalhoada: o prato dos dois brancos

Dadas as explicações, vamos ao exótico Dario Princic Jakot 2011. São vinhas antigas de sessenta anos com um hectare de extensão, gerando apenas duas mil garrafas. A fermentação com as cascas leva 22 dias em toneis de castanheiras. Posteriormente, o vinho estagio em velhos toneis de madeira de dimensões variadas. O resultado é um vinho multifacetado com aromas de frutas secas, damasco, gengibre, notas de chá, cítricos, e vários outros aromas. Evidentemente, tem estrutura de sobra para acompanhar pratos de bacalhau, como foi o caso, e tantos outros pratos onde a maioria dos brancos não tem força suficiente. Importadora Piovino (www.piovino.com.br).

Em suma, um contraste de cores, aromas e sabores, de dois vinhos antagônicos com origem, filosofia e métodos de vinificação totalmente diferentes, mostrando a diversidade no mundo dos vinhos.

semana santa

entrada para o champagne

jacquesson 738

Um champagne a ser batido

O champagne acima foi nosso amuse-bouche que precedeu os dois vinhos brancos comentados. Este champagne é sensacional!. Equilibrado, marcante, cremoso, persistente, e nos atuais dias, com preço bem honesto diante de seus concorrentes. Realmente, um champagne a ser batido.

A cuvée 738 é baseada na safra 2010, complementada com 33% de vinhos de reserva. Um corte com predomínio da Chardonnay (61%), acrescido com Pinot Noir (18%) e Pinot Meunier (21%). Champagne marcado pela elegância da Chardonnay e com longo poder de longevidade. Esta cuvée passa cerca de quatro anos sur-lies e o vinho-base é fermentado em madeira inerte. Existem algumas cuvées D.T. (dégorgement tardive), onde o tempo sur-lies é de nove anos. Vale cada centavo seu preço. Importado pela Franco-Suissa (www.francosuissa.com.br).

Paul Pontallier: Elegância e Nobreza em Margaux

28 de Março de 2016

Neste sexcentésimo artigo (600 artigos) gostaria de falar algo importante e de modo algum triste. Entretanto, apesar da tristeza, é acima de tudo uma merecida homenagem a um dos grandes homens do vinho, Paul Pontallier, Diretor Técnico do Château Margaux. Respeitado pela aristocracia bordalesa e por todos que cercam o mundo do vinho, Pontallier soube como poucos destacar, respeitar e promover o grande terroir do único Premier Grand Cru Classe de Margaux. Já em seu primeiro ano, em 1983, marca o chateau com uma safra histórica e uma das minhas preferidas deste grande tinto. Daí para frente, um caminho de sucessivos sucessos, mostrando mais uma vez a importância do fator humano num terroir de grande expressão.

Desde sua presença no chateau, fica claro e notório os detalhes e extremo cuidado na elaboração do “Grand Vin” a cada safra. Parker, um dos maiores especialistas em Bordeaux, fornece notas altíssimas e consistentes na grande maioria das safras lideradas por Pontallier. Infelizmente, neste março de 2016, ele nos deixou, vítima de câncer. Contudo, sua presença será perpetuada nas inúmeras safras com sua decisiva participação que com certeza, envelhecerão maravilhosamente nas mais famosas adegas do planeta por longos anos.

margaux 83

O grande tinto do Médoc na safra 83

Anos atrás, tive o privilégio de comandar e organizar uma vertical histórica do chateau desde 1900. Aliás, o vinho desta safra foi o melhor provado por mim até hoje, sem comparação com qualquer outro vinho, seja de que região for. Um tinto centenário com uma cor escura de grande preenchimento. Os aromas ainda joviais, com muita fruta, eram impressionantes. O sabor, o equilíbrio, o corpo, e a presença de taninos de cadeia longa totalmente polimerizados, promoviam uma textura em boca impar, com total integração com o álcool. Um vinho impressionante, imortal e quase indescritível.

Nesta degustação, comentada neste mesmo blog em artigos anteriores, as safras foram divididas em quatro grupos.

