Archive for Novembro, 2014

Cognac: Richard ou Louis XIII?

26 de Novembro de 2014

Este artigo foi inspirado na divertida discussão de dois grandes amigos comparando duas obras de arte. Sabemos que Cognac, é uma denominação de origem exclusivamente francesa e pessoalmente, o melhor destilado do mundo. Neste mesmo blog, o tema foi dissecado em vários artigos. Esses pomposos nomes são ícones de produção baixíssima de maisons renomadas da região, ou seja, Hennessy para Richard e Rémy Martin para Louis XIII. Como sabemos, obras de arte não se comparam, apreciam-se.

Continente deslumbrante

De todo modo, vamos tentar repassar uma pequena ideia destas maravilhas. Começando pela Maison Hennessy do LVMH, o maior grupo de luxo no mundo. Dos vários Cognacs exclusivos, Richard Hennessy merece uma atenção especial. Em sua composição, o assemblage reúne eaux-de-vie extremamente raras e selecionadas onde o idade da mais jovem supera quarenta anos, ou seja, padrão altíssimo de envelhecimento. Cada garrafa é numerada e sua confecção soprada em cristal de Baccarat. No assemblage existem partidas dos anos 1830 a 1860. Para se ter uma ideia desta exclusividade, a categoria X.O. (Extra-Old) prevê  na legislação eaux-de-vie  com idades a partir de seis anos de envelhecimento. Os detalhes da concepção não são revelados, mas o terroir parte da porção mais nobre de Cognac conhecida como Grande Champagne, onde o solo é mais calcário, condição Sine Qua Non para aguardentes de grande categoria. A correção de água destilada para normalizar o nível de álcool compatível com  a legislação é praticamente nula.

Grande Champagne: O coração da apelação

Uma raridade na família Louis XIII

Na coleção de Cognacs da Maison Rémy Martin, Louis XIII ocupa uma categoria especial com várias preciosidades, dentre as quais, Luis XIII Classic, Louis XIII Black Pearl, Louis XIII Rare Cask 43,8, Louis XIII Rare Cask 42,6 e Louis XIII Black Pearl Anniversary Edition. A diferenciação é sutil, mas em ordem crescente. A versão Classic é confeccionada também em Jeroboam com capacidade quadruplicada pela Cristallerie de Sèvres. São eaux-de-vie exclusivas com longo envelhecimento em barris de Limousin ( a melhor floresta francesa de carvalho para destilados). Evidentemente, todas as partidas são da nobre sub-região de Grande Champagne.

Já o Cognac Louis XIII Black Pearl (Pérola Negra) dá o tom da garrafa confeccionada em cristal de Baccarat com eaux-de-vie centenárias da adega particular da família Grollet. O engarrafamento prevê um terço desta reserva. Em seguida, temos Louis XIII Rare Cask 43,8. Trata-se de uma partida exclusiva de um tonel especial, mostrando sensorialmente de uma eau-de-vie exclusiva com aromas e sabores particularmente diferenciados. Outro tonel raro apresentou-se na Maison, intitulado Louis XIII Rare Cask 42,6. Da mesma forma, é confeccionado em cristal de Baccarat com partidas limitadíssimas, Os números 43,8 e 42,6 referem-se ao teores alcoólicos naturais que normalmente partem de eaux-de-vie com 70º de álcool saídas do alambique.

Finalmente, a maior exclusividade, se é que se pode ter algo mais perfeito, Louis XIII Black Pearl Anniversary Edition. Em comemoração dos 140 anos da marca Louis XIII, são confeccionadas 775 garrafas numeradas correspondentes a um terço de uma rara e exclusiva partida da reserva de família do Domaine de Merpins. Todas as garrafas Black Pearl são confeccionadas no tom Pérola Negra.

Enfim, no desafio destes dois amigos, certamente não haverá vencedores. Apenas o deleite de apreciarem a fina flor do melhor destilado entre todos, o excepcional Cognac com C maiúsculo. Santé pour tous!

Wine Spectator: Douro em destaque

24 de Novembro de 2014

A tão esperada lista de final de ano da revista americana Wine Spectator já está na mídia com o famoso TOP 100. O grande destaque para as primeiras colocações é a região portuguesa do Douro. Não só abocanhou o primeiro lugar com um Porto da espetacular safra de 2011, como dois grandes vinhos de mesa ícones da região foram muito bem ranqueados. Um deles, o respeitado Vale do Meão, conhecido também como “Barca Nova”, foi durante muito tempo um tinto fundamental no assemblage do mítico Barca Velha. O outro de estilo mais moderno, trata-se do Chryseia, parceria vitoriosa da família Symingnton (tradicional em Vinho do Porto) com a família Prats (ex-Cos d´Estournel), de tintos bordaleses de alto nível. Aliás, numa degustação relativamente recente na ABS-SP, ainda neste semestre corrente, esses dois vinhos de mesa estavam presentes. A degustação foi um sucesso.

Um clássico moderno

De um modo geral, a lista premiou 24 vinhos americanos, 19 italianos, 14 franceses, 9 espanhóis, 6 portuguese, 6 chilenos, 6 australianos e o restante dividido entre Argentina, Alemanha, África do Sul, Grécia, Hungria, Áustria, e Nova Zelândia. Dentre os destaques podemos citar algumas figurinhas carimbadas tais como: Don Melchor (Chile), Château Guiraud (Sauternes), Flaccianello (Toscana), Two Hands Shiraz (Barossa Valley), Château de Beaucastel (Châteauneuf-du-Pape), e Clos de Papes (Châteauneuf-du-Pape).

O vinho do Ano 2014

O vinho do ano, Dow Vintage Port 2011 surpreendeu até mesmo o espetacular Fonseca de mesma safra. Castello di Ama com seus vinhedos sublimes é sempre tiro certo na concorrida região do Chianti Classico. A safra de 2010 na Toscana e no Vale do Rhône promete grandes vinhos. Vários Pinot Noir foram destaque na Califórnia, mostrando grande potencial. Pessoalmente, algumas regiões são notáveis para esta temperamental casta, incluindo Russian River.

Douro de mesa potente

Apesar de toda a polêmica que cerca o lado ético da revista, a mesma exerce forte influência no mercado, sobretudo nas vendas para bebedores de rótulos. A habitual tendência em enfatizar os norte-americanos é sempre comentada. Contudo, a despeito dos rótulos premiados a cada ano, os Estados Unidos continua de longe fornecendo os melhores vinhos do Novo Mundo, sobretudo em padrões de exigência mais elevados. Além disso, é um grande produtor mundial da bebida e expressivo país importador não só de vinhos, como de destilados.

O primeiro nº 1 em 1988 da safra de 1985

Desde 1988, quando deu-se a primeira edição dos TOP 100, Estados Unidos e França travam uma disputa acirrada pelo vinho do ano. Bem atrás, vêm Itália com três toscanos (Solaia, Ornellaia e Casa Nova de Neri) e Portugal com dois Portos (Fonseca e Dow´s, o atual número um).

Jantar Borgonhês entre Amigos

19 de Novembro de 2014

É sempre bom reunir amigos em torno de uma mesa. Se a mesa for na Roberta Sudbrack e os amigos de bom gosto, tudo fica perfeito. A ideia partiu do aniversariante, o amigo Roberto Rockmann. Entusiasta de borgonhas e mencionado algumas vezes neste blog. O tema central não poderia ser outro, evidentemente, recheado com algumas preciosidades fora da Borgonha, de produtores renomados tais como: Didier Dagueneau (Loire), Krug (Champagne) e Castello di Ama (Chianti Classico).