Os imortais: 1900, 1904, 1918, 1924, 1928, 1945 e 1961. destaque para 1900 e 1928.

Os maduros: 1947, 1953, 1959 e 1979, sendo 59 minha safra de nascimento.

Os vigorosos: 1982, 1983, 1985 e 1990. A safra do coração, 1983.

As promessas: 1986, 1995, 1996 e 2000. a safra 2000 foi um verdadeira infanticídio.

Recentemente, tive o privilégio de decantar uma Imperial (seis litros) da safra 1990. E realmente, o vigor desta safra é notável. Um vinho que está se revelando aos poucos, mas com muita qualidade, beirando a perfeição.

margaux 90

Imperial 1990 no cavalete

margaux collection

Margaux Collection

A família Château Margaux inclui também os vinhos Pavillon Rouge, o segundo tinto do chateau, muito comum na hierarquia bordalesa, e o Pavillon Blanc, seguramente o melhor branco de todo o Médoc. Um Sauvignon Blanc fermentado e amadurecido em barricas novas de grande complexidade e poder de envelhecimento.

Os vinhos da comuna de Margaux costuma ser definidos como femininos. De fato, o solo de Margaux tem uma presença importante de calcário que normalmente gera vinhos elegantes. Mas quando se trata de um Château Margaux, pense numa mulher forte, de fibra, sem perder a feminilidade. Neste chateau, a proporção de Cabernet Sauvignon é alta. Daí, seu poder de longevidade.

Fazendo um paralelo como os vinhos da Borgonha, temos a comuna de Chambolle-Musigny com a marca de feminilidade. Contudo, quem já provou um Les Amoureuses e um Musigny, lado a lado, percebe esta feminilidade muito mais facilmente em Les Amoureuses. Já o Musigny, esconde esta feminilidade atrás de estrutura monumental, fazendo dele um dos maiores de toda a Borgonha. Numa expressão famosa em sua referência diz-se que um Musigny na boca é como uma calda de pavão. O vinho se abre em sabores multifacetados. Voltando ao Margaux, Pontallier compara-o a um bailarino, que por trás de toda a leveza e elegância de sua expressão, dispõe de uma força descomunal para o equilíbrio da bailarina. Um pouco mais de Pontallier no vídeo abaixo:

https://youtu.be/-FVhJZ-3m0w

Assim era Pontallier; culto, afável, técnico, esclarecedor, e fiel a seu terroir. Château Margaux com certeza encontrou sua alma gêmea, unindo de maneira brilhante fatores naturais e humanos que são a essência de um grande terroir. Um brinde a Pontallier, do outro lado da taça!

Um almoço das Arábias: Parte II

23 de Março de 2016

Após a bela e agradável recepção, fomos convidados à antessala para a apresentação dos pratos e evidentemente, nos servimos à vontade em todos os sentidos.

mini charutinho

charutinhos divinos

Normalmente, a folha de uva traz uma certa tanicidade à textura, mas estes charutinhos estavam dos deuses. Nenhum resquício de tanino e um sabor muito bem equilibrado. O mesmo se pode dizer do prato abaixo, quibe de peixe, sabor suave e muito bem integrado ao trigo, na proporção correta.

quibe de peixe

quibe de peixe

Tanto o homus, como o babaganuche, perfeitos na execução. Muito equilibrados quanto ao sabor, texturas corretas, e sobretudo o babaganunhe, sem aquele defumado muitas vezes dominante e desagradável.

homus

homus

babaganuche

babaganuche

yquem 99 e 90

Yquem em duas safras

Aqui, foto acima, percebemos didaticamente a qualidade e potência das safras. Embora o 99 seja mais novo, percebemos que o mesmo está mais perto de seu ponto ideal de evolução, enquanto o 90 tem muito chão pela frente. Em boca, a potência e a persistência aromática é fator diferencial entre as duas safras. 1999, muito prazeroso no momento, mas 1990 é um Yquem quase perfeito. Equilibrado, expansivo e sedutor.

marjolaine

marjolaine (La Paillote)

ataif

Ataif: sobremesa clássica

bolo de nozes

bolo de nozes

A dupla de Yquems acompanhou as três sobremesas acima. Todas muito bem executadas com açúcar na medida certa. Marjolaine, um clássico do clássico La Paillote, combinou muito com a textura untuosa do vinho. O Ataif com calda de flor de laranjeira e rosas enfatizou o lado delicado do Yquem 99. Já o bolo de nozes com tâmaras combinou com toda a riqueza do estupendo Yquem 1990. Em resumo, um show de doçura e equilíbrio.

fonseca 1977

Fonseca 77: safra lendária

Já fora da mesa, após o café e o início dos Puros, um Vintage Fonseca 1977. Com quase quarenta anos, mostrou todo seu potencial que só as grandes Casas de Porto podem proporcionar. Poucas pessoas tem a oportunidade de desfrutar de um grande Vintage maduro. Íntegro, exuberante, no esplendor de seu apogeu, selou com chave de ouro o almoço, acompanhando bem o primeiro terço  de belas baforadas cubanas. E que cubanos!. Cohiba Behike ring 54, foto abaixo, esbanjou classe e potência. Além da bitola 54, temos Behike 52 e Behike 56. Toda a linha com excepcional mistura de folhas de Vuelta Abajo. Em meio a conversas amenas e despretensiosas, a tarde foi caindo …

behike 54

Behike: a Ferrari dos Puros

armagnac lafite

Armagnac com a grife Lafite

É claro que para um charuto portentoso como este, era necessário um destilado à altura. Que tal uma reserva especial de Armagnac selecionada por Lafite Rothschild!. Foi o tiro de misericórdia.  Um duelo de potências que se perpetuou até o fim. Nada mais faltava, senão os agradecimentos ao espetacular encontro. Vida longa ao aniversariante!

almoço raul

tamanho não é documento!

Um resumo da ópera. Vinhos bem escolhidos, sequência correta e quantidade suficiente, sem exageros. A propósito, Lafite Rothschild tem reservas também de Cognac, além de Armagnac, nas versões Réserve, Vieille Réserve e Tres Vieille Réserve. São eaux-de-vie com idades entre 20 e 60 anos, dependendo da categoria.

Um almoço das Arábias: Parte I

20 de Março de 2016

Eu pensava que conhecia comida árabe, mas depois deste almoço, mudei meus conceitos. Um grande amigo, um grande profissional da saúde, nos presenteou em seu aniversário com um encontro memorável em torno da mesa. Sua mulher, Márcia, teve presença marcante desde a recepção, a decoração, o mise em place maravilhoso dos pratos numa antessala, e o mais importante, um conhecimento apurado sobre esta cozinha milenar. A apresentação, o equilíbrio de sabores em todos os pratos, bem como a escolha dos mesmos, foram de uma precisão impar.

dom perignon raul

devidamente mergulhado

A recepção

Esperando todos os confrades chegarem, as papilas foram agraciadas com Dom Pérignon 2004. Bela safra, bom momento de evolução em garrafa, mas com muita vida pela frente. Nessas cuvées especiais, o equilíbrio, a textura e a persistência aromática são superlativos. Para quem se lembrou dele durante o almoço, mostrou-se muito gastronômico e versátil na harmonização. Escoltando o Dom Pérignon, um divino patê de chancliche, foto abaixo.

chancliche

pâezinhos crocantes

A preparação de uma Imperial Château Palmer 1982

São seis litros de puro prazer. A safra de 82 dispensa comentários, mas o importante é apreciar um grande Bordeaux em sua plena maturidade. Poucos tem paciência para esses momentos e muitos infanticídios são cometidos. Uma pena!