Pouilly-Fumé de Legenda

Os trabalhos começaram com o branco acima. É difícil descreve-lo. Às vezes, nem parece um Sauvignon Blanc como normalmente conhecemos. Não tem aroma de maracujá, não tem um herbáceo acentuado, mas tem uma mineralidade incrível. Embora com seus dez anos de idade, a acidez é marcante. Os aromas são delicados e presentes sem qualquer interferência  da madeira, apesar de ser fermentado e amadurecido em barricas. Essas características caíram muito bem com os pratos de entrada.

A sublimação da elegância

Na sequência, o primeiro tinto. E que tinto! Nada menos que Les Amoureuses do craque Frédéric Mugnier. Aqui a feminilidade da comuna de Chambolle-Musigny é exacerbada ao extremo. O vinho anterior preparou magnificamente a boca para percebermos toda a delicadeza deste exemplar. Os aromas de rosas, frutas delicadas, especiarias sutis estavam lá. Em boca, a delicadeza era marcante e persistente. A tênue linha que separa a sutileza da falta de personalidade, do insosso, foi de uma execução cirúrgica. Poucos produtores (artistas) conseguem esta proeza.

O Rolls-Royce dos champagnes

Não quer correr riscos? Então sirva Krug. Espetacular, suntuoso, sedutor, e tantos outros adjetivos. Ele tinha que seguir após o Les Amoureuses. É muito marcante, e muito envolvente. Só mesmo o Sílex com aquela sutileza peculiar para não interferir na apreciação do primeiro tinto. Voltando ao Krug, a Grande Cuvée é seu vinho mais emblemático, o retrato fiel da Maison, a regularidade e a fidelidade ao estilo Krug. Dentre os diversos aromas e sabores proporcionados por essas mágicas borbulhas, as notas sutis de gengibre são pessoalmente marcantes. A combinação com o prato abaixo foi sublime. Aliás, poucos pratos não combinam com um Krug.

Sabores autênticos e sofisticados

Neste ponto do jantar chega o divisor de águas. Agora é hora de separar os homens dos meninos. Na mesa, um dos mitos da Borgonha. Le Musigny do purista Mugnier novamente. Num paralelo bordalês, Musigny está para Chambolle assim como Margaux está para a comuna homônima. São terroirs que primam por delicadeza, mas que nestes respectivos exemplares apresentam uma firmeza e força arrebatadoras. Este tinto da Borgonha é um dos poucos capazes de desafiar o mito Romanée-Conti. Seus aromas  parecem  nos certificar que os sabores serão intensos e profundos. A mineralidade (toque terroso dos grandes borgonhas), sua estrutura tânica incomum, e sua expansão em boca, tentam de forma superficial descrever um pouco de sua complexidade. Foi sem dúvida, o ponto alto do jantar.

Delicadeza e força se fundem no inexplicável

Na sequência de tintos, seguiram-se Chambertin Grand Cru 2007 do produtor Bertagna e Domaine Courcel Grand Clos des Épenots Premier Cru, respectivamente. O primeiro, o único infanticídio da noite. Um vinho que promete, muita concentração e elegância. Seus aromas foram desabrochando lentamente nas taças, mostrando que sua evolução é inexorável. Por último, o estupendo Pommard de Courcel, referência nesta apelação. Os aromas de evolução denotando trufas, alcatrão e mineralidade, lembraram os grandes Barolos. Foi o grande parceiros dos queijos que finalizaram a refeição. A safra 1990 dispensa mais comentários.

Castello di Ama: Propriedade irretocável

Fechando com chave de ouro, o Vinsanto Castello di Ama. Vinícola irretocável na região do Chianti Classico (Gaiole in Chianti). Foi um dos Vinsantos mais delicados já provados com comedidos treze graus de álcool (normalmente, espera-se entre 15 e 16 graus alcoólicos). Os aromas nobremente oxidados tinham como linha mestra notas de figos em compota. Portou-se muito  bem não só com os queijos, como as sobremesas delicadas.

Realmente, um jantar memorável. Esses momentos é que fazem verdadeiramente a vida ter sentido. Que venham outros nesta mesma emoção!