A preparação desta joia deve ser criteriosa. Garrafa em pé com dias de antecedência e abertura prévia para a devida decantação. É preciso pelo menos quatro decanters de tamanho padrão, pois teremos 1,5 litro para cada um. A abertura deste tipo de garrafa não permite saca-rolhas padrão e nem a lâmina paralela, pois o diâmetro do gargalo é bem maior que o habitual. O melhor é usarmos um saca-rolhas em T com espiral longa e helicoidal com diâmetro grande. Com isso, a empunhadura fica mais precisa e a distribuição de forças na tração da rolha mais equalizada. Com muita paciência, a rolha vai gradativamente subindo até o ponto em que com a própria mão, podemos puxá-la com maior distribuição de forças ainda, sem forçar o miolo da mesma. Pronto, a Imperial está aberta.

abertura imperial

subida da rolha

O próximo passo é a decantação. É preciso um auxiliar nesta hora, pois o peso da garrafa é grande e os movimentos devem ser delicados. O auxiliar segura o decanter próximo ao gargalo. Com a garrafa apoiada na mesa, o sommelier vai lentamente vertendo o líquido.  Pequenas paradas entre a troca de decanters são permitidas de modo muito suave até chegar o último decanter. Nesta hora, toda a atenção é pouca. A decantação deve ser bem suave e de maneira progressiva sem paradas, para não revolver o líquido. No final, próximo ao ombro da garrafa observa-se a chegada e o acúmulo de sedimentos. É hora de parar, o vinho está decantado.

cor palmer 82

Palmer 82 Imperial: 34 anos

Extraoficialmente, sabemos que Château Palmer é o segundo vinho da comuna de Margaux. Evidentemente, logo abaixo do grande Margaux, o qual dá o nome à comuna. Um grande Bordeaux com mais de trinta anos muitas vezes nos engana na cor, demonstrando ser mais jovem do que sua verdadeira idade. É o caso deste Palmer. Toques levemente atijolados de borda. Os aromas terciários são sensacionais misturando couro, tabaco, ervas finas e principalmente nos tintos de Margaux, um incrível sous-bois e notas de adega úmida. Uma maravilha!. Em boca, é sedoso, harmonioso, com taninos completamente polimerizados, dando suporte ao conjunto. Nesta safra, Palmer apresenta um corpo médio, extremamente adequado aos pratos do almoço. Todas essas impressões são intensificadas e preservadas em garrafas maiores, sobretudo neste tamanho Imperial.

palmer 82 imperial

Um belo vinho de “garrafão”

cordeiro e batatas

Cordeiro com batatas assadas

arroz de amendoas

arroz de amêndoas

Nem precisa falar que a combinação dos tintos bordaleses de margem esquerda com cordeiro e arroz de amêndoas é sensacional. O casamento da textura da carne e os sabores de cordeiro assado com grandes Bordeaux é clássico. Complementando, o arroz de amêndoas destaca e amplifica os belos aromas de evolução deste Margaux.

Próximo bloco, continuamos com outros pratos do almoço; os Puros, o Porto, o Armagnac, e muito mais. Até breve!

Concurso Mundial de Sommeliers

17 de Março de 2016

Está se aproximando mais um concurso mundial de sommeliers. É uma espécie de copa do mundo para a sommellerie. Será em Mendoza no mês de abril com vários candidatos de peso, entre eles, a argentina Paz Levinson, última campeã das Américas. Além de sua competência, jogará em casa, e é atualmente, sommellière de um grande três estrelas em Paris, restaurante Epicure do Hotel Le Bristol.

Quanto ao nosso candidato, Diego Arrebola, estamos na expectativa de um bom desempenho. Recentemente, ele ganhou o concurso brasileiro com certa folga sobre os demais concorrentes. Um dos motivos, é a experiência em concursos passados, inclusive internacionais, além de uma boa base teórica. Aliás, falando no concurso brasileiro do qual participei da preparação, vamos a alguns detalhes do mesmo.

taça negra

taça negra

Como sempre, há uma série de três vinhos para serem degustados às cegas e devidamente comentados em detalhes. Logo após, mais uma série de líquidos totalmente às cegas para serem identificados. Podem ser águas, licores, destilados, chás, coquetéis, e tudo que a imaginação permitir. Nesta parte, causou estranheza ninguém ter acertado a eau-de-vie chamada Poire, um destilado de pera. De fato, hoje em dia meio fora de moda, mas mesmo assim, os apurados olfatos deveriam ter detectado o nítido aroma da fruta. A proposito, na degustação de líquidos, a taça utilizada é negra (foto acima), para não haver pistas no exame visual.

chá verde

chá verde premium

O chá acima foi preparado por uma especialista para a correta apreciação dos sommeliers na prova de líquidos. Quantidade de chá, de água, tempo de infusão e temperatura, checados rigorosamente para cada candidato.

jura savagnin

a exótica cepa Savagnin

Um dos vinhos degustados às cegas (foto acima) era um branco do Jura com a uva Savagnin. A semelhança com vinhos de Jerez foi recorrente entre os candidatos. O mais famoso vinho neste estilo da região chama-se Vin Jaune do Château Chalon. Sua garrafa bastante exótica contém 620 ml, quantidade diferente dos habituais 750 ml.

No trabalho à mesa, diante de oito convivas, classicamente houve a abertura de um espumante, e a decantação de um vinho envelhecido. No caso, hipoteticamente, um Latour 1966. Como as garrafas estavam deitadas sobre a mesa, a utilização do cesto de vinhos para a abertura era obrigatória. No pedido dos convivas, uma suposta confraria, a opção foi por um menu-degustação onde nas várias etapas, quatro pessoas escolhiam pratos diferentes das outras quatro. Portanto, para entrada, primeiro prato, segundo prato, e sobremesa, metade do grupo optava por pratos diferentes.

acessórios

acessórios: cesto, taças, decanter

Um dos erros graves, foi a proposta de vinhos em taça. Claramente, o comandante da mesa esclarecia ao sommelier que não havia restrições de preços e que as sugestões de vinhos seriam bem acolhidas. Neste caso, descarta-se a opção por taças. Tratando-se de um grupo de entusiastas do vinho, a indicação de garrafas é logicamente obrigatória, mesmo porque, normalmente as opções de vinho em taça são relativamente simples quanto á qualidade e complexidade da bebida.

Em uma mesa de oito homens, cabe a sugestão de pelo menos quatro garrafas. Se bem escolhidas, podem casar com sucesso com as opções de pratos sugeridos. É nesta escolha, que entra a criatividade e o bom senso do sommelier.

O grande desafio do Brasil é conseguir ineditamente um lugar na prova final de serviço. Para isso, obrigatoriamente o sommelier deve estar entre os primeiros na prova escrita, prova esta, de extrema dificuldade.

Outra dificuldade do Brasil é motivar grandes sommeliers no serviço de salão. Remuneração e flexibilidade nos horários são os maiores empecilhos. Quando esta equação é resolvida temos casos isolados como de Manoel Beato no Fasano. Uma parceria de sucesso que a longo prazo dá resultado. Outro exemplo é de Guilherme Correa, sommelier e consultor da importadora Decanter. Com conhecimento apurado e grande carisma, salões de grandes restaurantes perdem a oportunidade de tê-lo como um atrativo de peso. Enfim, sorte ao nosso representante Diego Arrebola em Mendoza!

Vinhos da Arca de Noé: Parte III

14 de Março de 2016

Chegando ao fim do diluvio, temos o último flight da sobremesa, totalizando doze (quatro brancos, sete tintos e os vinhos doces). Fora da mesa, a festa continuou com Portos, Cognacs e Puros.

climens e yquem

Os ícones de Sauternes-Barsac

As apelações Barsac e Sauternes são separadas pelo rio Ciron e formam terroirs distintos. Os vinhos de Barsac primam pela elegância com os châteaux Coutet, Doisy-Daëne e o astro maior Climens. Já do outro lado do rio, temos Suduiraut, Rieussec, por exemplo, e o incontestável Yquem reinando absoluto.