A satisfação do aniversariante anfitrião

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Novidades no sul do Brasil

17 de Novembro de 2014

Confesso a vocês que não sou muito otimista com os vinhos brasileiros, sobretudo quanto à sua relação qualidade/preço. Isso é facilmente comprovado pelos poucos artigos descritos neste blog. Entretanto, quando há boas novidades, é um dever divulga-los. Além de se fazer justiça, é sempre um incentivo aos produtores em busca incessante pela qualidade e esmero em seus vinhos. Numa viagem recente, segue abaixo relato do que melhor tivemos a oportunidade de degustar.

Só para começar, dois Alvarinhos surpreendentes do sul do país. É! É isso mesmo, Alvarinho. Aquela casta do Minho português, das Rias Baixas espanhola. Não só cumpriram o desafio desta temperamental casta, como marcaram personalidade em seus vinhos. O primeiro, foto abaixo, é da vinícola Hermann, do mesmo Adolar, proprietário da destacada importadora Decanter (www.decanter.com.br). Branco elegante, delicado, com toques florais e de frutas brancas.

Bela expressão do varietal

O vinho abaixo, Alvarinho da vinícola Miolo, é elaborado na Campanha, região mais meridional do sul do país, fazendo divisa com terras uruguaias. Apresenta passagem por barrica, um procedimento sempre ousado para vinhos brancos, mas com grande êxito. A madeira só valorizou o vinho, acrescentando elegância e finesse.

Toque elegante de madeira

O vinho abaixo é outra grata surpresa. Um Alicante Bouschet da serra gaúcha elaborado pela competente vinícola Pizzato. Esta é a casta majoritária do grande Mouchão, um alentejano de primeira linha que pessoalmente, é o melhor e mais diferenciado da região. Um tinto de cor extremamente profunda a despeito de seus seis anos de idade (safra 2008). Os aromas concentrados de frutas escuras somam-se a toques de ervas e mentol muito bem casados. A estrutura tânica é notável  e sua persistência aromática bastante expansiva. Trata-se de um vinho de guarda para pelo menos mais oito anos. Vale a pena provar!

Casta exótica surpreendente

O vinho abaixo às cegas passaria facilmente por qualquer ícone chileno ou argentino. Sua cor é impenetrável  e seus aromas esbanjam frutas, especiarias e um refinado toque de madeira francesa. O corpo é impactante com um equilíbrio notável. Seus taninos ainda muito presentes, mas extremamente finos, se amoldarão certamente ao longo dos anos. Um vinho para colocar sem medo às cegas com tintos potentes do Novo Mundo. Este tinto é elaborado na Campanha (divisa com o Uruguai) com seis castas (Cabernet Sauvignon, Tempranillo, Petit Verdot, Merlot, Tannat e Touriga Nacional(,

Encara qualquer ícone do Mercosul

Por fim, uma vertical completa de um dos melhores tintos gaúchos dos últimos tempos, o famoso Lote 43 da vinícola Miolo. Algumas impressões ficaram bem nítidas na degustação. Primeiramente, a boa concentração dos vinhos, bem equilibrados e bem casados com a madeira. A primeira safra histórica é a de 1999. Um tinto de quinze anos que ainda apresenta-se inteiro e com aromas muito elegantes. Deve ter mais uns cinco anos neste platô de evolução antes de sua fase final.

Linhagem autêntica de um clássico

Falar sobre um vinho brasileiro que se destaca no mercado e é sempre lembrado como um dos melhores do sul do país, pode significar uma questão de marketing, de comodismo ou ainda, de interesses escusos. Não é o caso do vinho acima. O Lote 43 desde sua primeira safra heroica nos idos de 1999, primou por concentração e qualidade em todas as etapas de elaboração. Sou suspeito em falar desta safra pioneira, pois já degustei-o em várias oportunidades e em todas elas, sempre com muita classe, personalidade e consistência. Quem diria que um tinto nacional de quinze anos de guarda estaria em perfeito estado? Naturalmente, com as marcas da idade, aromas terciários, taninos polimerizados, mas ainda proporcionando grande prazer. Evidentemente, as demais safras a despeito de julgamentos técnicos, pesa o gosto pessoal e algumas peculiaridades respectivas de cada amostra. Por isso, os anos de 2002, 2004, 2008 e os recentes, 2011 e 2012, apresentam um belo padrão de tipicidade e consistência. Contudo, devo destacar a singular safra de 2005. Vários exemplares desta safra já me impressionaram favoravelmente, mas o Lote 43 2005 é um “tour de force” neste batalhão. Um tinto potente, de grande estrato, cores profundas, não denotando a idade. Seus aromas são intensos e marcantes, além de uma boca muito bem equilibrada e agradavelmente quente. Um vinho para inverno, belos assados e molhos densos. Seus taninos apesar da abundância, são finos e agradavelmente firmes. Persistência longa e expansiva. Muitos anos pela frente e para os mais apressados, uma decantação obrigatória de pelo menos uma hora. O 99 pode descansar em paz quando chegar a sua hora, pois tem um sucessor à altura.

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Pères Chartreux: La Tarragone du Siècle

13 de Novembro de 2014

Dos vários licores clássicos, o licor francês “Chartreuse” é conhecido e apreciado mundialmente. Fabricado por monges da ordem de Chartreux na região do Rhône-Alpes, margem esquerda do rio Rhône na altura da cidade de Vienne. Nascido em 1605 como “Elixir de Longa Vida”, foi comercializado em farmácias como um tônico. A partir de seu sucesso, desenvolveu-se uma fórmula que se tornaria uma espécie de digestivo, sendo que em 1764 é lançado o chamado Chartreuse Verte, denominado licor da saúde.

Devido à revolução francesa, a fabricação do licor é interrompida em 1793 e só é retomada em 1838 na versão chamada Jaune, num estilo adocicado. Segue-se também uma versão Blanche. Expulsa da França em 1903, a ordem de Chartreux instala uma destilaria na Espanha, região da Catalunha, mais especificamente em Tarragone. Mantendo a mesma fórmula, a única mudança é a menção em garrafa “Liqueur frabriquée à Tarragone par les Pères Chartreux”. Após desavenças com o governo francês, a marca é recuperada em 1929 com uma destilaria em Marselha sob o nome “Tarragone”. Continuando a saga, terminada a segunda guerra mundial, o governo francês reconhece este patrimônio e é recuperada as antigas instalações de origem numa cidade próxima chamada Voiron. A partir de 1989, o licor é produzido neste lugarejo francês com exclusividade.

 

Garrafa número 46

Hoje em dia, a receita é preparada por dois monges do monastério de Grande-Chartreuse utilizando plantas e ervas. Esta receita não é conhecida por mais de três monges. A complexidade da mesma envolve cento e trinta plantas que posteriormente são maceradas em aguardente vínica. São ainda acrescentados mel e xarope de açúcar. Posteriormente, os licores nas versões Verte e Jaune são amadurecidos em toneis de carvalho russo e húngaro. Mais recentemente, o carvalho procede da nobre floresta francesa de Allier. As respectivas cores verde e amarela provêm de colorantes naturais que são a clorofila e o açafrão, respectivamente.

Os licores verde e amarelo (Verte et Jaune) apresentam as seguintes diferenças: o verde tem teor alcoólico mais acentuado (55º) e é elaborado com cento e trinta plantas onde a clorofila se impõe pela cor. Já o amarelo tem a mesma composição em proporções diferentes com o açafrão determinando a cor final. Seu teor alcoólico é mais brando (40º), além da doçura e textura macia serem mais acentuadas. O chamado Chartreuse Blanche é elaborado com menos plantas sem nenhum colorante natural. Seu sabor apresenta uma doçura acentuada e seu teor alcoólico atualmente baixou de 43º para 37º.