A comparação foi muito interessante, tratando-se de safras antigas e muito bem avaliadas para os respectivos châteaux. A prática confirmou a teoria. Climens, complexo, delicado e muito equilibrado em todos os seus componentes (açúcar, acidez e álcool). Contudo, quando chega o Yquem, não podemos voltar atrás. Ele é denso, profundo, enibriante, e bem marcado no seu lado potente. A escolha é realmente uma questão de estilo e gosto pessoal.

mil folhas e goiabada

mil-folhas com sorvete e goiabada

Sobremesa do último flight fechando um almoço magnifico. Na sequência, nos esperando no terraço, um Taylor´s Vintage 1945 devidamente decantado. Casa de Vintages lendários, nesta safra mostra um ano histórico.

 taylor´s 1945

O ano da Vitória

Trata-se de uma colheita clássica, abundante e de grande qualidade. Encontra-se num momento extremamente prazeroso, onde os aromas terciários se fazem mais presentes. Tabaco, defumado, especiarias, mas um núcleo frutado ainda brilhante. Platô amplo de estabilização, podendo ser guardado por décadas. Só mesmo uma seleção de Puros abaixo para fazer frente a um Porto de estirpe.

umidores

Seleção de Puros Ímpar

Nosso Noé além dos vinhos, é um aficionado por Puros. A foto acima ilustra bem seu requinte e paladar apurado. Na foto abaixo, um torpedo H. Upmann devidamente maturado, foi uma das estrelas num cenário enevoado. Bitolas e marcas para todos os gostos.

h. upmann rr

Torpedo H. Upmann Reserva Especial

Já com os Puros entre o segundo e terceiro terço, chega a hora dos destilados. A potência vai aumentando e chega o momento dos rums ou cognacs. Diante do cenário abaixo, fica difícil escolher outro destilado. Simplesmente, lado a lado, o topo de gama da Maison Hennessy (Richard, à direita), e o astro maior da Rémy-Martin (Louis XIII, à esquerda). A disputa já começa pela sofisticação das garrafas em cristal Baccarat. O grau de envelhecimento destas bebidas é amplo, repousando nas melhores caves da região. Os aromas e sabores são extremamente complexos, deixando um final de boca interminável. Notas de chá, frutas secas, caramelo, entre outras, estão harmoniosamente distribuídas e bem integradas.

richard e louis XIII

Tudo o que você espera de um Cognac

Os cognacs acima partem de blends minuciosamente balanceados com eaux-de-vie de grande envelhecimento em tonéis (as idades variam entre 40 e 200 anos). O maître de chai (cellar master) precisa ser suficientemente experiente e altamente qualificado para compor uma equação complexa de inúmeras partidas envelhecidas nas proporções exatas. Estas séries são lançadas em garrafas numeradas e de absoluta exclusividade.

polenta calabresa

polenta artesanal de um grande confrade

Para os mais insistentes, a noite chegou e mais vinhos rolaram. Entre eles, o excepcional Hermitage La Chapelle de Paul Jaboulet safra 1978. Como ninguém é de ferro, o confrade Moreira executou uma de suas especialidades, polenta artesanal com calabresa. Feita na hora, o sabor estava sensacional. Talvez, o melhor prato do dia. Grande Moreira!

la chapelle 78

uma das safras míticas desta cuvée

Para tomarmos um Hermitage como se deve, precisamos de tempo, muito tempo em adega. A foto acima, mostra um Hermitage maduro, pleno de sabores, e com taninos completamente polimerizados, momento raro para este tour de force. Além de ser um La Chapelle, a safra de 1978 é sensacional para este vinho. Realmente, um dia e uma noite para ficar na memória.

Vinhos da Arca de Noé: Parte II

9 de Março de 2016

Saindo da arca de nosso Noé, segue agora o desfile de tintos, e que tintos!. Evidentemente, começamos pelos borgonhas. Na mais, nada menos, que DRC (Domaine de La Romanée Conti) e Madame Leroy. Em seguida, um ilustre intruso do Rhône (Jean Louis Chave). Na parte bordalesa, dois pares de margem direita (Clinet, Le Pin e Petrus), e finalmente, dois pares da margem esquerda (Latour e Haut-Brion). Então, vamos a eles!