Caixa lacrada em madeira

Apesar de haver várias edições especiais deste licor, não há dúvida que a mais exclusiva é a da foto acima, degustado com amigos dentre os quais, um entusiasta de Chartreuse, o amigo João Camargo que nos apresentou este tesouro. São apenas 512 garrafas produzidas com dez safras de exceção desde 1906 até 1980 (1906, 1910, 1920, 1930, 1948, 1951, 1961, 1967, 1973, 1980). Resume bem o melhor da bebida produzida no século passado. Muito bem equilibrado, doçura na medida certa e uma maciez notável. Sua persistência aromática é expansiva e quase interminável. Grande fecho de refeição.

Um Rosé Quadrado da Provence

9 de Novembro de 2014

Agora com a primavera e o verão chegando, a enogastronomia nos convida a pratos mais leves, mais frescos e por conseguinte, a vinhos compatíveis com esta proposta. E por que não os rosés? Principalmente so for da Provence, terra não só francesa, mas mundial dos rosés de estilo. Só a garrafa abaixo, é motivo suficiente para desfruta-la.

Rose da Provence

Só a garrafa já vale a experiência

Chateau de Berne é um domaine situado dentro da apelação Côtes de Provence na parte mais interiorana, fugindo do litoral. O clima de certa forma tende ao continental com invernos relativamente rigorosos e verões intensos. As vinhas da propriedade dividem-se em duas. O chamado Le Plateau, a 300 metros de altitude com solos pobres e de alta pedregosidade. Os rendimentos neste caso são baixos. O outro setor chamado Le Chateau, apresenta altitudes em torno de 250 metros com solos menos pedregosos e maior proporção de areia. A vinificação é feita por pressurage, método que consiste num menor contato das cascas na maceração do mosto, transmitindo uma cor mais tênue, tendendo ao tom salmão. Com isso, consegue-se aromas mais delicados com toque florais, frutas vermelhas e amarelas como ameixas e pêssegos, além do lado herbáceo e de certas especiarias. O blend é feito com 30% Cinsault, 40% Grenache, e 30% Cabernet. Nesta mescla, a Cinsault transmite mais cor, a Grenache fruta e poder alcoólico e a Cabernet, certa estrutura ao conjunto. O corpo é relativamente leve, aromas delicados e boca com bom frescor a despeito de uma textura macia e final bem acabado.Pratos leves  à base de peixes, legumes e ervas são ideais para uma boa harmonização. Tortas e pizzas dependendo dos ingredientes também são belas opções. Importado pela Grand Cru (www.grandcru.com.br).

Aproveitando o ensejo, vamos atualizar alguns números sobre os rosés da Provence. Os rosés perfazem 88,5% dos vinhos elaborados na Provence. Por sua vez, as apelações provençais de rosés respondem por 35% das apelações francesas de rosés em termos de produção. Em nível mundial, os rosés provençais somam 5,6% da produção mundial deste tipo de vinho. Os gráficos abaixo ilustram os dados acima.

Rosés do Mundo: cerca de 10% da produção mundial de vinhos

A França lidera o ranking

Surpreendentemente, os Estados Unidos apresentam uma produção expressiva de rosés a despeito da qualidade. Outra curiosidade é o Reino Unido, sendo um território de pouca tradição vinícola. Contudo, briga de igual para igual com Alemanha e Itália.

Loire e Rhône: produções expressivas

Tradicionalmente, Loire e Rhône continuam com produções expressivas neste tipo de vinho, além de todo o sul da França participar no conjunto com porcentagem destacada. A região bordalesa também tem sua contribuição.

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Quinta dos Murças: Uma joia do Douro

4 de Novembro de 2014

Não é de hoje que os tintos durienses vêm ganhando destaque no cenário internacional num terroir que tradicionalmente foi e ainda é, do Vinho do Porto, um dos mais importantes fortificados do mundo, se não for o mais expressivo entre todos. As tradicionais quintas que até pouco tempo preocupavam-se exclusivamente com seu Vinho do Porto, hoje elaboram naturalmente tintos de grande expressão e que também são aptos a longa guarda. É o caso do vinho abaixo, Quinta dos Murças Reserva 2009.