leroy clos de la rocheElegância: marca inconteste de madame Leroy

Clos de La Roche é um dos Grands Crus de Morey-St-Denis. Tinto de raça e certa austeridade, mas nas mãos de Madame Leroy tem uma graciosidade ímpar. O 2001 mais típico, taninos macios, aromas minerais e de rosas muito bem delineados. 2003 mais robusto, concentrado, típico da safra. Taninos mais presentes e muito persistente no final de boca. Bela interpretação das duas safras.

la tache e richebourg

Safra e vinhos esplendorosos

Quando estamos diante de um DRC da safra de 90, precisamos de um minuto de silêncio para cair a ficha. Alguém ja disse que La Tâche é um dos maiores vinhedos sobre a terra. E não há dúvida, o vinho é de uma complexidade e equilíbrio em boca quase indescritíveis. Contudo, ainda não está totalmente pronto. Há alguns mistérios a serem desvendados. Por isso, neste momento, o Richebourg torna-se mais prazeroso. Nariz com toda a complexidade da Pinot Noir e boca absolutamente macia, deliciosa. Momento importante da degustação.

chaves hermitage

O melhor Hermitage: com ou sem H

Dizem que o grande Hermitage vem de produtores que mesclam um maior número de vinhedos da apelação. Pois bem, Jean Louis Chave possui o maior número de “Climats” para fazer esta mescla. Embora o Cuvée Cathelin à esquerda da foto seja um cuvée de partidas mais concentradas escolhidas a dedo,  seu Hermitage clássico à direita me agrada mais. Talvez por estar mais pronto. Contudo, estamos diante de um par sensacional da irrepreensível safra de 90. Os aromas de frutas escuras, minerais e de especiarias invadem nosso palato.

le pin e clinet

Pomerol em alto nível

A safra de 89 moldou grandes tintos em Bordeaux. E no caso de Pomerol, não podia ser diferente. Talvez tenha sido o flight menos acirrado do painel de tintos. Embora Clinet seja um belo Château, sobretudo nesta safra, a comparação é um pouco cruel. Le Pin esbanja elegância sem precisar usar força. É bem verdade que está mais pronto que seu concorrente, mas é extremamente prazeroso. Clinet ainda pode surpreender com mais alguns anos. É esperar para ver.

petrus 64 e 67

Raridade: Petrus em sua maturidade

Petrus é diferente de tudo em Pomerol. Talvez por isso reine isolado e chega a ser atípico para a apelação. Eu o chamo de Latour da margem direita. Embora com seus 50 anos, este par ainda tem pernas para andar muito. Vinho denso, muito estruturado e de longa persistência. Briga muito acirrada, mas pessoalmente, acho o 64 uma cabeça à frente.

latour 45 e 64

Latour: quase imortal

Falando em Latour, olha ele aí!. Os dois seguem o perfil do flight anterior. Densos, profundos, quase indestrutíveis. Toda a essência de Pauillac está nestas garrafas. O cassis, o mineral, a caixa de charuto, entre outros aromas. Pessoalmente, achei o 64 mais estruturado. Entretanto, pode ser a diferença de idade, já que 45 é um ano lendário. Na dúvida, fique com os dois.

bochecha de boi

último prato: bochecha de boi e purê de grão de bico

haut-brion 59 e 61

Haut-Brion: elegância ao extremo

Este último par pode não ter a estrutura, a pujança, o poder, de um Petrus ou um Latour, mas certamente sobra elegância. 1959, minha safra, era puro deleite. Tudo no lugar, tudo resolvido, e o melhor, num platô amplo de estabilidade. Nenhum sinal de declínio. O 1961, também com muito prazer, mas trazia a marca da safra. Ainda uma certa austeridade, com taninos presentes. Flight sensacional.

Calma, ainda não acabou. Temos a sobremesa, os charutos, e claro, mais vinhos. Mais um tempinho, no próximo artigo. Até lá!