Propriedade tradicional com vinhas antigas

Situada no Cima Corgo, região nobre do Douro, Quinta dos Murças encontra-se em terrenos íngremes, de declive acentuado, em solos xistosos e de baixa produtividade. Um patrimônio valioso de vinhas antigas plantadas todas juntas com castas típicas da região como Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinta Amarela (Trincadeira no Alentejo), Tinta Barroca, Touriga Francesa ou Franca, e Sousão. Vale a pena ressaltar, a destacada amplitude térmica neste trecho do Douro (Cima Corgo), onde estão situadas as melhores e mais tradicionais Quintas de toda a região. Isso faz com que os níveis de maturação das uvas sejam ideais sem perder o fresco e portanto, proporcionar um notável equilíbrio. A vinificação é feita com pisa a pé, como nos mais tradicionais lagares para a elaboração dos melhores Portos. Em seguida, o amadurecimento do vinho dá-se em barricas de carvalho francês e americano durante aproximadamente doze meses.

Tinto de bom corpo, aromas agradáveis, mesclando bem a madeira com a fruta. Taninos sedosos, macios e com persistência aromática expansiva. Bom parceiro com a enogastronomia , desde  carnes grelhadas até carnes com molhos intensos. Apesar de sua prontidão, vislumbra bons anos de guarda. Importado atualmente pela Qualimpor (www.qualimpor.com.br). Além deste tinto, a importadora traz belos vinhos da Quinta do Crasto e o excepcional Porto Taylor´s.

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Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte VIII

3 de Novembro de 2014

Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte VIII.

Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte VIII

2 de Novembro de 2014

Neste último capítulo da série, nos despedimos de Bordeaux rumo à Paris. Uma passagem rápida e a volta degustando mais alguns Bordeaux. Antes porém, preparamos o terreno com algumas iguarias, conforme fotos abaixo.

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Caviar e Champagne: Eterno desafio

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King Crab: Sabor diferenciado.

Precedendo a bateria de Bordeaux, que tal Champagne Salon Blanc de Blancs 1999 com caviar e uma carne doce do rei dos caranguejos, King Crab? Confesso que a safra 99 não foi das melhores para a Maison Salon. Falta um toque mais incisivo como a bela safra de 1996, mas sempre divino. O King Crab foi melhor na harmonização.

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Margem Esquerda de raça

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O sempre misterioso Lafite

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Mouton 82: Um dos melhores da história

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Mouton 86: Estrutura de um Latour 61

Pelo quarteto acima, não precisa dizer muita coisa. Um desfile de Premier Grand Cru Classé de safras históricas. 1982 é um ano lendário, o ano que consagrou Robert Parker como um dos maiores conhecedores de Bordeaux na história. Já 1986 é a safra da paciência, sem pressa. Os vinhos podem abrir e fechar várias vezes, mas quem souber esperar, poderá reviver no futuro toda a magia da safra de 1961. Começando pelo Chateau Latour 1982, um tinto de estrutura fenomenal, taninos em abundância e persistência longa. Já o Chateau Lafite 1982, sempre misterioso, feminino, aromas sutis e marcantes. Um tinto admirável. Continuando a luta, Chateau Mouton-Rothschild 1982. Sou suspeito para falar deste vinho. Alia potência e elegância como poucos. Um vinho de legenda. Por fim, outro impressionante tinto, Chateau Mouton-Rothschild 1986. Um mamute, sua estrutura em boca impressiona. Aromas e sabores densos. Difícil prever seu apogeu, mas certamente será um dos grandes Moutons de toda a história. Um grande final de prova nesta bela viagem. Saúde a todos que me proporcionaram estes momentos inesquecíveis, e também aos seguidores deste blog!

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