Vinhos da Arca de Noé: Parte I

5 de Março de 2016

Numa das passagens bíblicas, fala-se sobre o grande diluvio onde Noé é o protagonista da cena. Com muita paciência e critério, Noé colocou em sua grande arca diversos pares de espécies existentes na terra com o intuito da preservação da vida, após a catástrofe anunciada cumprir seu papel na terra.  Pois bem, este blog não tem nenhum cunho religioso, mas de certa forma, encontramos nosso Noé para a celebração da vida entre amigos. Explico melhor, nosso protagonista separou pares preciosos  de sua vasta e seletiva adega para nos brindar em doze flights os mais renomados châteaux e domaines. O desfile foi todo a francesa entre Bordeaux, Bourgogne e uma pitada de Rhône.

Esta sequência foi acompanhada de um longo e bem elaborado menu do chef Daniel Redondo, estrela máxima do Mani, um dos mais renomados restaurantes de São Paulo.

cristal 99

Cristal 99 dando o tom do evento

A recepção dos convivas apresentou um dos champagnes preferidos do anfitrião, o irrepreensível Cristal da Maison Louis Roederer. A safra 99 já madura, traz toda a maciez deste champagne e seu inconfundível aroma de praline.

almoço marcos arede

mesa e taças impecáveis

Nesta primeira parte do artigo, vamos falar dos brancos deste almoço com vinhos e safras espetaculares, acompanhando os primeiros pratos servidos.

haut-brion 05 e 09

Haut-Brion em duas grandes safras

Haut-Brion, talvez meu château preferido entre os bordaleses, elaborando brancos e tintos impecáveis. O par acima é prova disto. 2009, mais fresco, mais tenso, porém com grande equilíbrio. 2005, já denota certa evolução, mostrando maciez, profundidade, e final prolongado. Em suma, a perfeição do característico corte bordalês (Sémillon/Sauvignon Blanc). É bom frisar, que esta complexidade e maciez são consequências de um criterioso trabalho de bâtonnage, ou seja, o revolvimento periódico das leveduras mortas no fundo da barrica.

lagostim mani

lagostim para começar

ermitage chapoutier

Cuvée especial da Maison Chapoutier

bacalhau mani

o lado delicado do bacalhau

Aqui talvez, ocorreu a maior disparidade entre os pares. A safra 91 é superior ao ano 92. Além disso, o 92 estava prejudicado e com toques claros de oxidação. Provavelmente, problema de garrafa. De todo modo, o 91 é um vinho exótico com notas de mel, resinoso, erva doce ou anis. Macio, bem estruturado, acompanhou bem o bacalhau, um dos pratos servidos. Só para termos uma ideia da exclusividade deste exemplar, este varietal é 100% Marsanne com vinhas entre 60 e 70 anos de uma parcela particular chamada Murets. Vinificação cuidadosa com amadurecimento em tonéis usados, apenas para uma micro-oxigenação, sem aromas de madeira.

montrachet lafon

Lafon: Textura única em Montrachet

tutano mani

tutano e palmito: apresentação genial

Agora, começa a ficar sério. Estamos falando do Montrachet de Lafon, uma parcela ínfima de 0,32 hectares (três mil metros quadrados) situada na parte de Chassagne-Montrachet. O que chama atenção nos vinhos de Lafon é a maciez, a sublime textura que apresentam. O 2005 é mais prazeroso agora com seus dez anos de idade. Contudo, o 2009 é espetacular, prometendo muitos prazeres em seu longo amadurecimento.

corton coche-dury

Coche-Dury: exclusividade ao extremo

Para ombrear-se ao par de Montrachets só mesmo um par de Corton-Charlemagne Coche-Dury. Parcela muito pequena desta apelação com as mesmas dimensões do Montrachet acima. Além de vinhos complexos, Coche-Dury imprime uma tensão em seus vinhos muito bem balanceada, estimulando o paladar. Os dois espetaculares, mas o 2004 promete muito. Estrutura monumental com muitos anos pela frente.

Nesta altura, a conversa fluía leve e solta com as papilas devidamente preparadas para uma sequência inexorável. O pelotão de brancos terminara, mas havia um longo caminho ainda a percorrer. Fica para o próximo bloco. Ufa!


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